2006-03-31

Bom fim-de-semana

Espiritualidade

Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão- de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objectos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho...
Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
A terra está cheia de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro- existirão milagres mais estranhos?

Walt Whitmann

Vítor: um pedido teu, é uma ordem...

Apresento-te a escritora brasileira Lya Luft. Nasceu em 15/09/1938 em Rio Grande do Sul. É tradutora, sobretudo de autores alemães. Autora de várias obras em prosa e poesia.
É uma mulher madura que diz: - "que a vida ganha interesse depois dos quarenta". Eu espero que não o perca depois dos cinquenta...

Não é apenas o imponderável e misterioso da existência que me interessa, mas o grande desencontro nas relações, o frio silêncio promovido no diálogo humano e pessoal pelo preconceito e pela apatia, pelo desinteresse e pelo isolamento dos indivíduos, sobretudo no núcleo familiar.

O escritor é um ser particularmente antenado, não apenas para o fundo da chamada alma humana, mas, conscientemente, para as realidades a seu redor. E ainda que eu não faça literatura explicitamente engajada, empenho nela um ardente engajamento na aventura existencial humana, e na sua qualidade.


E um pouco da sua poesia:

Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.

Lya Luft

Ser mulher...

"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem."

Lya Luft

2006-03-30

"Acabar com a pobreza"

...A meu ver, o homem pós-moderno e pós-industrial, deve saber utilizar uma das traves mestras da comtemporaneidade que é a comunicação, de modo a poder compreender o que efectivamente faz sentido. E esse sentido só pode advir dos valores da unidade, da verdade, da bondade e da beleza. São estes valores que determinam todos os seres humanos no mais fundo do seu ser. Não basta os líderes das maiores potências mundiais anunciarem de forma hipócrita e mediática que vão terminar com a pobreza no mundo contemporâneo. Está na hora de erradicar a pobreza e o miserabilismo. Está a chegar o momento do homem moderno ser mais humano.
É evidente que não existe uma poção mágica para terminar com a pobreza em África, na Ásia, na América Latina ou nos países mais desenvolvidos. Mas se houver vontade política e económica por parte das potências mundiais, tenho a certeza que podemos entrar no trilho mais apropriado para a erradicação da pobreza.

...E enquanto houver pobreza no mundo, o homem moderno jamais será um ser livre.

José Peixe in revista Fátima Missionária
(Sublinhados meus)

2006-03-29

Felicidade Realista

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote
mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre:
queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema:
queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor...

não basta termos alguém com quem podemos conversar,
dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando.
Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo.
Queremos estar visceralmente apaixonados,
queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados,
queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo,
queremos sexo selvagem e diário,
queremos ser felizes assim e não de outro jeito.
É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade.
Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais,
feliz com um parceiro, feliz sem nenhum.
Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando.
Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado.
E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda,
buscando coisas que saiam de graça,
como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas,
trabalhar sem almejar o estrelato,
amar sem almejar o eterno.
Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo,
buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz
mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo
onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio.
Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade.
Se a meta está alta demais, reduza-a.
Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo.
Faça o que for necessário para ser feliz.
Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples,
você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade.
Ela transmite paz e não sentimentos fortes,
que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração.
Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

Mário Quintana

dualidades...

Não é verdade que o diálogo dos contrários seja o sinal da finitude humana; ele é constitutivo da perfeição de Deus. A nossa finitude manifesta-se mais na insuficiência ou na perversão dos nossos diálogos. Nós "imitamos a Deus" (Ef5,1) muito mal. Em certos sectores da Igreja, as pessoas orgulham-se, às vezes, duma atitude superficial que se julga equilibrada e que, na verdade, é um factor de divisão. Transformam-se em dualismos as dualidades que compõem o real, reduzindo assim a amplitude daquelas e menosprezando a sua profundidade. Opõe-se a reflexão e a acção, priveligiando esta em detrimento daquela. "Não há reflexão sem acção, nem acção sem reflexão" Dizia Marx. Na medida em que tratamos o problema da da relação entre a fé e a razão de um modo superficial, somos responsáveis pelos uniteralismos alternados e ruinosos. De maneira semelhante, agarrar-nos-emos ao particular, individual ou colectivo, esquecendo o universal, ou então, em nome do grupo e da comunidade, e sob o pretexto de reagir contra um individualismo mortífero, acabaremos por esquecer a pessoa, a sua responsabilidade e a sua liberdade.
Se não temos cuidado, vamos chocar com monstros antiéticos: uma teologia sem pastoral, uma pastoral sem teologia.

...Para dialogar em profundidade com os homens, é preciso primeiro dialogar seriamente consigo próprios. É no coração da pessoa que as dualidades devem ser unificadas.

François Varillon in O sofrimento de Deus

2006-03-28

nem de propósito

Dizia num comentário, ao meu texto de ontem, que seria a mais feliz dos mortais, se os problemas e pecados da Igreja, se resumissem à minha comunidade.
Passeando pelos blogues, dou com este texto/desabafo de uma leitora do blogue - Na Sacristia. Não ando à procura dos problemas da Igreja, nem em nehuma cruzada de ajuste de contas. Sou cristã católica, inserida numa comunidade concreta. Quero crescer na fé e no amor à Igreja. Para isso, tenho de estar atenta ao que de bom ela tem, mas também aos seus erros e pecados.
No texto/desabafo a autora realça a atitude de alguns padres. A Igreja não é só os padres e restante hierarquia, mas não tenhamos ilusões que o seu peso ainda é muito relevante "dentro" e "fora" da Igreja.
Quer queiramos quer não, qualquer atitude de um padre, socialmente, não tem o mesmo peso que a de qualquer cristão leigo. Para o bem e para o mal é assim.

2006-03-27

"Vede como eles se amam" ????

Procuro que façam eco em mim, as palavras do François Varillon e a "imagem" que ele comunica de Deus. Confronto-as com a conversa que tive ontem com uma amiga e a desilusão dela, perante uma comunidade fria e indiferente ao seu sofrimento. Se acreditamos num Deus que nos cria, nos envia o seu Filho para que "tenhamos vida e a tenhamos em abundância", porque é que a nossa fé se traduz apenas, em cumprir alguns mandamentos da Igreja? Porque é que uma falta à missa de domingo é considerado um pecado grave que impede a comunhão, e a indiferença perante os irmãos que por qualquer motivo se afastam da comunidade, nem merece referência nos nossos exames de consciência?

Como é que ousamos encher a boca com o nome de Deus, falamos de amor e de fé e aceitamos pertencer a comunidades fechadas em si próprias, preocupadas com os ritos da liturgia, com a homilia do padre, com a afinação do grupo coral, com as florzinhas do altar, com a procissão do santo padroeiro?

Por isso, a minha amiga me dizia ontem: "Mesmo nesta situação, a minha relação com Deus, não foi afectada. Não suporto é mais, a hipocrisia da nossa comunidade."

Não fui capaz de fazer mais que dar-lhe um abraço e reafirmar-lhe que pode contar comigo no que eu puder.

Um Deus que vibra

Não posso duvidar de que tudo aquilo que eu amo neste mundo, é ainda muito mais amado por Deus. Tudo o que eu não posso amar - o mal que faço aos meus irmãos e aquele que eles me fazem a mim, a injustiça, a miséria, a fome, a sede, a doença - poderei afirmar que Deus o contempla com serenidade, porque a perfeição da sua natureza imortal o impede de vibrar? É verdade que Cristo estremeceu até morrer. Mas o Pai? E o Espírito? E prefiro não dizer nada da criança que é maltratada ou do inocente que é humilhado. Falando ingenuamente (e penso que não é capricho da minha imaginação), gosto de comparar o Infinito do ser a uma harpa eólia que o menor sopro de alegria ou de dor humana faz vibrar.

A obra criadora é uma aventura. Deus aventurou-Se, arriscou. Abriu para os homens um caminho de liberdade escalonado de perigos. E se Deus continua a criar agora, é agora que ele se aventura, que aceita a eventualidade - a realidade - das lágrimas e do sangue. E não só das nossas lágrimas e do nosso sangue! Não só das lágrimas e do sangue de Cristo! Poderia o Criador pôr-Se de fora nesta questão? Não existirá, no âmago do Espírito puro, alguma coisa desconhecida que seja analogicamente comparável às nossas lágrimas e ao nosso sangue?

François Varrillon in o sofrimento de Deus

2006-03-24

Bom fim-de-semana

A idade de ser feliz

Existe somente uma idade para a gente ser feliz:
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encontrar com a vida
e viver apaixonadamente
e disfrutar tudo com toda a intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente
pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e entregar-se a todos os amores
sem preconceitos e sem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo o desafio é mais um convite à luta
que a gente enfrenta com toda disposição
de tentar algo novo, de novo e de novo
e quantas vezes for preciso
Essa idade tão fugaz na vida da gente
chama-se...
presente!
e tem a duração do instante que passa.

Mário Quintana

Para onde irei?

SENHOR, Tu examinaste-me e conheces-me,
2*sabes quando me sento e quando me levanto;
à distância conheces os meus pensamentos.
3Vês-me quando caminho e quando descanso;
estás atento a todos os meus passos.

4Ainda a palavra me não chegou à boca,
já Tu, SENHOR, a conheces perfeitamente.

5Tu me envolves por todo o lado
e sobre mim colocas a tua mão.
6*É uma sabedoria profunda,
que não posso compreender;
tão sublime, que a não posso atingir!


7Onde é que eu poderia ocultar-me do teu espírito?
Para onde poderia fugir da tua presença?
8*Se subir aos céus, Tu lá estás;
se descer ao mundo dos mortos, ali te encontras.

9Se voar nas asas da aurora
ou for morar nos confins do mar

10mesmo aí a tua mão há-de guiar-me
e a tua direita me sustentará.

11Se disser: "Talvez as trevas me possam esconder,
ou a luz se transforme em noite à minha volta",

12
*nem as trevas me ocultariam de ti
e a noite seria, para ti, brilhante como o dia.
A luz e as trevas seriam a mesma coisa! (...)

do Sl 139

2006-03-23

avaria no receptor

A minha sintonia com Deus, é feita de muito ruído, muita interferência e alguns - raros, momentos de claridade.

oração

Ouvindo o som do divino discurso proclamado
"bem-aventurados os que choram agora
pois esses serão consolados"
a ti que destribuis com largueza
desejosos imploramos humildemente
consolação da vida presente e também futura
abandonando a dureza de pedra do nosso coração
digna-te dar em abundância
luz da inteligência verdadeira a estes submissos servos
lágrimas aos olhos
contrição ao coração
até que purificados do actual luto e da tristeza espiritual
da morte eterna nos afastemos como de uma ruína

O Dom das Lágrimas
orações antiga liturgia cristã
Joaquim Félix Carvalho
José Tolentino Mendonça

impressões...

cada vez mais, me encanto com as coisas pequenas, das grandes já não espero nada.

Explico: alguém que gasta os últimos trinta cêntimos, de saldo do telemóvel, para desejar "boa noite". E é que a noite estava brava. Amainou.

2006-03-22

Ser cristão

Dois mil e poucos anos, depois de Cristo, que significa ser cristão? Na nossa vida de todos os dias, que lugar ocupa, Cristo? Muitas vezes achamos que ser cristão é imitar a vida de Cristo, tal qual os evangelhos, no-la apresentam. Se ficarmos nesse "modelo" andaremos mais preocupados em quantificar os nossos actos, do que a empreendermos a conversão, a que o Evangelho nos convoca.
Não chega sermos imitadores. Aliás, que pobres e descuidados imitadores, nós somos.
Ser cristão é participar da vida de Cristo. É mergulharmos toda a nossa vida, nessa realidade sempre viva e actuante, que é o Verbo de Deus feito carne. É não nos determos no nosso pecado, mas entregarmo-nos a Cristo para que Ele transforme a nossa vida, segundo a acção de Deus em nós.

"Em Jesus, toda a energia de amor impregna a energia humana de uma "unção" que assume e vivifica. Em Jesus, o Pai dá-Se totalmente e o Filho acolhe-o. N'Ele, todo o humano é oferecido e o Pai compraz-Se n'Ele. É n'Ele que se verifica de modo eminente a sinergia que dará vida a tudo : não mais um acto divino de um lado e do outro um acto humano, mas um acto de Cristo "crístico".
Graças ao baptismo do Filho na nossa humanidade, toda a carne - pessoa e comunidade, tempo e mundo, sofrimento e alegria, morte e vida - está impregnada da presença de Deus transcendente. De modo irreversível, o tempo é ungido com a sua plenitude."

Jean Corbon
A Fonte da liturgia

impressões...

O que mais quero - a liberdade!
O que mais temo - a liberdade!

2006-03-21

No Fundo Aberto

Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícola do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espátula fulgurante

enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.

António Ramos Rosa

Todas as minhas fontes vêm de ti
As nascentes
E amo-te com a constância do moribundo que respira
Já sem saber de que lado o visita a morte

Procuro a ligação entre ti e a luz muito miudinha depois dos temporais
Entre a luz e os estilhaços nas ruas bombardeadas
Desconheço o colar onde unes tudo

Procuro entender como é que moldas
Os meus pés ao equilíbrio que os desloca no chão
Sei que és tu que me levantas
Que remendas o meu corpo cada dia

Em ti encontro a pulsação
Que rebenta - uma artéria como nunca
Tinha jorrado. Cratera onde durmo
Recluso, árvore à chuva
Em dificuldade extrema
De respiração

Ponho a cabeça entre os ramos, lanço os braços para fora
Como um pássaro entre um bando
De disparos

Tu moves as agulhas, tu unes de novo
As minhas asas à curva do céu

Daniel Faria
Dos Líquidos
epigramas:

não sei ao certo o tempo dos primeiros versos
de onde e como surgiu a singular fala dos poemas
se as sombras que decifro na cadência das palavras são uma necessidade

não recordo o tempo da ausência
vivi sempre na efemeridade de um gesto
na circunstância de um acaso
o ímpeto da rima terá sido apenas a forma possível para a perpetuação dos segundos

na terra onde nasci não há pessoas
talvez pelas palavras me tenha ligado ao mundo
a um mundo de sombras
é certo
mas contudo o mundo

Henrique Manuel Bento Fialho
Antologia do Esquecimento

Dia Mundial da Poesia

...A poesia é a vida? Pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
- e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo dum poeta,
a bebedeira dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio...
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro
E a morte se meta de permeio...

Alexandre O'Neill

2006-03-20

O saber aprende-se, porque se questiona, todos os dias...

Na Igreja, valoriza-se a obediência, referindo constantemente aquele passo de São Paulo: "Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz". Mas quase nunca se explica o que é essa obediência de Cristo, ocultando que, para obedecer a Deus e ao que Deus quer - dignidade, futuro, fraternidade, liberdade -, teve de desobedecer aos opressores, nomeadamente a uma religião que, em vez de libertar, oprimia.

Tanto entre os crentes como entre os ateus e os sem religião não faltam os que sabem, com saber certo, sem qualquer dúvida nem hesitação, o que é Deus, em que consiste a vontade divina para cada pessoa, qual é o sentido da História e do mundo. Entronizados no poder, definem dogmas, estabelecem normas e mandam com soberania inquestionável.

Padre Anselmo Borges in DN

reciprocidade

Seria incorrecto pensar que o amor perfeito ignora o desejo da reciprocidade. Quando Deus nos convida a corresponder ao seu amor, não significa que Ele seja egoísta, mas sim que, sendo o amor o valor supremo, deseja que nós vivamos desse amor como Ele vive. O desinteresse levado ao limite é indeferença ao outro. Ao pretender ultrapassar-se, nega-se a si próprio.

A perfeição do amor não poderia existir sem a perfeição da reciprocidade.

François Varillon in O sofrimento de Deus

coisas que se dizem...

"Há mais alegria em dar do que em receber"


A alegria de dar ou receber, não se podendo quantificar ou medir, é a mesma. Quem não sabe receber, dificilmente saberá dar.

2006-03-17

esperem aí...que eu volto já

Bom fim de semana

Para os gentis visitantes que são pais: encham-se de mimos e dêem!
Para os que não são, deixo um beijo.

"Mais esperneio, mais esbarro..."

Querendo uma coisa, tem que se largar mão de outra? A minha boca arada é de inteiro que gosta. Quem existe pra me confirmar nos desejos do meu coração e dizer:"Vai filha, que não obras em erro"? Se a responsabilidade é minha, me aperta. Gosto de agir com garantias, escasseadas neste mundo agitado de teorias. Já estou na metade da minha vida, absolutamente ignorante do que fazer. Falo assim, um pouco por literatura, força de expressão, porque eu sei que devo abrir o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e fazer tal e qual. Mas vigia, é nas pequeninas coisas que me estrepo. Por exemplo: gosto de passar brilho nos lábios e levantar as sobrancelhas com uma escovinha. Onde é que eu encontro permissão para isso nas Sagradas Escrituras? Onde? Não sou tão anacrónica como creio e gostaria. Tenho um gravador de boa marca e quando ninguém está vendo, ponho fita de rock e ensaio aqueles galeios juvenis, estralando os dedos, fazendo a cara própria de "nem vem que não tem", que toda bobice juvenil sabe fazer. Ah, não perdi a mola das articulações, ainda dobro sem gemer, ah, isso dobro mesmo. Pois é, mas então como ficamos? Me disseram outro dia:"Será que você não dá conta de escrever sem falar em Deus, não? Gosto mais quando você escreve sem falar em Deus..." Isso me magoou, me deixou com um talho no peito, os olhos postos em cinza e melancolia, primeiro por causa da coisa mesma, segundo porque quem assim me falou eu amo de dar a vida. Eu acho que o homem é religioso como é bípede. Tem Deus no começo e no fim. No meio fica a gente esperneando. Se espernear de acordo, isto é, com sinceridade, esbarra Nele, não tem conversa. Tem gente que grita por gritar, porque acha bonito. Comigo aconteceu, não por mérito meu, está se vendo, que esbarrei cedo. Mais esperneio, mais esbarro e fico puxada, feito ímã. Como que eu posso falar de outra coisa? Sofro muito apesar da cara risonha, porque Ele sempre é muito exigidor e fica pedindo coisas difíceis. Tinha muito a tentação de ser pagã. Imaginava que pagão não pagava dízimos, que era só ficar aí, curtindo, lambendo o mel da vida, dançando, saindo no meio do baile com o seu par, procurando um lugar discreto no jardim, pra cochichar no ouvido aquelas coisas boas, segurando na mão da gente, com maciez e quentura. Isso é paraíso, não é? Mas não tem paraíso aqui pra ninguém não. Deus não pega na minha mão. Falar no meu ouvido Ele fala, mas é assim:"Vai, vende tudo que tem, reparte com os pobres e me segue". Não me beija o rosto e ainda me pede a outra face para o bofetão. Mesmo quando me pede em casamento, faz é esponsal místico."

Adélia Prado in solte os cachorros

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

Sophia de Mello Breyner Andresen

2006-03-16

Ser mulher...

"Tenho que inaugurar pra mim um jeito novo. Eu falo muito, eu sei disso, mas é só porque ainda não achei minha forma. Quando isto acontecer, vou ficar contida e poderosa, cheia de força como uma nuvem preta expedidora de raio. Santo é assim, não é?...
Quero o que se deve querer, já que, conforme o mandamento, somos todos chamados à perfeição: é por isso, é por estrito senso de dever que eu quero o mais custoso. Gosto de coisa boa. Me incomoda pensar que pode ser o capeta que tá me confundindo, enchendo a minha cabeça com esta precisão de distinguir, em vez de me dar folga pra viver sem complicação que, pra mim, é o seguinte: comer sem fazer jejum. Amar sem fazer jejum. Ter licença de abrir o coração pra quem eu quiser. Abrir o coração, bem explicado: amar sem jejum de sentimento. Isto implica o esforço natural e necessário de conseguir manter o amor: um decotezinho mais brejeiro, batom Anaconda de brilho, um puxadinho de nada de lápis crayon no cantinho dos olhos, fazer aquela cara que eu sei fazer, pondo minha alma todinha num certo modo de baixar e levantar os olhos, primeiro oblíquo, depois directo. Porque eu gosto da humanidade, em particular da representação masculina da humanidade. É muito divertido comerciar com os homens, estimulante como nenhuma outra coisa é. Eles ficam encantadores, querendo pegar a gente em falso. Isso o homem comum. Imagine os santos! Fico em estado de loucura, tentação tentada. Tem coisas que eu faço bem. Posso fazê-las mesmo? Tudo é de Deus, menos o pecado. Você que me escuta e tem coração maldoso, ri pra dentro pensando que eu sou fácil. Não sou..."

Adélia Prado in solte os cachorros

2006-03-15

Uma Voz na Pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

António Ramos Rosa

Só pode ser assim...

Aquele que não sofre só ajudará a meias aquele que sofre. Cada um de nós sente-o, ainda confusamente, e por isso hesitamos, quando estamos a sofrer, em recorrer a vizinhos bem instalados, porque, apesar de vizinhos, não são próximos. Em caso de necessidade, fazemos a tentativa, mas de má vontade: não há sintonia. Quando as cordas de dois violinos estão bem afinadas, se uma vibra, a outra canta. Mas a piedade condescendente, mesmo concretizada em socorro espontâneo e generoso, não toca musicalmente a alma do necessitado.
Deus contacta connosco "musicalmente". A Graça é vibrante. "Senhor, tem piedade" é ambíguo. É um coração batendo dolorosamente que nós invocamos.

François Varillon in Sofrimento de Deus

Prefácio

Ouvindo o som do divino discurso proclamado
"bem-aventurados os que choram agora
pois esses serão consolados"
muito desejamos chorar nossos pecados
mas os olhos de pedra
e a dureza de coração nos impedem
nem lacrimejar podemos

Por isso Senhor
tendo amolecido primeiro pela penitência
no nosso coração a fonte da sua dureza
derrama em seguida abundantemente
por dom da tua graça
torrentes de lágrimas em nossos olhos

O Dom das Lágrimas
orações antiga liturgia cristã
Joaquim Félix Carvalho
José Tolentino Mendonça

2006-03-14

A vida é um milagre!

Copiei o título do post, do filme do Emir Kusturica, que estive a ver ontem. Mas é com esta certeza que acordo e me levanto todas as manhãs.
Este é um post consideravelmente fundamentalista. O texto da Adélia Prado, que transcrevo a seguir, ainda reforça mais isso. Creio que toda a vida é passível de redenção. Creio firmemente, que toda a vida será redimida. A nossa Páscoa acontece aqui e agora e terá a sua plenitude no "face a face" com Deus. Esta é a minha fé!


Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo está certo. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.


Adélia Prado - Do livro Filandras

2006-03-13

"Perdoai e sereis perdoados" Lc 6, 36-38

"Hesed é o termo hebraico que se traduz como misericórdia. É um termo relacional, ou que expressa a modalidade de uma relação; descreve uma conduta, uma acção sempre disposta a realizar-se entre os membros de uma determinada comunidade; a dita conduta nasce de um sentido de solidariedade e reciprocidade entre pessoas. Quando se refere a Deus, este sentido relacional adquire o carácter de gratuidade que emerge da aliança tribal. Ela, por sua própria dinâmica comunitária produz solidariedade entre Javé e seu povo em virtude da qual Javé está sempre disposto a manifestar sua proximidade e seu cuidado por todo o que afecta a vida de seu povo. A misericórdia identifica a Deus, e sua “constante histórica”. Deus a revela, Deus a realiza sempre.

O tipo de relação à que se refere “hesed” é mais que piedade ou caridade. Aponta à capacidade para entrar nos sofrimentos do outro a tal ponto que pode chegar a sentir e ver as coisas desde essa realidade. Misericordioso é quem se identifica com as pessoas que sofrem e luta com elas para enfrentar a adversidade. A atitude contrária é das pessoas que insistem em suas próprias necessidades, em seus direitos, em seu bem-estar, em suas aspirações; chegando com facilidade a “ensimesmar-se” (centrá-la em si mesma) e a consumi-las no egoísmo, na não-solidariedade, e a crueldade.

Misericórdia no sentido latino da palavra, miser-cordia, o coração estão voltado integralmente até o miserável. O coração como centro de sentimentos, discernimentos e afectos, se põe na miséria e sofrimento do outro. Esta é a força e a fonte da solidariedade. É o que Deus pede ao povo: “Quero a misericórdia, não o sacrifício” (Os 6,6; Mt 9, 13 e 12,7) frente ao perigo de reduzir a fé ao culto ou al cumprimento da lei. Deus exige atitudes de solidariedade e não formalismos. O que está em jogo é a vida de quem sofre (no Primeiro Testamento são “paradigmas” do povo que sofre: o órfão, a viúva e o estrangeiro) e dignifica essa vida é a verdadeira religião.

No koiné (grego popular) do Novo Testamento “entranhas” é sinônimo de coração, centro do sentimento e das motivações mais profundas e nobres que pode ter o ser humano. Quando o Novo Testamento se refere às “entranhas”, está indicando o lugar a fonte da profundidade do sentimento humano que inclina à ação compassivo-solidária. O verbo grego esplgjnizomai deriva de esplagjnon que significa ventre, intestinos, entranhas, coração, ou seja, as partes internas donde provêm as emoções mais profundas. O verbo grego nos está indicando um movimento, um dinamismo ou impulso forte que flui das próprias entranhas, a dor do outro que interpela desde sua necessidade e que move à ação solidária. É o que faz Jesus quando se encontra com a viúva de Naim: a vê, sente com suas entranhas a dor dela (ou suas entranhas se comovem com a dor dela), a consola, toca o féretro e ordena ao jovem que se levante. Similar proceder misericordioso é o exigido à comunidade dos discípulos, pois ele é o que identifica o discipulado. O decisivo no programa do Reino é a prática da misericórdia.

Ser misericordioso como Deus o é, se constitui em “princípio” da fé. Uma ética da solidariedade e do cuidado emerge como “medida” com a qual queremos que nos meçam e com a queremos “medir” nossos esforços de humanização. Tal “medida” é recompensada por Deus até REBASAR para quem sempre dá."

Serviço bíblico Claretiano

Uma oferta

O Henrique deixou-me esta oferta na caixa de comentários. Seria um gravíssimo pecado de omissão, deixá-la lá. Aqui fica a partilha.



ORAÇÃO DE PAPEL


acordarmos em sobressalto
com o choro da criança
que nos habita o coração


voltarmos a adormecer
abrasados no silêncio


vagabundearmos em letargo
e despertarmos do último sopro
com uma oração de papel:


odiámos demais
para que mereçamos
qualquer forma de amor

Henrique Manuel Bento Fialho
antologia do esquecimento
Edição do Autor2003

2006-03-10

ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos.
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afecto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
Encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora

Vinícius de Morais

alguém salvou o meu dia. Obrigada.

"O segredo é não correr atrás das borboletas...
É cuidar do jardim para que elas venham até você."

Mário Quintana

Desejo

Gostava de tirar umas férias da vida

Prece

Senhor, ensina-me a amar

2006-03-09

outra oração

Dá-me Senhor a mim pecador a confissão
em meu coração te seja agradável
produzir inefáveis gemidos
que alcancem teus ouvidos

Dá-me a intenção
acolhe inundando-a toda de bondade
e te deleite o pedido humilde
"digno te pareça entrar em minha alma
como seu contínuo amor"

Dá-me Senhor as lágrimas de todo o afecto
e os vínculos internos dos pecados se dissolvam

O Dom das Lágrimas - orações antiga liturgia cristã
Joaquim Félix Carvalho
José Tolentino Mendonça

2006-03-08

aproveito que está tudo em retiro

"Mistério maior que eu acho no sexo masculino é a sobra mesmo, capaz de propulsão desde a mais tenra vida, procurando o quê? Noca punha o Zico mais o Pulinho na bacia, na mesma hora a coisinha subia, ela enjerizava:baixa isso menino, baixa logo, senão apanha. Certas psicologias têm infernizado muito as coisas, botando sua pata suja em tudo quanto é lugar, feito o mesmo serviço do intervencionismo da religião do chicote. Corpo mais alegre que eu conheci era o meu mesmo, até que me explicaram o significado dos lírios nas imagens dos santos. Agora, com a minha vida no meio é que achei mais sossego. Em pequena eu quis muitas vezes ser menino, só por causa da molinha que eu não tinha, achava poderoso e nunca, em nada, eu quis ficar por baixo de ninguém, por baixo que eu digo é inferior. Tenho de explicar porque tem gente muito maldosa que gosta de interpretar tudo na bandalheira. É um assunto difícil de deslindar, esse de macho e fêmea. É mais difícil entender coisa do que alma. Um dia fiquei olhando para um abacaxi por muito tempo e cheguei à conclusão que entendia mais Deus que aquela coisa cascuda. Por isso eu acho fascinante a concreteza do mundo, a massa compacta e fumegante do angu. Era a pessoa mais infeliz do universo se não houvesse ressurreição da carne. Mas porque tem, mesmo ficando velha e torta como vou ficando, eu saio assobiando e pulando num pé só, de tanta satisfação. Corpo é fora de série. Veja se estou errada; eu amo a Deus em espírito, é com meu corpo, porque quem levita é ele, é ele que fica extático na montanha sagrada e recebe os estigmas e as tábuas da lei. Com pouco, desvio do assunto. Machismo existe, tá aí sorrateiro, enfiado em tudo o que é canto. Se você quiser pode aqui fazer um comentário obsceno. Que faça. Quero é desabafar. Tou cheia de aguentar o papa, o presidente da república, o ministro, o prefeito, o magnífico reitor, o açougueiro, o padeiro, o padre, o meu pai, o meu avô, o meu irmão, o meu filho, o pai do meu filho, o anjo gabriel, satanás, tudo homem."

Adélia Prado - solte os cahorros

Compreensão

Um ser amado que desilude.
Escrevi-lhe.
É impossível que não me responda
àquilo que eu disse a mim mesma
em seu nome.

Os homens devem-nos
o que imaginamos que nos vão dar.
Pagar-lhes esta dívida.

Aceitar que sejam diferentes
das criaturas da nossa imaginação,
é imitar a renúncia de Deus.

Também sou diferente
daquilo que imagino ser.
Saber isto,
é perdoar.

Simone Weil

Também tenho tanta

"Tenho tanta vergonha de ser feminista, só por causa dos homens é que eu sou, por que gosto deles demais. Homem é tão fraquinho, às vezes ser tão forte me cansa, me enfara e eu brinco assim: na outra encarnação quero vir homem. É brincadeira mesmo, porque não sou espírita e a metempsicose me dá canseira ainda.
O negócio comigo é na ressurreição da carne, direto como uma estrela apaga e acende. Como eu ia dizendo, homem é fraco e mulher é forte, fortíssima. Move os dedos do pé, ele diz: meu amor. Move os lábios, ele diz: casa comigo. Move o que está fadado a mover-se, ele diz: pede o que quiseres. Se a gente for doida, pede a cabeça de João Batista numa bandeja de prata. Se for santa, não pede nada e vai transformando o mundo devagarinho, passando trator, destocando, arando, semeando. Depois haja celeiro, haja lugar para tanta flor e fruto."

Adélia Prado - solte os cachorros

2006-03-07

Pai Nosso...

"Quando Deus cria - eternamente para Ele, agora para nós - não ignora que o que cria luxuriante transforma-se em deserto, o que cria fulgurante torna-se noite, e a sua Beatitude torna-se cruz. O essencial da espiritualidade cristã consiste em viver este Paradoxo no dever do tempo presente. É isto que nos arriscamos a esquecer, quando, afirmando-nos cristãos, nos recusamos a partilhar o nosso pão. O pão é somente um símbolo, pois é de justiça que se trata. Há casos nos quais a evidência daquilo que ela reclama é notória. E há outros em que o esforço da inteligência para conhecer as suas condições é rude, complexo e longo: aqui está a cruz de Cristo. É bonito cantá-la na liturgia, mas é mais urgente não a falsear."

François Varillon in Sofrimento de Deus

"Um minuto de estrondo...

...à idade reencontrada. As taças para o brinde, porque hoje sou de novo uma mulher com sutiã grená, polindo os dentes sem pressa e desenhando a boca em coração. Basta, nem eu só respondo pela fome do mundo, e vou certificar-me: se ainda me olham duas vezes, se ainda intimido, se pelo que amo ainda faço a face dos homens abrandada e ansiosa. Enquanto dura a trégua, vou guerrear."

Adélia Prado - solte os cachorros

já somos duas

"...Se eu não ficar doida é saúde demais."

Adélia Prado - solte os cachorros

2006-03-06

Dou-te graças...

Dou-te graças, Senhor, de todo o coração,
na presença dos poderosos te hei-de louvar.
2Inclino-me voltado para o teu santo templo
e louvarei o teu nome,
pela tua bondade e pela tua fidelidade,
porque foste mais além das tuas promessas.
3*Quando te invoquei, atendeste-me
e aumentaste as forças da minha alma.

4Todos os reis da terra te louvarão, Senhor,
ao ouvirem as palavras da tua boca.
5Celebrarão os caminhos do Senhor,
pois grande é a sua glória.
6*O Senhor é excelso, mas repara no humilde
e reconhece de longe o soberbo.

7Quando estou em angústia, conservas-me a vida;
estendes a mão contra a ira dos meus inimigos,
e a tua mão direita me salva.
8O Senhor tudo fará por mim!
Ó Senhor, o teu amor é eterno!
Não abandones a obra das tuas mãos!

Salmo 138

Fiat!

"A caminho, Israel! Para a frente, povo de Deus! Não foi para ti que se fez o repouso, nem o prazer da caminhada. Deus, à tua frente, sofre por um daqueles mistérios que n'Ele abundam e só tu o podes consolar. Durante quanto tempo ainda, através de quantas cruéis oposições, vais recusar-Lhe essa Virgem que Ele te pede e no seio da qual Ele pode ardentemente encarnar?
Quanto tempo ainda Lhe vais recusar a cruz para que suba a ela?
Quanto tempo ainda, diz Deus, Me vais fazer esperar essa palavra omnipotente, à qual, como sabes muito bem, me será impossível resistir? Essa sílaba inestimável que a partir da criação do mundo peço aos teus lábios purificados: Fiat!"

Paul Claudel in "sofrimento de Deus"
François Varillon

2006-03-03

gula...

"...examinemo-nos no plano da gula espiritual: o aborrecimento quando estamos na aridez, a necessidade de consolações sensíveis na oração. É S. João da Cruz que fala da gula espiritual; refere-se a uma certa forma de saborear o fervor sensível, quando é certo que a verdadeira união com Deus não passa ao nível do sentimento, mas ao nível da vontade. Estar unido a Deus consiste em fazer o que Deus quer e não em sentir que se está unido a ele."

François Varillon

Oração Colecta

Derrama sobre a nossa cabeça o turbilhão da água
ó eterno Deus omnipotente
nossos olhos rebentem em fonte de lágrimas
que no lavacro tornem inocente a mácula
assim vençamos vinganças das penas
e do pranto as altas chamas

O Dom das Lágrimas - orações antiga liturgia cristã
Joaquim Félix Carvalho
José Tolentino Mendonça

e depois?...

"Que significa realmente para o nosso Deus salvar o homem? Ministrar-lhe um curso de teologia? Dar-lhe uma lei moral, mesmo que seja do a do amor? Ensinar-lhe a modificar as suas estruturas, pessoais, sociais e cósmicas? Dar-lhe a conhecer nos mínimos pormenores um culto agradável ao Criador? Revelar-lhe que Deus é Pai, que é bom e misericordioso, sugerindo-lho, como nós fazemos nos momentos agradáveis? E depois?...Tudo isso, já o homem procura às apalpadelas desde há séculos nas suas religiões e filosofias, nas suas ciências e ideologias. E depois? Após tudo isso, fica sempre a questão que atormenta o homem e que permanece sem solução real: eu existo, mas existo para a morte, a cada instante e no momento derradeiro. Para que servem modelos morais e promessas de vida sublime, enquanto a raiz dessa tragédia sombria que é a morte não for extirpada? Não amanhã, mas agora já.

Se a vinda de Deus ao homem não atingisse essa profundidade, Deus estaria a rir-se do homem.
Ninguém pode ver a Deus sem morrer” repete-nos o Verbo, desde a teofania do Sinai. Reduzir essa experiência a uma espécie de horror sagrado diante do mysterium tremendum seria não só confundir a teologia com a patologia do inconsciente, mas também reconduzir-nos ao ponto de partida, confessando ainda que o sentido de Deus no homem está envenenado pela morte.

Só Jesus é o acontecimento de Deus para o homem, porque é a chegada de Deus como homem. Não só com palavras, pregando-nos um Evangelho maravilhoso, mas bebendo o cálice da nossa morte. Não só fazendo-nos bem sem discriminação, para nos tornar ainda mais irresponsáveis, mas convidando-nos, livremente, a tomar parte, desde agora, na sua vida incorruptível...se também consentir-mos, por amor, em entrar na sua morte, a única que destrói a nossa morte.
Como se explica a morte de Jesus? Poderíamos explicá-la mais claramente do que a morte de milhões de inocentes. E no entanto, todas essas causas, mais ou menos livres, e todos os determinismos, não explicam absolutamente nada quanto ao sentido do acontecimento. Jesus é o único ser humano que não se surpreende com a morte e que não a recebe como uma fatalidade. Não só não procura escapar-lhe, como também não luta contra ela como nós fazemos instintivamente para tentar afastá-la. Não. Ele vai ao seu encontro livre e soberanamente.
Quando Jesus é preso, recusa o combate; os apóstolos não são seus gurada-costas. Ao ser ultrajado, flagelado, condenado e crucificado, tanto a lucidez desarmante das suas palavras como o seu perdão aos algozes manifestam o mesmo mistério: aos homens escravos da mentira e do ódio e que polarizam sobre Ele todo o seu poder de morte, o Filho muito amado não opõe a violência, esse outro poder fatal. Ele não quer a morte do pecador. É por isso que Jesus não provoca o homem, mas a morte da qual o homem é prisioneiro.

A sua não-violência não é fraqueza nem objecção de consciência: é a força do amor. Na hora em que a Kenose se consuma, é a não-violência do amor que se torna toda poderosa. No próprio instante em que o homem crê “entregar” à morte o Autor da Vida, este “entrega-Se” para dar a vida a todos os que são escravos da morte."

Jean Corbon - a fonte da liturgia

2006-03-02

bilhete da ousada donzela

Jonathan,
há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu detesto
- comprada no Bazar Marrocos -
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de idéia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva - mesmo se estiver chovendo -
Não agüento mais tio Emílio
que sabe e finge não saber
que te namoro escondido
e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
"Não paro de pensar em você."
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
hora em que se o mundo acabar eu nem vejo.
Com aflição,
Antônia

Adélia Prado

Jejum...

Confesso: ficar sem comer eu fico e aguento, quatro dias já fiquei, por penitência, por vaidade. Comer pouco, não. É me crucificar com prego rombudo. Me dá nervoso, maldade, parecendo que me fecharam numa masmorra e o dia ficou lá fora com sol e passarinho, sem eu aproveitar.
Os dias mais custosos são sexta-feira santa e quarta de cinzas, porque, como tenho mais de vinte e um e menos de sessenta, tenho de jejuar. Abstinência de carne é coisa à-toa, porque eu sou doida com ovo frito, que não é proibido, nem queijo, nem peixe. A comida mais boa é a de jejum. Se me deixassem trocava ele por obra de misericórdia, um serviço pesado que exigisse boa alimentação...
...Fico preocupada com a velhice, porque velha glutona ninguém aguenta, eu pricipalmente. Choro muito de humilhação. Tem época que eu fico boa. Em outras até quando vou levar a comida pro cachorro dou uma provada no caminho. Uma tribulação, ser espírito encarnado. Valença que Deus é Pai e me conhece, senão não dava inspiração de acontecer comigo, por diversas vezes, o seguinte: fecho os olhos e abro os santos evangelhos, no puro acaso, pra meditar um pouco. Mexe e vira cai nesta passagem: "O reino do céu é semelhante a um pai de família que fez um grande banquete, etc. etc. etc...."

Adélia Prado in "solte os cachorros"

cinzas

Na celebração de ontem, senti-me tentada a ficar no banco aquando da imposição das cinzas. Já me sentia suficiente pó. Achava, para mim, o rito supérfluo. Mas temi a soberba de tal acto. Obediente, inseri-me na procissão.

2006-03-01

Eu queria trazer-te uns versos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar os olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas...e que são escritas
do lado de fora do papel...Não sei, eu nunca soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente de puro, ao
vento da Poesia...
Como
uma pobre lanterna que se incendiou!

Mário Quintana

Oração Colecta

Vacilas por ternura Deus omnipotente
da pedra fonte da água viva rompeste
a um povo sedento
retira da nossa dureza a compunção das lágrimas
longo pranto por nossos pecados concede
pois vendo-nos assim te compadeces
e obtemos remissão

O Dom das Lágrimas - Antiga liturgia cristã
Joaquim Félix Carvalho
José Tolentino Mendonça