2018-06-17




Se ao compor os meus poemas me fosse dado abrir o meu peito, agarrar os meus pensamentos, e com as minhas mãos, sem outro ingrediente, colocá-los nas tuas: então, para te confessar a verdade toda a exigência que brota da minha alma estaria satisfeita. E também a ti, amigo meu, quer-me parecer que nada te restaria que pudesses desejar: o homem sequioso, enquanto tal, não se interessa pela fruteira mas sim pela fruta que nela lhe trazem. Só porque o pensamento, para se manifestar, precisa de vir unido a algo mais grosseiro, de corpóreo, como aquelas substâncias químicas fugidias que não se deixam apresentar por si só: só por esse motivo me sirvo do discurso quando me quero comunicar à tua pessoa e só por isso mesmo preciso também dele para me entenderes.
Língua, ritmo, harmonia sonora, etc., por mais encantadoras que estas coisas sejam na medida em que dêem envolvimento ao espírito, nada são em si e por si, quando observadas deste ponto de vista superior, nada senão um verdadeiro mal, embora natural e necessário; e, no que a tais coisas diz respeito, a arte não pode ser senão o intento de, tanto quanto possível, fazê-las desaparecer [...]


Kleist, "Carta de um poeta a outro"
(transcrição no livro "Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais" de Maria Filomena Molder)

2018-06-14

mas o pior de tudo é não sentir

O Grito

Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre tem o direito de não sofrer

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse

Renata Pallottini, in 'A Faca e a Pedra'

2018-06-12




Vivimos en el borde de las cosas
buscando vanamente no tocar el dolor.
Creemos que los bordes son una suerte
de corredor / esa distancia que nos pone a salvo.
Lo cierto es que en los bordes reside la tiranía de las cosas;
ellas ejercen allí y sólo desde allí
su pequeño y mortífero poder:
obligarnos a seguir su forma.
Corro a la par de la sombra de un pájaro que vuela:
no soy pájaro, no soy sombra/ apenas
me sujeto a la plumosa decisión de un ala,
al vaivén azaroso de la luz.
¡Si yo pudiera entrar en el temido corazón de la cosas!



Laura Ponce

2018-06-07



janela sobre uma mulher

Essa mulher é uma casa secreta.
Nos seus recantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
Nas noites de inverno, fumega.
Quem nela entra, dizem, nunca mais sai.
Eu atravesso o profundo fosso que a rodeia. Nessa casa serei habitado. Aí está à minha espera o vinho que me beberá. Muito suavemente bato à porta, e espero.


Eduardo Galeano in "MULHERES"
Tradução - José Colaço Barreiros
Ed. Antígona




Jeanne Lee