2006-12-28

O Amor Primeiro

...Primeira tese: em sentido estrito, Deus ama sem preferências nem discriminações.

Afirmar o contrário seria, em boa parte, um antropomorfismo. Deus ama a todos/as igualmente, com um amor tão peculiar para cada pessoa, e ao mesmo tempo tão infinito, que não há possibilidade de quantificações nem de comparações nesse amor. Toda pessoa pode sentir-se amada infinitamente por Deus, e ninguém deve sentir-se “preferido” ou discriminado, nem positiva nem negativamente. Não é possível falar seriamente de “amores preferenciais” de parte de Deus com relação a alguns seres humanos em detrimento de outros. A suprema dignidade da pessoa humana e a equanimidade infinita de Deus o exigem. E tudo que se afaste disso, somente podem ser formas inadequadas de falar, “demasiado humanas”, antropomorfismos.
Deus não tem parcializações, nem faz “acepção de pessoas”. Não o faz por questões de raça, nem de cor, de gênero ou de cultura… Deus ama a todas suas criaturas, com amor realmente “inquantificável e incomparável”, e nisso não cabem nem preferências nem discriminações.

Segunda tese: Deus opta pela justiça, não preferencialmente, mas sim alternativa e excludentemente.


Há, contudo, um campo em que Deus é necessariamente radical e inflexivelmente parcial: o campo da justiça. Aí Deus coloca-se do lado da justiça e contra a injustiça, sem a menor concessão, sem a menor “neutralidade”, e sem simples “preferências”: Deus está contra a injustiça e coloca-se do lado dos “injustiçados” (as vítimas da injustiça). Deus não faz nem pode fazer uma “opção preferencial pela justiça”
[6]:, ao contrário, opta por ela posicionando-se radicalmente contra a injustiça e assumindo de uma maneira total a Causa dos injustiçados.
Esta opção de Deus pela justiça não se fundamenta em sua “gratuidade”, nem é uma espécie de “capricho” divino que poderia ter sido de outra maneira ou simplemente não ter sido, como se a sanção divina da justiça obedecesse a um simples voluntarismo ético
[7].
A opção de Deus pela justiça fundamenta-se em seu próprio ser: Deus não pode ser de outra maneira, não poderia não fazer essa opção sem contradizer-se e sem negar seu próprio ser. Deus é, “por natureza”, opção pela justiça, e essa opção não é gratuita (e sim axiologicamente inevitável), nem contingente (e sim necessária), nem arbitrária (e sim fundada per se no próprio ser de Deus), nem “preferencial” (e sim alternativa, exclusiva e exludente
[8]). ...

José María Vigil - Koinonia


2006-12-26

muitas vezes...

...e de diversos modos, vou neste espaço, manifestando as minhas inquietações, em relação à Igreja a que pertenço. E, cada vez, me inquietam mais.

Parece que a Igreja recusou o funeral religioso ao italiano que, vítima duma doença grave e irreversível, dependente de meios exteriores para sobreviver, pedia que lhe fosse concedido o direito à morte. Um médico (e contra decisão judicial) desligou-lhe as máquinas que o mantinham vivo. Levantam-se questões éticas, humanitárias, morais, mas... alguém é dono do sofrimento de outrém? Em nome de que Deus, faz sentido manter a vida, contra a vontade do próprio e família, nestas circunstâncias?

Também o bispo, que neste momento administra a diocese do Porto, resolveu falar do aborto e compará-lo "à roda dos expostos, dos mosteiros da Idade Média". Fiquei com a sensação de que não sabia do que estava a falar. Até porque já ouvi quem defendesse, dentro da Igreja, que era preferível a tal roda, à prática do aborto.

Mas, nem tudo foi mau, neste Natal. No baptizado da Maria, o diácono que presidiu à celebração, ao fazer a introdução dos diversos ritos, à palavra "satanás", referiu que estava desadequada e que deveria ser substítuida pela palavra "Mal".

O mundo, obrigará a Igreja a mudar, porque Cristo está vivo e não está aprisionado, nem da Hierarquia, nem do Catecismo.

Levar o Menino...


Recebo com grande responsabilidade (vindo das mãos de quem vem), a tarefa de continuar a "cadeia" de levar o Menino. A um pedido do Migalhas é impossível dizer um não. Companheiro de bloguice, irmão na fé, amigo muito próximo...
Amigo Migalhas, o Menino que recebo das tuas mãos, já cresceu, já se fez homem, já se descobriu enviado do Pai, já amou, já fez festa, já curou, já sofreu, já passou pela morte e está vivo no coração de todos aqueles que O acolhem, se deixam transformar pelo dinamismo do Reino e o manifestam nas suas vidas.

Gostaria de "passar" este Menino a muita gente: em primeiro lugar, a todas as pessoas da minha família - aos que é mais difícil e doloroso amar e aceitar como são. Também a todos os que me sustêm, me animam, me protegem.

Depois, gostaria de passá-LO a todos os que se afirmam cristãos, mas vivem mais da lei, das tradições, da obediência institucional, dos dogmas, do que do Evangelho.

Gostaria de passá-LO a todos os que vivem fechados em si mesmos. Que não se abrem à vida, aos outros, à felicidade.

Queria dá-LO também a todos que, pela doença, pela solidão, pela pobreza, pela violência, por qualquer tipo de descriminação, não O sentem vivo e presente nas suas vidas.

Queria levá-LO a todos que, neste Natal, por palavras, por gestos me incentivaram a viver com mais verdade e profundidade, a fé que professo em Jesus Cristo. Sobretudo os que não crêem, mas pela sua profunda sensibilidade e humanidade, me tornam Cristo presente dum modo tão particular e especial.

Queria levá-LO também ao meu vizinho A., que não tendo mais família nesta cidade, senão o filho drogado e a mulher acamada há vários anos, me mostra com um sorriso e o "bom-dia" que me dá todos os dias, que é sempre possível resistir e lutar e resistir... e não desanimar.

Mas para ser fiel e não quebrar a cadeia, vou entregá-LO ao Th. M. em quem fica muito bem entregue. E desta forma, dar também a conhecer um blogue, que vale a pena acompanhar todos os dias.

2006-12-22


«Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: 11*Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor (Lc 2, 10-12)


Feliz Natal, são os meus votos, para todos!

Feliz Natal

Neste Natal, Deus venha amado, desarmado, disposto a conter as iras do velho Javé e, surrupiado de fadigas, derrame diluvianamente sua misericórdia sobre todos nós, praticantes de pecados inconclusos. Venha patinando pela Via Láctea, um sorriso cósmico estampado no rosto, despido como o Menino na manjedoura, mãos livres de cajado e barba feita, a pedir colo a Maria e afago a José.Traga com ele os eflúvios das bodas de Caná e, a apetitar nossos olhos famintos, guisados de ovelhas e cordeiros acebolados, sêmola com açafrão e ovos batidos com mel e canela. Repita o milagre do vinho a embriagar-nos de mistério, porque núpcias com Deus presente, assim de se deixar até fotografar, obnubila a razão e comove o coração.

Venha neste Natal o Deus jardineiro do Éden, babelicamente plural, disposto a fazer de Ló uma estátua de açúcar. E com a harpa de Davi em mãos, salmodie em nossas janelas as saudades da Babilônia e faça correr leite e mel nos regatos de nosso afecto.

Neste Natal, não farei presépio para o Javé da vingança nem permitirei que o peso de minhas culpas sirva de pedra angular aos alicerces do inferno. Quero Deus porta-estandarte, Pelé divino driblando as artimanhas do demo, acrobata do grande circo místico. Minha árvore não será enfeitada com castigos e condenações eternas. Nela brilharão as chamas ardentes da noite escura a ensolarar os recônditos do coração. Venha Deus a cavalo, a pé ou andando sobre os mares, mas venha prevenido, arisco e trôpego e, sobretudo, desconfiado, à imagem e semelhança de minha indigência.

Enquanto todos comemoram em ceias pantagruélicas, vomitando farturas, iremos os dois para um canto de esquina e, amigos, dividiremos o pão de confidências inenarráveis. Deus será todo ouvido e eu, de meus pecados, todo olvido, pois não há graça em falar de desgraça num raro momento de graça.

Neste Natal, acolherei Deus no meu quintal, lá onde cultivo hortaliças e legumes, e darei a ele mudas de ora-pro-nóbis, coisa boa de se comer no ensopado de frango. Mostrar-lhe-ei minha coleção de vitupérios e, se quiser, cederei a minha rede para que possa descansar das desditas do mundo.

Se Maria vier junto, vou presenteá-la com rendas e bordados trazidos do sertão nordestino, porque isso de aparecer senhora de muitas devoções exige muda freqüente de trajes e mantos, e muita beleza no trato.

Que venha Deus, mas venha amado, pois ando muito carente de dengos divinos. Não pedirei a ele os cedros do Líbano nem o maná do deserto. Quero apenas o pão ázimo, um copo de vinho e uma tijela de azeite de oliva para abrilhantar os cabelos. Cantarei a ele os cantos de Sião e também um samba-canção. Tocarei pandeiro e bandolim, porque sei das artes divinas: quem pontilha de dourado reluzente o chão escuro do céu, e provoca o cintilar de tantas luzes, faz mais que uma obra, promove um espetáculo. Resta-nos ter olhos para apreciar.

Desejo um Feliz Natal às bordadeiras de sonhos, aos homens que prenham a terra com sementes de vida, às crianças de todas as idades desditosas de maldades, e a todos que decifram nos sons da madrugada o augúrio de promissoras auroras.

Também aos inválidos de espírito apegados ciosamente a seus objetos de culto, aos ensandecidos por seus mudos solilóquios, aos enconchavados no solipsismo férreo que os impede de reconhecer a vida como dádiva insossegável.

Feliz Natal aos caçadores de borboletas azuis, artífices de rupestres enigmas, febris conquistadores a cavalgar, solenes, nos campos férteis de sedutoras esperanças.
Feliz Natal às mulheres dotadas da arte de esculpir a própria beleza e, cheias de encanto, sabem-se guardar no silêncio e caminhar com os pés revestidos de delicadeza. E aos homens tatuados pela voracidade inconsútil, a subjetividade densa a derramar-lhes pela boca, o gesto aplicado e gentil, o olhar altivo iluminado de modéstia.

Feliz Natal aos romeiros da desgraça, peregrinos da indevoção cívica, curvados montanha acima pelo peso incomensurável de seus egos pedregosos. E aos êmulos descrentes de toda fé, fantasmas ao desabrigo do medo, néscios militantes de causas perdidas, enclausurados no labirinto de suas próprias artimanhas.

Feliz Natal a quem voa sem asas, molda em argila insensatez e faz dela jarro repleto de sabedoria, e aos que jamais vomitam impropérios porque sabem que as palavras brotam da mesma fonte que abastece o coração de ternura.

Feliz Natal aos que sobrevoam abismos e plantam gerânios nos canteiros da alma, vozes altissonantes em desertos da solidão, arautos angélicos cavalgando motos no trânsito alucinado de nossas indomesticáveis cobiças.

Feliz Natal aos que se expõem aos relâmpagos da voracidade intelectual e aos confeiteiros de montanhas, aos emperdigados senhores da incondescendência e aos que tecem em letras suas distantes nostalgias.

Feliz Natal a todos que, ao longo deste ano, dedicaram minutos de suas preciosas existências a ler as palavras que, com amor e ardor, teço em artigos e livros. O Menino Deus transborde em seus corações.

Frei Betto

"Mas deu Fruto"

Porém quando
Entre os áridos
Sistemas dos píncaros
Aparece
O homem,Transformado,
Quando
Da yurta
Brota o homem
Que lutará com a natureza,
O homem que não é só
De uma tribo,
Mas da incendida massa humana,
Não o errante
Prófugo das altas solidões,
Ginete da areia,
Mas meu camarada,
Associado ao destino de seu povo,
Solidário ao destino de seu povo,
Solidário de todo o ar humano,
Filho e continuador da esperança,
Então,
Cumpriu-se a tarefa
Entre as cicatrizes dos montes:
Ali também o homem é nosso irmão.

Ali a terra dura deu seu fruto.

Pablo Neruda

2006-12-21

e agora...um intervalinho amoroso!

Na minha passeata, pelos blogues favoritos, dou de caras com um belo texto do Migalhas: "No silêncio...Deus nasce!"

Amigo Migalhas, não gostaste do meu animal de estimação, mas eu também não te posso oferecer de prenda, aquele com que sonhas! Vou procurar no google e mando-te uma foto bonita. Tens preferência pela raça? :)

De outro amigo, descubro um texto lamuriento, algo invejoso, dos lampiões e do seu treinador (têm alguma coisa que invejar?) que têm como título:"Então e ninguém manda os gatos fedorentos para o caralho?"

Ser lagarto, dá nisto :(

Beijinhos e pouco futebol, e ainda menos TV.

Quando...?

"Deus é fiel, no entanto vacilo, amo com reservas, deixo que pequenas nódoas confundam minha alegria. Quando serei evangelicamente generosa, confiante como o menino para quem o Reino está preparado?"

Adélia Prado "Cacos para um Vitral"

acontecerá Natal...


Na perda do verdadeiro significado da celebração do Natal, a Igreja Católica, não fica imune de culpas. Igreja que, nasce com a missão; de continuar no tempo e na história, o acontecimento da Encarnação. Encarnação de um Deus, despojado, humilde, com um projecto de vida de total inclusão para todos.
Ao longo da sua história com dois mil anos, a Igreja tem-se preocupado mais em excluir- criando regras de vida que seriam perfeitas para homens e mulheres que vivessem desencarnados da vida, mas que não correspondem a pessoas nas quais bate um coração onde a dor, a alegria, o desejo, o medo, a morte, o pecado, são sentidos a cada dia.

A uma proposta de vida desencarnada, do real viver de cada dia, as pessoas respondem procurando o imediato, o fácil, o táctil - o que de uma maneira sensitiva, satisfaça as suas necessidades imediatas.

É preciso que a Igreja mostre que é composta por pessoas que não vivem à parte, não são especiais, logo; não têm que marginalizar, condenar, excluir.

Acontecerá Natal, se cada um sair do que é a sua realidade pessoal, e conseguir olhar para o outro(s) como irmão, como um igual, sejam quais forem as circunstâncias da sua vida. Caso contrário, o acontecimento universal do nascimento de Jesus, será apenas o recordar de uma data, um acontecimento longínquo, do qual já não se sabe o verdadeiro significado.

2006-12-20

Que fizemos do Natal?


Numa reportagem de rua, num canal televisivo:

- Eu não gosto do Natal!
- Porquê?
- Porque o Natal não é para mim.
- ?
- O Natal é a festa da família. E eu vivo sozinha.

E continuou a canção tocando ferrinhos:"Coitado do malmequer..."

Para qué tu Navidad
si no hay gloria en las alturas
ni en la tierra paz?
y a José Y Maria
no les dan lugar
ni dentro ni fuera
de la ciudad?
y la Buena Nueva
ya no es novedad
y mandan
callar
a todos los ángeles
que osan cantar?
Para qué,
para quién, Niño,
tu Navidad?

Dinos cuál es tu Dios, Jesús; enséñanos
a no acerlo el Dios que no lo haces.
Devuélvenos tu Dios,
mostrándonos el Padre!

Entre tu rostro humano
y la gloria de Dios
está el abismo
de nuestra fe y tu muerte.

Dónde estará
la Paz
que Tú nos has dejado
si no hay paz
en medio de nosotros?

Tú eres
tanto
la Paz
como el Desasosiego.

D. Pedro Casaldáliga

2006-12-16

Obrigada e até logo...



Meus caros todos que deixaram comentários no post anterior:

gostava de manifestar o carinho e a alegria que as vossas palavras me fizeram sentir, de forma calorosa e pessoal. Sinta-se cada um, abraçado com um forte abraço de gratidão.
Beber ainda não bebi nada, ainda me sinto sobejamente atordoada, com tudo o que implicou este episódio da minha vida. A perspectiva de um cancro da mama aos quarenta e sete anos, no contexto actual da minha vida, era um fardo que se me afigurava demasiado pesado. Contra todas as expectativas, que o indicavam, isso não se concretizou. Mais uma vez, sinto-me abençoada e não percebo porquê. Mais um acontecimento da minha vida para viver no silêncio e na contemplação.

Não passei imune, por isto tudo; tive medo, senti solidão...procurei, apesar disso tudo, manter o meu coração aberto e receptivo às surpresas de cada dia - é assim que, normalmente, vivo a minha vida.

Agora, vou precisar de um tempo, para me libertar de todas as angústias, que tudo isto me provocou. A vida exige que a viva atenta e desperta, é o que vou continuar a procurar fazer.

Ficam já, aqui, os meus votos de Boas Festas para todos. O palestino, judeu que nasceu há dois mil e tal anos, continua a querer nascer em todos os corações e tornar isso uma festa. Que ninguém se distraia, ou finja que não ouve, se sentir alguma surpresa a irromper na rotineira forma, de viver esta quadra.

Até logo.

2006-12-15

finalmente!

Soube ontem, os resultados definitivos dos exames que efectuei: são negativos! Nem tenho palavras para descrever o alívio que senti ao pôr finalmente um fim a este pesadelo. Ainda me parece que estou a sonhar. Bebam um copo por mim. Eu agradeço todo o carinho que me manifestaram dos mais diversos modos.

2006-12-14

Bom dia


O nosso Deus respeita a criação e o seu ritmo, porque é um Deus amoroso e paciente.

"Se tu soubesses o dom de Deus"
Luís Rocha e Melo, SJ

2006-12-13

Que profetas para hoje?


"A palavra de Deus está não só na Escritura, mas também na vida de todos os que a vivem. Aí é que ela é "viva e eficaz, mais penetrante do que a espada de dois gumes" (Heb 4, 12). Se por absurdo, ninguém a vivesse, ela seria letra morta. Antes de ser escrita, também foi vivida por homens, particularmente escolhidos por Deus, para a anunciarem ao povo de Israel e também para a deixarem escrita. O profeta, ou autor sagrado, é um eleito, chamado a viver a experiência de Deus, num face a face, onde o Senhor se comunica e se revela. Depois, é enviado a anunciar ou a escrever a experiência vivida. Não há profeta nem autor sagrado que, antes de anunciar ou escrever o que o Senhor tinha para comunicar aos homens, não tenha feito e continuado a fazer, ao longo da sua vida profética, uma forte e profunda experiência de Deus e da sua palavra."

"Se tu soubesses o dom de Deus" - Luís Rocha e Melo, SJ
O poeta ficou cansado

Pois não quero mais ser Teu arauto.
Já que todos têm voz,
porque só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Porque não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares
já que a tua voz reboe
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na terra
e insistes em caixeiros viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca, fura
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão
me dixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras

Adélia Prado
(Oráculos de Maio, pág.13)

2006-12-12

Advento, tempo de esperança


Toda nuestra vida es “adviento”: Dios está viniendo.

...
Adviento es un tiempo muy bueno para aprender a esperar a Dios, para aprender a buscar a Dios, para aprender a descubrir a Dios.
El maíz y el arroz están naciendo, hermosos. Ha llegado el Adviento. Luego llegará la Navidad. Dios está llegando siempre. Abramos los ojos de la fe, abramos los brazos de la esperanza, abramos el corazón del amor.
En ese Dios que siempre viene, os abraza vuestro hermano.


D. Pedro Casaldáliga

2006-12-11

YO NO QUIERO MAS LUZ QUE TU CUERPO

Yo no quiero más luz que tu cuerpo ante el mío:
claridad absoluta, transparencia redonda.
Limpidez cuya entraña, como el fondo del río,
con el tiempo se afirma, con la sangre se ahonda.

¿Qué lucientes materias duraderas te han hecho,
corazón de alborada, carnación matutina ?
Yo no quiero más día que el que exhala tu pecho.
Tu sangre es la mañana que jamás se termina.

No hay más luz que tu cuerpo, no hay más sol: todo ocaso.
Yo no veo las cosas a otra luz que tu frente.
La otra luz es fantasma, nada más, de tu paso.
Tu insondable mirada nunca gira al poniente.

Claridad sin posible declinar. Suma esencia
del fulgor que ni cede ni abandona la cumbre.
Juventud. Limpidez. Claridad. Transparencia.
acercando los astros más lejanos de lumbre.

Claro cuerpo moreno de calor fecundante.
Hierba negra el origen; hierba negra las sienes.
Trago negro los ojos, la mirada distante.
Día azul. Noche clara. Sombra clara que vienes.

Yo no quiero más luz que tu sombra dorada
donde brotan anillos de una hierba sombría.
En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada,
para siempre es de noche: para siempre es de día.


Miguel Hernández

religar o quê?

Na missa das 18H de ontem, havia muitos lugares vagos...talvez o frio. No final, no rol dos respectivos avisos (apenas uma escuta deles, ajuda a perceber a pobreza espiritual e pastoral da comunidade) é avisado que estarão dois padres, em dois dias da semana, durante todo o dia, a confessar. Sugere-se a seguir, como se de alguma obrigação fiscal se tratasse, que as pessoas fossem indo ao longo do dia e não deixassem para o fim.

Saí dali, vi as ruas apinhadas de gente e carregadas de embrulhos, quais "pais natais" ambulantes. E sentia-se uma certa alegria e festa. A caminho de casa, já na rua deserta (fica fora do centro) umas lágrimas rebeldes teimaram em cair. Quem é que quer uma religião, desligada da vida e ao ritmo do funcionalismo eclesiástico?

"Advento: esperança ou ilusão?"

“ A certeza da esperança cristã está além da paixão ou do conhecimento. Assim, devemos por vezes contar que a nossa esperança entre em conflito com as trevas, o desespero e a ignorância. Assim também, devemos lembrar-nos de que o optimismo cristão não é uma perpétua sensação de euforia, uma consolação indefectível, em presença das quais não podem existir nem angustias, nem tragédias. Não nos devemos esforçar por manter um clima de optimismo pela mera supressão de realidades trágicas. O optimismo cristão reside numa esperança de victória que transcende toda tragédia Uma victória em que passamos além da tragédia para a glória com Cristo crucificado e ressuscitado.(...)Mas a Igreja, ao nos preparar para o nascimento de um ‘grande profeta’, um Salvador, um Rei da Paz tem algo mais em mente do que uma simples festa para alegrar. O mistério do Advento focaliza a luz da fé sobre o próprio sentido da vida, da história, do homem, do mundo e de nosso próprio ser. No Advento, celebramos a vinda e, em realidade, a presença de Cristo em nosso mundo. Damos testemunho da sua presença mesmo no meio de todos os seus problemas imperscrutáveis e de suas tragédias. Nossa fé no Advento não é uma fuga do mundo para dentro de uma região nebulosa de ‘slogans’ e consolações que declaram ser nossos problemas irreais e nossas tragédias inexistentes.”

Thomas Merton
in Tempo e Liturgia

Bom dia


Calar o palavreado, para sentir a Verdade.
Senti-la ardentemente.
Deixar que me transforme.

Sinto-me exausta na minha cegueira.
Um pouco de luz, eu Te peço!

2006-12-09

e estas mulheres? Quem lhes roubou a dignidade e a vida?

Incêndio em hospital de Moscovo teve origem criminosa

O presidente da Câmara de Moscovo admitiu hoje que «é alta a probabilidade de a causa do incêndio no Hospital Nº 17, que provocou na madrugada de hoje a morte de 45 mulheres, ter sido fogo posto».
A justificar esta opinião, Iúri Lujkov sublinhou que «no local onde começou o incêndio não havia materiais inflamáveis que pudessem provocar esta tragédia».
O incêndio no hospital onde são tratados toxicodependentes, ocorrido na madrugada de hoje na secção feminina, provocou a morte de 45 mulheres e o internamento de 10 feridos em vários hospitais de Moscovo....

Que me perdoem os homens e pais...

Minha Mãe

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.
Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.


do livro "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa",
Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 186.

Ontem, para quem é católico, além de feriado, foi dia "santo", dia dedicado à Imaculada Conceição. Sobre este dogma, ler um texto muito bom do Zé Dias, do blogue "fé e compromisso".
Para o Zé Dias dedico também este poema do Vinícius.

Eu tive a sorte de, no dia de ontem, receber o testemunho de mulheres extraordinárias. Todas elas, não mereceriam uma linha, nas colunas do "lixo cor-de-rosa". Nem ficarão conhecidas, como a Maria de Nazaré. E, no entanto, que força vi nelas em dizerem: "sim ao Amor". Numa aprendizagem no "sim" da Mulher que venerávamos ontem. Que de certeza, nunca desejou alguma coisa mais que, ser mulher na simplicidade do projecto que Deus lhe pedia que assumisse. Uma delas chama-se Isaura, a outra Josefina e a outra, apenas "conheci" pelas palavras da filha.

2006-12-07

para o Manel


SAUDAÇÃO

Ave, Maria!
Ave, carne florescida em Jesus.
Ave, silêncio radioso,
urdidura de paciência
onde Deus fez seu amor inteligível!

Adélia Prado

Manel, mesmo de forma virtual, vais mostrando as maravilhas que Deus faz em ti.
"Onde Deus fez seu amor inteligível"

não é o filme da minha vida...mas quase!


Desde que o vi, e nos últimos tempos, por diversas razões, lembro-me do filme realizado por David Lynch - "Uma história simples".

Para quem não viu o filme, resumidamente, é a história de um homem de setenta e três anos, Alvin Straight, que ao ser informado pelo médico, da fragilidade da sua saúde, resolve que tem de se ir reconciliar com o irmão, também doente, que vive a uma longa distância. E vai fazê-lo pelos seus meios (um cortador de relva, minimamente preparado, para a tarefa a que se propõe). A filha ainda o tenta demover, do que lhe parece ser uma insensatez.

Do que mais me marca na história do filme, é a determinação para concretizar o que acha essencial. As dificuldades que vão surgindo ao longo do percurso e que não o demovem daquilo a que se propôs. O ir pelos seus próprios meios - as dificuldades, os diálogos com as pessoas que encontra, a ajuda que recebe de algumas delas, vão-lhe permitindo construir uma disponibilidade interior para o que tem de fazer: reconciliar-se com o irmão.

Na nossa vida, podemos não estar zangados com alguém de forma tão extrema, mas vivemos, tantas vezes, com muita superficialidade as relações com os outros e connosco próprios. Vivemos na ligeireza, na apatia, no "o outro é que tem que vir", no "não sou capaz", "não tenho meios".

"Uma história simples", ensina-me que, é preciso deixar amadurecer o coração, para que, com os próprios meios, sem panaceias, fazermos o que é essencial, num determinado momento da nossa vida.

pôr-se a caminho...na confiança


Levanta-te, Jerusalém,sobe ao alto e olha para o Oriente:vê os teus filhos reunidos desde o Poente ao Nascente,por ordem do Deus Santo,felizes por Deus Se ter lembrado deles. (Liv. Baruc)

2006-12-06

"uma espiritualidade nova para um tempo novo"

...É uma feliz coincidência que este Fórum Espiritual aconteça em Brasília exactamente quando as Igrejas cristãs mais antigas do Ocidente iniciam o tempo do Advento, período litúrgico cujo objectivo é reacender no mundo a esperança e a mística do reino de Deus. Para a Bíblia, a esperança não é uma projeção no futuro. Ao contrário, significa viver aqui e agora, como por antecipação, o futuro que desejamos para o mundo. Nutrir-se de esperança não é apenas apostar na realização dos nossos melhores desejos, mas acreditar que, através de nós, Deus quer realizar o seu projeto e este não vai na direção de consolidar o modelo de organização social actualmente vigente e sim de transformá-lo.
...
Um fórum de espiritualidade deve ajudar a libertar o espírito, ou seja, o mais íntimo e profundo do ser humano de todos as alienações. Não se trata de libertá-lo para isolá-lo em uma áurea mística de individualismo sagrado. Nem de sonhar com um mundo paralelo de seres invisíveis que, no mundo antigo, foi a convicção filosófica de Platão e até hoje ainda faz sucesso em certas escolas espiritualistas.

A esperança alimentada pela espiritualidade ecumênica é profética porque se insere no coração da realidade para transformá-la à medida que trabalha para transformar o mais íntimo de cada ser humano. Assim, nos ensina a conviver com nossos conflitos interiores e nossas limitações. Se algum dia, podem ter sido fonte de divisão connosco mesmos e com os outros, a espiritualidade nos faz assumi-los e transformá-los em instrumentos de integração interior a partir dos quais somos cada vez mais nós mesmos, mas abertos ao outro e, assim, juntos, podemos trilhar uma vida nova.

Quando as religiões falam de salvação e de graça, estão se referindo a esta realidade de esperança profunda de transformação interior de cada pessoa e, ao mesmo tempo, social e política da sociedade na qual nos inserimos. Elas acolhem e dialogam com a sabedoria da ciência social e política, das experiências culturais, da racionalidade da economia e assim por diante. Entretanto, a sua contribuição própria é a espiritualidade como uma opção amorosa que vai à raiz das questões porque busca responder às perguntas mais profundas das pessoas sobre o sentido da vida e como vencer tanta dor e tanta luta. Fazendo isso, esta espiritualidade inserida e ecumênica desmente os prognósticos pessimistas da realidade e subverte o destino de quem não consegue mais ver saída para os problemas que enfrenta.

Esta espiritualidade evita a arrogância de pensar que se possa mudar o mundo sem que cada um busque se transformar no mais profundo do seu coração. Entretanto, sabe que esta dialética não comporta um antes e um depois. As duas dimensões se articulam e são complementares. Por isso, precisamos aprofundar sempre uma visão crítica sobre nós mesmos e, ao mesmo tempo, sobre a realidade...

...Durante muito tempo, as religiões chamadas monoteístas pregaram a unidade como um atributo divino. Hoje, devemos reconhecer que a diversidade também é uma qualidade divina. Assim como na natureza, a biodiversidade é a condição da vida florescer em um determinado sistema biológico, reconhecer que Deus se manifesta de formas múltiplas e diferentes no mundo é um sinal de vitalidade espiritual e de abertura às novas revelações do Espírito. Já há quase 50 anos, a grande filósofa e espiritual francesa Simone Weil dizia: "Eu reconheço quando alguém é de Deus não quando me fala de Deus, mas pela sua forma de relacionar-se com o mundo".

Marcelo Barros - Adital* Monge beneditino

Bom dia

A estrada branca

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida pareceia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invísivel peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares que se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

José Tolentino de Mendonça
"A noite abre meus olhos"

2006-12-05

"a minha verdadeira identidade..."


“ Tenho certeza de que o significado de minha vida é aquele que Deus quer para ela? Deus impõe de fora um significado para minha vida através de eventos, costumes, rotinas, leis, sistemas, choque com outros na sociedade? Ou sou chamado a criar a partir de dentro, junto com ele, com sua graça, um significado que reflecte sua verdade e me faz ser a “palavra” dele falada livremente na minha situação pessoal? A minha verdadeira identidade está escondida no chamado de Deus pela minha liberdade e resposta para ele. Isto significa que devo usar essa liberdade para amar, com toda responsabilidade e autenticidade, e não apenas recebendo uma forma que me é imposta por forças externas, ou moldando a minha vida de acordo com padrões sociais aprovados, mas direccionando o meu amor para a realidade pessoal do meu irmão, e abraçando a vontade de Deus em seu mistério nu e, muitas vezes, impenetrável. ”

Thomas Merton

2006-12-04

A extrema-unção do Pinochet

O Miguel no Cibertúlia, comenta em post, a notícia da extrema-unção dada a Pinochet. No DA, o Carlos Esperança também não deixou passar em vão o tema, na sua maneira própria e característica. Eu, ainda por cima, fui lá deitar lenha na fogueira e dizer que, já não é a primeira vez que a recebe.
A chamada "extrema-unção", já não é mais vista na Igreja Católica como o sacramento "passaporte" para o "outro mundo". Mas é enquadrado nos "sacramentos de cura". Não sendo, portanto, o aval; o detergente que lava mais branco que o Tide e nos põe a alma limpinha para nos levar junto de Deus.

Seja o Pinochet, ou seja o fiel mais simples, bondoso, humilde; ambos têm direito a receber da Igreja (sacramento de Cristo) os dons e graças necessárias ao seu estado de doença, através do sacramento da Unção dos doentes. (É assim que se chama agora). Tem o nome, muito mais a ver com o fim a que se destina.

Mas, a Igreja que, tanto cultiva a culpa de temas ligados à sexualidade (ainda há pouco tempo num grupo de amigos nos ríamos com as perguntas dos padres aos jovens rapazes quando se iam confessar, sobre a masturbação. Isto aos rapazes, porque às meninas não era suposto tal prática; nasceram para serem virgens e mães), não mostra grande contenção ou parcimónia, em administrar sacramentos a pessoas, onde a sua prática de vida, não condiz minimamente com a fé que professam. Os sacramentos, não são magia. Não são actos isolados ou desenraizados da vida. É claro que isto que vale para o ditador Pinochet, vale igualmente para mim. Quando nos encontrarmos "face a face" com Deus estaremos em pé de igualdade. Os dois fomos chamados a ser santos e à perfeição. Cada um à sua maneira, mas será o mesmo Deus que acolhe aos dois.

Mas, e continuando...repugna-me ouvir a Igreja Católica ameaçar de excomunhão alguém que peça, que pratique um aborto, e conviva de forma tão próxima com ditadores do calibre de Pinochet.

Leio no Diário Ateísta, alguém na caixa de comentários a perguntar se estaria alguém da Igreja presente nos últimos momentos de todas as vítimas de violênica do regime de Pinochet. Infelizmente, parece-me que a resposta é óbvia.

tão simples...




Acolher, despertar, saber ver, oração.

...e tão difícil de concretizar.
JESÚS, NO PUEDES VENIR


Jesús, no puedes venir si no nos dejamos deslumbrar, si ya no queda nada que nos cause asombro, si el corazón no se enternece ante el dolor para dar a luz una vida auténtica.
Jesús, no puedes venir si no allanamos las colinas del odio, si no ayudamos a construir puentes de cordialidad, si la ternura y la sencillez no se apoderan de nuestra vida.


Jesús, no puedes venir si no descubrimos en nuestro interior la otra parte que tantas veces nos falta, la feminidad o la masculinidad que completa y da sentido a nuestras vidas como personas.

Jesús, no puedes venir si no percibimos la brisa de la confianza en las noches sin luna de los cayucos que se acercan, silenciosos, como el llanto ahogado, como el soplo del Espíritu, como la necesidad imperiosa de vivir una nueva vida.

Jesús, no puedes venir si no hacemos un hueco para invocarte, para darte gracias, para mostrarte nuestra impotencia, para gritar de dolor, para hablar confiadamente, como con un amigo, de la vida.

Jesús, no puedes venir si la fe no abarca las acciones por la paz y la justicia, si el amor no inunda las relaciones, si la solidaridad no destruye fronteras, si la esperanza no alumbra el horizonte siempre sorprendente de la vida.

Jesús, no puedes venir si no nos dejamos transformar por tu Palabra leída en el periódico, escuchada en la radio, navegando por internet, contemplada en las bellezas de la Naturaleza, ahogada en el lamento de los pobres que nos exigen una vida digna.

Jesús, no puedes venir si no alzamos nuestra voz contra quienes causan tanta miseria, si no dejamos de consumirnos, si no abandonamos una existencia llena de cosas y ausente de vida, para que continentes enteros puedan sencillamente sobrevivir.

Jesús, no puedes venir si no comprometemos nuestras manos, nuestras lágrimas, nuestro compromiso, nuestro tiempo y dinero en la construcción de otro mundo, de otra vida mejor, tan necesaria y posible.

Jesús, no puedes venir si no hacemos de nuestras comunidades cristianas unos anuncios luminosos que pregonen que podemos ser felices, que seguirte nos libera, que el Evangelio puede ser realmente una buena y feliz noticia para tantas personas desencantadas por las desdichas, el sinsentido, el maltrato en sus vidas.

Jesús, no puedes venir… porque nunca te has ido, porque estás a nuestro lado en los más débiles, desprotegidos, marginados, porque cuando nos reunimos en tu nombre, enciendes nuestros corazones y nos animas a continuar con alegría, a pesar de todos los pesares.
Jesús, no puedes venir, porque el Reino ya está dentro de nosotros y nosotras. Sólo hay que ahondar, buscar, contemplar, para llegar a descubrir tu presencia en millones de rostros, para sentirnos hijos e hijas, hermanos y hermanas, para acercar y hacer visible el amor del buen Padre y Madre Dios.

Ven y ayúdanos a descubrir la fuente inagotable que nos hará vivir desde una nueva espiritualidad, basada en el cuidado, la solidaridad, la alegría y la justicia.


ECLESALIA

2006-11-30

Bom fim-de-semana


Dentro da cidadela fortificada existe uma cortesã de beleza inacreditável;
As pérolas brilhantes em sua barriga descansam contra o cetim de sua pele nua.
Reclinada num fundo de flores, ela brinca com um papagaio,
E toca o violão sob o luar.
Aqueles que sua canção ouvem não a podem esquecer, mesmo depois de três meses;
Sua adorável e breve dança, não há quem não a queira ver.
Mas o fato é que isto não pode durar para sempre;
A flor de lótus não aguenta o inverno de gelo.

Mestre Hanshan (Zen Budista)
retirado do site de Faustino Teixeira, teólogo

os maus hábitos da Igreja espanhola...

Sorprende levantarse una mañana y leer en el periódico, de boca del portavoz de los obispos, que “el Estado no tiene competencia para definir el bien y el mal moral”. Lo dice a propósito de la nueva asignatura llamada Educación para la ciudadanía. Y como monseñor se malicia que en la escuela se va a hablar “del bien y del mal moral”, amenaza con un motín católico, pues, en ese caso, señala, “los padres tendrían pleno derecho a ejercer su objeción para que sus hijos no tuvieran que cursar una asignatura que contradice sus convicciones morales y religiosas”.
Pero, vamos a ver: ¿desde cuándo no se puede hablar en la escuela del mal y del bien, es decir, de valores? A los obispos españoles les cuesta entender que la democracia no es solo una organización técnica de la vida social, sino también una forma de convivencia basada en valores como la libertad, la igualdad y la solidaridad. Y es lógico, por tanto, que en la Educación para la ciudadanía se tome partido por la tolerancia, la responsabilidad o la justicia.

ler artigo completo aqui

Passas uma noite agitada, o sono é um fluxo intermitente e entupido como a leitura do romance, com sonhos que mais parecem a repetição de um sonho sempre igual. Lutas com sonhos tal como com a vida sem sentido nem forma, procurando um desígnio, um percurso que apesar de tudo tem de existir, como quando se começa a ler um livro e ainda não se sabe em que direcção irá levar-nos. O que tu querias era o abrir de um espaço e de um tempo abstractos e absolutos em que pudesses mover-te seguindo uma trajectória exacta e linear; mas quando pensas tê-lo conseguido reparas que estás parado, bloqueado, obrigado a repetir tudo desde o princípio.

Italo Calvino - "Se numa noite de Inverno um viajante"

2006-11-29

e agora a "passar-me"...

..."Nas ruas, sente-se uma certa indiferença. Mas, segundo os relatos de quem por lá anda, como a maioria dos carros são brancos e os taxis amarelos, ajuda a dar côres vaticanas ao ambiente turco."

Leio isto no blogue do padre JP e não sei se hei-de rir, se chorar, se arrepelar os cabelos. Não sei quem fez tais relatos e analogias. Se fosse a Aura Miguel, não me admirava nada. Ou algum dos outros jornalistas que, em vez de fazerem o que lhes compete; que é informar com um mínimo de seriedade, se prendem a estes pormenores de merda.

A Igreja que tão bem discursa contra alguns dos ídolos da sociedade, não resiste, ela própria, ao mais alto nível, a criar os seus.

E já que o povo turco, está a viver a vida de todos os dias, como é normal que seja, vamos nós inventar um ambiente à altura do ilustre visitante.

Pelo menos fiquei a saber que os turcos têm preferência pelos carros de cor branca e que os taxis são amarelos. De que cor serão os autocarros?

e agora a sério...


Por razões óbvias, tenho acompanhado muito pouco e mal a viagem do Papa à Turquia. Como cristão que é, desejo que, para além das intenções diplomáticas, da aproximação do Oriente ao Ocidente, do diálogo Islão/Cristianismo, tenha como missão primeira, o seguinte: "O nome de Deus é Paz."

a nú

A surpresa de hoje, foi acordar com uma bruta de uma dor de cabeça. De que ainda sinto os efeitos. Por isso, se isto sair um bocadinho enviesado, dêem-me o devido desconto. Acordei sem vontade nenhuma de abrir os olhos e saltar da cama. Lembrei-me do que a Dona L. , me tinha dito na segunda-feira, ao telefonar-me para saber como é que eu estava. Depois de lhe contar, terminou a dizer:" que o seu sofrimento seja pela visita do Papa à Turquia, para que não lhe aconteça nenhum mal". Num relance pensei:"Porra! Mas quem é que o mandou para lá? E quais são as intenções da tal visita?" (A diplomacia vaticana, os tapetes vermelhos, os sapatos "prada", os jactos particulares, o anelão de ouro no dedo que tem o nome de "pescador", dão-me uma tremenda alergia). A ela, apenas disse:"Está tanta gente, neste momento, a sofrer neste mundo, que dorzinha a mais ou a menos da minha parte, não vai fazer grande efeito." Isto, para não escandalizar mais a senhora, por quem tenho muita estima. Ao acordar, pensei que a porra da dor de cabeça era o castigo pelos meus maus pensamentos :)

Ontem no IPO, onde voltei para serem avaliados os estragos de quinta-feira, médica e técnicas não paravam de salientar a minha capacidade de aguentar a dor e o sofrimento, do meu sangue-frio para enfrentar a crise. Não lhes disse, mas digo aqui, o que pensei:"se soubessem "as doses de vacinação" que a vida me tem dado para tal." Esse é o aspecto vísivel, sensorial, prático.

O Andarilhus, e também o João Tunes, falam da minha atitude perante a vida. Essas coisas, só me embaraçam e só me apetecia, desatar para aqui, a contar os meus pecados. Não vale a pena, entrar nos pormenores do que eles são, porque o que sinto como maior, como a raiz de todos eles, é a minha pouca abertura a Deus. O meu maior pecado é não deixar que Deus seja em mim. É encher o meu coração dos meus desejos, dos meus medos, das culpas dos passos mal dados. De me agarrar demasiado ao que acho que são as minhas forças, e não me colocar na acção libertadora de Deus, na minha vida.

Quando o "caldo está muito entornado". Quando já não sobra mais que a angústia e o medo, então digo:"Vem, meu Senhor e meu Deus!" E, posso dizer que, até hoje, nunca deixou de vir. Ámen.

desperta!

"Despierta! La felicidad eres tú!Despertarse es la espiritualidad, porque sólo despiertos podemos entrar en la verdad y descubrir qué lazos nos impiden la libertad. Esto es la iluminación. Es como la salida del Sol sobre la noche, de la luz sobre la oscuridad. Es la alegría que se descubre a sí misma, desnuda de toda forma. Esto es la iluminación. El místico es el hombre iluminado, el que todo lo ve con claridad, porque está despierto.

No quiero que os creáis lo que os digo porque yo lo digo, sino que cuestionéis cada palabra y analicéis su significado y lo que os dice en vuestra vida personal; pero con sinceridad, sin autoengaña-ros por comodidad o por miedos.Lo importante es el Evangelio, no la persona que lo predica ni sus formas. No la interpretación que se le ha dado siempre o la que le da éste o aquél, por muy canonizado que esté. Eres tú el que tiene que interpretar el mensaje personal que encierra para ti, en el ahora. No te importe lo que la religión o la sociedad prediquen.

La sociedad sólo canoniza a los que se conforman con ella. En el tiempo de Jesús y ahora. A Jesús no pudieron canonizarlo y por ello lo asesina-ron. ¿Quiénes creéis que lo mataron? ¿Los malos? No. A Jesús lo asesinaron los buenos de turno, los más respetados y creídos en aquella sociedad. A Jesús lo mataron los escribas, los fariseos y sacerdotes; y si no andas con cuidado, asesinarás a Jesús mientras vives dormido.
Despertarse es la espiritualidad, porque sólo despiertos podemos entrar en la verdad y la libertad.
...
ler artigo completo aqui

de "Autoliberación Interior" Toni de Mello

2006-11-28

"Não ficará pedra sobre pedra" Lc 21, 5-11

"Em meio ao barulho do povo no templo, alguns admiram a magnificência da construção. O templo, reconstruído depois do exílio, parece que foi realmente modesto se comparado com o primeiro, construído por Salomão. Contudo, para a época de Jesus, aquele modesto templo do pós-exílio era outra coisa totalmente diferente.
Herodes o Grande, com mania de grandeza por natureza, buscando reconciliar-se com os judeus, havia-se encarregado de remodelá-lo, com ampliações e com soluções que ainda surpreendem a engenharia moderna. Isto para entender por que os visitantes se maravilhavam tanto com aquela obra. Exceto a magnificência do edifício e a pompa da obra como tal, sabemos que o templo significava tudo para Israel, não somente por sua convicção de que era o lugar da Presença, lugar onde habitava o Nome de Deus ou sua Glória (Ezequiel 43, 4), mas porque, como estrutura institucional, determinava todos os destinos políticos, econômicos, sociais e religiosos da nação.
Consideremos só o religioso: o templo como habitação do Nome (os israelitas não se atreviam a personificar a Deus nem muito menos a dar-lhe um nome específico, por isso utilizavam invocações para se referir a ele: o Nome, a Glória, a Presença, Shekiná) do lugar específico do Santo dos Santos se irradiava sua santidade para os demais lugares do templo: primeiramente para o que estava mais perto do lugar da Santidade: o altar, em seguida as casas e o pátio dos sacerdotes de Israel, depois as casas e os pátios dos levitas, pátio dos israelitas legalmente puros, pátio dos impuros, pátio das israelitas e das crianças, pátio dos estrangeiros, palácios próximos, o resto da cidade, o país e o mundo; de modo que a santidade se deduzia pela proximidade ou distância do lugar da Santidade divina. Nessa medida, o templo era a réplica em miniatura da sociedade israelita estratificada por razões sociais, econômicas e contraditoriamente, por razões religiosas (puros e impuros, abençoados e malditos).

Aqueles que observam a maravilha arquitetônica não estão em condições de pôr em questão tudo o que há por trás daquela estrutura de pedra; unicamente Jesus, que como já vimos se orienta por outros critérios, com outros parâmetros, é capaz de questionar e até se atreve a predizer sua destruição: o da ruína material pôde tê-lo dito pela simples constatação histórica porque já havia ocorrido em 587, mas também porque era um facto que os detentores do poder procuravam arruinar as construções religiosas dos súditos para submetê-los com maior crueza. Destruindo os templos, saqueando-os e, especialmente, retirando deles as estátuas das divindades e demais símbolos religiosos, os invasores davam por submetidos também os deuses dos povos conquistados, e estes tinham a obrigação de submeter-se à religião do conquistador.
Já o templo de Jerusalém tinha sido saqueado pelos babilônios, pelos gregos, e faltavam os romanos, mas não tardariam. Contudo, a realidade da destruição de templo Lucas já a devia conhecer e aproveita aquela imagem para pô-la na boca de Jesus como profecia e como introdução a seu discurso escatológico que se abre precisamente aqui a propósito das palavras de uns aterrorizados fiéis diante daquela fortíssima construção.
Não é necessário, portanto, insistir se Jesus predisse a destruição de Jerusalém e seu templo em termos literais. O mais importante é que com a clareza de uma consciência totalmente liberta e desprovida da alienação religiosa, própria de seu tempo, Jesus manifesta sua mais profunda convicção e fé na queda de todo o sistema montado ao redor do templo como estrutura geradora de injustiça institucional. Não seria algo pacífico nem fácil, com a mesma violência e injustiça com que se tinha levantado tudo aquilo, seria derrubado também. Não porque Deus interviesse para que as coisas se dêem assim, senão como uma espécie de lei da vida. "

Serviço Bíblico Claretiano
Sem que soubesses

Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada,
Em tudo o mais usei de parcimónia
a que me forçava aquele ardor excessivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias

Fernando Assis Pacheco - "A Musa Irregular"

2006-11-27

"Ó morte sempre vencedora..."

O Homem só deixará de promover os actos irreflectidos de aniquilação quando, perante a morte, encontrar o seu rosto sobre as cinzas dos finados.Enquanto se sentir intocável e soberbo de vida, jamais deixará de cultivar o poder, o domínio, a concorrência desregrada, no âmago da sua natureza. Somos predadores antropófagos.

Estas palavras, escreveu-as o "andarilhus" que tem este blogue magnífico, e que eu, tendo-o nos meus favoritos, ainda não tinha feito a devida divulgação (egoísta!).

Estas palavras, sinto-as eu, olhando para a minha vida e para as vidas à minha volta. E, vem-me à memória, este grito bíblico que é de todos os tempos:"SENHOR, que é o homem, para cuidares dele, e o filho do homem, para nele pensares?" (SL 144,3)

E, no entanto, acredito: a morte, o ódio, a violência, não terão a última palavra. Jesus Cristo, revelou-nos isto (não numa fórmula de procedimentos ou de práticas religiosas, experiências místicas,) mas porque Deus é Amor. E ama e salva, no acontecer da nossa vida. É isso a Encarnação. Senti-o, hoje, de modo sensorial, numa atitude concreta: as lágrimas que corriam nos olhos de uma amiga, quando lhe contava os últimos acontecimentos da minha vida. As que tenho reprimido, aguentado, escondido; chorou-as ela, hoje, diante de mim. E nessas lágrimas espontâneas, sinceras, amigas senti Deus e a promessa do homem redimido. Que querem? Eu sinto-O assim.

Mário Cesariny


exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem


É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

As negruras da vida...

...pondo de parte as pessoais (está visto que aparecem onde menos se esperam), neste fim-de-semana; morre Mário Cesariny. Um cidadão que investiga os dislates (crimes) do governo russo, e tanta gente, vítima das mais diversas formas de violência.
Ontem, circulei duas horas num centro comercial, e assustei-me com os homens que via por lá sentados nos bancos...a aguardar...com cara de quem estava a ouvir um sermão daqueles de fazer adormecer a pedras da calçada. E a procura de trapos para cobrir o medo, o vazio, a falta de esperança.

Comecei a ler um novo livro do Italo Calvino. Começa com um rapazinho que se zanga com a família e resolve viver em cima das árvores, sem pôr os pés no chão. É sempre uma tentação, a que, cada um, responde conforme sabe e pode. Neste ínicio de semana, se pudesse, também subia para uma árvore qualquer. Que Deus seja o meu refúgio. E a vida, o lugar onde o sinto, pressinto e vivo.

"Sinais de esperança"


“ Embora tenhamos o poder de destruir o mundo inteiro, a vida é mais forte do que o instinto da morte. O amor é mais forte do que o ódio. Não há sentido lógico em entregar-se demasiadamente à esperança, mas, repito, não é isso uma questão de lógica, e não se procuram nos jornais sinais de esperança ou nos pronunciamentos dos líderes mundiais (nesses, raramente há algo que dê esperança, pois aquilo que pretende ser animador é, em geral, de tal maneira vazio de esperança que somos levados ao quase desespero). Porque existe amor no mundo e porque Cristo assumiu nossa natureza, permanece sempre a esperança de que o homem, finalmente, depois de cometer muitos erros e ocasionar muitos desastres, haverá de aprender a desarmar-se e promover a paz. Há de reconhecer que tem de viver em paz com seu irmão. Contudo, nunca estivemos menos dispostos a realizar tal coisa.

Thomas Merton

2006-11-24

bom dia :)

Para actualizar o último post, e, porque num breve "passeio" pelos blogues, já li os desabafos do Lutz e do João Tunes (desculpem a falta de links, mas vocês já são dois "monumentos", na blogosfera lusa) venho dizer que estou bem. A convalescer nos arredores da capital, com a mama a congelar (envolta num saco de gelo), porque no exame que fiz ontem e que devia correr igual ao da semana passada e como corre a todas as outras mulheres, rompeu-se, sem que ninguém tivesse culpa disso, um vaso sanguíneo de tamanho considerável, pela hemorragia que provocou. Como nestas alturas, consigo manter o sangue frio suficiente para ser tratada sem "chiliques", nem alarmismos, eram as técnicas a tentar estancar o sangue, um médico a medir-me o pulso e eu a dizer:"Tenham calma. Eu estou bem!". A dar ordens, como se vê!
Só que a hemorregia não havia meio de parar. Ainda se considerou eu ir para o bloco operatório para ser mesmo "cosida" "com agulha e dedal". Mas escapei a essa. Agora é descansar, não fazer esforços e breve, estou "como nova".

Devo salientar a generosidade da técnica que me socorreu, porque eu já estava a vestir-me e ela a dar-me as instruções necessárias, quando a hemorregia irrompeu de novo, e ela sem luvas, a única preocupação que teve foi acudir à situação.

Destes imprevistos ninguém tem culpa. Faz parte destes processos. Eu, num relance, ainda tive tempo de pensar que se morre num esfregar de olhos, só é preciso é estar vivo.
À cautela, vou parar por uns tempos, com as "heresias" que escrevo por aqui. Porque esta semana, já são duas vezes que vejo a morte muito perto. ;)

Este processo está a ser muito demorado e desgastante, mas como dizia o outro:"É a vida."

Já é positivo o resultado da biópsia não ser logo de "chapa"; positivo! Como a radiologista que me está a acompanhar quer jogar o mais possível por um diagnóstico seguro, daí estes testes com novo equipamento e mais abrangentes nos tecidos recolhidos. É só esperar, mais nada.

2006-11-23

mas a dor também faz parte


Hoje, vou voltar ao IPO, para mais uma sessão, do novo processo de exames que me estão a fazer. Nesta minha história que começou em 17 de Agosto, vou percebendo um pouco, como é que funcionam as técnicas de tortura (perdoe-se-me a comparação). Na quinta-feira passada, chegada de Lisboa, já dizia aos mais próximos:Estou farta disto. Tirem-me a mama, mas decidam-se de vez!

amar a vida


Numa visita a um museu da cidade, era proposto ao grupo de crianças, uma actividade que consistia em construir um origami. No grupo havia um menino invisual. Ouviu as explicações, mas quem lhe fez a construção foi o professor que o acompanhava. No final, a pessoa que orientou a actividade perguntou, ao grupo, se tinham gostado da mesma. O menino respondeu: "- Amei!"
Ainda mal refeita da surpresa que a resposta lhe provocou, disse a orientadora:"-Amaste? Nunca ninguém me disse uma coisa tão bonita." Responde o menino:"- Mas foi para isso que eu nasci."

"Se tu soubesses o dom de Deus"


Deus não ama ninguém por ele ser bom, por ser bonito ou por ser agradável, ou por apresentar uma folha de serviços impecável. Deus não tem razões fora dele próprio, para amar. O seu amor não é motivado por razões que lhe venham de fora. Ama porque é amor.

Assim também não há razões que o desmotivem. Uma razão, que poderia desmotivá-lo, se emprestássemos a Deus os nossos pequenos critérios, seria o pecado. A ofensa, neste caso, o pecado, não O desmotiva; muito pelo contrário, centra, de tal maneira, no pecador e em todos os outros, as suas razões para agir que, esquecido de si, entra no mundo do pecado, dá a vida pelos que pecam e pede perdão para os que O matam.

Luís Rocha e Melo, SJ

2006-11-22

a primeira língua


Afinal já não estão a ouvir nada vocês os dois. Desapareceram também encolhidos num canto, abraçados um ao outro. É esta a vossa resposta? Querem demonstrar que os vivos também têm uma língua sem palavras, com a qual não se pode escrever livros e que só se pode viver, segundo a segundo, sem registar nem recordar? Primeiro vem esta língua sem palavras dos corpos vivos - é a premissa que queriam que Uzzi-Tuzii considerasse? - , depois as palavras com que se escrevem os livros e se tenta inutilmente traduzir essa primeira língua, depois...

Italo Calvino - "Se Numa Noite de Inverno Um Viajante"



imagem - casacoamarelo.blogspot.com/

"Fora do corpo"

...Mística é uma palavra que causa estranheza. Há movimentos populares que a empregam como sinónimo de emulação ou animação. Há quem a tome com o significado de entusiasmo, que em grego quer dizer "estar repleto de Deus".

Se o entendimento do que é mística provoca tanta controvérsia, já a experiência mística é mais frequente do que supomos. Ela é o desdobramento do ego, o sair de si, o deixar-se possuir pelo outro, o descentrar-se para encontrar o centro no próximo. É a paixão amorosa, o sentir-se irresistivelmente atraído para fora de si mesmo. Alguém faz convergir em sua direção todas as energias do apaixonado. De tal modo que este se deixa impregnar pelo objeto de sua paixão, ainda que não possa vê-lo, ouvi-lo ou tocá-lo. O apaixonado sente-se arrebatado e admite que o âmago de seu ser está indelevelmente marcado por aquele outro que não é ele e, no entanto, o faz reviver "fora do corpo". Isso é o amor. E é experiência mística.

...O amor apaixonado não decorre da razão. Subverte-a. É enlouquecedor, transcende o raciocínio, a lógica, o discurso conceitualmente articulado dos "bons propósitos". A razão naufraga nas vagas intempestivas do coração. A afeição implode a sensatez do pensamento. Dentro do corpo o amado sente-se "fora do corpo". O objeto da paixão (transcendência) irrompe em meu ser (imanência) e resgata-me pelo lado avesso do ser (profundência).

Uma outra expressão da mística é a arte. Só há verdadeira arte quando se consegue estar "fora do corpo". No balé os movimentos do corpo são uma forma alada de expressar algo intangível, cujo desenho é pincelado pela música e transcende a sequência dos gestos da bailarina. Não se dança com a cabeça nem com os membros. Dança-se com a alma, numa entrega de si ao ritmo e à melodia que só vibra com densidade artística quando se está "fora do corpo".
O mesmo ocorre em todas as outras expressões de arte. Mas falemos da que me é mais próxima: a literatura. Não se escreve ficção com a cabeça. Escreve-se com o ser, extraindo do mistério pessoal a narrativa que nos espelha o espírito. Essa narrativa é "fora do corpo", imponderável e, no entanto, é a Palavra que biblicamente organiza o caos e cria o ser. E essa Palavra vem de "fora do corpo" e vai para "fora do corpo".

Talvez isso explique um dos fenômenos mais inquietantes da pós-modernidade: a morte da estética. Pois se a modernidade arrancou do palco a fé e a substituiu pela razão, a pós-modernidade despreza a razão para idolatrar o corpo. O que importa agora é a "estética" do corpo. É a beleza - não das infinitas possibilidades de expressão do corpo, aquelas que se expressam "fora do corpo" - mas a estética do corpo-em-si, retido à sua constituição física, orgânica, modelado segundo padrões fisiculturistas: magro, atlético e aparentemente jovem.
Essa corporalização da estética faz definhar o espírito e opera a inversão de Narciso. Narciso contemplava-se porque era belo. Na inversão não há beleza, há um padrão de formas, que suplica reconhecimento aos olhos alheios - o espelho narcísico invertido. Vejam em mim a beleza que julgo ter…

A beleza é algo que emana - da pessoa, da pintura, da escultura, da poesia… Não está propriamente no corpo, nas cores da tela, na materialidade da escultura, nas letras do alfabeto unidas em vocábulos no poema. Está "fora do corpo", porque irrompe do mais profundo do ser e atravessa a corporalidade do artista e de quem é tocado pela obra de arte. Assim, sacia o espírito. É imortal. "Deus é quem sabe".
A estética pós-moderna é pobre porque feita para consumo, e não para enlevar, elevar, arrebatar. Seu maior defeito é ser prisioneira do corpo.

Frei Betto - ler artigo completo em Adital

2006-11-21

bom proveito




"Vaticano ultima documento sobre o preservativo

O presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde (CPPS) anunciou hoje que o seu Dicastério “ultimou” um estudo sobre o preservativo. O documento, de carácter “científico e moral”, segundo o Cardeal Javier Lozano Barragán, surge após um pedido de Bento XVI para que fosse levado a cabo um diálogo entre este Conselho Pontifício e a Congregação para a Doutrina da Fé a respeito deste assunto.

O Cardeal mexicano, que falava em conferência de imprensa, no Vaticano, explicou que o estudo utiliza o saber de especialistas, tanto da ciência como da teologia moral. "O nosso Dicastério não tem competências doutrinais, mas apenas competências pastorais. Por este motivo, colocamo-nos em diálogo com o Dicastério competente. O estudo está agora a ser analisado pela Congregação para a Doutrina da Fé", explicou.
O documento reúne todas as posições da Igreja a respeito do uso do preservativo, desde as mais liberais às mais rígidas. A discussão deverá centrar-se, nos próximos tempos, sobre a utilização do preservativo em casos particulares e limitados, como a situação de casais em que um dos membros está contaminado pelo HIV. ..."


ler a notícia toda em www.ecclesia.pt

Desejo que o estudo seja proveitoso. Pelo menos, parece que têm em conta as posições todas. Não demorem é muito tempo nos testes, que a gente tem mais que fazer.

Olha com quem eu me estou a meter...


Hoje, na breve ronda que fiz pela "blogos", emocionou-me um post do João Tunes, a propósito de um que eu tinha feito, em memória da minha mãe. Como hoje não acordei com a melhor disposição do mundo, digamos que, acordei mesmo com um humor do caraças, soube-me bem aquele mimo do João. Já nem falo da nomeação para melhor blog feminino, que agradeço, mas não vejo que mereça.
Mas a minha história com o João, hoje, estava destinada a ter mais algum envolvimento. Fui bisbilhotar como é que o pessoal vai chegando aqui, e descubro que uma das pessoas, chegou a procurar no Google: "A medida de Tunes". (Vai a vermelho por causa do SLB)

Eu não sou mulher de deixar alguém sem resposta. Mas nesta, só o meu caríssimo amigo é que pode ajudar. Eu não sei, exactamente, qual é a medida pretendida. Imagine, caro João, que é alguém que, neste Outono, que tem sido muito chuvoso, lhe quer oferecer uma gabardina nova. Ou as medidas do colarinho, para uma camisa. Sei lá! Isto sou eu a especular. Se quiser arriscar a divulgar, faça favor. Não deixe a pessoa sem resposta.

SIEMPRE

Y cómo harás em no futuro versos?
— Haré mis versos sin hacerlos..., casi
fluidos, casi inmateriales, tenues,
sim palabras apenas,
o palabras que formen leve reja,
delgada reja, tras la cual asome,
tembloroso, mi espirito desnudo,
mi espirito sediento
y hambriento de supremas realidades:
ávido de saber la sola cosa
que hay que saber en vísperas
de la gran travesía...
— Y no amarás?
— Ay!, si, porque he nacido
para amar... bien quisiera
que a lo invisible abriese su corola
unicamente el alma: pero no puedo aún: Eva sonrie,
y tras ella, prendido mi deseo
en el rayo de sol de su sonrisa,
vuela, incapaz de detenerse, amigo!

Me temo, pues, que mi postreto
canto sea um canto de amor...

Amado Nervo, Enero 1916
Imagem - eva.sandstedt

2006-11-20

esta é a última de hoje...livra!

Ontem, na missa, à minha esquerda e à minha direita estavam duas pessoas conhecidas. A do lado esquerdo, soprou-me, já não me lembro em que altura (penso que não foi durante a homilia, que até foi bem razoável): "houve um encontro no Vaticano, sobre o celibato dos padres. Mas aquilo não deu em nada" Respondi: mas estava à espera que desse? E abanei a cabeça, como quem diz:(santa ingenuidade).

A do lado direito, no momento da comunhão diz-me:"não vou comungar. Faltei um domingo à missa. Porque estava muito cansada. (trabalha num lar de idosos)" Ainda lhe disse: mas isso não é motivo para não ires. E apeteceu-me, em dois minutos, confessar-me ali, a ela, para compararmos os nossos pecados. Não insisti mais com ela porque essas decisões cabem ao foro íntimo de cada um. Mas fiquei, interiormente, a lançar imprecaçõescontra uma Igreja, que tem posto a tónica no legalismo religioso, em vez do amor misericordioso de Deus. E senti-me constrangida, porque pelo amor que eu sei que ela tem, no trabalho que faz, senti-a mais preparada para se abeirar da mesa eucarística do que eu própria. Valeu lembrar-me que, a misericórdia também a mim é destinada.

esta então, vai ser uma desgraça...

Também cá chegaram à procura de "os bem cuidados jardins do Vaticano". Aqui é que não posso ajudar muito. Nunca lá fui. Não conheço. A minha viagem de sonho é às planícies da Mongólia...
Mas sobre os jardins, tenho um palpite; o que não faltará por lá, são "ervas daninhas". A ver pelos resultados das meditações que por lá se fazem...

consultório pouco técnico

Alguém chegou aqui procurando "pior erva daninha". Pois eu não sei qual é. No jardim não tenho cá nada disso. Vou utilizar uma comparação. Alberto Alberoni, autor italiano que escreveu sobre o enamoramento, amor etc., diz numa entrevista à revista "Pública" no dia 12/11/2006 que; "o sexo é bom, sempre que melhora as relações entre as pessoas".

Ora, a pior erva daninha, será aquela que quer o jardim todo só para ela, invade tudo, não deixa espaço para as restantes flores e plantas crescerem e florirem. Estamos entendidos? É que a seguir tenho outra resposta a dar.

2006-11-18

A minha mãe


Seta

A verdade é que não conseguia curar-se
de uma delicadeza infinita
senão consigo
ao menos para com o mundo
a glória desejava semelhante
no escuro e à luz dos campos
embora tanto se achasse incapaz

preferiu sempre a seta que desaparece
ao nome breve que se guarda

José Tolentino de Mendonça

Hoje farias setenta e um anos. Dezassete anos de saudade, não apagam as memórias que deixaste em todos nós. Foi contigo que aprendemos a amar. E ainda és tu que cuidas de nós.

2006-11-17

qual é a raiz do problema?

Alguém para me justificar a necessidade do celibato dos padres, contava-me a seguinte história:
" Soube que uma pessoa se dirigiu à igreja porque precisava de falar urgentemente com um padre." (Os padres, muitas vezes, são os psicólogos dos pobres. Ou dos que não querem admitir que precisavam de um.) "Responderam-lhe que voltasse no outro dia, porque já eram oito da noite e o sr padre tinha de ir jantar!"

E dizia-me a pessoa: "Está a ver? Um padre casado ainda menos disponibilidade teria... não ia deixar a mulher à espera"

E eu:"desculpe, mas um padre assim, nem para casar servia. Uma pessoa que mostra tal desumanidade perante o sofrimento de outra pessoa, nem para casar nem para ser padre."

Duas palavras, um sorriso, ou um abraço, dão-se num minuto e podem ter um efeito incalculável. A secura de coração, para essa, é que não conheço remédio. Não digo que seja o celibato que faça isto. O celibato livremente escolhido e saudavelmente vivido, é um modo de vida que pode ser tão realizador/compensador como qualquer outro. Já o funcionalismo de algum clero, é uma erva daninha na Igreja.

que surpresa!!!!



Vaticano reafirma importância do celibato
Encontro entre Bento XVI e chefes dos Dicastérios da Cúria Romana
. Bento XVI e os chefes dos Dicastérios da Cúria Romana reafirmaram hoje a importância do celibato sacerdotal na Igreja. Esta é a conclusão do encontro convocado pelo Papa, para analisar o chamado “caso Milingo”, os pedidos de readmissão de padres casados e os pedidos de dispensa do celibato.

não sou de pedra

No IPO, resolveram que as biópsias não eram conclusivas. Reeniciei o processo. Ontem a médica, depois de me "massacrar" mais de uma hora dizia:"- esta sra é mesmo paciente!". Porque não "tugi nem mugi". Mas a paciência está por um fio. No entanto, não tenho outro caminho.

evasão


A palavra "evadir" é das que não posso ouvir sem me entregar a um trabalho mental sem fim. A procura da âncora em que me empenhei parece apontar-me o caminho de uma evasão, talvez de uma metamorfose, de uma ressurreição. Com um arrepio afasto o pensamento de que a prisão é o meu corpo mortal e a evasão que me espera é a separação da alma, o ínício de uma vida extraterrena.

Italo Calvino - Se numa noite de inverno um viajante

2006-11-16

De uma santa paciência, eu sei, de um amor ainda maior é que eu precisava.

Eugène Ionesco

sinto-me ferida...

...como cidadã e como cristã, de cada vez que me dizem: "Para os nossos (portugueses), não há nada. Para os que vêm de fora há sempre dinheiro para gastar em benefícios."

2006-11-14

A mim, só me falta a franja!

Bem me parecia, que as definições do Vinícius, eram pouco consistentes. Aqui temos a prova!

Agora venha de lá o e-mail: "EXAGERADA!"

vamos a uma aposta?

Henrique, ontem rendi-me na discussão contigo. Levei tampa no copo. Mas a vida continua, e hoje, cá estou de novo. :)

Continua na discussão com o Paulo. Ele anda nas filosofias e pode ser uma boa oportunidade de trocarem impressões. A aposta do Paulo em Deus é uma das coisas mais bonitas que ouvi nos últimos tempos. Por isso, as passagens dele por aqui, são sempre de uma grande alegria para mim.

Por agora trago aqui uns pensamentos do Boff (os "ortodoxos" coçam-se todos, mas paciência.) Somos todos filhos de Deus. E as fronteiras da Igreja só Deus as conhece. (Agora vem o JS e dá-me "na cabeça".) :(

Blaise Pascal (1623-1662)...Em pleno debate com a razão moderna nascente, depois de uma profunda experiência espiritual, escreveu uma "Apologia da Religião Cristã". Ela deveria responder às objecções da época de forma cabal e irrefutável....

...Depois de tentar todo o tipo de argumentos em favor da fé, deu-se conta, de forma honrada que nenhum deles era cabalmente convincente. Foi então que forjou o argumento da famosa "aposta" válido até aos dias actuais.

No parágrafo 223 de seus "Pensées" Pascal colocou a seguinte questão:"Dieu est, ou il nést pas": "Deus existe ou não existe".
Sustenta que a razão pode aduzir tanto argumento a favor quanto contra a existência de Deus. Destarte não se consegue determinar uma resposta convincente. Como sair desse impasse? É aí que Pascal afirma:"é necessário apostar". Você não tem escapatória porque, uma vez que suscitou a questão, você se encontra "embarcado nela" diz ele. A razão não sai humilhada pelo facto de ter de apostar. A aposta apresenta a seguinte vantagem:"ou você tem tudo a ganhar ou você não tem nada a perder".

Se você afirmar "Deus existe" e Ele de facto existe, você tem tudo a ganhar, a vida e a eternidade. Se você afirmar "Deus não existe" e Ele de facto não existe, você não tem nada a perder: o sentido da vida e eternidade eram meros devaneios. Então é racional, aconselhável e justo que você afirme "Deus existe" e assim você tem tudo a ganhar.

Qual a actualidade da "aposta pascaliana" para os dias de hoje? Culturalmente a questão não é mais posta em termos de "se Deus existe ou não" mas em termos:Que futuro para o planeta Terra e a vida se toamrmos a sério os alarmes dados por cientistas? Há galáxias que engolem outras galáxias. Que sentido tem o universo que pela lei da entropia, caminha para a morte térmica? Tem sentido a vida humana depois de campos de extermínio nazista e da tsunami do sudeste da Ásia? Tem sentido o destino das grandes maiorias submetidas à fome, a todo o tipo de exploração, com crianças estupradas e mulheres submetidas à escravidão sexual?

Somos também desafiados a apostar: apostamos que apesar de todas as contradições, trabalha um sentido secreto no universo. Ele um dia vai manifestar-se e será a suprema felicidade da criação e assim ganhamos tudo. A luz tem mais direito que as trevas. Ou então tudo não passa de absurdo e a felicidade é ilusória e acabaremos todos no pó cósmico e assim não perdemos nada quando deixamos de acreditar.

Vale então apostar, numa atitude de confiança radical (è o sentido bíblico da fé) de que o mundo é salvável e o ser humano resgatável a ponto de descobrir a irmandade universal até com as formigas do caminho. Apostando nisso temos tudo a ganhar aqui e na eternidade.

Leonardo Boff

É sempre uma festa!

2006-11-13

temos a mania de querer a lua.

Mão amiga (devido à minha nabice), colocou um novo artefacto, aqui, no jardim, que entre outras coisas, permite ver que palavra(s) usaram de pesquisa para aqui chegar. Alguém chegou aqui a procurar: "palavras gratificantes na hora da derrota."

Não deve ter encontrado por cá nada. Se há uma derrota, como é que se podem dar palavras gratificantes? Isto, só mesmo coisa de português. Em caso de derrota; há que assumir e andar para a frente. Nem que se tenha de caminhar e ir lambendo as feridas. Agora esperar palavras gratificantes: santa paciência!

Lembra-me o caso, de um conhecido meu, que há dias me participava o fim do seu casamento. Por várias vezes, em tempo útil, lhe tinha dado as coordenadas necessárias (isto para os outros resulta sempre), para que tal não acontecesse. Não me ligou nenhuma, nem ao outro lado onde a perspectiva era a mesma que a minha. Tive de me reprimir, com tudo quanto tinha, para não lhe dizer: - eu não te avisei?

Hoje acordei um bocadinho sádica...Não sei se foi por ouvir dizer que os espanhóis também nos tramaram nas quotas da pescada e do tamboril. O que é que eles ainda querem mais nosso?

..."mas o maior é o amor"


...me miran con tus ojos las estrellas más grandes.

Y como yo te amo, los pinos en el viento,
quieren cantar tu nombre con sus hojas de alambre

Pablo Neruda

Os crentes - uns apostadores

Uma mulher sem medo de se deixar perder na abundante graça e consolação de Deus. Sem dúvida, o melhor investimento. N'Ele depositou as suas duas moedinhas. Um investimento ainda mais seguro que num banco, num offshore.... (Mc 12, 41-44)

A fé, não passa disto : uma aposta. Que não vale pelos resultados que se venham a obter um dia, mas pelos que se vivem agora e já.

2006-11-12

aprender o equilíbrio

Reflicto sobre o dia de hoje: a celebração da Eucaristia, em que participei logo pela manhã. O eco que a liturgia da Palavra, a disponibilidade e afabilidade do celebrante, o acolhimento que sentia no resto da assembleia, me provocaram.

Leio um comentário assinado "hmbf" que me parace ser do Henrique, (que só vi pessoalmente uma vez, mas que me marcou pela afabilidade e capacidade de comunicação), no Quase em Português, onde diz:"..E eu continuo na minha:religiões e partidos, cada vez mais me convenço que são todos uma porcaria."

E leio o magnífico artido do padre Anselmo Borges, no Diário de Notícias, onde não deixando de pôr "o dedo na ferida" em relação às religiões, as assume como possível caminho de felicidade.

É esse equilíbrio que procuro. Não deixar que, o que as religiões têm de negativo, ou até a própria fé, que pode ser caminho para a infantilização, desresponsabilização, alienação etc., me impeçam de continuar a procurar Deus, num projecto de vida e felicidade.

... A injustiça é intolerável. Mas, sub-reptícia e inconscientemente, aninha-se neles muito sadismo. A crença no inferno foi uma das polícias mais eficazes de todos os tempos. No entanto, o inferno não faz parte do Credo cristão e só pode pregá-lo quem nunca meditou no mistério insondável da liberdade humana, mergulhada nos condicionamentos da temporalidade. Aliás, mesmo do ponto de vista conceptual, o que é que pode querer dizer uma condenação eterna? Às acusações de que deste modo se está a abrir caminho à irresponsabilidade e ao vale-tudo deve responder-se que o amor não banaliza, mas responsabiliza, devendo acrescentar-se que Deus só levará à plenitude as possibilidades concretizadas pelo ser humano no tempo.Não constitui nenhum exercício de masoquismo lembrar que, desgraçadamente, para um número indeterminável de homens e mulheres, a religião, cujo núcleo é a salvação e a felicidade plena, em vez de ser o espaço da alegria, da expansão e da vida, foi, de facto, o espaço da tristeza, da humilhação e da morte. Penso, por exemplo, em todos aqueles que foram e são vítimas de ódios e guerras cruéis e sanguinárias com base na religião. O horror, pura e simplesmente! Penso, claro, nas vítimas da Inquisição e em todos quantos, em todas as religiões, foram e são vítimas de censura, condenação e exclusão por motivos teológicos. Pergunto-me frequentemente como é que houve e há quem se arrogue o direito e até o dever de "definir" quem e o que é Deus e a partir daí condenar e excluir. ...

...Penso na história das relações entre as religiões e a sexualidade e nas vidas sexuais envenenadas e nos celibatos eclesiásticos obrigatórios e nos seus dramas e desgraças. Penso em certo tipo de confissão auricular que poderá ter ferido os direitos humanos. Penso nas mulheres cujos direitos em igualdade com os homens as religiões de modo geral não reconhecem e sobretudo nas acusações de bruxaria que as levaram à fogueira.O mais pernicioso foram e são ideias teológicas mesquinhas e ridículas. Também por isso, nomeadamente Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus, figuras determinantes para a Humanidade e de cuja profunda religiosidade ninguém pode duvidar, foram considerados ateus. Sócrates concretamente bebeu a cicuta, acusado de ateísmo, e Jesus morreu na cruz, acusado de blasfémia. Estes factos obrigam a ter constantemente presentes, com temor e tremor, os perigos patológicos das religiões.

Talvez nunca se tenha meditado suficientemente na grandeza heróica daqueles que preferiram o ateísmo a ficar presos de um deus que humilha, escraviza e anula o Homem.No entanto, o Homem é por natureza religioso, no sentido de estar constitutivamente aberto à questão de Deus enquanto questão. Essa abertura, independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê, é que é o fundamento último da dignidade humana. Precisamente porque é abertura ao infinito. A religião enquanto fé no Deus infinito e pessoal foi mediadora da tomada de consciência da infinita dignidade de ser Homem. Esta é a intuição e a parte de verdade da tese de Feuerbach ao querer reduzir a teologia a antropologia. Esta reflexão tem na sua génese a carta de uma colega a confessar-me a experiência traumatizante do pavor do inferno na infância, que a levou ao abandono da prática religiosa. Não deixou, porém, a fé na mensagem de que Deus é Amor, continuando a acreditar nos valores cristãos e a tentar praticá-los.

Anselmo Borges - Diário de Notícias