2005-08-30

Bem-vindo...

Manuel: 3,250Kg, 14H30

Sem data

Esta voz com que gritei às vezes
Não me consola de só ter gritado às vezes.

Está dentro de mim como remorso, ouço-a
Chiar sempre que lembro a paz da segurança estulta
Sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.

Quando acabava uma soma de silêncios,
Gritava o resultado, não gritava um grito.

Esta voz, enquanto um mar de torre à beira-mar
Circula entre folhas paradas,
Conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

Jorge de Sena

2005-08-29

mais grave era...

...se tivéssemos perdido A Praia!

No silêncio, aprendem-se muitas coisas...

"Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar, mas estejam submissas como também a lei determina.
Se, porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, o seu próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja." (1ª Cor 14, 34-35)

2005-08-27

O sacerdócio ministerial no feminino

Como resposta que prometi ao Bernardo, mas não só, apresento uma breve reflexão, sobre este assunto da actualidade, da Igreja Católica.
Devo dizer, que também já vi esta questão de outra forma. Sabia que alguns grupos, ou pessoas individuais, quer leigos, quer fazendo parte da hierarquia, vinham questionando o porquê da exclusão das mulheres do sacramento da Ordem. Eu pessoalmente, tendo a minha questão vocacional "resolvida", conhecendo o pensamento e a prática corrente da Igreja, sobre o assunto, aceitava-o sem reservas.
Acontece, que a vida na fé, não é estática. O vestidinho que levei no dia do meu baptismo, com cinco meses de vida, hoje já não me serve. Faria uma triste figura, se em cada ocasião, que quisesse assumir a minha condição de baptizada, ilustrasse o facto, vestindo o mesmo. Isto, para dizer, que a Igreja, sacramento de Cristo, tem que, a cada momento, ler o Evangelho à luz da modernidade. A Igreja, tem o dever, de continuamente, se reinventar e saber inserir-se na comunidade dos homens. É para mim, um tema muito caro, este, de uma Igreja que não se coloca à margem dos problemas, dos anseios, dos projectos, dos homens de cada tempo. É uma grave contradição, esta, de uma Igreja que se assume sinal/sacramento de Cristo e descrimina pessoas em função do sexo.

A questão do sacramento da Ordem, conferido às mulheres, não pode ser visto, apenas, como um direito das mesmas. É um direito que toda a comundidade reclama. Direito, que não pode ser visto como uma lógica de poder, mas de serviço.
Diz o CATIC no nº1578 - "Ninguém tem direito a receber o sacramento da ordem. É-se convocado pelo Espírito e responsabilizado pela Igreja."
Não nego, e já o senti na pele, a descriminação na comunidade, por ser mulher. Normalmente, quando se estruturam, os conselhos pastorais, facilmente se convidam homens independentemente das suas capacidades, e acrescentam-se umas mulheres, para as tarefas que ainda achamos, estão mais vocacionadas; limpeza, decoração, serviço aos doentes, ensino da catequese...
É a experiência na minha comunidade...Penso que não será muito diferente, de todas as outras.

Também quero referir, que em relação ao sacramento da ordem, não é só esta questão do feminino que se coloca. Além da questão do celibato, a forma como está estruturada a Igreja, as comunidades, não servem mais aos anseios e necessidades de hoje. As vocações ao presbitério, hoje, precisam de novas formas de vivência, não podem ser, para servir estruturas de poder, mas de missão e serviço. Quantos padres, não encontramos, completamente reduzidos a meros funcionários eclesiásticos. Dispenseiros de sacramentos, que já ninguém sabe o que significam. Recebidos numa espiral de rotina e tradição.

Um dos argumentos que é mais usado, o próprio Papa João Paulo II na sua carta apostólica "Ordinatio Sacerdotalis" o refere, para a exclusão das mulheres aos ministérios ordenados, é o de que, Jesus, escolheu só homens. Diz o Papa:"A ordenação sacerdotal, pela qual se transmite a missão, que Cristo confiou aos seus Apóstolos, de ensinar, santificar e governar os fiéis, foi na Igreja Católica, desde o início e sempre, exclusivamente reservada aos homens".
Em primeiro lugar, é importante verificar, que nas primeiras comunidades cristãs há uma forte consciência de que Jesus Cristo é o único sacerdote, (Heb 3,1), logo, pelo baptismo todos participamos neste comum sacerdócio.

Depois, sobre o facto de Jesus ter escolhido só homens, não é uma questão pacífica. Sabemos como todos os livros sagrados estão carregados de simbolismo, foram escritos para comunidades concretas, para dar respostas a situações concretas, de forma que elas, claramente, percebiam o conteúdo da mensagem. Hoje, temos que os ler e interpretar no seu conjunto. E, a grande mensagem para nós hoje, é que Deus tem um projecto de salvação para cada homem.

Sobre os "doze" segundo Mc3, 13-19, Mt10, 1-4, Lc6, 12-16, Jo 1, 38-51, diz o Pe Joaquim Garrido "Evangelhos Sinópticos" - "Os "doze", eleitos por Jesus não são, substancialmente, diferentes dos outros discípulos. Além de seguirem Jesus (como acontece com os discípulos), os "doze" recebem um mandato especial de pregar e "expulsar os demónios" (Mc 3,14). Por isso são enviados dois a dois, a pregar o Reino e a realizar os sinais que anunciam o Reino (Mc 6,7-13)
A instituição dos "doze" vem de Jesus ou da catequese comunitária? É difícil dizê-lo. É possível que Jesus tenha escolhido um grupo de doze (equivalente às doze tribos do Povo de Deus) como sinal de ser o Messias, o fundador do Israel escatológico - o novo Povo de Deus. Seja como fôr, Marcos distingue os dois grupos porque o recebeu assim da tradição.
De qualquer forma, esta distinção não significa separação substancial entre os dois grupos: ambos são discípulos. Também não há nada ,no texto de Marcos, que sugira que os "doze" têm uma função hierárquica na comunidade dos discípulos (além de receberem um mandato especial para anúncio do Reino). O importante é que todos os discípulos (incluindo os "doze") são convidados a compreender e a assumir o caminho de morte e de ressurreição de Jesus e a ser testemunhas do Reino."

Jesus, portanto, não ordenou ministerialmente a ninguém; chamou, deu uma missão e enviou. Os ministérios ordenados aparecem posteriormente como estrutura e organização da Igreja. Não cabe, portanto, o argumento mais uma vez usado pelo Papa João Paulo II na "Ordinatio Sacerdotalis": "...declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres..."

Tudo o que exponho acima não pretende fazer "tábua rasa" da Tradição. Devemos sempre escutá-la no que ela tem de fundamento. Mas, o Espírito do Senhor continua a convocar-nos e a desafiar-nos, a dar resposta, hoje, ao mandato do Senhor: "Ide por todo o mundo, anunciai a Boa Nova"

2005-08-26

Cristo, Luz do mundo!

Cada homem é objecto do olhar amoroso de Deus. Cristo, luz do mundo, a ninguém exclui do seu amor. Cabe-nos manter as lâmpadas acesas, (Mt 25,1-13).
Para manter as lâmpadas acesas, não nos basta a militância numa confissão religiosa, a observância de todos os ditames da doutrina, a quantidade de actos religiosos que praticamos. Mantermo-nos vigilantes e de lâmpadas acesas, pressupõe; viver em cada dia alimentados pela Graça, e irradiarmos em cada gesto, em cada olhar, em cada projecto, a presença de Deus em nós.
Manter a "lâmpada acesa", exige esforço. Exige romper com todos os laços que nos prendem: egoísmo, orgulho, vaidade, falsas aparências, preguiça, falsos esquemas de sucesso.
A "lâmpada acesa" não serve a esquemas egoístas de salvação pessoal. Ninguém se salva a si próprio. A nossa salvação acontece, sempre que, amorosamente, contagiamos os outros com a nossa alegria, de acreditar.

2005-08-25

"Viver é ler e interpretar"

"O homem é o ser que é capaz de ler a mensagem do mundo.
Jamais é um analfabeto. É sempre aquele que, na multiplicidade de linguagens, pode ler e interpretar. Viver é ler e interpretar.
No efémero pode ler o Permanente; no temporal, o Eterno; no mundo, Deus. Então o efémero se trans-figura em sinal da presença do Permanente; o temporal em símbolo da realidade do Eterno; o mundo em grande sacramento de Deus. Quando as coisas começam a falar e o homem a ouvir as suas vozes, então emerge o edifício sacramental. Em seu frontispício está escrito: Todo o real não é senão um sinal. Sinal de quê? de uma outra realidade, Realidade fundante de todas as coisas, de Deus."

Leonardo Boff - Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos

Fronteira

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e o canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.

Tasso da Silveira, 1960

2005-08-24

pobre padeira de Aljubarrota...

Ontem, alguém me dizia: "Se se fizesse um referendo, sobre a hipótese de nos anexarmos a Espanha, a resposta seria largamente afirmativa!"
De tão aturdida, fiquei sem resposta (até porque já ouvi o mesmo, várias vezes). Digo-a aqui. Eu sei que a crise é brava. Sinto-a na pele (e no osso).
Sei que a lógica dos sucessivos governos, é uma lógica de poder, e não uma lógica de servir o país; de fomentar o desenvolvimento e justiça social.
Sei da tristeza de se avizinhar uma eleição presidencial e da pobreza das alternativas; o tabu de Boliqueime e a candidatura contra o mesmo.
Sei das próximas eleições autárquicas, da pobreza das candidaturas e de algumas aberrações, conhecidas de todos: Amarante, Gondomar, Oeiras, Leiria. São as mais mediáticas, mas há mais por aí.
Mas também sei, "a massa" de que somos feitos. Sempre à espera do D. Sebastião. Sempre à espera que nos venham resolver, o que, como cidadãos, é tarefa nossa.
Pelos vistos, agora, já não esperamos que D. Sebastião emerja do nevoeiro. Tão só nos basta, que nuestros hermanos venham por aí a dentro, e nos governem.
Porra de país, a quem parece que o sol, além de bronzear a pele, torra os miolos.

impressões...

A fé que professo, a pertença à Igreja Católica, não me faz sentir superior, nem inferior de ninguém. Coloca-me no meu lugar. Ajuda-me a olhar para mim própria, e para os outros; amorosamente.

2005-08-23

Senhor, tende misericórdia de mim...

Tenho vivido toda a minha vida, com a pretensão, de que sou um dos trabalhadores da primeira hora. (Mt 20, 1-16) O meu baptismo, a pertença a uma comunidade, a obediência à hierarquia, a procura de ter uma fé esclarecida, o esforço por caminhar no bem, têm-me servido de suporte a essa pretensão.
Porque Deus, através da sua graça, nos vai construindo e rafazendo continuamente; tomo consciência que só pela sua infinita misericórdia, receberei o prémio, dos trabalhadores da hora última, que de modo nenhum mereço.

Sem julgá-lo

Rezo, cada vez mais,
pela conversão
do irmão
do filho pródigo.

Tenho no ouvido
o aviso impressionante:
"O primeiro
despertou
de sua vida de pecado.
O segundo
quando despertará
de sua virtude?"...

D. Helder da Câmara - Mil razões para viver

2005-08-19

E nós por cá?...

Esperança vencendo a decepção

Está difícil pensar o Brasil. Os últimos acontecimentos, desmoralizando o Congresso Nacional - que deveria ser para o povo a grande referência da "ordem e do progresso" e estralhaçando o PT- que parecia ser a "esperança vencendo o medo", tornam difícil pensar o Brasil. Que Brasil temos? Que Brasil queremos? Que Brasil podemos ter já? E que Brasil forjamos para um futuro próximo, um verdadeiro "Brasil para todos"?...

D. Pedro Casaldáliga - jornal Alvorada Julho/Agosto 2005

impressões...

Não sei o que dói mais; se a lonjura do deserto, se a lembrança do paraíso.

Ai que prazer...

...vir aqui partilhar os meus sentimentos ao ler o Evangelho de hoje (Mt 22, 34-40), e seguindo a pista do Samuel, colher a magnífica reflexão que ele tem na sua estação noturna.
"se os amados de Deus não se amam é porque não conhecem o Deus de amor que veio habitar em nós"

Um grande abraço, Samuel, meu irmão.

2005-08-18

Irmão Roger e a importância da comunhão

"Para avançar no caminho do Evangelho gostaríamos de adoptar sempre de novo a realidades simples. Uma delas é esta: Deus é comunhão e pelo seu Cristo oferece a todos a comunhão.
Mas eis que ao longo da história multidões de cristãos descobriram-se separados, muitas vezes sem saber porquê. Velhas rupturas, mas também rupturas novas vêm ainda abalar a comunhão recíproca. Os cristãos rezam todos a um mesmo Deus de amor, então porque razão gastam, por vezes, tantas energias opondo-se uns aos outros? Esta questão coloquei-a a mim próprio desde a juventude. Na minha infância, a minha mãe reunia-nos, por vezes - sete irmãs e eu o mais novo - para ler textos em voz alta. Entre essas leituras havia a história de uma comunidade de mulheres que viveu há já muito tempo e que, pouco a pouco, se foi tornando um lugar de grande irradiação.
Cativava-me descobrir a vida destas mulheres. Quando tinha talvez 16 anos, um dia disse para mim mesmo: se estas poucas mulheres, vivendo juntas e oferecendo a sua vida a Deus, puderam realizar tanto, será que alguns homens reunidos em comunidade não poderiam fazer o mesmo. E cheguei ao ponto de me dizer; tenta o impossível para que seja criada uma comunidade de homens na qual se procurá viver em comunhão, na bondade e no perdão. Foi assim que começou a comunidade de Taizé. Hoje em dia, as divisões entre cristãos, antigas mas também novas, levantam uma interrogação mais premente do que nunca. Já não é possível adiar indefinidamente a comunhão entre cristãos. Se todos pudessem deixar crescer no seu coração um desejo ardente de vida em comunhão. Então poderíamos discernir a seguinte realidade: toda a reconciliação, mesmo a mais simples, traz alegria e compreendemos que Deus nos chama, não a fazer grandes discursos, mas a dizer gestos simples e concretos de paz e comunhão com aqueles que estão à nossa volta. Compreendermo-nos, perdoarmo-nos, reconciliarmo-nos; eis um dos apelos mais essenciais do Evangelho. Sabê-lo-emos? A comunhão entre cristãos pode contribuir para a construção da paz, onde ela é ameaçada pelos conflitos e pela violência. A paz mundial é tão urgente para que se possam aliviar os sofrimentos e, em particular, para as crianças que nascem não conheçam a angústia e a insegurança.
Procurar a reconciliação e a paz supõe travar uma luta interior. Não é um caminho fácil, nada de duradouro se constrói na facilidade. O espírito de comunhão não é ingénuo, alarga o coração, é bondade profunda, não dá ouvidos à suspeita. Para sermos portadores de comunhão será que na nossa vida avançaremos no caminho da confiança e de uma bondade sempre renovada? Nesse caminho haverá, por vezes, fracassos. Lembremo-nos então que a fonte da paz e da comunhão é Deus. Em vez de desanimarmos, invocaremos o Espírito Santo sobre as nossas fragilidades. E ao longo da nossa vida o Espírito Santo há-de ajudar-nos a retomar a caminhada e ir de começo em começo para um futuro de paz."

mensagem do encontro Europeu em Lisboa-1/1/2005 - notícia Rádio Renascença

2005-08-17

2005-08-12

Se alguém souber responder...

Na questão OTA; quem são os otários?

Espaço curvo e finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

José Saramago

impressões...

Ser optimista...é uma obrigação!

2005-08-11

Abbé Pierre

"A terra não nos pertence. Esta noção fundamental é-nos lembrada pelos ecologistas. Deixando de lado todos os fenómenos espúrios, considero que esta nova atenção consagrada ao ambiente é um acontecimento capital para a história da Humanidade. Doravante, passaremos a ver com outros olhos as actividades humanas. Até aqui, explorávamos a terra como se espreme uma esponja, sem qualquer espécie de limite, com uma única obsessão: avançar mais depressa que o vizinho do lado para ganhar o jogo da concorrência. O desastre, já mais que iminente, era garantido. . .
...Conscientes dos prejuízos causados àquilo a que hoje chamamos meio ambiente, conscientes de que estamos a serrar o ramo onde nos sentámos, devemos, sem mais delongas, encontrar soluções e pô-las em prática.
Não há uma resposta única. Há que jogar com as mais variadas competências. Tenho confiança no engenho humano."

Testamento

2005-08-10

Abbé Pierre

"Ouvi um dia da boca já não sei de quem:"A maneira como vives consegue-me dar vontade, a mim, que não sou crente, de que a fé seja verdadeira."

..."O padre de amanhã deverá ser agente de contágio. Na minha opinião, a sua imcumbência é suscitar a Eucaristia do mundo. "Eucaristia" quer dizer "obrigado". O padre deve ser o animador que fará brotar um coro de "obrigados" da criação para o Criador. Eu dizia aos nossos amigos de Emaús de Buenos Aires, depois do naufrágio de 1963: "Meu Deus, porque se abatem tantos sofrimentos sobre esta gente? Oh, como são necessários, em ocasiões como esta, padres no pleno sentido da palavra: capazes de transmitir, em simultâneo com todo o conhecimento da palavra de Deus, todo o transbordar, todo o fluir da graça através de todos os sacramentos, sobretudo da Eucaristia."
É nos momentos terríveis, como este naufrágio onde tantos pereceram, que vemos com evidência, da maneira mais pungente, a necessidade e a grandeza do sacerdócio, a função daquele que ali está para isso mesmo: assumir todo o sofrimento e dar-lhe um sentido através da oferenda. Há uma mística do sacerdócio, e essa mística é fundamental, natural, necessária."

Testamento

2005-08-09

Abbé Pierre

"Infelizmente, no seio da Igreja, o lugar da mulher é com demasiada frequência o de "criada do padre". Não é normal que assim seja! Em que passagem do Evangelho se diz que o sacramento da ordenação devia ficar reservado ao homem? Está escrito que os doze apóstolos estavam presentes na Quinta-Feira Santa. Não sabemos ao certo se Maria estava lá; mas nada nos diz que não! E a Igreja, na época, era forçosamente cativa dos costumes da sociedade do seu tempo.
Sem ser perito na matéria, penso que, teologicamente falando, não há argumentos contra o acesso das mulheres ao sacramento da ordenação, tirando os argumentos de conveniência que reflectem as formas de pensar em que foram educados os nossos prelados."

Testamento

2005-08-08

Abbé Pierre

..."Fala-se muito actualmente, da falta de pontos de referência. Diz-se: "Dantes sabíamos para onde íamos, ao passo que hoje..." Mas atenção a esses famosos pontos de referência! Quando eu era novo não faltavam, é certo: havia as coisas que se faziam e as que não se faziam. Era tão simples como atravessar as passagens de peões! Muitas dessas balizas não passavam, no entanto - há que reconhecê-lo -, de artifícios e conveniências! Mesmo no campo da práctica religiosa.
Esses pontos de referência que assentavam em artifícios, foram varridos. Tanto melhor. Não é, afinal, à força de procurarmos o caminho que acabamos por encontrar as referências da nossa vida?"

..."A participação na missa de domingo não é uma prescrição de Cristo. Não passa de uma dessas regras que a Igreja a pouco e pouco foi estabelecendo. Recorde-se que a palavra "igreja" não quer dizer "comunidade" (de "interesses", subentenda-se), mas sim "assembleia": reunião de pessoas por um motivo comum. É indispensável que se realizem assembleias, vivas, como aquela que assisti há três ou quatro anos, no Sudeste da França. A Eucaristia foi extraordinária, verdadeiramente geradora de alegria e de entusiasmo. O objectivo foi alcançado."

2005-08-06

Abbé Pierre

"Abramos bem os olhos. Como é detestável a estreiteza do olhar com que encaramos os problemas que não são os nossos! Quando, no mundo, ainda há homens que morrem de fome, quando em França ainda há homens que morrem de frio, eu grito aos que nos governam: "Sois culpados de não-assistência a pessoas em perigo!" E nós, a opinião pública, somos cúmplices."...

..."Os que hoje são jovens vão conhecer um período em que o poderio dos exércitos parecerá uma brincadeira de crianças perante o terrorismo, a revolta dos famintos e as novas desordens do mundo. Discursos como o sr. Le Pen já não se aguentam de pé. Quando ele grita: "A França para os Franceses", eu respondo: "Sim, eu tenho o direito de o dizer porque arrisquei a pele por isso, e melhor do que o senhor, mas não posso, ao mesmo tempo que grito: "A França para os Franceses", deixar de gritar: "A Terra para os seres humanos."
Esses que julgávamos poder ignorar são como uma sombra que pesa sobre tudo. Perante esta derrocada de ilusões, estamos condenados à cooperação, à negociação; estamos condenados a olhar na sua totalidade este globo humano cada vez mais pequeno."

Testamento - 1993

2005-08-05

Abbé Pierre

Abbé Pierre comemora hoje o seu 93º aniversário. Nasceu em 5 de Agosto de 1912 em Lyon, França. Durante a 2ª Guerra Mundial, já sacerdote, colaborou activamente na Resistência, ajudando inúmeras pessoas a refugiarem-se na Suiça.
Em Novembro de 1949, fundou a associação Emaús, comunidade que se consagra à construção de casas para os sem-abrigo. Uma das características importantes destas comunidades é a de se auto financiarem, vendendo objectos usados que recolhem e recuperam.
Existem comunidades Emaús em trinta e cinco países dos cinco continentes.
Abbé Pierre é uma personalidade muito considerada em França.
Eu pessoalmente, além de considerar imenso o trabalho desenvolvido, aprecio muito a sua espiritualidade e a forma pertinente como olha para a Igreja.
Durante os próximos dias, os posts que aqui colocar, são sobre o pensamento de Abbé Pierre, retirados do seu livro: Testamento. Será a minha humilde homenagem.

"A vida ensinou-me...
...que viver é usar o breve tempo dado às nossas liberdades para aprenderem a amar e a preparar-se para o eterno encontro com o Eterno Amor. Gostaria de poder deixar por herança esta certeza. Ela é a chave da minha vida e dos meus actos."

2005-08-04

Conversando com Deus - Frei Betto

Adital - Na "Caros Amigos" de abril deste ano publiquei o artigo "Conversando com o Diabo". Surpreendeu-me a repercussão entre os leitores. Agora a conversa é mais em cima…

- Você acredita que ainda há espaço para mim?

- Que pergunta, meu Deus! O Senhor anda inseguro? Tem lido índices do mercado financeiro?

- É que as coisas na Terra mudam numa velocidade que custo acompanhar. Outrora, eu era conhecido como o Criador. Vocês agradeciam a mim o ciclo das estações, os frutos da terra, a chuva e os ventos, as águas dos rios e os peixes do mar. Qual mesa farta, criei a natureza para o bem de vocês.

- Sim, Senhor, sei que abusamos da oferta. No início, extraíamos dela o necessário à sobrevivência. Para não faltar, respeitávamos os seus ritmos. Depois, descobrimos como reproduzir a natureza: inventamos a agricultura e a pecuária. E o que tinha valor de uso passou a ter valor de troca. Nossa ambição de riqueza transformou a dádiva em mercadoria.

- O que fazem com a inteligência que lhes incuti? - retrucou Deus. - Que diabo de avanço científico é este que deu origem à proliferação de armas nucleares, químicas e biológicas, capazes de provocar destruição em massa? Não percebem que estão destruindo a biosfera?

- Perdão, Senhor. Andamos enrascados num paradoxo: nosso crescimento econômico não beneficia os pobres e ainda resulta em degradação ambiental.

- Outrora vocês estavam submetidos à natureza - ponderou Deus. - Havia estreita ligação entre o ser humano e o seu entorno natural. Era um caso de amor. Agora o processo se inverteu: vocês adquiriram o poder de submeter a natureza.

- Não era o que o Senhor queria? No sexto dia da Criação não recebemos a ordem de dominar os peixes do mar, as aves do céu e os répteis que rastejam sobre a terra?

- Dominar é uma coisa; violar ou estuprar é outra - reagiu Deus. - Vocês foram longe demais: envenenaram rios e mares, poluíram a atmosfera e, agora, interferem nos processos químicos que determinam o envelhecimento orgânico e manipulam tecnologicamente os processos genéticos. Aonde pretendem chegar? Querem criar vida humana em laboratório e alcançar a imortalidade?

- Somos movidos pelo lucro, Senhor. Tudo que multiplica dinheiro constitui uma obsessão para nós.

- Vocês só sabem conjugar os verbos somar e multiplicar? E subtrair e dividir? Como ficam os pobres? - objetou Deus.

- Acabar com a fome dos pobres não traz dividendos, mas clonar seres vivos é sinônimo de muita fortuna. Antes a política comandava a economia. Agora a economia submete a política e escanteia a ética.

- Não percebem que a economia está pelo avesso? - exclamou Deus.

- Explica melhor, Senhor.

- Nunca se produziu tanto com tão poucos produtores. A tecnologia de ponta substitui o trabalho vivo, condenando milhões de famílias à informalidade no setor de serviços e outras tantas à miséria. A violência globalizou-se. A dinâmica do capital acirra uma competitividade exacerbada. Ilhas de riqueza e prosperidade estão cercadas de fome e penúria por todos os lados. Vocês não se dão conta de que promovem o dilúvio e, desta vez, sem uma arca que possa salvá-los?

- É verdade, Senhor, toda a nossa vida social está contaminada pela mercantilização. Ao contrário dos antigos, já não temos uma moral que sirva de raiz à nossa visão do mundo. Nem sei se temos visão do mundo. O limite do nosso horizonte é a tela da TV. Hoje vivemos numa sociedade pluralista, onde a religião também se transforma em artigo de consumo, e a ética desmorona como base de um modo de pensar e agir comum a todos. É cada um por si e Deus por ninguém.

- Apesar disso, continuo torcendo por todos - suspirou Deus. - Sou Pai, mas não paternalista. Não haverei de interferir de novo na história humana, como fiz ao enviar meu Filho. Dei-lhes um mundo paradisíaco - um jardim. Vocês estragaram quase tudo, poluíram o lago, cortaram as árvores, espantaram os pássaros, esmagaram a grama, secaram as fontes. Agora, tratem de consertá-lo. Encontrar fundamentos ontológicos aos princípios éticos e políticos capazes de pautar a vida social e pessoal. Não faz sentido a coesão social derivar da coerção oficial promovida pelo Estado. Criei-os livres, a ponto de poderem me rejeitar e se fechar aos meus dons. Se não resgatarem a liberdade com as armas da justiça, a espiral da violência só tenderá a crescer.

Retomei o início do diálogo:

- Por que pergunta se ainda há espaço para a sua presença? Não vê que o mundo é cada vez mais religioso? Proliferam igrejas, templos, cultos, seitas, movimentos esotéricos. O ateísmo perde fiéis, a fé está mais viva do que nunca!

- Não é esse o espaço que busco - retrucou Deus. - Também a religião se torna fonte de lucro e poder. Minha pergunta é outra: há espaço para mim no coração humano? É a minha vontade que as pessoas buscam? Ou são atraídas pela vaidade, pela ambição, pelo egoísmo? Quem é capaz de me reconhecer na face de quem tem fome, está excluído e oprimido?

- Vou ser sincero, Senhor. Nesse sentido, não há muito espaço. Nossos corações desaprendem a orar, a ter compaixão, a promover o gesto solidário. Temo que, após ter rompido a comunhão com a natureza, estejamos agora esgarçando a família humana. E, de quebra, nossa sintonia com o Senhor.

- Sim, vocês me louvam com os lábios, mas não com o coração. Prestam-me cultos, mas não libertam o oprimido. Amam mais a posse que o dom.

Fiquei preocupado:

- O Senhor vai nos deixar à deriva? Vai cancelar a sua obra, zerar a Criação?

- De modo algum. Por mais estúpidos que vocês sejam, não deixo de amá-los. Nem pretendo abandoná-los. Vocês haverão de aprender com os próprios erros. Espero apenas que não demasiadamente tarde.

Antes que ele se fosse, indaguei:

- Senhor, caso queira encontrá-lo, aonde devo buscá-lo?
- Não precisa ir longe - disse ele com uma ponta de ironia. Basta um mergulho em seu mundo interior. Estou no lado avesso de seu coração. Mas prefiro que também me encontre na face dos que sofrem.

* Frei dominicano. Escritor.

Parabéns

...a você, nesta data querida...

2005-08-03

Dos nossos males...

A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...

Mário Quintana

vida...

Vou aprendendo com a minha amiga Eduarda, noventa anos, que na vida; nada é dado adquirido.
A Eduarda tem-me contado ao longo destes dois anos, em que a visito todos os domingos, o que foi a sua vida. Nasceu numa família previligiada, onde o amor e os bens materiais nunca faltaram. Durante a quase totalidade da sua vida pôde dedicar-se ao serviço dos outros. Integrada nos vários movimentos da paróquia, serviu os mais necessitados...contou-me dos longos serões a confeccionar roupa para oferecer, em tempos onde tudo era confeccionado manualmente.
De toda a sua vida perpassa uma fé simples mas esclarecida. Uma confiança serena em Deus.
Nestes últimos tempos em que a sua saúde se vai deteriorando, coisas da idade, em que a sua vontade própria parece que vai esmorecendo perante as pequenas maleitas, mas que nos seus noventa anos atingem proporções avassaladoras, sinto que nem a sua fé é já consolo bastante.
Quedo-me em silêncio a escutar as suas queixas e a reflectir; que mistério é este; o da nossa fé?
Creio que é neste momento da sua vida, em que já nem força física, nem vontade própria, o Mistério de Deus está mais presente.
Diante desta fase da vida da Eduarda, vou pedindo a Deus que me ilumine no tempo presente, e que quando chegar a minha vez de já não ter capacidade, nem vontade de O buscar, seja Ele tudo em mim.

2005-08-02

Citações...

"O senhor Palomar está a arrancar as ervas daninhas, acocorado sobre o prado. Um dente-de-leão adere ao terreno com uma base de folhas dentadas densamente sobrepostas; se se puxa pelo caule, fica-se com ele na mão, enquanto as raízes permanecem enterradas na terra. É necessário apoderar-se de toda a planta com um movimento ondulante da mão e desenfiar delicadamente os filamentos da terra, arrastando eventualmente torrões de terra e fios definhados da erva do prado, meio sufucados pelo vizinho invasor. Depois é preciso deitar o intruso num lugar onde não possa deitar raízes nem espalhar sementes."

Italo Calvino - Palomar

decepção...

Notícias tristes do meu País: Armando Vara, direcção CCG.

Citações...

"Naturalmente, não sou capaz de dizer em que se fundamenta a esperança dos que não crêem. Apenas sei uma coisa:ela existe. Para um sem- número de pessoas, ela é o cumprimento do dever, embora nem todos saibam ver nela também a origem dos direitos: cada ser humano que nasce tem o dever de exigir aos que lhe deram a vida, e à sociedade, os meios para cumprir a sua razão de ser: a realização de si próprio no amor, que é como quem diz na justiça.

O mais maravilhoso fundamento da esperança está em que os outros precisam de mim e eu não posso dispensar nem a sua ajuda nem a sua necessidade, pois é o facto de precisarem de mim que mos torna preciosos. Para o crente, é a mesma coisa, acrescida, por instantes, do salto para o ilimitado."

Abbé Pierre - Testamento

2005-08-01

Em jeito de oração...

"Nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Nosso Senhor" (Romanos 8,39)

Senhor
tal como há dois mil anos
as multidões procuram-Te, famintas!
Também hoje;
as queremos despedir -
não pertencem ao nosso grupo,
não têm a nossa cor,
não pensam como nós.
Chamamos-lhe nomes:
são homossexuais,
são recasados,
não alinham pela ortodoxia
não se revêem
na frieza desta Igreja...
Também, hoje,
nos convocas:
"Dai-lhe, vós de comer!"
Mas nós,
que já perdemos,
o sabor do maná,
dizemo-nos de mãos vazias,
e vamos arranjando desculpas
para não Te acolhermos,
em tantos irmãos famintos.

Terra da alegria

Os frutos da Terra!