2006-04-28

Bom fim-de-semana

"Também hoje quero sentir em liberdade. Sentir que não "tenho de ser" nada, nem "tenho que ter nada", nem "tenho que pensar" nada, nem "tenho que sentir" nada, nem "tenho de fazer" nada, nem sequer "tenho que gostar" de nada. Hoje quero sentir a liberdade de "ser aquilo que sou", de "ter aquilo que tenho", de "estar a sentir aquilo que sinto", de "estar a pensar aquilo que penso", de "gostar daquilo que gosto", de "fazer aquilo que faço", de "decidir aquilo por que optei", de "sonhar aquilo por onde quero ir, de "amar quem amo, como amo", de "rezar como rezo, a quem rezo, quando rezo, o que rezo".

(Teresa Carvalho in Fátima Missionária)

Promessa

Canção na plenitude

Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft

2006-04-27

Para o Vítor

Ali, no texto em baixo, mostro-me um pouco céptica em relação a alguns sinais. Mas que dizer, do sinal de vida e alegria que trouxeste às nossas vidas? Eu chamaria milagre.
Um muito obrigada, por seres como és.
Muitos parabéns, hoje e sempre. A prenda... já te "dei".

Um beijo muito grande. Parabéns!

teologia à moda deste jardim

eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus

Fixei-me neste poema de Paulo Leminsky, e encontro nele uma expressão de fé mais cristológica, do que tantas expressões "piedosas" do género:"Se não consegui melhoras desta doença, foi porque Deus não quis", "Estou vivo, até que Deus queira", "Tenho de aceitar com resignação este sofrimento, porque Deus prova os que ama", "Resigne-se com a morte do seu filho(a) porque Deus quis levá-lo(a) para Si". E assim, se vai construindo uma imagem, que não é, não pode ser a de Deus, mas a de um ídolo que responda às nossas angústias de luto, de dor, de sofrimento.
Deus não pode ser um manipulador, que de longe e à distância, controla as nossas vidas.
"o mistério da Cruz de Cristo não passa de um enigma desprovido de significado se não se converter radicalmente a ideia que espontaneamente se tem do poder de Deus. Todo o homem começa por procurar a Deus na linha do poder:Deus é o Grande Patrão. É inevitável: não é possível deixarmos de seguir, ao princípio, essa direcção que é pagã. Espontaneamente, quereríamos que Deus estivesse constantemente a intervir nos nossos assuntos, que Deus mesmo escrevesse a nossa história em vez de nós, que Deus nos livrasse dessa terrível responsabilidade que nós temos de ser nós mesmos os autores do nosso destino."(François Varillon)

Não sendo Deus um "manipulador" do nosso destino, ser-lhe-á o mesmo indiferente? Não o creio, de todo. Deus não é "algo" exterior a nós. Melhor dizendo, não há nada exterior a Deus, "fora" de Deus não há nada. De Deus "nascemos" e para Ele caminhamos. É neste caminhar que se joga a nossa liberdade. E o nosso amor. Pois só quem é livre, pode amar. Deus não nos manipula, não nos condiciona através das circuntâncias da nossa vida. Mas é nelas que temos de O procurar. É pelas alegrias que esperamos, que Ele também espera e é nas dores que sofremos, que Ele toma como suas.
O Cristo agonizante que brada com desalento:"Pai, porque me abandonaste?", não pode ser transformado, depois de ressuscitado, em mágico, que dispensa a nossa conversão, a nossa adesão à fé na ressurreição. E não há sinais que nos valham, ainda que em abundância, as religiões os apresentem.
É o "salto no escuro", é o "procurar na noite" de Nicodemos, é o silêncio de sexta-feira santa.

2006-04-26

Pequena elegia de setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho

para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.


Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?


Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo, medo

que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas, e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

impressões...

hoje, das rosas, só vejo os espinhos. É apenas, uma (des)ilusão.

2006-04-25

25 de Abril de 1974

Trinta e dois anos depois, a casa algo desarrumada, muitos vícios acumulados, mas celebremos a Revolução!

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

(27 de Abril de 1974)
SoPhia de Mello Breyner Andresen

2006-04-24

Não se apressem que a gente espera

A avó Felismina bem dizia:"Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém!"
Parece que também é a política do Vaticano. Quanto tempo, quantas palavras, quanta comissão de estudo, para dizer o óbvio. O preservativo em certas situações é obrigatório! Custa assim tanto, dizer isto?

Semana sem televisão...

Começa hoje a semana "sem televisão". Ó raios! O pior é que também começa, na dois, a nova série de episódios, de "Sete palmos de terra". Começo amanhã!

2006-04-21

Bom fim-de-semana, cheio de beijos e abraços

A mulher e a casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser comtemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la

seduz, pelo que é dentro,
ou será quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro:
pelos recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

João Cabral de Melo Neto

2006-04-20

O perdão é maior do que o pecado

Na semana passada, no meio de férias pascais, celebrações litúrgicas, penitências e jejuns, deputados que foram comer as amêndoas mais cedo, houve uma pequena agitação, porque o Vaticano tinha arranjado uns pecados novos. Referiam-se eles: ao tempo desproporcionado (em relação ao tempo de leitura da Palavra de Deus) de ler livros ou jornais, navegar na net... e só não falaram em blogues, porque aos ouvidos do sr cardeal James Francis Stafford, ainda não deve ter chegado tal novidade. Agitei-me também. Alguns familiares, a quem cometi a imprudência, de contar os meus novos interesses na net, não perderam oportunidade de me chamarem à pedra (sabe sempre bem, apontar o dedo acusador).

A princípio, ainda pensei: É sempre uma chatice quando fazemos o nosso exame de consciência e posterior confissão, verificarmos que a lista de pecados se mantém inalterável. Nem um pecadito novo, para não ter que dizer sempre a mesma coisa. Deve ser também maçador para os confessores, escutarem horas seguidas, o mesmo rol. Variando um pouco, caso o penitente seja masculino ou feminino e pouco mais. Uns pecados novos, quebravam um pouco a rotina do acto.

Já fui ler a homilia do sr cardeal, porque nestas coisas é sempre bom ir às fontes, para perceber o contexto, e a razão de ser, da agitação. Fiquei mais tranquila. Para o exame de consciência, é sugerido que se tenha como pano de fundo, as Bem-aventuranças. Óptima sugestão. Podia ser "apenas" o Pai Nosso. Dá matéria para muita reflexão e conversão.

Da dita homilia, o que eu gostaria que os senhores jornalistas tivessem feito eco, mas isso era pedir muito, era desta frase, por ele proferida:" A escuridão do pecado não poderá nunca suprimir a luz da misericórdia divina."

Pecar significa "não acertar no alvo". O alvo é Deus. É a nossa vida de comunhão com Ele. Sempre que rompemos, por nossa livre e decidida vontade, essa comunhão, pecamos. Mas o importante, é que não há nunca, nenhum pecado que nos impeça de voltarmos à comunhão: à vida em Deus. De nós, só é preciso o arrependimento e vontade de mudança. A força regeneradora, libertadora, é toda de Deus. É a força do Amor.


Mas ainda voltando à confissão, como diz a Adélia Prado, nem tudo é fácil de confessar: "O mais custoso de confessar é masturbação e gula. Adultério é facílimo, assassinato também, já o roubo não. Mas os dois primeiros, só com reforço especial da graça."

Enfim, coisas da Adélia!...

2006-04-18

Deus

"Deus não é alguém que está fora de nós. Deus é alguém que habita no centro do nosso coração. Como dizia Santo Agostinho:"Deus é mais íntimo a nós que nós mesmos." E toda a experiência de amor é, de um lado, a manifestação da presença de Deus em nós e, de outro, a possibilidade de saborear vivamente essa presença. Por isso, a nossa experiência de amor é insaciável. É sempre uma descoberta, o provar um pouco daquilo que é infinito, um mistério a ser desvendado. É sempre um enigma, o amor."

Frei Betto

Paradoxo

"Em certo sentido estamos sempre viajando, e viajando como se não soubéssemos para onde vamos.
Em outro sentido já chegamos.
Não podemos alcançar a posse perfeita de Deus nesta vida; e por isso estamos viajando nas trevas. Mas já o possuímos pela graça e, por conseguinte, nesse sentido já chegámos e residimos na luz.

Mas ó! Quão longe tenho de ir para Te encontrar, muito embora já tenha chegado a Ti!"

Thomas Merton

impressões...

...enfim convencidos, de que não há, por aqui, nenhum paraíso...vamos lá; à procura da terra prometida...

2006-04-17

a vida...

Acabadinha de celebrar a Vigília Pascal, cantados os aleluias, dei um valente trambolhão. É que a condição ainda é de peregrino.

creio, espero e amo:

..."Então o crente dirá ao não crente, como escreve o teólogo González Faus: espero que no fim, para lá da morte, encontrarás esse Pai ou Mãe ou essa Luz de braços abertos para ti, encontrarás esse Mistério último acolhedor.
Mas o não crente poderá responder ao crente: verás a surpresa que vais ter quando vires que não há nada.Aí, ao crente só resta a resposta: valeu a pena viver como vivi, se vivi no bem. Acreditando, a minha vida foi mais humana, abriu-se a mais dimensões da realidade, encontrou fundamento e sentido último. A prova de que a fé dos crentes não é vã só pode ser a luta contra todas as formas de morte: a fome, a guerra, a injustiça, e a favor da liberdade, da dignidade, da paz, do amor. "

Padre Anselmo Borges in DN

prece e nota

...e a Páscoa continua...

2006-04-11

O essencial...

Estamos a viver aquilo, que a Igreja Católica chama de "Semana Maior". Celebramos o mistério central da nossa fé -paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, o Emanuel (o Deus connosco).

Escapar-nos-ão muitas realidades deste mistério. Que os ritos do culto, não esbatam, não ofusquem, não ocultem o que Deus nos quer revelar. Chamados a contemplar a circunstância histórica do Nazareno, somo-lo também, a actualizar na nossa vida, através da graça santificante derramada em nossos corações, o mesmo caminho de passagem da morte, do finito, do pecado, à vida plena em Deus.

O nosso programa para esta Páscoa é o que nos aponta S. Paulo: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a Si mesmo se entregou por mim" (Gálatas 2,20)


Os meus desejos e votos, de Páscoa Feliz para todos!

2006-04-03