2006-09-27

"Como sintetizar imanência e transcendência?"

...Jesus Cristo é aceite pela fé dos cristãos como sendo simultaneamente homem e Deus. Um homem tão radicalmente humano que seus discípulos concluíram:humano assim, só mesmo Deus. Um Deus com tal simpatia pelos seres humanos, com tal capacidade de identificação com os mais marginalizados, pobres e excluídos, com tal misericórdia para com os filhos pródigos e extraviados que, num excesso de paixão e de amor, Ele mesmo se fez humano. Em Cristo encontramos juntas, sem mistura e sem confusão, a inteira humanidade e a inteira divindade. As duas realidades - a humana e a divina - estão de tal maneira incluídas uma na outra, de tal forma abertas e recíprocas uma à outra, que vivem em esponsório místico. No dizer forte da Escritura, são dois numa só carne qual duas pessoas que se amam apaixonadamente. E o humano e o divino em Jesus é ainda mais forte que essa união de amor.
Jesus, Deus-homem, é semelhante à natureza da luz. Toda a luz é simultaneamente partícula material e onda energética. Somente entendemos a luz se assumirmos conjuntamente a partícula e a onda. Assim também, só entendemos bem Jesus, se num só olhar, abraçarmos o humano e divino nele. Curiosamente, Jesus foi apresentado como a luz, a Luz verdadeira que ilumina cada pessoa que vem a este mundo e não apenas os baptizados e seus seguidores. Ele é um dos arquétipos centrais do inconsciente da humanidade, o arquétipo da Imago Dei (imagem de Deus) e do Filho de Deus.

A singularidade do cristianismo consiste em não separar, nem justapor, Deus e ser humano. Mas uni-los de tal forma que ao falar do ser humano, falamos de Deus e ao falar de Deus, falamos do ser humano.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

6 comentários:

  1. Sincereamente, eu até gostava de poder ler um texto do Leonardo Boff sem fazer reparos. Esta questão da divindade e humanidade de Jesus Cristo até era uma boa oportunidade. Quem não acredita que Jesus é Deus não é cristão. É, na melhor das hipóteses, ariano, Testemuna de Jeová. portanto, aqui eu e Boff teriamos grandes hipóteses em estar de acordo. Mas o homem estica-se sempre um bocado, tem sempre que "fazer chegar a brasa à sua sardinha".
    "Um Deus com tal simpatia pelos seres humanos, com tal capacidade de identificação com os mais marginalizados, pobres e excluídos, com tal misericórdia para com os filhos pródigos e extraviados que, num excesso de paixão e de amor, Ele mesmo se fez humano."
    Jesus não veio para nos resgatar os pecadores (todos nós)? Jesus não acolheu homens ricos (Zaqueu, Mateus) e poderosos (Nicodemos)? Então porquê estes "mais marginalizados, pobres e excluídos"? Insuficiente leitura bíblica e doutrina politica a mais?

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  2. David,

    o Leonardo Boff é como toda a gente - diz coisas certas e menos certas. Por isso, devemos sempre ater-nos, a discutir as ideias e não a pessoa.

    Mas aqui, no reparo que fazes acho que não tens razão. Ele fala em excluídos, em marginalizados, filhos pródigos...isto tanto cabe a ricos como a pobres. E foi essa a prática de Jesus de Nazaré. E se fores a Lucas, capítulo 6, depois da proclamação das Bem-aventuranças vêm precisamente umas imprecações, contra os ricos. A crer no que lá vem, eles também foram contemplados com a mensagem evangélica. ;)

    O Leonardo Boff, põe uma tónica acentuada, na promoção social? Se calhar nem a põe demasiado - basta olhar para o mundo e ver como tudo continua bem desiquilibrado.

    E se tivesses que ouvir, como eu ainda tive no domingo, na minha igreja, uma apologia enorme sobre a libertação espiritual do homem, como se o homem fosse apenas espírito e tudo o que é a sua vida material, não interessasse para nada. Durante anos este tem sido o discurso da Igreja, que separa alma e corpo, como se fossem duas realidades distintas e separáveis.

    Já era esta a luta de Jesus, contra os religiosos do seu tempo. Que faziam leis e leis, ofertas no templo que exploravam os mais desfavorecidos. Tudo em nome de um Deus que eles tinham inventado á maneira deles.

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  3. E ainda te digo mais: :)

    não admira que Jesus se dirigisse sobretudo aos mais pobres e marginalizados, não são esses sempre mais aberto e disponíveis para acolher? Não têm eles o coração mais liberto? Ou melhor, os ricos saberão o que é e onde têm o coração?

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  4. Meu caro David,
    Parece-me que padeces, como eu padeço, do crónico mal português de deixar introduzir no debate essa coisa feíssima chamada de processo de intenção.
    Consiste em discordar do que é dito pr ter sido dito por quem o disse...
    Eu cá passo a vida a fazer isso!
    O facto é que o texto que a MC nos ofereceu é teologicamente irrepreensível, literariamente apreciável e humanamente amável. Se não soubesses que era do Boff, farias o reparo que fizeste? Não serás tu que estarás a introduzir doutrina política nesta bela leitura bíblica? Hã? ;)
    Abraço, pá

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  5. mc

    Sem dúvida que os ricos têm a tarefa mais dificultada, basta lembrar a parábola do camelo e da agulha. Só que isso não quer dizer que a preocupação de Cristo seja menor com eles do que com os pobres.

    Caríssimo José,

    Talvez tenhas razão quanto ao tal processo de intenção. Talvez se a frase tivesse sido escrita por outra pessoa eu a deixasse passar. Provavelmente sim... Mas,por outro lado, também é por saber o que Boff quer dizer exactamente com aquelas palavras que eu me manifesto. Talvez seja um reflexo (quase) condicionado da mentalidade de minoria religiosa: a intransigência com o erro, o tentar acabar com ele logo à nascença. Porque para a condescendência já estão cá maiorias, não é?
    (Já agora aproveito para te dizer que fico contente por te ver de novo no activo.)

    Um abraço

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  6. Alô!

    Bem, eu venho para uma achega que flui talvez para outros lados que os da conversa mas pronto... Penso ser preciso algum cuidado no entendimento do verbo "ser" na frase "Jesus é Deus"... A consubstancialidade ou igualdade de natureza ou transparência absoluta ou que se quiser gaguejar para indicar a relação de Jesus com Deus, não significa igualdade.

    Este é evidentemente um ponto cristão duro como cimento para o nosso entendimento e sensibilidade, e daí apelar à delicadeza e cuidado na abordagem.

    Abraços, e bom dia

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