2006-08-30

legalismo no seu melhor!

El cardenal colombiano Alfonso López Trujillo, director del Consejo Pontificio para la Familia, anunció que serán excomulgados los médicos que practicaron el aborto a una niña de 11 años que fue violada repetidamente por su padrastro.

Se o aborto me coloca mil e uma reservas, neste caso, não tenho dúvidas. Fazer uma CRIANÇA, prosseguir com uma gravidez destas, é de uma crueldade sem tamanho.

Ainda bem que existem leis civis, mais humanas do que os religiosos de serviço. Preservar a vida mas não de uma forma cega e absurda.

23 comentários:

  1. Excomungar para onde?… Para os outros lugares religiosos onde as sementes também fulguram…

    As contradições magisteriais em tentarem manter lógica e juridicamente princípios e normas de 20 séculos e 3000 épocas e fases e situações… está a atingir, em certas áreas, a total parvoíce… O que até tem o seu quê… Parece que pensam poder meter (e só para dar um exemplo restrito) o Concílio de Trento e o Vaticano II num milkshake e sair de lá algo consistente e passível de orientar actos e pensamentos… e o que sai é um aborto doutrinal, evidentemente.

    A tese de base é a infalibilidade de Deus, e por extensão, a da sucessão apostólica e do colégio patati pototo… É curioso não des-situar essa infalibilidade, como se ela não pudesse exprimir-se, precisamente, em relação com cada época, cultura, lugar… Já para não discutir a infalibilidade… as portas do inferno não PREVALECEREM indica precisamente que as falhas (anti-cristianismo) estão lá (como em todos nós). A Igreja não cairá (falir) e resistirá até ao final, perdendo-se do caminho aqui e ali como todos nós… Porque Deus, na inspiração judaico-cristã, não se substitui à pessoa que inspira. Trata-se duma inspiração dialogal (e daí o problema do S. Paulo com as pitonizas…) em que o sujeito é interpelado e conduzido conscientemente – como é notório nos textos bíblicos, e com uma evidência fortíssima no Novo Testamento.

    Eu sei que isto são disparates intelectualoides e incertos e nada nada claros, até porque nem Trento nem V II têm que ver com o aborto, mas sei lá… Achei que já que estava aqui, deveria dizer algo… Porque o caso é realmente muito doloroso.

    Reagi a frio e na oblíqua, para disfarçar o quente e sublimar a irritação;)

    É curioso... Pena de morte para um criminoso justifica-se (mesmo com a famosa ressalva que hoje em dia temos meios para inutilizar o perigo que constitui o criminoso sem o eliminar existencialmente), mas aqui não.

    Enfim... Sei lá 2...

    Excomungam-se estes médicos e o mafioso é um católico exemplar... e o melhor é parar que já estou mesmo pronto a disparatar completamente ;)

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  2. Bolas... Estive agora a ler a notícia na íntegra (sim, a desgarrada acima foi disparada apenas pelo post) e... o que raio quer dizer que a excomunhão pode estender-se à família?... Por cimplicidade passiva?...

    Bem, temos de ver que isto é uma notícia de jornal numa era de desinformação (correspondente às capacidades informativas, verso e reverso...)

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  3. "Bem, temos de ver que isto é uma notícia de jornal numa era de desinformação..."

    Longe de nós pensar que a Igreja tome atitudes dignas da era medieval... cof, cof...

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  4. Ser religioso não significa por si só ser crente ou praticante. Significa como em tantas outras coisas "vestir um modo de estar" e não de viver.
    Como tal, a maneira de agir destas duas facetas perante as situações diversas que se apresentam, serão sempre forçosamente diferentes.
    E mais não direi.

    DTA

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  5. Caro Pedro Fontela.

    Não deves mesmo ter lido os restantes enunciados dos comentários onde essa frase se integra...

    Abraço.

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  6. Nao era uma critica a si caro Vítor Mácula :) - apenas referia a falta de efeito choque da noticia em geral.

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  7. Caro Luís Castanheta.

    Ser religioso implica uma transformação existencial, que transforma evidentemente as relações e laços em que vivemos.

    Reduzir dicotomicamente a generalidade ou totalidade da existência em duas facetas fixas é uma simplificação que facilita os julgamentos mas obnubila a complexidade do real.

    Ficando-se por uma generalidade assim e mais não dizer – é nada dizer. O que é interessante, é analisar como essa mudez de vida pode tomar decisões e elaborar juízos acerca de outros, transformando a irreal simplificação numa ilusória clarividência e « verdade ». Isso sim, é perigoso.

    Abraço.

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  8. "Excomungar para onde?"

    pois, dizes muito bem. Estes porteiros do Céu, não se tocam mesmo.

    Bem diz o Pedro, idade média no seu melhor.

    E este assunto irrita-me fortemente.

    Uma pobre criança,(Se fosse só uma...) algures neste mundo é vítima de violência, a natureza cumpre o seu papel e além da violência sexual, a violência de uma gravidez, a família ou sociedade civil, não sei, cumprem o seu papel de proteger a criança e o sr cardeal, nem uma palavrinha para a CRIANÇA violentada, oferece proclamado aos quatro ventos, a excomunhão aos que fizeram o que tinham que fazer.

    Eu nem digo o que é que o sr cardeal faria se fosse uma filha dele, porque se bem conheço a linha de pensamento que orienta o sr, nem a filha pouparia. Que esperar de quem só conhece a dureza de coração, afagada, legitimada pela lei do Senhor que eles julgam cumprir?

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  9. Aaaaaah... efeito choque, referes-te na "opinião pública"?...

    É verdade que os católicos sentimo-nos desconfortáveis com certos temas como se pusessem em causa a identidade que nos sustenta... O que produz um estranho receio na expressão do que se sente, pensa, vive... É o medo, consciente ou inconsciente, da excomunhão... ;) Mesmo no sentido estritamente psicológico: ao perturbar-se a identidade colectiva, o sujeito despersonalizado sente que nada dele é ou fica, a sua validade existencial enquanto pessoa estando completamente subsumida na instituição colectiva e nas suas representações públicas. Mas isto pode produzir, naturalmente, uma hipocrisia privado/público, prática/discurso etc. E evidentemente também, este é um risco que não é exclusiva das organizações religiosas.

    PS: Não tínhamos chegado ao "tu" no trato... Já não me recordo... Por mim tanto faz...

    PS: A Idade Média (tantos séculos!) tem coisas esplendorosas e coisas ranhosas. :P O costume...

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  10. Algumas precisões:

    - Em causa está o primeiro aborto autorizado legalmente na Colômbia, depois a IVG ter sido despenalizada em Maio último, para casos específicos.

    - Trujillo é colombiano. Normal ser pedida a sua opinião sobre o referido caso.

    - O cardeal referiu-se então à aplicação do cânone 1398 do Código de Direito Canónico.

    - Aquilo que foi noticiado não corresponde propriamente ao que foi referido pelo prelado.

    JS

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  11. Olá, JS.

    Algumas imprecisões :P

    - Em causa está um drama humano ;
    - A miúda é um ser humano traumatizado. Normal acolher a sua dor e confusão concretas na categorização do caso, e das decisões médicas relativas a ele ;
    - Referir-se directamente à aplicação duma determinação canónica… que jesuânico !
    - Claro. As usual… longa conversa requerida… ;)

    PS : Estás bom ?

    PS 2 : Ainda não me pûs a ler o Debray… Mas ando a ler uma coisa que és capaz de conhecer : « Das coisas escondidas desde a fundação do mundo » do René Girard… Que só pega num dos polos do paradoxo cristão (o da hp), mas que precisamente por isso intensifica e extensifica a noção de hp… Conheces ?...

    PS 3 Abraço!

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  12. Caro Vítor

    Saudações! Comigo, tudo bem. Pelo que já vi, penso que o mesmo acontece contigo. :)

    A minha primeira precisão visava chamar a atenção para o facto de se tratar da primeira IGV legal na Colómbia, pressupondo-se ânimos exaltados e posições extremadas, com decorrentes declarações infelizes, mal-entendidos e desinformação.

    Nada a obstar à tua precisão sobre a minha precisão. Mas acrescento nova precisão: para quem acredita que existe vida humana desde o primeiro instante da concepção, em causa estavam dois dramas humanos...

    Quanto ao René Girard, há que lhe reconhecer o mérito de ter agitado as águas da reflexão sobre a religião. Se estiveres interessado, poderás encontrar críticas às suas teses em Régis Debray e em João Duque. E também em Alfredo Teixeira (mais pela positiva).

    Abraço!

    JS

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  13. Ups, que nem cheguei a cumprimentar a dona da casa...

    Beijinhos, MC! :)

    JS

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  14. JS,

    Viva!

    Na breve pesquisa que fiz, o que aconteceu foi que tanto a Conferência Episcopal da Colômbia, ou pelo menos, o seu Presidente, assim como o Presidente do Conselho Pontifício para a Família Cardeal Alfonso Lopéz Trujillo, foram muito céleres a citar o Direito Canónico, a proferir a quem se destinava a excomunhão: Quem nas Cortes votou a ordem de se fazer o aborto, médicos intervenientes e família próxima da menina. O Cardeal Trujillo, chamou-os de "malfeitores".

    Como acontece ultimamente na Igreja, isto acaba por ser assim como que uns tiros de pólvora seca; fazem muito barulho, dão umas manchetes nos noticiários e mais nada.
    É claro que ele não ia fazer as excomunhões em directo na entrevista para a RCN. Mas fica o tom. Muito negativo, na minha opinião.
    Acho que um caso destes era a oportunidade para um pouco de serenidade, tolerância, humanidade de que a Igreja devia levar a dianteira. Parece que não. Ganha o Direito Canónico.

    É claro que isto na Colômbia, despertou um amplo debate:
    Excomunhão para este caso, e os narcotraficantes e outros que tais, vão direitinhos à comunhão, sem que a Igreja se pronuncie com igual ênfase. São opções.

    Ademais, ademais, não tenho ouvido falar em casos nenhuns de excomunhão para quem pratique directa ou indirectamente abortos. Se uma mulher o faz, vai normalmente à confissão, é absolvida e segue a prática normal dos sacramentos. Acho que é a prática habitual. Para quê então este barulho todo?
    A Igreja não sabe ter um microfone à frente e não fazer mais que dizer disparates?

    É que se continua convencida que detém o património da ética, está muito enganada.

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  15. JS,

    comentaste, enquanto eu vazava para aqui as minhas indignações...

    Mas sem ler este novo comentário teu, acho que lhe dou resposta.

    Tu dás demasiado ênfase ao "primeiro aborto legal", agora aqui apetecia-me soltar o vernáculo; o que mais acontece na América Latina, são situações de gravidezes em crianças e adolescente, duplamente vítimas de pobreza e de violência. O recurso era o aborto clandestino. Outras a naturereza seguia o seu curso.

    Que postura deve adoptar a Igreja, neste drama?

    Eu não sei quando começa a vida humana, acho que ainda ninguém sabe, mas são crianças, Senhor! Aqui decidimos entre a vida de um embrião e uma CRIANÇA.

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  16. Claro, JS… Ao dizer « drama humano » referia-me à situação no seu todo (e que inclui o drama do padrasto)…

    Do João Duque tenho lido e ouvido ocasionalmente umas coisas… a fé comunial, os géneros sexuais e a teologia…

    Obrigado pelas dicas.

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  17. MC

    Os meus comentários não visavam tomar partido nesta questão. Nem me foi pedido que emitisse a minha opinião sobre o tema do aborto. Propus-me apenas deixar algumas pistas para contextualizar e clarificar as declarações de Trujillo.

    Em tratando-se de aplicar pela primeira vez uma lei polémica, é normal que haja exageros de linguagem, quer por parte dos seus defensores, quer por parte dos seus detractores. Tal não justifica tudo, mas deve ser considerado uma atenuante. Teremos ocasião de experienciar isso mesmo dentro de dois meses.
    Dito de outra forma: o cardeal exagerou em algumas das suas palavras? Claro que sim. Foi o único a fazê-lo? Claro que não. Lamentável, mas até certo ponto compreensível.

    Relativamente ao assunto da excomunhão, a verdade é que, propriamente, nem o cardeal nem o Vaticano excomungaram ninguém, ou anunciaram pretender fazê-lo. Segundo o tal cânone 1398, quem se submete a um aborto incorre em excomunhão "latae sententiae", isto é, automática. A pena afecta também os cúmplices, médicos e/ou familiares. Mas refira-se que, se a paciente for menor de idade, a pena não lhe é aplicável.
    Dito doutra forma: em caso de aborto, a pena de excomunhão é imediata, por força de lei, independentemente do pronunciamento de autoridades eclesiásticas singulares.

    Termino como comecei: as minhas palavras são apenas explicitações, sem reflectirem tomdas de posição.
    JS

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  18. Não está em causa apenas um drama humano.
    Há pelo menos 2 dramas humanas. Um dos quais está obviamente a ser esquecido, talvez por ser um ser humano demasiado pequeno, demasiado fraco, demasiado longe da vista. Há também o drama humano daquele ser humano que nunca viu a luz do sol, nunca sentiu na terra, nem sentirá, o amor de alguem, o drama humano do ser humano a quem foi negada a vida, aquele que foi morto sem hipoteses de defesa, sem culpa alguma.

    António Maria

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  19. António Maria,

    para mim, o aborto nunca é a solução. Num caso como este é o mal menor. Só quando estivermos na posse da eternidade é que não precisamos de fazer escolhas destas, que nos rasgam o coração. Mas temos que escolher. Tu és daquelas pessoas que achas que é possível viver sem "sujar as mãos". Eu não tenho essa ilusão.

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  20. Seria uma imensa arrogancia da minha parte julgar que é humanamente possível evitar todo o pecado.
    Considero no entanto que perante o erro de alguem o pior que se pode fazer é condescender, passar a mensagem de que moralmente aquele acto é o mais correcto.

    António Maria

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  21. António Maria,

    se fosse uma filha tua, o que é que fazias?

    Eu, sendo o aborto um mal e estando duas vidas em jogo, optaria pela que já tendo sofrido o que sofreu, pouparia a mais sofrimento.
    E também não deixo de pensar na vida da criança que nasceria e~m tal situação. E que Deus me perdoe.

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  22. Se fosse uma filha minha, ou a minha mulher, aconselheria a deixar o bebé nascer.
    Se o rejeitar há sempre a hipotese de doar o bebé para adopção.
    É muito melhor essa hipotese do que o assassinio puro e simples.

    Já agora que coloca em causa a qualidade da vida e do sofrimento da criança que viria a nascer e coloca a hipotese de que talvez fosse melhor para ela não nascer tendo em consideração a situação em que iria nascer diga-me tambem outras situações e outras pessoas, crianças, adultos ou idosos que considere que vivam em excessivo sofrimento e talvez fosse melhor para eles serem mortos. Será que é uma hipotese moralmente aceitavel exterminar a população de alguns bairros de lata do 3º mundo?

    Ou será que essa preocupação com a futura qualidade da vida do nascituro que foi morto só se aplica aos nascituros, será que essa preocupação não passa de má consciencia ou pior ainda uma profunda hipocrisia?

    António Maria

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