2006-01-31

Para o Zé

Pequeno poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.


Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.


As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...


Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


Sebastião da Gama


Junto às palavras do poeta um forte e sentido abraço.

2006-01-30

Homofobia...

Comecei a ler o artigo de opinião do Prof. João César das Neves e quase me belisquei. Estranhamente, estava de acordo com o que lia. Foi "sol de pouca dura", acabei como faço sempre; a chamar nomes pouco próprios, ao homem.

Não entendo, onde é que as relações homossexuais ou lésbicas, agridem o resto da sociedade. Quando muito, o que poderia acontecer - mas ele chama-lhes minorias - era caso houvessem em tão grande número, que pusessem em causa a continuação da espécie. Não me parece.

Depois continua, de forma desadequada, até porque já foi chamado à atenção para isso - até em tribunal - a misturar coisas tão diferentes como; homossexualidade, pedofilia, incesto, bestialidade(?), promiscuidade.

Li no Público de ontem, o caso de um casal de lésbicas que deseja contrair casamento civil, queixarem-se que já foram agredidas com uma mangueirada de água, por terem publicamente manifestações de carinho.
Se o acto me parece grotesco, desumano, idiota (a mangueirada, claro!), a linguagem e a distorção da verdade, manifestadas por César das Neves, parecem-me ainda piores.

A liberdade exige que cada um possa ter a vida que quiser. Mas não força a que todos achem que todas as alternativas são equivalentes; tal como a liberdade religiosa não exige que se ensinem nas escolas as teorias de qualquer seita. Uma pessoa, em liberdade, tem o direito de pensar que a homossexualidade é uma depravação, tal como pode achar que o criacionismo não é ciência. Isso, em si, não significa homofobia e intolerância, desde que não persiga os que pensam de forma diferente da sua. Pelo contrário, é o Parlamento Europeu que, ao consagrar na lei geral a posição abstrusa, viola a liberdade.Não é discriminação tratar de forma diferente aquilo que é diferente. Os activistas pensam que a homossexualidade é igual ao casamento, tal como os criacionistas acham que o Génesis é ciência. Mas as relações homossexuais, tal como a promiscuidade, incesto, pedofilia e bestialidade, nunca foram consideradas equivalentes à família, até nas sociedades antigas que as tinham como correntes.
INVENÇÃO DE UM MODO

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo"
Fico entre montanhas, entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto, de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão, ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias.
Tudo é Grande Sertão.

Adélia Prado

"Um santo inquietante"

"...Ninguém deve viver contrariamente àquilo que o próprio espírito lhe propõe como verdade. E quando uma pessoa vive segundo a verdade - afirmada como tal pela própria consciência -, Deus não a pode condenar, mesmo que esteja no erro.
...quem acredita com a fé teologal, não é nos artigos do Credo que acredita. Adere, na noite, ao mistério inabarcável de Deus.
...Quem procura respostas prontas e para tudo na obra de S. Tomás de Aquino, esquece, o aviso que nos deixou no início da Suma Teológica: não ir procurar saber como Deus é, mas sobretudo como Ele não é.
...A fé é, por isso, uma impossibilidade de parar na viagem...."

Frei Bento Domingues no Público.
ler o texto todo em Anomalias

2006-01-28

Evangelho: Marcos 4,35-41

Quem é este a quem até o vento e o mar obedecem?

O evangelho de hoje oferece-nos de novo um relato carregado de símbolos. Ao entardecer, o mestre, que estava a ensinar à multidão nas margens do mar disse a seus amigos: “ vamos à outra margem”. A tarde, hora de recolhimento, quando o mar se torna mais perigoso, Jesus parece expor um novo tema: “passar para outro lado”. Quando termina o dia e seguramente o desejo de seus seguidores é regressar a casa, Jesus convida a um novo movimento, a uma nova saída. A missão nunca termina e é preciso conservar a capacidade de mudar, de se mover, de criar, de começar sempre de novo. Mas esta dinâmica não é fácil: Se levantaram as tormentas e as ondas ameaçavam submergir a barca. Então a comunidade ameaçada sente medo, e experimenta um sentimento de abandono. Jesus cansado no fim da jornada, dorme e nos lembra sua humanidade e sua proximidade. Jesus é despertado por seus amigos com gritos e reclamações... Assim acostumados muitas vezes a chamar a atenção de Deus quando, em momentos de tormenta nos sentimos abandonados por ele. Mas Jesus acalma a confusão e convida-os a renovar sempre a fé. Por que temer? Se vimos uma e outra vez o amor de Deus, se experimentamos sua presença em nossa vida. Por que duvidar? Atrevamo-nos pois a passar para outra margem, a sair de nós mesmos entrando na dinâmica de Jesus, confiados que nenhuma tormenta poderá submergir nossa barca porque Jesus mesmo viaja com seus enviados.

Serviço bíblico Claretiano

Adenda:

Gosto particularmente deste trecho do Evangelho. Completamente incapaz de definir, ou escolher o livro da minha vida. São vários! Escolho e tenho, como programa de vida, este pedaço do Evangelho. Se a minha vida se tem desenrolado no meio de alterosas tempestades... o lutar, o inconformar, o procurar a outra margem, tem sido uma constante. E dou graças, porque tudo vivido com o dom da luz da fé. Não interessa se às vezes é um pequeno "pirilampo", e se às vezes, dele, só tenho o desejo, o que importa é que não desisto, nunca.

Levando este tema para a vida da Igreja - é o que normalmente se faz - identifica-se com muita facilidade a barca à Igreja e colocamos assim como que, a Igreja, no meio do mundo hostil que levanta ondas ameaçadoras. Como, se, na Igreja tudo fosse tranquilidade e paz. Quem vive "dentro" e atento, sabe que não é assim. O alcançar a outra margem, é desafiante, é muitas vezes caminhar às escuras, confiando que a praia existe, e para lá chegar não se pode estar amarrado a nada. Nada mesmo. Nem dogmas, nem doutrinas, nem poderes, nem medos, nem certezas...

Por estes dias, fala-se de amor, teve honras de mediatização, é importante que lhe vamos procurando o sentido, sem nos esquecermos de o pôr em prática.

Soube, pelo Manuel Pinto, Religionline, que o jesuíta Juan Masiá, foi destituído, da cátedra da Universidade de Comillas, porque ousou sair da "segurança" da barca e procurar a "outra margem."

Roma, não se pode transformar num ancoradouro, de onde não se podem soltar amarras. Isso não é a segurança de Cristo que acalma a tempestade. É a segurança do medo de arriscar, de ousar, de mudar, de converter.

2006-01-27

"Olhem! Que coisa mais linda..."

Soneto do Orfeu

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar, que actua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Uma mulher que é feita de música
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento,
Tão cheia de pudor que vive nua.

Vinícius de Moraes

é da noite

NO MEIO DA NOITE

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio acto de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
"A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão inchando húmidos, vão brotar sinos."
Doía como um prazer. Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
O que foi? - ele disse. -
As buganvílias...
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo.

Adélia Prado

2006-01-26

esperem aí um bocadinho que estou com uma crise de identidade

Via Tugir seguindo a pista do LNT, vou dar a um post do Vital Moreira no Aba da Causa . Disserta, à sua maneira e como lhe convém sobre os resultados das eleições de domingo e eis senão quando, ao referir-se aos eleitores de Alegre lhes chama:"romântica esquerda independente".
Votante de Alegre e também com muita honra de Maria de Lourdes Pintassilgo, cheirou-me logo a esturro. "Esquerda"? Nada de mais. Mas romântica? Fui ao meu auxiliar precioso, o dicionário da Priberam e aqui está:

Romantismo (Filos)
"termo que designa a doutrina filosófica alemã do início do séc. XIX e que se opôs ao racionalismo, fazendo a apologia da imaginação, da intuição e de uma certa forma de encarar a relação entre o ser humano e a Natureza."

Pois, também romântica, sem problema nenhum! Não é o sonho que comanda a vida? E sempre que um homem/mulher sonha o mundo...?

eucaristias

"Francisco (de Assis) depois de ter escutado o Evangelho, vendo um leproso, aproximou-se e beijou-o. Não foi um gesto fácil. Narrando-o aos seus confrades, disse:"A partir desse momento o que me parecia amargo tornou-se-me doce".
Esse abraço mudara-lhe a vida. É este o homem novo que nasce do encontro com Jesus. São homens como este que mudam a história; a própria, a dos pobres e a do mundo. Entre o Evangelho e o pobre, entre o sacramento do altar e o sacramento do irmão há mais afinidade do que parece. "Queres honrar o corpo de Cristo?" - pergunta-nos S. João de Crisóstomo. "Não o desprezes na sua nudez. Aquele que disse:"Este é o meu corpo" disse também:"Tinha fome e deste-me de comer..." De que serve a mesa eucarística cheia de cálices de ouro, quando ele morre de fome? Começa por saciar o faminto e, com o que sobra, poderás honrar também o altar". Comungar o irmão e comungar o corpo de Cristo são realidades afins e são um permanente exame de consciência sobre o modo como vivemos as nossas eucaristias."

Darci Vilarinho - Fátima Missionária

notas

Ainda não tive tempo de ler a nova encíclica. Parece que fala do amor. Por estes dias vou sendo desafiada a pô-lo em prática, saiba ou não o que isso é. Preocupações, doenças, ansiedade, confronto, medo, insegurança, perdão, acolhimento...

Folheando rapidamente o DN, deparo-me com as notícias de agressões na Casa do Gaiato. Um dia conheci dois moços, utentes da mesma e fiquei com um vasto panorama do que é a vida por lá. Queridos E. e P., pudesse eu, dar-vos uma vida nova.

Também no DN, alguém alerta para as cerca de cem mil crianças que vivem em risco. Tivemos há dias uma eleição presidencial cheia de questõezinhas, tão pequenas perante esta realidade.

E a Igreja, e os cristãos? No assumir diário da sua fé, está presente esta dura realidade?

2006-01-25

Procuro o Teu Rosto

Senhor, meu Deus,
Ensina o meu coração
Onde e como te procurar.
Se não estás no meu íntimo,
Onde te poderei encontrar?
Mas se estás presente em toda a parte
Porque será que não te consigo ver?

Eu sei, tu habitas numa luz inacessível.
Mas onde se encontra essa luz inacessível e como poderei eu alcançá-la?
Quem me guiará e deixará entrar para ter a alegria de te ver?
Quais os sinais para eu te reconhecer?
Nunca te vi, Senhor meu Deus, e não conheço o teu rosto.


Até quando, Senhor, te esquecerás de mim?
Até quando nos esconderás o teu rosto?
Quando é que iluminarás o meu olhar?
Tem piedade dos meus esforços para te encontrar
Pois nada posso sem ti. Ajuda-me, ó Deus.


Senhor, ensina-me a procurar-te
E mostra-te quando eu te procuro.
Pois não poderei procurar-te se tu não me ensinares
Nem encontrar-te se não me mostrares.
Fazei que amando-te eu te encontre
E te ame encontrando-te, meu Deus.


S. Anselmo

estrada de damasco

No dia da festa da conversão de S. Paulo, fica o desejo de que aconteça, para mim também, uma "estrada de damasco". A conversão que desejo, de que sou capaz, é feita de pequeninos passos. A conversão exige despojamento, sujeição, e o meu sentido de posse ainda é demasiado elevado.

Tenho em mim a nostalgia do encontro e o medo da morte. Morte que não é apenas a do momento final, mas a que implica que eu me submeta, me deixe seduzir, me deixe invadir pela luz transfigurante.

Ah, se soubesse o que é o amor!

2006-01-24

outra estória

Não, não estou a gamar a ideia do magnífico blogue do . Mas conheci gente que marcou a minha vida. Este é mais um caso.

Um dia, estava numa reunião de avaliação das actividades da paróquia e a pessoa responsável pelo grupo dos visitadores dos reclusos, começou a contar esta coisa espantosa. Há mais de seis meses que um recluso, frequentador dos encontros que promoviam no Estabelecimento Prisional, pedia para ser baptizado. Logo o informaram que devia ter algum tempo de preparação e transmitiram ao prior (outro, não o mesmo do caso, do post anterior) o pedido deste. No grupo dos visitadores ninguém se achava preparado para tal tarefa. Houve um burburinho na sala, de desagrado por não estar a ser dada resposta da parte da comunidade, mas também ninguém se ofereceu para o fazer. Eu, não o fiz, porque não me sentia muito vocacionada para tal, e também as minhas catequeses tinham sido sempre a crianças e adolescentes. Havendo já na paróquia, catequistas de adultos, que eu achei, estariam melhor preparados.
Acabada a reunião, sem que nada ficasse resolvido, ficámos em pequenos grupos a fazer as "avaliações particulares". Chega o prior ao pé de mim e diz: "Tu é que vais dar a catequese ao J.". Ainda comecei:"mas por que raio é que tenho de ser eu?...", mas a lembrança de um pedido feito à comunidade e a não resposta da mesma, levou-me a interromper o meu chorrilho de razões e assentir que "sim, ia".
Marcou-se uma reunião com a direcção do E.P., para a minha apresentação e marcação de horários, e decidiu-se que iria um dos padres da paróquia falar com o J.
A receptividade da parte da direcção do E. P., foi excelente.

No primeiro encontro, note-se; era a minha primeira entrada num Estabelecimento Prisional, as apreensões eram mais do que muitas. Entrei para uma sala e esperei que viesse o J. Apareceu-me um homem mais ou menos da minha idade, um bocado desarranjado tanto no vestuário como no aspecto geral. Cabelos compridos e pouco cuidados. Apresentei-me e comecei a ouvi-lo. De tudo o que me disse, logo nesse dia, saliento o seu desabafo ao dizer que queria ser baptizado porque não o sendo, achava que o tumulto da sua vida se devia a isso. E que vida.
Bom, logo nesse primeiro encontro, com a maior convicção de que fui capaz, falei-lhe abundantemente do Deus-Amor. E expressei-lhe que, o facto de não ser baptizado, não era motivo, para não ser amado por esse Deus, que eu lhe testemunhava.
No segundo encontro (uma vez por semana), apareceu-me um homem completamente diferente. Cabelo cortado, barba feita, roupa cuidada. Em jeito de explicação foi dizendo:" A Igreja, está muito diferente. Avisam-me que está na sala um padre para me visitar, espero ver um padre velho, e é um jovem todo simpático. Ele diz-me que vai passar a vir uma catequista dar-me formação, eu imagino uma freira velhinha e aparece-me a senhora." Ri-me, percebi o motivo do arranjo e fui-lhe dizendo que a Igreja não são só padres e freiras.

Foram muito gratificantes os meus encontros com o J., consegui fazer-lhe perceber que o amor de Deus, não estava condicionado àquilo que era a sua vida.
Acabou por não se baptizar, porque entretanto saiu em liberdade e pertencia a outra paróquia e até outro concelho. Mas era uma pessoa renovada interiormente.
Não fiquei nada preocupada por o rito do baptismo não acontecer. O essencial estava feito. As notícias que mais tarde soube dele, eram de que estava a trabalhar e integrado na família.

2006-01-23

Nunca será demais lembrar que

A prática de Jesus de Nazaré foi de promover a vida. A fé em Jesus Cristo tem de nos impelir a fazer o mesmo.
A prática da Igreja, a vida dos crentes, anda tantas vezes arredada disto. O exercício da caridade, não é um extra, uma tarefa facultativa que se acrescenta à prática religiosa.
O caminho da fé, sendo uma opção pessoal, exprime-se, realiza-se na comunhão (comum+união) diária.
A fé vive da aferição diária, dos passos que damos, para minorar o sofrimento humano.
Nas homilias, continua a ouvir-se que o maior bem é a fé. Pois é, desde que devidamente sustentada pelo amor. A fé não é desencarnada da vida.
O Cristo da fé, está presente em cada homem. No pão consagrado, não estão os "extras" da humanidade, está a vida de todos os homens. Ó mistério da fé!

impressões...

gostava de guardar em sítio seguro alguns instantes deste domingo...

Pressinto

Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.

Daniel Faria

Notas

Votámos. Temos Presidente. A margem foi moralizadora. O eng. Sócrates, esteve bem. Ana Gomes, falou demais. É pena. António Vitorino deu umas cambalhotas para justificar o injustificável, a escolha errada. A votação em Manuel Alegre, mostra que ainda há esperança para este país.

2006-01-20

recado para domingo:

O meu voto será : ALEGRE

"Quanto maior é a diferença, mais rica é a unidade." E esta?

"O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, nosso Senhor, e, mediante isto, salvar a sua alma. E as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para o ajudarem na pressecução do fim a que é criado." (Santo Inácio)

"A criação é para a Aliança, ou seja Deus cria a criatura para a desposar. Desposórios em que o esposo e a esposa serão um só. Transformação da criatura para que possa ser divinizada. Para que possa viver da própria vida de Deus.

Deus cria unicamente para isto: o nascimento é para o baptismo, a criação é para a aliança, a diferença entre o homem e Deus é para a unidade. Na verdade o amor diferencia e unifica. Se não há diferença será pobre como uma orquestra onde só houvesse violinos. Quanto maior é a diferença, mais rica é a unidade.

No início da Aliança, há um contrato: o contrato entre Deus e Abraão, entre Deus e Moisés. É um intercâmbio de compromissos, apoiado na fé:" Eu serei o teu Deus, mas tu cumpres os meus mandamentos". O progresso da Revelação consiste neste contrato, inicialmente jurídico, se tornar uma permuta de amor.

Um exemplo:
Uma mãe de família sofre terrivelmente de enxaquecas. Vai ao médico e este prescreve-lhe, com insistência, um ambiente de silêncio e tranquilidade. De regresso a casa, a mãe chama os filhos, ainda pequenos e faz-lhes as recomendações necessárias:"Primeiro, não toques a corneta, depois não batas com as portas, em terceiro não batas com os pratos quando puseres a mesa, quarto...etc, etc." Depois chama os filhos mais velhos e diz-lhes:"Foi isto que disse o médico. Agora se vocês me têm amor..." É tudo. Os jovens é que têm de descobrir como proceder para não incomodarem a mãe."

François Varillon

Traduzindo isto para a vida da Igreja, deve cada vez mais, incentivar-se a maturidade do amor e não o legalismo que infantiliza, exclui, marginaliza, oprime, cria divisões.
A única regra necessária no amor é o bem do outro.

2006-01-18

donos ou servos?

Deambolando pela blogos, fui dar com um blogue que não conhecia-"fé e compromisso", e correndo os vários textos, fixei-me num comentário de alguém que aludindo ao facto de não poder comungar as espécies eucarísticas, chamava aos que ordenavam a que assim acontecesse; "donos dos sacramentos".
É claro que há uma explicação doutrinal, para essa e outras situações, mas a inquietação permanece.

Lembrei-me de uma situação com que já fui confrontada, aliás várias, mas esta marcou-me profundamente.
Um dia, o pároco da minha paróquia, deu-me o recado de que precisava falar comigo. O motivo da conversa, era para vermos da minha disponibilidade para preparar quatro jovens senhoras, que tinham o desejo de receber o baptismo. Deu-me os seus contactos, que eu estabeleci, combinei com todas uma hora conveniente, e lá nos encontrámos. Apresentei-me um pouco, falei-lhes do que era para mim a pertença à Igreja, o acreditar, o testemunhar...
Encontrámo-nos mais duas ou três vezes e espontaneamente, foram falando da sua vida. Uma delas a A. disse que já tinha tido um primeiro casamento, que tinha corrido muito mal, tinha sido uma situação muito dolorosa sobre a qual ainda tinha dificuldade em falar. Mas actualmente, estava a recompor-se, porque entretanto, tinha conhecido alguém com quem estava a viver, agora sim, uma relação equilibrada e feliz. Nos pormenores que foi contando, dizia que para o seu marido também era uma segunda relação, tendo da primeira vez, contraído matrimónio católico. Aí acendeu-se-me uma luzinha de alarme. Caso ela chegasse a ser baptizada, pela doutrina dos sacramentos, não poderia continuar a comungar, porque estava numa situação irregular perante a Igreja. Não lhe disse nada, mas tomei a decisão de falar com o prior. Era uma situação que precisava do acompanhamento dele.
Quando lhe expus o caso, disse-me o que eu já esperava:"Não fazia sentido o baptismo, porque ele é para nos inserir, também na vida da Igreja, e ela não poderia participar na comunhão", a menos, acrescentou: "que ela se convertesse e deixasse aquela relação". Balbuciei:"mas isso não. Não lhe podemos pedir tal coisa. A rapariga vive, depois de tanto sofrimento, uma relação feliz."
E entre dentes, murmurei:"caraças de crueldade". Isto na versão soft.
Decidi ali, que era melhor ser eu a falar com ela. À cautela, e pela resposta que recebi, achei que talvez lhe dissesse as coisas de forma que ela se magoasse menos.

Assim fiz, num próximo encontro disse-lhe que no final tinha um assunto particular para falar com ela. O melhor que fui capaz expus a situação. Disse-lhe, o quanto me doía, em nome da Igreja, ter que lhe dizer aquelas coisas...acabámos a chorar nos braços uma da outra. Disse-me que ia continuar a vir aos nossos encontros porque gostava muito. Eu sabia isso, porque quando falava, via o brilho nos seus olhos, mas o facto é que nunca mais voltou. Nunca mais me esqueço dela. Nem da dor que lhe causei e que senti como minha.

Terra da Alegria

Alegria

Já oiço gritos ao longe
Já vem a voz do amor
Ó, alegria do corpo
Ó esquecimento da dor

Já ventos recolheram
Já o Verão se lhos oferece
Quantos frutos quantas fontes
mais o sol nos aquece

Já colho jasmins e nardos
já tenho colares de rosas
E dança no meio da estrada
As danças prodigiosas

Já sinto os sorrisos se dão
Já se dão as voltas todas
ó certeza ó certeza
ó alegria das bodas

José Saramago
Provavelmente Alegria, Editorial Caminho

O que é o sagrado?

É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? (Mc 3, 1-6)

Jesus novamente é questionado pelos fariseus e herodianos que estão próximos e buscam motivos para acusá-lo.É sábado, dia de descanso. Jesus está na sinagoga, espaço sagrado para as comunidades judias. Ali está um homem com paralisia numa mão. O dilema é contundente: é lícito no sábado fazer o bem em vez do mal, salvar uma vida ou destruí-la? O que é sagrado? Onde se manifesta a verdadeira presença salvadora de Deus? Em que momento, a lei, que foi instituída para o bem das pessoas, é manipulada em detrimento das mesmas? Está em jogo não só a vida do homem, senão a vida de muitos homens e mulheres que como ele reclamam aos gritos seu direito de viver.Cada detalhe de cena é profundamente significativo. O homem doente reflecte a vida ameaçada, sofrida e excluída, o sábado e a sinagoga, as instituições religiosas chamadas a manifestar a presença de Deus na História. A pergunta de Jesus põe a Vida em primeiro lugar, ainda que o silêncio dos presentes fala com a morte. A acção de cura de Jesus se faz em meio do povo, à vista de todos os presentes.Hoje são muitos os silêncios cúmplices e temerosos, em meio de um mundo cheio de injustiças e de muita dor, e a olhar de Jesus pousa de novo sobre as Igrejas, convidando-nos a nos colocar na sociedade, à vista de todos, e ser ali portadores da Boa Nova da salvação para os homens e mulheres sofredores de hoje. Isto é o sagrado: a vida dos filhos e filhas de Deus.


Serviço bíblico Claretiano

2006-01-16

Comunhão

..."Quando a Igreja sabe amar e compreender o mistério de todo o ser humano, quando incansavelmente escuta, consola e cura, torna-se o que ela é no mais luminoso dela própria: límpido reflexo de uma comunhão.

Procurar reconciliação e paz supõe uma luta interior. Não é um caminho de facilidade. Nada de duradouro se constrói na facilidade. O espírito de comunhão não é ingénuo, é coração que se alarga, é bondade profunda que recusa dar ouvidos à desconfiança.
...Lembremo-nos então que a fonte da paz e da comunhão está em Deus."

Carta de Taizé 2006

A minha fé

“Meu coração tornou-se capaz de qualquer forma:
é um pasto para gazelas e um convento para os monges Cristãos,
um templo para os ídolos e a Caaba do peregrino,
as tábuas da Tora e o Alcorão.
Sigo a religião do Amor: para onde quer que sigam seus camelos,
o Amor é a minha religião e minha fé.”

Ibn Arabi - místico muçulmano

Este não é o mundo que queremos...

Uma proclamação urgente

"Nós, mulheres dos Estados Unidos, Iraque e mulheres de todo o mundo, já não temos mais paciência nem para a guerra sem sentido no Iraque e nem para os cruéis ataques contra outros países no mundo.

Já enterramos muitos de nossos seres queridos. Já vimos demasiadas vidas mutiladas pelas feridas físicas e psicológicas. Já vimos com horror como nossos recursos preciosos são utilizados para a guerra, enquanto as necessidades básicas de nossas famílias (comida, habitação, educação, saúde) não estão disponíveis para eles.

Não temos mais paciência para viver com medo constante à ameaça da violência e ver o crescente câncer do ódio e da intolerância que estão aumentando e entrando em nossas casas e em nossas comunidades.

Este não é o mundo que queremos nem para nós, nem para nossos filhos. Com o fogo no estômago e o amor no coração, nós, mulheres, estamos nos levantando, sem fronteiras, para unir-nos e demandar um fim ao derramamento do sangue e da destruição...."

2006-01-14

Ser mulher

Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade

"Estamos construindo um mundo no qual a diversidade é uma virtude; tanto a individualidade como a colectividade são fontes de crescimento; onde as relações fluem sem barreiras; onde a palavra, o canto e os sonhos florescem. Esse mundo considera a pessoa humana como uma das riquezas mais preciosas. Um mundo no qual reinam a igualdade, a liberdade, a solidariedade, a justiça e a paz. Este mundo nós somos capazes de criar. Constituímos mais da metade da humanidade. Damos a vida, trabalhamos, amamos, criamos, militamos, nos divertimos. Garantimos actualmente a maior parte das tarefas essenciais para a vida e a continuidade da humanidade. No entanto, nessa sociedade continuamos sendo oprimidas.

1. Todo ser humano vive livre de todo tipo de violência. Nenhum ser humano pertence a outro. Nenhuma pessoa pode ser objeto de escravidão, ser forçado ao casamento, ser submetida a trabalhos forçados, ser objeto de tráfico e de exploração sexual. ..."

Ser mulher

Dolores

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do facto irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência...
" Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objectos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo,
porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.

Adélia Prado

2006-01-12

Fé, sim...falemos dela

O ON, no seu blogue Prozacland, coloca algumas questões sobre a fé. Deu-me autorização para as transcrever para aqui. Está aberto o fórum. Visitas atentas e amáveis deste jardim, dizei! Os mais ortodoxos, peguem nos dogmas. Se os muros abanarem um pouco, é sinal de que ainda estamos todos vivos.

O António, também escreveu umas belas coisas sobre a fé, como esta:"...só despreza um encarrilamento quem nunca levou com uma locomotiva nas trombas..." Sábias palavras.


..."Vamos a um segundo exemplo. Eu diria que é uma manifestação de Fé ser capaz de discutir abertamente todos os temas, sem fugir às questões. Ter a Fé de acreditar que nada de verdadeiramente importante em nós poderá ser destruido se abrirmos as defesas numa conversa sobre aquilo em que acreditamos. Quem não a tem também não é capaz de pensar livremente. Ser-lhe-á difícil encontrar soluções para os seus problemas. É um homem de pouca Fé...

Acreditar na virgindade da mãe de Jesus, na divindade de Jesus, ou no mistério da santíssima trindade são manifestações de Fé? Contribuem de alguma forma para que nos possamos ajudar a nós mesmos e ao próximo nos sentido de viver em maior harmonia as nossas vidas? Não serão manifestações do medo de sermos excluidos do grupo?É preciso muita Fé para acreditar em algumas coisas racionais e ter força suficiente para as concretizar. Quando formos capazes de tratar destas, poderemos então preocupar-nos com as outras...Ousar expressar a Fé de uma das duas maneiras referidas acima é perigoso. É preciso ter uma estrutura mental sólida e as ideias bem organizadas. É preciso ter uma Fé poderosa e entendê-La.

Como podemos fortalecer a nossa Fé? "

2006-01-11

Puro susto

ANTES DO NOME

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",
o "o", o "porém" e o "que",
esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado

Terra da Alegria

Abanou a Terra com a abundância dos frutos.

Quem é Jesus?

"O que dizem os homens que eu sou?"

É esta a pergunta que através dos tempos continua a pedir a nossa resposta. Cristãos ou não, mais crentes ou menos crentes, com as luzes da inteligência crítica ou na maior simplicidade de vida. A pergunta impõem-se, e as respostas variam numa multiplicidade de tons, formas, gestos, actos, intensões, desejos, omissões, negações, movimentos, inquietações, variações, personalizações, arregimentações, vazios, taças cheias, intuições, fruições...

Para a fé tranquila ( a cem por cento, como diz o Mariano) a resposta salta lesta: Jesus, é o Filho Unigénito do Pai, enviado ao mundo para nos justificar. Ele cumpriu plenamente o projecto do Pai. Insultado, desprezado, violentado não virou a cara. Entregou-se até à morte, e morte na cruz. Morto, ressuscitou ao terceiro dia. Nele se cumpriram as profecias antigas. É assim, que o NT nos apresenta Jesus de Nazaré; plenamente Homem, igualmente Deus.

Mas, esta afirmação dogmática acerca de Jesus é questionada pela razão crítica. É facilmente perceptível que os evangelhos, não são relatos históricos ou jornalísticos, antes catequeses elaboradas para destinatários concretos. Perdem eles, por esse facto, alguma da sua "validade"? Para mim é claro que não!

Os Evangelhos, independentemente da sua autoria, são escritos por pessoas que, de um modo ou de outro, tiveram o seu encontro com O Ressuscitado. Desse modo, são testemunhos.
Se para respondermos à pergunta: "quem é de facto, Jesus Cristo?", não temos as provas históricas, arqueológicas, científicas que atestariam sem, ou com o menor erro possível, a resposta, temos o "relato" dos seus gestos, o eco das suas palavras e a novidade da Sua mensagem: O Reino. É a novidade da mensagem que não é destinada, apenas, aos cumpridores da Lei e frequentadores do Templo, mas a todos os homens de boa-vontade. É destinada a todos os que não se deixam aprisionar nem por forças externas, nem por si próprios.

Objectava o Henrique, a propósito do comentário de que Jesus era um homem bom, dizendo que "só podia era ser tolo". Completamente, digo eu. Com a tolice própria de quem descobriu o que é o Amor. Nós que, na precariedade da nossa vida, e na fragilidade das nossas decisões, empreendemos de amar alguém, bem percebemos como de repente, o nosso centro deixa de ser os nossos gostos, a nossa vontade, as nossas pequenas satisfações, e redireccionamos tudo isso para o objecto do nosso amor.

Alguns erros se têm cometido no anúncio de Jesus Cristo. Segundo Bultmann:
a) Em lugar da pessoa histórica de Jesus entrou na pregação apostólica (Kerigma) a figura mítica do Filho de Deus.

b) Em lugar da pregação escatológica acerca do reino de Deus, feita por Jesus, entrou no kerigma o anúncio sobre Cristo morto na cruz por nossos pecados e ressuscitado maravilhosamente por Deus para a nossa salvação. Jesus pregou o Reino, a Igreja prega Cristo. O pregador é agora pregado.

c) Em lugar da obediência radical e da vivência total do amor exigidas por Jesus entrou agora a doutrina sobre o Cristo, a Igreja, os sacramentos. O que para Jesus estava em primeiro lugar, vem agora em segundo: a parénese ética.

2006-01-10

Ser mulher

Gostava que dissessem de mim: "Discreta e doce, mas forte como uma rocha!"

Alguém deseja acrescentar mais alguma coisa?

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso,
e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias
tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente
provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente
e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave;
e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela
e mais perfeita de toda a criação imunerável.

Vinícius de Moraes

2006-01-09

Ser mulher

O "ser mulher", foi no meu caso, uma longa e difícil conquista. O assunto não ficou resolvido quando a parteira, depois de me dar uma valente palmada (já então me recusava a chorar), declarou:"é uma menina!"
Primeira filha do casal Maria+Raúl, fui logo uma decepção para o meu pai. Benfiquista ferrenho, ainda mais ferrenho machista, o que ele gostava era que tivesse nascido um rapaz. Estas coisas não se dizem, mas pressentem-se. Para a minha mãe, "ser mulher" também não pressagiava nada de bom, por motivos óbvios.
Acresce-se que a maioria dos meus companheiros de brincadeira eram rapazes. E os convites para subir às árvores e outras brincadeiras típicas masculinas, faziam parte do meu dia-a-dia. Até num campeonato de "pedrada", entrei. Os alvos eram os moços da aldeia vizinha, que não sei porque motivo, resolveram embirrar connosco. A batalha dava-se num extenso olival, de piso bastante inclinado. Eles estavam em baixo e nós em cima. Ainda hoje, não percebo porque é que eles, com a estrada à frente, era só seguirem direito às suas casinhas, ficavam ali expostos à nossa fúria. Não durou muito a batalha, porque a mãe dum deles, veio fazer queixas à professora. Sorte a minha, que a minha mãe nunca soube disto.
Desses tempos, lembro a admiração dos rapazes por ser capaz de alinhar nas suas tropelias, e do comedimento que tinham com o palavreado, por eu estar presente. Já era um modo de me sentir especial. Já sobressaía o "ser mulher".


Percorri os anos de adolescência e juventude e ainda me sentia, como que diminuída, pelo facto de ser mulher. Ser homem, era no meu entender, uma situação privilegiada.
Foi já na casa dos trinta, com a maturidade afectiva e sexual, a vivência feliz da maternidade que me encontrei, e descobri como é bom "ser mulher".

Purificação

Senhor, logo que eu vi a natureza
As lágrimas secaram.
Os meus olhos pousados na comtemplação
Viveram o milagre de luz que explodia no céu.

Eu caminhei, Senhor.
Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de
seiva
Eu, Senhor, pobre massa sem seiva
Eu caminhei.
Nem senti a derrota tremenda
Do que era mau em mim.
A luz cresceu, cresceu interiormente
E toda me envolveu.

A ti, Senhor, gritei que estava puro
E na natureza ouvi a tua voz.
Pássaros cantaram no céu
Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
Senti a alegria da vida
Que vivia nas flores pequenas
Senti a beleza da vida
Que morava na luz e morava no céu
E cantei e cantei.

A minha voz subiu até ti, Senhor
E tu me deste a paz.
Eu te peço, Senhor
Guarda o meu coração no teu coração
Que ele é puro e simples.
Guarda a minha alma na tua alma
Que ela é bela, Senhor.
Guarda o meu espírito no teu espírito
Porque ele é a minha luz.
E porque só a ti ele exalta e ama.

Vinícius de Morais

2006-01-07

Ser mulher

A mulher muitas vezes avança

A mulher muitas vezes caminha pela borda
Do vestido. Pudesse tocar
A fímbria ou a franja de toda a casa
Ela a sararia. ela sairia
Com o cabelo solto

Muitas vezes a mulher prende o cabelo com as mãos
Cose muitas vezes com a lâmpada por dentro - a agulha
A cerzir o brilho. A mulher remenda
A lâmpada apagada. Por dentro
O coração ponteia alguma luz

A vida roda, o vestido rompe-se

A mulher é um barco quando se afunda
A hélice gira - gera como planta
Em redor da luz. A mulher
Anda em redor como corola
Sem pólen

A azenha anda à volta na memória e a água corre-lhe
Dos olhos. Põe o coração para a frente como os fuzilados
Enxuga os olhos como se espalhasse. A mulher
Varre infinitamente mais do que o que vemos
ou somos capazes de imaginar

E há imagens na terra
Que nunca lhe lembram o céu

Daniel Faria - Dos Líquidos

2006-01-06

Epifania 2

O que vale é que para acontecer epifania, não conta a nossa aridez, o nosso calendário, o nosso "espera aí que já te atendo", o nosso "deixa-me ir saudar o rei, porque vale mais um rei na mão, do que um deserto no coração".

Epifania é explosão e acontece aqui, aqui, aqui, aqui e de uma maneira sempre muito própria, também aqui.

Epifania

Se eu tivesse algum poder de decisão na Igreja (vai esperando sentadinha), uma das coisas que faria, seria reordenar o calendário litúrgico. Por exemplo, Natal e Epifania, seriam uma e mesma festa. Não acho muito certa esta maneira de "servir" o Mistério às fatias. Retira-lhe o sabor. Permite que escondamos o Mistério, em vez de O comtemplarmos e saborearmos. A festa da Epifania (Manifestação), passou a ser a festa dos Reis Magos.

Se não estivesse com os efeitos de uma aridez, maior que as areias do Lisboa-Dakar, gostava de partilhar o que nesta festa me envolve...não sendo possível, fui buscar as palavras de José Augusto Mourão. Através do link que disponibilizo podem ler o artigo completo, entretanto, fica um pequeno aperitivo.
Saboreemos a Epifania, que não tem data, nem hora marcada, mas surge nos interstícios da nossa vida com a força do inesperado...


Só há natal, epifania possível onde o estremecimento, a ternura, a divina surpresa (da estrela, do Menino, dos magos) faz o seu caminho. O Magnificat é o canto do surpreendente trabalho de Deus no nosso corpo que não está condenado à crispação porque o tempo o altera, mas que está prometido à alegria, ao acolhimento do pastor do Sl 22 - o que lembra a noite do coração que todos transportamos. É daí que se avista o possível da paz e da justiça. Chamem-nos líricos - o lirismo é o estado de enamoramento permanente que só alguns (santos) conhecem. A prosa do mundo é que Deus é longe e a justiça impura (imprópria); que tudo está bem como está e não há dada a esperar (de bem) de nada. Essa é a prosa do Anticristo. No tríptico da Epifania de J. Bosco (1510), outro “mago” assoma, inquietante, por trás dos réis que vêm adorar: o Anticristo.

A epifania põe em causa qualquer estratégia do visível: o mais tangível do tangível não se vê. Não querer ver tudo nu, não assistir a tudo, não procurar compreender tudo e tudo "saber" é uma questão de decência. O medo de perder o mundo é o medo do desmembramento: a sensação de que o todo se quebrou, algures. Há saber que envenena e empanturra. Temos de perguntar, isto é, pôr a descoberto o que vamos sendo e que é apelo, mobilidade profunda, esforço de libertação, transfiguração. A resposta do mito é apaziguadora (função calmante da resposta). Não se rompe com a saturação do sentido senão cedendo à intensa e frágil visitação dos afectos: só o amor liberta. A compulsividade das evidências magoa mais do que o jogo do olhar entre o visível e o invisível. A loucura de Deus é ser Emanuel, Nome, Corpo, Dom, justiça - é esse Deus que assoma hoje à porta pelo milagre dos Magos. Entremos no mistério desta festa. Ajoelhemo-nos diante do ícone do Deus invisível.

2006-01-04

Como foi que disse?

"Existe uma onda de acomodação colectiva, que pensa, de maneira completamente errada, que não há diferenças entre ter um filho no âmbito de uma família ou fora do matrimónio. Pensa-se que bastam amor e cuidados para as crianças se desenvolverem bem”

Fui filha dentro de uma família constituida dentro do sacramento do matrimónio. Fui, sou, mãe de igual modo. Mas caramba, o sacramento que não se fundamenta no amor serve de quê?

Estes arautos de "famílias perfeitas" sabem o que é o amor? Em que mundo é que esta gente vive?

Quem não crê não pode ter filhos? Só os católicos apostólicos romanos?

Adenda:
O CA no Pontos de Vista, também faz uma reflexão pessoal sobre este tema

as sem razões do amor

«Nenhum partido financia a minha campanha. São os portugueses e, muitas vezes, o povo simples que, dirigindo-se à minha sede, dizem que querem ajudar»

Cavaco Silva - Candidato Presidencial

Estou a ver o Sr. Joaquim, a D. Elvira, a D. Joana, todos com duzentos euros de reforma, a sra que vende tremoços no portão do parque, à procura da sede de campanha do candidato para oferecerem o seu contributo.

E o movimento é imparável...e aqueles que não podem dar outro contributo, levam um pãozinho cozido em forno de lenha, uma galinha do campo...a própria aquilária o testemunha.

à margem da razão

Meditação à beira de um poema

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro


Adélia Prado

2006-01-02

as sem razões do amor

Nazarenas engalfinham-se em Mário Soares.

impressões...

Tão difícil conciliar esta vontade de gritar, e o silêncio a morder-me.

O que vale a fé?

A fé é como uma pedra preciosa que se encontra e se faz tudo para não perder. Mesmo que tantas vezes, quando se olha para ela, não se veja mais do que um monte de cinzas.

O que vale a fé, frente ao sucesso profissional ou académico? O que vale a fé frente ao sucesso dos negócios, do bem-estar social, da fama, do êxito, da cultura, do reconhecimento das minhas capacidades?

E o que vale a fé, quando sinto o coração vazio pelo fracasso de um amor que eu sonhei próspero, uma doença grave de alguém que me é muito próximo e a sua morte, dos insucessos profissionais, das injustiças de que sou alvo?

O que vale a fé, quando na minha Igreja vale mais o dogma que a inquietação criadora? Vale mais a obediência, do que a liberdade? Vale mais o servilismo, do que o serviço amoroso? Vale mais o poder hierárquico, do que a Luz do Evangelho?

O que vale a fé, quando Deus, não é para mim, mais de que uma palavra - D-e-u-s-, uma ideia, um desejo?