2005-11-30

Fernado Pessoa 1888-1935

"A renúncia é a libertação. Não querer é poder"

Livro do Desassossego- Bernardo Soares

Porquê a Cruz?

Em tempos de pequenas agitações sobre os crucifixos, acho importante, centrar-me no significado da Cruz para os cristãos. Pego num autor de que gosto muito, François Varillon, e transcrevo para aqui, as reflexões dele, sobre a afirmação: "Cristo Morreu por nós".

Gostava de falar sobre o Advento, tempo litúrgico que estamos a viver, mas não saem palavras nenhumas que fossem minimamente capazes de expressar a riqueza que é este tempo para todos, os que crêem. A única coisa que sou capaz de dizer é exclamar: Vem, Senhor Jesus! Aumenta em mim, o desejo da Tua presença!

Todas as espiritualidades se encontram aos pés da Cruz de Cristo. Tudo o que leva à Cruz é realmente cristão. Tudo o que a elimina ou contorna, pertence à ordem do pseudo ou do sucedâneo.
É preciso, no entanto, compreender bem o sentido da Cruz. A morte de Cristo, quando Ele tinha mais ou menos trinta anos, é um acontecimento histórico datado. Que significa esse acontecimento? Em si mesmo, não passa de "um fracasso bastante banal dum pregador ambulante" pretensamente profeta e Messias de Israel. Para nós, cristãos, este acontecimento é o centro da história.
Diz o cardeal Ratzinger: "Para um número muito grande de cristãos, e sobretudo para aqueles que não conhecem a fé senão de longe, a cruz situar-se-ia no interior de um mecanismo de direito lesado e restabelecido. Seria o modo como a justiça de Deus infinitamente ofendida teria sido novamente reconciliada através duma satisfação infinita...Alguns textos de devoção parecem sugerir que a fé cristã na cruz pensa num Deus cuja justiça inexorável reclamou um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem foi tão divulgada como ela é falsa."

Será que a justiça de Deus exige a morte de Cristo?
A ideia está clara: Cristo teria substituído a humanidade pecadora, teria tomado sobre Si o castigo destinado a essa humanidade, teria feito da sua vida um sacrifício de expiação. A humanidade pecadora deve ser castigada: encontramo-nos perante um Deus que castiga.
As principais palavras usadas nos catecismos e livros de devoção são: justiça, castigo, substituição, expiação, reparação, compensação.
Diz, novamente Ratzinger:"uma tal apresentação da morte de Cristo é extremamente rudimentar" e acrescenta: "É de fugir horrorizados de uma justiça divina cuja cólera sombria rouba toda a credibilidade à mensagem do amor."
Reflictamos, pois: diz-se que Deus não podia perdoar ao homem sem que antes a sua justiça fosse satisfeita. É preciso, portanto, concluir que Deus não é um infinito de gratuidade. Introduz-se, numa fase de certo modo intercalar do processo do perdão, uma "justiça", que aparece inevitavelmente como um limite do amor. Atribui-se a Deus um amor limitado pela justiça. Se a justiça de Deus exige uma compensação pelo pecado, pode-se ainda, no rigor da palavra falar-se de perdão? Isso seria dizer que Deus não pode dar livre curso à sua misericórdia se antes não for "vingado". Atribui-se a Deus uma espécie de conflito entre uma justiça vindicativa e o seu amor paternal; e o seu amor paternal é limitado pela exigência da justiça vindicativa. O sangue de Jesus derramado no Calvário é, então, o preço duma dívida exigida por Deus em compensação da ofensa infligida à sua honra pelo pecado dos homens.

Continua...

Terra da Alegria

Na Terra o Miguel conta-nos alguns sonhos. O Timshel continua a transcrição do diálogo entre o Cardeal Carlo Maria Martini e Umberto Eco. A ler.

2005-11-29

A tolerância...

Caro João, obrigada pela "cavalheira". Gostei.
A história, do coitado do homem que foi evangelizado à força, leva-me a partilhar, o que acontece na igreja da paróquia a que pertenço. Existe por aqui uma mulher que combina o beber uns copitos e a admiração que tem pelos srs padres. Isso faz com que tenha uns ciúmes doidos de toda a gente que participa nos coros, nas leituras...mulheres, claro! Durante as celebrações, fala mais alto que todos, vai mandando uns recados, perfeitamente audíveis, sempre que alguma mulher sobe ao altar...Enfim, incomoda toda a gente. Os padres de vez em quando mandam-lhe uns olhares ameaçadores. Anda sempre toda a gente a dizer que o padre a devia proibir de participar nas celebrações. Eu, a princípio, também me incomodava com os tiques dela. Entretanto, comecei a fazer o meu exame de consciência e a pensar:"mas, ela não faz mais, que o que a maior parte da beatada por aqui faz, com a diferença que, os copos desinibem-na e em vez de andar a cochichar como faz a maior parte, ela fá-lo às claras". Comecei a ter simpatia pela senhora, vou-a defendendo como posso das "garras" normalizadoras dos restantes crentes, e vou olhando para ela e pensando que é melhor não lhe copiar o gosto pelos copos, porque é um modo de se ficar "transparente" num instante...

O nosso tesouro...

O que nos ensinam os evangelhos em sua extensa catequese é isto precisamente: para a perfeita compreensão e assimilação do cristianismo é insubstituível conhecer e compreender o homem Jesus de Nazaré. Na boca de Jesus o evangelista nos propõe uma reflexão sumamente interessante. Para nós cristãos, a relação com Deus tem como mediação a história concreta de uma pessoa que é indispensável para nossa fé. E esta pessoa não é outra que Jesus, o galileu que morreu em Jerusalém.O evangelista é enfático em nos dizer que “Ninguém sabe quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho”. Jesus e sua história são deste modo insubstituíveis para a fé. Quem pretenda ser cristão ignorando o significado de Jesus para a fé, perde o tempo e se confunde no caminho. O evangelho nos convida a levarmos com seriedade a mensagem de Jesus, a vivência que ele experimentou da vontade de Deus, de seu projeto, essa utopia que chamava “Malkuta Yavé”, “Reino de Deus”. Jesus nos deu exemplo de considerá-lo como o “tesouro” encontrado no campo: por causa do reino o homem deixou tudo, vibrando de alegria.

Serviço Bíblico Claretiano

2005-11-28

A minha opinião...

Segundo o Diário de Notícias teria sido dada ordem da parte do Ministério da Educação para a retirada dos crucifixos das escolas públicas. Afinal, parece que não é bem assim. Logo se levantou o presidente da Conferência Episcopal a apelar ao protesto indignado dos cristãos. Pela minha parte, não entrarei em nenhuma "cruzada" do género.
O crucifixo é um símbolo do cristianismo. O meu entendimento dos símbolos é; não os desprezando, também não os absolutizo.
Estimo o crucifixo como símbolo, logo, não desejo que ele esteja num lugar onde ofende a livre posição frente à fé, de cada pessoa.
Se numa determinada escola, mesmo pública, os diversos grupos - pais, alunos, professores, funcionários - acharem por bem manterem os crucifixos, que o façam, livremente.
Da parte da Igreja Católica, não reconheço autoridade, de espécie nenhuma, para impor a colocação de crucifixos.

Liberdade Religiosa

"Liberdade Religiosa e Democracia em debate

De 25 a 26 de Novembro decorreu em Lisboa, no Centro Ismaili, o I Colóquio organizado pela Comissão da Liberdade Religiosa, com a participação de uma centena de pessoas, oriundas de diversos pontos de Portugal e de várias Religiões e confissões religiosas.Subordinado ao tema «A Religião no Estado Democrático».
Esta foi uma oportunidade para o debate de ideias sobre a compreensão da liberdade religiosa em cada país, realçando-se o valor inestimável do direito fundamental da pessoa humana à liberdade de consciência, culto e escolha de religião. "

Agência ecclesia

Terra da Alegria

O modelo de comunidade em que tudo se “espera do prior”, onde ele se assume como o único responsável pela condução da evangelização, onde os “fiéis leigos” são apenas meros colaboradores desresponsabilizados do anúncio da Boa-Nova do Reino, tem de ceder o lugar à “comunidade viva”; onde cada um com os seus carismas próprios se entrega com generosidade e, por sua vez, se “alimenta” da partilha de todos.

2005-11-25

Para alegrar um pouco o ambiente...

Depois de uma semana dedicada a "grandes causas",tão grandes que me deixam a alma um pouquinho pesada, é tempo de um pouco de festa. Continua, por aqui, o Vinícius a cantar o amor.
Quem quiser cante com ele.
Eu deixo um grande abraço e votos de bom fim de semana


Para Viver Um Grande Amor

Para viver um grande amor
Precisa muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor
O mistério é ser um homem e uma só mulher
Pois ter muitas, pôxa, é prá quem quer
Não tem nenhum valor
Para viver um grande amor
Primeiro é preciso sagrar-se um cavalheiro
Ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há de fazer do corpo uma morada
Onde enclausure-se a mulher amada
Postar-se de fora como espada
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor
Não basta apenas ser um bom sujeito
É preciso também ter muito peito
Peito de remador
É sempre necessário, pelo visto,
Um crédito de rosas num florista
E mais, muito mais que uma modista
Para viver um grande amor
E tampouco saber fazer cozinhais
Ovos mexidos com arroz, sozinhas, molhos
Filés com fritas, comezinhas para depois do amor,
E o que há de melhor que ir prá cozinha
E preparar com amor uma galinha e uma gostosa farinha
Para o seu grande amor
Para viver um grande amor,
É muito, muito importante viver sempre junto
E até ser, se possível, um só defunto
Para não morrer de dor
É preciso um cuidado permanente,
Não só com o corpo mas também com a mente
Pois qualquer baixo seu a amada sente
E esfria um pouco o amor
Há que ser bem cortês, sem cortesia
Grosso e conciliador, sem covardia
Saber ganhar dinheiro com poesia,
Não ser um ganhador
Mas tudo isso não adianta nada
Se nessa selva escura e desvairada
Não se souber achar a grande amada
Para viver um grande amor

Vinícius de Moraes

A minha Mãe

Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Ela, leve, não faz pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!

Bertolt Brecht

Dia Internacional para a eliminação da Violência contra as mulheres

"A violência mais comum é a exercida sobre as mulheres. Segundo o Conselho da Europa, a violência contra as mulheres no espaço doméstico é a maior causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos, ultrapassando o cancro, acidentes de viação e até a guerra. Este dado internacional, se relacionado com os indicadores disponíveis em Portugal (embora apenas indicativos e ainda a necessitar de confirmação mais rigorosa) que sugerem que mensalmente morrem mais de cinco mulheres por razões directas e indirectamente relacionadas com actos de violência doméstica, dá-nos uma fotografia de uma realidade que nos ofende na nossa dignidade humana enquanto pessoas, e na nossa condição de cidadãos portugueses."

2005-11-24

Aos que se acham puros:

Carta aos Puros

Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à ideia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antónimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.

Ó vós, falsos catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.

Vinícius de Moraes in Para viver um grande amor

O Vaticano e a política da avestruz:

Junto-me a ti CA

A posição deste documento revela uma confusão de ideias e preconceitos e uma ignorância sobre a realidade das pessoas que me envergonha profundamente. É necessário andar muito longe dos caminhos de Cristo para escrever uma trapalhada tão grande.
Assim, enquanto católico, quero pedir desculpa a todas as pessoas por este documento. Não peço desculpa só aos homossexuais pois estes documentos prejudicam gravemente a todos, homossexuais e heterossexuais, celibatários e casados, adultos, jovens e crianças.

Abolição da pena de morte

"Comunidade de Santo Egídio lidera mobilização mundial contra a pena de morte

Trezentas cidades se unirão contra a pena de morte em 30 de novembro ROMA, quarta-feira, 23 de novembro de 2005 (ZENIT.org).-

A Comunidade Santo Egídio está a preparar uma grande mobilização para abolir a pena de morte, considerada «imoral e inútil», segundo explicou o responsável por este movimento eclesial, Mario Marizziti. Marazziti apresentou esta quarta-feira, na sede da comunidade, os actos nos quais se unirão trezentas cidades de todo o mundo com Roma em defesa do carácter inviolável da vida humana. Segundo o expoente da Comunidade, será a maior «mobilização internacional realizada até agora para deter no mundo as execuções capitais». Em particular, «estamos trabalhando para acompanhar os países africanos a que renunciem à pena capital e fazer que a África seja o segundo continente, depois da Europa, a ter abolido a pena», explicou o responsável da Comunidade de Santo Egídio, criada em Roma em 1968 pelo historiador Andrea Riccardi. «Consideramos que a pena de morte é a grande derrotada na cultura da vida», afirmou Marazziti. Para 30 de novembro, está fixada em Virgínia (Estados Unidos) a execução número mil desde que esta prática foi reiniciada em 1977, «uma rêmora atroz do passado, como eram a escravidão e a tortura», afirmou o porta-voz de Santo Egídio. Entre os actos da mobilização, está previsto um encontro sobre direitos humanos e África, do qual participarão catorze ministros de justiça de países africanos, em 28 de novembro, no Auditorium de Roma. A maioria deles pertence a países que não aboliram ainda a pena capital. No mesmo Auditorium de Roma acontecerá, em 30 de novembro, outros actos em colaboração com a Coalizão Mundial contra a Pena de Morte. Haverá conexões, entre outros, com irmã Helen Préjean (a religiosa que inspirou o filme «Death Man Walking», a advogada e comissária para os Direitos Humanos Vera Chirwa, de Malaui, e condenados inocentes ao braço da morte. Também falará o prêmio Nobel para a Paz de 1984 Desmund Tutu. As cidades que aderiram à Jornada Internacional «Cidades para a vida, cidades contra pena de morte» iluminarão essa noite alguns de seus monumentos simbólicos para dizer «não» à pena de morte. A data de 30 de novembro se decidiu porque recorda a primeira abolição por parte de um Estado soberano da pena de morte, que aconteceu no Grão-Ducado de Toscana, em 30 de novembro de 1786.

México e Chile quiseram aderir à iniciativa, não como cidades, mas como países, revelou Marazziti à imprensa. Atualmente, há 125 países abolicionistas no mundo; outros 57 mantêm ainda a pena capital e 44 são abolicionistas de facto, ainda que mantêm a pena no sistema jurídico. Libéria converteu-se, este ano, no último país a abolir a pena de morte. "

2005-11-23

Para que servem as crianças? III

Mais de 4.000 crianças morrem diariamente porque não têm o mínimo de água potável ou saneamento

A directora Executiva da UNICEF, Carol Bellamy, lembrou que 400 milhões de crianças, ou seja um quinto da população infantil mundial, não dispõem do mínimo de água potável que precisam para viver.
O mínimo necessário para que uma criança possa beber, lavar as mãos da sujidade portadora de micróbios e preparar uma simples refeição são vinte litros de água por dia (aproximadamente dois baldes). Sem isso, as crianças tornam-se presa fácil de doenças que podem ser mortais e que se propagam através da água poluída ou das mãos sujas.
...”O facto de sermos incapazes de proporcionar apenas dois baldes de água salubre por dia a cada criança é uma afronta à humanidade”, afirmou Carol Bellamy. O número de pessoas que morrem por causa da nossa inércia é imenso, e essas mortes são toleradas com um silêncio ensurdecedor.”...

Terra da Alegria

Hoje, na Terra:

"Ou ainda: como posso chegar, prescindindo do apelo a um Absoluto, a dizer que não devo realizar certas acções de modo algum, a preço nenhum e que outras, no entanto, devem ser realizadas custe o que custar?(...)

Certamente que eu gostaria muito que todos os homens e as mulheres deste mundo, mesmo aqueles que não crêem em Deus, tivessem claros fundamentos éticos para operar com rectidão e agissem em conformidade com eles."

Cardeal Carlo Maria Martini a Umberto Eco

2005-11-22

Para que servem as crianças? II

Segundo um Comunicado da UNICEF de 21 de Fevereiro de 2005

A pobreza e a falta de instrução obrigam uma em cada 12 crianças do mundo a sujeitar-se às piores formas de trabalho infantil
Um novo relatório lançado pelo Comité do reino Unido para a UNICEF sobre a exploração do trabalho infantil a nível global, afirma que uma em cada doze crianças do mundo (180 milhões) estão envolvidas nas piores formas de trabalho infantil – trabalho perigoso, escravatura, trabalhos forçados, nas forças armadas, exploração sexual com fins comerciais e noutras actividades ilícitas. 97% destas crianças vivem nos países em desenvolvimento.
O relatório mostra que as crianças são arrastadas para o mundo do trabalho e da exploração devido à pobreza e à falta de educação adquada, factores que estão a ser exacerbados pelos efeitos do VIH/SIDA.As crianças tornam-se vulneráveis a este tipo de exploração quando o ambiente que as rodeia – na família, comunidade ou a nível do estado – não foi capaz de as proteger devidamente.”...

Para que servem as crianças?

"Dados sobre as crianças nos conflitos armados

As directrizes da União indicam que, no último decénio, os conflitos armados custaram a vida a mais de 2 milhões de crianças, mutilaram 6 milhões, tornaram órfãs 1 milhão e deram lugar a cerca de 20 milhões de crianças deslocadas ou refugiadas. As estimativas actuais falam da existência de cerca de 300 000 meninos-soldados no mundo. Entende-se por meninos-soldados os rapazes e raparigas com menos de 18 anos que façam parte de um exército regular ou de um grupo armado, mesmo que não usem armas. A idade média de recrutamento das crianças-soldados situa-se em redor dos dez anos. "

2005-11-21

"Reconheçamos: as crianças são inúteis..."

..."Claro, se a coisa importante é a utilidade social temos de começar reconhecendo que a criança é inútil, um trambolho. Como se fosse uma pequena muda de repolho, bem pequena, que não serve nem para salada e nem para ser recheada, mas que, se propriamente cuidada, acabará por se transformar num gordo e suculento repolho e, quem sabe, um saboroso chucrute? Então olharíamos para a criança não como quem olha para uma vida que é um fim em si mesma, que tem direito ao hoje pelo hoje... Ora, a muda de repolho não é um fim. É um meio. O agricultor ama, nas mudinhas de repolho, os caminhões de cabeças gordas que ali se encontram escondidas e prometidas. Ou, mais precisamente, os lucros que delas se obterão...utilidade social.

Reconheçamos: as crianças são inúteis...

Entre nós inutilidade é nome feio. Já houve tempo, entretanto, em que ela era a marca de uma virtude teologal. Duvidam? Invoco Santo Agostinho, mestre venerável que declara em De Doctrina Christiana: "Há coisas para serem usufruídas, e outras para serem usadas." E ele acrescenta: "Aquelas que são para serem usufruídas nos tornam bem-aventurados." Coisas que podem ser usadas são úteis: são meios para um fim exterior a elas. Mas as coisas que são usufruídas nunca são meio para nada. São fins em si mesmas. Elas nos dão prazer. São inúteis.

Uma sonata de Scarlatti é útil? E um poema? E um jogo de xadrez? Ou empinar papagaios?

Inúteis.

Ninguém fica mais rico.

Nenhuma dívida é paga."...

Ler o resto aqui

Rescaldo de um fim de semana...

Acolhimento frio, desconfiado. Adivinham-se os pensamentos: " Há tantos anos que andamos nisto, o que é que se pode aprender de novo?" Ou ainda: "De (...) pode vir alguma coisa boa?"
À medida que se vão apresentando os temas, surgindo os diálogos, os sorrisos vão aparecendo, os olhares tornam-se mais atentos, as "formadoras", também vão "soltando o ar do peito", readquire-se a confiança. No último momento de oração, já prevalecem as acções de graças, o reconhecimento de que muito há a aprender e a fazer. Pede-se a força do Espírito para quem deixou a família e se dispôs a partilhar o tempo e os saberes. O "clima" já é de família reunida e unida.
Fica-se sempre com a sensação de que é preciso fazer muito mais, dá-se o tempo e tudo o resto por bem empregue, porque a recompensa que se deseja é apenas essa.
Uma nota muito positiva; foi muito consolador encontrar um padre com mais de setenta anos, toda a vida pároco de aldeia, "pegar" na Palavra proclamada, e dar-lhe o devido enquadramento na homilia. Dizia ele, a propósito do evangelho: "Não é por muito se rezar, pela quantidade de participações na Eucaristia, que se manifesta o amor a Deus. Mas, pelo serviço aos irmãos."

Terra da Alegria

"Tolerância é a capacidade de aceitar o diferente. Intolerância é não suportar a pluralidade de opiniões e posições, crenças e ideias, como se a verdade fizesse morada em mim e todos devessem buscar a luz sob o meu tecto"

2005-11-18

Mãe

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti - não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

S. Martinho de Anta, 1 de Junho
Miguel Torga, diário IV

2005-11-17

deus - pai tirano

O jovem seminarista, para o jornalista:

- "Não vim para o seminário porque quis. Foi deus que quis que eu viesse."

Não seria muito grave esta expressão, se ela apenas reflectisse o pensar de um jovem que dá os primeiros passos da sua vocação. Já é grave, porque é com ela que, os mais velhos no caminho, lhe orientam os passos.

Que deus é este, a quem um jovem está disposto a entregar a sua vida e não tem em conta a sua vontade?
Ou é a formulação que está mal feita? E deveria ser assim: "Eu amo a Deus, quero amá-Lo ainda mais. Por isso; entrego-Lhe a minha vida que é o bem mais precioso que tenho. Quero usá-la totalmente aos serviço dos meus irmãos, sobretudo; os mais pobres, os que não se sentem amados, os que estão sós. Sei que este amor que vivo é muito frágil, preciso da Igreja, dos meus irmãos na fé para continuar.
Descobri que sou amado por um Amor maior, quero viver nesse Amor, com os que crêem, com os que vacilam, com o s que crêem no Bem, na Paz, na capacidade do Homem de continuamente se recriar.
Sinto que sou muito querido por Deus. Quero que a minha vida seja a expressão dessa ternura." Amén, diria eu.

repescado dos comentários:

"A mulher é tida na Igreja, como a criada do padre" (Abbé Pierre), falando claro; não é apenas a mulher - são todos os chamados "leigos".

...A frase do Abbé Pierre e o teu alargamento aos leigos, são brilhantes - tocam numa ferida que, em nome de Cristo, me parece ser imperioso remexer. (Vítor Mácula)

2005-11-16

Para o Vítor

Algo se me assemelha

Algo se me assemelha
e me quer para si


me desembainha
quando menos espero


Distorção do espírito
para a morte


como o corpo num salto
irremediavelmente
lento
e
alto


Luiza Neto Jorge

Terra da Alegria

Na Terra da Alegria, o Timshel propõe a leitura e reflexão de uma carta de Umberto Eco ao cardeal Carlo Maria Martini.

Por isso considero que, nos seus pontos fundamentais, uma ética natural — respeitada na profunda religiosidade que a anima — poderá encontrar-se com os princípios de uma ética assente na fé na transcendência, que não pode deixar de reconhecer que os princípios naturais foram esculpidos no nosso coração com base num programa de salvação. Se permanecerem, como decerto permanecerão, margens não sobreponíveis, não será diferente do que acontece no encontro entre religiões diferentes. E nos conflitos de fé deverão prevalecer a caridade e a prudência.

ainda sobre o Congresso da Nova Evangelização:

Dois posts interpelantes, do Manuel Pinto no Religionline.

Porque é que a evangelização há-de ser apenas de uns para os outros? Porque é que não poderá passar (muito) pelo escutar, pelo estar? No fim de contas, porque não há-de haver - também - uma acção evangelizadora de sentido inverso, feita a partir dos outros, do "mundo"? Se a mensagem (os apelos, os sonhos, as riquezas, as angústias) que nos chega permanentemente de quem nos rodeia não é escutada e acolhida, acaso poderemos acreditar que esses escutem quem lhes diz que tem para eles uma boa nova?

2005-11-15

quem dá o que tem...

Num Jornal:

VIÚVO

Com casa quente, deseja conhecer mulher livre,
de bons sentimentos que guie carro.
Tel.:..........

impressões...

há mais de quarenta anos
neste deserto
visíveis apenas
os círculos
dos meus passos
e a luz

Tenho saudades...

Tenho saudades do calor ó mãe que me penteias
Ó mãe que me cortas o cabelo - o meu cabelo
Adorna-te muito mais do que os anéis

Dá-me um pouco do teu corpo como herança
Uma porção do teu corpo glorioso - não o que já tenho -
O que em ti já comtempla o que os santos vêem nos céus
Dá-me o pão do céu porque morro
Faminto, morro à míngua do alto

Tenho saudades dos caminhos quando me deixas
Em casa. Padeço tanto
Penso tanto
Canto tão alto quando calculo os corpos celestes

Ó infinita ó infinita mãe

Daniel Faria - Dos líquidos

2005-11-14

Parabéns! Parabéns!

Para um querido alemão, quase português, os meus votos de continuação de muitos e bons posts.

Que papel para a mulher?

Entre os diferentes carismas que enriquecem a Igreja de Lisboa, quero referir um de que pouco se fala e pode exercer papel decisivo na renovação da Igreja e da missão: refiro-me ao carisma feminino, à maneira feminina de ser cristão, de rezar, de amar, de servir, de anunciar. Alguém me disse um dia que uma das ameaças que pesa sobre a Igreja dos nossos dias é o risco de perder a mulher. Seria, de facto, uma grave perda, para a Igreja e para a mulher.

D. José Policarpo - Homilia de encerramento do ICNE-Lisboa

Terra da Alegria

É a Terra da Alegria! Hoje, com a companhia da Helena.

2005-11-12

Mt 25, 14-30

A parábola dos talentos é sem dúvida o texto principal entre os três de hoje. Um comentário pastoral a esta leitura poderá ser feito pelo caminho habitual deste texto: Mateus acaba de falar da vinda futura do Filho do Homem para o juiz, e a continuação nos diz quais são as atitudes adequadas diante dessa vinda, a saber: a vigilância (parábola das dez virgens) e o compromisso da caridade (parábola dos talentos e do juiz das nações). A parábola dos talentos é, neste contexto interpretativo, um elogio do compromisso, da efectividade, do trabalho, do rendimento. Poderá ser aplicada com muito proveito ao trabalho, à profissão e às realidades terrestres, ou compromisso secular...
Sem dúvida, o contexto do momento histórico que vivemos é tal que esta mensagem, em si mesma boa e até ingénua, pode ser funcional à ideologia actualmente dominante, o neoliberalismo. Este, com efeito, prega, como grandes valores seus, a eficácia, a competitividade, a criação de riqueza, o aumento da produtividade, o crescimento económico, os altos rendimentos de interesses bancários, a inversão nos valores, etc. São nomes modernos bem adequados para o que se apresenta na parábola, utilizados na homilia, não poucos ouvintes pensarão que o orador sagrado tenha saído de sua competência... Por uma casualidade do destino, esta parábola faz bem actual, e os teólogos neoconservadores (também tem “neocons” em teologia) a valorizam altamente. Algumas de suas frases, sem necessidade sequer de interpretações rebuscadas, valorizam directamente princípios neoliberais. Pensemos, por exemplo, no enigmático versículo de Mt 25,29: “Ao que produz se dará e terá em abundância, mas o que não produz, tirará até o pouco que tem”. Não será fácil fazer uma pregação aplicada que não faça o jogo de um sistema que, para muitos cristãos de hoje, está em oposição aos princípios cristãos.
A eficácia, a produtividade, a eficiência em princípio não são maus. Diríamos que não são valores em si mesmos, senão “qualificações” que podem ser aplicadas a outros valores. Podem ser eficientes em muitas coisas e muito distintas (algumas boas e outras más) e com algumas intenções muito diversas (más e boas também). A eficácia em si mesma, abstraída de sua aplicação e de sua intenção... Não existe, ou não nos interessa. O juizo que fazemos sobre a eficácia dependerá, pois da matéria à qual aplicamos essa eficiência assim como o do objectivo para o qual se oriente.
Toca-nos então imaginar uma “eficiência” (agrupando neste símbolo vários outros valores semelhantes) cristã. O mesmo evangelho a apresenta em outros lugares, em sua celebre inclinação até a práxis: Nem todo o que diz ‘Senhor, Senhor’, senão o que faz..., a parábola dos dois irmãos, mais bem aventurados os que ouvem a Palavra e a põe em prática... e mais paradigmaticamente, o mesmo texto que continua ao de o hoje, o qual meditaremos no próximo domingo, Mt 25,31ss, onde o critério do juiz escatológico será precisamente o que fizemos efectivamente aos pobres...
A eficiência aceitada e até encomendada pelo evangelho é a eficiência “pelo Reino”, a que está posta a serviço da causa da solidariedade e do amor. Não é a eficiência do que busca aumentar a rentabilidade (reduzindo trabalhadores pela adoção de novas tecnologias), ou a do que procura conquistar mercados (reduzindo a capacidade de auto-subsistência dos países pequenos), ou a do que procura lucros fantásticos por inversões especulativas do capital.
A eficiência pela eficiência não é um valor cristão, nem sequer humano. Talvez seja certo que o capitalismo, sobretudo na sua expressão selvagem actual, seja “o sistema económico que mais riqueza cria”, mas não é menos certo que o faz aumentando simultaneamente o abismo entre pobres e ricos, a concentração da riqueza à custa da expulsão do mercado de massas crescentes de excluídos. O critério supremo, para nós, não é uma eficiência económica que produz riqueza e distorce a sociedade e a faz mais desequilibra e injusta. Não só de pão vive o ser humano. De maneira cristã não podemos aceitar um sistema que a favor do ( ou em culto a) crescimento da riqueza sacrifica (de modo idolátrico) a justiça, a fraternidade e a participação de massas humanas. Colocar a eficiência por cima de tudo isto, é uma idolatria, a idolatria do culto do dinheiro, verdadeiro deus neoliberal.
Não, não é, pois que nós não queiramos ser eficientes, competentes (mais que competitivos), e que não sejamos partidários da maior eficácia no serviço do Reino, assim como a competência e a qualidade total no serviço ao Evangelho. (In ordinariis non ordinarius, dizia um velho adágio da ascética clássica, querendo levar a qualidade total aos menores detalhes da vida ordinária ou oculta).
Também no campo da economia teórica – sobretudo nesta hora – necessita-se o compromisso dos cristãos.
Jesus lamentou-se de que os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz, isto significa que a “esperteza” (outro tipo de eficácia) não é má; o mal é colocá-la a serviço das trevas e não da luz.


Serviço Bíblico Claretiano

2005-11-11

hoje...

...acordei bonita! Ninguém me disse. Sou eu que sei.

mais um pouco...

Diz-se, algumas vezes, que na hóstia consagrada, o Corpo de Cristo substitui o pão: é uma heresia. Se procedêssemos, num laboratório, à análise química duma hóstia consagrada, não encontraríamos nela senão os elementos que compõem o pão. É por isso que a expressão clássica emitida no Concílio de Trento - "transubstanciação", isto é, mudança da substância do pão na substância do Corpo de Cristo - já não se pode empregar sem ser longamente explicada. Porque o termo substância já não tem actualmente o sentido que tinha no século XVI.
Dizer que Cristo substitui o pão, equivaleria a afirmar que Deus Se encarna para substituir o homem, como se Ele dissesse:tira-te daí, para que eu Me meta, porque tu não serves para nada! A tua vida, as tuas fadigas, a tua gravidez, a educação dos teus filhos, tudo isso é quase nada; mas Eu estou aqui para ocupar o teu lugar! Se Cristo ocupasse o lugar do pão, seria abominável. Um Deus assim, que se faria homem para substituir o homem, não existe, e se eu tivesse que acreditar num Deus assim, fiquem sabendo que seria ateu. Os "mestres da dúvida", Marx, Nietzsche, Freud, para falar como Ricouer, teriam razão para desconfiar que a fé é uma vasta mistificação ou alienação. É a minha dignidade de homem que me proíbe de acreditar que Cristo vem substituir-me.
Cristo não substitui o pão, assim como a mulher não substitui a menina. É a menina que se torna mulher. Não é a borboleta que substitui a lagarta: é a lagarta que se torna borboleta. Não é um outro que vem ocupar o meu lugar: é o mesmo que se torna outro. Quanto a mim não gosto de ouvir falar de outro mundo, porque, rigorosamente falando, não existe outro mundo. O mundo da nossa vida eterna é o mundo, sem mais, mas que se torna outro....
...Se o pedaço de pão que eu levo ao altar não for o homem, a Eucaristia não tem qualquer significado, a não ser o de um Cristo que cai do céu num pedaço de pão para se tornar nosso alimento, no sentido em que isso nos consola, nos fortalece, nos permite lutar contra as tentações: voltamos a cair num moralismo infantil, que os nossos comtemporâneos não poderão aceitar. A verdade é que toda a história do homem se converte no corpo de Cristo. E é quando o homem se converte verdadeiramente no Corpo de Cristo, que ele se torna plenamente homem.
Portanto, Cristo está presente não como alguém que cai do céu, mas como fruto da transformação divinizante que Ele opera nesse mistério mais central da nossa fé, a Eucaristia. A hóstia consagrada não é só Cristo, mas também o homem cristificado.

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver

2005-11-10

tentativa de reabilitar a classe:

Hoje li num e-mail: "É uma sogrinha espectacular!"

ICNE

Ecos...Epifania...Testemunha

porque sim...

Para o Zé

Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.

Adélia Prado

2005-11-08

Eucaristia/Encarnação

A Eucaristia é o sacramento de Cristo que se dá em alimento aos homens para os transformar em Si mesmo e, desse modo, constituir o Corpo místico que é a Igreja. Deus cria a humanidade para desposá-la e desposa-a ao encarnar-Se. Desposar no sentido mais genuíno, isto é, não ser senão uma só carne com ela. Sabemos que o desejo profundo do amor conjugal não se sujeita ao abraço de dois corpos que fiquem exteriores um ao outro. O desejo do amor é a fusão, sem confusão, na qual cada um já não quer subsistir senão para deixar-se consumir pelo outro. O homem e a mulher nunca conseguem realizar o desejo do seu amor, porque os seus corpos que são os instrumentos da sua união, são, ao mesmo tempo, obstáculos à união total. O seu desejo não se realiza porque implica uma morte à natureza e à história. É preciso morrer a esta natureza que faz com que fiquemos exteriores uns aos outros e que, mesmo os momentos de união íntima, não sejam a fusão verdadeiramente total e não durem senão um momento. Tornar-se verdadeiramente a carne da carne daquele que eu amo, exige a morte.

É o grande sonho do romantismo alemão: na ópera de Wagner, Tristão e Isolda cantam que não poderão conhecer a plenitude do amor senão pela morte. No segundo acto, o amor e a morte entrelaçam-se nos temas musicais admiráveis e acabam por ser indiscerníveis um do outro. É muito belo, mas acaba por ser absurdo, porque a morte não realiza o amor. Antes lhe põe um obstáculo brutal. É por isso que, neste mundo, o desejo profundo do amor nunca se realiza em plenitude. Entrar no amor é entrar na alegria, mas também entrar no sofrimento.

Cristo, porque é Deus e sem pecado, pode renunciar ao seu ser natural e histórico imediato. Pode morrer para o mundo das limitações corporais sem deixar de ser, para a humanidade, o Esposo que se dá. É por isso que, para além da morte, e só para além da morte, Cristo realiza o desejo supremo do amor. Cristo, morre e ressuscita, faz-Se Ele mesmo alimento, a fim de se tornar verdadeiramente carne da carne da humanidade. Deus, na Eucaristia desposa verdadeiramente o homem. Na base do mistério eucarístico, encontra-se esta ideia de alimento, absolutamente essencial.

A Eucaristia não é, pois, unicamente uma refeição que tomamos juntos e em que nos unimos uns aos outros. Esse aspecto é certamente importante mas insufuciente. A união, antes de ser a dos homens pela refeição partilhada, é, em primeiro lugar, a união de cada um com Cristo que se dá em alimento. Como consequência disto, Cristo une entre eles os que comungam.

Para compreender isto, devemos estar persuadidos de que a Eucarnação de Deus não se termina em Cristo mas em toda a humanidade. Enquanto imaginarmos que a Encarnação é Deus que Se une a um homem chamado Jesus, não compreendemos nada. O âmago das coisas é que Deus Se une e desposa a humanidade através de Cristo. Deus fez-se homem para que todos os homens sejam divinizados. A Eucaristia é a universalização da obra de Cristo.
O que é primordial na Eucaristia, não é simplesmente a presença de Cristo. Cristo não está ali por estar: está ali para se nos dar em alimento, a fim de que a nossa união com ele seja a mais completa possível. A Eucaristia não é, em primeiro lugar, uma presença, mas uma união. E a união exige a presença.

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver

Eucaristia

Mi Cuerpo es Comida

Mis manos, esas manos y Tus manos
hacemos este Gesto, compartida
la mesa y el destino, como hermanos.
Las vidas en Tu muerte y en Tu vida.

Unidos en el pan los muchos granos,
iremos aprendiendo a ser la unida
Ciudad de Dios, Ciudad de los humanos.
Comiéndote sabremos ser comida,

EI vino de sus venas nos provoca.
El pan que ellos no tienen nos convoca
a ser Contigo el pan de cada día.

Llamados por la luz de Tu memoria,
marchamos hacia el Reino haciendo Historia,
fraterna y subversiva Eucaristía.


D. Pedro Casaldáliga

2005-11-07

Novas soluções...

Depois do fracasso das duas formas de se organizar a sociedade moderna – o capitalismo liberal e o socialismo estadista – temos que nos perguntar que novas formas de nos organizarmos, de modo que seja justa e equitativa a distribuição de riqueza.
Temos que vislumbrar um modo de organização da sociedade onde a economia esteja ao serviço da pessoa e não o contrário.

Vai realizar-se em Fortaleza, no Brasil, de 8 a 12 de Novembro o Seminário Internacional de Socioeconomia Solidária com o tema: uma outra economia é possível.
Está assim em experimentação para além do socialismo estadista uma outra via para a ruptura com a hegemonia do capital nas empresas e na sociedade como um todo, buscando viabilizar um outro tipo de sociabilidade em que a economia esteja ao serviço das necessidades reais das pessoas e da construção de relações integramente humanas: é a substituição respectivamente do mercado e o Estado totais pela gestão colectiva dos meios de produção, executada pelos produtores livremente associados, portanto, uma economia sob o controlo social que tem na solidariedade o seu valor ético fundamental....
....Nesta proposta, não se propõe nem o fim do mercado nem do Estado, mas a tarefa é repensá-los, enquanto formas de relação social, e reconfigurá-los e controlá-los pelos cidadãos que se fazem sujeitos da economia e da política através de novas instituições. Isto significa que as relações através das quais eles são interconectados são substancialmente modificadas passando de relações sociais inconscientes e automáticas para relações socialmente gestadas. Na esfera da economia, isto significa que os produtores associados regem conscientemente o seu intercâmbio com a natureza, isto é, o planeamento, a produção e distribuição de bens é um processo orientado por um controlo social....Aqui o ser humano na comunidade de pessoas se põe como sujeito da vida social e abre espaço para a efectivação das suas potencialidades essenciais, pois deixa de ser simplesmente uma peça no sistema.
Este processo precisa ser o resultado de consensos dialogados em torno de objectivos, projectos, valores e modos de acção comuns.


Manfredo Araújo Oliveira, Doutor em Filosofia e professor na Universidade Federal Ceará.

Adenda: O comentário do Vitor Mácula ajuda, clarifica, completa, orienta o sentido do presente post:
Uma suspeita que me interpela é a de muitos problemas serem anteriores à noção e acção diversa tanto do “capitalismo neoliberal” como do “socialismo estadista”. E que na base de ambos esteja, não só mas também, a mesma estrutura de dominação e poder das formas que nos configuram o pensamento, a acção, a relação social, cultural, política, etc. Neste ponto, não se trata de propor uma terceira via, mas sim de interrogar a estrutura dominante e comum a ambos: o que é que produzimos, que formas culturais estão subjacentes a todos os nossos pensares e fazeres, o que é que está por trás da nossa noção e acção de “riquezas”, de distribuição desta, enfim… Não sei se é distribuindo melhor a produção destrutiva de bens de consumo (inclusive os de sobrevivência) que o problema da violência social e ecológica se dissolverá… Porque no fundo é uma questão cultural do mais profundo sentido: enquanto continuarmos a pensar, a olhar o mundo e a natureza, e sobretudo a problematizar e pensar, a partir do mesmo modelo antropológico do ter e ser, estaremos apenas a aperfeiçoar e a agudizar o fundo do problema. Mesmo que aparentemente conseguíssemos melhorar a vida daqueles que não são tão favorecidos pela “redistribuição”. Integrar os marginais, individuais ou colectivos, é intensificar o poder do espírito que anima e move a nossa gloriosa cultura humana globalizada, e cujos resultados estão à vista. No limite, tornar yuppies os toxicodependentes e diversos sem-lar, ou liberalizar e tecnologizar as diversas formas sociais que se sufocam em diversos lugares do mundo… enfim… é evidente que estou a delirar confusamente, como de costume.Delírios que conduzem a impasses e não-soluções “à mão”, mas que tanto me indicam sobre a verdade do que sou, e porventura do que somos.Claro que, dadas as coisas como estão e são, sou a favor prático de toda a redistribuição que amenize dores no imediato próximo ou longínquo, assim como de uma reorganização da estrutura ideológica e cultural que orienta as concepções e decisões económicas e outras.

Terra da Alegria

O Zé Filipe, traz-nos uma declaração dos bispos franceses, sobre os incidentes violentos que estão a acontecer em França.

2005-11-05

Para outra humanidade, outra comunicação

Ser pessoa é ser relação. Ser relação é ser comunicação. Somos sempre um "nós". Viver é conviver. E conviver é comunicar-se.

A capacidade de comunicação da Humanidade vai sendo cada vez mais universal e mais imediata, na medida em que a Humanidade vai-se sentindo mais "una" e são mais os meios de comunicação e sua técnica é mais criativa. As distâncias se encurtam e, de todos os rincões da nossa casa comum, que é a Terra, podemos nos tornar presença sensível.

Mas sucede que, muito antes de inventar qualquer tipo de técnica de comunicação, a Humanidade já tinha inventado o egoísmo e a hybris da dominação e os recursos malignos da mentira.

Hoje o capitalismo neoliberal, prepotente e excludente, que se apodera de tudo para fazer de tudo mercado e lucro, tem se apoderado, quase totalmente, da comunicação. Quem tem o capital tem a comunicação e a manipula e a explora e distorce. Por cima de todas as fronteiras, atropelando os mais legítimos direitos, apoderando-se da verdade, impondo como única e universal "sua" verdade: o pensamento único, o único sistema sócio-econômico, uma história definida e inevitável.

Nós nos negamos a aceitar o jugo. Cremos, até pela mais entranhada necessidade, que outro mundo é possível. Queremos ser a Humanidade una, mas de outro modo, na liberdade e na igualdade, na convivência pacífica e na pluralidade complementar. A Humanidade neoliberalizada não encaixa em nossos sonhos nem encaixa nos desígnios de Deus. Somos, queremos, vamos fazendo, outra Humanidade....

D. Pedro Casaldáliga - Adital



2005-11-04

coisas que me fazem mal:

ir ler o blog Blasfémias. O CAA a armar-se em irónico sobre os incidentes em França, pôs-me a soltar expressões nada próprias, para um jardim sossegado, como este. Ele que brinque. O neoliberalismo está de facto a levar-nos muito longe. Mas, no quintal dele está tudo bem, não é?

A vida...

...A vida é o maior dom de Deus. Ninguém escolhe quando, onde e como nascer. É a lotaria biológica. Injusto é uns nascerem em condições dignas de viver e outros não. E isto não é culpa de Deus. É o resultado de nosso apego, de nossa ganância e, sobretudo, de nossa falta de memória de que, dentro de poucos anos, seremos também lembrados no Dia dos Mortos - que habitam a morada na qual se entra sem levar nada deste mundo, excepto o que se traz no coração.

Frei Betto

Sei...

Sei bem que não mereço um dia entrar no céu

Mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra

Daniel Faria

2005-11-03

Que lata!

Se alguma das minhas amigas leitoras quiser dar o troco, usem aqui a caixa de comentários. O malvado, não tem. Eu, estou sem palavras.

Aproximar é preciso!

Para que não fiquemos, apenas, nas intenções e nas palavras, divulga-se um projecto realizável, para tornar próximo quem está longe: Proximizade!

O essencial...

O que eu gostava é que os cristãos fossem capazes de responder em duas linhas à pergunta: afinal, em que é que acreditam? E, da mesma maneira, gostaria que o não-crente pudesse responder em duas linhas à pergunta: o que é que tu não crês?; em que é que, exactamente, recusas acreditar?

Aquilo em que nós acreditamos é a resposta que Deus dá à interrogação ineludível sobre o sentido da existência! Diz santo Ireneu:"Deus homo factus est ut homo fieret Deus", quer dizer:"Deus fez-se homem para que o homem se torne Deus".
Se ao ouvirem esta pequena frase, acharem que há nela exagero, significa que ainda não captaram o essencial da fé.
Já reflectiram suficientemente de modo a compreender que, se não fosse assim, a Encarnação de Deus não passaria de uma visita de Deus à terra?...
...Se não fosse assim, teríamos que afirmar que Deus nos pediu o nosso traje humano para aparecer entre nós durante algum tempo, para nos pregar uma moral, depois disso, subiu ao céu, desde onde vigia o modo como procedemos cá na terra, a fim de nos recompensar, se praticarmos as virtudes cristãs, ou de nos castigar, se preferimos viver no pecado: estamos em plena mitologia!
Não se admirem de que os nossos contemporâneos, e mais particularmente os jovens, se recusem categoricamente a acreditar nisso. Se isso é a fé, o dever dum homem inteligente é sair dela o mais depressa possível.

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver

2005-11-02

impressões...

Hoje, precisava de quem me carregasse o coração

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14, 1-6)

Diz-nos Jesus que é o caminho para a casa do Pai. De imediato, isto não quer dizer que basta pertencer a esta ou àquela religião para se acertar o passo com o caminho que Jesus é. O evangelho mostra-nos o que é percorrer o caminho de Jesus - é fazer as obras que Ele faz. Para o Cristão, seguir Jesus, não é simplesmente imitá-lo. Não existem caminhos predefinidos. Cada dia é novo, cada vida é única.
O seguimento de Jesus, não será garantido por nenhum ritualismo ou lei, mas pelo encontro com Deus em todos os homens e mulheres que caminham connosco. Todo o gesto, palavra de acolhimento que tivermos uns com os outros será caminho de verdade e vida.
Seguir o caminho de Jesus é caminhar pela vida levando todos no coração, mesmo que tantas vezes, isso seja sinónimo de cruz. O caminho de Jesus não é para gente acomodada. É para gente que reconhece a radicalidade de viver cada dia como se fosse o primeiro.

Hoje, na Igreja Católica, celebramos os fiéis defuntos, tantos homens e mulheres, alguns por quem choramos de saudade, que foram nesta vida presença de Deus. Alguns sem o saberem, mas a todos eles, Deus quer para Si.

Terra da Alegria

Abundância na Terra!
Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que não me esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete

A única glória do mundo - ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea - a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separarda. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor - várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas - pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como pinhas fechadas

Caem - quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira - e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança.

Daniel Faria