2005-11-02

Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único
Recado que repito para que não me esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete

A única glória do mundo - ouvir-te. Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea - a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separarda. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor - várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas - pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como pinhas fechadas

Caem - quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira - e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança.

Daniel Faria

4 comentários:

  1. Daniel Faria. Gosto muito. Uma vida cheia, uma poesia fortíssima e- mas não digo isto para te chocar- uma morte inútil, onde é difícil perceber algo mais que o acaso.

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  2. Luis, tu não me chocas nunca. Sei que tudo o que me disseres será a tua verdade. Fica à vontade para dizeres aqui o que quiseres.
    Quanto a Daniel Faria, descobri-o um dia numa reportagem do "Mil folhas" desde então traz-me "presa". Em família já conseguimos comprar toda a obra dele, editada.
    O mistério da morte é uma presença muito constante em Daniel Faria, penso que ele sabia, mais do que eu sei, que na morte está a Vida. Não te sei falar desse mistério, mas é nele que vou moldando a minha vida. A sede de Deus, presente na poesia de Daniel Faria, quero eu conhecê-la.
    Falas de acaso e morte inútil. Eu ao contrário dasquilo que normalmente se diz, cada vez acredito menos que Deus é que determina a hora da nossa morte. Ela acontece quando tem que acontecer. No caso de Daniel Faria, acho que ele a desejava ardentemente.
    Não te sei dizer mais, mas há mortes que me "tocam" muito, esta é uma delas.
    Abraço para ti.

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