2006-08-10

Fidel Castro

A vida é complexa e contraditória. Assim como o próprio Homem. No nosso modo simplista de ver as coisas, sempre privilegiamos este ou aquele aspecto. Quase sempre de acordo com as nossas simpatias, os nossos interesses, as nossas "verdades". Sim, porque cada um tem uma. E não lhe basta ter a sua, quase sempre pretendemos, que a nossa é que é. É que vale.

A figura de Fidel Castro é uma figura singular, na história de séc. XX. Desperta paixões e ódios. Não será um santo, mas também não um demónio. É, seguramente, um homem contraditório. Calhou-lhe em sorte, ter nas mãos, durante muito tempo, os destinos do seu povo. E ao mesmo tempo, enfrentar o vizinho todo-poderoso, EUA. É um equilíbrio difícil. Não fez sempre as melhores escolhas. Não as fez, calando, oprimindo, tirando a voz aos seus opositores.
Fica a sua marca de resistência ao poder económico e expansionista dos EUA.
A que custos? Muito grandes, para muita gente.

Leonardo Boff, teólogo brasileiro, quer dar o seu testemunho de Fidel. É um retrato diferente, daqueles que conhecemos. É parcial com toda a certeza. Mas é importante conhecê-lo.


Os 80 anos de Fidel: confidências

Adital - O que vou publicar aqui vai irritar ou escandalizar os que não gostam de Cuba ou de Fidel Castro. Não me importo com isso. Se não vês o brilho da estrela na noite escura, a culpa não é da estrela, mas de ti mesmo.Em 1985 o então Card. Joseph Ratzinger me submeteu, por causa do livro "Igreja: carisma e poder", a um "silêncio obsequioso". Acolhi a sentença, deixando de dar aulas, de escrever e de falar publicamente. Meses após fui surpreendido com um convite do Comandante Fidel Castro, pedindo-me passar 15 dias com ele na Ilha, durante o tempo de suas férias. Aceitei imediatamente, pois via a oportunidade de retomar diálogos críticos que, junto com Frei Betto, havíamos entabulado anteriormente e por várias vezes.
Demandei a Cuba. Apresentei-me ao Comandante. Ele imediatamente, à minha frente, telefonou para o Núncio Apostólico com o qual mantinha relações cordiais e disse: "Eminência, aqui está o Fray Boff; ele será meu hóspede por 15 dias; como sou disciplinado, não permitirei que fale com ninguém nem dê entrevistas, pois assim observará o que o Vaticano quer dele: o silêncio obsequioso. Eu vou zelar por essa observância". Pois assim aconteceu.
Durante 15 dias, seja de carro, seja de avião, seja de barco me mostrou toda a Ilha. Simultaneamente durante a viagem, corria a conversa, na maior liberdade, sobre mil assuntos de política, de religião, de ciência, de marxismo, de revolução e também críticas sobre o déficit de democracia.
As noites eram dedicadas a um longo jantar seguido de conversas sérias que iam pela madrugada adentro, às vezes até às 6.00 da manhã. Então se levantava, se estirava um pouco e dizia: "Agora vou nadar uns 40 minutos e depois vou trabalhar". Eu ia anotar os conteúdos e depois, sonso, dormia.
Alguns pontos daquele convívio me parecem relevantes. Primeiro, a pessoa de Fidel. Ela é maior que a Ilha. Seu marxismo é antes ético que político: como fazer justiça aos pobres? Em seguida, seu bom conhecimento da teologia da libertação. Lera uma montanha de livros, todos anotados, com listas de termos e de dúvidas que tirava a limpo comigo. Cheguei a dizer: "se o Card. Ratzinger entendesse metade do que o Sr. entende de teologia da libertação, bem diferente seria meu destino pessoal e o futuro desta teologia". Foi nesse contexto que confessou: "Mais e mais estou convencido de que nenhuma revolução latino-americana será verdadeira, popular e triunfante se não incorporar o elemento religioso". Talvez por causa desta convicção que praticamente nos obrigou a mim e ao Frei Betto a darmos sucessivos cursos de religião e de cristianismo a todo o segundo escalão do Governo e, em alguns momentos, com todos os ministros presentes. Esses verdadeiros cursos foram decisivos para o Governo chegar a um diálogo e a uma certa "reconciliação" com a Igreja Católica e demais religiões em Cuba. Por fim uma confissão sua: "Fui interno dos jesuítas por vários anos; eles me deram disciplina mas não me ensinaram a pensar. Na prisão, lendo Marx, aprendi a pensar. Por causa da pressão norte-americana tive que me aproximar da União Soviética. Mas se tivesse na época uma teologia da libertação, eu seguramente a teria abraçado e aplicado em Cuba." E arrematou: "Se um dia eu voltar à fé da infância, será pelas mãos de Fray Betto e de Fray Boff que retornarei". Chegamos a momentos de tanta sintonia que só faltava rezarmos juntos o Pai-Nosso.
Eu havia escrito 4 grossos cadernos sobre nossos diálogos. Assaltaram meu carro no Rio e levaram tudo. O livro imaginado jamais poderá ser escrito. Mas guardo a memória de uma experiência inigualável de um chefe de Estado preocupado com a dignidade e o futuro dos pobres.

Leonardo Boff

13 comentários:

  1. A abertura de espírito é uma benção. Penso que nessa experiência, nesse contacto ela aconteceu. Que os dois puderam beneficiar imenso dela. :-D

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  2. É um bocado complicado arranjar qualquer tipo de simpatia para um regime tipo cuba...

    Em 40 anos de regime comunista os pobres (nem mais ninguém fora do partido) parece que nao ganharam muito.

    Obviamente que muitos dos que atiram pedras a cuba nao fazem o mesmo para o regime chinês apesar de serem indenticos em quase tudo.

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  3. É verdade, Nuno. Aqui sublinhe-se a abertura de espírito. Foi isso que me surpreendeu. Como é que um personagem como o Fidel, com todas as atrocidades que fez na revolução e nestes anos todos, de manifesta como aqui relata L. Boff? O ser humano é mesmo complexo.

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  4. Pedro,

    eu não tenho qualquer simpatia pelo regime de Cuba. Para mim, qualquer limitação de liberdade, nem que vivesse na maior abundância económica, era intolerável. Eu quero aqui ressaltar é o paradoxo da personalidade de Fidel.

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  5. Pois... Fidel e Boff bem podiam ter pertencido à Inquisição. Também muitos dos inquisidores estavam cheios de boas intenções. No seu caso, era salvar a alma dos acusados e conduzi-los ao veradeiro caminho - a Igreja de Roma. Eram boas e piedosas pessoas. Mas tinham um "pequeno" defeito: impunham o aos outros que achavam ser verdade.
    Que os paradoxos de Castro (e todos nós os temos) não lhe aliviem o fardo pesado de ter negado a muitos cubanos o direito fundametal à liberdade.

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  6. Fidel Castro ?...ele se sentiu com direito sobre os outros cubanos, sua política ambigua ("comunista" e capitalista) e sua implantaçao de uma ditadura "autocrata" na Ilha, faz dele um homem particular sim, também inteligente. Nunca aceitavel. Simplesmente, na Ilha, o cubano singelo nao teve, tem direito a disentir.

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  7. Bem... o único texto que me lembro de ter escrito sobre Cuba no meu blogue era bastante emotivo. Não era analítico. Mas expressava a minha tristeza profunda pela miséria, pela prostituição, pelo que se passava e passa nas ruas. Enquanto um líder autista continuava a discursar horas e horas. Penso que na altura estava muito influenciado pela leitura do "Outono do Patriarca". Curiosamente penso que Gabriel García Márquez tem algum fascínio, mesmo uma amizade pessoal por Castro. Não sei se se inspirou inconscientemente nele [ali há traços de opulência, de demência egótica capitalista que não se enquadram], pelo menos não quis que a figura do ditador a ele se reportasse. Mas aquela ilha está reduzida ao que é também porque um país poderoso insiste num embargo que já não faz sentido nenhum. E as belíssimas cubanas que se prostituem baratíssimo são usadas pelos turistas de todo o mundo, que depois nos seus países se queixam do regime e dos estados unidos. Dá jeito aos comunistas ferranhos em todo o mundo ter ali um arquétipo em que nem fidel deve ter acreditado. Ele serviu-se dos soviéticos enquanto eles serviram o seu povo. Dá jeito aos que odeiam comunistas ter ali algo para odiar. E A Fidel foi possível manter um sonho impossível à custa de um povo que sofreu, não sei com que capacidade de sonhar. Só vi documentários. Com um povo que dança e ri. E reconstrói carros americanos. E é um dos povos com a música e a pele mais belas do mundo. Nunca lá fui. Mas fui acompanhando notícias de leis erráticas de Fidel, prisões de jornalistas, leis que se tornaram piores. Vendo mais documentários. Quando foi feita a revolução houve execuções sumárias.

    E além disso. No encontro com um outro homem, como com outros terá havido conversas. E acredito, abertura de espírito. O testemunho que aqui foi citado, dá-me essa intuição. É fácil dividir o mundo. Em maus, bons, piores. Ou então, dos que dizemos terem sido menos bons, ou terem um passado, como temos todos, recusarmos que eles são capazes de sorrir, de pensar com abertura, de se pôr no lugar do outro, de imaginar Deus. Ou de imaginar que ele não existe. De ter ideias. De se abrir ao outro. De ter momentos.

    Lembro-me de como foi fácil assassinar João Paulo II depois de ele ter morrido. De esquecer tudo o que fez. E procurar criar um monstro. Ou procurar fazer o oposto.

    Agora, que se espera que Fidel morra, haverá quem queira mais um monstro para a galeria.

    Eu que não acredito em monstros, nunca considerei Che Guevara um herói romântico. E já agora, não considero Hitler um monstro. Lembro-me de Ester Muznik, que costuma falar em nome da comunidade judaica portuguesa, dizer a propósito do filme "A Queda", que vi depois de sair do cinema, já em casa, que o que esse filme tinha de bom é mostrar Hitler como um homem, e não como um monstro. E fazer-nos perceber que são homens, normais, como eu e tu, [ou outra expressão] que são capazes das maiores atrocidades.

    E Fidel terá tido bons momentos.
    Um abraço, nuno.

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  8. Chute,

    compreendo muito bem, amigo, que não tenhas nenhuma simpatia pelo Fidel e mais pelo amigo dele ;) A propósito, a tua situação profissional continua igual?

    Abraço atlântico :)

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  9. Nuno, pois não me custa nada concordar contigo. :)

    Eu gosto de poder descobrir um bocadinho de humanidade em todos aqueles que se convenciona chamar "monstros". Eu gostava que alguém dissesse que eles algum dia, conseguiram olhar uma flor, pararam nem que fosse por breves instantes a olhar as estrelas, foram capazes de dar um abraço e estremeceram...creio que isso lhes dará alguns "créditos" para nem que seja por breves instantes, arrependerem-se de todo o mal que fizeram.

    Para mim, a única justiça verdadeira é a que nasce da misericórdia. E essa, gera perdão e arrependimento.

    Como sou crente, coloco sempre isso tudo nas mãos de Deus. Ele que faça o que nós não somos capazes de fazer.

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  10. é tão fácil julgar
    e dividir o mundo entre bons e maus
    é tão fácil atirar pedras
    usar armas e varapaus...
    No entanto, como disse Teresa de Áila: "a linguagem que Ele mais ouve é a do amor silencioso"!
    abraço

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  11. Artur, também é fácil citar ao uma mulher q viveu no século XIV. Estamos no século XXI, agora existem sátelites, Internet, avioês, tecnologia etc. As noticias voam tâo depressa como o pensamento. Há que viver neste século. Quem é "ele" ?

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  12. Com relaçao ao texto, olha Mc. Diz-me tú, quem se preocupa pela dignidade dos pobres? quem?, A Igreja?..O Vaticano?. NINGUÉM filha !

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  13. Luis (enrique?) Gosto muito do teu nome :) O meu avô paterno chamava-se Henrique. Era um solitário. Apanhei só um bocadinho da "onda" dele. :)

    Não sejas tão derrotista, ainda há meia dúzia de teimosos que se preocupam com a dignidade dos pobres. Na Igreja também. Não tanto como devia. No Vaticano, acho que não têm lá entrada. Muito protocolo...

    Mas tudo isso não nos deve servir de desculpa para os ignorarmos. Cada um de nós tem muitas possibilidades de lidar com a pobreza, é preciso é não fechar os olhos.

    saúdo-te! Gracias pelas tuas visitas.

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