2006-06-22

Em que Deus cremos? Ou não...

A verdade, é que, quanto mais se pensa, melhor se compreende que, na realidade, não somos capazes de crer no amor de Deus: de esse Deus que é Pai/Mãe sem limite de egoísmo ou necessidade própria. Não somos capazes de crê-lo, porque a nossa experiência não nos oferece exemplos suficientes: o nosso inconsciente está demasiado carregado de culpabilidade, a nossa conduta demasiado agressiva e as nossas relações comportam demasiado egoísmo. De modo quase inevitável, transportamos isso para Deus. Não nos entra literalmente nem na cabeça nem no coração que o seu amor seja tão puro, tão inusitadamente generoso. E sem darmos conta, estamos a transformar Deus num amo exigente, em legislador, em juiz justiceiro: em tudo, menos no Pai/Mãe que nos ama com um amor sem preço nem condições.
Precisamos de muito tempo para ir alcançando um mínimo de convencimento de que, se Deus que é amor, isso quer dizer que todo o seu Ser consiste em amar-nos, que, por assim dizer, não sabe, não quer, não pode fazer outra coisa. Que se, por exemplo, Deus cria o mundo, tal criação não tem nem pode ter outra finalidade que a de por-se amorosamente ao nosso serviço, para dar-nos o ser e fazermos possível participar na sua felicidade. Repito: não fomos criados "para dar glória a Deus, mas sim nós é que somos a sua glória.

Andrés Torres Queiruga

46 comentários:

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  2. Pois... as crianças... aquelas que morrem com leucemia aos 3 anos de idade e por aí fora... Aqui o nó que bloqueia ou a partir do qual se salta para a fé - que não se trata do sonho imediato do mundo e da vida serem maravilhosos e justos, ou sequer poderem sê-lo.

    Seja como fôr, abraço e beijos :)

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  3. O Queiruga não foge à questão do mal; pelo contrário, confronta-a com as diversas imagens que possuímos de Deus e mostra como a nossa pouca fé no amor divino nos impede de ver como Deus sofre com o nosso mal e como Ele luta desde o mais profundo de nós mesmos e antes até de nós mesmos para o vencer...
    JS

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  4. Calma, JS... :P Pelo menos eu, não quis dizer que o Queiruga (que nunca li, chiça, mais um, é?... ;) fugia à questão do mal... Mas dito o que disse em excerto postado, é de on a pergunta do On...

    on: do grego, "o que há aí", "o que é".

    on: do inglês "come on", ver David Bowie, "The rise and fall of Ziggy Stardust and the spiders from Mars".

    We realy got something going... :P

    Abraçon!

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  5. Pois não, JS.

    É um dos autores que trata e enfrenta muito bem essa questão. Embora, na minha opinião, ponho isso na ordem do mistério. Nas respostas que encontro surgem-me logo outras perguntas. Mas sei viver com isso. Tenho sabido...
    Um dos nossos problemas na forma como "vemos" Deus, é colocá-lo sempre fora, distante de nós. Se aprendermos a colocá-lo como Alguém interior a nós mesmos, a nossa relação passa a ser diferente e supostamente o nosso agir também.

    Para mim, um autor de referência continua a ser o François Varillon, sobretudo, no livro "O sofrimento de Deus".
    Depois, é interiorizar isso que vamos aprendendo e tornar a nossa relação viva. Aí a porca torce muito o rabo, fazer as ideias descer da cabeça ao coração...

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  6. Ó MC, quando começares a postar o que o Queiruga diz sobre a oração de petição, aí é que o rabo há-de torcer a porca... :)
    JS

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  7. tu queres mesmo por-me no index ou quê?

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  8. Olha, fazes como o Jäger: escreves uma cartinha ao chefinho, dizendo que não lhe farás caso, por motivo de consciência e por motivos pastorais... :)
    JS

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  9. por vezes ponho as minhas velhotas a abrirem muito os olhos, mas já não sou capaz de lhes abalar as convicções...

    e quando elas me inquirem directamente, sim, que a D. Eduarda não lhe faço o ninho atrás da orelha, se acompanhei isto ou aquilo, e o meu silêncio começa a crescer e ela a perguntar-me se aquilo não me interessa...e eu não posso dizer que nem ao menino jesus...

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  10. Bolas, que isto neste botequim está animado! :)

    Quem é esse Jager?

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  11. Ó mana, porque é que não podes dizer às velhotas (não há velhotes?) não sei o quê de verdade de ti?...

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  12. Existe, em alguns seres humanos, uma fé plena, uma fé inquebrantável.Uma fé que na adversidade, (e leia-se - sobretudo na adversidade),essa fé não só se reforça em Deus, como também a Ele tudo agradece, compreende e entrega. Um dos grandes mistérios é como se constrói uma tal fé assim? Não é uma fé que se diz, é uma fé que se vive. Se demonstra.
    Talvez, creio eu, esses seres humanos tão especiais compreendam de uma maneira sublime o verdadeiro papel de Deus.Compreendam, como diz Varillon(penso), que Deus não é Todo-Poderoso. Deus é Amor. E o Amor de Deus é que é Todo - Poderoso!"

    Olá MC.
    Bom dia a todos.

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  13. Sobre as tuas velhinhas, deves colocar-te a pergunta: porque é que aquilo e aqueloutro lhes interessa (e a ti não)? Enquanto não perceberes o mundo em que elas vivem, dificilmente as compreenderás ou poderás chegar aos seus corações...

    Quanto ao abalar das convicções, não te iludas: a questão mesmo é se as velhinhas te abalam... Mas, deixa-as estar. Se elas são felizes assim... Talvez tenhas que olhar para outros lados: para aqueles que descobrem a insuficiência das convicções que lhes tinham sido transmitidas, para aqueles que não sabem o que pensar, para aqueles que buscam um rosto mais verdadeiro de Deus.
    A nossa normal asneira é querer (quantas vezes à força) dar de comer a quem está saciado; e ignorar os que realmente andam com fome...
    JS

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  14. Mano,

    os velhotes já se foram. Os homens são assim; sempre a escapar-se...

    pois como é que lhes digo que não, a mil e um santinhos de devoção, mais tercinhos de oração, etc, e o que disse o sr bispo, e, e, e,...por vezes tenho que deixar falar o silêncio.
    não lhe posso ir falar do Queiruga, etc, etc. mas olha que apesar de tudo, eu sou uma sortuda. São pessoas com o espírito muito aberto, davam lições a muita gente que por aí anda.

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  15. Venho-te pedir que vás aqui:

    http://relapsias.blogspot.com/2006/06/religio.html

    Tive coragem para escrever algo que gostava que comentasses. :)

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  16. JS

    tens toda a razão, quem se pode abalar sou eu. Bebo da sua fé. Não tenhas dúvidas, não tenhas dúvidas. Lidar com pessoas nessa fase da vida é de um enrequecimento enorme. Ainda por cima, jé é enorme o afecto que nos liga. Já são relações familiares. tenho muita sorte, muita.

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  17. Bem, no meio desta conversa toda, consegui vender qualquer coisita mais atender uns telefonemas, não está a correr mal... :)

    espero não ter vendido nenhum Queiruga a ninguém...;)

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  18. Mas digo eu:

    O Queiruga foge á questão do mal!

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  19. JE

    Falas a partir do post ou a partir dos seus livros (o "Recuperar a Criação" e o "Recuperar a Salvação")?...
    JS

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  20. Do post, meu caro. As afirmações do posts são taxativa e permitem deduções obvias. Será dificil explcar o mal sem cairem contradições.
    Claro está que isso das contradições são meros detalhes...

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  21. Sim,

    falar de Deus, como o faz o Queiruga, é passível de se cair em contradição. Estamos a falar de Deus, O Indízivel. O que fazemos são meros exercícios de aproximação. Apalpamos. Mas entre um Deus contraditório, e um Deus feito à minha imagem e semelhança e dentro dos meus esquemas, prefiro o primeiro.

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  22. Pois, mas se lho disseres como verdade de ti, como expressão do teu caminhar e tropeçar... Penso que um dos problemas é o de pensarmos sempre que os outros devem ter a mesma caminhada que nós... Não são elas que têm problemas com os santos de devoção, com o bispo ou com o terço ou whathever... Terão até outros que se calhar tu nem sabes... Os católicos somos tão coíbidos... :P

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  23. Cara MC,
    Um Deus que só nos ama e nos deixa fazer tudo. Um Deus que até existe.
    Só indo ao alfaiate...
    Acho que é mesmo feito à nossa medida:)

    Parece que não sou bem vindo por aqui.
    Peço desculpa pela minha intromissão.

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  24. Ó je

    mas que raio! Ainda agora chegou e já se vai embora?

    Mas ainda não discutimos nada. Mas de onde é que tirou a ideia de que não era bem vindo?

    Sente-se aí e descanse.

    Se está à espera que eu lhe prove que Deus existe...espere sentado. Se quer discutir, discutimos, caraças.

    Enquanto está aí sentado, é capaz de me dizer que imagem tem de Deus? Pode dar para um começo de conversa.

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  25. Ó Mano,

    as minhas velhinhas são o meu oásis. Deus lhes dê saúde e anos de vida (cá estamos nas caricaturas...) e a mim vontade para continuar a conviver com elas, que delas só recebo mimos. Mas se elas lessem o que escrevo por aqui, não sei, não...:)

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  26. Ó je,

    o que vale é que estou sentada. Livra! Ninguém se tinha lembrado antes de mim?
    Vou já registar a patente! É a fama, é a fortuna...iupiiii!!!!

    Agora a sério! Explique-me isso melhor. Se me disser:"também é uma das pobres almas que andam enganadas, Deus existe lá..." já está mais correcto. Mas porque é que afirma que Deus não existe?

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  27. Porra... Quem é o Jager?... Isto está mesmo mal... Ainda por cima diz o dito na entrevista (estou agora a lê-la)... É o que dá esta animação, tudo a falar ao mesmo tempo, e um gajo à segunda imperial já nem sabe a quantas anda... :)

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  28. ó Mano,

    mas não é aquele que canta? que tem a boca maior o túnel da mancha?

    Mas acho que o JS, está a referir-se ao frade beneditino que se chegou muito para Oriente e levou nas orelhas. Caladinho e vá orientalar para outro lado. E ele foi. Eu também não o conhecia, mas gostei de ler a entrevista para a qual pus o link.

    O JS deve saber mais, vamos ver se ele nos dá umas luzes...

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  29. Isto está animado.
    Entretanto, vou-vos lendo que é a única coisa de que sou capaz.

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  30. Eh pá mana, esse dos lábios grandes é o do "Sympathy for the devil"... Isso é que é index garantido :P E o Ziggy Stardust também, penso eu (o Bowie na altura andava com a panca da bissexualidade...)

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  31. Ó migalhas,

    isto está é uma grande rebaldaria. O Vítor bebeu duas cervejitas, eu água do fastio, :)

    mas o que é isso de não dizeres nada? Lê lá o Queiruga e opina, faz favor. Como é que encaixas o problema do mal, na imagem que o Queiruga dá de Deus?

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  33. Só para chatear (daqui a bocado, peço uma terceira imperial ;) faço aqui um copy paste dum comentário meu num blogue duma grande e jovem senhora, e que não sabendo se ela quer ou não esta divulgação, calo o nome e a net-morada:

    “Toda a minha vida, fui assim abalroado pelos dois extremos do universo vivo, que são o mistério insondável da beleza e o fenómeno do mal. Não se pode combater o mal sem segurar estas duas pontas, sem procurar a verdadeira beleza e exaltar a sua profundidade, a sua delicadeza. É porque ela existe que o homem se agarra tanto a esta terra e recusa morrer. A nossa consciência é a beleza, que justifica o universo e até a nossa existência, e faz com que cada instante possa ser uma manhã do mundo.” É dum tipo que não conheço, François Cheng, um chino-francês (nasceu na China e foi para Paris estudar aos vinte anos, onde ficou até hoje em que está com setenta anos…) e que tratarei evidentemente a partir de agora conhecer…

    Tentar pensar directamente o mal dói muito.

    Reconciliar-se com uma vida terrível dói muito. Uma vida onde crianças de três anos morrem com leucemia, onde se perpetuam genocídios… O sentido da vida é de certo modo impossível (é o que permite um filme como o dos Monty Pithon acerca do assunto…) e só é pensável como gratuito, no sentido radical, como incompreensível justificação.

    Não estou evidentemente a dizer que a beleza justifica o mal… Passa-se que ambos nos são dados na sua inconciliabilidade. Não são só pores do sol, também a justiça e a verdade fulguram aqui.

    Por isso a beleza também é melancólica, tal como os finais de festa e das revoluções… E por isso faz sentido lutar e afirmar a justiça, não dependendo das probabilidades de tornar o mundo e o humano, na sua generalidade, justos (é melhor não irmos por aí… ;)

    Neste mundo as crianças sorriem, e não deviam sorrir, precisamente, é milagre (duplicação). E agora eu é que já não sei muito bem o que estou para aqui a dizer… ;) Talvez que o sentido do sagrado não é deste mundo, não o compreendemos, e no entanto acomete-nos, arrebata-nos.

    Como é possível conciliar a beleza e o mal? E no entanto pois, repita-se, na vida é o que acontece, estamos imersos em ambos, por vezes deslumbrados. E não compreendemos muito bem, não nos compreendemos.”

    E pronto. Ei, garçon!...

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  34. depois disto, pede uma também para mim :(

    vou esticar-me a ver se apanho alguma coisa.

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  35. Pois é...
    Neste pouco espaço de tempo que ainda vivi, tenho sido confrontado com situações de "bem" e situações de "mal"; alegrias (muitas) e sofrimento (muito).
    Devo ter alguma tara psíquica, porque no fundo no fundo, nunca fui capaz de dizer que o "bem" foi totalmente "bem" e que o "mal" foi totalmente "mal".
    Todo o "bem" teve algo de menos bom e todo o "mal" teve algo de bom.
    Perante um e outro, só me resta "maravilhar-me".
    Chamem-me o que quiserem, mas é isto.
    Agora levem-me ao psiquiatra.
    Mas não me perguntem como é que eu consigo "ver" Deus em tudo isso. É duma maneira muito minha que não dá para explicar.
    Levem-me mesmo ao psiquiatra.

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  36. Ao psi, não. Mas um pouco de tortura arranja-se. Ai vês Deus? tens que te explicar melhor. Agora estou do lado dos incréus :))))

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  37. eheheheheh
    Tem calma, MC
    Não quero contribuir para a tua incredulidade. Antes pelo contrário.
    Deus está para além duma situação de bem ou de mal. O bem que tenho ou mal que tenho não são situações absolutas.
    Mas Deus pode "encontrar-Se lá" como força para "mais bem", para me levar a caminhar para o Absoluto.

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  38. até que enfim, que alguém diz alguma coisa de jeito. Perdoem-me os outros comentadores, mas o Migalhas apontou para mais longe. É o que faz estar de férias...Cabeça fresca :)

    beijos para ti

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  39. Esta conversa está mesmo a interessar-me. Mas tenho de sair. Logo á noite virei cá (não sei a que horas ou desoras) para ver o que é que voc~es vão dizendo.
    (Não te admires das desoras... como estou de férias... tudo me é permitido!)

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  40. ON,

    estás feito um grande chato. Só perguntas. Ainda por cima parece que tens o disco riscado. O que é que queres saber das crianças? O que é que as crianças têm de diferente do resto?
    A doença nunca vem como "castigo" senão andávamos todos coxinhos, leprosos, ceguinhos, etc, etc.
    No tempo de Jesus é que se achava que a doença era um castigo dos pecados. Jesus mostrou bem que não. Libertou.

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