2006-08-31

A propósito de uma visita papal devidamente mediatizada

"Vi agora no Telejornal que o Papa vai no dia 1 de Setembro a Manoppello, o mosteiro-santuário onde está a suposta imagem do rosto de Cristo gravada no lenço da Verónica.E a notícia foi dada com pompa: "É a primeira vez que um Papa visita oficialmente a relíquia!"É claro! Essa "relíquia" não é mais do que um pedaço da piedade medieval que ainda hoje se conserva, tendo sido abafados todos os estudos que provaram a impossibilidade de aquele pano ter 2000 anos!
A maior parte dos "cristãos" católicos que veneram esse tipo de coisas nem sequer sabe que nos evangelhos de Jesus nunca aparece nenhuma Verónica, porque isso só surgiu com o exercício dolorista da Via-Sacra (iniciada e difundida pelos franciscanos a partir do sec. XII e que chegou à sua forma mais conhecida com 14 estações somente no sec. XVIII).Agora vem este Papa dar apoio explícito a esta infantilização dos crentes!Sim, manter as pessoas no devocionismo vazio, nas rezas "prêt-a-porter" e nas pseudo-revelações extra-bíblicas é impedi-las de crescer!Quando é que se proclamará alto e a bom som que a imagem de Cristo na história são os seus discípulos?

...certo que, entre as propostas de Cristo para encontrar-se com o seu Rosto e a proposta do pano, para muitos o pano leva a melhor! Claro... ali atrás do vidrinho, quieto, calado, sem cheirar mal, sem pedir nem exigir nada, sem pôr em causa, sem nos olhar nos olhos e perguntar pelos "porquês" da injustiça e pelas nossas culpas nela...Sim, sem dúvida que dá muito jeito um Rosto de Cristo assim, ali no "pano de museu".Basta fazer silêncio e colocar depois a colaboraçãozinha na caixinha ali ao lado...Se passar essa, não faz mal: tem outra do outro lado... e outra mais lá à frente... e também atrás daquela coluna... e acolá... ou então ali, se preferir...Percebes?"

Não diria melhor. Ler o post completo no blog Derrotar Montanhas

Oración

Dame, Señor
un silencio profundo
y un denso velo
sobre la mirada
Así seré un mundo
cerrado:
Una isla oscura;
cavaré en mí misma dolorosamente
como en tierra dura
Y cuando me haya desangrado
ágil y clara será mi vida
Entonces, como río sonoro y transparente
fluirá libremente
el canto encarcelado.

Alaíde Foppa

2006-08-30

legalismo no seu melhor!

El cardenal colombiano Alfonso López Trujillo, director del Consejo Pontificio para la Familia, anunció que serán excomulgados los médicos que practicaron el aborto a una niña de 11 años que fue violada repetidamente por su padrastro.

Se o aborto me coloca mil e uma reservas, neste caso, não tenho dúvidas. Fazer uma CRIANÇA, prosseguir com uma gravidez destas, é de uma crueldade sem tamanho.

Ainda bem que existem leis civis, mais humanas do que os religiosos de serviço. Preservar a vida mas não de uma forma cega e absurda.

queimar palha

Decididamente, não tenho vocação de mística. Não me basta fechar os olhos, ou abri-los bem, para encontrar Deus exposto, acessível. Ainda na última procissão do Corpo de Deus, nem cânticos, nem custódia, nem as palavras do Sr. Prior, nem a devoção dos restantes crentes, nada me tirava do meu caminhar seco e desértico. Sentia os passos, via, escutava, e mais nada para além dos sentidos. Mas numa rua, uma idosa numa situação de abandono, (pela forma de vestir, era fácil perceber), agarrada a uma vassoura, em atitude de recolhimento e devoção, levou-me sem dificuldade à presença do Cristo Vivo.

O mesmo senti ontem, depois de algumas "palavras queimadas", a ver se faziam de "motor de arranque" para o encontro que desejava, fixei-me no recorte de luz e sombras que os cedros projectavam na noite...

"Temos de ter confiança nele. Mas, mas..."

Não pensar no Nada. Pensar só em pequenos nadas. Não pensar no Tudo. Pensar em tudo e em nada.
Pensar em pequenos absolutamente nadas...e, se pudesse, pensar que Deus pensa em mim, pensar sob a protecção de Deus. Há Deus? Existe Deus? Eu creio que Ele não existe mas que é. Ah, existe por Jesus. Sim, por Jesus...Por Jesus Ele entrou na existência.
Tudo isto são apenas palavras, não... sim...talvez não...Se é e se existe, que fará Ele de mim, que fará Ele de Rodica, de Marie-France, de todos nós os que existimos como Jesus existiu. Nisso acredito. Jesus existiu. Se Ele existiu, o nosso Pai existe ou é também. Ele ouve-me. Temos de nos deixar levar. Temos de ter confiança nele. Mas, mas...
Em mim, tantos vícios, tantos defeitos, tantas vaidades, tanto amor-próprio, tão egoísta, demasiado eu e agora uma vez mais é sobre mim que escrevo, é sobretudo em mim que penso...Senhor, fazei...Fazei...com que eu me despoje de tantas faltas, erros, cobardias...palermices...Vivo há já tanto tempo. Perdi muito, muitíssimo tempo...
Se Jesus existe, há Deus. E uma vez que Jesus existe, o Pai lá está.
Como dizer? Em vez de ir a Jesus, quero que Jesus venha a mim...
Como se eu quisesse forçar Deus.

A Busca Intermitente - Eugène Ionesco

Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança. (Sl 23,4)

2006-08-29

recado a uma amiga:

Fico contente de saber que os meus beijinhos foram deliciosamente apreciados. Não vi os olhos do Pedro, mas não me é difícil imaginá-los. Eles já brilham por si.

Às perguntas que me fazes, responderei na volta do correio... ;)

metanoia


Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele e ele comigo. (Ap 3,20)

foto - www.paulstackphotografy.com

2006-08-28

eu e os outros...

O que são "os outros"?Olho para eles, fito-os; muitos há que são para mim insuportáveis. Não se trata apenas de falta de caridade, é também estupidez. Os outros não são eu? A maior parte das vezes convenço-me de que me amo a mim. Não me odeio. Às vezes, parece-me que não sou simpático comigo mesmo. Mas, se veradeiramente me odiasse, não me suportaria, aniquilar-me-ia.
Poderia imaginar-se um "eu" que não estivesse em relação? Esse eu "odioso", como escreve C., são os outros: se me odeio, odeio tudo.Nem odiar, nem não odiar. Ter chegado à minha idade para finalmente compreender que sou os outros, que os outros são eu, que só existo pelos outros, que os outros vivem para mim. Crio-os, eles criam-me: os outros, isto é, o outro. Também as coisas são o outro. Este caderno...Como se pode conceber uma "alma absoluta"? Uma alma que vive, é, existe só por si? Ou uma alma em si...Repito isto, faço círculos à volta disto, nenhuma saída que vá dar à alma em si...Também eu sou o outro.

A Busca Intermitente - Eugène Ionesco

a vida em gavetas

Era necessário e urgente arrumar as gavetas onde se vão metendo, um pouco desordenadamente, o que pertence a uma família e se quer guardar.
Abre-se a primeira e começa-se a analisar o conteúdo. Documentos que ainda não foram arquivados nas respectivas pastas. Restos de fotografias necessárias para renovar os respectivos BI's. Pequenos bilhetes a dizer:Gosto muito de ti mãe. Parabéns pai, um beijo desta filha que te ama muito. Escritos com letra que identifica bem as datas em que foram escritos. Há muito tempo. E no entanto, parece que foi tudo ontem. Postais de várias proveniências; a dar os parabéns, enviados de uma viagem. Algumas cartas, onde se expressavam sentimentos, desejos...e muitas coisas que se guardaram porque pareciam importantes e agora não serviam mais para nada. Era necessário escolher o que guardar, e o que deitar fora. Se algumas coisas eram lixo, sem dúvida nenhuma, outras havia, que suscitavam hesitações.
As gavetas arrumaram-se, a vida segue.

impressões...

Actualiza-se o blog com a mesma teimosia com que se vive.

2006-08-25

Bom fim-de-semana


Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. (Jo 6,68)

definitivamente...

é dos livros e da vida! Malvado hábito que as mulheres têm de dizer mal umas da outras! Meu amigo, dou-te razão; ainda ontem te desmentia. Hoje, para castigo, tive de aturar uma dessas conversinhas. Minimizei, tentei mostrar-me ocupada, fiz ar de quem não estava para aí virada, mas parar o discurso é que não fui capaz. E as subtilezas que se usam...a conversa começa como desabafo, não se pronuncia o nome, mas vão-se espalhando pistas suficientes para que não restem dúvidas do alvo a abater. Também cheguei lá num instante, tenho algumas capacidades dedutivas, e por mais que não se queira, a conversa fica a ocupar-nos o pensamento mais do que seria desejado. Preciosos minutos que eu hoje perdi da minha vida.

2006-08-24

O suicida

O suicídio
não é algo pessoal
Todo suicida
nos leva
ao nosso funeral

O suicida
não é só cruel consigo.
É cruel, como cruel
só sabe ser
- o melhor amigo.
O suicida
é aquele que pensa
matar seu corpo a sós
Mas o seu eu se enforca
num cordão de muitos nós.

O suicida
não se mata em nossas costas.
Mata-se em nossa frente
usando seu próprio corpo
dentro de nossa mente.

O suicida
não é o operário
É o próprio industrial, em greve.
É o patrão
que vai aonde
o operário não se atreve.

Todo homem é mortal.
Mas alguns, mais que outros,
fazem da morte - um ritual

O suicida, por exemplo,
é um vivo acidental.
É o general
que se equivocou de inimigo
e cravou sua espada
na raiz do próprio umbigo.
Mais que o espectador
que saiu no entreato,
o suicida
é um ator
que questionou o teatro.

O suicida
é um retratista
que às claras se revela.
Ao expor seu negativo,
queima o retrato - e se vela.

O suicida, enfim,
é um poeta perverso
e original
que interrompeu seu poema
antes do ponto final.

Affonso Romano de Sant'Anna

do cuidado...

Onde está o Homem, está o perigo. Nascemos com defeito de fabrico e começamos a morrer logo que a nossa vida começa. Mas no intervalo de um e outro acto, temos de encontrar o equilíbrio, que nos garanta que não somos fruto de um acaso da natureza.
O Homem nasce só, morre só, mas não vive para si mesmo, nem por si mesmo. É na relação que construimos a nossa autonomia, que crescemos na liberdade. Não há dor maior do que a solidão. E não há maior consolo de que a palavra, o gesto amigo que nos chegam de muitas e variadas maneiras. É nosso dever cuidarmos uns dos outros.

Pelo menos oito pessoas são internadas diariamente nos hospitais portugueses por intoxicação com medicamentos, 70 por cento dos quais por tomarem em excesso antidepressivos e tranquilizantes, revela esta quinta-feira o Diário de Notícias, com base num estudo. (Portugal Diário)

Venha sobre nós, Senhor, o teu amor, pois depositamos em ti a nossa confiança. (Sl33,22)

2006-08-23

post 575

E há amigos que minimizam os nossos medos. Não é que sejam menos amigos, sentem de outra maneira.

post 574

Os nossos medos vistos nos olhos dos nossos amigos, assustam sempre mais.

não há que ter ilusões:"O amor não pode vir do vazio"

Aprendi que uma época em que os políticos falam sobre paz é uma época em que todos esperam guerra: os grandes homens da terra não falariam tanto de paz se não acreditassem secretamente que, com mais uma guerra, aniquilariam seus inimigos para sempre. Sempre, "após só mais uma guerra", raiará a nova era do amor: mas primeiro todos os que são odiados devem ser eliminados. Pois o ódio, entendem, é a mãe do que eles chamam de amor.Infelizmente, o amor que deveria nascer do ódio nunca nascerá. O ódio é estéril; não gera nada além da imagem de sua própria fúria vazia, de seu próprio nada. O amor não pode vir do vazio. Ele é cheio de realidade. O ódio destrói o verdadeiro ser do homem ao lutar contra a ficção que ele chama de "o inimigo". Pois o homem é concreto e vivo, mas "o inimigo" é uma abstração subjetiva. Uma sociedade que mata homens reais para livrar-se do fantasma de uma ilusão paranóide já está possuída pelo demónio da destrutividade, porque se tornou incapaz de amor. Recusa-se, a priori, a amar. Não se dedica a relações concretas entre pessoas, mas apenas a abstrações a respeito de política, economia, psicologia, e até, às vezes, religião.

Thomas Merton

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação
e sustentai-me com espírito generoso (Sl 51,14)

2006-08-22

irrrrrrresistíveis

ambivalência da religião

El Dios de la auténtica experiencia religiosa cristiana no es, por otra parte, el Dios que se muestra celoso y rival de lo humano. Ni es el Dios enemigo del juego y de la fiesta que, según Juan de la Cruz, el Espíritu Santo hace en el alma [10]. Es un Dios, por tanto, que infunde felicidad y plenitud y que, por ello mismo, desencadena en el sujeto un deseo de bien y contento para todos los que le rodean. En el interior del sujeto, su imagen está elaborada desde las pulsiones de vida, es un “objeto bueno”, amoroso, fuente, por tanto, de gratitud y no de envidia, resentimiento o rencor.
El amor, sin embargo, es una realidad ambigua como pocas. Y poco términos tan equívocos como el de amor. En su nombre se cometieron atropellos de todo tipo. También en nombre del amor cristiano. Porque el amor puede ser iluso, posesivo, infantilizante, dominador. Es importante, pues, discernir el tipo de vínculo amoroso que circula por los campos de la religión. Porque también en ellos puede anidar, camuflado, el germen de la violencia y la destrucción.


Carlos Domínguez Morano - Ambivalência de la religión

à cata das estrelas

Se os corpos celestes estão carregados de incertezas, nada mais resta do que depositar as esperanças na escuridão, nas regiões desérticas do céu. O que pode existir de mais estável do que o nada? E no entanto, também acerca do nada não se pode estar a cem por cento. Palomar, onde quer que veja uma clareira no firmanento, uma brecha vazia e negra, fixa aí o olhar, como que projectando-se nela; e eis que também ali no meio toma forma um qualquer pequeno grão mais claro, ou uma pequena mancha, ou apenas um sinalzinho; mas Palomar não chega a ficar seguro acerca de se se trata efectivamente de alguma coisa que lá esteja ou se apenas lhe parece vê-la. Talvez um lampejo desses que se vêem andar à roda mantendo os olhos fechados o céu escuro é como o reverso das pálpebras sulcados por fosforos; pode ser o reflexo dos seus olhos; mas poderia também ser uma estrela desconhecida, emergindo das profundezas mais remotas.

Italo Calvino - Palomar

2006-08-21

Confronto

Um diálogo com Deus

LV) Da Humana Condição


Só isto, a vida
– ou nisto resumida.
Só isto, a vida humana:
um breve rastejar, entre o Big Bang e o Apocalipse
(se é que houve um
e que haverá o outro).
Certo, o rastejar.
......................................................................................

Mas se teu Reino
não é uma recompensa nem um prêmio
e sim uma construção,
e não está num Após nem num Além
mas num Agora e num Aqui
– em nós mesmos –
e temos nós que construí-lo dia a dia,
vivendo como vivemos
e sendo como somos, então
Inferno e Paraíso são apenas projeções,
não transcendentes redutos:
simples imagens
de nosso estar-na-Terra,
de nosso ser-com-os-outros.
E não serás um Ser (em si):
apenas uma Idéia (em nós).
E a Eternidade é somente um hiper-agora, impassável,
o sempre-presente.
E o Infinito é somente um hiper-aqui, impreenchível,
o todo-em-volta.
E o Inferno é mesmo os outros.
O Paraíso também.
E o ser humano é mesmo este misto desequilibrado entre o sublime e o mesquinho,
breve lampejo
entre uma treva sem princípio e uma treva sem final.
E somos livres,
apenas do futuro ignorantes,
sem mistério a desvendar.
E não há prêmio nem castigo, transferidos:
apenas opções e conseqüências, imediatas.
E a vida é este intermitente desafio:
o aproveitamento/desperdício de energia e liberdade,
sem hipótese de reservas;
esta cega seqüência de desejo e luta,
o insaciável desejo
e a incessante luta;
para a conquista ou para a falta,
a precária conquista
ou a freqüente falta.
E, de tentativa em tentativa,
o frustrante desfrute
ou a plena frustração.
E, na falência da aventura,
a certa perda.
E o desengano.
E a decomposição,
em pó ou cinza.
E o Nada.
Nada além, aquém.
E a Existência é o todo do tempo.
E a Terra é o todo do espaço.
E não precisa nem da idéia de Eternidade e nem da de Infinito
(exceto os do Sonho).
E tudo é mortal, exceto o trans-viável.
E não há Causa primeira nem Sentido último,
que é sempre um trânsito,
de sempre,
para sempre,
e temos só que nos equilibrar.
E esta é a nossa condição,
sem pessoal ou coletiva culpa.
É parca,
é muito parca.
E não muda
por mais que a gente mude.

Mas, descendente de símios,
podia o homem ser mais nobre?
Rebento de uma explosão,
podia o mundo ser mais firme?
Originária do acaso,
podia a vida ser mais justa?
E se, sem Ti, não tem sentido,
talvez nem careça:
basta ter duração.
E que tudo se esgote em seu lampejo, sem reflexo.
E, no lugar da transcendência da alma,
a imanência do corpo.
E, por sobre o consumo do tangível,
a latência do inefável.
E é esse o seu sentido.
Pode ser muito pobre,
mas é o que ela ostenta:
o da luminescência, ao invés do da Luz.
Temos só de evitar que se desfaça aos ventos em contrário.
E estamos, apenas.
E passamos.
Pior é que sofremos que não basta estar.
E que é penoso passar.

Ou nossa vida é mesmo esta constante peregrinação
e só descansaremos quando voltarmos à origem?

Mas o alvo está à vista:
que cada um aponte suas armas.


Pedro Lyra

2006-08-20

porque hoje é domingo

Acordei com a cabeça cheia de nevoeiro. Vejo tudo embaciado: como se tivesse uma névoa na frente dos olhos. Não, não é uma metáfora. É só mais uma crise de sinusite.

acção de graças

Durante anos e anos, o meu confessor chamava-me a atenção, para viver a vida em atitude de acção de graças. Mas demasiado agarrada aos cansaços, às várias frentes de luta, demorei a perceber. Hoje acalento-me nessa atitude. Já não espero grandes feitos nem efeitos da vida. Viver dia-a-dia; receber e aceitar os pequenos dons, os pequenos gestos. Saborear a companhia dos que amo, presenteá-los com a minha. E descobrir que mesmo na penumbra, há uma luz sempre presente.

2006-08-19

e que dizer?

Quando a virtude vem acompanhada com azedume, discriminação, juízos, condenações, moralismos, exclusões?

transbordar...

Foi muito forte a influência que recebi do sacrifício, da dávida, da renúncia, da virtude. A cada passo, me apontam a cruz de Cristo. Ainda debato que não foi ela o fim, mas de pouco vale. É a cruz, é a cruz. Seria tudo mais simples, não tivesse eu esta amálgama de genes da avó Madalena, do avô Henrique, do avô António e da avó Felismina. Ó mistura explosiva. Já tive que escolher entre a virtude e o amor. Escolhi o amor. E voltarei a fazê-lo, mil vezes, se for preciso. Pró Céu só levarei pecados e a confiança na misericórdia.

as minhas devoções


Nanni Moretti, hoje de parabéns - 19/08/1953

ao espelho

Quem sou? Se visse Ele na sarça ardente, na Coluna de Fogo, eu virava Moisés ou mesmo assim adorava o bezerro de ouro? Sinto falta de uma boa missão, o que pode ser desculpa para sair de chateações miúdas que me põem de ânimo assassino. Muita razão e sabedoria tinha o apóstolo quando mandou: suportai-vos uns aos outros. Eu amo pouca gente, suportar é o que mais faço e suportar é péssimo.

Adélia Prado in solte os cachorros

2006-08-18

Gostava às vezes de ser outra


Gostava às vezes de ser outra.
Outra mulher a sussurrar sem medo
Gostava de ser uma, assim, calma, paciente.
Que levasse a vida devagar, sem agonia.
Assim, como quem não sente.


Gostava de ser outra a descansar,
Tranqüila...Consciência em paz, sossegada,
De quem não se atira à vida.
Uma assim que não sofresse,
Não parasse, pra pensar...
Não se arrependesse.


Mas não. Tenho o espírito
Em constante rebuliço.
Sempre perguntando o porquê
De tudo isso.
Ora apaixonada,
Ora em desgraça,
Ora alegre, triste, irada.
Danço e brigo,
Vou e volto.


Gostava bem de ser outra,
Às vezes...

(A poesia me abandonava?)

Silvia Chueire

Hoje acordei assim...


Ó Deus
pronto, pronto.
hoje
não reclamo
nem argumento
qual lírio do campo
basta-me
uma réstea de luz.

2006-08-17

E o que é que Ele quer?

Perguntas muito bem, Pedro! Soubesse eu responder-te a essa pergunta "trigo limpo farinha amparo", e a minha vida era um oásis de doce mel. Não é que eu não tenha as respostas religiosas para te dar. Ainda há dias, alguém me escrevia e dizia "preto no branco", o que é preciso para fazer o que Ele quer. Também é uma resposta que me vai doer...

Socorrendo-me da Palavra:"Fazei o que Ele vos disser" (Jo 2,5) tudo parece simples (tipo simplex), mas como diz o senhor Palomar, ali, no post abaixo; ele há o mundo, as coisas que escolho, há o meu eu que escolhe...uma dificuldade pegada.

E nas coisas que me são dadas a escolher, e outras para as quais "não sou tida nem achada", como descobrir se é essa a Sua vontade, e quem é Esse que se me revela e oculta, nas coisas? Não é nada fácil, Pedro. Por isso, algumas vezes, surge insidiosa a pergunta: És Tu, ou é a minha vontade de te querer?

Mas isto não são só dificuldades. Não estou sozinha neste percurso. Tenho o testemunho e alento de todos os que vivem iguais dúvidas e tensões. Tenho o daquelas pessoas, para quem estas coisas são bem mais pacíficas, e, direi, claras. E tenho também o daquelas, que não precisando de pôr Deus no seu discurso e percurso, sabem fazer escolhas. Por todos me sinto desafiada e animada.

Ainda voltando ao discurso religioso:"Se guardardes os meus mandamentos, se cumprirdes a minha Palavra, permanecereis no meu amor". "Cá está!" Dirás, tu. "Uma relação de servo e senhor. Uma negação do eu."
Mas Deus criou-nos para a Aliança. Criou-nos para nos desposar. Criou-nos para nos tornarmos no que Ele é. Este é o paradoxo do amor.

Palvras "chave"/atitudes, para viver este paradoxo: humildade, serviço, liberdade.

E a janela é o quê?


Nesta altura sobrevém um primeiro momento de crise: seguro de que a partir de agora o mundo lhe revelará uma riqueza infinita de coisas para olhar, o senhor Palomar experimenta fixar tudo aquilo que lhe vém à mão: não obtém nisso qualquer prazer e deixa de o fazer. Segue-se uma segunda fase na qual está convencido de que as coisas a observar são apenas algumas e não outras e que deve ir à procura delas; para isso, tem de enfrentar problemas de escolha, exclusões, hierarquias de preferências; cedo se apercebe de que está a estragar tudo, como sempre acontece quando se põe de permeio o seu próprio eu e todos os problemas que tem com o seu próprio eu.
Mas como se faz para observar alguma coisa deixando de lado o eu? De quem são os olhos que olham? Normalmente, pensa-se que o eu é uma pessoa debruçada para fora dos seus próprios olhos como se estivesse no parapeito de uma janela e que observa o mundo que se estende em toda a vastidão, ali, diante de si. Portanto: há uma janela que dá para o mundo. Do lado de lá está o mundo; e do lado de cá? Sempre o mundo: que outra coisa queriam que estivesse?

Italo Calvino - Palomar

2006-08-16

Decididamente

Quem vê caras não vê corações.

Alguém me pergunta se estou bem. Nem me deixa responder e vai dizendo:Nem precisa dizer nada, vê-se na sua cara.

as minhas devoções

Pequeñas muertes

Los sueños son pequeñas muertes
tramoyas anticipos simulacros de muerte
el despertar en cambio nos parece
una resurrección y por las dudas
olvidamos cuanto antes lo soñado
apesar de sus fuegos sus cavernas
sus orgasmos sus glorias sus espantos
los sueños son pequeñas muertes
por eso cuando llega el despertar
y de inmediato el sueño se hace olvido
tal vez quiera decir que lo que ansiamos
es olvidar la muerte
apenas eso.

Mario Benedetti

ser em Deus

Para encontrarmos Deus em nós, temos de parar de olhar para nós mesmos, de nos inspecionar e verificar no espelho da nossa futilidade; devemos contentar-nos em ser em Deus e de fazer o que Ele quiser, conforme as nossas limitações, julgando os nossos actos não à luz das nossas ilusões, mas à luz da Sua realidade que nos cerca nas coisas e pessoas com quem vivemos.

Thomas Merton - No Man is an Island

2006-08-15

Maria

acolhimento...surpresa...serviço...ousadia...ternura...confiança...
alegria...escuta...discrição...transparência.

estrada de Damasco

A luz neste jardim e nesta cerca é tão bela, a Carícia do Céu...clara...doce...calor, luz...
Eugène Ionesco - A Busca Intermitente

Mesmo tendo as coordenadas do jardim, nem sempre a luz brilha, nem aquece, nem comove...sendo interior... é independente, não manipulável.


2006-08-14

a propósito de observar...

...ontem duas pessoas, em diferentes ocasiões, falaram-me do meu novo penteado. Hoje, a blusa nova (ou o decote, não sei) já despertou um comentário. E uns tantos olhares...

observar

Na sequência de uma série de desventuras intelectuais que não merecem ser recordadas, o senhor Palomar decidiu que a sua principal actividade será observar as coisas do lado de fora. Um tanto ou quanto míope, distraído, introvertido, não parece caber por temperamento naquele tipo humano que é normalmente definido como um obeservador. E no entanto sempre lhe sucedeu que certas coisas - um muro de pedras, uma concha vazia, uma folha, um bule - se lhe apresentassem como que pedindo uma observação minuciosa e prolongada: põe-se a observá-las quase sem dar por isso e o seu olhar começa a percorrer todos os detalhes e não consegue mais afastar-se delas. O senhor Palamar decidiu que daqui para a frente redobrará as suas atenções: em primeiro lugar, para não deixar fugir os apelos que lhe chegam das coisas; em segundo lugar, para atribuir à operação de observar a importância que ela merece.

Italo Calvino - Palomar

Ou era isto, ou falar da crónica do César das Neves, no DN.

Saboreai e vede como o Senhor é bom (Sl 34,9)

2006-08-11

questionar a Igreja...

En mi opinión, el mayor pecado de la Iglesia es haber fundado una institución de poder sobre las creencias de los seguidores de Jesús. Justamente de ese Jesús que fue crítico con quienes manejaban la religión en su tiempo, hasta el punto que decidieron deshacerse de él. Y a partir de ese gran pecado se derivan toda la inmensa constelación de los que le siguen, siendo el más importante de ellos el permanente abuso de la ingenuidad de los catecúmenos para los fines de domino de quienes rigen la institución eclesiástica.

Um artigo importante, para reflectir. Ler o artigo completo no ATRIO.

2006-08-10

Fidel Castro

A vida é complexa e contraditória. Assim como o próprio Homem. No nosso modo simplista de ver as coisas, sempre privilegiamos este ou aquele aspecto. Quase sempre de acordo com as nossas simpatias, os nossos interesses, as nossas "verdades". Sim, porque cada um tem uma. E não lhe basta ter a sua, quase sempre pretendemos, que a nossa é que é. É que vale.

A figura de Fidel Castro é uma figura singular, na história de séc. XX. Desperta paixões e ódios. Não será um santo, mas também não um demónio. É, seguramente, um homem contraditório. Calhou-lhe em sorte, ter nas mãos, durante muito tempo, os destinos do seu povo. E ao mesmo tempo, enfrentar o vizinho todo-poderoso, EUA. É um equilíbrio difícil. Não fez sempre as melhores escolhas. Não as fez, calando, oprimindo, tirando a voz aos seus opositores.
Fica a sua marca de resistência ao poder económico e expansionista dos EUA.
A que custos? Muito grandes, para muita gente.

Leonardo Boff, teólogo brasileiro, quer dar o seu testemunho de Fidel. É um retrato diferente, daqueles que conhecemos. É parcial com toda a certeza. Mas é importante conhecê-lo.


Os 80 anos de Fidel: confidências

Adital - O que vou publicar aqui vai irritar ou escandalizar os que não gostam de Cuba ou de Fidel Castro. Não me importo com isso. Se não vês o brilho da estrela na noite escura, a culpa não é da estrela, mas de ti mesmo.Em 1985 o então Card. Joseph Ratzinger me submeteu, por causa do livro "Igreja: carisma e poder", a um "silêncio obsequioso". Acolhi a sentença, deixando de dar aulas, de escrever e de falar publicamente. Meses após fui surpreendido com um convite do Comandante Fidel Castro, pedindo-me passar 15 dias com ele na Ilha, durante o tempo de suas férias. Aceitei imediatamente, pois via a oportunidade de retomar diálogos críticos que, junto com Frei Betto, havíamos entabulado anteriormente e por várias vezes.
Demandei a Cuba. Apresentei-me ao Comandante. Ele imediatamente, à minha frente, telefonou para o Núncio Apostólico com o qual mantinha relações cordiais e disse: "Eminência, aqui está o Fray Boff; ele será meu hóspede por 15 dias; como sou disciplinado, não permitirei que fale com ninguém nem dê entrevistas, pois assim observará o que o Vaticano quer dele: o silêncio obsequioso. Eu vou zelar por essa observância". Pois assim aconteceu.
Durante 15 dias, seja de carro, seja de avião, seja de barco me mostrou toda a Ilha. Simultaneamente durante a viagem, corria a conversa, na maior liberdade, sobre mil assuntos de política, de religião, de ciência, de marxismo, de revolução e também críticas sobre o déficit de democracia.
As noites eram dedicadas a um longo jantar seguido de conversas sérias que iam pela madrugada adentro, às vezes até às 6.00 da manhã. Então se levantava, se estirava um pouco e dizia: "Agora vou nadar uns 40 minutos e depois vou trabalhar". Eu ia anotar os conteúdos e depois, sonso, dormia.
Alguns pontos daquele convívio me parecem relevantes. Primeiro, a pessoa de Fidel. Ela é maior que a Ilha. Seu marxismo é antes ético que político: como fazer justiça aos pobres? Em seguida, seu bom conhecimento da teologia da libertação. Lera uma montanha de livros, todos anotados, com listas de termos e de dúvidas que tirava a limpo comigo. Cheguei a dizer: "se o Card. Ratzinger entendesse metade do que o Sr. entende de teologia da libertação, bem diferente seria meu destino pessoal e o futuro desta teologia". Foi nesse contexto que confessou: "Mais e mais estou convencido de que nenhuma revolução latino-americana será verdadeira, popular e triunfante se não incorporar o elemento religioso". Talvez por causa desta convicção que praticamente nos obrigou a mim e ao Frei Betto a darmos sucessivos cursos de religião e de cristianismo a todo o segundo escalão do Governo e, em alguns momentos, com todos os ministros presentes. Esses verdadeiros cursos foram decisivos para o Governo chegar a um diálogo e a uma certa "reconciliação" com a Igreja Católica e demais religiões em Cuba. Por fim uma confissão sua: "Fui interno dos jesuítas por vários anos; eles me deram disciplina mas não me ensinaram a pensar. Na prisão, lendo Marx, aprendi a pensar. Por causa da pressão norte-americana tive que me aproximar da União Soviética. Mas se tivesse na época uma teologia da libertação, eu seguramente a teria abraçado e aplicado em Cuba." E arrematou: "Se um dia eu voltar à fé da infância, será pelas mãos de Fray Betto e de Fray Boff que retornarei". Chegamos a momentos de tanta sintonia que só faltava rezarmos juntos o Pai-Nosso.
Eu havia escrito 4 grossos cadernos sobre nossos diálogos. Assaltaram meu carro no Rio e levaram tudo. O livro imaginado jamais poderá ser escrito. Mas guardo a memória de uma experiência inigualável de um chefe de Estado preocupado com a dignidade e o futuro dos pobres.

Leonardo Boff

recado:

na "ode à vida", incluo nomes (pessoas). Na gratidão, digo: Ana, Maria, Zé, Fátima, Alexandre, Ricardo. E mais há para contar.

Agora e sempre...

Ode à vida

Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonias, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos crêem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não sairam da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargores
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adopte nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios.

Pablo Neruda - Odes Elementares