2006-08-24

O suicida

O suicídio
não é algo pessoal
Todo suicida
nos leva
ao nosso funeral

O suicida
não é só cruel consigo.
É cruel, como cruel
só sabe ser
- o melhor amigo.
O suicida
é aquele que pensa
matar seu corpo a sós
Mas o seu eu se enforca
num cordão de muitos nós.

O suicida
não se mata em nossas costas.
Mata-se em nossa frente
usando seu próprio corpo
dentro de nossa mente.

O suicida
não é o operário
É o próprio industrial, em greve.
É o patrão
que vai aonde
o operário não se atreve.

Todo homem é mortal.
Mas alguns, mais que outros,
fazem da morte - um ritual

O suicida, por exemplo,
é um vivo acidental.
É o general
que se equivocou de inimigo
e cravou sua espada
na raiz do próprio umbigo.
Mais que o espectador
que saiu no entreato,
o suicida
é um ator
que questionou o teatro.

O suicida
é um retratista
que às claras se revela.
Ao expor seu negativo,
queima o retrato - e se vela.

O suicida, enfim,
é um poeta perverso
e original
que interrompeu seu poema
antes do ponto final.

Affonso Romano de Sant'Anna

5 comentários:

  1. MC:

    ;Mais um poeminha feito de repente.



    O suicida
    é um morto-adiado;
    tanto pode matar-se num dia útil
    como num feriado.
    O suicida
    congemina a todo o instante a sua morte;
    se não consegue matar-se hoje
    espera amanhã ter melhor sorte.
    O suicida
    faz da vida gato-sapato
    pensando sempre em morrer;
    não faz como eu que não me mato
    que deve fazer doer.

    legível/Alberto Albertto

    Bjs.

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  2. "não faz como eu que não me mato
    que deve fazer doer"

    Por vezes matamo-nos, em mil e uma coisas. Se a dor vem a seguir é bom sinal. Para a próxima vamos com mais cuidado...

    Mas a tal, definitiva, pois deve fazer doer. É melhor estarmos quietos. :)

    Beijos, Alberto Albertto :)

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  3. Confissão: durante muito tempo, apenas não me suicidei porque a religião não mo "permitia".

    O grande problema para os suicidas é que se matar deve fazer doer, às vezes viver faz doer muitíssimo mais. Tanto mais que uns meros cinco minutos de vida podem ser absolutamente insuportáveis. É como as dores combinadas de morrer um familiar próprio e de acabar uma relação amorosa, tanto tempo que se acaba por perder a esperança de alguma vez isso vir a passar. E é acima de tudo quando morre a esperança de se vir a ultrapassar isso que a morte se torna a única saída.

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  4. /me

    Não cabe num post e respectivos comentários tratar do suicídio e suas implicações.

    Para mim, o suicídio é um drama, para os que o fazem e para os que ficam, testemunhas mais ou menos próximas.

    Crescer faz doer, viver também. Mas viver não é um acto isolado. Precisamos uns dos outros, para irmos superando as várias dores, com que a vida é composta. A uns exige-se atenção ao outro. E a cada um, exige-se que não se feche aos outros e à vida. Pedir esta atenção e este cuidado, a uma sociedade, onde cada vez mais, somos desconhecidos uns para os outros, é quase pedir o impossível. Mas há sempre pequenas clareiras de afectos, de partilhas, de compromisso que urge desenvolver e partilhar. Se estamos mais isolados, também temos muitos mais meios de comunicação. Há é que viver atento e saber servirmo-nos do que temos à nossa disposição.

    Para ti, tenho um abraço (virtual é certo, mas não menos sentido)e à disposição para o que precisares.
    Obrigada pela tua confissão.

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