2006-02-27

costas largas...

Acontece com muita frequência que estando numa roda de amigos, festa de família ou até no café do bairro, sou interpelada acerca da Igreja. As questões não variam muito - os padres, os padrinhos de baptismo, as festas de casamentos, os funerais e o que o padre disse na ocasião, o Vaticano e as suas riquezas - ontem, alguém acrescentava à lista, os restos mortais da irmã Lúcia. Eu que sou pessoa avisada contra as investidas do "tentador", não me deixei intimidar. Pedirem-me para me pronunciar sobre os restos mortais da Lúcia...Fui dizendo que a minha fé vive também com essas coisas, mas para além delas.
E no finalzinho da conversa, meditava para os meus botões:"Não és tu também um dos seus discípulos?" (Jo 18, 25)
Fico sempre a pensar se a minha resposta foi igual à de Pedro: "Não!"

conflito grave...de gerações

só coisas que me apoquentam!
Para o jovem gato é o primeiro ano que sai para fazer o que a natureza manda. O velho cão, que nunca teve essas liberdades, não o quer deixar sair. Além das correrias normais da hora de almoço, ainda tenho que andar a prender o cão e a soltar o gato.

Uma ajudazinha...

Eu não bebo, não fumo, não tenho paciência para jogo nenhum, mas alguma coisa tive de fazer pra pôr os meus nervos no lugar, conseguir um modo de compreender o mundo. Comecei já naquela horinha uma novena pra Santa Teresinha do Menino Jesus, a fim de obter discernimento quanto ao rumo da minhas acções, eu que nasci pra fazer coisas, pra representar no teatro, pra ser o cruciférário, o porta-bandeira, guia de procissão, de museu, de escola de samba.
Pessoa encantadora essa moça francesa, menina sensível que aos 24 anos de sua idade alcançou o céu e as honras dos altares, prometendo jamais negar pedido a ninguém. Dito e feito, ao principiar o fim da novena recebo de amiga distante e não íntima um envelope contendo o retrato de Teresinha com a seguinte dedicatória:"A Dolores, com votos de que Santa Teresinha lhe dê saúde e disponibilidade no serviço de Cristo! Mercedes": Olha o que fui arranjar! Meio burrra que sou para decifrar mensagens, não sei que atitude tomar. Conforme minha amiga, serviço de Cristo pode ser na Igreja directo ou nas boates da vida. Sou frouxa de saber. Mas qual a minha? Mesmo que não conte pra ninguém, tenho vergonha de fazer outra novena pra saber a mensagem da mensagem. São Francisco, às vezes, quando não sabia a direcção, rodava o burro e de acordo com o lado que ele parasse, seguia tranquilo a vontade de Deus expressada na posição do jumento. Eu ando de carro, como vou fazer isso sem perigo pra mim e meus semelhantes? O ciscadinho do pardal em riba do muro. É só isso que eu sei, do ciscadinho, do pardalzinho, do murinho. Uma ajudazinha santa teresinha do menininho Jesus, me manda uma florzinha do campo, de sinal, que eu descubro a vida, minha vida vidinha.

Adélia Prado do livro; "Solte os cachorros"

Ser mulher

Por vezes, gosto de ficar quieta, parada. E por momentos ter a ilusão que ninguém me espera no trabalho, na cama, na mesa...que não obedeço a nenhuma lei da natureza e ser livre é o meu destino.

2006-02-25

Manuel

Passei a tarde de ontem com o Manuel, no internamento de pediatria. Não gostou muito da troca de companhia. Deixou a mãe ir embora, mas estava um pouco desconfiado comigo. Como é um bébé muito meigo, de vez em quando passava a sua pequena mão pela minha cara, mas mais nada. Não conseguia arrancar-lhe um daqueles sorrisos que me chegam ao canto mais escondido da alma.
Fui cantando baixinho ao seu ouvido, dizia-lhe que era o bébé mais bonito que eu conhecia, fazia-lhe as habituais momices que se fazem aos bébés...nada.

Entretanto, chega uma enfermeira que diz:
- Hoje o Manel tem cá a avó!
- Não sou avó, sou a tia do Manel. Respondi eu.
- Desculpe, não lhe tinha olhado para a cara!
"Onde é que ela leu a etiqueta?" Pensei para os meus botões.
Continuei a nobre arte da sedução. Apresentei, a Minie ao rapaz que logo se deixou seduzir e iniciaram uma relação da mais feliz intimidade.

Esgotados quase todos os meus recursos, comecei aquela tola mania que temos de emitir sons para captar a atenção dos putos. Ou fazer figura de parvos...parece-me a mim.
Já estou um bocado destreinada disto, mas não sou de desistir às primeiras. Lá fui imitando tudo o que me vinha à cabeça até que fiz um que o fez reagir com um pequeno sorriso. Insisti... um sorriso ainda maior. Voltei a repetir: um sorriso, imitava o som e encostava a cabeça no meu peito. Estava rendido. Eu, nem se fala.

Já não me lembrava o trabalho que dá seduzir um homem. Três horas. Livra!!!

2006-02-24

Marcos 10, 1-12 - O que Deus uniu, o homem não separe!

"Como é seu costume, Jesus ensinava as pessoas. Apareceram em cena uns fariseus, homens apegados à lei. A pergunta deles não foi motivada pelo desejo de buscar a verdade mas sim pelo interesse mesquinho de pôr Jesus a prova.
O acto de repúdio regulamentado na lei, era privilégio do homem e deixava a mulher repudiada em situação vergonhosa e desumana, o que explica a conflituosa exposição do tema desde a aposta de vida feita por Jesus. Ele lhes devolve a pergunta: “Que diz a lei?”. E eles citam a autoridade de Moisés para legitimar o repúdio. Jesus explica a origem desta lei que está na dureza do coração, e a citação continua – desde a origens – o mandamento mesmo de Deus: Ele criou o homem e mulher em igualdade de condições e os chamou a viver em uma unidade na qual cada um plenifica sua existência. A dignidade e a felicidade de cada um competem directamente ao outro porque se pertencem mutuamente.
Deste modo mulher e homem ficam estreitamente comprometidos na realização do outro. A lei anterior favorecia os homens, a nova lei – que é a mesma lei dada por Deus – exige a ambos o respeito e o compromisso pleno com o outro. Ser seguidores de Jesus nos compromete a criar relações de igualdades na que o amor e o respeito permitem o crescimento e a realização mútua."

Serviço bíblico Claretiano

O Teu olhar

Ó quão admirável é o Teu olhar,
Que é theos (Deus) para todos aqueles que o prescrutam!

Quão belo e digno de ser amado por todos os que Te amam!

Quão terrível é para todos os que Te abandonam, a ti, Senhor, meu Deus.

Pois com o Teu olhar vivificas, Senhor, todo o espírito,
Alegras todos os bem-aventurados e afastas toda a tristeza.

Olha, por isso, para mim, misericordiosamente,
e a minha alma será salva."

Nicolau de Cusa

2006-02-22

Azul sobre amarelo, Maravilha e roxo

Desejo, como quem sente fome ou sede,
um caminho de areia margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e o seu dono.
Desejo, como uma funda saudade
de homem ficado orfão pequenino,
um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
Brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo.
Na alma, o querer de um mundo tão pequeno,
como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.

Adélia Prado

ingénua me confesso:

É uma característica comum dos homens, porem as mulheres à prova?

2006-02-20

O lugar do coração 2

Apareceu um novo blogue de seu nome "toques de Deus". É de um padre jovem, jesuíta, Nuno de seu nome. Parece-me que ele pretende com o blogue, levar-nos a perceber que Deus se manifesta em "pequenos quase nadas", da nossa vida.

Eu, como sou cabeça dura e obtusa q.b., Deus tem de usar comigo outras técnicas que vêm na forma de umas valentes traulitadas, para ver se dou por Ele. Ele é cada trambolhão...comigo, o que Deus mais deve ter, é uma infinita paciência.

Isto, para introduzir o que vou dizer a seguir. Aviso já que não se preocupem em arranjar um altarzinho para pôr esta "santinha". E ao meu querido presidente da autarquia, escusa de fazer mais uma rotunda, para pôrem lá o meu busto quando me finar, porque já temos que cheguem. Nesta bendita cidade, há uma rotunda a cada lado de uma esquina e mais outra no meio.

Vamos lá a isto:

Cansada de andar a aturar as beatices do pessoal da minha paróquia, mais os disparates do sr. prior, abandonei algumas tarefas que fazia com muito gosto e dedicação. Porque fazer só por fazer, mais vale ir apanhar caracóis ou ver os jogos do Benfica.
Mas sinto um pouco de culpa, porque a gente muda as coisas, é a lutar dentro delas e não fora, a dar palpites.

Mantive um serviço pequeno que tinha, que é disponibilizar um pouco do meu tempo ao fim de semana, e visitar duas idossas. Cada uma em suas casas.
Uma delas, a Maria Luísa, oitenta e um anos, vive sózinha, porque ficou viúva há dois anos. Tem três filhos, que vivem nesta cidade, mas que não gastam mais tempo com a mãe, do que eu própria.
Gosto muito da Maria Luísa, posso falar com ela de tudo; de política, de religião, dos vários problemas da sociedade, dizer mal dos padres... Com jeitinho, quando estava muito acesa a vida da Lena e da Teresa, lá lhe fui dizendo, que "elas é que sabem o que querem fazer da vida delas", "e nós, temos é que olhar para a nossa". Ainda brincou (com esta é que vamos as duas parar ao inferno) com o "opus dei" e "opus gay".
O que é que querem? Temos que passar as duas horas que estamos juntas, sem ser a falar das dores dela, e dos meus calos.

Quando não posso ir, telefono-lhe. Ela protesta sempre:"Mas para que é que se está a incomodar a avisar-me?" Eu respondo:"Porque sei que fica preocupada, sem saber o que me aconteceu."

Mas sinto sempre, de cada vez que venho de lá, que é tão pouco o que faço por ela. Que o meu gesto não tem valor nenhum.

No passado sábado, como não podia ir visitá-la, telefonei de novo. Os mesmos protestos, as mesma justificações...e de repente diz-me isto:
-"Pronto, vou tirar as passadeiras vermelhas e as colchas da janela."
Pensei: "Ela não está boa, com este temporal vai pôr a roupa à janela?" Mas numa fracção de segundo percebi; as colchas põem-se em dias de festa. É um sinal festivo. (Quem já assistiu a uma festa na aldeia, conhece este costume). Dei umas valentes gargalhadas que a devem ter deixado um pouco mais surda e percebi, depois de três anos a visitá-la, o significado do bocadinho da minha vida, que lhe dou.

2006-02-18

O lugar do coração

"A efusão do mistério da liturgia na vida começa na oração. O ponto em que o rio da vida se torna fonte de vida para o homem é o seu coração. É a partir da oração do coração que a liturgia se torna vida. Aí se encontra o limiar pessoal a transpor, onde tudo se decide, mas também o apelo primeiro ao qual é custoso responder. Se nos fortarmos à resposta as nossas celebrações voltam a ser ritos e a liturgia permanece estranha à nossa vida.

Reza-se como se vive e vive-se como se ama; tudo depende do lugar onde habitualmente nos centramos e em torno do qual tudo toma o seu sentido: o eu biológico ou o eu social, o cerebral ou o ideal, o superego ou o sonho...Em todas essas moradas periféricas o homem está de visita, não está em sua casa, não foi ainda encontrado. Só no coração é que somos e nos tornamos nós mesmos. O coração é o lugar do autêntico encontro consigo mesmo, com o outro, mas sobretudo com o Deus vivo. Não estaticamente como um vazio a preencher, ilusão comum às outras moradas, mas vitalmente, como apelo de uma presença e como resposta criadora. O coração é o lugar da decisão, o momento pessoal do "sim" ou do "não". É ele a nossa pessoa no seu ponto de partida, no seu mistério irredutível, na sua liberdade inviolável.

"Onde moras?" (Jo 1, 38). O Senhor só pode ser encontrado lá onde o homem consente em se deixar encontrar."

Jean Corbon

2006-02-17

Docemente Um

Entrou enfim a Esposa
no horto mais ameno desejado,
e a seu sabor repousa
o colo reclinado
junto dos braços mais doces do Amado. (...)

Nosso leito florido,
de covas de leões entrelaçado,
de púrpura tecido
de paz edificado,
de mil escudos de ouro coroado. (...)

E na adega interior
do Amado meu bebi, quando eu saía,
de tanto resplendor,
já nada mais sabia
e meu gado perdi, que antes seguia,

S. João da Cruz

2006-02-15

impressões...

A novidade de Jesus, o Nazareno, é que ele soube reconhecer em si a presença de Deus.
O que em nós é fugaz pressentimento, em Jesus é total identificação.

...este perfume...

"...Mas, ao ser alegria de amar, é também sofrimento de amar. A minha fraqueza desejaria poder separar os dois, suprimir o sofrimento e possuir a alegria, mas isso não é possível. Peço a Deus que me faça pressentir como pode o sofrimento ser um componente da sua beatitude. Pelo menos como se pressente um perfume distante, ou uma nota débil exalada do Éden, ou uma dessas "gotas da noite", de que fala Gregório de Nissa, que "humedecem o espírito de pensamentos subtis e obscuros". Tenho a certeza de que no mais calcinado dos desertos, os místicos, pelo menos às vezes e num rápido instante, respiram este perfume, ouvem esta nota, sentem esta frescura. É o bastante para que eles desejem só a Deus e amem como Ele ama."

François Varillon in o Sofrimento de Deus

Um bom poema

é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente...e não a gente a ele!

Mário Quintana

2006-02-14

Ode ao amor

Amor, não tenhamos ilusões.
Na minha idade
já não é possível
enganar ou enganarmo-nos.
Fui, talvez, salteador
de estradas,
mas não me arrependo.
Um profundo minuto,
uma magnólia esgarçada
pelos meus dentes
e a luz da lua opalina.
Pois bem, e o balanço?
A solidão manteve
a sua rede entrelaçada
de frios jasmineiros
e então
a que veio a meus braços
era a rosada rainha das ilhas.
Amor,
mesmo que caia
uma gota
durante toda
a nocturna
primavera
não se engendra o oceano
e eu, solitário e nu,
esperando fiquei.

Mas eis aquela
que passou pelos meus braços
como uma onda,
aquela,
que foi somente um sabor
de fruta vespertina,
subitamente
pestanejou como uma estrela,
ardeu como uma pomba
e na minha pele
senti que ela
se desatava
como a cabeleira duma fogueira.
Amor, tudo foi mais simples
desde aquele dia.
Obedeci às ordens
que o meu olvidado coração ordenava
e enlacei a sua cintura
e solicitei a sua boca
com toda a força dos meus beijos,
como um rei que arrebata
com um exército em fúria
uma pequena torre onde cresce
a açucena selvagem da sua infância.

Por isso, Amor, eu creio
que emaranhado e cruel
pode ser o teu caminho,
mas que regressas
da tua caçada
e quando acendes
novamente o fogo,
como o pão sobre a mesa,
assim, singelamente,
deve estar o que amamos.
Amor, isso me deste.
Quando pela primeira vez
ela veio a meus braços
passou como as águas
numa despenhada primavera.
Hoje
dou-lhe guarida.
São estreitas as minhas mãos pequenas
as órbitas dos meus olhos
para que elas possam receber
o seu tesouro,
a cascata
de infindável luz, o fio de ouro,
o pão da sua fragância
que são singelamente, Amor, a minha vida.

Pablo Neruda

2006-02-13

cartoonadas

Não sei como é que vai a saga dos cartoons. Tenho estado "desligada". Em dois breves instantes, vi na tv; um homem que caminhava com uma cruz ao longo de uma estrada. Parece que o acto teria algo a ver com as derrotas do seu clube de futebol. Não conte o meu com tais propósitos.
Também me constou que de Felgueiras houve uma maciça peregrinação à Sra de Fátima (a verdadeira). Não sei o que pediam ou agradeciam. Eu sugeria-lhes que pedissem um pouco de "iluminação"
Tenho a certeza que Deus não se afronta com o nosso rídiculo. Mas que as nossas manifestações de fé, tantas vezes soam a blasfémia, não tenho dúvidas.

voltei

"Dai-me alguém que ame e ele compreenderá aquilo que eu digo" (S. Agostinho)

Estou mais tranquila. Voltarei devagarinho. O João perguntava-me se ia a Meca. Não fui, mas fiz peregrinação. Interior. São as mais marcantes.

Não tenho como retribuir o vosso carinho. Se calhar é permanecer por aqui...

2006-02-08

Porque...

a relação com algumas pessoas que aqui vêm já é mais do que a simples bloguice, deixo assim, a explicação para a minha ausência. Durante uns tempos, não haverá actividade bloguista.
Confio que serão apenas umas "nuvens passageiras".
Abraço para todos.

Lei/graça

"A nossa vida ou é orientada apenas por conceitos morais, ou então é atraída e transfigurada pelo mistério de Cristo. Com efeito, toda a lei moral, a da consciência ou a de Moisés, e mesmo a do Evangelho na medida em que a reduzimos a uma regra de vida, sofre de uma carência congénita. Apresenta-se à consciência como desejável ou imperativa, mas é distinta da vontade que vai segui-la ou rejeitá-la. Ela é reveladora do nosso pecado, da nossa doença, mas não a cura; entre a lei que impõe e o coração que consente, há uma diferença: o coração é o princípio vital, a lei é apenas representação do ideal.

Após ter sido formado pela lei como por um pedagogo que lhe é exterior, o baptizado chega a um certo grau de maturidade e encontra-se diante do chamamento do jovem rico: ou contentar-se com a lei e continuar a construir a sua pequenina perfeição, ou ir mais longe, perder-se em Cristo, entregando o seu coração ao poder do Espírito Santo. É então que se entra no mistério e se é "alcançado por ele" (Fl3,12). Essa passagem da lei para a graça, de uma vida mortalmente moral para a vida "mística" conformada com Cristo, é sempre o momento em que o rio da vida transpõe uma nova barreira. Cada vez, porém, que nos fechamos no nosso moralismo defensivo, retemos a energia do Espírito santo; então a liturgia é cortada da vida que ela devia irrigar. A cada etapa do seu crescimento, o baptizado tem que escolher: ou o humanismo no qual o homem é a medida de tudo, ou a liturgia pela qual o mistério nos transfigura e nos diviniza."

Jean Corbon

2006-02-07

sem poesia morro

A sombra da figueira não me lembra a sombra.
Muitas vezes sou o ramo que se quebra
Sem tempestades.

A sombra que tenho na memória é semelhante à tristeza no sangue
E o sangue não me lembra o figo quando escorre
O mel. A mulher estéril vê o homem deitar-se com a escrava

A figueira lança a sua sombra sobre a parede da casa
Branca
A mulher fecha os olhos para ouvir no escuro das folhas
A mulher quase nunca se assemelha ao céu
Sem nuvens.

O sangue não ocupa mais o coração do que o filho que nasce
A mulher não queria ser um tronco cheio de ramos

A mulher imagina uma colmeia cheia de favos
debruça-se à janela como a inclinação dos telhados

Como se os ninhos (como se os filhos ao pescoço) a vergassem

Daniel Faria

2006-02-06

Para meditar. E comentar, claro!

"O pecado original é transformar o dom da divinização num devido, é querer apreender o que se deve acolher. "Não comerás desse fruto, mas tudo é teu, eu dar-to-ei". O fruto do paraíso terrestre é um fruto verde que Deus não pode dar. O papel do tempo é indispensável e o pecado original consiste precisamente em querer suprimi-lo, em querer imediatamente o fruto. É a posse em vez do acolhimento.
A nossa liberdade não é obra acabada. Querer apoderar-se é impedir Deus de dar, porque Deus não pode dar algo já-feito. É preciso acolher a divinização. Na própria raiz da nossa existência e no fundo de todos os nossos pecados actuais, existe essa perversão que consiste em transformar o dom em devido. Não existe amor a conquistar, mas amor a acolher.

Porque é que o homem é pecador? Não existe resposta. O pecado está na origem da nossa existência e nós estamos originariamente nos braços de Deus como nos braços de um pai que perdoa: esse é o significado mas não é uma explicação. A resposta de Deus não é uma resposta teórica: entra no mundo do pecado e morre nele. É assim a sua humildade.

Nunca um cristão pode dizer: eu tenho a resposta. Não pode senão vivê-la, amando como Deus amou até ao fim. Nunca o cristão se pode gloriar de possuir a verdade sobre o pecado, sobre o mal e o sofrimento que dele deriva. O cristão que espera uma plenitude de sentido (recordo que não há uma resposta teórica para o último "porquê?" mas sim a esperança), não pode deixar de ser imensamente humilde e guardar um silêncio modesto perante a experência do desespero e de sentimento do absurdo de milhões de homens à nossa volta. Contra o pecado, o que nós podemos esperar é um triunfo definitivo, isto é, a vida eterna no amor."

François Varillon

2006-02-04

Fui apanhada

e por onde não esperava. É a vida!
Como não temos nada para nos entreter - a vida, o país e o mundo estão do melhor que há - de vez em quando aparecem por aí umas brincadeirinhas, que ninguém sabe como começaram, mas que encontram sempre quem lhes dê corda.
Pois é. Fui desafiada pelo muito estimado Luís a falar das minhas manias. Ah, carago, se há coisa que eu tenha em abundância, são as ditas. O problema é escolher só cinco.

Cá vão. E isto é à séria.

1ª - Nunca fui capaz de usar maquilhagem. Nem no carnaval. Nem pintar o cabelo. Já tem uns branquinhos que não me ficam mal de todo.

2ª - Dizer que não gosto de alguma coisa antes de provar. (Comidas sobretudo)

3ª - Que sou discreta e ninguém repara em mim.

4ª - De ir sempre ao fundo das coisas. Para mim, viver na superficialidade não dá.

5ª - Nunca responder a correntes. Era virgem nisto. Hoje foi a minha primeira vez.

Agora parece que tenho de escolher cinco vítimas. Escolho o David, porque quero conhecer as manias de um protestante. O CA, porque ou muito me engano ou ele vai mandar-me dar banho ao cão. A Xana, porque quero ver se uma menina tão doce, também tem as suas manias. O /me, visita nova deste jardim e portanto quero conhecê-lo melhor. E em último lugar o ON, porque quero compensá-lo das suas visitas a este jardim.

Regras: Continuar a corrente (se não o fizerem, nem sabem o que perdem). Passar a corrente, porque só assim é que isto tem graça.

Bem hajam, pela vossa colaboração.

2006-02-03

A Lena e a Teresa

Tenho uma prima chamada Helena e uma sobrinha que se chama Teresa. Não sei como é que elas se têm sentido, nestes dias, em que os seus nomes, estão tão mediatizados. Sei que, nalguns sítios onde trabalham uma Teresa uma Lena, têm acontecido umas gracinhas sobre as mesmas.

Mas vamos ao que interessa. Da Lena e da Teresa que se dirigiram a uma Conservatória do Registo Civil para requererem casamento civil e que levaram uma nega, sei muito pouco. Também não preciso de saber muito. Mas do pouco que sei delas, espero que esta campanha em que se meteram, ou as meteram, não as magoe mais. Parece que a vida não lhes tem sido muito favorável.

Há por aí opiniões para todos os gostos. Sobre o casamento, sobre o casamento de duas pessoas do mesmo sexo, sobre;"para quê casamento?", "Vivam em comum, já que assim o desejam. Mas não queiram uma coisa que é só nossa." "A união de facto, não lhes chega?" E outros mimos.

Não sei nada de leis. De casamentos também sei pouco, que é o mesmo que dizer - nada. Nunca me preocupei com os aspectos jurídicos dos casamentos. Para mim, casar civilmente e contrair matrimónio católico faziam todo o sentido. Assim fiz. Incomoda-me muito, que alguém não o possa fazer, porque existe uma lei que o impede. Não consigo descobrir onde é que a minha história de amor é diferente da história da Lena e da Teresa. Também não entendo, as razões dos que acham, que o facto de duas pessoas do mesmo sexo, contrairem casamento, é lesivo para o resto da sociedade.

Agora vamos à adopção. Se há coisa a que sou sensível é ao bem estar das crianças. Sejam elas filhas do Bill e da Melinda Gates , ou da Joana e do Manel. Há necessidades básicas que nunca deviam faltar a uma criança. Ter uma família é uma delas. E família, há de muitos modelos, quer os formatadores de serviço queiram ou não. O que caracteriza uma família são os afectos que unem os seus elementos. Tudo o resto é ajuntamento. E há por aí muitos ajuntamentos com o nome de famílias.

Ainda hoje, soube que uma criança de dois meses foi retirada aos seus pais, porque os mesmos, só tinham capacidades para a pôr no mundo, tudo o resto lhes falta. Mais uma que vai ser institucionalizada. Será melhor isso do que ser adoptada por quem é capaz de lhe dar o que necessita para ser uma mulher feliz? E não me venham falar em famílias ideais. Onde é que elas estão? Parece que um homem e uma mulher juntos são garantia para alguma coisa.

Ser mulher

Tenho a mania de ser "transparente". Tanto quanto uma mulher pode ser. Não me importo se as pessoas pensam bem ou mal de mim. Já me incomoda, muito, que estejam equivocadas. Quando conheço alguém de novo, não descanso enquanto não lhe abro o coração.

Acho que herdei este modo de ser, da avó Felismina. Ela tinha um hábito, que às vezes, resultava um pouco incómodo para ela e para os outros - tinha a mania de pensar alto. Por vezes, quando entrávamos em sua casa, ouvíamos sem querer, alguma coisa a nosso respeito, ou de algum outro membro da família. A avó Felismina era o nosso ponto.

2006-02-02

Hoje...

Dia da Apresentação do Senhor

Também dia do consagrado. Cada vez são menos as vocações de especial consagração. Porquê? As causas são várias.

Mas agora vou fazer uma malvadeza. Sim, porque isto não é só vir aqui ver as florinhas...Andam por aí quatro ou cinco padres, fora os anónimos, hoje lanço-lhes o desafio de partilharem connosco sobre a sua vocação e a sua vivência da mesma. É para abrirem a alma... (se quiserem podem usar o anonimato)

2006-02-01

alguém viu por aí o s*****(malvado, que isto é um blogue sério) do relativismo?

Para nos ajudar a compreender a discussão que vai ali mais a baixo, já nos quarenta e sete comentários, deixo o link para um texto de reflexão de Mateus Cardoso Peres, OP. Fica aqui um bocadinho (vale a pena a leitura):

..."O ensino moral de Jesus, por ser simultaneamente fundamentado na obediência da fé (convicção) face à transcendência do Reino e criatividade responsável na invenção pessoal de um caminho de seguimento e imitação do Senhor vem apoiar a percepção de que convicção e responsabilidade reciprocamente se completam e exigem. Não há a menor contradição, nem pode haver, entre a atitude de submissão radical na fé e o assumir o protagonismo de, em liberdade cristã, conduzir a própria vida, visto que o projecto divino a que se adere é o da salvação, libertação e realização dos seres humanos e ficaria truncado, e até desfigurado, se não incluísse a sua colaboração, o seu empenhamento consciente, se apenas o tivessem que acolher passivamente e não o construíssem. A fecundidade da proposta ética de Jesus situa-se, pois, no ter centrado a vida moral na verdade da sua referência ao divino, de lhe ter estabelecido um sentido, em metodologia teleológica, ou seja uma meta, e um estatuto de liberdade, uma via aberta e, ao mesmo tempo, balizada pelo Seu exemplo, expresso no primado do amor, ou seja um caminho, um meio. Do mesmo modo se vê que qualquer unilateralismo, ao sacrificar uma das duas vertentes, afasta da autenticidade cristã..."

PS -Sublinhados, meus.

Terra da Alegria

Hoje a Terra está de arrasar! Ide ver. As boas vindas ao Manuel.