2006-07-27

PAUSE

Isso mesmo...

...Sobre o alicerce das nossas valentias e dos nossos desenganos, do muito que temos errado e do muito que temos acertado, da metade que temos feito por nós e da metade que Nosso Senhor tem feito apesar de nós.

Agostinho da Silva - Herta Teresinha Joan

2006-07-26

e no entanto os dias são de chumbo

hoje à noite
até as estrelas
cheiram a flor de laranjeira

Paulo Leminski

Cristo Vivo

Todo e qualquer rosto humano é presença do Cristo Vivo. A presença de Cristo não se deixa encerrar em qualquer espécie de fronteiras. Ninguém o pode monopolizar. Nem a Igreja. E muito menos restringir a sua acção. A acção de Deus não conhece fronteiras de espécie alguma. Está do lado dos que achamos justos, mas também não abandona, em tempo algum, os pecadores.
A fidelidade a Deus exige atenção a todos os homens. Em qualquer altura, num espaço qualquer, em todas as situações de vida a Palavra de Deus pode interpelar e ir ao encontro dos desejos mais profundos do homem, a salvação.
Deus respeita profundamente a liberdade de cada ser humano, por isso nunca se impõe. Nem impõe metas, nem prazos. Terá de ser assim o actuar de todos os chamados crentes.

2006-07-25

o meu post sobre a guerra...ou é sobre religião?

ou é sobre o meu quotidiano? Ou é sobre padres "agentes funerários"?

Domingo, numa missa. Em determinado momento o padre fala da guerra e refere-se a ela, como acontecendo nos lugares em que Jesus historicamente andou. ...dasssss. Andou ou anda? Valem mais as pedras, ou as pessoas que nelas caminham? É de fazer chorar as pedras da calçada -padres que pregam um Cristo morto.

E é por causa das pedras que se disparam canhões?

é a fé...pois.

A fé é tantas vezes apresentada de forma tão clarinha, tão organizada. Documentada com provas, evidências, clarividências, aparições, santos fora de série, que qualquer pessoa menos dada a arroubos místicos e um bocadinho mais pragmática, como eu sou, sente-se desamparada, abandonada por esse Deus, em quem quer crer. Sim, porque a fé, não sendo só, é também um acto de vontade.

Resta-me dizer com a Adélia Prado:"Eu só tenho o quotidiano e o meu sentimento dele"

as minhas devoções

2006-07-24

Somos livres

A pessoa livre é aquela cujas escolhas deram-lhe o poder de andar com os próprios pés e determinar a própria vida de acordo com a luz e o espírito mais elevados que tem em si. O escravo, na ordem espiritual, é a pessoa cujas escolhas destruíram toda sua espontaneidade e a entregaram, de pés e mãos amarradas, às suas próprias compulsões, idiossincrasias e ilusões, de forma que nunca faz o que realmente quer fazer, mas apenas o que tem de fazer.

Thomas Merton in The New Man

2006-07-23

compaixão

34Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas. (MC 6,34)

Alguém inventou uma máxima que diz:"Ninguém é tão rico que não precise de receber algo e ninguém é tão pobre que não possa dar nada." Não é preciso fazermos grande esforço, para descobrirmos ao nosso lado, quem precisa de compaixão.

Na nossa sociedade, frequentemente, arranjamos desculpas para não fazermos o que nos compete. Apelamos à responsabilidade dos governantes, dos patrões, dos superiores hierárquicos, para resolverem o que compete a todos.

Ser cristão é aceitar o desafio, de viver numa atitude de entrega amorosa. Não importa tanto o que se dá, mas como se dá e como se acolhe.

2006-07-21

Bom fim-de-semana


Ninguém se pode aproximar de Ti, que ficas infinitamente longe. Por isso ninguém Te alcança, a não ser que Tu próprio te ofereças. Mas como hás-de oferecer-te a mim, se não me ofereces primeiro a pessoa que sou?
No silêncio da comtemplação respondes-me, Senhor, no fundo do meu coração.
E dizes:Sê tu mesmo, e Eu serei teu!
Ó Senhor, fonte de felicidade em todo o deleite, tu concedeste para minha liberdade que eu me possa pertencer, se assim o quiser. Se eu não pertencer a mim mesmo, também tu não serás meu.

Nicolau de Cusa
A NOITE É UMA MULHER DESCONHECIDA

Indaga uma moça
ao homem que passa
e ouve seu falar
lento e surpreso:
- Porque não entras?
Em minha casa.
A porta está aberta e tem o fogo aceso.
Desdenhando a oferta,
responde o peregrino,
em tom de pejo:
- Sou poeta!
E conhecer a noite
é só o meu desejo.
Ela, com cinzas apaga o fogo.
E franzindo a fronte,
Aproxima na sombra
seu corpo todo,
dizendo ao forasteiro:
- Toca-me! Conhecerás a noite!

Pablo António Cuadra - Nicarágua

2006-07-20

as minhas devoções

humildade e mansidão

«Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. 29*Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. 30Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

Como encontrar sentido para estas palavras, hoje? Quando o poder das armas ou económico é mais forte e destruidor do que qualquer sentido de justiça.
Quando a humildade é confundida com submissão, com falta de sentido crítico, com contentar-se com a mediocridade, para não ter que mudar esquemas de vida, esquemas religiosos.

Como reconhecer este Deus de coração manso e humilde, quando queremos dele uma atitude paternalista, que nos resolva o que não somos capazes de resolver? Quando, continuamente, O procuramos fora de nós, distante a observar-nos, a julgar-nos. Quando aceitaremos Deus presente em toda a nossa vida, nos momentos altos e nos momentos de fraqueza, de dúvida, de pecado?

2006-07-19

cada um tem o que merece

O Abrupto, qual pai Abraão da blogolândia, anda aflito com um problema de pirataria. Isto só acontece aos bons, direi mais: aos melhores. Eu, pobre de mim coitada, o melhor que consigo são uns comentários anónimos com mimos destes:feminista, prepotente. Que não olha a meios para destronar outros das suas funções. É uma pessoa inconsequente e incoerente. O seu mundo restrito é a paróquia.

Este post é só uma brincadeira. Efeitos do calor. Aproveito também, para dizer ao anónimo que, não me chateou nada, não me revejo minimamente na caracterização que faz de mim. Mas algum comentário que eu ache especialmente ofensivo, apago sem explicações. Já fiz isso duas vezes. Isto é um jardim, não é nenhuma estrumeira.

necessidade ou desejo?

"Temos necessidade de Deus ou desejamos Deus? Tudo depende disto. A necessidade reverte para a pessoa, o desejo consiste em querer o outro por si mesmo e não para si."

François Varillon

Enquanto a minha relação com Deus se basear no que posso ou desejo obter dele, não será uma relação de amor, mas de dependência. Faço de Deus uma coisa, um instrumento.
Deus não pode resolver a minha vida. Isso depende de mim.

2006-07-18

o que de muito bom se escreve por aí...

...A vida é um purgatório e eu não sou exemplo.
Mas há coisas que não me fazem sonhar e então eu digo.

do poema "Verniz" do Rui Costa aqui

Orar

"...falando rigorosamente, tenho um modo muito simples de orar. Está inteiramente centrado na fé pela qual, unicamente, podemos ter a experiência da presença de Deus. Poder-se-ia dizer que este facto dá à minha meditação o carácter descrito pelo Profeta: estar diante de Deus como se o víssemos. No entanto, não significa imaginar isto ou aquilo, nem tampouco conhecer uma imagem precisa de Deus; a meu ver isso seria uma espécie de idolatria. Trata-se pelo contrário, de adorá-lO como ser invisível, que está infinitamente para além da nossa imaginação, da nossa compreensão e da nossa possibilidade de percebê-lO como o TUDO. Minha oração tem uma característica principal muito forte chamada FANA (aniquilação em árabe).
Existe no meu coração esta grande sede de perceber abrangentemente o NADA de tudo que não é Deus. Minha oração é, portanto, uma espécie de louvor que surge e se eleva do centro do NADA e do SILÊNCIO. Se ainda estou presente como eu, considero este facto como algo que se situa fora do meu controle - e somente Ele pode removê-lo. Se é da Sua vontade pode, então, Ele transformar o NADA em claridade total. Se Ele não o quer, o NADA se manifesta.
Aí está o meu caminho habitual de oração, onde a meditação não é pensar sobre isto ou aquilo, mas uma busca directa da Face do Invisível que não pode ser encontrada se não nos perdemos n'Ele, o Invisível."

Thomas Merton, carta a Abul Azir, Universidade de Karachi, 1985

2006-07-17

é bom

Olha-me nos olhos (gosto de me ver naqueles olhos azuis cinza indescritíveis) e diz: "Continuo a rezar por si! Como é que vão as coisas?" Na resposta devolvo-lhe o carinho e a solicitude. É bom sabermo-nos assim amados.
parede

inventa uma parede
onde possas encostar-me o corpo
pressionado pelo teu.
uma parede de textura suave.
uma parede única,
onde nos encontremos.
Inventa uma parede para o amor.

Silvia Chueire www.germinaliteratura.com.br

Ainda as famílias e a Igreja

Tem-se discutido alguma coisa, por aqui, na blogosfera, sobre o encontro das Famílias em Valência. Os dados apontam para um número de um milhão e meio de pessoas. Número podemos considerar bom para um evento do género, mas qual o seu real significado? Que famílias, que problemas, que razões de esperança, foram falados e reflectidos? Ressaltam com muito ênfase, os valores da família tradicional, mas isso vale o quê para a realidade familiar do mundo de hoje? Toda a gente gostava de ter uma família, onde não houvessem problemas de maior. Mas todos nós que vivemos inseridos numa família, sabemos como isso é utópico. Os problemas surgem dentro, vêm de fora, são antigos, surgem novos e é preciso dar-lhes resposta. Aí é que eu acho que a pastoral familiar falha. Está centrada num modelo de família que a Igreja, e sobretudo, o magistério, acha ideal e esquece todos os novos modelos familiares, que foram surgindo. Sabemos que a Boa Nova é para anunciar a todos, como é que a Igreja pretende chegar a essas pessoas? Como é que as pretende integrar no seu projecto de salvação, se nem as reconhece?

Frei Bento Domingues, citando Laura Ferreira dos Santos, escrevia ontem no Público:"O meu desejo. Gostava muito que um ou vários dos nossos "dons" bispos casasse, tivesse até um casamento impossível que levasse ao divórcio, que o casal se enchesse de filhos com o mau funcionamento do método das temperaturas, que uma filha "saísse" lésbica, um filho gay e outro transexual, que uma filha "hetero" abortasse e fosse encarcerada e que uma outra se divorciasse e o pai das crianças não pagasse a pensão. Se, no fim disto tudo, o "dom" anterior não tivesse mudado, ou pelo menos flexibilizado, a sua opinião sobre a família, proporia que fosse estudado pelo António Damásio" (Público, 13/07/06).

É que, enquanto a moral, sair apenas da teoria de famílias ideais, continuará a passar ao lado da maioria das pessoas. E não será nunca demais repetir o que os nossos "dons" deveriam estar fartinhos de saber:"fidelidade a Deus exige fidelidade ao homem."

2006-07-13

em jeito de confissão...

Baseado num artigo de jornal (posteriormente desmentido), agitaram-se algumas pessoas na Igreja, sobre supostas declarações do Papa em Valência. Seriam declarações revolucionárias. É preciso não conhecer a estrutura da Igreja ou ter uma certa dose de ingenuidade, para ficar à espera que num passe de mágica, se alterem profundamente situações há muito mantidas.
Numa Igreja de estrutura piramidal hierárquica, onde a maior parte dos leigos, são apenas consumidores do religioso, onde os padres são meras extensões dos bispos (defendem-se disso, muitas vezes, entrincheirando-se nas paróquias, sem abertura à universalidade da Igreja), onde os bispos são escolhidos com critérios muito bem definidos, e por aí fora, até ao Papa, tudo está preparado para não haverem surpresas.

Uma amiga perguntava-me à dias, muito frontalmente, se estou com alguma crise de fé. (Isto porque, a pouco e pouco, tenho deixado as várias actividades que fazia na Igreja). Respondi que não. Não me apeteceu dizer-lhe na altura, que às vezes bem desejava um "deserto" bem forte e profundo, onde já não restasse nada do Deus da minha infância, da minha juventude, do Deus da catequese, do Deus do Direito Canónico, do Deus encerrado nos sacrários e nas igrejas, do Deus desta Igreja desumana e discriminatória, do Deus dos padres funcionários. Do Deus das pessoas piedosas que rezam muitos terços, mas não têm um pingo de humanidade. Do Deus que só procuramos quando estamos com a nossa vida virada do avesso.
Queria um deserto, onde a minha alma sedenta do Deus Vivo, se abrisse dócil e sem reservas.

Não, não estou nessa situação de deserto, ainda há muitas imagens de Deus, que fui adquirindo ao longo da vida.
Também não quero romper com a Igreja. Acho que não é por medo que me falte o consolo da estrutura, dos ritos, dos sacramentos. Não quero romper com a Igreja, porque ainda sou capaz de nomear umas quantas pessoas, que apesar de tudo, são para mim, sinais de Deus.

É uma ilusão acharmos que, alguma vez, a Igreja se vai despir de toda a sua estrutura e ser o pequeno rebanho fiel ao projecto do Reino. As próprias pessoas não querem isso. Precisam de sentir o poder, a segurança. Precisam de quem pense por elas, de quem as encaminhe. Precisam de uma certa imagem do sagrado diferente do que é a sua vida de todos os dias.
Afinal, não será este o meu caso?
Outro céu

é de outro céu que escrevo,
outras estrelas.
e de um mar imenso,
que desejo atravessar.

é de travessia que digo,
do sonho à realidade.

são outros rumos que procuro,
da minha verdade.
outros caminhos,
suspiros,
mãos nervosas.

é de um certo escuro que dizia,
a lua clareando tudo.
de uma ausência,
um não estar,
e querer ser.

do desejo derramado
sobre todas as distâncias.

Sílvia Chueire - www.germinaliteratura.br

2006-07-12

"Os homossexuais têm um espaço na Igreja"


Qual a importância de criar esses espaços? O homossexual é um ser marginalizado, excluído e não só pela sociedade, como também pela Igreja, que é mais terrível. Nas Igrejas chegam muitos homossexuais para confissão ou direção espiritual, porém a Igreja não se compromete com eles; quer dizer, a resposta é taxativa: se você é homossexual pede ao Senhor para que lhe ajude a melhorar. Ali há um gargalo de garrafa na Igreja sobre esse tema, seu compromisso é insuficiente e por isso é importante criar esses espaços. O que pode encontrar um homossexual que participa nesse grupo e a que se compromete? Esse processo que iniciamos visa a que o homossexual tome consciência de sua realidade e que isso não lhe impeça de fazer um seguimento profundo e radical de sua fé católica.

Ler o resto do artigo aqui!

não esquecer


de ir à Terra da Alegria! Andam por lá o Marco, o Miguel e o Timshel.

2006-07-11

Põe fardos pesados nos outros...

Mas não deixa de ser caricato ver um clube de homens que se excluiu da doçura, da emoção, do arrebatamento, do êxtase, da surpresa, da criatividade, da transpiração, da dádiva e da prenda do sexo, dar conselhos aos casais sobre o amor. Se o casamento é uma coisa boa, tão boa que é o cimento da nossa sociedade e a ele aspiram publicamente tantos gays, porque há-de a Igreja, cuja missão não se devia arredar da procura da maior quantidade possível de felicidade, encarniçar-se em proibi-lo a uma minoria?

Luís, sejamos práticos. A Igreja não pode proibir nada. Tanto não pode, que a vida acontece por aí. A Igreja pode e deve propor, tudo aquilo que ela, à Luz da Palavra de Deus, da Revelação, acha que contribui para a felicidade do homem. Mas não pode fazer isso, sem escutar o que é a realidade dos homens. E a realidade, como tu dizes, está aí à frente dos nossos olhos.
A Igreja, continuamente anuncia como modelo, a família de Nazaré. Mas família mais fora do comum, não podemos encontrar. O que é que podemos tirar do exemplo da família de Nazaré? Que o respeito comum era uma realidade naquela família. Cada um aceitava o outro como ele era. Que belo exemplo, para a própria Igreja - respeitar as opções de vida de cada um. Sem moralizar, sem condenar, sem excluir.
Não entendo esta fobia nova da Igreja contra a homossexualidade. Era desconhecimento dos bispos e do papa, que havia padres homossexuais? Ou só quando os casos se começaram a conhecer ou as pessoas a asumir é que passou a ser importante?

ainda as famílias...

Todos têm uma família. Mesmo um solitário na cidade deve sentar-se no esconso de uma qualquer tasca a espreitar o seu Benfica. Já o Papa tem a mais fácil das famílias: enorme, gigante, um mar de gente que tem um lar, a que chama a Casa do Pai, mas que acaba por não arreliar muito. Não deixa a louça por lavar, não chega tarde a casa, não grita nem amua, não acorda com remela. Quer dizer: faz isto tudo, mas longe das janelas do Vaticano.A família de todos os dias, do quotidiano, das arreliações e dos aconchegos, essa, por opção o Papa deixou-a para trás.

Miguel, tens razão. Não sei se te inspiraste com o anúncio do Papa, de que é um avô de família. Um avô que de vez em quando vem à janela e acena. Passeia de "papamóvel". Anuncia a sã doutrina, mas não escuta as angústias de tantos filhos e netos que não têm acolhimento, na sua família. Os avós costumam caracterizar-se pela ternura...

convite


Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos (Mt 11,28)

2006-07-10

Para o homem de coração puro, tudo se transforma em mensagem divina.

S. João da Cruz

ser profeta

Ser profeta no contexto bíblico, é falar em nome de Deus. Como somos de compreensão lenta, identificamos o "falar", apenas como a transmissão de palavras. Mas tal como nós, não nos comunicamos apenas por palavras, também Deus se nos comunica, de muitas e variadas formas.
Num gesto de ternura, numa escuta atenta dos nossos desabafos, na alegria e na dor partilhadas, no riso de uma criança, no lançar-se ao serviço dos mais desamparados sem fazer contas de resultados ou recompensas. Deus fala-nos, sobretudo, em todos aqueles que ignoramos, porque nos incomodam, porque não são da nossa côr, do nosso sexo, do nosso grupo religioso, do nosso partido, da nossa simpatia, da nossa opinião...
Deus fala-nos para nos converter, para nos atrair a Si. Mas a maior parte das vezes, andamos é à procura de nós próprios.

profetas

Facilmente identificamos os profetas com cargo religioso, como porta-vozes da ortodoxia religiosa.
Temos clara dificuldade em identificá-los quando se apresentam sem uma religião que os legitime. Sem uma posição social que nos convença.
Temos os nossos sentidos demasiado habituados a um determinado discurso sobre Deus. O Deus que procuramos, ainda é o que os religiosos encerram nos templos. Ainda não estamos preparados para escutar O Deus que irrompe na vida.

porquê, porquê

Hoje César das Neves na sua crónica do DN, discorre sobre o sentido da vida. É impossível fazê-lo sem que se soltem algumas asneiras. Perceber o sentido da vida, perceber a vida é nitidamente, algo que nos transcende. César das Neves opõe aos "porquês" da vida, um "obrigado". Não sei como é que se pode dizer "obrigado" quando seis pessoas perdem a vida a tentar proteger do fogo mais um pedaço das nossas matas. Ou quando cento e quarenta pessoas morrem num acidente de avião. Ou quando em várias partes do globo, se eliminam vidas por ódio, vingança, fundamentalismo, desejo de dominar e subjugar. Ou quando neste preciso momento tantas mães olham para os filhos famintos e não têm que lhes dar de comer.
É urgente que nos perguntemos muitas vezes "porquê". Não a implorar de Deus, uma resposta, para aquilo que é resultado da nossa acção. Mas porque queremos na nossa accção, dizer "obrigado".

2006-07-09

um ano depois


...Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia....

Ruben Alves

Ter um blog não era um sonho. Mas partilhar os sonhos era um desejo. E entre tudo o que é a minha vida, partilhá-los neste espaço, tem sido uma experiência única. Ao gosto de os partilhar, junta-se o gozo de ver o eco que fazem.

A todos os que vão passando e enriquecem este espaço, com as suas partilhas generosas, obrigada.
Aos que passam em silêncio, igualmente obrigada.

2006-07-07

Salvação - uma radical liberdade

No Evangelho, Jesus pede sempre a fé aos homens e mulheres que vai encontrando. Ele nunca diz:"Eu salvei-te". Diz sempre: "A tua fé te salvou". Pois bem, com frequência, trata-se de homens e mulheres sem religião, ou de religião pagã. O centurião é um romano que não sabe uma única palavra do catecismo. A cananeia que vem da Sírio-Fenícia, também não. Não nos salvamos por outro, mesmo que esse outro seja Deus. O homem é alguém. É o homem que se salva a si mesmo na fé e pela fé. Não imaginamos a que nível de profundidade Deus respeita o homem. É nisso que devemos ser extremamente rigorosos. Caso contrário, o nosso Deus não passará de um ídolo.

François Varillon

Como bem aponta F. V., frequentemente os Evangelhos nos relatam "curas" de pessoas que não eram religiosas. Qual é então, o papel da religão?
É este Deus que a Igreja tem anunciado, vivido, celebrado ao longo da sua história?
E o que é o homem, afinal?
O Filho do Homem

O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo
Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.


A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.


O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.


Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.


Vinícius de Morais

2006-07-06

O dogma da virgindade de Maria

Um primeiro problema com o dogma da virgindade de Maria é este ser recorrentemente interpretado em sentido físico, biológico, ginecológico; quando aquilo que está em questão é um conceito teológico, ou, noutras palavras, simbólico-mítico. Tal erro de interpretação é cometido por crentes e não crentes; e deriva da dificuldade da nossa mentalidade racionalista lidar com outros tipos de linguagem.O relato do nascimento miraculoso de Jesus visa traduzir a possibilidade inaudita de Deus entrar realmente no nosso mundo e na nossa história, de se fazer carne e de nascer um como nós; e tem como base a experiência crente de uma comunidade de discipulos que testemunha a ressurreição de entre os mortos do seu Mestre, um acontecimento de fé que valida aos seus olhos a pretensão desse tal Jesus nazareno em ser Filho de Deus.Entra aqui o segundo problema: a dificuldade em perceber que a composição dos evangelhos (e, consequentemente, a sua correcta interpretação) é diacrónica, ou seja, acontece de trás para a frente: a fé na ressurreição de Jesus é o ponto de partida para a leitura crente das sua palavras e dos seus gestos, da sua vida e da sua morte, por fim do seu nascimento e de tudo o que o precedeu.Dito de outra forma: a fé na virgindade de Maria é subsequente à fé na filiação divina de Jesus; não a antecede. É um apoio; não um fundamento. Os cristãos não afirmam (não deviam afirmar!) que é por Maria ser virgem que Jesus é filho de Deus. Teoricamente, poderiam mesmo dispensar o dogma da virgindade sem que isso significasse negar a divindade de Jesus...

JS

há vinte oito anos

Cumpria um sonho - era mãe.

2006-07-05

e finalmente qualquer coisa sobre o Mundial

Parece que hoje há esperanças de comer um galo. Espero que seja o que, todas as manhãs, acorda primeiro do que as minhas insónias.

Êxodo

A gente tava tão entusiasmada, dona Arminda cantava com tanto fervor que errou as palavras e abriu o peito:"A quem tem sede reparte o pão...Eu também tão alegre, que nem achei falta de respeito brincar naquela hora sagrada:"A quem tem sede reparte é água, dona Arminda", ela danou de rir. Ô bondade, o padre igualzinho um pastor, um vaqueiro tocando o gado pro lugar certo, deixando as famílias sentar na grama, escutar o sermão sentados, igualzinho saindo do Egipto o povo de Deus em marcha.
Dona Fina caminhava na minha frente com um vestido de pano tão mansinho, de pala marrom e o resto, um voal com flor parecendo sininho, de três cores, alaranjado, vermelho e azul. Caminhava sem reprimir as ancas, balançando tão devota o que Deus deu que eu até pensei:coisa bonita é o corpo! A idéia beatífica passou no meu sexo, sem me perturbar nem um pouquinho: ora, eu pensei, foi Deus quem fez a cabeça e o assento, que bom. Quando eu vi, tinha tirado alto sem nenhuma vergonha, eu que encabulo à toa, tirei entoado e firme o "qual resplende manhãs purpurinas" todo mundo me acompanhou.

Adélia Prado in "solte os cachorros"

2006-07-04

Famílias perfeitas

Iniciou-se no passado dia 1 de Julho e vai decorrer até dia 9, em Valência, o Encontro Mundial das Famílias. Com direito na parte final, à visita do Papa Bento XVI.
Já não consigo vencer o cepticismo perante estes acontecimentos. Vai falar-se muito das famílias ideais, fundadas no sacramento do matrimónio e deixar-se de fora toda a pluralidade e expressões de vida familiar. Como sempre, vai partir-se do ideal e não do concreto da vida. Agindo assim, a Igreja não está a ser fiel à humanidade. Uma Igreja que não responde, não acolhe os vários problemas dos homens de hoje, não serve para nada. A Igreja, sendo fiel ao projecto de Deus para cada homem e mulher, deve escutar, acolher e procurar novos caminhos para os vários males que afectam as famílias - desemprego, solidão, individualismo, egoísmo, consumismo, superficialidade.

Um dos valores que mais se devem cultivar numa família é o perdão. Na linguagem da Igreja, mais rápido se fala de excomunhão a propósito de tudo, do que da força vivificadora do perdão.

No inesperado que é a vida em Deus, rezo para que os participantes no encontro, se deixem conduzir mais pela força do Espírito do que pelas falsas seguranças do legalismo.

2006-07-02

Até quando?

No seu funcionamento interno a Igreja não concede as mesmas possibilidades aos homens e às mulheres. Não podendio ser padres, devido a uma vocação singular que a Igreja lhes atribui, as mulheres são afastadas dos lugares de decisão, reservados aos ministros ordenados.
Derivam daí duas consequências. Por um lado assiste-se a uma disfunção pelo facto de que, sendo as mulheres que maioritariamente estão ao serviço da Igreja e apesar das responsabilidades que assumem concretamente, continuam a desempenhar papés subalternos. Por outro, as representações do feminino que a Igreja difunde na sociedade através desta prática de discriminação, invalidam os princípios que afirma a esse respeito. Por quanto tempo ainda poderá a Igreja permanecer nesta ambiguidade face às mulheres.

Parténia

Evangelizar, hoje...

Evangelizar, hoje, é resgatar os métodos adotados por Jesus: antes de proferir o discurso moralista, oferecer o absoluto de Deus, como fez ele à samaritana; antes de exigir adesão à doutrina, propor a opção pelos pobres, como disse ao homem rico; antes de realçar a sacralidade das instituições religiosas, acentuar o ser humano, em especial o faminto, o enfermo e o oprimido, como templos vivos de Deus. E anunciar o Deus do amor e do perdão, e não do juízo e da condenação; o Deus da alegria, não da tristeza; Deus como pão da vida, e não cruz a ser carregada neste vale de lágrimas...

Frei Betto