2006-08-21

Confronto

Um diálogo com Deus

LV) Da Humana Condição


Só isto, a vida
– ou nisto resumida.
Só isto, a vida humana:
um breve rastejar, entre o Big Bang e o Apocalipse
(se é que houve um
e que haverá o outro).
Certo, o rastejar.
......................................................................................

Mas se teu Reino
não é uma recompensa nem um prêmio
e sim uma construção,
e não está num Após nem num Além
mas num Agora e num Aqui
– em nós mesmos –
e temos nós que construí-lo dia a dia,
vivendo como vivemos
e sendo como somos, então
Inferno e Paraíso são apenas projeções,
não transcendentes redutos:
simples imagens
de nosso estar-na-Terra,
de nosso ser-com-os-outros.
E não serás um Ser (em si):
apenas uma Idéia (em nós).
E a Eternidade é somente um hiper-agora, impassável,
o sempre-presente.
E o Infinito é somente um hiper-aqui, impreenchível,
o todo-em-volta.
E o Inferno é mesmo os outros.
O Paraíso também.
E o ser humano é mesmo este misto desequilibrado entre o sublime e o mesquinho,
breve lampejo
entre uma treva sem princípio e uma treva sem final.
E somos livres,
apenas do futuro ignorantes,
sem mistério a desvendar.
E não há prêmio nem castigo, transferidos:
apenas opções e conseqüências, imediatas.
E a vida é este intermitente desafio:
o aproveitamento/desperdício de energia e liberdade,
sem hipótese de reservas;
esta cega seqüência de desejo e luta,
o insaciável desejo
e a incessante luta;
para a conquista ou para a falta,
a precária conquista
ou a freqüente falta.
E, de tentativa em tentativa,
o frustrante desfrute
ou a plena frustração.
E, na falência da aventura,
a certa perda.
E o desengano.
E a decomposição,
em pó ou cinza.
E o Nada.
Nada além, aquém.
E a Existência é o todo do tempo.
E a Terra é o todo do espaço.
E não precisa nem da idéia de Eternidade e nem da de Infinito
(exceto os do Sonho).
E tudo é mortal, exceto o trans-viável.
E não há Causa primeira nem Sentido último,
que é sempre um trânsito,
de sempre,
para sempre,
e temos só que nos equilibrar.
E esta é a nossa condição,
sem pessoal ou coletiva culpa.
É parca,
é muito parca.
E não muda
por mais que a gente mude.

Mas, descendente de símios,
podia o homem ser mais nobre?
Rebento de uma explosão,
podia o mundo ser mais firme?
Originária do acaso,
podia a vida ser mais justa?
E se, sem Ti, não tem sentido,
talvez nem careça:
basta ter duração.
E que tudo se esgote em seu lampejo, sem reflexo.
E, no lugar da transcendência da alma,
a imanência do corpo.
E, por sobre o consumo do tangível,
a latência do inefável.
E é esse o seu sentido.
Pode ser muito pobre,
mas é o que ela ostenta:
o da luminescência, ao invés do da Luz.
Temos só de evitar que se desfaça aos ventos em contrário.
E estamos, apenas.
E passamos.
Pior é que sofremos que não basta estar.
E que é penoso passar.

Ou nossa vida é mesmo esta constante peregrinação
e só descansaremos quando voltarmos à origem?

Mas o alvo está à vista:
que cada um aponte suas armas.


Pedro Lyra

10 comentários:

  1. A poesia é mais flexivel que a lógica :)

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  2. Pedro,

    é preciso descobrir o prazer de viver. Acho que a poesia é melhor caminho do que a lógica.

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  3. MC:

    Balanço entre uma e outra. Mas como deves calcular, no fim, a poesia ganha por uma margem confortável...

    ... porque o prazer de viver está isento de qualquer lógica; nem o IRS lá cabe...

    beijos.

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  4. Alberto Albertto,

    também me farto de balançar. Uns dias atrás no meio de uma conversa alguém apercebendo-se que eu tinha um blog, perguntou o nome. Tive vergonha de dizer. Salvou-me um amigo presente. Parece mentira. Assaltou-me um pudor enorme, só de dizer um nome que é o mais puro acaso que pode haver. Porque foi o raio do nome que se impôs, não fui eu que escolhi. Há lógica nisto?

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  5. Mas a vida tem lógica?
    No entanto continuo a tentar descobrir nela a lógica do Amor. Sim, eu sei que, assim, estou a ser "poeta".

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  6. "ser poeta é ser mais alto
    é ser maior do que o vento"...
    tralarálará...(mais ou menos isto)

    a gente gosta de um bocadinho de lógica, para não sentir a ****da vida a fugir de baixo dos pés. Não é, Migalhas?

    Mas tu que és mais velho e sabes mais disto...vou por ti. Mas o amor também tem lógica? Agora é que me tiras o tapete.

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  7. Pois é... o Amor também não tem lógica absolutamente nenhuma.
    Mas... como dizia o outro, ele é o sal da vida.

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  8. Sal da vida... Migalhas. Com a nossa idade temos de começar a reduzir o sal. Não te avisaram já?

    beijos

    e merci pela paciência

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  9. Sempre necessitei de muito sal!!!! Sem ele não funciono. Os médicos até me mandam pôr sal na boca. Como vês, não somos todos iguais.

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