2006-08-28

eu e os outros...

O que são "os outros"?Olho para eles, fito-os; muitos há que são para mim insuportáveis. Não se trata apenas de falta de caridade, é também estupidez. Os outros não são eu? A maior parte das vezes convenço-me de que me amo a mim. Não me odeio. Às vezes, parece-me que não sou simpático comigo mesmo. Mas, se veradeiramente me odiasse, não me suportaria, aniquilar-me-ia.
Poderia imaginar-se um "eu" que não estivesse em relação? Esse eu "odioso", como escreve C., são os outros: se me odeio, odeio tudo.Nem odiar, nem não odiar. Ter chegado à minha idade para finalmente compreender que sou os outros, que os outros são eu, que só existo pelos outros, que os outros vivem para mim. Crio-os, eles criam-me: os outros, isto é, o outro. Também as coisas são o outro. Este caderno...Como se pode conceber uma "alma absoluta"? Uma alma que vive, é, existe só por si? Ou uma alma em si...Repito isto, faço círculos à volta disto, nenhuma saída que vá dar à alma em si...Também eu sou o outro.

A Busca Intermitente - Eugène Ionesco

3 comentários:

  1. A forma mais fácil de definir o "eu" ou o "nós" é através da oposição ou da hostilidade a algo ou alguém - não quer dizer que seja a mais realista e muito menos a mais saúdavel.

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  2. Caro Pedro,

    há situações em que ela é inevitável, saudável, fecunda...o que se faz a seguir é que decide se definimos alguma coisa ou não.

    Se alguém ou alguma coisa, é manifestamente nosso "inimigo", há que o definir. Com oposição, pois claro. Com hostilidade, algumas vezes, mas há que sair daí. Senão é o círculo do ódio.

    Vou dar-te um exemplo - que nem te passaria pela cabeça ;) - se a fé é algo que me oprime, que me aparta de mim, devo opor-me a ela. Resolver a situação e vivê-la de forma integrada. Não alimentar o drama e o conflito.

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  3. Boas!

    Mas antes disso tudo há aquela parte chata e obscura da constituição do eu, que é imediatamente dialogal, isto é, põe logo um tu... O eu é uma forma de consciência reflexiva, que produz representações com que se relaciona (incluindo a dele próprio, Robinson Crusoe dialoga consigo próprio e nesse gesto produz outro numa qualquer sexta-feira...)

    O resto é já acção de tal modo de existência.

    Abreijos.

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