Fio da vida

Será a Cúria reformável?

O cancro da Igreja é mesmo a Cúria Romana. Sem a sua reforma urgente e radical (mas ela será reformável?), que tem de começar pela transparência económico-financeira, a Igreja Católica assistirá a uma descredibilização crescente. Quando, no meio de uma crise global e sem fim à vista, seria mais necessária do que nunca uma palavra moral limpa por parte da Igreja, ela afunda-se em escândalos. "Os javalis entraram na vinha do Senhor", queixa-se, com razão, o Papa Bento XVI. Chegou--se a este paradoxo: a última monarquia absoluta do Ocidente parece sentir-se impotente para pôr ordem na sua casa.

Não. Não é. O enunciado evangélico de que "não se deite vinho novo em odres velhos" (Mc 2,22) tem aqui a sua máxima aplicação.


Os escândalos não são novidade na Igreja, percorrendo, mesmo ao de leve, a sua história de dois milénios, são muitos e inequívocos os acontecimentos que entraram em conflito, mesmo com a sociedade do tempo em que aconteceram. Tanto assim foi que, em cada época, surgiram vozes e testemunhos de vida que rompiam com a ordem vigente.


A Cúria sofre dos mesmos mesmo males de todos os poderes que se assumem como absolutos. Mantém a estrutura descendente, mas as bases já não a sustentam nem apoiam.



Paulo e a justiça de Deus

Que havemos de dizer de Abraão, nosso antepassado segundo a carne? Que obteve ele afinal? É que, se Abraão foi justificado por causa das obras, tem um motivo para se poder gloriar, mas não diante de Deus. Que diz, de facto, a Escritura? Que Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça. Ora bem, àquele que realiza obras, o salário não lhe é atribuído como oferta, mas como dívida. Aquele, porém, que não realiza qualquer obra, mas acredita naquele que justifica o ímpio, a esse a sua fé é-lhe atribuída como justiça. 


Rom 4, 1-5

a vida em imagens #4







este imobilismo que nos cerca até desarmarmos irremediavelmente



TALVEZ ME CHAME JONAS


Não sou ninguém:
um homem com um grito de estopa na garganta
e uma gota de asfalto na retina.
Não sou ninguém. Deixai-me dormir!
Mas às vezes ouço um vento de tormenta que me grita:
«Levanta-te, vai a Ninive, cidade grande, e brada contra ela.»
Não faço caso, fujo pelo mar e deito-me a dormir no canto mais escuro da nave,


até que o Vento teimoso que me segue
volte a gritar-me outra vez:
«Dorminhoco, que fazes aí? Levanta-te.»
-Não sou ninguém:
um cego que não sabe cantar. Deixai-me dormir!
E alguém, esse Vento que busca um funil de trasfega, diz junto mim, dando-me com o pé:
«Aqui está; farei uma trombeta com este cone de metal velho e vazio;
por ela meterei minha palavra e encherei de vinho novo a velha cuba do mundo. Levanta-te!»


- Não sou ninguém. Deixai-me dormir!
Mas um dia lançaram-me ao abismo,
as águas amargas cercaram-me até à alma,
a ulva enredou-se na minha cabeça,
cheguei até às raízes dos montes,
a terra lançou sobre mim suas fechaduras para sempre...
(Para sempre?)
Quero dizer que estive no inferno...
De lá trago a minha palavra.
e não canto a destruição:
apoio a minha lira na crista mais alta deste símbolo...
Sou Jonas.

León Felipe
(1884-1968)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.
respiguei daqui:

porque todos pecamos

Deus,  quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.

1ªTimóteo 2,4

o genuíno gozo



"Aprendi hoje algo de essencial. Quando achava bonita uma flor, o que eu mais desejava era apertá-la contra o peito ou comê-la. Era mais difícil com uma bonita paisagem, mas o sentimento era o mesmo. Eu era sensual demais, demasiado "possessiva". Tudo o que me parecia bonito queria-o de forma exageradamente física, queria possuí-lo. Por isso tinha sempre uma dolorosa sensação de desejo que nunca podia ser satisfeita, uma nostálgica aspiração a qualquer coisa que me parecia inacessível, a que eu chamava "instinto criador" (...) De repente, tudo mudou (...) Verifiquei com alegria que o mundo que Deus criou continua belo (...) Como sempre, esta paisagem silenciosa, tão misteriosa à hora do crepúsculo, deu-me sentimentos tão fortes como dantes, mas vi-a, digamos assim, "objectivamente". Já não a queria "possuir", já não me sentia incitada ao onanismo".



Etty Hillesum in Diário

Johann Johannsson - Theme

a vida em imagens #3

S. Martinho do Porto, Maio 2012

A voz dos regatos que interpretas, pura explicadora, a voz das árvores onde pomos sentido no seu murmúrio - ah, meu amor ignoto, quanto tudo isso e nós e fantasias tudo de cinza que se escoa pelas grades da nossa cela.



O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa


São cada vez mais negras as fumaças que nos chegam do Vaticano. Aguardo (sentada) o início da autocrítica que a Cúria, um dia, iniciará.

porque hoje é domingo

Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu,
um rumor semelhante a forte rajada de vento,
que encheu toda a casa onde se encontravam.
(Actos 2)

A fé é uma experiência interior. Também sujeita à interpretação. Não se tente, porém, segurar o vento.

o melhor que há em nós

O Deus criador criou o mundo do nada por amor. E tudo o que leva em si uma fibra deste amor descobre algum dia o vazio das coisas e nelas, porque toda a coisa e todo o ser que conhecemos aspira a mais do que realmente é. E o que ama fica preso nesta aspiração, nesta realidade não conseguida, nesta enteléquia que ainda não foi, e ao amá-la, ao arrastá-la desde o não-ser a um género de realidade que parece total e que depois se oculta e mesmo se desvanece.
E assim o amor faz transitar, ir e vir entre zonas antagónicas da realidade, penetra nela e descobre o seu não-ser, os seus infernos. Descobre o ser e o não-ser, porque aspira a ir para lá do ser; de todo o projecto. E desfaz toda a consistência.
Destrói, por isso dá nascimento à consciência, sendo como é a vida plena da alma. Eleva ao obscuro ímpeto da vida; essa avidez que é a vida no seu fundo elementar, leva-a na alma. Mas, ao mostrar a inanidade de tudo aquilo em que se fixa, revela à alma também os seus limites e abre-a à consciência, fá-la dar nascimento à consciência. A consciência aumenta depois de um desengano de amor, como a própria alma se dilatara com o seu engano.
Mas não existe engano algum no amor, que, por o haver, obedece à necessidade da sua essência. Porque, ao descobrir a realidade no duplo sentido do objecto amado e do que ama, a consciência de quem ama não sabe situar essa realidade que a transcende. Se não houvesse engano, não haveria transcendência, porque permaneceríamos sempre encerrados dentro dos mesmos limites.
E o engano é, por outro lado, ilusório, pois aquilo que se amou, o que na verdade se amava, quando se amava, é verdade. É a verdade, embora não esteja completamente realizada e segura; a verdade que espera no futuro.



María Zambrano;
"Metáfora do Coração e Outros Escritos"
Tradução de José Bento
Assírio & Alvim