2006-08-17

E o que é que Ele quer?

Perguntas muito bem, Pedro! Soubesse eu responder-te a essa pergunta "trigo limpo farinha amparo", e a minha vida era um oásis de doce mel. Não é que eu não tenha as respostas religiosas para te dar. Ainda há dias, alguém me escrevia e dizia "preto no branco", o que é preciso para fazer o que Ele quer. Também é uma resposta que me vai doer...

Socorrendo-me da Palavra:"Fazei o que Ele vos disser" (Jo 2,5) tudo parece simples (tipo simplex), mas como diz o senhor Palomar, ali, no post abaixo; ele há o mundo, as coisas que escolho, há o meu eu que escolhe...uma dificuldade pegada.

E nas coisas que me são dadas a escolher, e outras para as quais "não sou tida nem achada", como descobrir se é essa a Sua vontade, e quem é Esse que se me revela e oculta, nas coisas? Não é nada fácil, Pedro. Por isso, algumas vezes, surge insidiosa a pergunta: És Tu, ou é a minha vontade de te querer?

Mas isto não são só dificuldades. Não estou sozinha neste percurso. Tenho o testemunho e alento de todos os que vivem iguais dúvidas e tensões. Tenho o daquelas pessoas, para quem estas coisas são bem mais pacíficas, e, direi, claras. E tenho também o daquelas, que não precisando de pôr Deus no seu discurso e percurso, sabem fazer escolhas. Por todos me sinto desafiada e animada.

Ainda voltando ao discurso religioso:"Se guardardes os meus mandamentos, se cumprirdes a minha Palavra, permanecereis no meu amor". "Cá está!" Dirás, tu. "Uma relação de servo e senhor. Uma negação do eu."
Mas Deus criou-nos para a Aliança. Criou-nos para nos desposar. Criou-nos para nos tornarmos no que Ele é. Este é o paradoxo do amor.

Palvras "chave"/atitudes, para viver este paradoxo: humildade, serviço, liberdade.

11 comentários:

  1. Lembro-me da primeira vez que ouvi alguém dizer-me, "todas as decisões que tomo são rezadas". Estava a referir-se a decisões importantes a pessoa que estava a falar comigo. Era com serenidade, sem ponta de fundamentalismo. Agora já tenho imagens de vários tipos de cristianismo na cabeça. De pessoas a monologar com Deus antes de fazer algo que consideram importante. Imagino quem não costuma rezar, quem não tenha essa experiência do silêncio também tenha essas imagens do cinema ou da televisão. Na oração eu não ponho o meu ruído. Nem procuro um assentimento surdo de Deus ao meu ego. Uma amiga budista chamava-me a atenção para umas palavras de Madre Teresa de Calcutá sobre a oração. Se me lembro bem, dizia em resposta ao ser entrevistada Madre Teresa que quando reza não diz nada a Deus, escuta. E então que diz Deus. E responde. Deus não diz nada, escuta. Não me lembro das palavras exactas, seria algo assim. A oração é algo de pessoal, pode ser eloquente e palavrosa. Mas não há nenhum motivo para o ser. Deus conhece o nosso íntimo. Por outro lado, há bons motivos para que a oração seja feita de forma emotiva - não descontrolada, com voluntarismo sentimentalisma trágico se bem que Deus acolha tudo o que somos ou estejamos a sentir -, sentida, profundamente honesta. Há bons motivos para que na oração nos coloquemos inteiros. O que sentimos também é pessoal. E varia muito. Pode ser desde discreto até muito intenso. Mas é aí, Pedro, que muitas vezes se alicerça a fé. Que dizemos saber que Deus nos acompanha. É um dos pontos. E não é porque a voz de Deus se manifeste em frases. Em gramática. Um amigo também não diz faz isto e não faças aquilo. Ou, já que perguntas a minha opinião é esta. Um pai sabe mostrar que estará disponível para nos acolher mesmo se tomarmos a pior das opções. Mesmo se esse pai é também o Criador. E acompanha-nos, sentimos, sempre. Mais. Intromete-se a cada momento nos nossos dias. Namora-nos. Tenta seduzir-nos. Se não deixamos, entra pela janela. Se nos zangamos, é paciente. Se nos espetamos contra uma parede, cura-nos as feridas. Se fazmos da vida um puzzle desfeito, um nó cego arranja forma de irmos por um outro caminho. Ele tem sempre um outro plano. Ama-nos. Sentimos isso. Essa experiência de sentirmos o amor... é que não é fácil de ser passada. É mais fácil, isso senti, ver a felicidade. Ver a felicidade de uma pessoa religiosa. Ver, "esta pessoa é feliz". E isso encontra-se em religiões diferentes. E fora das religiões. Há pessoas que se encontraram. Algumas. O que quer Deus. A nossa felicidade. E Ele não desiste. Eu tenho sentido isso na minha vida. Acho um bocado fácil demais reduzir as coisas a "nesta situação posso escolher fazer isto ou aquilo, Meus Deus o quer queres Tu?". O que eu tenho sentido é Deus a intrometer-se, a arranjar forma de não estar fora da minha vida. As decisões cabem à minha liberdade. Liberdade que Deus me dá. E que, rezando, assumo. Um abraço, nuno.

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  2. sei que pode parecer simplista, mc, mas em resposta à pergunta, eu diria que o que Ele quer, é que aprendamos a Amar...

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  3. Alô, mana! Tudo bem?

    Um dos enfoques que me esclarecem é não pensar deus como algo, como uma criatura, um ente, mas como a fonte do ser (Eu sou a verdade e a vida). É nesse sentido também que "a verdade vos libertará". A relação com deus devolve-nos à verdade existencial de cada qual. Ou, se preferirmos, eu-próprio sou dito de modo inteiro no verbo divino que acolho na minha consciência que ofuscadamente se apreende. Deus é sempre um revelador, e não algo exterior que se acrescenta, digamos assim. Isto não significa que seja imanente à criação, mas precisamente por ser ontologica e radicalmente diverso, está em tudo sem acrescentar algo (que para tal teria de ser do mesmo modo desse tudo).

    Quanto ao "eu" teria de definir-se o que se quer dizer com tão variadamente usada palavra; transformar-se (ou seja, viver) é sempre e de algum modo, negar a situação anterior...

    Enfim... e muito mais enfoques há ;)

    Bjocas.

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  4. Caros todos: Nuno, Xana, Vítor

    muito ricas as vossas ajudas.

    O que eu acho que não deixei muito claro, e ainda esta tarde numa surpreendente e inesperada conversa, isso veio à baila...é que Deus não é o que eu digo, ou penso, defino, etc. É um Deus pessoal que se revela. Deus vai sendo. O que conta não são as nossas definições de Deus, mas o que Ele vai sendo nas nossas vidas... e nas de todos.

    O problema foi o Moisés vir lá do monte com as pedras às costas e achar que trazia uma grande coisa. Tudo pôs o enfoque nas pedras e esqueceram-se da balsa a arder. Era mais importante.



    Vítor, queres que te responda com a cara ou o coração? Hoje estão bem um para o outro.

    Beijos e abraços

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  5. MC,

    Paradoxo do amor? Nao sabia que o amor era um paradoxo :)


    ps: já tentei responder à questao que tinhas posto.

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  6. não é paradoxo????

    "Amor é fogo que arde sem se ver
    é ferida que dói e não se sente..."
    (não se sente, o caraças...)

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  7. Cara mc, não sei se isto vale alguma coisa mas eu sempre achei bonito. E peço desculpa pela palavra bonito que não é lá grande coisa. Mas já repararam na forma verbal dos mandamentos? "Amarás". Aquilo não são proibições, são profecias. É uma lei que é oferecida. Mas com um caracter profético. "Amarás", etc. Todas as leis têm esse futuro perfeito. Todos os mandamentos são assim. Ou seja, "no futuro serás assim". Há muito tempo que é essa a leitura que faço dos mandamentos.

    Mas o caminho começa assim. Quando somos crianças é-nos dito "não faças, olha que te queimas". "Não atravesses, olha que és atropelado". Para depois a vida nos er revelada, quando temos maturidade. Mas ali ao povo, foi esta a leitura que fiz, é feita uma profecia. "Amarás". Por aqui se começa. Depois o deserto. E a revelação é um processo pessoal.

    Pessoal. Uma das coisas que me apercebi é que Deus namora. É um danado :-D É carinhoso. Claro que é algo pessoal. Mas a revelação é mesmo pessoal. E... transmissivel será algo de outras coisas. Há aqui um link que posso deixar para umas experiências feitas com monges budistas, a propósito dos diálgos anuais com cientistas promovidos pelo Dalai Lama. Uma delas fala das conclusões dos cientistas sobre o que se passará nos encontros entre nós pessoas comuns e as pessoas que consideramos extraordinárias, inspiradoras, que às vezes chamamos de santas, que podemos chamar de pessoas felizes e que existem nas religiões. Também fora delas. Acho muito interessante o olhar da ciência. O texto é de um blogue, escrito a partir de um livro que foi publicado. Vou repartir o link para caber aqui.
    http://chumani.blogspot.com/
    2006/07/mente-no-laboratrio.html

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  8. Ó mana, responde com cara-ção, que isso de rostos sem coração ou corações sem rosto... não tocam aquilo que os toca… ;)

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  9. Mano,

    obrigada pela "prova de vida". :)

    Espero que tudo tivesse corrido bem, faltaram foram horas ao sono, não foi? O pior nem eras tu... :)

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  10. Nuno,

    tu vai escrevendo que eu vou lendo com agrado. Hoje estou pouco argumentativa. Hoje não dou luta, sou só facilidades...mas tens razão no amarás, na revelação. É das coisas mais belas do nosso Deus - o desvelar-se à medida da nossa abertura - e a que nós pomos tanto obstáculo na ânsia do "pronto a...".

    Abraço

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