2005-10-31

Bem-aventurados...

Nada de sacralizar a miséria, nada de dizer aos pobres que não têm com que fechar as contas no fim do mês: "Não se atormentem, Jesus diz que vocês são felizes porque são desgraçados! Se as Bem-aventuranças nos propusessem uma consolação vulgar, o cristianismo seria uma religião doentia e choramingas. A verdade é que nós sonhamos com uma felicidade de saldo, feita de alegrias fáceis. É este sonho que Jesus vem condenar.
A pobreza, as lágrimas, a fome, a perseguição não são, pois, as condições para ser-se feliz com a felicidade que Jesus traz. A desgraça não é uma espécie de preliminar, como se fosse necessário ter fome e chorar para conhecer a verdadeira bem-aventurança.
As Bem-aventuranças comprometem o homem num processo de transformação da existência. São um comentário antecipado do mistério pascal, passagem da natureza à história da liberdade, mistério de desprendimento em relação a um eu pré-fabricado, em vista da criação de si por si. Trata-se de passar à liberdade a partir desse eu pré-fabricado pela nossa hereditariedade, pelo nosso ambiente, pela educação recebida. O nosso desejo instintivo de felicidade é conforme à natureza; deve ser transformado para chegar à verdadeira liberdade.
As Bem-aventuranças são portanto um apelo. Não enunciam uma verdade de ordem geral (os desgraçados são felizes), mas comprometem numa atitude, convidam a partilhar da mesma experiência de Jesus.

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver

Neste lugar...

Neste lugar transitório mantém-me mendigo
Desviando-me de mim - não
Da tua mão. Dá-me como. Conduz-me
Para a esquerda e para a direita, roda-me sempre
Para a saída

Deixa-me ser a porta no eixo
Posta para trás pela mão de quem entra
Deixa-me ser o chão assiduamente

Quero ganhar a forma
Do degrau
A forma da mão que se abre quando nada tem
E quero a mão, no entanto. Interessam-me alguns instrumentos de posse

A língua para me calar
As rótulas, os calcanhares, os rins

O corpo inteiro, completo
Para morrer

Daniel Faria - dos Líquidos

A pobreza de Deus

Deus é a pobreza Absoluta, n'Ele não existe qualquer indício de possessão. O Pai diz eternamente para o Filho:Tu és tudo para Mim. O Filho responde ao Pai:Tu és tudo para Mim. E o próprio Espírito Santo é o próprio dinamismo desta pobreza. Deus é o mais pobre de todos os seres. Se a nossa razão vacila perante tal perspectiva, digamos então; Deus é rico, mas acrescentemos imediatamente: rico em amor e não em haver. Porque ser rico em amor e ser pobre é exactamente a mesma coisa. Deus é um infinito de pobreza. A propriedade é mesmo o contrário de Deus.
Não há dúvida de que, na complexidade das coisas humanas, é necessário uma certa propriedade; o vagabundo é aquele que nada tem. A desgraça é que, ao não ter nada, terá dificuldade em ser, o que significa que, neste mundo, o ser sem o ter é impossível.. Por isso é que a Igreja defende o direito de propriedade: para que o ser humano seja, é necessário um certo haver. Mas em Deus absolutamente nada. E nós não entraremos em Deus senão quando estivermos despojados de todo o haver. Pobreza imensa de Deus, infinita, absoluta, sem a qual não podemos dizer que Deus é amor.

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver

2005-10-28

Quem é Deus?

Toda a história da Revelação é a conversão progressiva de um Deus considerado como poder a um Deus adorado como amor. É nesta perspectiva que devíamos reler toda a Bíblia e estudar a história das religões. É normal que o homem considere a Deus como o Todo-poderoso. Ponham-se no lugar dos primitivos que dão conta de que foram lançados a um mundo cheio de perigos, de que a sua existência frágil, precária, cheia de catástrofes: sismos, tempestades, epidemias, procuram espontaneamente um poder que os proteja.
Pouco a pouco - é toda a história do Antigo Testamento - Deu-se uma conversão de um Deus-poder a um Deus-amor.
Finalmente, Jesus revela que Deus é amor. Deus será Todo-poderoso? Não, Deus não é senão Amor. Deus será sábio? Não. Aqui têm o que eu chamo a travessia do fogo da negação: é absolutamente preciso passar por ela. A todas as perguntas que me fizerem, responderei: Não e não, Deus não é senão Amor.
Muitos cristãos colocam o cenário da omnipotência e depois acrescentam: Deus é amor, Deus ama-nos. É falso! A omnipotência de Deus é a omnipotência do amor, o amor é que é todo-poderoso!
Por vezes, diz-se: Deus pode tudo!Não, Deus não pode tudo, Deus não pode senão o que o pode o Amor. E sempre que nós saímos da esfera do amor, enganamo-nos sobre Deus e estamos a ponto de criar um qualquer Júpiter.
Espero que compreendam a diferença entre um todo-poderoso que nos amasse e um amor todo-poderoso.
Um amor todo-poderoso não só não é capaz de destruir o que quer que seja, mas também é capaz de ir até à morte.
A morte de Cristo revela-nos o que é a omnipotência de Deus; que não é um poderio esmagador, dominador, arbitrário que nos levaria a dizer; mas o que é que Ele anda a tramar lá no alto, na sua eternidade?
O amor não é um atributo de Deus entre outros atributos, mas os atributos de Deus são os atributos do Amor.
Assim: o Amor é:
omnipotente
sábio
belo
infinito

O infinito de Deus não é um infinito no espaço, um oceano sem fundo e sem margens: é um amor que não tem limites!

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver

No adro

O Manuel Vieira, voltou a animar o Adro. Pegou em algumas conclusões do Sínodo. A mim, falta-me a coragem.

2005-10-27

efemérides...

entre as muitas que haverá, destaco:
- Celebração em Setúbal, dos trinta anos da Ordenação Episcopal de D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal.
- Dois anos do blog Rua da Judiaria. Ao Nuno Guerreiro as minhas saudações.

Em que Deus acreditamos?

Diz-me, a Dona F.: “Na segunda feira fui a Fátima e agradeci a Nossa Senhora, a chuva que já caiu, mas pedi-lhe que enviasse só a necessária”.
A Dona F., tem 84 anos. Ouvi-a, e ia imaginando Maria a medir litro a litro a água necessária a este “cantinho”. Deixei-a feliz. Satisfeita com a sua oração, e pensei ; o que conta não é só o que fazemos, mas a intenção com que o fazemos. E a dela, um pouco enviesada, mas era boa.

Uma das grosseiras e também das mais subtis caricaturas de Deus é a do mágico supremo, o Deus considerado como útil para satisfazer as nossas necessidades, o todo-poderoso a quem apelamos quando nos vemos constrangidos a reconhecer-nos impotentes. A oração converte-se, então, numa oração útil dirigida a um Deus considerado como útil, como objecto de consumo espiritual, como o provedor das nossas necessidades.
Se queremos ser autenticamente cristãos, temos de chegar a acreditar que Deus é absolutamente inútil. E é a partir de um Deus do qual não se tem necessidade que poderemos aceder a uma adoração totalmente gratuita. O amor é gratuito ou não existe.

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver



2005-10-26

confesso:

Sou pouco disciplinada na oração. Desunho-me para fazer das vinte e quatro horas do meu dia, "local de encontro". Não sou capaz de desfiar rosários, por mais recomendados que sejam. Não gosto dessas técnicas para nos colocar de corpo e mente em oração. Parecem-me, tais técnicas, similares a apanhar água com uma joeira. Compraz-me o silêncio e a aparente ausência de Deus.
De vez em quando, tenho uns "quentinhos de coração". Mas não é muitas vezes. Só os suficientes para não desanimar. Sempre inesperados; sem técnica, sem local, sem hora marcada.

o segredo está no olhar...

arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para
que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas,
para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crinças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos,
sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas
a duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega.
Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

Terra da Alegria

A fé e a caridade, são as razões da nossa esperança. Hoje, na Terra.

2005-10-25

pergunto...e quero saber:

Para tornar a Eucaristia central na vida da comunidade, basta formar melhor o clero, ter maior cuidado com o rigor litúrgico, tornar mais estética a celebração do rito, proclamar a propósito e a despropósito a obrigatoriedade de participar na celebração?

Pertença invisível à Igreja

O que é que acontece àqueles que não conhecem a Igreja? Salvam-se? A questão está em saber quais os motivos pelos quais recusam a Igreja. É muito provável que a maioria deles recusem a Igreja por razões aceitáveis: não vêem nela a manifestação visível de Jesus Cristo mas uma organização que lhes parece decadente; têm a impressão de que a Igreja é o lugar de todas as supertições; pensam (e aliás nem sempre se enganam) que é aliada dos poderosos deste mundo, etc., numa palavra não vêem na Igreja senão uma caricatura. Sei muito bem que muitas vezes damos ocasião à caricatura e devemos dizer o nosso mea culpa.
De certeza que milhões de homens que não conhecem a Igreja ou que, conhecendo-a, não querem ouvir falar dela, pertencem invisivelmente à Igreja, quer dizer, estão salvos, divinizados, terão uma eternidade como nós esperamos ter (participação na vida de Deus), na medida em que eles obedecem à sua consciência. Só Deus pode saber se alguém pertence ou não invisivelmente à Igreja.
Como dizia Santo Agostinho: "Há os que se crêem dentro e estão fora; e há os que se crêem fora e estão dentro".

François Varillon, S.J.

2005-10-24

ontem...

O jovem padre, fala de amor e de cruz.
Ou é excesso de timidez, ou nem sonha o que isso é.

Acácias

Minha alma quer ver a Deus.
Eu não quero morrer.
Quero amar sem limites
E perdoar a ponto de esquecer-me.
Radical, quer dizer pela raiz
O perdão radical gera alegria
Exorciza doenças, mata o medo
Dá poder sobre feras e demónios
Falo. E falo é também membro viril,
Todo léxico é pobre,
Idiomas são pecados;
Poemas, culpas antecipadamente perdoadas
Eis, esta acácia florida gera angústia
Para livrar-me, empenho-me
Em esgotar-lhe a beleza
Beleza importuna,
Magnífica insuficiência,
Porque ainda convoca
O poema perfeito.

Adélia Prado

24 de Outubro de 1945

Começou a existir oficialmente as Nações Unidas (ONU).

Terra da Alegria

Hoje, na Terra, com a companhia do Marco


Diz o documento do Concílio Vat. II, Gaudium et Spes, no seu proémio:As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história.

2005-10-22

O maior mandamento (Mt 22,34-40)

O mandamento do amor (Mc 12,28-34; Lc 10,25-28; Jo 13,33-35) - 34Constando-lhes que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo. 35*E um deles, que era legista, perguntou-lhe para o embaraçar: 36«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» 37Jesus disse-lhe:Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua almae com toda a tua mente. 38Este é o maior e o primeiro mandamento. 39*O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. 40*Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.»

2005-10-21

Diz-me o que semeias...

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflecte. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

Vinícius de Moraes

2005-10-20

Diz a águia:

Aguenta aí, lagarto! A procissão ainda vai no adro!

Lc 12,49-53

"Não vim trazer a paz, mas a divisão."

Jesus era consciente de que um efeito ainda que não desejado do seu trabalho ia ser causa de divisão entre os partidários do imobilismo e os que lutam por um mundo novo. Por isso inflamou a ira dos funcionários do templo e de todos os que se consideravam donos da verdade. O fogo da Palavra de Deus não era para funcionários lúgubres saturados de doutrinas e sedentos de poder.
Mas o fogo de Jesus não é o fogo das paixões políticas. É o fogo do Espírito que tem que ser aprovado na entrega total, no baptismo da doação pessoal. É um fogo que prende aí onde se abandonaram os interesses pessoais e se busca um mundo de irmãos.
A paz de Jesus é um fogo purificador que não se confunde com a “Paz Romana”, aquela paz que Roma (e qualquer império) se esforça por proclamar. Esta é só uma tranqüilidade institucional que garante a vantagem dos opressores sobre os oprimidos, do império sobre os subalternos, da injustiça sobre o direito.
O fogo purificador de Jesus faz amadurecer os mensageiros, os discípulos, os profetas, os apóstolos. O destino deles, como o do mestre, é sair ao encontro da obscuridade com um clarão que ponha às claras tudo o que a ordem actual esconde. O fogo põe as claras também as deficiências pessoais, as ambições subterrâneas, os desejos reprimidos. O fogo que se prova com a entrega total ao serviço do evangelho.

O amor o que é?

Nesta proveitosa discussão em que temos andado envolvidos, parece que se opõem dois polos: a Lei e o Amor. Necessáriamente, eles não são opostos. A Lei será sempre a base, o patamar de onde não se poderá descer. A mesma Lei que diz que a homossexualidade é um erro, diz que devemos amar, a todos!
Diz alguém nos comentários abaixo, que o amor é "subjectivo". Aí, é que bate o ponto. Não é. O amor não é um discurso, não é um "quentinho" do coração. Não é um recurso de algibeira. Não é um sentimentalismo. Não é condescendência.
O que é então o amor?
Amor é dom e acolhimento.
Dom significa que sou capaz de sair de mim mesma, não vivo centrada nos meus interesses, mas nos do outro, e vivo e acolho o que o outro é.
Não existem quaisquer limites para o amor. Nem o pecado do outro. Porque o amor é também perdão. Perdoar é dar até ao fim.
Amar exige que eu ajude o outro a libertar-se de algo que o oprime. Mas isso não acontece quando eu quero, é quando o outro "pode".

Escusado será dizer; que eu não sou capaz de amar assim. A minha vida está carregada de egoísmo e amor-próprio. Este amor sem limites, é Jesus Cristo, vivo. Este amor é Deus.
Mas é a este amor que me devo "converter".

2005-10-18

Não sabe, não...

Pecado Original

Caetano Veloso

Todo dia, toda noite toda hora,
toda madrugada momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
Vivem a eternidade da maçã
Tempo da serpente nossa irmã
Sonho de ter uma vida sã
Quando a gente volta
O rosto para o céu e diz
olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro não!
A gente não sabe o lugar certo
De colocar o desejo
Todo beijo, todo medo
Todo corpo em movimento
Está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto
Todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu
O que fazer com o que DEUS nos deu?
O que foi que nos aconteceu?
Quando a gente volta
O rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro não!
A gente não sabe o lugar certo
De colocar o desejo todo homem, todo lobisomem
Sabe a imensidão da fome
Que tem de viver
Todo homem sabe que essa fome
É mesmo grande
Até maior que o medo de morrer
Mas a gente nunca sabe mesmo
O que é que quer uma mulher

2005-10-14

Homossexualidade: pecado ou sofrimento?

Temos andado numa interessante, e quanto a mim, muito proveitosa, discussão sobre a homossexualidade e tudo o que a envolve. Como é mais que óbvio, nestas coisas, existem várias opiniões, algumas divergentes. Isso não é mau de todo. Não temos, cada um, ou no todo, a verdade. É preciso discuti-la, fazer acordos, aferir posições.
Alguns intervenientes desta discussão, assumem-se cristãos, e especificamente, católicos. Mesmo de entre esses, as posições divergem. Não há mal nenhum nisso. Uma das questões que se coloca com mais ênfase é a de se definir a homossexualidade como pecado. Preto no branco, se nos cingirmos apenas à doutrina oficial da Igreja, é assim que ela o define.
Como cristã, procuro enquadrar a homossexualidade na proposta do Reino, anunciado por Jesus Cristo.
É muito clara, nesta discussão, a divergência entre aqueles que se orientam apenas pela Tradição e leis da Igreja, neste caso absolutizando a Lei e sem dúvidas nenhumas definem que, a homossexualidade é um pecado. E os que olham em primeiro lugar para as pessoas que têm esta orientação sexual e para eles procuram uma resposta. Que não é a resposta da Lei, mas uma resposta que os liberte do sofrimento. Sofrimento aqui entendido, porque a forma de viverem a sua sexualidade, não é aceite pela maioria da sociedade, (direitos iguais aos heterossexuais), e no caso de serem crentes, ainda carregam o peso do pecado.
Segundo, José M. Castillo, numa tradução livre da minha parte, diz: “o que mais preocupa a Igreja e a sua Teologia é o pecado. O que mais preocupa o comum dos mortais é o sofrimento. O pecado tem preocupado tanto a Igreja, que por causa disso têm-se infligido graves sofrimentos: matança de infiéis, herejes, bruxas, excomunhões...
Isto quer dizer que os interesses da Igreja não coincidem com os interesses humanos. Muitas vezes, são de tal modo contraditórios e em conflito uns com os outros. A tal ponto que a Igreja tantas vezes se torna inaceitável e até odiosa. Mas o grave nisso é que a Igreja dá a imagem de um Deus, que se interessa mais pela sua honra, a sua autoridade do que a dor no mundo. Não foi esse Deus que nos foi anunciado por Jesus Cristo.
Ao proceder desta maneira, a Igreja anuncia mais a João Baptista do que a Jesus. O ministério de João Baptista era centrado no tema do pecado e da sua conversão. Daí ele dizer de Jesus Cristo:”eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. O Deus de João Baptista era um Deus irritado, ofendido com o pecado, que precisave de uma vítima de expiação. Neste sentido a missão de Jesus não era uma missão profética, para mudar este mundo, mas uma missão de vítima para agradar a Deus.”
(Vejamos como ainda se mantém esta perspectiva de Deus, por exemplo; nas aparições de Fátima.)
Jesus anunciou também uma conversão, não uma conversão dos pecados, mas uma conversão em função do Reino de Deus.(Mc 1, 14-15). O anúncio de Jesus, era feito com sinais concretos, curava todas as espécies de enfermidades”. Algumas, sabemos pelos relatos evangélicos eram motivo de exclusão da comunidade, não estavam de acordo com a Lei. (mulheres com hemorragias, epiléticos, leprosos, cegos...). Esse poder de curar, deu-o Jesus, também aos apóstolos.
“Nesta missão de Jesus, de curar a todas as enfermidades, pô-lo até contra o Templo e a Lei:curar ao sábado.
Esta atitude de Jesus era tão desconcertante que até João mandou perguntar-lhe se; era Ele o Enviado ou deviam esperar outro? (Mt 11, 2-4).
À medida que a Igreja se foi estruturando como organização “jurídica” de poder, a teologia foi acentuando a questão do pecado em detrimento do sofrimento. Por uma razão muito clara: o pecado se insere numa lógica de poder, o sofrimento tem de se gerir numa lógica de solidariedade. Contra o sofrimento não se luta a partir de cima, mas da igualdade, na fusão com o
que sofre. (Heb 2, 17-18).
O sofrimento humano não tem outra solução. Daí que Jesus ao levar a sério este projecto, acaba em supremo sofrimento.
A organização segundo a Lei exige submissão. A estrutura sacramental traduz-se comunhão.
Hoje, na Igreja, é mais determinante a Lei e a obediência, (que não se tolera senão na uniformidade), que o sacramental e a comunhão (que se traduz no pluralismo). É a consequência de prodominar o tema do pecado sobre o do sofrimento.”


O tema não está de modo nenhum esgotado, espero que continuemos, a partir deste post, nova discussão.
Comentai, pois...

Adenda: para ajudar à reflexão deste debate, ler carta de uma leitora na Terra da Alegria e visitar entre outros o blog Assumidamente.

2005-10-13

la sexualidade es una fiesta

... "A sexualidad sigue siendo una de las asignaturas pendientes del cristianismo. El rechazo o la negación de la misma por parte de las iglesias cristianas en general radica en la concepción dualista del ser humano, que no tiene su origen ni en la tradición judía, de la que arranca el cristianismo, ni en Jesús de Nazaret, con quien se inicia el itinerario de la fe cristiana. En este terreno, el cristianismo es heredero de Platón, de Pablo de Tarso y de Agustín de Hipona.
De Platón arranca la concepción antropológica dualista que distingue en el ser humano dos elementos en oposición frontal: el cuerpo y el alma. Lo que identifica al ser humano es el alma, que constituye la esencia de la persona. El cuerpo es un lastre, una carga; peor aún, la cárcel donde vive prisionera el alma durante su peregrinación por la tierra. El cuerpo y sus deseos son los causantes de las guerras, luchas y revoluciones. Por su culpa no se puede contemplar la verdad ni conocer nada de forma pura.
En las cartas de san Pablo quedan numerosos restos de dualismo antropológico, como demuestran las exhortaciones morales que hace en sus cartas a los cristianos y cristianas de las comunidades fundadas o animadas por él. Buena parte de las listas de pecados que aparecen en dichas cartas tiene que ver con la sexualidad, y las actitudes morales que recomienda a los creyentes en Cristo son represivas del cuerpo. Carne y espíritu aparecen como dos principios que caminan en dirección contraria: 'Proceded según el espíritu, y no déis satisfacción a las apetencias de la carne. Pues la carne tiene apetencias contrarias al espíritu, y el espíritu contrarias a la carne, como que son entre sí tan opuestos que no hacéis lo que queréis... Las obras de la carne son: fornicación, impureza, libertinaje, idolatría, hechicería, odios, discordias... Los que son de Cristo han crucificado la carne con sus pasiones y apetencias' (Gálatas 5, 16 ss).
Tras su conversión y la lectura de los neoplatónicos y de los escritos paulinos, san Agustín hizo suya la concepción antropológica dualista tanto en su vida, con la renuncia a los placeres del cuerpo por considerarlos un obstáculo para la salvación, como en su doctrina moral, proponiendo como ideal cristiano la abstinencia sexual. Desde entonces funge como teoría y práctica oficiales en las iglesias cristianas.

¿Cómo conseguir la liberación? Lacerando el cuerpo, reprimiendo los instintos, renunciando a los placeres corporales. ¿Cómo lograr la sabiduría y acceder al conocimiento puro? Desembarazándonos del cuerpo y contemplando las cosas en sí mismas sólo con el alma.
Desde esta lógica dualista se argumenta que el cuerpo de la mujer no puede representar a Cristo, que fue varón y sólo varón, no puede perdonar los pecados por su falta de sigilo, no puede, en fin, ser portador de gracia, sino de sensualidad pecaminosa. En consecuencia, tampoco puede ser sacerdote.
...Sin embargo, la concepción dualista del ser humano que lleva al rechazo de la sexualidad y al desprecio del cuerpo no parece la más acorde con los orígenes del cristianismo, ni refleja el pensamiento judío. Éste entiende a la persona como una unidad no compartimentada. Todo el ser humano es imagen de Dios. Y lo es como hombre y mujer. El ser humano es sexuado, y en cuanto tal se dirige a Dios. La moral judía no es represiva del cuerpo. Defiende el placer, el goce, el disfrute de la vida, como se pone de manifiesto en múltiples tradiciones religiosas de Israel. El libro bíblico del Eclesiastés, por ejemplo, afirma la vida material y sensual en la cotidianidad, e invita a comer el pan y beber el vino con alegría, a disfrutar del fruto del propio trabajo y a gozar con la persona a quien se ama, a llevar vestidos blancos y perfumar la cabeza (Eclesiastés, 9, 7-9). Llama a los jóvenes a disfrutar y pasarlo bien, a dejarse llevar del corazón y de lo que atrae a los ojos, a rechazar las penas del corazón y los dolores del cuerpo (11, 9).
La vida y el mensaje de Jesús de Nazaret se ubican en ese horizonte vital, e incluso vitalista. La incompatibilidad que establece no es entre Dios y la sexualidad, entre el E(e)spíritu y el cuerpo, entre las bienaventuranzas y la felicidad, sino entre el Dios dadivoso y la opulencia, entre el Dios débil y el poder opresor, entre el Dios de vida y los ídolos de muerte.
La reflexión cristiana feminista está desarrollando hoy una importante teología del cuerpo en esa línea, de la que fue pionero el teólogo alemán Dietrich Bonhoffer en su emblemática obra Ética, donde muestra que el disfrute del cuerpo es fin en sí mismo -y no simple medio para la consecución de otro fin superior-, cauce privilegiado de comunicación interhumana, mediación necesaria entre los humanos para el encuentro de Dios, y que la felicidad es un derecho irrenunciable de toda persona que ninguna religión puede reprimir.

Termino con unos versos, creo que de Mario Benedetti, que vienen aquí como anillo al dedo: 'Dice la Iglesia: el cuerpo es un pecado.
Dice el mercado: el cuerpo es un negocio.
Dice el cuerpo: yo soy una fiesta'.

Cuando el cristianismo descubra que la sexualidad es una fiesta, y los confesores lo incluyan entre las buenas obras, habrá comenzado una nueva era."

Juan José Tamayo-Acosta

Recado III

"O que mais me custou, sem sombra de dúvida, ao longo de toda a minha vida, foi a renúncia voluntária à ternura. Se a renúncia não fosse voluntária, o celibato não teria sentido; não passaria de uma negação da mulher em si, e de tantos valores preciosos: valor do casal, desenvolvimento pleno da pessoa...
...Este voto, imperfeitamente vivido, é certo, nunca foi, no entanto, posto em causa. Ainda que eu tenha sofrido com essa privação, ainda que tenha, em certos momentos, sonhado a alegria vivida pelos esposos como um prodígio humano superior a todos os outros...
...A ternura de uma mulher, a ternura de cada dia, essa, nunca a vivi. Padeci por isso um sofrimento constante, quotidiano, toda a minha vida. Pois não imagino que para um homem, a ternura possa existir sem a presença de uma mulher. Ou então, será mesmo preciso que Deus dê uma grande ajuda!"

Abbé Pierre - Testamento

Recado II

As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral -
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:mas gostando muito.

Adélia Prado

Recado...

Senhores Bispos em Roma: Olhem que o matrimónio é um óptimo meio de santificação!

2005-10-11

mais um tema fracturante...paciência!

Isto, pretende ser uma abordagem ampla, mas quanto a mim, essencial.

Vou pegar num tema que não é dos mais fáceis, para mim. Por razões, sociais, culturais, religiosas. Por ignorar muitos dos aspectos que envolvem as questões da homossexualidade, não é este um dos temas que eu escolheria trazer, aqui, para o Jardim. Mas, ao longo da vida tenho procurado formar uma opinião, mais ou menos responsável sobre o assunto.
O Timshel, “levantou a lebre”, o Lutz e respectivos comentadores questionaram, o José deu uma achega importante, a Helena falou e disse, e eu, humildemente, também digo qualquer coisita.
O motivo do post, não é a discussão pela discussão, mas porque é um tema que envolve pessoas concretas, pessoas, muitas delas, em sofrimento.
Vou abordá-lo do ponto de vista, de crente, que sou, com mais ou menos contradições, mas é o que há. Vou também, procurar fazê-lo de uma forma positiva. Não quer dizer que ao escrever, ou pensar sobre este tema, não me ocorram, todos aqueles argumentos que o José, a Zazie, o Timshel, disseram. Fazem parte da nossa cultura sociológica e não há como ignorá-los. Não vou refutá-los, um a um, mas tenho-os em conta para a presente reflexão. Vamos a isto.
Qualquer questão que envolva o Homem, tendo sempre a perspectivá-la em relação a Deus, é nesse sentido que começo a referir que; “Deus fez o Homem criador de si mesmo”. Quer isto dizer que Deus não “fabricou” algures na história ao homem e à mulher, mas antes, “é agora que Deus cria; é agora, sempre, a cada instante, que Deus me cria a mim mesma, por mim mesma. Sou eu que me crio a mim mesma. Recebo de Deus o poder de me criar a mim mesma. Criar-me significa tornar-me homem/mulher livre.” Liberdade, consiste em querer aquilo que se faz, em assumir a total responsabilidade pelos nossos actos. A liberdade é quando o homem não é escravo de si mesmo, do egoísmo, exclusivamente dos seus próprios interesses. Mas a liberdade, não foi algo que me foi oferecido como uma caixa cheia de chocolates e que eu vou tirando, um cada vez que me apetece. A liberdade é construída a pouco e pouco, na medida do meu querer e das minhas possibilidades/capacidades. É sobre isto, que acenta a pedagogia de Deus.
Isto tudo, para afastar de vez a ideia, de um deus, que nos criou seres perfeitos e que nós, nos vamos “estragando” a cada passo. E no fim da “jornada”, lá estará Deus a separar maus e bons.
Um dos dados adquiridos, em relação ao conhecimento que temos de Deus, é que, Ele não faz qualquer distinção entre as pessoas. Criou-nos a todos de igual modo; homens, mulheres, brancos, pretos, amarelos, ruivos, louros...Deus ama todos os homens, não há nada que nos possa separar de Deus/Amor. Creio que, nesta discussão, valoriza-se, mais a Lei, do que ao Homem, a quem ela serve. “Não foi o homem, que foi feito para o sábado, mas o sábado, para o homem.”
A sexualidade é uma questão muito complexa. Todos sabemos que ela comporta “forças” que nos escapam. Não creio, como alguns argumentam ( a própria Igreja, inclusive) que essas forças são exclusivamente direccionadas para a propagação da espécie (procriação). Elas vão muito para além disso. Vendo a sexualidade de uma forma positiva, verificamos três definições sexuais – heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade.
Um dos dados que temos sobre a homossexualidade é que ela existiu desde sempre, pegando no testemunho bíblico, logo no livro do Génesis (19,1-10) vemos um relato onde Lot, para não violar o respeito que qualquer visita merecia, oferecia as suas próprias filhas, virgens, que sendo mulheres tinham menos valor, aos sodomitas que perseguiam dois homossexuais. Também S. Paulo em Rm 1, 26-27 condena os comportamentos homossexuais, como também faz outra condenações, inclusive contra alguns comportamentos das mulheres, que não eram aceites na sociedade helenista.
Em Jesus Cristo, nos quatro evangelhos, não encontramos uma única referência condenatória a comportamentos homossexuais. O que encontramos, é o anúncio da Boa Nova; todo aquele que acolher Cristo, que escolher a cada dia, a cada gesto, a cada palavra, amar a Deus que é Amor, e aos irmãos como a si mesmo, cumpre o verdadeiro destino do Homem: ser para Deus.
Resumindo: não é a nossa “direcção” sexual, que me parece, não é escolha nossa, que nos “santifica” mais, ou menos, mas a forma como amamos. Mas, que sei eu do amor? É “teimosamente” procurá-lo, todos os dias, na liberdade.

Correcção:
No texto do Gn que refiro, fala em dois mensageiros, não especificando que eram homossexuais. Os habitantes de Sodoma, que se apresentaram à porta de Lot, sim, tinham como objectivo práticas sexuais homossexuais. Daí o termo; conhecer.

Adenda:
no forum paroquias está uma óptima discussão sobre este tema. Começou com o tópico, lançado na 1ª pessoa de alguém que se assume homossexual.

impressões...

A paixão de Deus é o Homem!

2005-10-08

Lc 11,27-28

As bem-aventuraças eram uma forma especial de felicitar aqueles que recebiam a graça divina. Bem aventurados eram aqueles que haviam alcançado o favor de Deus e se alegravam no presente. Uma entusiasta mulher do povo dirige a Jesus uma bem aventuraças, pois o considerava uma pessoa especial.
Alguma pessoa se entusiasmou com Jesus e o felicitou por sua família, por sua procedência, pela importância que ia adquirindo como Mestre e Profeta. Mas Jesus sabia perfeitamente do engano que resulta o jogo das bajulações: hoje te elogiam, amanhã pedem a tua cabeça. Por isso, mostra a mulher uma maneira diferente de vê-lo. Pois, ele não estava ali para dar brilho ao nome de sua família, senão para cumprir a vontade de Deus.


A primeira bem aventurança estava dirigida a ressaltar o pequeno grupo familiar; um pequeno resto que se salvaria pela ação do profeta. Jesus muda esta perspectiva com outra bem aventurança que fixa um alcance universal à salvação de Deus. A salvação já não é de um grupo, um clã ou uma raça necessariamente. A salvação é patrimônio de todos aqueles/as que realizam o Reino de Deus entre os seres humanos.

Deste modo, Jesus antepõe a ética à ascendência familiar, religiosa ou confessional. A bem aventurança de Deus, sua benção e esperança permanecem com aquele que pratica sua palavra. Então, a salvação não vem da pertença a determinada família nem a certa confissão religiosa. A salvação vem de uma atitude justa diante do próximo e de Deus.

2005-10-07

justa indignação

Da Céu...

Eu falo das casas e dos homens

Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.


E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

Adolfo Casais Monteiro

2005-10-04

Bom feriado...

...para quem passar por aqui!

Deixo um poeminha de D. Pedro Casaldáliga, que sirva de luz a todos os descendentes de Abraão.

"Abrahan
comtempla las estrellas,
Abrahán.
No intentes numerarlas."

Memória de S. Francisco de Assis (1182-1226)

Oração diante do crucifixo de S. Damião

"Ó glorioso Deus altíssimo, ilumina as trevas do meu coração, concede-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito. Mostra-me, Senhor, o (recto) sentido e conhecimento, a fim de que possa cumprir o sagrado encargo que na verdade acabas de dar-me. Amen"

Editorial Franciscana

A propósito de uma visita...

"Não sou adepta do corte de relações diplomáticas com qualquer regime, por mais detestável que seja. O processo de Timor-Leste serviu-me também para aprender que na era da globalização, quanto mais relações houver, quanto mais contactos diplomáticos, comerciais, turisticos, culturais e outros se desenvolverem, mais se pode ajudar quem, sujeito a esses regimes, luta pela mudança e pela liberdade. "

Ana Gomes in Causa Nossa

2005-10-03

lição...

...de cidadania, recebi eu, ontem.
A Maria Eduarda, 91 anos, depois do pequeno rito que celebramos, em recebe a sagrada comunhão, diz-me:
-No próximo domingo, não estou em casa, a esta hora. Não poderei receber Nosso Senhor.
Vou votar com a minha irmã e só temos transporte a esta hora.
Mentalmente, revi a minha agenda dos domingos. Levantar, fazer alguma tarefa das lides domésticas, tomar um café apressado e passar pela igreja para "recolher" as sagradas partículas e levar aos idosos e doentes. Ouvi-los sem pressas, controlar a ansiedade de olhar para o relógio a fazer contas ao tempo que o almoço demora a fazer, para estar pronto em tempo razoável de modo que não prejudique os horários da família. O almoço, o café da tarde, a conversa a pôr em dia com a Ana, que já só vem estes bocadinhos ao domingo.
No domingo, eu própria, terei que me deslocar a outra freguesia para votar. A visita à família mais alargada e, por fim, a missa das sete. Comecei, mentalmente, a tentar encaixar na agenda do próximo domingo, a visita à Maria Eduarda, para que ela não tivesse de abdicar de receber a sagrada comunhão. Sei como é importante para ela. Ela mesma, me manifesta isso. Todos os domingos, depois do último abraço, já com a mão na porta, me diz:
- Nem imagina o bem que me faz. Ao trazer-me o nosso Amigo, Jesus.
Concordámos as duas que havia tempo, desde que eu fosse um pouco mais cedo, e nesse domingo, não haveria lugar para as nossas conversas.

Terra da Alegria

Hoje com o Zé Filipe e esta escrevinhadora. Fé e Eucaristia.