2017-06-21

coisas pequenas




luz/sombra


[Os Ocidentais] nas divisões das casas, evitam os recantos o mais que podem, pintam de branco o tecto e as paredes que os rodeiam. Até no desenho dos jardins, onde nós arranjamos bosquezinhos sombrios, eles estendem amplos relvados planos.
Qual poderá ser a origem de uma diferença de gostos tão radical? Pensando bem, é porque nós, Orientais, procuramos acomodar-nos aos limites que nos são impostos, que desde sempre nos satisfizemos com a nossa presente condição; consequentemente, não sentimos repulsa alguma pelo que é obscuro, resignamo-nos a ele como algo de inevitável: se a luz é fraca, pois que o seja! Mais, afundamo-nos com delícia nas trevas e descobrimos-lhe uma beleza própria.


Junichirõ Tanizaki in Elogio da Sombra
Relógio D'Água
Trad. Margarida Gil Moreira

#imagem - Hashimoto Gaho, 1835-1908

2017-06-18


O sol embaciado pelo fumo, a cinza que polvilha o chão do quintal e o silêncio pesado, apenas cortado, a espaços, pelos trinados das aves, fazem memória de todos os que perderam a vida ou lutam por ela. É tão frágil o que nos sustém. 

2017-06-17

(com)pasión

em busca da paz de espírito



De cada vez que, num mosteiro de Kyoto ou de Nara, me indicam o caminho das retretes construídas à maneira de outros tempos, meio escuras e no entanto de uma limpeza meticulosa, sinto intensamente a qualidade rara da arquitetura japonesa. Um pavilhão de chá é um local agradável, admito, mas as retretes em estilo japonês, isso sim, é algo que verdadeiramente foi concebido para a paz de espírito. Sempre à parte do edifício principal, estão colocadas ao abrigo de um bosquezinho de onde nos chega um aroma de folhagem verde e musgo; depois de, para lá chegar, se ter seguido por uma galeria coberta, de cócoras na penumbra, envoltos na luz suave dos shõji e mergulhados em pensamentos, experimenta-se, contemplando o espetáculo do jardim que se esconde sob a janela, uma emoção impossível de descrever. 


Junichirõ Tanizaki in Elogio da Sombra

porque hoje é sábado





# Edward Steichen. Dana’s hands and grasses. Long Island, New-York 1923

2017-06-16


POESIA VISUAL
todos os poemas são visuais
porque são para ser lidos
com os olhos que vêem
por fora as letras e os espaços
mas não há nada de novo
em tudo o que está escrito
é só o alfabeto repetido
por ordens diferentes
letras palavras formas
tão ocas como as nozes
recortadas em curvas e lóbulos
do cérebro vegetal: nozes
os olhos é que vêem nas letras
e nas suas combinações
fantásticas referências
vozes sobretudo da ausência
que é a imagem cheia
que a escrita inflama
até ao fogo dos sentidos
e que os escritos reclamam
para se chamarem o que são
ilusões fechadas para
os olhos abertos verem

E.M. de Melo e Castro