2005-12-30

Venha o 2006!

"...Porque eu me imaginava mais forte.
Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado:
pensava que, somando as compreensões, eu amava.
Não sabia que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. "

"...Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.
É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade

ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda..."

"...E é porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando.
É porque sempre tento chegar pelo meu modo.
É porque ainda não sei ceder.
É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria e não o que é.
É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele..."

Clarice Lispector - Felicidade Clandestina - (Perdoando Deus)


Passado mais um ano, não me detenho em balanços. Não é o tempo que marca o meu ritmo. Também não faço projectos, nem tomo resoluções. Vivo!
Só me falta uma coisa: ainda não aprendi a amar a morte.

2005-12-29

Jesus, um homem bom?

Pergunta o ON: "Cristo era apenas um homem bom?". Essa pergunta tem sido feita ao longo dos anos, desde o facto; Jesus de Nazaré. Nos primeiros séculos do cristianismo, deu lugar a várias heresias. Até que a Igreja definiu como dogma a dupla natureza de Jesus - divina e humana. Mas, como todos os dogmas, a pergunta mantém-se. E a resposta continua a ser uma resposta de fé.
Há imensa reflexão teológica acerca de Jesus. Há também a reflexão feita por crentes de outras religiões. Como cristã católica, respondo a esta pergunta, servindo-me da minha relação pessoal com O Ressuscitado, em quem creio.

Diz, Leonardo Boff no livro "Jesus Cristo Libertador":"A interpretação histórico-crítica de Jesus possui suas limitações. Ela erui o que Mateus, Marcos, Lucas, João e Paulo pensaram sobre Jesus. Ela é ainda por demais obectiva. Nem precisa pressupor a fé do pesquisador. Ela pouco se pergunta pela realidade que se esconde atrás de cada interpretação. O saber histórico acerca de uma pessoa como Jesus e de sua mensagem não se reduz a um compreender à moda das ciências que se orientam pelo esquema sujeito-objecto. O saber científico é neutro, objectivo e objectivante. O compreender, como a palavra com-preender sugere, implica com o sugeito e o prende a ele. Para se compreender uma pessoa, precisa-se ter uma relação vital com ela. Caso contrário a objectivamos e a fazemos objecto de ciência. A pessoa é sempre um sujeito e no fundo um mistério que quanto mais se conhece mais se abre para um horizonte ilimitado. Jesus anuncia realidades que me dizem imediatamente respeito como salvação e perdição, promete-me um futuro absoluto e me confere um sentido radical. Toda e qualquer compreensão envolve por isso sempre o sujeito. Não existe um acesso directo à realidade sem passar pelo sujeito, porque é o sujeito concreto, com seus condicionamentos, possibilidades e limitaçãos que vai ao objecto. Compreender será sempre inevitavelmente interpretar. Somente quem interpreta compreende. Daí que ao compreender, vamos sempre com uma pré-compreensão ao objecto, derivado do nosso meio, da educação e do ambiente cultural que respiramos. Contudo devemos distinguir entre pré-compreensão e pré-conceito. A pré-compreensão vai ao objecto, dando-se conta de seus condicionamentos. Mas está aberta para auscultar a mensagem enviada do objecto. Deixa-se questionar por ela. Busca um encontro entre a pré-compreensão e a compreensão aurida. O pre-conceito vai ao objecto com um conceito já feito e pronto. Julga o objecto e não se deixa julgar por ele."

A minha resposta de fé, à tua pergunta é - Jesus não é somente e apenas um homem bom. É o homem plenamente divinizado. É a natureza humana levada ao Absoluto. Jesus não é apenas um exemplo para nós. Pela sua vida, morte e ressurreição dá-nos a possibilidade, pela nossa adesão a Ele, de sermos o que Ele é.

Isto vai provocar-te outras perguntas, eu cá estarei!

2005-12-28

No me mueve mi Dios para quererte...

No me mueve, mi Dios, para quererte
El cielo que me tienes prometido,
Ni me mueve el infierno tan temido
Para dejar por eso de ofenderte.
Tú me mueves, Señor, muéveme al verte
Clavado en una cruz y escarnecido;
Muéveme ver tu cuerpo tan herido;
Muéveme tus afrentas y tu muerte.
Muéveme, al fin, tu amor, y en tal manera
Que aunque no hubiera cielo, yo te amara.
No me tienes que dar por que te quiera;
Pues aunque lo que espero no esperara,
Lo mismo que te quiero te quisera.

Atribuido a São Francisco Xavier

O Homem moderno perdeu a fé?

"...O Homem moderno vive nesse afastar-se progressivo em relação aos laços com o religioso instituído, para ocupar-se ele mesmo do seu destino, assumir-se por inteiro, ser mestre e senhor das suas próprias escolhas. Ao tornar-se adulto, o Homem moderno recusa a imagem de um deus infantilizante que o escraviza. Perante isto é impossível não nos alegrarmos, à medida que nos afastamos da crença nesse deus que construímos e voltarmo-nos para o Deus do Evangelho.
Morre o deus das religiões, mas não morre o Deus do Evangelho. "

Jacques Gaillot, Partenia

2005-12-27

Jacques Gaillot, bispo de Partenia

Como passam os 40 anos do concílio Vaticano II, foi proferida uma conferência a três vozes para celebrar este aniversário. Um dos frutos do concílio parece-me ser o amadurecimento dos cristãos. Querem viver na sua Igreja o que vivem na vida civil. Cidadãos adultos e responsáveis, apaixonados pela liberdade e habituados ao funcionamento democrático, não aceitam ser cristãos de segunda classe. Como discípulos de Jesus e portadores da sua mensagem, gostam de se encontrar em pé de igualdade, sem títulos e sem precedências. Esta redescoberta está cheia de promessas.
Põem-me uma questão: "São retiradas as liberdades concedidas por Paulo VI aos Franciscanos de Assis. Até ao momento eles promoviam iniciativas de encontros pela paz e justiça que eram uma luz para muitos. A partir de agora têm que entrar nos eixos. Que pensa desta interdição romana?".
O que me interessa não é a interdição, mas os Franciscanos. Que vai ser deles? Vão crescer em humanidade, na sua fé em Cristo? Serão mais evangélicos, artesãos da paz como era S. Francisco? A interdição romana pode tornar-se numa oportunidade.

ressurreições

A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o último poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, não porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez incluídos na vida, os acontecimentos dispõem-se segundo uma ordem que não é cronológica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, lê na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer:"Como podia viver sem o ter lido!" e ainda: "Que pena não o ter lido quando era jovem!". Pois bem, estas afirmações não fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque até a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.

Italo Calvino - Palomar

Eu acrescento, as pessoas que entram na nossa vida, e a partir do momento em que isso acontece, tudo se trasforma.

2005-12-26

"Hoje na terra nasce o Amor..."

Leio esta frase magnífica no blog Assumidamente, e acho que ela condensa de forma sublime a realidade do Natal. Procuro iluminar-me com ela. E nessa luz, compreender e apreender, a semana "violenta" que tive. E que sei, outros tiveram. O Manuel passar o seu primeiro Natal no hospital (ele já está quase recuperado, a mãe é que está "de rastos", nunca o quis deixar e para passar as noites e os dias a seu lado, tem uma simples cadeira para se sentar), as duas irmãs que morreram em Gaia, numa casa sem luz, nem água, os mortos na estrada, os idosos abandonados.
Procuro lembrar-me dela e dizer à Eduarda que está linda nos seus noventa e um anos. E lembro-me dela, quando ouço os ecos das mensagens do Papa, do cardeal Patriarca, do primeiro Ministro. Na homilia da missa de Natal em que participo, procuro concentrar-me nela com afinco (é isso ou desesperar). E vou-a apreendendo, a olhar para a cruz.

notícia de um regresso

O primeiro post depois da celebração do Natal, em que militantemente quebrei todas as tradições. A saber - não comi bacalhau na consoada, peru nem o vi, rabanadas também não! As prendas foram apenas beijos e abraços, e umas mensagens de e-mail, para quem está longe. Nem tão pouco fui à missa do galo. É que uma mulher não é de ferro.
Bom, bom, mas o que eu quero mesmo, é saudar o nosso querido padre do confessionário, que voltou a animar o blog. E para começar, foi mesmo a doer. Ide ver!

2005-12-22

é melhor dar a voz ao poeta...

Natal

Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção.
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe, Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.

Miguel Torga

É com ternura que deixo os meu votos de; Feliz Natal!
Um abraço muito grande, a todos os que por aqui passarem.

2005-12-21

uma pedra no sapato

Anda tudo "desalvoriado", como diz um dos cromos da tv. Uns, é porque o natal é todos os dias. Outros, que não há natal nenhum- há, sim, umas compras, que a época é propícia. E as tradições são para se cumprir, mesmo que seja bovinamente seguir os passos que o mercado nos impõe. Mas, segundo outros, as compras é que estragam tudo. Devia ficar tudo ao calor da lareira, e certinhos, na hora marcada, ir celebrar as liturgias convenientes. E esses, das liturgias e das sagradas tradições, andam muito arrepelados, porque nem toda a gente ajoelha ao pé do menino. Zangam-se, porque não se diz:"Feliz e Santo Natal", apenas: "Boas-Festas" e "Passe Bem". E reclamam;" se não fosse o deus menino, nem sequer tinham um feriado para festejar". "Agradeçam ao cristianismo, as chagas da bandeira, os grandes monumentos, as festas e feriados, convenientemente destribuidos ao longo do ano". Deve-se tudo ao menino do presépio. Mas quem é que liga a um Menino, que feito desmancha-prazeres, vai nascer num povo estranho lá para os lados do Oriente? Não tinha sido mais adquado, nascer bem no centro do Império? Ainda bem, que a Igreja atenta, pôs as coisas no seu lugar. Pois é, a culpa é do Menino; escolhe uma doméstica de nome Maria, para sua Mãe, e para pai de criação, um carpinteiro chamado José. E vai nascer, dizem, numa gruta escondida, um buraco de animais, que só os pastores se dão ao trabalho de visitar. Não faz mal, a Igreja resolve também isso. Temos o Pedro, que é Pedra/Rocha. Contra uma rocha firme, quem é que ousa duvidar? Não, não. Não têm desculpa - os alicerces da Igreja estão bem seguros. Quem não se apoia neles ou está de má-fé, ou é um incréu sem remédio.
Mas o menino cresceu e começou a dizer que o importante não são os locais de culto; " Chega a hora - e é já - em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende". Mas quem liga a um Menino nascido numa gruta? É que, dois mil anos depois, ainda não atinámos com o caminho do presépio. Não importa, se Ele, prevendo as nossas manhas, tivesse avisado: "Então os justos vão responder-lhe:"Senhor, quando foi que te vimos com fome, e não te demos de comer? Ou na prisão, e não te visitámos? Ou com frio, e não te vestimos? Ou desempregado, e virámos-te a cara? Ou doente, e não te visitámos? Ou analfabeto e não te libertámos? Ou quando é que andaste a bater à porta das nossas fronteiras, e te tratámos como lixo? Quando é que te discriminámos por causa do sexo, da cultura, da religião, da orientação sexual, da perda da fé, da desobediência aos nossos critérios e padrões?"
A culpa é do Deus Menino. Quem o mandou nascer pobre e humilde? Dizem que apareceu por lá uma estrela e foi ela que levou ao presépio. Mas nós, homens da ciência, do conhecimento, temos lá disposição para procurar estrelas. Queremos o mistério pronto a consumir.

O louvor perfeito

Alguns realizam prodígios para te agradar, Senhor!
Mas é o amor quem ditará a decisão.
Não é a prática da lei, nem a ascese, nem o canto dos teus louvores,
nem a perfeição da alma,
mas a atenção aos mais pequenos
que nos coloca perto de ti.
Quem se deixa distrair de ti pelo grito do seu irmão,
empurra a porta do teu Reino.
Ocupar-se dos irmãos conta mais
do que correr sempre atrás de ti!

Porque tu tens irmãos, Senhor!
À primeira vista, não os reconhecemos: não têm glória nem brilho,
estão trespassados pela fome, reduzidos ao silêncio,
torturados pela solidão, mirrados pela cancro ou pela sida;
não têm nada mas são da tua família! Do teu sangue!
Contam-se por milhões: chamam-lhes os "pequenos"
porque é realmente pequeno o
lugar que lhes deixaram nesta terra!

Evangelho Quotidiano

2005-12-20

Mais um...

Que entra na campanha.

Vinde, Senhor!

Vinde, Senhor!
Vinde sofrer em nós os tormentos da morte.

Vinde carregar o peso que esmaga os nossos corpos.
Que a vossa Cruz se eleve e acalme nossas lágrimas.
Que o vosso olhar dissipe logo os nossos medos!

Vinde, Senhor!
Morde-nos o frio e a noite não acaba.
Vinde, Senhor, os nossos olhos esperam a vossa aurora.
Que a vossa paz se eleve sobre as nossas dores.
Que ao fogo do Espírito ranasça um mundo que agoniza!

De Evangelho Quotidiano-EAQ

2005-12-19

E agora é para a Helena

A Helena comenta, que tem curiosidade de ver quem vai ou não, para o Céu. Às vezes, perante vidas tão perversas, é perfeitamente verosímil fazermos essas perguntas. Perguntas, para as quais não temos resposta. Sabemos lá, o que nos espera? O único dado que temos é o de um Deus, que não olha a meios para perdoar e se compadecer...
No livro "O sofrimento de Deus", Varillon, citando S. Bernardo, diz o seguinte:
"Eu sei que nesta vida não nos podemos conhecer perfeitamente uns aos outros; se calhar, nem sequer o devemos desejar. Com efeito, se na morada celeste o conhecimento alimenta o amor, aqui em baixo poderia prejudicá-lo, porque quem é que se pode gabar da absoluta pureza do seu coração? Isso constituiria, para aquele que fosse conhecido, uma enorme confusão, e para aquele que o conhecesse uma desagradável surpresa. Só haverá felicidade no conhecimento, onde já não houver imperfeição."

Portanto, querida Helena, a tua curiosidade vai ficar toda cá em baixo. Quando te vires no Céu, apenas te vais alegrar. Por ti, e por todos os outros, contigo.

Não...

...isto não é nenhuma troca de galhardetes. É só para saudar um dos meus blogueiros favoritos. Pode lá, a aprendiz, trocar alguma coisa com o mestre?

Leituras que valem a pena

sempre que a reflexão de Bento Domingues me enobrece a efemeridade dos meus domingos, é oportunidade para partilhar com quem quiser...

Graças ao Morfeu, sempre que não compro o Público, posso ler no Anomalias a reflexão semanal de Frei Bento Domingues. A de ontem, vale mesmo a pena.

Respondo ao ON

Mais uma vez me fazes uma das tuas provocações. Mas eu gosto. Contigo não há respostas fáceis, feitas. Assim é que deve ser.
Quanto ao inferno, eu nunca disse que não o há! Creio que ele é necessário para quem, não quiser de todo, abrir-se ao Amor. Se acreditamos que Deus nos criou livres é necessário tirar daí todas as consequências. Tal como nesta vida, temos a possibilidade de escolher entre fazer o bem e/ou o mal, essa mesma liberdade nos permitirá um dia, com todos os "véus" tirados, escolhermos O que chamamos Deus, ou não. O inferno será para essa escolha desgraçada. Desgraçada, porque frente ao Amor, se o recusarmos, seremos sim, as mais desgraçadas criaturas.

Falas na minha tolerância. Não me era possível viver sem ela. Por circunstâncias da minha vida, desde cedo tive de aprender a perdoar e a aceitar os erros dos outros. Era isso, ou tornar a minha vida numa desgraça. Entre ser infeliz ou ser feliz, eu escolho a felicidade. O amor e o perdão, que são impossíveis de dissociar, aprendem-se. São feitos de pequenos passos que se dão. Uns, arranjamos forças para os dar, e outros damo-los sem saber como.
E na minha vida, fui aprendendo que todos têm lugar, os que me são próximos, por laços de parentesco, ou outros, e os que eu quero tornar próximos, mesmo que nunca deles sequer tenha ouvido falar.

Quem se identifica com Cristo, é isso o ser cristão, não pode fazer outro caminho. Liturgicamente, estamos a viver o tempo do Advento (preparação para o Natal), nele são-nos apresentadas algumas figuras, que são fortes apelos, para quem quer viver a mesma vida de Deus; João Baptista e Maria. São exemplos de vidas entregues a "apontar" para Deus. Não chamam a atenção para si, mas para Aquele que é a fonte de todo o Bem - Deus.
Humildemente, é isso que quero fazer, nestas palavras que por aqui deixo. O que elas pretendem significar é que vale a pena, procurar Deus.

Faço minhas, as palavras de D. Pedro Casaldáliga:

Al final del camino me dirán:
- Has vivido? Has amado?
Y yo, sin decir nada,
abriré el corazón lleno de nombres.

2005-12-17

estas palavras...

Homilia

Quem dentre vós
dirá convictamente:
os alquimistas morreram
- aqueles simples -
morreram os conquistadores,
os reis
os tocadores de alaúde,
os mágicos.
Oh, engano!
a vida é eterna, irmãos,
aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
louvai a deus e reparti a côdea
o boi, vosso marido e esposa
e sobretudo
e mais que tudo
a palavra sem fel.

Adélia Prado

2005-12-16

"No cristianismo, Deus é aquilo que Cristo diz, mostra e faz"

"Mais do que contemplar Jesus exterior a mim, diante de mim, devo entrar n'Ele para com Ele me voltar para o Pai e para os homens.
A presença e a atenção de Jesus para com o homem falto de harmonia, são uma participação. Conhecer, na raiz latina, significa conhecer-com (cum+gnosco), participar. Ele não olha para mim; toca-me; ajusta-Se a mim. É dentro de Si próprio que Ele compreende quão dolorosamente alguma coisa me faz sofrer. "

François Varillon in O sofrimento de Deus

Mesmo no amor humano, experimentamos como isto é verdade; as alegrias, as tristezas, os sofrimentos, os sucessos, os fracassos daqueles que amamos, tornam-se nossos. Não o vivemos de modo absoluto, total como Deus o faz, mas pelo "reflexo", compreendemos a "Fonte".
É por isso que, no cristianismo, o importante não são os ritos, a reverência aos símbolos (imagens) de Cristo agonizante e morto, mas a comunhão (comum+união) diária, no concreto da nossa vida - nas relações que estabelecemos, na prática da caridade, na tolerância, no diálogo, na esperança - com que (con)vivemos uns com os outros. É no desenrolar da vida, que Cristo está presente na sua Paixão e Ressurreição.

Nunca nos poderemos pôr "de lado", "de fora", de alguma realidade humana. Estamos com a vítima e com o agressor, sempre. S. Paulo, exemplifica isso quando nos fala do "corpo" e dos seus "membros". O que um faz, afecta os restantes. O que um sofre, é igualmente sentido pelos restantes. Neste sentido, nunca me constituirei juiz do meu irmão. Mesmo que, isto que falo, não seja a expressão da minha realidade diária, é a isto que me devo converter. Ou não poderei considerar-me cristã.

2005-12-15

Aniversário

O padre, poeta e antigo blogueiro, José Tolentino de Mendonça, faz hoje quarenta anos. Não é de todo provável que visite este jardim, mas por aquela misteriosa comunhão que nos une a todos, aqui ficam os meus parabéns, e um poema seu, para admirarmos.


O fio de um cabelo

Abandono a casa o horto o lugar à mesa
o casaco de que gostava, sobre o leito dobrado
esta verdade quase banal
que toda a vida fui

Não abro a porta quando batem
(às vezes batiam só por engano)
não avalio o balanço das certezas
o que separa uma forma da outra
sempre me escapou

Ontem começava a clarear
o ar frio que vinha dos campos
julguei-o de passagem e afinal
era um segredo que meu corpo
de uma vez por todas contava
ao meu corpo

Mas quando tombei sobre a terra
perdido como o fio de um cabelo
(aqueles que primeiro caem
da cabeça de um rapaz
e por não serem notados
são mais perdidos ainda)
estavas junto de mim

Lançaste ao fogo cidades
afogaste os exércitos
no vermelho mar da sua ira
hipotecaste terras tão preciosas
para estares junto de mim

José Tolentino Mendonça
De Igual Para Igual

estado de alma

Mau, mau, mau.
Queria escrever sobre a tolerância, porque me senti espicaçada por um post do Tiago (Voz do deserto). Depois, o Rui Almeida ainda reincidiu, na Terra da Alegria. A Helena provoca-nos para dizermos o que faz de nós um justo. A par disto tudo, vai-se sabendo pormenores de uma menina que foi violentada pelos próprios pais desde o seu nascimento, e ninguém fez nada.
Só me ocorre: meu Deus é preciso que nos ames de tal modo, que permites que façamos tanta merda.

Peço desculpa pela falta de links, pelo palavrão não.

2005-12-14

Chamo a atenção:

No auditório do Palácio de Belém, Seminário: República e Religiões

Para o ON

Jesús de Nazaret

Cómo desejarTe su sólo Tú mismo,
Sin reducirTe, sin manipularTe?
Cómo, creyendo en Ti, no proclamarTe
Igual, mayor, mejor que el cristianismo?

Cosechador de riesgos y de dudas,
Debelador de todos os poderes,
Tu carne y Tu verdad en cruz, desnudas,
Contradidicción y paz, ieres quien eres!

Jesús de Nazaret, hijo e humano,
Viviente en Dios y pan en nuestra mano,
camino y compañero de jornada,


Libertador total de nuestras vidas
Que vienes, junto al mar, con la alborada,
las brasas y las llagas encendidas.

D. Pedro Casaldáliga

A posição da Igreja sobre a tortura

"Cardeal Martino: A tortura não é lícita para combater o terrorismo

O presidente do Conselho Pontifício «Justiça e Paz» declarou que a tortura não é um meio ético para combater o terrorismo. O cardeal Renato R. Martino discutiu esta terça-feira a questão ao responder às perguntas dos jornalistas durante a coletiva de imprensa de apresentação da mensagem de Bento XVI para a Jornada Mundial da Paz (1 de janeiro de 2006).

«A tortura é uma humilhação da pessoa, seja quem for. Portanto, a Igreja não admite este meio para arrancar a verdade», afirmou. O cardeal também discutiu o tema da proliferação das armas, denunciando que «existe um estancamento no controle dos armamentos, tanto convencionais como nucleares». O purpurado constatou ao mesmo tempo o descumprimento das promessas de ajuda aos países em vias de desenvolvimento. Por este motivo, recordou aos países ricos a necessidade de cumprir a promessa de destinar 0,7% de seu Produto Interno Bruto ao desenvolvimento. Pelo que se refere à paz no Oriente Médio, reconheceu que «fazemos muito pouco para pedir a nossos governantes que intervenham a favor da paz na Terra Santa». E ante a situação atual do Iraque, considerou que a presença das tropas estrangeiras é necessária para garantir o processo de democratização e de estabilização do autogoverno dos iraquianos. Confirmando sua oposição a essa guerra, afirmou: «Espero que estejamos perto desse momento e que o Iraque possa se autogovernar. Quando suceder, espero que logo, a presença militar estrangeira já não terá razão de ser». "

Zenit.org

2005-12-13

paciência/impaciência

Nada dispensa de querer o progresso da justiça e de trabalhar por ele, mesmo que a reflexão e a experiência nos revelem que é e, sem dúvida, será sempre ambivalente. Existe uma relação muito íntima entre a profundidade religiosa e a acção social e política. Mas neste trabalho é necessária uma grande paciência, no duplo sentido do termo:coragem ou reacção enérgica diante da dificuldade - upomoné (1ª Cor 13,7) - e longanimidade ou doçura na lentidão, pré e pós-revolucionária, do esforço. Mas a paciência degrada-se se não é animada pela impaciência. A paciência autêntica é uma impaciência ao mesmo tempo mantida e ultrapassada. A raiz espiritual desta impaciência é o amor, incapaz de se acomodar à incrível lentidão dos homens em edificar um mundo mais humano. Mas mais profundamente ainda, na raiz da raiz, está a impaciência de Deus. Quando o amor é infinito, a impaciência diante do mal também o é, e a paciência não o é menos. Os opostos, imanentes um ao outro, dialogam eternamente.

François Varillon in "O sofrimento de Deus"

Muito músculo, coração atrofiado

Para mim os EUA, são um imenso paradoxo. A par da sua riqueza, de todo o seu poderio, continua a perpetuar uma indignidade como a pena de morte. Um povo que não aprenda a exercer o perdão, será sempre pobre, limitado, fechado, atrasado, indigno.

2005-12-12

O meu "programa"

O espírito do Senhor está sobre mim,
porque o Senhor me ungiu e me enviou
a anunciar a boa nova aos pobres,
a curar os corações atribulados,
a proclamar a redenção aos cativos
e a liberdade aos prisioneiros,
a promulgar o ano da graça do Senhor.
Exulto de alegria no Senhor.

Isaías, 61

Outras vozes

"A nossa cruz"

"Que o povo arcaico, que resiste empedernido às mudanças do Tempo, que permanece refém das incongruências medievais de uma Igreja machista e intolerante, ache que se trata de uma decisão de lesa-majestade, ainda se aceita. De facto, a ignorância em que muitos cidadãos deste país foram deixados nestas décadas levam-me a não lhes exigir mais do que aquilo que vimos e ouvimos."

Luis de Carvalho-Diário Digital

mais um...

que meteu baixa. Parece que, agora que cheguei, vai-se tudo embora. Esta, é uma baixa de peso.
Snif, snif, snif:- António, isto faz-se?

Não existe fidelidade a Deus, se não houver fidelidade ao homem.

..."Já nada espanta, face ao enquistamento - que parece tornar-se crónico - das estruturas que conduzem os destinos da Igreja Católica. É disso que se trata, de uma vivência e de um discurso autistas, encerrados numa carapaça que, iluminada por dentro, através de gerador próprio, não deixa passar a claridade que vem de fora. Em matéria de sexualidade, o Vaticano tem sido, ao longo dos anos, produtor de um discurso hermético, assente no dogma e imune às ideias e às práticas que o próprio rebanho vai construindo....
...Até se compreende que afirmem que a homossexualidade é uma "desordem", uma vez que para o catolicismo o desejo do encontro sexual só faz sentido tendo em vista a reprodução; mas, se se espera de um sacerdote católico que frene a sua vontade de coito e se abestenha de passar ao acto, em que é que é relevante se o objecto de desejo é do mesmo sexo ou de outro? ..."

Vasco Prazeres, médico in Notícias Magazine 4/12/2005

Assim está melhor?

Padre Nuestro heterosexual que estás en el heterosexual cielo,
Santificado sea tu heterosexual nombre,
Venga a nosotros tu heterosexual reino,
Hágase tu heterosexual voluntad,
En la heterosexual tierra como en el heterosexual cielo,
Danos hoy nuestro pan heterosexual de cada heterosexual día,
Perdona nuestras heterosexuales ofensas,
Como también nosotros, heterosexuales, perdonamos a los heterosexuales que nos ofenden,
No nos dejes caer en la heterosexual tentación,
Sino líbranos del heterosexual mal. Heterosexual amén.


José Mantero

2005-12-09

cartas de amor

O ON escreveu um post, a propósito do livro editado pelas filhas de António Lobo Antunes. O livro chama-se "Cartas de Guerra". Pelos apontamentos, que fui lendo por aí, são cartas de amor que António Lobo Antunes escreveu, quando estava na Guerra Colonial.
Segundo o ON, as filhas de Lobo Antunes não tinham o direito de publicar tais cartas, pelo menos, em vida do escritor.
Quando vi o livro nas livrarias, também me assaltou um certo pudor de lê-lo. A par do desejo de o fazer. Gosto do escritor Lobo Antunes. Também, ou principalmente, me fascina o homem.

Esta conversa, e agora vem a parte mais difícil, porque me lembrei das cartas de amor que também escrevi, e que num dia de fraqueza, burrice, egoísmo, rasguei.
As minhas cartas de amor, não teriam o interesse mediático, cultural, social, histórico, que têm as de António Lobo Antunes. Mas a verdade, é que já não me pertenciam.
Sei que as minhas filhas gostariam de as ler. Seria muito importante para elas que as lessem. Apercebo-me disso, demasiado tarde.

Perdoem-me...

...ontem foi um dia feliz. O baptizado do Manuel. A família reunida, feliz. E soube que vou ser tia outra vez. Vai ser o sexto sobrinho ou sobrinha. Por enquanto ganha o género feminino. Viva!

2005-12-07

Ainda e sempre, a Cruz

..."A fé não é mais do que o amor que sabe donde vem...
...A Cruz é um acto solitário. E é esse o mistério tremendo da comunhão dos homens." Aqui

impressões...

Tenho medo que o orgulho me impeça de reconhecer Deus!

impressões...

Jamais ficarei sentada à espera que Deus venha!

Terra da Alegria

A Terra e os seus frutos!

pedido...

ORFANDADE

"Meu Deus,
me dê cinco anos.
Me dê um pé de fedegoso com formiga preta,
me dê um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dê a negrinha Fia pra eu brincar,
me dê uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dê minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dê a mão, me cura de ser grande.
Ó meu Deus, meu pai,
meu pai."

Adélia Prado

2005-12-06

ausência

Ausência de poesia

Aquele que me fez me tirou da abastança,
Há quarenta dias me oprime do deserto. (...)
Ó Deus de Bilac, Abraão e Jacó,
Esta hora cruel não passa?
Me tira desta areia, ó Espírito,
Redime estas palavras do seu pó.

Adélia Prado

Omnipotência de Deus

"A morte de Cristo leva-nos a pensar que o ser de Deus é muito diferente daquilo que imaginamos, que as perfeições de Deus são, não só infinitamente superiores ao que nós podemos ser em matéria de perfeição, mas também existem n'Ele de um modo infinitamente diferente do nosso: Deus é totalmente Outro! Quanto a nós, somos ricos ao possuir. Deus, por sua vez, é rico ao despojar-Se. Nós sentimo-nos fortes dominando; Deus, é forte fazendo-Se servo.
Cristo, tornando-Se servo, deixando-Se prender durante a Paixão e despojando-se da sua própria vida, traduz a Deus em gestos e actos humanos. É ao exalar o último suspiro que ele se despoja da própria vida, portanto, de tudo; é nesse momento que Ele é humanamente o que Deus é divinamente desde toda a eternidade. É nesse momento que Ele é humanamente todo-poderoso, como Deus é divinamente todo-poderoso. É nesse momento que Ele participa na omnipotência de Deus, que não é poderio de domínio nem de exibição de Si, mas de apagamento de Si mesmo.

Enquanto não se compreender que a omnipotência de Deus é uma omnipotência de ocultamento de Si, enquanto não se experimentar na própria vida que é preciso mais poder de amor para se ocultar do que para se exibir, tudo quanto acabo de dizer é literalmente ininteligível.

Amar o outro é querer que ele seja e não desejar suplantá-lo para que ele seja menos: é assim o poder do amor!"

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver

2005-12-02

Tirem-me desta cruz!

O Miguel já tinha avisado que a Terra estava a dar sementes. Agora, foi o caríssimo José que chamou a atenção para um novo post - o papel da mulher na Igreja.
Não tenhais dúvidas; esse papel ninguém nos tira. A esfregar somos as maiores.

Soube hoje, que a Congregação para a doutrina da Fé, agora orientada pelo cardeal William Joseph Levada, esteve por estes dias a reflectir e a descobrir uma substituição para o limbo. Têm de arranjar um lugar para as crianças que morrem sem serem baptizadas. Espero que a seguir, procurem um para as mulheres.

Porquê a Cruz? II

"E, no entanto, os textos do Novo Testamento...

É preciso reconhecer que os Evangelhos e S. Paulo parecem autorizar o emprego dessas palavras: expiação, satisfação, compensação, substituição. Lemos em S. Marcos:”O Filho do Homem veio para dar a sua vida como resgate em favor de muitos”(10,45) Resgate? Procuro o sentido exacto da palavra num bom dicionário do Novo Testamento, e encontro o seguinte: quantidade de dinheiro dada pela libertação dum prisioneiro de guerra ou pelo resgate dum escravo (daí a palavra redenção, que quer dizer: Cristo resgatou-nos, comprou-nos de novo).
E o autor da epístola aos Hebreus, para dar sentido à morte de Cristo, se refere continuamente aos sacrifícios sangrentos do Antigo Testamento. Nada de tudo isso pode ser apagado.
Então? Durante muito tempo fez-se o disparate notável de querer interpretar a carta aos Hebreus segundo as categorias do Antigo Testamento. O autor compara a morte de Cristo aos sacrifícios antigos para mostrar que entre essa morte e esses sacrifícios há uma diferença essencial.
Ratzinger resume, em poucas linhas, o pensamento do autor:”todo o aparato sacrificial da humanidade, todos os esforços que enchem o mundo para se reconciliar com Deus pelo culto e os ritos , estavam condenados a permanecer obra humana ineficaz e vã, porque o que Deus quer, não são novilhos nem touros nem qualquer oferenda ritual. Pode-se bem oferecer a Deus hecatombes de animais em toda a superfície do globo. Deus não tem nada com isso, porque, de qualquer modo, são coisas que Lhe pertencem; não se dá nada a Deus queimando tudo isso para sua glória...É o homem, só o homem que interessa a Deus. A única adoração verdadeira, é o sim incondicional do homem a Deus. Tudo pertence a Deus, mas Ele concedeu ao homem a liberdade de dizer “sim” ou “não” de amar ou de recusar amar; a adesão livre do amor é a única coisa que Deus pode esperar.” Fora disso tudo fica desprovido de sentido. Só isso é insubstituível."
Ora, todo o culto antigo pretendia substituir o insubstituível, substituir a oferenda do amor do homem pelas oferendas de animais. Uma tal substituição era perfeitamente vã. Jesus, sim, ofereceu-se a Si mesmo:pronunciou o “sim” da obediência filial a Deus.
Para o autor da carta aos Hebreus, Cristo substitui as oferendas vãs e ineficazes pela sua própria pessoa. De facto, o texto afirma que foi pelo sangue que Jesus realizou a reconciliação com Deus (9,12). Mas isso não quer dizer que o sangue derramado fosse um dom material, um meio de expiação quantitivamente apreciável: o sangue derramado é a expressão concreta dum amor que vai
ao extremo de si mesmo.

“Qual é, pois, o sentido da expressão do Credo: Cristo morreu por nós?

Tudo o que Jesus diz e faz revela ou descobre a Deus. O que existe visivelmente em Jesus, existe invisivelmente, misteriosamente, em Deus. Se a Encarnação é humildade é porque Deus é um Ser de humildade. Se Jesus é pobre, é porque Deus é pobre. Quando vejo Jesus, na tarde de Quinta-Feira Santa, lavar com humildade os pés do homem, estou a ver Deus, eternamente Servo, com humildade, no mais profundo da Sua Glória. A humildade de Cristo não é um avatar excepcional da glória de Deus: manifesta no tempo da história humana, que a humildade reside eternamente no seio da Glória. É a morte de Jesus que me revela, me descobre, me faz ver quem é Deus.
Para Cristo, “obedecer” ao Pai, não é executar uma ordem, como vemos, neste mundo, um inferior executar uma ordem do seu superior hierárquico. Não temos de imaginar Deus Pai dizendo a Deus Filho: ordeno-te que sofras e morras aos trinta anos. Na verdade, Cristo “obedece” ao Pai revelando-O tal qual é e não tal qual os homens quereriam que Ele fosse. Revelar a Deus tal como Ele é, foi, para Jesus, aceitar morrer. Se Jesus não tivesse aceitado morrer, não teria revelado a Deus tal qual como Ele é.
De facto, o fundo das coisas é que, eternamente em Deus, a morte está no coração da vida. Deus é Amor. Ora, amar é morrer a si mesmo, não somente preferindo os outros a si próprio, mas (quando se é Deus e se ama em plenitude, quando se realiza eternamente a perfeição do amor), renunciando a existir para si e por si a fim de existir unicamente pelos outros e para os outros. Deus é Trindade: o Pai não é senão movimento para o filho e para o Espírito; o Filho não é senão movimento para o Pai e para o Espírito; o Espírito não é senão movimento para o Pai e para o Filho. Esse “não é senão”, sobre o qual insisto, porque é esse “não é senão” que exprime o mistério de Deus, quer dizer que Deus é a identidade morte-vida. Sair de si mesmo é morrer a si próprio. Viver é amar, mas amar é morrer, porque é não ser senão pelos outros e para os outros.
Muito longe de exigir, para satisfazer a sua justiça, o sacrifício do seu Filho, o Pai, ao sacrificar o Filho, sacrifica o que tem de mais querido. Quer dizer que Se sacrifica a Si mesmo. Visto que o Ser do Pai não é senão para e pelo Filho, ao dar-nos o seu Filho, dá-Se a Si mesmo."

François Varillon

2005-12-01

Mt 7,21.24-27

Santa Teresa-Benedita da Cruz [Edith Stein] (1891-1942), carmelita, mártir

"Não chega dizer-me: 'Senhor, Senhor'... mas é preciso fazer a vontade de meu Pai""Seja feita a tua vontade." Tomado em toda a sua plenitude, este acto de abandono deve ser a regra da vida cristã. Deve reger o nosso dia, da manhã à noite, o curso do ano, a vida inteira. Esta deve ser a única preocupação do cristão; todas as outras são entregues ao Senhor mas essa será nossa até ao último dia. É um facto objectivo - nunca estamos definitivamente certos de permanecer sempre nos caminhos do Senhor...Na infância da vida espiritual, quando apenas começámos a deixar-nos conduzir por Deus, sentimos forte e firme a sua mão que nos guia; vemos de forma evidente o que devemos fazer e o que devemos abandonar. Mas não será sempre assim. Aquele que pertence a Cristo deve viver toda a vida de Cristo. Deve amadurecer até atingir a idade adulta de Cristo e, um dia, enveredar pelo caminho da cruz... Assim unido a Cristo, o cristão aguentar-se-á, mesmo na noite escura... Por isso, mais uma vez, e precisamente no coração da noite mais escura, "seja feita a tua vontade".

www. zenit.org

Dia Internacional da Luta Contra o HIV/AIDS

De todas as vítimas da contaminação do vírus, sobressaem as crianças.
No Continente Africano vivem nove em cada dez, crianças infectadas. Apesar de todas as campanhas, o vírus continua a alastrar, mesmo na Europa. Será que está a ser feito o possível para minimizar esta catástrofe humana?