2006-09-29

Bom fim-de-semana


Eu, porém, confiarei na tua misericórdia. O meu coração alegra-se com a tua salvação. Cantarei ao Senhor pelo bem que Ele me fez. (Sl 13,6)

aqui fica...

Não era para escrever nada disto, mas aqui fica. Pode ser útil a alguém ("o diabo seja cego surdo e mudo"). Fiz ontem as famosas biópsias. Estava calma, como tenho andado por estes dias. É o meu estado, para situações de crise. Depois logo se vê...
Na sala de espera (que é no corredor), impressionou-me o número de mulheres da minha idade e mais novas que estavam para o mesmo.
A biópsia não custa nada. Impressionam à vista, os "artefactos" utilizados, mas o processo é praticamente indolor. Agora é esperar.

"A pessoa transparente..."

A transparência é uma das características que melhor define a pessoa integrada e bem realizada. A transparência é o efeito e irradiação do diálogo fecundo entre o eu consciente e o eu profundo. O eu consciente capta os apelos e solicitações que jorram deste eu profundo. Escuta a sua natureza essencial e realiza uma síntese entre o que é na realidade profunda e aquilo que sente, pensa, quer e sonha na realidade empírica.
Importa não confundir sinceridade com autenticidade. A sinceridade situa-se no nível do eu consciente: a pessoa sincera diz o que pensa e age conforme a sua ideia. Mas não necessariamente é autêntica. Pode não ouvir o seu eu profundo e as suas moções. Não é inteira porque não engloba todo o seu ser consciente e inconsciente. A sintonia fina entre os dois eus a faria autêntica e transparente. Sempre que esse processo ditoso acontece, a pessoa revela deñsidade e inteireza. Não possui dobras é diáfana. É transparente e autêntica. Mostra leveza em todo o seu ser e em tudo o que faz. O seu humor é sem amargura, seu desejo é sem obsessão, a sua palavra é sem segundas intenções. A transparência constitui uma das características essenciais da divindade. A pessoa transparente se move na esfera do divino.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

2006-09-28

transparência

Os cristãos dos primórdios chamavam Jesus de Teântropos. Com esta palavra que combina Deus e homem (Teo=Deus; Antropos=homem) visavam expressar a unidade singular dessa realidade divino-humana. Em vez de falarmos de divindade e de humanidade poderíamos também falar da coexistência e de interpenetração da imanência (humanidade) com a transcendência (divindade). Tal coexistência produz a transparência.
Transparência é o termo que traduz a inter-retro-relação da imanência com a transcendência. A transparência é transcendência dentro da imanência e imanência dentro da transcendência. A transparência faz com que a imanência - no caso a humanidade de Jesus - se torne diáfana e translúcida, deixando de ser opaca e pesada. Faz também com que a transcendência - no caso a divindade de Jesus - se torne densa e concreta, deixando de ser etérea e abstracta.
É a transparência, e não a transcendência, que define a singularidade do cristianismo. Ela traduz adquadamente a verdade do Teântropos, o mistério da encarnação de Deus na nossa carne quente e mortal.
Por causa dessa transparência, o próprio Jesus podia dizer:"quem me vê a mim, vê o Pai". O Pai (transcendente) se fazia transparente na vida, nas acções, na palavra e no projecto de Jesus (imanente).
No Pai-Nosso encontramos também a presença das duas dimensões, transcendência e imanência. Elas não são paralelas, mas unidas. Reza-se:"Pai nosso que estais no céu" (transcendência) e "o pão nosso de cada dia nos dai hoje" (imanência). Aqui se une o céu e a terra, se articula o impulso para cima (Pai) com o movimento para baixo (pão) e se junta louvor ao Pai celestial com o fruto do trabalho humano. Eis a transparência.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

2006-09-27

gosto que gostem de mim


Hoje recebi esta prenda. Obrigada!

Sei que há por esse mundo fora, mulheres lindas, fantásticas, encantadoras, fora de série. Mas eu sou única. É assim que me vejo, sem complexos, nem vaidades. Cada uma delas, também o é. Basta descobri-lo.









..."cuida de ti como um tesouro"

"Como sintetizar imanência e transcendência?"

...Jesus Cristo é aceite pela fé dos cristãos como sendo simultaneamente homem e Deus. Um homem tão radicalmente humano que seus discípulos concluíram:humano assim, só mesmo Deus. Um Deus com tal simpatia pelos seres humanos, com tal capacidade de identificação com os mais marginalizados, pobres e excluídos, com tal misericórdia para com os filhos pródigos e extraviados que, num excesso de paixão e de amor, Ele mesmo se fez humano. Em Cristo encontramos juntas, sem mistura e sem confusão, a inteira humanidade e a inteira divindade. As duas realidades - a humana e a divina - estão de tal maneira incluídas uma na outra, de tal forma abertas e recíprocas uma à outra, que vivem em esponsório místico. No dizer forte da Escritura, são dois numa só carne qual duas pessoas que se amam apaixonadamente. E o humano e o divino em Jesus é ainda mais forte que essa união de amor.
Jesus, Deus-homem, é semelhante à natureza da luz. Toda a luz é simultaneamente partícula material e onda energética. Somente entendemos a luz se assumirmos conjuntamente a partícula e a onda. Assim também, só entendemos bem Jesus, se num só olhar, abraçarmos o humano e divino nele. Curiosamente, Jesus foi apresentado como a luz, a Luz verdadeira que ilumina cada pessoa que vem a este mundo e não apenas os baptizados e seus seguidores. Ele é um dos arquétipos centrais do inconsciente da humanidade, o arquétipo da Imago Dei (imagem de Deus) e do Filho de Deus.

A singularidade do cristianismo consiste em não separar, nem justapor, Deus e ser humano. Mas uni-los de tal forma que ao falar do ser humano, falamos de Deus e ao falar de Deus, falamos do ser humano.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

A mulher sentada

Mulher. Mulher e pombos
Mulher entre sonhos
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.

(A visita espera na sala,
a notícia, no telefone,
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela)

Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse

João Cabral de Melo Neto

Espalda desnuda de una mujer sentada-Diego Rivera

2006-09-26

Parabéns, pá!

Soube através deste rapaz, que o blogue do Timshel já completou três anos. Parabéns!
No teu regresso à blogosfera, resolveste manifestar de novo, o teu amor aos neoliberais, e já vais com duzentos e tal comentários. É obra.
Como o José, também não entendo a tua devoção pelo pregador venezuelano. Mas quem sou eu para me pronunciar sobre as devoções dos outros?!!!

"O realismo dá segurança"

Mas depois não há a mão amiga do Sagrado. À beira do precipício, esperando à beira do precipício. A vertigem.
Viver religiosamente, porque não se pode viver misticamente, metafisicamente. O religioso obriga-nos a assentar os pés na terra. Na moral. Na história. A religião torna-se história. O indizível parece dar lugar ao dizível. A religião tranquiliza.
A metafísica desafia tudo. Mas, a partir da religião, pode-se de novo, por momentos, chegar ao inefável, ao insondável, ao "metafsico".
Depois, novamente respirar. Repousar na religião; no religioso. Uma vez apercebido o mistério, vertiginosamente apercebido, retorna-se ao bem, e ao mal, podemos apoiar-nos nele, podemos voltar à vida....De facto onde nos apoiamos é no realismo. O realismo é consolável. O realismo dá segurança. Realismo! Realidade dada à esperança. Solidez. Ó religioso, o realismo dá peso à aparência...Porque afinal também a aparência é verdadeira. Ela é o ornamento da criação. Faz-nos compreender que a Ilusão é também Verdade.
A verdade fundada na Ilusão não é menos verdadeira, a Ilusão também é verdade, quero dizer que a aparência tem um lado muito real.

Eugène Ionesco - A Busca Intermitente

2006-09-25

ufa!!! Quem pode com estas mulheres?

A Maria, saiu um bocadinho irrequieta. Algo está a mudar no mundo feminino da minha família. A Sofia, quatro anos, questiona o pai:
- Ó pai!!! Porque é que engravidaste a mãe dum bébé tão chato?

Quero ver...

...até onde me leva, a lembrança do teu sorriso!

canais oficiais

Continua a subsistir na Igreja Católica, a ideia de que Deus só se comunica através dela. E nela, de forma hierárquica - começando no sucessor de Pedro e seguindo no restante Magistério.

Ontem, na missa em que participei, pedia-se que o Islão compreendesse o Papa. Sem dúvida, que isso é necessário. Mas também o Papa e a Igreja toda, tem de escutar Deus que nos fala, que se nos comunica, através do mundo.

"Bastará o medo?"

“ Onde há um amor profundo, simples, total, pelo homem, inclusive por todos os seres vivos, e ainda mesmo pelas coisas inanimadas, haverá então respeito pela vida, pela liberdade, pela verdade, pela justiça, e haverá um amor humilde por Deus. Mas quando não houver amor pelo homem, nem amor pela vida, então podemos fazer as leis que quisermos, baixar todos os éditos, celebrar todos os tratados, promulgar todos os anátemas, poderemos levantar todas as barreiras, promover todas as inspecções, encher o espaço de satélites-espiões e até mesmo pendurar na lua máquinas fotográficas. Enquanto considerarmos o nosso próximo como um ser a quem devemos essencialmente temer e odiar, de quem devemos desconfiar e a quem devemos destruir, — não haverá possibilidade de paz sobre a terra. E quem poderá dizer se bastará o medo para evitar uma guerra de aniquilamento total?”

Thomas Merton in sementes de destruição

2006-09-22

Bom fim-de-semana


De longe, o SENHOR se lhe manifestou:Amei-te com um amor eterno. Por isso, dilatei a misericórdia para contigo. (Jeremias 31,3)

Evangelho Lucas 8, 1-3

Em seguida, Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus. Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens.

As mesmas dificuldades, o mesmo modo de pensar em relação à mulher, continuam dois mil anos depois, dentro da Igreja. Enquanto na sociedade, a mulher tem progressivamente assumido o seu papel de igualdade com o homem, na Igreja isso ainda não acontece.
Argumentam-se razões teológicas, de Tradição, mas a única de que não se fala, que não se admite, é a discriminação de que a mulher ainda é alvo.
À mulher, a nível de serviços, tudo é permitido fazer na Igreja. Não lhe é permitido assumir um papel de destaque em igualdade com o homem, nos ritos e no governo da Igreja.
Homem e mulher, Deus os criou à sua imagem e semelhança. Com os mesmos direitos e deveres.

O direito da mulher, com os seus carismas, servir a Igreja em igualdade com o homem, vem da acção libertadora de Jesus Cristo. Enquanto ele não existir, a Igreja prega com palavras, o que nega em acto.

Lugar Nenhum

O descanso de tuas palavras
Tem uma luz mansa
de abajur
Frágil, intocada
Luz, no leve perpassar do tempo
Embaraçando cabelos
Desatando mentes
Cá na escuridão do mundo

A rebeldia que nos alimenta
Vem talvez do fel
Derramado pela serpente adâmica
Vem talvez da morte
De heróis que não se sabiam
Vem talvez da dor
De crianças desnascidas
Vem talvez de nós
E dessa vontade incontrolável
De ser.

Damário Cruz

2006-09-21

"O diálogo em tempos de fundamentalismo religioso"

...Não há como desconhecer a presença do fenômeno fundamentalista em curso no Islã. Mas seria incorreto e equivocado concluir que todo o Islã é fundamentalista, como afirmou ultimamente o historiador inglês Paul Johson[33]. Na verdade, “a atual explosão integralista, nas suas várias formas e facetas, significa certamente um fenômeno profundo e preocupante mas claramente minoritário (e se espera não duradouro) da secular tensão entre tradição e modernidade, entre sabedoria divina e sabedoria humana que caracteriza o Islã desde suas origens”[34] As formas mais “explosivas” e contundentes dos movimentos islamitas acabam prevalecendo e abafando a realidade mais ampla e complexa do fenômeno do Islã. A exigência de uma relativização não invalida a importância de um trabalho crítico e científico que deve ser feito em favor da compreensão da tradição islâmica para além das transgressões que ela sofreu ao longo da história[35]. Não se pode, entretanto deixar de acentuar a difícil e dolorosa situação que vem provocando a insurgência e afirmação fundamentalista no Islã. Embora seja difícil diagnosticar com precisão as causas deste fundamentalismo, não há como negar sua realidade de “efeito objetivo de fatores cuja eliminação requer nada menos que uma correção de rumos na estrutura de nossa modernidade”[36]...

O texto completo escrito por Faustino Teixeira, teólogo brasileiro e formado em Ciências das Religiões, encontra-se aqui.

isto deve ser do tempo...

A serenidade e o medo, caminham lado a lado. A verdade é que são coisas de mais para uma mulher só. Ah, não fossem o carinho e ternura dos amigos!...

Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? (Lc 11,11)

2006-09-20

carta aberta

Meu querido amigo José e irmão na fé,

li o teu desbafo, escrito com muita clareza, e com a sensibilidade que te caracteriza. Desculpa, mas vou discordar dele. Ou melhor, não discordar totalmente, mas dar-lhe outra dimensão. A verdade, acreditamos, é Deus. Nós procuramos, experimentamos, sentimos reflexos dela.
Falas de Frei Bento Domingues. Eu acrescentaria outros teólogos, não só os da Teologia da Libertação, mas todos os que exprimem um pensamento diferente da ortodoxia. Há muitas formas de tirar a vida. Não se morre só de "morte matada". A linha de "pensamento único" na Igreja é uma forma de morte. A morte das consciências. Não sei qual será mais dolorosa. Por isso, entendo tão bem, os que, perante as palavras do Papa em relação ao Islão, se sentiram agredidos com elas. Não estava o Papa a acusar o Islão de uma coisa que ele próprio, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fez abundantemente?

Também subscreves, embora mostrando uma certa "náusea", as palavras do VPV, sobre o pedido de desculpas. Aí, divirjo totalmente. A essência da nossa fé é Jesus Cristo. Se um Papa, se sente, nesta situação concreta, acima de qualquer necessidade de pedir desculpa, então não sei o que fazer do mandamento do amor e inerente a ele, a atitude de em qualquer situação, e sempre, exercer o perdão, e pedi-lo quando necessário.

Acho que o Papa devia pedir perdão, pelo que disse e pela atitude de fundo que lhe permitiu dizer o que disse: a sobranceria religiosa, de que a Igreja Católica, é a única via válida de acesso à salvação.
Devia também pedir perdão em memória da irmã Leonella Sgorbati, que ao contrário dele, segundo testemunho de outra irmã da congregação, nas suas últimas palavras foram apenas:"perdoo", "perdoo", "perdoo". Devia o Papa pedir perdão ao seus familiares, amigos, às pessoas que beneficiavam da sua acção missionária, porque numa atitude imprudente, talvez de sobranceria intelectual, acendeu o rastilho que muito directamente, levou à sua morte.

Desculpa, este rebate público, ao teu desabafo. Vejo nele, reflexos de verdade. A violência em nome da Religião muçulmana, não pode ser minimizada. Ela existe e faz muitas vítimas. O meio que o Papa usou para se referir a ela, continuo a achar que não foi o mais próprio.

2006-09-19

lamentação amorosa


Vou cantar em nome do meu amigo o cântico do seu amor pela sua vinha: Sobre uma fértil colina, o meu amigo possuía uma vinha.
«Agora, pois, habitantes de Jerusalém, e vós, homens de Judá, sede juízes, por favor, entre mim e a minha vinha.
Que mais poderia Eu fazer pela minha vinha, que não tenha feito? Porque é que, esperando Eu que desse boas uvas, apenas produziu agraços?


Isaías 5, 1-4

"Eh, meu Deus, quanto jeito que tem de ter amor!"

Diz a Adélia Prado e digo eu! Este fim-de-semana, pude constatar, mais uma vez, como isto é verdade. Conheci pessoas muito bonitas. Que sabem amar sem reservas, sem acepção de espécie alguma. Refiro-me à Isaura e família. O migalhas, também mostrou que sabe tão bem estar presente na dor, como na alegria.
Fiquei com a minha confiança na humanidade, reforçada. Enquanto houverem pessoas que saibam amar assim, a vida faz todo o sentido.

"Lei da natureza: que natureza?"

"Nas discussões relativas à sexualidade, ao uso dos preservativos, ao homossexualismo e à manipulação genética geralmente o discurso católico oficial faz constante apelo à lei natural para justificar seu decidido "não". De que natureza, afinal, se trata? A leitura que as autoridades eclesiásticas fazem é dependente da filosofia neo-escolástica para a qual a natureza humana é algo imutável e reflexo da ordem inviolável da criação. A razão seria apenas um órgão de simples leitura das normas já dadas de antemão pela natureza.Este é um tipo de representação (metafísica) possui grave inconveniência: abstrai de algo essencial ao ser humano que é seu caráter histórico, sua capacidade de diálogo e de intervenção nos processos da natureza. Não reconhecer esse fato faz com que não se valorize a autonomia e a criatividade do ser humano, tão caras à modernidade e também à concepção bíblica. Assim, se torna estéril a contribuição católica ao debate ético atual referente às células-tronco e ao uso de preservativos para evitar a disseminação da AIDS que afeta milhões e devasta várias nações da África.

Somos a favor do recurso à lei natural desde que se atenda à dialética que preside o ser humano. Por um lado ele está dentro da natureza e é parte dela. Por outro, está vis-à-vis à natureza, porque, por sua criatividade, intervém nela introduzindo mudanças consoante seus projetos. Ele é construído por estas duas forças: pela natureza, sempre em evolução e pela história também sempre cambiante, fruto de sua liberdade. É um dado da natureza, que o faz diferente dos animais, das plantas e das bactérias e é um dado da história, feito pela liberdade. Ambos os dados são realidades abertas.
Esta situação complexa torna difícil uma definição do que seja a natureza humana. Ela não está fixada uma vez por todas. Está ainda se construção. Nenhuma compreensão compreende tudo dela. Isso faz com que o ser humano nunca esteja contente consigo mesmo, mas queira sempre ir além e se auto-superar. Por isso, a compreensão não pode ser substancialista e fechada, mas evolutiva e aberta.

Resumindo podemos dizer: a natureza humana é inteira mas inacabada. Resulta da combinação da natureza e da história. Encontra-se sempre em gênese. Como tal, ela não prescreve nenhuma norma de ação concreta. Ela funciona como um rizoma (conjunto de raízes) que apontam para múltiplas direções possíveis. Qual direção tomar?
Cabe à liberdade e à responsabilidade, pessoal e coletiva, definir uma determinada direção. O tipo de direção que tomar, vai dizer o que é ético ou antiético, responsável ou irresponsável. A direção que diz: "cuida e promova a vida" funda o princípio supremo da ética. Tudo o que ajuda e expande a vida é eticamente bom. Tudo o que diminui e ameaça a vida é ruim. A despeito da morte, a vida é chamada à vida. É o imperativo da natureza e o desejo da história.
O ser humano, portador desta natureza, deve estar sempre atento aos apelos que a vida e a história lhes colocam. Hoje, por exemplo, usar preservativos ou células-tronco por amor à vida seria ético. Proibi-lo, em nome de uma pretensa lei natural que, obedecida, acaba por ameaçar e até matar a vida, seria antiético e irresponsável.
Esta visão é confirmada pelas Escrituras: "vos proponho a vida e a morte; escolhe a vida para que vivas" (Deuteronômio 30,19) e por Jesus: "vim trazer vida e vida em abundância" (João 10,10). Servir à vida, em todas as suas formas, também à divina, eis é a suprema destinação da ética."

Leonardo Boff agência Adital

2006-09-18

E agora o Papa...

Parece que Bento XVI, foi acometido por uma virose feminina (o que vale é que há poucas mulheres a ler isto), e, falou primeiro, pensou depois.
Hoje, estou que nem Pilatos: nem lhe dou razão a ele, nem aos fundamentalistas que para exercer o desagravo; assassinam, incendeiam, violentam.
Mas se a humildade, fosse o pão-nosso de cada dia, da Igreja Católica, talvez estas coisas não acontecessem.

Adenda: eu lavo as mãos, nós lavamos as mãos. Enquanto filosofamos, o sangue dos mártires corre. A irmã Leonella Sgorbati, missionária da Consolata e o seu guarda-costas foram assassinados. É assim o mistério da vida; amor e ódio caminham lado a lado.

"Contra factos não há argumentos"

Muitas pessoas, nascem naturalmente generosas. Outras, têm de se "espremer" todas, e nunca chegam aos resultados das primeiras. Eu sou do segundo grupo, naturalmente!

2006-09-15

com dedicatória


"As muitas águas não puderam extinguir o amor, nem os rios terão força para o submergir"

Para A. e A. com toda a minha ternura.

2006-09-14

"Crucificados com Cristo"


"Estamos na festa da “Exaltação” da Santa Cruz”. Trata-se desse sinal que identifica o cristianismo mundialmente, como a meia lua identifica o islã ou a estrela de seis pontas, formada por dois triângulos eqüiláteros, significa o judaísmo.
Dentro da mentalidade mágica, a cruz teve na história quase tanto valor como o Cristo que nela foi crucificado. “O sinal-da-cruz” espantou o demônio, afastou maldições, persignou devotos, foi traçado milhões de vezes no ar, derramando bênçãos benfazejas.
Na religiosidade popular, Cristo foi, sobretudo, o sofredor, o condenado, açoitado, crucificado, homem das dores, morto entre sofrimentos insuportáveis. A cruz tem sido o sinal da dor, tanto da de Cristo, quanto do universo. Para os cristãos, o sofrimento de Cristo tem referência universal.

A inevitável dimensão dolorosa da cruz faz com que sua “exaltação” não deixe de implicar problemas. Alguns agentes de pastoral, com freqüência, tratam de evitá-los, fugindo do assunto, não se referindo a eles, olhando para o outro lado, falando de outra coisa. Nem sempre esse método evasivo é o melhor serviço que se pode prestar ao povo cristão. Cremos que é melhor encarar os problemas de frente e dar-lhes nome e limite. É o que vamos tratar de fazer.

O primeiro grande perigo é essa mesma “exaltação” da cruz, pelo que possa ter de exaltação do sofrimento pelo sofrimento, como se tivesse um valor cristão por si mesmo. Ainda se conserva uma imagem de Deus dolorida e amante do sofrimento, que parece alegrar-se quando vê sofrer, ou que somente dê sua graça ou sua benevolência ao ser humano em troca de sofrimento.
Muitas promessas da religiosidade popular se fazem sobre esse esquema: eu me sacrifico, ofereço a Deus um dano que faço a mim mesmo, como “um pagamento feito a ele em troca do favor solicitado”... Este Deus diante do qual o que vale e o que lhe agrada é o sofrimento não é um Deus cristão; a exaltação de uma cruz que incluísse uma imagem de Deus assim não seria uma exaltação cristã.
É um gravíssimo problema essa teologia que ainda anda por aí, segundo a qual Deus enviou seu Filho ao mundo para sofrer, e sofrer horrorosamente, porque Ele seria o único capaz de oferecer uma reparação infinita à dignidade de Deus ofendida pelo ser humano num “pecado original” (que historicamente não teve lugar)...
Sem fundamento real no Evangelho, esta teologia foi surgindo com o passar dos primeiros séculos, e santo Anselmo de Cantuária (século XI) deu-lhe a configuração com que chegou até nós através dos catecismos infantis.
É a visão clássica da “redenção”, a morte de Jesus na cruz redentora, que “paga” com seu sofrimento ao Pai para que este concorde em restabelecer a boa ordem de suas relações com a Humanidade. Estreitamente unido a essa teologia está o “sacrifício” de Cristo na Cruz. Uma teologia que, por uma parte, hoje em dia, evidencia uma imagem de Deus que se torna inaceitável; por outra, trata-se de uma teologia que ainda figura –inexplicavelmente– nos documentos oficiais...
Celebrar a Exaltação da Santa Cruz sem abordar esses problemas pode ser mais cômodo, mas não mais sincero nem mais proveitoso ou pedagógico.
A cruz de Cristo não deveria ser utilizada como símbolo de tudo aquilo que em nossa vida humana exista de limitação estrutural, de finitude natural. Esta é uma dimensão natural de nossa vida humana (“das cruzes da vida”), e a cruz de Cristo não tem nada de “natural”, mas sim tem tudo de “histórico”. Na cruz de Cristo –se não quisermos cair em mistificações– não entram suas dificuldades e limitações humanas, nem as nossas:enfermidades, limitações, acidentes nem a má sorte. Isso não é a cruz de Cristo mas momentos e peculiaridades da vida humana, que se tem de saber levar e superar com graça e com boa vontade.
A cruz de Cristo não foi um “desígnio de Deus”, mas humano. Jesus , por sua parte, tampouco buscou a cruz: “Afasta de mim esse cálice”. E por parte de seus discípulos nunca deverá ser buscada a cruz, por si mesma.
Aquele “Ave Crux, Spes única!” (“Salve, ó Cruz, única esperança”) do adágio clássico, deve ser tomado com muitas “cautelas” no modo de entendê-lo. Nem Deus, nem Cristo, nem nós devemos “amar a cruz”, mas, ao contrário, devemos “combatê-la”. A tarefa do cristão, como a de Jesus, é combater a cruz, libertar o ser humano do sofrimento, “fazer todo o bem que se possa”, como dizíamos, comentando o evangelho do último domingo.
Claro que, ao lutar contra a cruz, acontece levantar-se a animosidade dos que estão interessados egoisticamente nos mecanismos de opressão, pessoas e estruturas que imporão uma cruz sobre quem luta para libertar o ser humano de toda a cruz. Outro adágio mais moderno e mais correto diz: “Se buscares a Verdade, já te porão a Cruz”. Não há necessidade de se procurar a cruz, embora não se deva retroceder um milímetro na Verdade e na luta pela Justiça, com medo da cruz que nos imporão...
Concluindo, o que precisamos exaltar não é a cruz, mas a coragem de Jesus, que optou pelo Reino e pelo amor sem medo da cruz que estava certo que ia encontrar e chegou mesmo a prever que lhe iam impor. A exaltação da fidelidade de Jesus à Causa do Reino é o verdadeiro conteúdo desta festa.
Algumas pessoas se assustam quando se fazem estas releituras críticas. Parece-lhes uma atitude negativista... Preferem que se fale somente do positivo, e que o restante permaneça oculto, como superado pelo esquecimento... Não compartilhamos dessa opinião.
Estamos num momento de transição teológica, passagem que se faz devagar por causa precisamente dessa falta de sentido crítico na teologia e nas homilias. Se os pregadores (e os grupos de formação cristãos) assumissem como tarefa habitual digerir criticamente todos os pensamentos que ainda pesam no cristianismo, sem dúvida que estaríamos em condições de dialogar melhor com o mundo actual.
Por outro lado, toda renovação de pensamento e de vida necessita de um momento de “destruição”, sem o qual, freqüentemente, não é possível uma verdadeira renovação."

Serciço Bíblico Claretiano

2006-09-13

até nem é o mais importante

...Los dos fabricantes de automóviles de Baviera, BMW y Audi, lucharon para repartirse al Papa Benedicto XVI durante su viaje a su región natal, un asunto en el que tuvo que decidir el arzobispado de Munich. ...

Eu sei que no tempo de Jesus Cristo os burros não tinham marca. Mas...

ainda se lembram do plano tecnológico?

Desloquei-me à Repartição de Finanças para efectuar um pagamento. Dirigi-me ao balcão, um solícito funcionário veio atender-me. Com os papéis que levei, dirigiu-se ao computador e começou a emitir as guias de pagamento. Mas disse-me:
-Tem aqui cinquenta euros em dívida. Achei estranho; para pagar, fazemo-nos sempre caros. Mas ele prontificou-se a identificar a situação. Com os elementos que me apresentou, consegui perceber a que se referia. Disse-lhe que emitisse também as guias de pagamento, pois não queria voltar a deslocar-me à Repartição e deixar aquele valor por pagar. Emite as respectivas guias de pagamento e agarra num livro tipo "rol de merceeiro", mas em tamanho XL, e lança os valores que eu ia pagar.
Não consegui evitar: Mas o livro é para quê? Não está tudo lançado no sistema informático?
-Está. Se quer que lhe diga, acho que nem Deus sabe para que serve o livro.
-Assim é difícil, resolver esse problema. Se o livro, nem nos desígnios do Senhor entra...
Mas acho que, o simpático funcionário, não queria que eu fosse dali com mais uma inquietação e acrescenta baixinho:
-É que o chefe não sabe consultar estes elementos através do sistema informático.
-Ah!!!!
Staccato

Uma formiga me detém o passo,
aonde vais, celerado, que não me ajudas?
Mas não é dela a voz,
é dele interceptando-me,
o deus carente.
Se não lhe disser Vos amo,
sua dor nos congela.

Adélia Prado

2006-09-12

precisamos do Outro e dos outros

O eu interior é tão secreto quanto Deus e, como Ele, escapa a todo conceito que tente apoderar-se dele por completo. É uma vida que não pode ser pegada e estudada como um objecto, porque não é “uma coisa”. Não é alcançada nem pode ser persuadida a deixar de se esconder, seja qual for o processo que exista sob o sol, inclusive a meditação. Tudo o que podemos fazer com qualquer disciplina espiritual é produzir dentro de nós um pouco de silêncio, humildade, desinteresse, pureza de coração e desapego que se fazem necessários para que o eu interior faça uma tímida e imprevisível manifestação de sua presença.”

Thomas Merton

Mas para que o nosso "eu interior" se manifeste, precisamos de, continuamente "escavar", para o libertarmos de tudo, com que o vamos soterrando: as nossas inseguranças, medos, preguiças, egoísmo, orgulho, ambições.
Precisamos uns dos outros para, mutuamente, nos ajudarmos, nessa libertação.
A Amizade é um campo, onde esta mútua tarefa, devia ser assumida. Muitas vezes, não é. Entre amigos, com facilidade se trocam mimos e cumplicidades, mais dificilmente se diz, aquilo que ajudaria o outro, a libertar-se das suas "poeiras". Como não o fazemos; alguém tem de o fazer. São sempre aqueles a quem não reconhecemos "autoridade" para tal. Tem de se descobrir o sentido da amizade - ajudar a libertar o nosso "eu interior".


Adenda:
Ler este post em conjunto com este artigo de Marcelo Barros.

...Mergulhe no mais íntimo de si sem medo da vertigem provocada pelo inusitado de sua própria identidade. Embriague-se com a sua singularidade e deixe que ela baile no espaço etéreo de sua liberdade. Penetre suas cavernas interiores, explore os subterrâneos de seu inconsciente, deixe que aflorem em revoada todos os anjos que o povoam...


Parabéns...


...José. Pelo terceiro aniversário do blogue (és um ancião), e por tudo.

enquanto espero...


...alguém me faz companhia?

2006-09-11

ponto da situação

Cheguei da consulta. O médico que me calhou é afável. Acho que nos vamos dar bem. O diagnóstico mantém-se, a biópsia que farei no dia 28 é que vai determinar a natureza das lesões. Saberei os resultados na consulta de 16 de Outubro.

Não vou negar que algumas vezes me imaginei a viver uma situação destas. Estou a aguentar-me melhor do que supunha. Quem nos "inventou", dotou-nos com os meios necessários para todas as emergências. Espiritualmente sinto-me em plena estrada de Damasco; só quero o seio de Deus. O resto, passou como que por magia, para segundo plano.
Como tenho mais dum mês pela frente, vou continuar a vida de todos os dias, e aguardar com a serenidade possível, os resultados.

2006-09-09

vocação

Num e-mail que recebi, onde o autor dizia algumas coisas a meu respeito, a primeira reacção foram as lágrimas que correram espontâneas. A segunda foi de protesto. Não, não, isso não é verdade, não sou nada disso. E a terceira que me deu muita paz, foi: mas podes vir a ser. De que é que estás à espera?

euzinha

Várias coisas me definem. Uma delas, é que onde estou, estou bem. Sou meio "camaleónica"; integro-me no meio sem perder a individualidade. Não, não gosto nem uso disfarces, o que tenho, é mesmo uma grande capacidade de adaptação.
No modo de me relacionar, já passei (como toda a gente) por várias fases; já fui tímida e reservada, já falei muito para disfarçar silêncios interiores, mas sempre mantive uma grande capacidade de escuta. Hoje sinto-me equilibrada, comunico o que quero comunicar e calo o que quero calar. Mesmo que esteja só, nunca me sinto sozinha; carrego em mim multidões. Mas o melhor, o melhor de tudo é que em cada fase, sempre esteve a pessoa ou pessoas certas, para me levarem mais longe.

2006-09-08

ajuda-me

Deus das surpresas,
Tu é que deves estar surpreendido,
comigo: ainda não refilei quase nada.
(Também ainda a procissão vai no adro)
Ainda comecei - que uma coisa destas, nesta altura,
não calha nada bem: Tenho aquele assunto e o outro...
Mas atiraste-me com a "artilharia toda":
família ainda mais melosa do que é costume,
amigos, idem, idem.
O pessoal da interneti cheio de carinho.
E mandaste-me a Elisa.
Na mesma situação, mas ainda mais assustada.
E sem apoio de lado nenhum.
Ajuda-me a encontrar palavras,
para a confortar.

2006-09-07

os padres...

Já tinha ameaçado o Pedro, o JS ofereceu-se logo para o contraditório (JS, JS estás sempre à espera que eu venha para aqui desestabilizar) que faria uns textos sobre o simpósio do clero, a decorrer em Fátima. Ou, não propriamente sobre o simpósio, mas mais sobre as questões que se relacionam com o ser padre.

Para já, tudo começa mal logo com o nome. Padre é pai. Pedir a um jovem de vinte e quatro anos, acabado de ordenar, depois de seis anos de seminário, longe das comunidades, em ambiente “protegido”, para ser “pai” de uma comunidade heterogénea, com um ambiente completamente diferente do que viveu em seminário, (e, muitas vezes, essa, foi a sua experiência mais relevante de igreja), é pedir ao tomateiro que dê abóboras.

Depois, um pai sem mãe, também provoca algum desiquilíbrio. Então, não é a Igreja que defende as famílias modelo; com pai e mãe? Então, aqui, já funciona o modelo monoparental?

Tenho convivido, ao longo da vida, com muitos e variados padres. Tenho dividido alguns dos seus problemas, tenho ajudado, tenho amparado, tenho chamado a atenção quando sinto que é necessário, tenho sido condescendente, tenho-me exasperado, tenho sido ajudada por alguns, tenho-me sentido magoada e ferida por outros, tudo situações que me interpelam, sobre o papel do padre na vida da Igreja.
O papel fundamental, primeiro do padre, devia ser o do profeta. Profeta, que vive em permanente tensão dialogante, entre Deus e a comunidade dos homens.

continua...

relação em crise

A minha alma sempre me deu problemas - insatisfeita, insatisfeita, insatisfeita. O corpo não. Temos tido uma boa relação. O que ele me pede dou, e o que lhe peço, também corresponde (quase sempre). Agora está assim; armado "em cão com pulgas."

Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede! (Jo 7,37)

2006-09-06

crónica do dia de hoje :)

Voltar ao IPO, não foi nada fácil. Foi bater os olhos no edifício, e dum filme de seis longos anos; algumas imagens impuseram-se brutais. Já vivi isto, a acompanhar a minha mãe. Hoje, foi uma das minhas filhas, que dividiu esta primeira etapa comigo. É daquelas coisas, a que gostaríamos de poupar os nossos filhos, mas por muito que os amemos, não lhes podemos evitar estas dores partilhadas.

Foi iniciado o processo, agora é aguardar a primeira consulta. Novidades, portanto, não há.

Agradeço as mensagens de carinho que foram deixando. Eu vou dando notícias, porque acho que vos devo isso. E vou na medida que conseguir, continuar com a actualização normal do blog; a minha vida é muita coisa e não se esgota nesta situação.

Não abusem nas "mariquices" que me escrevem, porque isso só me faz romper em lágrimas, ficar de olhos inchados e vermelhos, portanto; mais feiosa. :)

Sei que Deus está metido nisto comigo. Que de muitos modos, me vai surpreender como tem feito, ao longo de toda a minha vida. Não espero que a fé me livre dos "apertos". Espero viver mais esta prova, com a confiança, de quem sabe que não caminha sozinha. E a prova, está também no vosso carinho.

Um beijinho para todos.

2006-09-05

vamos lá falar claro!

Para explicar o post anterior, e outros. E porque já fiz, por aqui, algumas confissões, e me comovi com outras, que amorosamente, aqui escreveram, confesso mais isto: acabei de receber guia de marcha da minha médica, para amanhã me apresentar no IPO, com a última mamografia que fiz.

Dos vários cenários, preferia o argumento mais curto: A lesão detectada é benigna, vá em paz! Mas sendo a actriz principal, parece-me que não posso escolher o argumento.

Seja o que fôr que aí venha, sei que vou aprender mais umas lições. Já levei a primeira - queria ir sozinha à consulta, não me deixam. É um desperdício estar a gastar energias a armar-me em valente, quando vou precisar delas para outros fins.

E a vida continua - dia-a-dia, que já era o meu lema de vida.

Borda d'água

Diz o povo que Deus dá o frio conforme a roupa. Eu, por mim, vou pôr os agasalhos a jeito.

guardiões de relíquias

Cerca de un centenar de radicales ortodoxos se manifestaron hoy en la plaza Pushkin de Moscú para pedir una "nueva inquisición" y protestar contra la celebración del concierto que la cantante estadounidense Madonna ofrecerá el próximo día 12 en la capital rusa.
"Hemos proclamado una nueva santa inquisición, que luchará contra la profanación de la cruces, de los iconos y de la simbología de la ortodoxia rusa", dijo Leonid Simónovich-Nikshich, líder de la Unión de Abanderados Ortodoxos, organización que convocó el mitin.


Ler mais em: Periodista Digital

Depois dos protestos da hierarquia católica, levantam-se agora "O Carmo e a Trindade" do lado dos ortodoxos. Com tanto Cristo vivo a ser crucificado em guerras, em xenofobias várias, de fome, de miséria material e espiritual, de doenças perfeitamente curáveis desde que fossem assegurados os cuidados básicos, os senhores guardiões dos templos de pedra, das relíquias mortas, preocupam-se com uma encenação de uma cantora. Eu sei que é a Madonna, mas ela não precisava desta publicidade.





Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. (Ez, 36,26)

2006-09-04

peregrinos


Criam-se "guerras" por "tudo e por nada". Uma delas, é a discussão sempre em aberto, entre criacionismo e evolucionismo. O evolucionismo é inegável. As diversas ciências que estudam os reinos; mineral, vegetal e animal o atestam e confirmam.
Mas para o crente, a evolução não é alheia ao "acto criador" de Deus. Como é que isso aconteceu? Acontece? Não são os relatos das duas lendas da criação, descritos no livro do Génesis, o local onde textualmente e literalmente, vamos "certificar", a criação operada por Deus.
Criação e evolução, são duas linhas onde Deus continua, no Mistério, a "gerar" o Universo, onde estamos na condição de peregrinos. Acredito que, na evolução, Deus continua a moldar o "barro" e a soprar-lhe Vida. De forma misteriosa. Mas num mistério que se vai "abrindo" ao Homem. Por isso, o Homem é dotado de inteligência e capacidades para ir percebendo a evolução. Para perceber as consequências dos seus actos, e através deles, não se tornar destruidor do que Deus põe ao seu serviço, mas, por sua vez, colaborar na criação.

"Não temos aqui morada permanente" - gosto de meditar nisto. Porque a nossa vida, sendo a cada momento, envolvida por sinais e sementes de eternidade, ainda não o é de forma plena, acabada. Já está manifesto em nós o que havemos de ser, mas ainda não o podemos disfrutar em plenitude. Ainda a doença, a morte nos espreita. Ainda o egoísmo, o orgulho, a injustiça, a mentira, crescem no nosso coração a par de todas as sementes de bondade e plenitude.

Somos peregrinos. É um facto!

Gosto de observar um grupo de idosos, que todos o dias, se põem junto a uma passagem de nível da nossa terra, onde quase não passam comboios. Mas eles ficam a olhar a linha e a conversar. Olho-os com ternura. Sempre que os vejo, lembro-me desta oração: "Não temos aqui morada permanente. Leva-me mais longe, leva-me mais longe..."

2006-09-01

Bom fim-de-semana


Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo (Mt 6,3)









imagem: Pedro Proença-www.triplov.org

Mar de Setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam:
serenos, dormem:
despertos, amam,
exaltam silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.

Eugénio de Andrade
foto - luz razante - www.fotonostra.com