2019-08-24

da indisponibilidade para reconhecer o diferente



[...]Os transgéneros, em maior ou menor grau, sentem um desfasamento entre o corpo e a mente pois têm um cérebro que não corresponde aos órgãos genitais. Por isso, a crítica de que se anda a promover a escolha do sexo/género como se tratasse de uma preferência estética ou um capricho não faz qualquer sentido e é particularmente cruel (e nada cristã) tendo em conta o enorme risco de suicídio que ensombra os transgéneros. No fundo, os críticos estão apenas assustados com a possibilidade das suas filhas poderem vir a partilhar uma casa de banho com um rapaz que quer ser rapariga e tudo o resto não lhes interessa, como nunca lhes interessou porque os transgéneros são raros e tradicionalmente marginalizados que podemos fingir que na verdade não existem e pensar que um dia foram crianças e adolescentes é um exercício de empatia demasiado exigente.


Eremita, num comentário/resposta, aqui









porque hoje é sábado


#imagem de Simone D'Angelo

2019-08-21



As oliveiras surgem subitamente numa colina, e aumentam o texto. Confirmam a paisagem constituída por colinas livres. O meu acorde com a substância é vê-las, o das colinas é serem uma bandeja de oliveiras colocadas sobre um pano/chão castanho, desenhado a verde - e o do infinito é perder-se neste lugar.
Planície agora a quatro mãos, uma casa insonora abandonada, um livro projectado na imagem da casa. O que ouço é devastação, abandono. Penso no que escrevo por estar olhando os atributos - no comboio que nos transporta -, como puros frutos de um que nos pode deixar aflitos. Algumas oliveiras num planalto, o céu e a vegetação rela formam linguagem no meu olhar. E escrevo como Há. Vozes, a meu lado, formam igualmente palavras. Eu divago por entre o sentido, isto é, vejo, ao fundo do corredor, o homem nu que me toca.

Maria Gabriela Llansol in "O Jogo Da Liberdade da Alma"
#imagem - vistas do Douro, 2015

2019-08-15

Esta noite sonhei que, chegada a uma janela mais alta da casa, via uns quantos figos maduros, no cocuruto da figueira. Pretos azulados e com estrias, a denunciar uma polpa de mel.
Logo comecei a pensar (sonhar) -, de manhã, levanto-me e não me deixarei enganar, pego numa escada e vou directa ao topo da figueira, é lá que eles estão, os primeiros figos que vou colher.

No momento, escusado será dizer que nem figos, nem figueira, nem sequer janela ou casa, foi apenas mais um sonho.