2006-06-16

como a Adélia vê a santidade

Tinha muita vontade de poder achar ruim o meu nome. Queria um mais diferente, Suely, por exemplo, mas a tia Dalica ralhava, dando bons conselhos, passeando comigo mais meu irmão Tavinho, mostrando a natureza, os passarinhos, as flores da gabiroba:"Quem apanha flor ou gabiroba verde, quem mata passarinho desagrada Nosso Senhor que fez tudo para nosso bem..." A gente só cheirava as flores com a ponta do nariz e ficava bento de tanta boa acção e cheiro de céu, cheiro um pouco diferente que quando já era maiorzinha e passaram na cidade um filme que todo mundo foi ver, até minha mãe quase que foi, e se chamava O lírio do pântano e contava a vida de Santa Maria Goretti, filme que não esqueci nunca mais, pois me ensinou um modo de morrer muito mais interessante que o de Santa Teresinha. Imagina, santa e com tudo aquilo de sobra, um moço mais ajeitado falando coisas com a gente, apunhalando, os rostos muito perto, querendo coisas, eu trancando as pernas e clamando por Deus, ensanguentada e invencível. Fui atrás do frei Plácido, perturbada: ora, filhinha, Maria Goretti é anjinho, pior foi Santo Agostinho e Maria Madalena. Falou com o dedo amarelo de fumo espetado no meu nariz, eu sentindo a mesma perturbação que senti vendo o filme, tudo muito misturado, uma coisa boa demais junto com um zumbido de pecado no meu ouvido. Hoje faço coisas incríveis. Também já estou muito velha e aprendi a arriscar. Tenho alguma finalidade, já apanho flor no pé, sem remorso. Chego mesmo a armar arapuca pra pegar pardal, devido à nervosia que eles me dão fuxicando na horta.

Adélia Prado in solte os cachorros

3 comentários:

  1. A Adélia é fantástica! Gostei muito!

    Bom fim de semana, MC!

    Beijinhosssssss

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  2. luzinha,

    como gosto de te ver por cá. Estás bem?

    beijos muitos, para ti.

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