2018-05-19



NEM TANTA COISA DEPENDE

preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama; a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê)outro poema

Migue-Manso
[in Ensinar o Caminho ao Diabo, edição do autor 2012]

respigado daqui

porque hoje é sábado


#Edouard Boubat

2018-05-16

dizem



Dizem
que depois dos 30 as mulheres envelhecem depressa
mal humoradas
padecem de males nunca antes pensados
não se resignam
e sofrem ao comparar-se com as rosas murchas
pétalas caídas, a beleza a finar-se,
ou então resignam-se
e viram os espelhos
preferem serões na meia-luz
fogem das vidraças
até dos charcos de água
quando há lua cheia.
Dizem que
depois dos 30 as mulheres
aprendem a fazer amor
e a sua ansiedade espanta
ávidas de orgasmos
ninfomaníacas
são substitutas em camas alheias
mulheres fáceis
ou então começam a secar
enojadas e receosas
dos seus desejos (ávidos, urgentes)
têm falta de homem diz-se.
Putas ou reprimidas
vem a dar no mesmo. É o que se diz.



Giovana Pollarolo (Peru, n. 1952), tradução de Soledade Santos
daqui

2018-05-13

inexoralvelmente

volto a Húmus: É a essa ninharia que é a vida, a que deito as mãos com desespero. A vida é nada - é esta cor, esta tinta, esta desgraça. É saudade e ternura. É tudo.

Sem o verbalizarmos -  tudo o que pudéssemos dizer  seriam banalidades circunstanciais, sabíamos que ela tinha descoberto o segredo. E tinha feito de todos nós beneficiários dele.
Há seres assim, que vão muito além das suas circunstâncias. Foi com esta confiança que nos consolamos, mutuamente, nos últimos dias, e com a memória dela continuaremos, sabendo que fomos testemunhas da vida de uma grande mulher.

(Eu vou sentir muita falta das tuas histórias...e do teu carinho, querida C.)