2006-01-02

O que vale a fé?

A fé é como uma pedra preciosa que se encontra e se faz tudo para não perder. Mesmo que tantas vezes, quando se olha para ela, não se veja mais do que um monte de cinzas.

O que vale a fé, frente ao sucesso profissional ou académico? O que vale a fé frente ao sucesso dos negócios, do bem-estar social, da fama, do êxito, da cultura, do reconhecimento das minhas capacidades?

E o que vale a fé, quando sinto o coração vazio pelo fracasso de um amor que eu sonhei próspero, uma doença grave de alguém que me é muito próximo e a sua morte, dos insucessos profissionais, das injustiças de que sou alvo?

O que vale a fé, quando na minha Igreja vale mais o dogma que a inquietação criadora? Vale mais a obediência, do que a liberdade? Vale mais o servilismo, do que o serviço amoroso? Vale mais o poder hierárquico, do que a Luz do Evangelho?

O que vale a fé, quando Deus, não é para mim, mais de que uma palavra - D-e-u-s-, uma ideia, um desejo?

7 comentários:

  1. Também faço todas estas perguntas e muitas mais.
    Mas... "Seduziste-me... numa luta desigual Tu venceste e eu deixei-me seduzir!"
    Mas, mesmo depois de seduzido, continuo a fazer perguntas, continuo a recalcitrar, continuo inquieto e à procura...
    E continuo a arriscar ter fé. Espero que até ao dia em ela desapareça e, com ela, também desapareça a esperança para darem lugar ao AMOR.
    Mesmo que isto não venha a acontecer (o que quero duvidar), prefiro continuar a arriscar ter fé.
    Um abraço

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  2. Então, mc?
    Amanhã pode acontecer qualquer coisa.

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  3. Cara MC

    Irei fazer por agora apenas uma pequena obordagem ao tema ora proposto - sobre "O que vale a Fé?" -, à laia de introdução, até por ser bastante complexo/circunstancial, reconheço.

    Oportunamente (e logo que esteja mais disponível), tenciono enviar-lhe uma mensagem privada, a fim de expor-lhe certos assuntos mais privados, os quais em geral não considero discreto/cortês serem tratados neste seu Blogue, embora digam genericamente respeito a itens mais ou menos polémicos e/ou pesssoais já referenciados por ambos em comentários anteriores, portanto susceptíveis de serem mal interpretados se forem apresentados em público, tanto por si como por terceiros.

    * * *

    Iniciando o debate em questão, oferece-me por agora dizer-lhe o seguinte:

    1. A Fé religiosa e espiritual é, para mim, tal como aliás ensinou Jesus Cristo e confirma a Sua/nossa Igreja,
    um dos maiores dons por Deus concedido ao Homem, e todos nós Cristãos não deveríamos ter, a tal respeito, a menor dúvida, sob pena de pormos em sério risco a mesma Fé, se é que a possuímos minimamente.

    a) Efectivamente, como a MC diz na apresentação, e muito bem:
    «A fé é como uma pedra preciosa que se encontra e se faz tudo para não perder. Mesmo que tantas vezes, quando se olha para ela, não se veja mais do que um monte de cinzas»...

    b) "Um monte de cinzas" - é perfeitamente humano ver isso mesmo metaforicamente, por vezes, na nossa própia fé em Deus, ou até na imortalidade da alma, sobretudo se a fé é ainda pouco madura, ou se encontra-se à prova, como tantas vezes acontece, inclusivamente com as pessoas mais santas e fervorosas.

    c) O que não é lá muito humano, ou pelo menos bastante cristão, é fazer do aparente "monte de cinzas" (alegoricamente representado pela nossa fé em crise ou esmorecida) um cavalo de batalha obsessivo, uma tempestade negativa, uma crise radical e definitiva, ou seja, como que um desespero extremo e decisivo, que ponha gravosamente em cheque a nossa vida física, e sobretudo a nossa vida espiritual, porque de Fé divina se trata (o maior tesouro), e o que é de Deus deve superar sempre o que é do mundo, pelo menos em termos de batalha/vitória final.

    d) Postas as coisas da Fé neste pé, nesta suprema lógica espiritual e divina, tudo o mais é secundário e efémero, excepto o Amor de Deus, ainda que praticado através de interposta pessoa humana, uma vez que Deus está misticamente em todos nós, a começar pelos mais carenciados, por mais incréus ou iníquos que sejam ou pareçam...

    E fico-me por aqui, por agora, a fim de evitar tornar-me maçador ou monopolista, e aproveitando também para dar voz a outrem, se for caso disso.
    Brevemente continuarei, se Deus quiser.

    Saudações de Fé, Esperança e Caridade, para todos e em particular para a MC.
    José Mariano

    * * *

    Nota final: Proponho à MC um tratamento mais 'informal', segundo a mesma Fé Cristã, em que todos nós somos irmãos exactamente ao mesmo nível, mas sem descer de nível, claro. Até porque assim já estou habituado (sobretudo nos fóruns da Net), salvo raras e honrosas excepções que apenas confirmam a regra.

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  4. Caro Mariano
    agradeço o seu comentário, ao meu post intimista sobre a fé.
    Não sei como é que é com o Mariano. Comigo, a fé é vivida numa constante tensão. Não é uma tensão que me aniquile, me tolha os movimentos, me desanime, me oprima...é uma tensão que me faz desperta, vigilante, atenta, laboriosa, acolhedora, insatisfeita...esta tensão que é vivida, sem dúvida, interiormente, é plenamente manisfestada na vida.
    Eu não faço divisões nenhumas entre a minha vida física, mental, etc., e a vida espiritual. O que eu mais busco é a unidade. Em qualquer situação procuro, tento (nem sempre consigo)estar inteira. Essa unidade, plenamente conseguida em Jesus de Nazaré, em mim é projecto, caminho, percurso, sonho, querer, esforço, luta...
    Não fico nada atrapalhada com os meus solavancos na fé (às vezes fico um bocadinho)porque mais que confiar em mim, procuro entregar-me nas mãos de Quem me conhece mais do que eu própria. Confia em mim, mais do que eu alguma vez conseguirei. Espera por mim, por mais perdida, ou desatenta, ou de olhos e ouvidos fechados que eu ande.

    Não tenho medo de ver "cinzas". Tenho medo, de me distrair, de me fechar, de me deixar "rotinar" num caminho de fé, que sei, nunca está feito.
    Tenho medo de perder as forças, numa luta, em que sinto que, eu e mais uns tantos, estamos na marginalidade do que é ser igreja.

    Por isso gosto tanto da oração do Pai-Nosso; peço que venha o Reino, o pão de cada dia (alimento total), o perdão das minhas e nossas ofensas, e que em cada dia vença a tentação de me bastar, de me dar por satisdeita pelo que tenho, de desistir de lutar pelo que não tenho.

    Se quiser manter alguma correspondência privada pode fazê-lo, embora no que a mim diz respeito, não tenho problemas em falar aqui no blog.

    Quanto ao tratamento menos formal, não percebo. Da minha parte não há formalidade nenhuma.

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  5. Cara MC

    Gostei muito deste seu primeiro comentário sobre o grande tema da «Fé» (por si proposto), em réplica ao meu modesto comentário.

    Noto com especial satisfação que, afinal, a sua «crise de fé» é bem mais positiva do que negativa, ou melhor, é fundamentalmente positiva e evangélica, na medida em que «é uma tensão que me faz desperta, vigilante, atenta, laboriosa, acolhedora, insatisfeita... esta tensão que é vivida, sem dúvida, interiormente, é plenamente manisfestada na vida»...

    Quem dera que a maior parte das chamadas "crises de fé" fossem assim como a sua!
    Dê por muitas graças a Deus por isso mesmo, pois a sua Fé funciona como estímulo, como freio, como alerta, como bênção, e não tem mal nenhum no que, aparente ou realmente, tem de 'hesitante ou duvidoso', de 'inquieto ou confuso", de 'ansioso ou doloroso', até porque, como saberá, o sofrimento, se bem aceite (ao menos com resignação), redime, purifica e salva, à imitação do que aconteceu com o próprio Senhor Jesus, sobretudo na Sua tremenda agonia no Horto/Getsemani.

    A sua Fé, além de supremo dom, é uma bênção, e por isso mesmo parece-me que deveria encará-la sempre como tal, por mais solavancos que tenha em função dela mesma - e quem não tem tais solavancos, tais surtos, tais dissabores, como sintoma/sinal, e jamais como doença?

    Acredite que é uma privilegiada, e dê graças a Deus por isso mesmo, procurando, dentro do possível, ajudar com tais talentos (ainda que por vezes amargos) quem não os tem, ou quem não sabe pô-los a render devidamente.

    Mas quem sou eu para estar agora aqui a dar-lhe 'conselhos' (com a 'agravante' de não conhecê-la de lado nehum), embora na realidade não se trate senão da minha sincera opinião, que até admito, por isso mesmo, poder enfermar deste ou aquele preconceito, de alguma presunção e/ou pré-defeito?

    Pois é, bem prega Frei Tomás..., embora eu nem isso saiba fazer, pobre de mim!

    Que Deus tenha piedade de todos nós, segundo as carências de cada qual, pela Sua infinita Misericórdia, pelos infinitos méritos da Sua Paixão e Morte, que de contrário ninguém salvar-se-á.

    "Benditos os que acreditam sem ver"!
    "Meu Senhor e meu Deus"!

    Saudações cristãs.
    J. Mariano

    * * *

    P.S.: * MC, quando lhe propus que, no tratamento, fôssemos menos informais, naturalmente que estava a referir-me ao tratamento por 'tu', em vez de 'você' ou 'senhor'... Desculpe por não ter sido mais explícito.

    * Quando lhe falei de correspondência privada, naturalmente foi para evitar ser mal interpretado, dado que, como sabe, publicamente é difícil, ou impossível, descer/subir a certos detalhes, por vezes imprescindíveis para uma melhor compreensão, melhor dizendo, para evitarmos, mesmo sem querer, fazermos eventualmente juízos temarários, uns acerca dos outros, como aliás já tem acontecido entre nós mesmos, embora (reconheço) sem qualquer problela de maior, até por se tratar de deduções/críticas nada preocupantes, na medida em que somos, creio eu, cristãos maduros e vacinados, ou devíamos sê-lo - e em última análise porque não queremos o mal de ninguém, antes pelo contrário; só que poderemos, ocasionalmente, ser mal interpretados, ao ponto de haver algum mau exemplo (que não propriamente escândalo, abrenúncio!) para alguém menos avisado, ou menos bem preparado...

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  6. Mariano

    apesar das urticárias que sentimos em relação ao que um e outro escreve, o diálogo vai-se fazendo...continuemos pois.

    Se achares que precisas de algum esclarecimento em relação ao que escrevo, estás à vontade. Usa o e-mail do blog. Se o quiseres fazer por qualquer outro motivo, também.

    Falas em sacrifício e do valor salvífico dele. É um tema interessante, sobre o qual tenho algumas dúvidas, será um tema a abordar aqui no jardim.
    Entretanto, já leste a declaração conjunta (DC) da Comissão Mista católica romana e evangélica luterana sobre a Doutrina da Justificação?

    Eu, não valorizo nada o sofrimento, não o procuro e faço tudo para o diminuir em mim, e nos outros (dentro das minhas diminutas possibilidades). Mas...que o há, há! E frente a ele, é fazer como se faz ao touro. É pegá-lo de caras.
    Reconheço que, em mim, o sofrimento tem-me ajudado a estar mais próxima, mais atenta aos outros. Mas nem em todas as pessoas tem este efeito. Um sofrimento desde os primeiros anos e prolongado na vida, pode ser motivo de "fechamento" e de profundo desiquilíbrio na pessoa. Por isso, por todos os meios ao nosso alcance, há que lutar para o erradicarmos.

    Dizes que sou uma previligiada. Pois sou! Às vezes esqueço-me disso e apareço um tanto ou quanto "choramingas", sobretudo perante os amigos, mas logo aparece alguém que me chama à razão.

    Agradeço-te as visitas e comentários. Há muitas modos de viver/expressar a fé, é natural -os ramos da videira não são todos iguais (quer dizer, nas novas plantações, bem os tentam domar)mas na Videira a que me refiro, as coisas são diferentes.

    Saudações em Cristo

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