2006-06-28

ainda a tempo de saltar a fogueira

Na tradição da Igreja Católica, a santidade foi ficando com a marca da perfeição. Mas, como diz o povo:" Perfeito só Deus". Logo, a santidade tem sido encarada pelo comum dos fiéis, como algo inatíngivel, ou só possível a alguns eleitos.
A vocação à santidade é a vocação comum dos fiéis. É o próprio Deus que nos faz o convite:"Sede santos porque Eu sou santo."(Lv 11,45).Ou dito de outro modo:"É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei". A santidade é amar sem limites, é a misericórdia, o perdão. Esta capacidade de amar só existe em Deus, mas é-nos dada como dom. Em Deus somos capazes, aqui e agora, e apesar dos nossos pecados e limitações, de amar, de servir, de fazer o bem. Sermos santos, implica recusarmo-nos a ficar fechados nos nossos limites, e abrirmo-nos em acolhimento amoroso, ao dom de Deus em nós.

Ao contrário da ideia de perfeição, que nos incita a uma atitude de subida íngreme, de esforço, de conquista, de méritos..., na santidade (a vida aberta ao dom de Deus) vamos reconhecendo que esse dom, não nos é dado como fruto do nosso esforço, mas de forma absolutamente gratuita. Ao reconhecermo-nos assim amados, não temos que fazer mais que orientar toda a nossa vida para ser dom e acolhimento. Se nos sabemos amados, somos então impelidos a amar. Amar a Deus que nos cria e nos salva, e amar a todos que, de diversos modos, fazemos nosso próximo.
Aprendemos de Deus a gratuidade, não amamos, então, quem nos ama, mas todos aqueles que fazemos objecto do nosso amor, sem lhes impormos condições.

A santidade alimentar-se-á sempre, da atitude humilde do "publicano da parábola":"Senhor, tem piedade de mim que sou pecador".

A perfeição alimenta-se do escrupoloso cumprimento da lei. A santidade aceita que a vida é um percurso díficil, muitas vezes marcado pelo pecado, mas não é a si que compete julgar. Aceita a misericórdia, e abre-se por sua vez, a amar sem esperar que os outros sejam dignos do seu amor, mas tão só e apenas, porque são pessoas a quem Deus ama.

O ser inscrito no cânone dos santos, não acrescenta nada à santidade de alguém. A Igreja Católica, ao reconhecer a alguém o título de venerável, beato ou santo, tem em vista uma função eclesial - propor essa pessoa como modelo de vida cristã.



Era importante haver uma purificação na Igreja Católica, sobre os motivos que a levam a destacar esta ou aquela pessoa, na vocação comum de todos os baptizados, à santidade. É necessário purificar todo o "folclore" de devoções, que giram à volta dos santos do cânone.

Desejar é já possuir, por isso, não vivemos nostálgicos ou desesperados pela santidade que experimentaremos um dia na Jerusalém Celeste, mas saboreamos já o gosto de Deus. O poeta Mário Quintana di-lo de uma forma radical.

Da Inquieta Esperança

Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu...quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.

Adenda:
Quando acabar de ler este texto, faça o favor de ir aqui apanhar as alcachofras. Apresse-se que o S. Pedro está mesmo aí.

6 comentários:

  1. Olá, doentinha! :)

    Talvez o culto dos santos seja também o traduzir das mil e uma maneiras de se amar Deus; ou das mil e uma maneiras de se relacionar com Deus; ou das mil e uma imagens que se pode ter de Deus...
    Talvez nos faça falta olhar com um pouco mais de respeito para o politeísmo; até porque talvez tenhamos mais laços com ele do que pensamos...
    Quanto à purificação, temos um bom passo no facto de Bento XVI ter reduzido o espectáculo em torno das cerimónias de beatificação/canonização. Mas também temos o sinal negativo da última reforma do calendário litúrgico, que veio introduzir e reintruduzir mais alguns devocionalismos...
    JS

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  2. Já agora...
    "Como se faz um santo", no Desfazedor de Rebanhos. :)
    JS

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  3. JS,

    doentinha e de que maneira. Não sou só eu, é a família toda, os de perto os de mais longe. Isto só pode ser praga! :)

    Olha, nem imaginas como usei o lápis azul no texto acima. Digamos que lhe tirei a ramagem toda :) ficou só o esqueleto. É que em tempo de fogueiras...

    Mas a questão do politeísmo é bem interessante. Temos de falar mais nisso.
    Para quando o teu blog?

    Nisto da feitura dos santos há muito a dizer.
    Por exemplo, cada congregação ter o seu fundador inscrito no cânone.
    Alguns gostariam, mas não têm dinheiro. É que fazer um santo custa uns cobres.

    A questão dos milagres. Que é uma questão que merece uma reflexão teológica séria.

    E a pressa do processo de João Paulo II. Oscar Romero, já não beneficiou dessa pressa.
    Questões políticas, não?

    E o ênfase que se dão às virtudes da castidade, pureza, etc. Em detrimento da verdade, justiça, humildade.

    Não há nenhuma santinha varredora de Igreja, porquê?

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  4. Doentinha? Então, que se passa? As melhoras! :)

    (JS, obrigado pela explicação do Sartre!)

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  5. /me

    isto é só uma gripe à toa. Mas que está a ser chata, está :)

    obrigada pelas melhoras :)

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