2018-11-14

Paco Ibáñez - Palabras para Julia

é só


daqui

ora, abóbora

Frequentemente, recebo pessoas que me apresentam os seus projectos de empreendedorismo, geralmente jovens, mas também pessoas com cinquenta e mais anos, escuto-os, elucido-os, falo dos riscos, da enorme resiliência que é preciso ter para vencer as dificuldades que, inevitavelmente, surgirão. 
A grande maioria tem uma dose de sonho superior a 95% e meios para a execução do projecto dentro dos cinco restantes. Quando tento fazer-lhes notar a desproporção, não aceitam e fazem saber, com mais ou menos ênfase, que o erro de análise é meu. Certo é que a maior parte não avança. Os restantes, é certo e sabido, que na execução do projecto, me vão dizer:"Se eu soubesse não me tinha metido nisto!"

2018-11-12


17
As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.


Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.


Tive casa e jardim.
E rosa no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
— Sua brancura, o cheiro.


Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.


  Hilda Hilst, in “Exercícios"

2018-11-10

Madredeus - Um Raio de Luz Ardente

as mulheres - que maçada

Também assisti, mais ou menos incrédula, ao espetáculo de uma deputada da Nação a tentar justificar o injustificável. Também já li por aí que a culpa é das quotas, que constrangem as direções partidárias a incluir mulheres nas suas listas de candidatos. Vão dar banho ao cão, o problema das escolhas não está dificultado pela questão de incluir mulheres (essas incapazes) nas listas, o que, para nossa desgraça, nos trama são os conluios, tribalismo e amiguismo sectário. O que não falta nos partidos é mulheres e homens que não se prestariam a estas figuras. Mas adivinho-lhes uma grave limitação - terão o hábito de pensar pela própria cabeça.

porque hoje é sábado


# imagem Leon Levinstein, EUA 1910-1988

2018-11-09

"A cultura pegada de cernelha é arte"

As questões da cultura andam aí — uma tourada — e conferem protagonismo. São tema atraente sem nunca ter sido um programa, uma política, desde 74. Já se disse que é tudo e por isso não é nada. 
[...]
A prazo tudo tem a ver com a democracia, ao contrário da concorrência selvagem e do primado da competição obcecada, da ideologia do sucesso. Essa exclui todos os mal-sucedidos, a maioria mais ampla e cria uma sociedade dependente do mais vulgar porno-star-sistema, confunde o real com o reality show, torna ministros “estrelas” porno. Esse esquema vive bem com qualquer fascismo, seja ele mais mediatizado e virtual nas suas manifestações de controlo e hiperconsumo?, seja ele mais realizado na rua e violentamente selvagem.

Fernando Mora Ramos in Público

2018-11-08





Uma vez uma mulher foi à floresta.
Os pássaros estavam em silêncio. Porquê? perguntou.
Trovoada, disseram-lhe,
a trovoada está a chegar.
Continuou a andar, e as árvores estavam escuras
e agitavam as folhas. Porquê? perguntou.
A grande tempestade, disseram-lhe,
a grande tempestade está a caminho.
Ela chegou ao rio, que corria
sem resposta, atravessou a ponte
e começou a subir
até ao cume, onde os penedos cinzentos
tinham perdido a cor à espera
da catástrofe que os racharia,
e onde ficava a cabana do eremita, do homem sábio
que vivia desde o princípio dos tempos.
Quando chegou à cabana
não havia lá ninguém.
Mas ouviu o machado dele.
E ouviu a floresta expectante.
Não se atreveu a seguir o som
do machado. Estaria
a derrubar a árvore do mundo?
Aquele seria o dia?



Denise Levertov (Inglaterra, 1923-EUA, 1997),
tradução de Soledade Santos (daqui)