2006-05-30

Borda d'água

Tudo tem o seu tempo. O de deixar este jardim, chegou. Comecei isto sem prazo nem limites. Era o que viesse. E veio muita coisa boa. De todas elas, saliento os comentários que aqui foram deixando. Era sempre com renovada surpresa, que os lia. Muitas vezes me assustei por me levarem tão a sério. O que aqui foi aparecendo, não era mais, do que as impressões de uma cidadã absolutamente anónima. De uma crente cheia de dúvidas. De uma mulher que nunca se conforma com as injustiças, o sofrimento, as várias misérias que atingem a Humanidade.

Mudei algumas coisas em mim. Uma delas, é deixar o blogue aberto. Quando o comecei a compor, era para apagar quando terminasse. Agora não sou capaz. Os comentários que aqui foram escrevendo, já não são propriedade minha.

Fica um post para terminar - o do valor da vida. O da minha, vou continuar a descobrir...

Muito obrigada pelo carinho que sempre me dedicaram.

2006-05-26

Exercício Espiritual

Maria,
roga a Teu Filho que me mostre o Pai.
Imagens sobrevêm:
homem, vinheta, instrumento,
o que ameaça ser um leque de penas
e é uma cabeça de naja,
a perigosa serpente.
Quero ver o Pai, insisto,
roga a Teu Filho que me mostre o Pai.
Um dente, uma vulva,
um molho de nabos comparecem,
gerados como eu, do nada.
De onde vêm os nabos, Maria?
Onde está o Pai?
De onde vim?
Move-se na parede um cavalo de sol.
É o pai?
Não,
é só uma sombra e já se desfaz.
O Pai, então, é uma usina?
Meu pai dizia: ó Pai!
E levantava os braços respeitoso.
Também meu avô: Deus é Pai!
E tirava o chapéu.
Assim, um pai remetendo a outro
e mais outro e outro mais,
enfim, a milhões de pais até Adão,
que sou eu acordando de um sonho,
apenas “raia sangüínea e fresca”
a madrugada, filha de parnasiano,
que me encantava quando eu era mocinha,
filha de ferroviário,
cansada agora
como feirante ao meio-dia:
ai, meu pai,
me ajuda a torrar o resto
deste lote de abóboras,
me tira da cabeça
a idéia de ver Deus-Pai,
me dá um pito e um café.


Adélia Prado - Oráculos de Maio

Onde há divisão, não há Deus!

O que nós precisamos na Igreja Católica não é modificar este ou aquele parágrafo, mas uma mudança de todo o comportamento religioso, precisamos descobrir uma forma mais integral de viver, de amar, de rezar, de sonhar, de sofrer e de ser felizes – e encontrar a unidade daquilo que foi separado; criação e graça, Igreja e sociedade, eclesiástico e leigo, padre e homem, alma e corpo, sensibilidade e intelecto, natureza e cultura. Deus só se encontra onde a natureza humana se reconciliou consigo mesma.

Eugen Drewermann

2006-05-25

saber cuidar

Muitas vezes me deparo, na vida e aqui nas relações do virtual, com a seguinte afirmação: "Vou rezar por si!" O que parece uma piedosa intenção, pode estar carregado de preconceitos, de julgamentos, e pode até, ser considerado como uma manipulação grosseira da consciência.
Hoje recebi um e-mail em que alguém me dizia:"Reparei num post seu. A partir de hoje, vou tê-la na minha oração." Isto é saber cuidar.

a fé será sempre o salto no escuro! não há volta a dar

Não é preciso insistir demasiado sobre a diferença entre o testemunho e a reportagem. Muitos seriam tentados a ver na reportagem equipada com todos os meios de gravação o cúmulo da verdade histórica. Não compreendem que as câmaras e os gravadores não podem senão captar aparências exteriores. Para gravar uma experiência profunda, o único instrumento válido é o coração no sentido bíblico da palavra, isto é, a consciência. O que leva a perguntar: porque acreditas? Qaul é a motivação da tua fé? Por outras palavras, qual é o sentido que a ressurreição de Jesus dá à tua vida? Não só o facto mas o sentido do facto.

Se queremos servir-nos de uma imagem usada em fotografia , eu diria que o que recebe a impressão da experiência de Jesus ressuscitado é o íntimo do nosso ser, a nossa própria existência. Quando os apóstolos dizem: "Nós somos testemunhas disso", isso não quer dizer:"Nós vimo-l'O sair do sepulcro. Quer dizer nós estamos absolutamente certos de que Jesus está vivo. E a garantia dessa certeza, que é mais do que humana, é a entrega que fazemos das nossas vidas até ao martírio. É isto o testemunho.

François Varillon

2006-05-24

sem mais 2...

Se eles tivessem tido máquinas fotográficas ou gravadores, não teriam podido gravar nem fotografar. O que se lhes pede é o testemunho.

François Varillon

sem mais...

Chamaste-me à Fé
e a fazer da minha vida,
sinal da Tua presença.
Respondo-Te, tantas vezes
com o silêncio
e com o medo,
e todas as fragilidades
que Tu tão bem conheces.
Saber que me aguardas,
a cada passo
dos meus passos,
reanima
a cada dia,
a minha confiança.

2006-05-23

Canção do amor sereno

Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel dos teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse na praia uma menina.

Lya Luft

Borda d'água

É tempo de fazer das tripas coração...

...e esperar por melhores dias!

2006-05-22

esta Adélia...

Padre do interior gosta muito de ser fazendeiro e motorista. Quando chega a missa das dez, já estão tudo doidos pra ir pra fazenda, despacham o povo na maior pressa, tadim do povo, sai dos Costas, do Quilombo, dos Branquinhos, do Pari, vem a pé de bichinha de ouro na orelha e precata na mão, pra escutar uma arenga que até o Judas ia ter vergonha de fazer.
...Deus tá vendo, mas o Senhor Bispo nem sonha. O povo tem medo demais de falar as coisas, já vive marretado de tudo quanto é lado, não quer caçar encrenca com as coisas de Deus.
...Mas a maioria entende, por um escuro caminho do Divino Espírito Santo, que Nosso Senhor é maior que sua Igreja que, mal comparando, parece puxada pela mula do Zezim.
De igreja daqui a única coisa que presta é a procissão do padroeiro. Fora isso é o que todo o mundo tá enfarado de saber; é o padre Lino com a Cota do seu Túlio, o bobão do Euclides Sacristão segurando o apagador de vela como se segurasse a bengala do papa, e o Santíssimo Sacramento do Altar sem poder fazer nada, apesar de que Deus de fato é espírito não tem corpo. O que teve tá pregado na cruz e bem pregado.
Serviço de Deus é esperar e olhar. O que cabia pra Ele, já está feito: já fez o mundo, já morreu na cruz, já mostrou o coração pra Santa Maria Alacoque, pra nos servir de exemplo. Serviço nosso é dar um jeito, é bater na porta do padre Lino e chamar ele pra um papo, escrever pra Sua Excelência, ir a Roma, fundar um jornal pra debater a ignorância do povo, tudo sem faltar ao respeito e à caridade. Afinal de contas, padre também é filho de Deus, coitadinho, e tentação parece que dá mais é em cima dele mesmo.

Adélia Prado in solte os cahorros

verdade seja dita:

As trinta mil mulheres que foram para o estádio nacional, brincar de bandeirinha e babar-se prá frente dos jogadores mais selecionador, se têm cérebro, é de galinha.

até a Adélia

Então, eu virei pra sua Excelência e lhe pedi filialmente: me deixa dar catecismo, senhor meu Pastor. Não, ele me disse, não.
...Mas como? Retruquei. A minha reputação, dentro do possível ilibada, m'o impede? Usava esta linguagem fora do meu natural pra ele não me interpretar errado, me julgando desrespeitosa. A messe é grande, eu dizia. Não, falava ele.
...Nomeou, eu não, nomeou foi professor homem. Enfarei de cortesia, porque eu quero brigar, quero dizer, quero discutir ideias fortes e o que acontece é que me abrem alas e me deixam passar brandindo e humilhada. "Vá se queixar ao bispo", eu sei bem o que é. Ser mulher ainda dificulta muito as coisas. Muita gente boa ainda pensa, em pleno século quase vinte e um, que mulher é só seu oco. Fosse assim e a gente não tinha nem coração nem cabeça, não precisava nem ser baptizada. Mas digo que tem e igualzinha a dos homens: boa e ruim. Jesus, muito mais antigo entendeu isso muito bem que nós, entendeu isso direitinho. Se eu fosse do tempo dele, tenho a certeza que ia ser o Pedro burro que cortou a orelha do soldado Malco, porque tenho a paciência curta e mão pesada.

...Não fiquei traumatizada com o acontecido, não, nem guardei raiva. Tem muito outro que fazer n igreja de Deus. Agora, tem uma coisa: no momento das preces comunitárias quando chega a vez de orar por Sua Excelência, eu não falo o nome dele, falo é o apelido que eu pus.
Também sou filha de Deus, uai.

Adélia Prado in "solte os cachorros"

2006-05-21

O problema são mesmo as barreiras

Em resposta a um comentário que deixei num blogue, o seu administrador enviou-me um e-mail que terminava assim:

"Não sei se é sacerdote ou não, mas se é, faça a mesma experiência de S. Pedro, que numa noite pediu ao Senhor para ir ter com ele caminhando sobre as águas. E vai ver como as barreiras não passam de ilusões."

Pois não sou padre, sou mulher, barreira intransponível de acesso ao sacerdócio ministerial. Nem com toda a fé em Jesus Cristo, poderei - ou alguma outra mulher -, transpor tal barreira.

tão mesmo zangados...

...seguindo a informação de um comentário anónimo, no post anteiror, fui ao Correio da Manhã ler o artigo. Embora um bocado agastados com a questão da cadeira, mantêm agora, a esperança em S. Cavaco. Vamos ver.

Entre algumas declarações um pouco azedas - os previlégios custam sempre a perder - o padre António Xavier diz o seguinte: "O que os goverantes e outros políticos mereciam era que, quando viessem a uma cerimónia religiosa, fossem colocados no meio do povo, em vez de se sentarem nos principais lugares do templo."

Gostava de ver tal gesto profético, não como vingança, mas como acto de verdade, perante os mistérios que celebramos.

2006-05-19

Bom fim-de-semana

Deixo duas óptimas sugestões de leitura virtual.
Não é por nada, mas refere-se a dois dos meus bloguistas favoritos. Os meus primeiros amores da net.
A primeira é para lerem o que o Tiago escreve no seu quadragesima. Escrita profunda e de uma riqueza interior, francamente manifesta. Entremeia com uns esboços de partir o coração, o que resulta num blogue de primeiríssima qualidade. Eu roo-me de inveja, mas quem pode, pode.

A segunda, pois é o meu amigo José, que foi solicitado para aderir a uma vaga de fundo para preservar a cadeira do bispo. Missão importantíssima, pode lá o bispo ficar sem cadeira. É mais ou menos a história que eu contei ali para baixo, mas agora ao contrário. É a cadeira para o bispo solene, no protocolo solene. E que tal, se ele, quando quiser participar, levar uma cadeirinha de praia? Fica a sugestão.
O José responde com um texto longo, porque devidamente aprofundado, que já tinha escrito há mais tempo, mas que se tornou oportuno e actual.

"Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros. Jo 15, 12-17

Jesus manda amarmo-nos uns aos outros como Ele nos amou; com a mesma intensidade, da mesma maneira que Ele nos amou.
E acaso o amor se pode mandar? Pode-se obrigar alguém a amar?
Talvez a tradução deste termo não seja de todo exacta. A palavra grega entolê, traduzida por mandamento, significa – mais que mandamento – encargo encarecido, algo que se recomenda de todo coração e que se deseja vivamente que seja colocado em práctica. E esta é a última recomendação de Jesus «que vos ameis uns aos outros», porém não com a medida do Antigo Testamento que era a medida de si mesmo (amarás ao próximo como a ti mesmo) e sim com a medida com que amou Jesus, mais que a si mesmo, até a dar a vida por causa da denúncia de todas as formas de opressão e injustiça, por amor a quem na sociedade é oprimido e humilhado.
Quem coloca em práctica este encargo encarecido de Jesus não é já servo, e sim amigo seu. Isto é, situa-se ao seu mesmo nível, participa de seu mesmo projecto e estilo de vida. Amigo de Jesus ou irmão, como chama Jesus a seus discípulos na última ceia, e, como irmãos, filhos todos de um mesmo Pai cuja essência se define como amor que se manifesta em Jesus para dar vida a uma humanidade relegada à morte.
No Antigo Testamento, a relação do ser humano com Deus era expressa em termos de submissão. Jesus, pelo contrário, exclui a adesão e o amor até Ele como próprios de servos ou de súbditos.
A relação com Jesus é uma relação amigável e fraterna. A missão adquire assim uma dimensão nova: os discípulos se dedicarão com Jesus a um trabalho que sentem como próprio, não serão servos sob as ordens de um senhor e sim pessoas livres, amigos que desenvolvem por sua própria iniciativa, irmãos que compartilham sua alegria na tarefa comum.

Serviço bíblico claretiano

2006-05-18

tá bem, abelha!

"A Deus também se pode encontrar em Wall Street"

Javier Echeverría, Prelado do Opus Dei
Amor e Medo

Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.

Affonso Romano de Sant'Anna

Direito a uma opção diferente

No Dia Mundial de Luta contra a Homofobia, 17 de maio, um caso emblemático na América Latina desafia o movimento de luta pelo direito à diversidade sexual. Na Nicarágua, por lei, é crime o relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo. Diante desta realidade, activistas da Amnistia Internacional no Chile entregarão uma carta de protesto ao embaixador da Nicarágua no Chile. Além disso, outros ativistas da Anistia realizam actos de protesto nas embaixadas e consulados da Nicarágua na Argentina, Chile, México, Paraguai, Peru e Uruguai, para expressar sua preocupação com a vigência do artigo 204, da Lei do Código Penal.
Este artigo afirma que comete delito de sodomia quem induz, promove, propagandize ou pratique, de forma escandalosa, a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo, e sofrerá uma pena de um a três anos de prisão.


...A Amnistia Internacional insta o Governo da Nicarágua a derrogar o artigo 204 do Código Penal e a despenalizar a homossexualidade, em conformidade com as normas internacionais em matéria de direitos humanos.


...Muito mais continuam consagrando a discriminação. A homossexualidade é condenada pela lei na Argélia, Senegal, Camarões, Etiópia, Líbano, Jordânia, Kuwait, Porto Rico, Nicarágua e Bósnia. Em vários países a condenação chega a ser superior a 10 anos de reclusão, como na Nigéria, Líbia, Síria, índia, Malásia e Jamaica.

ADITAL

"Permanecei no meu amor" Jo 15, 9-11

"O Pai mostrou o seu amor a Jesus comunicando-lhe a plenitude de seu Espírito. Acção que se levou a cabo no baptismo, quando o Espírito de Deus-amor desceu sobre Jesus como uma pomba a seu ninho, convertendo Jesus no ninho do Deus-amor.
Jesus demonstra o seu amor aos discípulos da mesma maneira, comunicando-lhes o Espírito que está nele, esse rio de vida que fluirá do interior do crente e que sacia a sede do coração humano. A união a Jesus-videira se expressa em termos de amor.
Jesus, como resposta permanente ao amor que revelou aos seus, pede-lhes que vivam no âmbito desse seu amor, na prática do amor ao próximo. Tal é a atmosfera gozosa em que se move o seguidor de Jesus. E este amor deve traduzir-se em alegria, numa visão positiva da vida, em gozo, em taxativo não à desesperança, ao pessimismo, ao medo e ao temor. Não há realidade alguma que não possa ser mudada com amor. O cristão vive alegre, porque a alegria é o resultado de uma vida vivida com amor, de uma vida que gera amor e vida. "

Serviço bíblico Claretiano

2006-05-16

caricatura

Ontem participei numa chamada "missa solene" (?). Havia "convidados solenes" também, e cadeiras reservadas. Para os "convidados solenes". Entretanto, foram chegando os frequentadores habituais, todos para cima dos setenta. Os "convidados solenes", não ocuparam todas as cadeiras. Ficaram de pé, perto de duas dezenas de pessoas, sem saúde para tal. E as cadeiras dos "convidados solenes", vazias. O celebrante esmerou-se no sermão para os "convidados solenes", não se lembrou de convidar quem estava de pé para ocupar as cadeiras vagas.
O que é que isto tem a ver com a Última Ceia?

questão de fé?

"Todo ser é bom, saia dessa quem puder, eu não posso. Quando pude, finquei meu pé ao pé de um moribundo, até que se finasse, pra conferir o trânsito da sua alma. Não vi. Foi tão cotidiano morrer quanto respirar todo o dia."

Adélia Prado in solte os cachorros

Borda d'água

É tempo de "arrancar o mal pela raiz"

Alguém tem ideia do instrumento a usar?

2006-05-10

Não sei que fazer...

"Sei que sofrimento neste mundo é fazenda de todos. Mas tende Justiça, meu Deus, ao menos miséria some...
Culpa eu tenho demais. E medo.
Tem hora, minha vontade é chorar de bezerro desmamado meu fundo desvalimento. Tenho que fazer isso escondido, porque os meninos, quando sofrem lá o medozinho deles, é atrás de mim que correm, pensando que eu sou forte, só porque sou grande. Eu não posso ir para o convento, gente com filhos não pode. Tapar os ouvidos não quero, que é covardia. De morrer não gosto. Francamente eu não sei o que fazer, eu não sei mesmo. Se eu fosse o governo ou o chefe dos bispos do Brasil, baixava um decreto pra funcionar desde o mais perdido Cruzeiro até a Catedral mais chique, desde as perfeituras mais mixas até o palácio dos ministros. Que se estudasse até descobrir o que Deus quis dizer exactamente, quando inspirou o profeta a escrever no Livro Sagrado esta oração mais linda que se reza em vésperas de Natal:"Derramai ó céus das alturas vosso orvalho e as nuvens façam chover o Justo".
Porque Ele veio e virá sempre à palha e ao cocho para ser compassivo. Mas nós o que estamos fazendo pra ajudar?"

Adélia Prado in solte os cachorros

2006-05-08

Borda d'agua

É preciso descobrir o sentido da vida!

Como é que isso se faz?

"o pecado não pode ser o centro da vida..."

Para compensar a prosa de João César das Neves, integrista da fé, todas as segundas no DN, o jornal passou a contar todos os domingos com a colaboração do padre Anselmo Borges, missionário da Boa Nova e professor universitário. Em boa hora o fez.
Esta semana, fala de D. Antonio Ferreira Borges, conhecido bispo do Porto, exilado durante vários anos, antes do 25 de Abril. E "exilado" na Igreja, também. Todas as cartas que escreveu ao papa J. Paulo II, nunca obtiveram resposta. Em "Roma" só se sabe "cantar" num tom. O tom que não fere, não incomoda, não interpela, não questiona...não converte, direi eu.


Se "o homem não tem liberdade, pois ele é uma liberdade", D. António era agora um homem ainda mais livre, já que "o ser resignatário tira ao bispo certos direitos mas liberta-o das servidões resultantes do ministério e magistério episcopais". Para o antigo bispo do Porto, duas coisas eram claras, como veio dizer a Valadares: a Igreja só tem "uma Constituição: o Evangelho...

... a Moral tem de ter como seu centro a lei de Cristo, que é a lei do Amor; o pecado não pode ser o centro da vida de uma Humanidade cristã: desgraçadamente, "um certo amartiocentrismo põe no centro o pecado", geralmente reduzido ao pecado sexual e fechando-se à consideração do pecado social, "que é como se não existisse".

Mas D. António Ferreira Gomes não se limitou a reflectir sobre alguns desígnios fundamentais do Concílio Vaticano II. Ousou tocar questões melindrosas. A título de exemplo: dever-se-ia reflectir sobre a actual disciplina da Igreja no tocante à confissão auricular - "Santo Agostinho nunca se confessou" - bem como repensar o processo da canonização dos santos; quanto à diplomacia eclesiástica, lembrando a transparência do Evangelho - seja a vossa palavra sim, sim, e não, não -, a norma desejável seria: "Tanta diplomacia quanta seja necessária ou útil e tão pouca quanta seja possível"; a reforma da Cúria "será baldada se não incluir o desaparecimento da função cardinalícia"...

Em quem pões a tua fé?

"O cristão, que com muita frequência, não passa de um pagão que se ignora, não se priva de sacralizar toda a espécie de poderes. Evidentemente, ele não sacraliza o Sol ou a Lua. Mas sacralizará totalmente o Chefe ou a Propriedade. Sacralizará a Natureza ao dizer que está conforme com as leis da Natureza a existência de desigualdade entre os homens (quer dizer, alguns ricos e muitos pobres). Sacralizará as estruturas sociais, políticas, ou eclesiais. A idolatria é mesmo uma constante da condição humana."

François Varillon in Alegria de Crer e de Viver

2006-05-05

Bom fim-de-semana

Pudesse eu

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen

2006-05-04

qual primavera?

Numa entrevista para o "el País", o cardeal Alfonso Lopez Trujillo, presidente do Conselho Pontifício para a Família, põe os "pontos nos is" sobre algumas últimas notícias, e sobretudo, sobre as declarações do cardeal Carlo Maria Martini. É a doutrina pura, dura, cega e com uma pontinha de sacanice quando se trata de desvalorizar as opiniões dos outros. O cardeal dá a entender, que os jornalistas podem ter deturpado as declarações de Martini, que ele não tem autoridade para as declarações que fez, e deixa-lhe um aviso que quando falarem, ele lhe diga, efectivamente, o que pensa. De onde é que se conhece esta maneira de pensar e actuar sobre os outros? Das ditaduras, ah pois é!
Ainda sobre o aborto, e este é um tema, que me enche sempre de reservas, tenho de avançar que não partilho da opinião no caso apontado de que só o feto é inocente. E a mãe? É culpada de quê, numa situação que lhe escapa completamente ao controle?

A totalidade da entrevista pode ser lida aqui


P. Entonces, ¿qué hay que hacer en el caso de que uno de los esposos tenga sida?
R. Los esposos pueden entrar en un plan de continencia, de castidad, para no poner en riesgo la seguridad del otro. Algunos moralistas se han referido al grado de relatividad de seguridad del condón. La Organización Mundial de la Salud (OMS) sabe que hay una relatividad, un peligro
.
...
P. Usted había hablado en una oportunidad de la estrategia abc. ¿Qué es exactamente?
R. El abc, suena más claramente en inglés ya que se lo inventaron en Estados Unidos. A, de abstinencia; b, de Be faithful, ser fiel. Y la c no es de condón como dicen algunos. La c es de castidad.

...
P. En cuanto al aborto, el cardenal Martini indicaba que en el caso específico de que la vida de la madre corriera peligro se podría considerar la situación. ¿Cuál es su postura?
R. Esto sólo puede explicarse con una mala transcripción. Jamás, por ninguna razón se puede eliminar la vida del inocente, y la vida del inocente es el feto. Jamás la Iglesia ha reconocido el aborto en el caso de que la vida de la madre sea amenazada por el hijo, nunca se ha permitido y no se permitirá, porque es la única doctrina de la Iglesia. Yo creo que en ese sentido el cardenal fue malinterpretado, porque una persona tan importante con una vasta gama de conocimiento sabe muy bien que nunca la moral católica ha dicho otra cosa.

...
P. ¿Qué le tiene que decir al cardenal Martini?
R. Al cardenal Martini le tengo un gran aprecio. Cuando tenga la oportunidad de verlo, conversaremos. Y seguramente me dará la buena noticia que algunas de sus declaraciones se tomaron mal.

O Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai - Jo 6,44-51

O evangelista João mostra Jesus como o caminho para chegar a Deus. Desde que abaixou o Espírito de Deus sobre Jesus no baptismo, como pomba que pousa em seu ninho - com a inclinação da pomba até seu ninho-Deus já não está no céu- que ficou rasgado para sempre- senão em Jesus. De modo que o lugar preferido de Deus não é mais o céu nem o templo, senão Jesus como protótipo da pessoa humana que tem percorrido o caminho da plenitude humana, até a filiação divina.
O Pai e Jesus são da mesma natureza, um amor capaz de comunicar a quem a Eles adere a vida definitiva, a ressurreição. Porém a ressurreição não é um prémio da observância da lei, como acreditavam os fariseus. Jesus afirma que a ressurreição não depende desta observância, senão da adesão a ele, ou seja, da prática do amor pelos outros. O amor de Deus que se manifesta em Jesus fará de um mundo composto por judeus e pagãos, de um mundo desunido, um novo mundo em que todos (não só os filhos de Jerusalém, como dizia o texto do profeta Isaias) serão discípulos do Senhor, de um Deus que chama “Pai”. Deus não é mais o Deus de Israel, mas o Pai universal.

Serviço bíblico Claretianos
Canção em campo vasto

Deixa-me amar-te com ternura, tanto
Que nossas solidões se unam
E cada um falando em sua margem
Possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
Cavalgando mares impossíveis
Em frágeis barcos e insuficientes velas
Pois disso se fará a nossa voz.

Deixa-me amar-te sem receio, pois
A solidão é um campo vasto
Que não se deve atravessar a sós.

Lya Luft

2006-05-03

...há tanto tempo...

Jesus disse-lhe:"Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe?..." (Jo 14, 9)

É esta pergunta que ressoa através dos tempos, na história dos que se dizem amigos de Jesus. Pergunta a carecer resposta, da parte dos grupos e indíviduos.
É muito frequente (demasiado frequente) o discurso na Igreja, de que o mundo, vive alheio dos valores do Evangelho. Que os critérios do mundo são opostos ao do Evangelho.
Estava a escrever isto, e veio-me à memória uma das coisas que tinhamos de decorar na catequese - os inimigos da alma. Se bem me lembro, eram eles - o mundo, o demónio e a carne.
Já não se ensina isto às criancinhas. Acho eu. Mas no seio da Igreja, nos documentos do Magistério ainda se diaboliza o mundo e a carne.
Daí, as reacções despropositadas a algumas expressões de arte (o actual "Código da Vinci", primeiro o livro, e agora o filme) e que dizer de toda a moral sexual, acérrimamente defendida pela Igreja?

Pergunto-me pessoalmente: há tantos anos que convivo com Jesus, conheço-O? E a Igreja da qual faço parte, conhece-O?

o que verdadeiramente importa...

Quero lá saber do preço do barril de petróleo, da reforma da segurança social, dos recadinhos do Marquinhos Mendes para o Governo, dos protestos da CAP, dos mesmos recadinhos de fim-de-semana do sr do PP, a propósito: o sr Louçã deixou de dar recadinhos...

Quero lá saber - a D. Cristina ainda me saúda com um:"Bom dia, menina!"
Leitura Natural

Tendo lido os jornais- infectado a mente, e
nauseado os olhos -descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias da sala
e recrudesce nas montanhas.

Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.


Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.

Affonso Romano de Sant'Anna

2006-05-02

é a morte, porra

Eu bem tento. Tento convencer-me que é o fim natural de uma vida. Repito para mim mesma, que a vida não termina; toma outra dimensão. Que nada, palavras que me soam estranhas, como se fossem ditas numa língua que não compreendo.

2006-05-01

1º de Maio dia do trabalhador

da Mensagem da CNBB (Conferência Bispos Brasil)
aos trabalhadores no dia 1º de maio de 2006


O trabalho valoriza a pessoa humana e constrói a sociedade; por isso precisa ser defendido contra aqueles que o utilizam para oprimir e explorar o próximo (cf. Deuteronômio 5, 12-15).
...No entanto, preocupa-nos o desemprego, que continua sendo a grande praga do mundo contemporâneo. São muitas as pessoas que procuram, sem êxito, um trabalho honesto. Por que não aumentam as oportunidades de trabalho, enquanto cresce a geração de riquezas? Preocupam-nos também a pouca valorização do trabalho da mulher, a falta de oportunidades de trabalho para os jovens, a discriminação racial nas relações de trabalho e o descaso com os aposentados, que contribuíram com seu suor para a construção do País.
A solução para esses problemas dificilmente acontecerá num modelo econômico que tende à concentração da renda e à exclusão cada vez maior dos trabalhadores, reais construtores da sociedade. O papa João Paulo II já advertia, após o Sínodo da América, em 1999: “Domina cada vez mais, em muitos países americanos, um sistema conhecido como “neoliberalismo”; sistema que, apoiado numa concepção economicista do homem, considera o lucro e as leis de mercado parâmetros absolutos em detrimento da dignidade e do respeito da pessoa e do povo. Por vezes, este sistema transformou-se numa justificação ideológica de atitudes e modos de agir no campo social e político, provocando a marginalização dos mais fracos” (Ecclesia in América, A Igreja na América, nº 56).
O mesmo Papa João Paulo II insistia sobre a centralidade do trabalho, como “chave da questão social” (Laborem Exercens, Sobre o trabalho humano, n° 3). No entanto, o que se vê com freqüência, é o econômico contraposto ao social, como se os dois aspectos da convivência humana não estivessem implicados um no outro. Como pode conviver o crescimento econômico com altos índices de desemprego, subemprego, exploração do trabalho infantil e até com a existência de trabalho escravo? Como falar em democracia num contexto de desrespeito às leis trabalhistas e da tentativa diuturna de flexibilização dos direitos sociais?
Os caminhos para a superação desta realidade encontram-se no âmbito da política, como “forma sublime do exercício da caridade”, respeitados os preceitos da democracia.

... Só existe verdadeira cidadania quando o direito ao trabalho está assegurado.
A melhor política pública é proporcionar oportunidades de trabalho, assegurar o justo salário, possibilitar a distribuição de renda, imprimir ao desenvolvimento uma dimensão humana e ecológica, promover a justiça e a paz. Assim realiza-se o sonho do profeta Isaías: “construirão casas e habitarão nelas, plantarão vinhas e comerão de seus frutos. Ninguém trabalhará inutilmente...” (Isaías 65, 17-25).
As experiências de economia solidária trazem grande esperança; elas alteram as relações da vil exploração do trabalho, abrindo espaço para a dimensão solidária e criativa do trabalho e para o atendimento às necessidades básicas da pessoa humana. Essas experiências lembram o trabalho de Deus, na criação do mundo (cf. Gênesis, 1,1-2, 4).


Neste Dia do Trabalhador rogamos a Deus que cessem todas as discriminações e injustiças ligadas ao mundo do trabalho.