2006-08-22

à cata das estrelas

Se os corpos celestes estão carregados de incertezas, nada mais resta do que depositar as esperanças na escuridão, nas regiões desérticas do céu. O que pode existir de mais estável do que o nada? E no entanto, também acerca do nada não se pode estar a cem por cento. Palomar, onde quer que veja uma clareira no firmanento, uma brecha vazia e negra, fixa aí o olhar, como que projectando-se nela; e eis que também ali no meio toma forma um qualquer pequeno grão mais claro, ou uma pequena mancha, ou apenas um sinalzinho; mas Palomar não chega a ficar seguro acerca de se se trata efectivamente de alguma coisa que lá esteja ou se apenas lhe parece vê-la. Talvez um lampejo desses que se vêem andar à roda mantendo os olhos fechados o céu escuro é como o reverso das pálpebras sulcados por fosforos; pode ser o reflexo dos seus olhos; mas poderia também ser uma estrela desconhecida, emergindo das profundezas mais remotas.

Italo Calvino - Palomar

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