2006-08-23

não há que ter ilusões:"O amor não pode vir do vazio"

Aprendi que uma época em que os políticos falam sobre paz é uma época em que todos esperam guerra: os grandes homens da terra não falariam tanto de paz se não acreditassem secretamente que, com mais uma guerra, aniquilariam seus inimigos para sempre. Sempre, "após só mais uma guerra", raiará a nova era do amor: mas primeiro todos os que são odiados devem ser eliminados. Pois o ódio, entendem, é a mãe do que eles chamam de amor.Infelizmente, o amor que deveria nascer do ódio nunca nascerá. O ódio é estéril; não gera nada além da imagem de sua própria fúria vazia, de seu próprio nada. O amor não pode vir do vazio. Ele é cheio de realidade. O ódio destrói o verdadeiro ser do homem ao lutar contra a ficção que ele chama de "o inimigo". Pois o homem é concreto e vivo, mas "o inimigo" é uma abstração subjetiva. Uma sociedade que mata homens reais para livrar-se do fantasma de uma ilusão paranóide já está possuída pelo demónio da destrutividade, porque se tornou incapaz de amor. Recusa-se, a priori, a amar. Não se dedica a relações concretas entre pessoas, mas apenas a abstrações a respeito de política, economia, psicologia, e até, às vezes, religião.

Thomas Merton

9 comentários:

  1. O amor, para mim, é um misterio nâo resolto. Acho que dentro de este conceito, o ódio, é a forma mais imperfeita, mais carnal, mais inacabada do amor. Ele mesmo, o ódio, é amor q está cheio de defeitos e intençoes nefastas. Mas, é, no fundo, uma forma muito imperfeita do propio amor. As polarizaçoes existem culturalmente mas, em sí, nâo como totalmente contrarios, ou, extrapolados, mas sim como matizes distintos de uma mesma coisa. Será essa coisa o amor?..nâo sei.

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  2. Luís Enrique,

    o amor é um mistério, mas entretanto temos de ver com que linhas nos cosemos. E cosemo-nos muito mal, a maior parte das vezes.

    Mas o amor sendo mistério tem de ser concreto, tem de se exprimir na vida, em pessoas concretas. E essas ou amamos ou rejeitamos.

    Mais facilmente enchemos a boca de amor, os nossos discursos estão cheios disso. Do ódio não falamos tanto, mas se calhar praticamos mais.

    Mas eu estou como o Merton; não sei como é que do mal pode vir alguma coisa boa. Acho que não vem mesmo, o que mantemos é as ilusões. Temos uma vocação extraordinária para a ilusão.

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  3. Mas essa é a ideia a que eu quero chegar. Culturalmente, definimos conceitos, ideias, com a intençâo de situar-nos numa posiçâo "geografica" (entende-se por lugar determinado psiquicamente falando) e culturalmente na vida e defini-lo. Mal e bem, amor e ódio, sâo conceitos, que, normalmente e culturamente sâo polarizados, colocados em pontos opostos somente por uma questâo situacional mas q, em sí, éstes sâo abstratos e ilusorios.

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  4. E estou de acordo com com isso de que "temos uma vocaçâo extraordinária para a ilusâo". Agora, nâo sei se foi o Merton que chegou a essa conclusâo mc ou foi vc. É, temos essa vocaçâo.

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  5. Disculpe q me extenda mc, mas acho o pensamento do Merton interessante. Ele ubica o ódio num lugar especifico (sendo no fundo ilusorio) e o amor noutro, dizendo ele q das relaçoes humanas florescem as causas "positivas" e do seu contrario o vazio. Mas isto conceptualiza ainda mais estos pontos, já nâo "ilusoriamente" contrarios, como conceitos culturais, mas sim como alguma coisa de muito concreta q, inclusive, atuam intrinsecamente no comportamento do homem. Mas isto se lhe chama, como eu digo, extrapolaçâo dum conceito, q visto desde um ponto de vista subjetivo se converte numa visâo geral.

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  6. estás "disculpado", homem. :)

    eu bati os olhos neste texto, depois de reflectir um pouco nas causas das guerras e nomeadamente a que anda lá para o médio oriente. E como as opiniões se dividem a analisar a coisa. E como se toma partido. Acho bem que se analise, já o tomar partido...

    e as ilusões, são mesmo minhas. O Merton era um místico, não dado a ilusões.

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  7. Isso q vc "diz" (escreve) é correcto mc, vc ainda foi mais longe, repare.

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  8. The worst sin towards our fellow creatures is not to hate them, but to be indifferent to them; that's the essence of inhumanity.
    G.B. Shaw

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  9. You are done for--a living dead man--not when you stop loving but stop hating. Hatred preserves: in it, in its chemistry, resides the "mystery" of life.
    Emile Cioran

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