2018-08-17

sexta-feira


aqui estou eu entre demónios e paredes lisas
solicitando certificados bulas para viver melhor à sexta-feira
vale-me não ser ninguém: faziam-me a vida negra
assim basta o cinzento fato completo silencioso com lugar para os olhos
levantar cedo ver passar os carros 
estar certo que o que digo já foi dito e selado
agora não me resta poesia alguns dias mais oscilando a cabeça 
fazendo que sim
 
dá vontade de fugir vomitando tudo em volta mas o preço é preciso
se ao menos inventasse a cura do ar podia secar tranquilamente 
agora espero pelo meio do escuro para gritar errei! errei! desmanchando o cabelo            nada disto é a minha vida!
para que ninguém ouça nas coloridas salas do inferno terceira repartição
onde somos, mas todos, contínuos de comer por fora 
Melhor seria ter ficado de lado entregue à simplicidade dos caminhos
sabendo que em nenhum lugar está a minha parte 
 
Ao atravessar as ruas há outros como eu 
a jeito para enfiar uma navalha ao fim da tarde
Aqueles para quem o mundo ia ser outro de mãos lavadas 
e ficou tudo igual com mais ausentes à mistura 
Um dia destes dou baixa dos infernos por motivo de cegueira interna 
ou mando-me de um sítio alto
depois não sei se voltarei feito demónio de província 
ou ficarei eterno como um exemplo a não seguir 

 
António Franco Alexandre, in Poesia, ed. Assírio & Alvim 

2018-08-15

ocorreu-me

Parece que, algures numa determinada região da Indonésia, existe uma comunidade que  se organiza como sociedade matriarcal. As mulheres são as donas das terras, é o nome delas que é transmitido aos filhos, elas é que mandam. E aguentam-se. E as que não mandam também.

Razão tem o poeta [Tonino Guerra in "O Mel"]:


A cona é uma teia de aranha
um funil de seda
o coração de todas as flores;
a cona é uma porta
que leva sabe-se lá onde
uma muralha que se deve abater.

Há conas alegres
conas completamente loucas
conas espaçosas ou acanhadas,
conas de tostão e meio
bisbilhoteiras ou balbuciantes
e as que bocejam
sem dizer palavra
mesmo se as matas.

A cona é uma montanha
branca de doçura,
uma floresta onde lobos circulam,
a carroça que puxa os cavalos;
a cona é uma baleia vácua
plena de escuridão e pirilampos;
a algibeira do pássaro
sua touca de dormir,
um forno que tudo consome.

A cona no momento certo
é a face do Senhor,
a sua boca.

Pela cona nasceu
o mundo, com árvores, nuvens, o mar
e os homens, um de cada vez,
de todas as raças.
Da cona veio também a cona
Diabos levem a cona!


2018-08-09

não, os grandes derrotados somos nós


A humanidade entrará no terceiro milénio sob o império das palavras. Não é verdade que a imagem esteja a suplantá-las nem que possa extingui-las. Pelo contrário, está a potenciá-las: nunca houve no mundo tantas palavras com tanto alcance, autoridade e arbítrio como na imensa Babel da vida actual. Palavras inventadas, maltratadas ou sacralizadas pela imprensa, pelos livros descartáveis, pelos cartazes de publicidade; faladas e cantadas pela rádio, pela televisão, pelo cinema, pelo telefone, pelos altifalantes públicos: gritadas à brocha nas paredes da rua ou sussurradas ao ouvido nas penumbras do amor. Não: o grande derrotado é o silêncio. As coisas têm agora tantos nomes em tantas línguas que já não é fácil saber como se chamam em nenhuma. Os idiomas dispersam-se à rédea solta, misturam-se e confundem-se, desembestados rumo ao destino inelutável de uma língua global.

Gabriel García Marquez, in 'Eu não Venho Fazer um Discurso'