2006-06-30

a vida e a morte...

Enquanto aguardo a minha vez para ir visitar a Maria e a mãe, uma mulher a meu lado, vai-me pondo a par dos dramas da sua vida - o marido internado em fase terminal, e um dos filhos zangado com a mãe, por questões menores. Escuto atenta, digo algumas palavras de circunstância que com facilidade fazem eco na sua dor. Noto que é uma dor assumida, tal como lhe adivinho, foi a vida dura. Fala-me de fé, de compromisso, de trabalho, de um coração que apesar da dor, se mostra disponível. Despedimo-nos com um sorriso, gratas por nos termos cruzado. Desejamo-nos mútuamente votos de felicidade e seguimos as duas para a vida. Isto tudo, passou-se em quinze minutos.

pontos nos is

Qualquer ideia, de que a fé é uma rede que nos apara nas quedas, é pura ficção!

porque sou cristã:

Porque olhando para mim e para o mundo à minha volta, continuo a ver muitas "lepras" para curar. Curamos uma e logo surgem outras. Não, não creio que é esse, o destino do Homem. O destino do Homem é ser salvo.
Ser cristã é, apesar de tudo, acreditar que há um Amor que nos salva. Nisto temos que gastar a nossa vida: receber e repartir o Amor.

"Jesus tocou-o e disse-lhe:Quero; sê purificado" Mt 8, 1-4

Antes de ter brilhado a luz divina,
eu não me conhecia a mim mesmo.
Vendo-me nas trevas e na prisão,
fechado no meio da lama,
coberto de imundície, ferido, com a carne inchada,
caí aos pés do que tinha iluminado.
E aquele que me tinha iluminado toca com suas mãos
minhas cadeias e minhas feridas;
onde a sua mão toca e o seu dedo aflora
logo caem as cadeias,
as chagas desaparecem, tal como toda a imundície.
A lepra da minha carne desaparece
de tal forma que se torna parecida com a sua mão divina.
Estranha maravilha: a minha carne, a minha alma e o meu corpo
participam na glória divina.
Logo que fui purificado e libertado das cadeias,
ei-lo que me estende uma mão divina,
me retira totalmente do lodo,
me abraça, se lança ao meu pescoço
e me cobre de beijos (Lc 15,20).
E eu, que estava totalmente esgotado
e tinha perdido as minhas forças,
sou posto sobre os seus ombros (Lc 15,5)
e levado para fora do meu inferno
É a luz que me transporta e me sustém
e me leva para uma luz ainda maior
Ele dá-me a contemplar por que estranha moldagem
me recriou (Gn 2,7) e me arrancou à corrupção.
Fez-me o dom de uma vida imortal,
revestiu-me de uma veste imaterial e luminosa
e deu-me umas sandálias, um anel e uma coroa
incorruptíveis e eternos (Lc 15,22).

S. Simeão - monge ortodoxo
Evangelho Quotidiano

2006-06-29

quem sabe, sabe...

Una mujer desnuda y en lo oscuro

Una mujer desnuda y en lo oscuro
tiene una claridad que nos alumbra
de modo que si ocurre un desconsuelo
un apagón o una noche sin luna
es conveniente y hasta imprescindible
tener a mano una mujer desnuda.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
genera un resplandor que da confianza
entonces dominguea el almanaque
vibram en su rincón las tolerañas
y los ojos felices y felinos
miran y de mirar nunca se cansam.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
es una vocación para las manos
para los labios es casi destino
y para el corazón un despilfarro
una mujer desnuda es un enigma
y siempre es una fiesta descifrarlo.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
genera una luz propia y nos enciende
el cielo raso se convierte en cielo
y es una gloria no ser inocente
una mujer querida o vislumbrada
desbarata por una vez la muerte.

Mario Benedetti

aqui vão pra já umas pérolas

E assim se vê que um grande santo, pode asneirar à força toda.

A mulher é a arma do diabo. Santo António

Sem a intervenção da mulher nunca o diabo levaria os homens de vencida. Santo António

A mulher é o isco venenoso de que se serve o diabo para se apoderar das nossas almas. S. Cipriano

De todas as bestas ferozes nenhuma é mais perigosa que a mulher. S. João Crisóstomo

É um problema saber se as mulheres ressuscitarão no seu sexo. Seria de recear que nos induzíssemos à tentação diante do próprio Deus. Santo Agostinho

Toda a mulher deveria sentir-se sufocada de vergonha só em pensar que é mulher. Clemente de Alexandria


a marcar o ponto...

Quando me passar a filha da **** da dor de cabeça com que acordei, faço um post sobre o papel da mulher na Igreja. Alguém me diz num e-mail que tenho uma maneira trágico-cómica de escrever. Se calhar é verdade. As razões são as da vida. Agora convencida, é que não sou nada. Fingidora muitas vezes é possível. E o resto fica para a próxima confissão.

2006-06-28

Declaro: cada vez sou mais tia!

Nasceu a Maria!

ainda a tempo de saltar a fogueira

Na tradição da Igreja Católica, a santidade foi ficando com a marca da perfeição. Mas, como diz o povo:" Perfeito só Deus". Logo, a santidade tem sido encarada pelo comum dos fiéis, como algo inatíngivel, ou só possível a alguns eleitos.
A vocação à santidade é a vocação comum dos fiéis. É o próprio Deus que nos faz o convite:"Sede santos porque Eu sou santo."(Lv 11,45).Ou dito de outro modo:"É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei". A santidade é amar sem limites, é a misericórdia, o perdão. Esta capacidade de amar só existe em Deus, mas é-nos dada como dom. Em Deus somos capazes, aqui e agora, e apesar dos nossos pecados e limitações, de amar, de servir, de fazer o bem. Sermos santos, implica recusarmo-nos a ficar fechados nos nossos limites, e abrirmo-nos em acolhimento amoroso, ao dom de Deus em nós.

Ao contrário da ideia de perfeição, que nos incita a uma atitude de subida íngreme, de esforço, de conquista, de méritos..., na santidade (a vida aberta ao dom de Deus) vamos reconhecendo que esse dom, não nos é dado como fruto do nosso esforço, mas de forma absolutamente gratuita. Ao reconhecermo-nos assim amados, não temos que fazer mais que orientar toda a nossa vida para ser dom e acolhimento. Se nos sabemos amados, somos então impelidos a amar. Amar a Deus que nos cria e nos salva, e amar a todos que, de diversos modos, fazemos nosso próximo.
Aprendemos de Deus a gratuidade, não amamos, então, quem nos ama, mas todos aqueles que fazemos objecto do nosso amor, sem lhes impormos condições.

A santidade alimentar-se-á sempre, da atitude humilde do "publicano da parábola":"Senhor, tem piedade de mim que sou pecador".

A perfeição alimenta-se do escrupoloso cumprimento da lei. A santidade aceita que a vida é um percurso díficil, muitas vezes marcado pelo pecado, mas não é a si que compete julgar. Aceita a misericórdia, e abre-se por sua vez, a amar sem esperar que os outros sejam dignos do seu amor, mas tão só e apenas, porque são pessoas a quem Deus ama.

O ser inscrito no cânone dos santos, não acrescenta nada à santidade de alguém. A Igreja Católica, ao reconhecer a alguém o título de venerável, beato ou santo, tem em vista uma função eclesial - propor essa pessoa como modelo de vida cristã.



Era importante haver uma purificação na Igreja Católica, sobre os motivos que a levam a destacar esta ou aquela pessoa, na vocação comum de todos os baptizados, à santidade. É necessário purificar todo o "folclore" de devoções, que giram à volta dos santos do cânone.

Desejar é já possuir, por isso, não vivemos nostálgicos ou desesperados pela santidade que experimentaremos um dia na Jerusalém Celeste, mas saboreamos já o gosto de Deus. O poeta Mário Quintana di-lo de uma forma radical.

Da Inquieta Esperança

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu...quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

Adenda:
Quando acabar de ler este texto, faça o favor de ir aqui apanhar as alcachofras. Apresse-se que o S. Pedro está mesmo aí.

2006-06-26

ainda a oração como expressão de fé

Fiz um post com uma citação de François Varillon, sobre a oração, que despertou os comentários do ON e do Alberto Albertto, incrédulos quanto à lógica da citação. Na minha missão de resgatar os ateus às garras da incredulidade, fui pressurosa tentar explicar, o que vive menos das explicações, do que da experimentação. Fiz a figura rídicula de alguém, que não percebendo nada de arte, se lança a explicar um Monet, um Degas, um Renoir. Ou num papel ainda mais tolo: num grupo de mulheres que nunca sentiram um orgasmo, fazê-las perceber, com a minha explicação, as virtuosidades do mesmo.
Por muito que se diga, que nos digam, sobre Deus, nunca passaremos à fé, se não se der um encontro pessoal e intransmíssivel com O mesmo. O passo decisivo da fé, será sempre o encontro pessoal com O Outro, a quem chamamos Deus. Como tantas vezes, e bem, se diz:"de Deus sabemos mais o que Ele não é do que o que é".

No entanto, alguma coisa já temos como património comum dos crentes, ou melhor, da humanidade, O Deus que nos é revelado por Jesus Cristo.
Apesar disso, muitas são as falsas imagens sobre Deus, que continuamente exprimimos e recebemos. Precisamos de purificar tudo o que em nós, nos dá a imagem de um Deus oposto à nossa felicidade, de um Deus que nunca quer o que nós temos como bem para a nossa vida, de um Deus distante e longe de nós. De um Deus que está à espera da nossa resposta, para nos amar e vir ao nosso encontro.

Não querendo abusar da sorte, tenho que dizer que se algo há a dizer sobre Deus, é que Ele é a expressão máxima da gratuidade. E isso, soa tão estranho aos nossos ouvidos, que a nossa resposta é quase sempre, a incredulidade.

"Não existe amor mudo"

Se vos amo, farvos-ei a confidência do meu ser profundo, mas não farei tal confidência sem amor, e, reciprocamente, não há amor sem confidência. No amor, a confidência torna-se cada vez mais profunda até à transparência.
À confidência de Deus, o homem responde confidenciando-Lhe o seu ser mais profundo: confidência por confidência. A oração não é só a recitação de fórmulas, mas antes coração-a-coração com Deus. Falamos-Lhe da nossa vida com os seus desejos, dificuldades, angústias, alegrias. A verdadeira atitude de um filho de Deus é uma atitude de confidência.
Não existe amor mudo. A oração é a expressão do amor.
Não há nada sem expressão: o que não se exprime degrada-se e acaba por não existir. A oração é a expressão da fé.

François Varillon

2006-06-24

e esta?

...Deus não é verdadeiramente Deus para nós senão quando O não sentimos. Porque todas as vezes que se sente a Deus, o que nós tomamos por Deus é um sentimento sobre Deus.

François Varillon

De facto, a fé, não pode estar prisioneira do nosso sentir. E a experiência mais forte e mais marcante do crente é o "deserto". Ao nosso grito responde o silêncio. E o único caminho para perceber isto é o do amor.

2006-06-23

Queja

Señor, mi queja es ésta,
Tú me comprenderás:
De amor me estoy muriendo,
Pero no puedo amar.

Persigo lo perfecto
En mí y en los demás,
Persigo lo perfecto
Para poder amar.

Me consumo em mi fuego,
!Señor, piedad, piedad!
De amor me estoy muriendo,
Pero no puedo amar!

Alfonsina Storni, Argentina

el mal inevitable

El mal no es algo que esté ahí porque Dios lo quiere, ni siquiera porque Dios lo permite (ya decía Kant que una "permisión" en un ser "que es causa total y única del mundo" equivale a un querer positivo; y el mismo derecho penal castiga no sólo al que causa directamente el mal, sino también al que, pudiendo, no lo evita). El mal está porque, siendo como es la realidad finita, no puede no estar; resulta de todo punto inevitable. Si somos pequeños, si el mundo es limitado (y no puede no serlo puesto que es finito), resulta absolutamente inevitable que aparezca el mal. El paraíso en la tierra enciende la imaginación y puede tener su función como mito; pero en lógica estricta es un absurdo, una verdadera "tonteria". O no hay mundo o, si lo hay, dado que no puede ser Dios, tiene que ser pequeño, limitado, con desajustes y conflictos, con insatisfacciones y sufrimientos...con mal.

Basta con pensarlo un poco para ver que, de existir el mundo, el mal resulta inevitable; o, dicho de un modo un poco pedante, es metafísicamente insuprimible. Dios, si podemos hablar así, tenía alternativa de crear el mundo o de no crearlo. De crearlo, tendría que ser un mundo real: un mundo en el que hay que nacer y crecer, en el que hay que morir; donde si estás en un sitio, no puedes estar en el otro; donde si eres hombre, no puedes ser mujer donde si atiendes a uno, no puedes atender a otro...Lo qual a nivel físico comporta incompatibilidades y posibles catástrofes; a nivel biológico, sufrimientos y enfermedades; a nivel moral, posibilidad de injusticia, egoísmo y opresión.
...Eliminar el mal del mundo supondría un continuo milagro, un continuo estado de excepción para sus leyes, robándole su seriedad y convirtiéndolo en un juguete, en una marioneta ridícula: equivaldria a eliminar el mundo. Dios es mucho más serio y respetuoso que todo eso: si crea un mundo , lo apoya con toda la fuerza de su amor, respetando sus leys físicas y dejando espacio a la liberdad humana.

Andrés Torres Queiruga

2006-06-22

quem sabe, sabe...

Chegou em off, mas depois das licenças todas tiradas, combinados os respectivos direitos de autor (isto ainda me vai ficar caro...vai, vai...) aqui fica, para usufruto dos leitores deste jardim (que também merecem uma atençãozinha de vez em quando), uma frase do tal desfazedor que está de parabéns.

...e desfazer um rebanho não é deixar de ter menos respeito ao pastor, é apenas andar a correr pelo pasto de uma maneira mais...gira!

e quem conseguir dizer melhor, pode experimentar na caixa de comentários. O prémio é a combinar.

uma celebração de vida blogosférica

Eu que ando por aqui há quase um ano; periclitante, tem-te Maria, não caias, saúdo com particular ênfase o terceiro aniversário do meu desfazedor preferido. Sim, porque desfazer rebanhos, e com arte, é mais difícil do que arrebanhá-los. Parabéns, António e restantes companhias.

Em que Deus cremos? Ou não...

A verdade, é que, quanto mais se pensa, melhor se compreende que, na realidade, não somos capazes de crer no amor de Deus: de esse Deus que é Pai/Mãe sem limite de egoísmo ou necessidade própria. Não somos capazes de crê-lo, porque a nossa experiência não nos oferece exemplos suficientes: o nosso inconsciente está demasiado carregado de culpabilidade, a nossa conduta demasiado agressiva e as nossas relações comportam demasiado egoísmo. De modo quase inevitável, transportamos isso para Deus. Não nos entra literalmente nem na cabeça nem no coração que o seu amor seja tão puro, tão inusitadamente generoso. E sem darmos conta, estamos a transformar Deus num amo exigente, em legislador, em juiz justiceiro: em tudo, menos no Pai/Mãe que nos ama com um amor sem preço nem condições.
Precisamos de muito tempo para ir alcançando um mínimo de convencimento de que, se Deus que é amor, isso quer dizer que todo o seu Ser consiste em amar-nos, que, por assim dizer, não sabe, não quer, não pode fazer outra coisa. Que se, por exemplo, Deus cria o mundo, tal criação não tem nem pode ter outra finalidade que a de por-se amorosamente ao nosso serviço, para dar-nos o ser e fazermos possível participar na sua felicidade. Repito: não fomos criados "para dar glória a Deus, mas sim nós é que somos a sua glória.

Andrés Torres Queiruga

2006-06-21

SI DIOS FUERA UNA MUJER

¿Y si Dios fuera una mujer?
Juan Gelman

¿y si dios fuera mujer?
pregunta juan sin inmutarse

vaya vaya si dios fuera mujer
es posible que agnósticos y ateos
no dijéramos no con la cabeza
y dijéramos sí con las entrañas

tal vez nos acercáramos a su divina
desnudez
para besar sus pies no de bronce
su pubis no de piedra
sus pechos no de mármol
sus labios no de yeso

si dios fuera mujer la abrazaríamos
para arrancarla de su lontananza
y no habría que jurar
hasta que la muerte nos separe
ya que sería inmortal por antonomasia
y en vez de transmitirnos sida o pánico
nos contagiaría su inmortalidad

si dios fuera mujer no se instalaría
lejana en el reino de los cielos
sino que nos aguardaría en el zaguán de
linfierno
con sus brazos no cerrados
su rosa no de plástico
y su amor no de ángeles

ay dios mío dios mío
si hasta siempre y desde siempre
fueras una mujer
qué lindo escándalo sería
qué venturosa espléndida imposible
prodigiosa blasfemia

Mario Benedetti

mais um proscrito pela Congregação da Doutrina da Fé

Con un gran número de seguidores tras sus conocimientos sobre mística de las religiones, el alemán Willigis Jäger habló ayer en el Ateneo Jovellanos de Gijón sobre «La irrupción a nuestro ser verdadero». Monje benedictino, maestro zen y maestro de contemplación.

-¿Qué significa experiencia transpersonal?

-Nuestra personalidad es un logro de la evolución, pero al mismo tiempo significa una limitación. Nuestra conciencia tiene que ampliarse. Nos hemos desarrollado desde una conciencia prehomínida y de allí evolucionamos hacia una conciencia mágica, luego mítica, luego mental racional, pero no podemos quedarnos ahí.

-¿Qué es ese ahí?

-Provenimos de un paraíso en el que alguna vez nos sentimos en una unidad simbiótica con la naturaleza, y lo que llamamos pecado original no es otra cosa que el haber desarrollado la conciencia individual fuera de esa simbiosis. Pero, apenas salimos de ella y pudimos decir tú y yo, empezó a matar Caín a Abel. Desde entonces nuestra especie no ha hecho otra cosa que matarse mutuamente y eso se ha agravado muchísimo. Hemos llegado a un punto donde no sabemos cómo va a seguir esto. En el siglo pasado se mataron mutuamente cien millones de personas y ninguna moral surtió efecto.

ler a totalidade da entrevista aqui

Ausencia de Dios

Digamos que te alejas definitivamente
hacia el pozo de olvido que prefieres,
pero la mejor parte de tu espacio,
en realidade la única e constante de tu espacio,
quedará para siempre em mí, doliente,
persuadida, frustrada, silenciosa,
quedará, em mí, tu corazón inerte y sustancial,
tu corazón de una promesa única
em mí que estoy enteramente solo sobreviviéndote.

Depues de ese dolor redondo y eficaz,
pacientemente agrio, de invencible ternura,
ya no importa que use tu insoportable ausencia
ni que me atreva a preguntar si cabes
como siempre en una palabra.

Lo cierto es que ahora ye no estás en mi noche
desgarradoramente idêntica a las otras
que repeti buscandóte, rodeándote.
Hay solamente un eco irremediable
de mi voz como niño, esa que no sabía.

Ahora qué miedo inútil, qué vergüenza
no tener oración para morder,
no tener fe para clavar uñas,
no tener nada más que la noche,
saber que Dios se muere, se resbala,
que Dios retrocede con las brazos cerrados,
con las labios cerrados, con la niebla,
como un campanario atrozmente en ruinas
que desandara siglos de ceniza

Es tarde. Sin embargo yo diría
todos los juramentos y las lluvias,
las paredes com insultos y mimos,
las ventanas de invierno, el mar a veces,
por no tener corazón em mí,
tu corazón inevitable y doloroso
em mí que estoy enteramente solo
sobreviviéndote

Mario Benedetti - Uruguai

2006-06-20

Livrai-nos, Senhor

O melhor não é o ideal. Onde aquilo que é teoricamente melhor é imposto a todos como norma, não há mais lugar nem mesmo para ser bom. O melhor, imposto como norma, torna-se mal.

Thomas Merton

É uma tentação das sociedades e dos grupos religiosos. O Homem é um ser frágil, continuamente exposto a todos os tipos de perigos. A tentação é sempre de se acolher à sombra de ideias, de ideologias que o protejam na sua solidão. E a esta fome, sempre encontra quem lhe dê de comer. Viver livre tem custos. É o medo de arriscar, de perder. De se perder.

O sentido que eu encontro para a minha vida, não poderei impô-lo a outros. A imposição assume muitos tons. Nem sempre a força física é o mais perigoso. Até porque essa é evidente. Há maneiras muito mais subtis. Isto vale para os grandes grupos e vale nas nossas relações interpessoais.

Sou religiosa e creio no Deus anunciado por Jesus Cristo, porque Ele me permite construir o meu próprio caminho. Já levo quarenta e sete anos disto e ainda não me foi apresentado nenhum ultimato:
- Ou me converto de vez, ou temos o "caldo entornado".

Sinto-me pressionada por muita coisa, por Deus, nunca.

Nossa Senhora das flores

Acostuma teus olhos ao negrume do pátio
e olha na direcção onde ao meio-dia
cintilava o jardim.
A rosa miúda em pencas
destila inquietações,
peleja por abortar teu passeio noturno.
Há mais que um cheiro de rosas,
o movimento das palmas não será o réptil?
Ó Mãe da Divina Graça,
vem com tua mão poderosa,
mata este medo pra mim.

Adélia Prado - Oráculos de Maio

2006-06-19

Katharine Jefferts Schori.

La Iglesia Episcopal designó hoy a la obispo de Nevada, Katharine Jefferts Schori, como nuevo líder de su confesión, lo que supone la primera vez que una mujer alcanza esta consideración dentro del mundo anglicano. El nombramiento de Schori al frente del grupo de obispos de la cúpula episcopal complica las difíciles relaciones entre los anglicanos estadounidenses, aglutinados en torno a la Iglesia Episcopal, y los del resto del mundo.
Sólo otras dos congregaciones, las de Nueva Zelanda y la de Canadá, cuentan con mujeres entre sus obispos, a pesar de que algunas otras permiten a las mujeres acceder al puesto. Aún existen muchos líderes anglicanos que defienden que las mujeres no puedan ser asignadas pastores.


Homem e mulher, Deus os criou iguais em dignidade. Mas parece que uns ainda são mais dignos do que outros.
Katharine foi eleita por 95 votos contra 93. Presumo que os eleitores seriam homens.
Na Igreja Católica esta discussão ainda é tabu. Até quando?
Em que ponto da Revelação, se apoia a Igreja Católica, para negar o acesso aos ministérios ordenados às mulheres? De que é que têm medo?

impressões...

Arte:
captar o momento
na passagem dos dias

2006-06-18

Porque sou cristão?

A grande diferença entre o crente e o não-crente é que o não crente obedece à sua consciência, e o crente, obedecendo à sua consciência, ama alguém. Porque sou cristão? Porque, obedecendo à minha consciência que me manda respeitar e promover os valores chamados Verdade, Beleza, Justiça e Liberdade, eu estou a amar Alguém que me ama.

Convém aqui sublinhar a impotância do tempo. Sem o tempo - o tempo de viver - a nossa bem-aventurança eterna não seria obra nossa. Se Deus não é senão Amor, não pode deixar de querer que toda a nossa bem-aventurança seja toda ela uma construção de nós mesmos por nós mesmos ao longo de todo um processo.

François Varillon in Alegria de crer e de viver

o sentido da vida...

O amor é o nosso verdadeiro destino. Não encontramos o sentido da vida sozinhos, e sim com outro. Não descobrimos o segredo de nossas vidas apenas por meio de estudo e de cálculo nas nossas meditações isoladas. O sentido da nossa vida é um segredo que nos tem de ser revelado no amor, por aquele que amamos. E, se esse amor for irreal, o segredo não será encontrado, o sentido jamais se revelará, a mensagem jamais será descodificada. No melhor dos casos, receberemos uma mensagem embaralhada e parcial, que nos enganará e confundirá. Só seremos plenamente reais quando nos permitir-nos amar — seja uma pessoa humana ou Deus.”

Love and Living, de Thomas Merton

2006-06-16

como a Adélia vê a santidade

Tinha muita vontade de poder achar ruim o meu nome. Queria um mais diferente, Suely, por exemplo, mas a tia Dalica ralhava, dando bons conselhos, passeando comigo mais meu irmão Tavinho, mostrando a natureza, os passarinhos, as flores da gabiroba:"Quem apanha flor ou gabiroba verde, quem mata passarinho desagrada Nosso Senhor que fez tudo para nosso bem..." A gente só cheirava as flores com a ponta do nariz e ficava bento de tanta boa acção e cheiro de céu, cheiro um pouco diferente que quando já era maiorzinha e passaram na cidade um filme que todo mundo foi ver, até minha mãe quase que foi, e se chamava O lírio do pântano e contava a vida de Santa Maria Goretti, filme que não esqueci nunca mais, pois me ensinou um modo de morrer muito mais interessante que o de Santa Teresinha. Imagina, santa e com tudo aquilo de sobra, um moço mais ajeitado falando coisas com a gente, apunhalando, os rostos muito perto, querendo coisas, eu trancando as pernas e clamando por Deus, ensanguentada e invencível. Fui atrás do frei Plácido, perturbada: ora, filhinha, Maria Goretti é anjinho, pior foi Santo Agostinho e Maria Madalena. Falou com o dedo amarelo de fumo espetado no meu nariz, eu sentindo a mesma perturbação que senti vendo o filme, tudo muito misturado, uma coisa boa demais junto com um zumbido de pecado no meu ouvido. Hoje faço coisas incríveis. Também já estou muito velha e aprendi a arriscar. Tenho alguma finalidade, já apanho flor no pé, sem remorso. Chego mesmo a armar arapuca pra pegar pardal, devido à nervosia que eles me dão fuxicando na horta.

Adélia Prado in solte os cachorros

2006-06-15

surpreendida numa pequena causa...

No domingo, disse-me: "Na quinta-feira é dia de Corpo de Deus...se me pudesse trazer Nosso Senhor...". Percebi a ansiedade na pergunta e no velado pedido, e disse que sim, que ia. À partida não ia sair, era só fazer o mesmo de todos os domingos.
Acordei com uma crise se sinusite, nada de novo, há três dias que é a mesma coisa, e com uma disposição nada apropriada para a tarefa a que me tinha proposto. Mas para a D. Eduarda, nos seus noventa e dois anos, era um desejo muito grande, comungar no dia de hoje. Depois da breve oração na igreja, fui pelo caminho a tentar criar ânimo para parecer o melhor possível. Mas lá ia pensando que hoje, tal tarefa, não me dava jeito nenhum. Ao mesmo tempo pensava que era tão pouco o que ia fazer...era até uma vergonha, a minha falta de disposição.
À entrada, fui logo surpreendida pela D. Hermínia que me foi adiantando que não tinha podido ir à missa, por estar com um problema no pé, e que também comungaria. Pensei que não havia problema, dividia a partícula que levava, tinha era que a animar, pelo facto de, logo no dia de hoje, não poder ir à missa. Para ela, era uma grande contrariedade. Creio que deve ter reclamado com Deus Nosso Senhor, por causa disso.
Fizemos o pequeno rito do costume, com umas breves orações e muito silêncio. No momento de darmos graças, a D. Hermínia foi dizendo:"São, muito obrigada, pelas suas palavras, já percebi que não devo ficar triste por ter de ficar em casa. Muito obrigada, pelo bem que nos fez. Agora, quero que a São, dê graças." Olhei para ela surpresa, por me estar a interpelar, assim, tão frontalmente. Já me tinham passado os incómodos todos, já tinha em silêncio, pedido perdão pela minha fraqueza, pelos meus desânimos, e agora, era incitada, a pôr isso ali, na "mesa". Foi o que fiz. Acabámos as três abraçadas e em lágrimas comovidas. O Pão tinha sido todo partilhado.

2006-06-14

Corpus Christi

Foi enquanto comiam, no primeiro dia da festa dos Ázimos, que Jesus lhes fez saber que aquele pão era o seu corpo. Para os mais de 100 milhões de pessoas que, nos países ricos, vivem abaixo do limiar de pobreza, para os 160 milhões de crianças subnutridas e para os 600 milhões de pessoas dos 48 países menos desenvolvidos a materialidade de Deus não é certamente muitas coisas e é pão antes do mais. Quando amanhã nos perguntarem que coisa estranha é essa do corpo de Deus, respondamos com os índices de mortalidade por desnutrição no mundo.

in Palombella Rossa


Asamblea Episcopal

Este lujo, Señor,
de pensar tu Evangelio,
cercados de jardines,
y hacer la Eucaristia,
hartas siempre las mesas,
y lanzar documentos,
sin lanzarnos nosotros,
mientras la muerte sigue...!

Voy a decir de Ti
mi última palabra.
(sempre penúltima
y mia siempre).

Espero que me digas
tu palabra
reproche,
Tu palabra
respuesta,
Tu palabra
convite.
Díteme tú, Palabra!

De Ti, sólo de Ti, siento sed y nostalgia.
Todas las aguas vivas
me hablam de Ti, oh Fuente.
Vivo para el retorno.
Busco, como um espejo
herido de penumbras,
la llama de Tu Rostro.

D. Pedro Casaldáliga

mais uma "grande" causa...

...espero que ninguém tenha reparado, na figura que fiz, a ziguezaguear pela rua, a evitar atropelar algum caracol.

"viver o Evangelho é escolher Cristo como educador da liberdade

Deste modo o Evangelho resulta normativo. É uma das palavras essenciais para comprendê-lo. Uma norma não é um ditame, isto é, uma regra rígida, uma ordem que entre no pormenor das coisas. A norma é criadora. O Evangelho não nos impede de ser criadores. Criadores da nossa vida sexual, da nossa vida sentimental, da nossa oração, da nossa vida económica, social e política. Deus não cria senão criaturas. O Evangelho é, portanto, uma luz necessária mas insuficiente para a nossa vida.

François Varillon

2006-06-13

Eugénio de Andrade - um ano depois

Litania

O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

O triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece:
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror;

são a grande razão, a única razão.

a vida é imperfeita, mesmo...

Hoje queria estar preocupada com os vários males que atingem a humanidade - fome, guerra, a pobreza, a massificação da cultura, doenças, injustiças, corrupção, o estado geral do planeta - ou ao menos, um deles.
Nada disso. Estou é chateadíssima, porque acordei com uma dor de cabeça. Quis vestir uma saia e depois de olhar duas vezes para as pernas, achei que não era boa ideia. A rotina das tarefas domésticas, lembrou-me vagamente, a palavra escravatura. Dos vários trabalhos iniciados, nenhum vai ter um conclusão monetareamente compensatória. Enfim, a continuar assim, jamais terei o meu retrato, pendurado na Praça de S. Pedro.

A vida é imperfeita

“ Não podemos deixar de errar o principal em quase tudo que fazemos. Que tem isso? A vida não é questão de tirar algo de cada coisa. A vida em si é imperfeita. Todas as coisas criadas principiam a morrer na mesma hora em que começam a viver, e ninguém espera de qualquer delas que chegue a uma absoluta perfeição e muito menos que nela se mantenha. Cada indivíduo é apenas um esboço da perfeição específica prevista para o seu género. Porque exigir mais do que isso?”

Thomas Merton in Homem algum é uma ilha

2006-06-12

religião/fé, dois ritmos que se complementam

Por vezes, o peso da religião, com os ritos, o Magistério, as normas e os dogmas e as diversas estruturas, opõem-se como barreira intransponível ao experienciar a fé. Noutras, canta-se em comunidade o refrão do Salmo:"Feliz o povo que o Senhor escolheu para Sua herança" e é como se o próprio Céu, se abrisse.

2006-06-11

e no entanto...

...se quero dizer Deus, direi - é um transbordar de ternura...

Pai, Filho, Espírito Santo?

...Tua claridade é minha escuridão. Nada conheço de Ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para Te conhecer. Se eu Te imaginar, estarei errado. Se Te compreender, estarei enganado. Se estiver consciente e certo que Te conheço, serei louco. A escuridão me basta.

Thomas Merton

2006-06-10

e como não há duas sem três...

Refresquem-se e bom fim-de-semana!

recordação do 10 de Junho:

O Primeiro Ministro, José Sócrates, continua a chamar-nos a atenção para as suas gravatas. O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, continua a ter um sorriso de meter medo ao susto. (Ainda bem que não tenho criancinhas para dar a papa...era só dizer que ia chamar o sr Presidente)

As figuras que uma pessoa faz...

Tinha dito para mim própria, que nunca faria este papel - encerrar um blogue, e nem deixar o "corpo" arrefecer e abrir de novo a pedra do sepulcro - (não é que fazer, ou não, este papel, tenha alguma importância). Mas com a choradeira, ameaças de "greve de fome", apelos à consciência que vai ali na caixa de comentários, não dá para resistir muito mais. Não sou nenhuma megera cruel e desnaturada. Tenho coração, acho eu, agora já penso é que tenho no peito, uma barra de manteiga "Mimosa" sem sal.
Como continuo preguiçosa, não ponho links para os blogues dos manifestantes. Mas é só ir à caixa de comentários do post anterior, e ver que a menina Xana, o menino Vítor e um dos meus ateus de estimação, ON, não desarmam, nem arredam pé. Para não falar dos outros, que não quero ser injusta com ninguém. Mas se houve alguns muito respeitadores da minha liberdade, os que assinalo, usaram os mais terríveis meios de coacção.

Ah, querem posts? Depois não se venham queixar...

Como continuo a ser uma mulher de fé (mais pequenininha que o tal "grão de mostarda"), peço a Deus que me ilumine em toda a minha vida e também nas coisas que aqui vou escrevendo. É que uma coisa é escrever uns papéis e enfiar para o fundo da gaveta, outra bem pior, é escrever umas parvoíces, e levarem a gente a sério.

Fazendo minhas, as palavras de D. Helder da Câmara, continuo, até onde, não sei!

Até o Fim

Não; não pares.
É graça divina começar bem.
Graça maior persistir na caminhada certa.
Manter o ritmo...
Mas a graça das graças é não desistir,
podendo ou não podendo chegar até ao fim...