2006-09-14

"Crucificados com Cristo"


"Estamos na festa da “Exaltação” da Santa Cruz”. Trata-se desse sinal que identifica o cristianismo mundialmente, como a meia lua identifica o islã ou a estrela de seis pontas, formada por dois triângulos eqüiláteros, significa o judaísmo.
Dentro da mentalidade mágica, a cruz teve na história quase tanto valor como o Cristo que nela foi crucificado. “O sinal-da-cruz” espantou o demônio, afastou maldições, persignou devotos, foi traçado milhões de vezes no ar, derramando bênçãos benfazejas.
Na religiosidade popular, Cristo foi, sobretudo, o sofredor, o condenado, açoitado, crucificado, homem das dores, morto entre sofrimentos insuportáveis. A cruz tem sido o sinal da dor, tanto da de Cristo, quanto do universo. Para os cristãos, o sofrimento de Cristo tem referência universal.

A inevitável dimensão dolorosa da cruz faz com que sua “exaltação” não deixe de implicar problemas. Alguns agentes de pastoral, com freqüência, tratam de evitá-los, fugindo do assunto, não se referindo a eles, olhando para o outro lado, falando de outra coisa. Nem sempre esse método evasivo é o melhor serviço que se pode prestar ao povo cristão. Cremos que é melhor encarar os problemas de frente e dar-lhes nome e limite. É o que vamos tratar de fazer.

O primeiro grande perigo é essa mesma “exaltação” da cruz, pelo que possa ter de exaltação do sofrimento pelo sofrimento, como se tivesse um valor cristão por si mesmo. Ainda se conserva uma imagem de Deus dolorida e amante do sofrimento, que parece alegrar-se quando vê sofrer, ou que somente dê sua graça ou sua benevolência ao ser humano em troca de sofrimento.
Muitas promessas da religiosidade popular se fazem sobre esse esquema: eu me sacrifico, ofereço a Deus um dano que faço a mim mesmo, como “um pagamento feito a ele em troca do favor solicitado”... Este Deus diante do qual o que vale e o que lhe agrada é o sofrimento não é um Deus cristão; a exaltação de uma cruz que incluísse uma imagem de Deus assim não seria uma exaltação cristã.
É um gravíssimo problema essa teologia que ainda anda por aí, segundo a qual Deus enviou seu Filho ao mundo para sofrer, e sofrer horrorosamente, porque Ele seria o único capaz de oferecer uma reparação infinita à dignidade de Deus ofendida pelo ser humano num “pecado original” (que historicamente não teve lugar)...
Sem fundamento real no Evangelho, esta teologia foi surgindo com o passar dos primeiros séculos, e santo Anselmo de Cantuária (século XI) deu-lhe a configuração com que chegou até nós através dos catecismos infantis.
É a visão clássica da “redenção”, a morte de Jesus na cruz redentora, que “paga” com seu sofrimento ao Pai para que este concorde em restabelecer a boa ordem de suas relações com a Humanidade. Estreitamente unido a essa teologia está o “sacrifício” de Cristo na Cruz. Uma teologia que, por uma parte, hoje em dia, evidencia uma imagem de Deus que se torna inaceitável; por outra, trata-se de uma teologia que ainda figura –inexplicavelmente– nos documentos oficiais...
Celebrar a Exaltação da Santa Cruz sem abordar esses problemas pode ser mais cômodo, mas não mais sincero nem mais proveitoso ou pedagógico.
A cruz de Cristo não deveria ser utilizada como símbolo de tudo aquilo que em nossa vida humana exista de limitação estrutural, de finitude natural. Esta é uma dimensão natural de nossa vida humana (“das cruzes da vida”), e a cruz de Cristo não tem nada de “natural”, mas sim tem tudo de “histórico”. Na cruz de Cristo –se não quisermos cair em mistificações– não entram suas dificuldades e limitações humanas, nem as nossas:enfermidades, limitações, acidentes nem a má sorte. Isso não é a cruz de Cristo mas momentos e peculiaridades da vida humana, que se tem de saber levar e superar com graça e com boa vontade.
A cruz de Cristo não foi um “desígnio de Deus”, mas humano. Jesus , por sua parte, tampouco buscou a cruz: “Afasta de mim esse cálice”. E por parte de seus discípulos nunca deverá ser buscada a cruz, por si mesma.
Aquele “Ave Crux, Spes única!” (“Salve, ó Cruz, única esperança”) do adágio clássico, deve ser tomado com muitas “cautelas” no modo de entendê-lo. Nem Deus, nem Cristo, nem nós devemos “amar a cruz”, mas, ao contrário, devemos “combatê-la”. A tarefa do cristão, como a de Jesus, é combater a cruz, libertar o ser humano do sofrimento, “fazer todo o bem que se possa”, como dizíamos, comentando o evangelho do último domingo.
Claro que, ao lutar contra a cruz, acontece levantar-se a animosidade dos que estão interessados egoisticamente nos mecanismos de opressão, pessoas e estruturas que imporão uma cruz sobre quem luta para libertar o ser humano de toda a cruz. Outro adágio mais moderno e mais correto diz: “Se buscares a Verdade, já te porão a Cruz”. Não há necessidade de se procurar a cruz, embora não se deva retroceder um milímetro na Verdade e na luta pela Justiça, com medo da cruz que nos imporão...
Concluindo, o que precisamos exaltar não é a cruz, mas a coragem de Jesus, que optou pelo Reino e pelo amor sem medo da cruz que estava certo que ia encontrar e chegou mesmo a prever que lhe iam impor. A exaltação da fidelidade de Jesus à Causa do Reino é o verdadeiro conteúdo desta festa.
Algumas pessoas se assustam quando se fazem estas releituras críticas. Parece-lhes uma atitude negativista... Preferem que se fale somente do positivo, e que o restante permaneça oculto, como superado pelo esquecimento... Não compartilhamos dessa opinião.
Estamos num momento de transição teológica, passagem que se faz devagar por causa precisamente dessa falta de sentido crítico na teologia e nas homilias. Se os pregadores (e os grupos de formação cristãos) assumissem como tarefa habitual digerir criticamente todos os pensamentos que ainda pesam no cristianismo, sem dúvida que estaríamos em condições de dialogar melhor com o mundo actual.
Por outro lado, toda renovação de pensamento e de vida necessita de um momento de “destruição”, sem o qual, freqüentemente, não é possível uma verdadeira renovação."

Serciço Bíblico Claretiano

9 comentários:

  1. um bocado sofista mas está bem :)

    Nietzsche deve estar a rebolar de riso no túmulo... :)

    ResponderEliminar
  2. Os evangélicos costumam ter a representação da cruz mas sem a figura de Cristo. Ou seja, está lá o sofrimento e a morte de Jesus e está também o epílogo que dá sentido a tudo o resto: a ressurreição.
    Nestas duas dimensões (sofrimento e morte, e ressurreição)a cruz é o centro do Evangelho. Para chegarmos a Deus precisavamos ser limpos dos nossos pecados e termos um intermediário (vivo, como é óbvio).

    ResponderEliminar
  3. Pedro,

    pois...pomo-nos a discutir a felicidade, o amor, a vida e...temos debate eterno. No entanto, aqui não se trata de tirar umas ideias e pôr outras, mas da essência do cristianismo. O sentido da cruz de Cristo é a vida e ressurreição que o dá. Senão como diz S. Paulo, os cristãos serão as mais desgraçadas criaturas, ou como dizem no DA, uns grandes idiotas. :)

    Olhar para a cruz de Cristo só faz sentido, se aceitarmos ser crucuficados nela, não numa simples aceitação passiva e resignada de todos os males e sofrimentos que assolam o mundo e as nossas vidas, mas empenhando-nos sem desfalecer no seu combate.
    O debate teológico é importante, mas só faz sentido se se traduzir em gestos e atitudes redentoras.
    A redenção está presente no mundo (no Cristo Vivo como diz o David), cabe aos cristãos torná-la vísivel. Ai, ai tantas vezes continuamos a brandir cruzes para afastar fantasmas, que achamos que estão sempre nos outros...

    ResponderEliminar
  4. MC!! Eis-me de volta depois de um verão bastante preenchido. E chegadinho de Exercícios Espirituais. Mas uma vez agradeço o que nos escreves. E percebi que há movimentos medicinais, conta com a minha oração. :)

    É verdade, hoje "Exaltação da Santa Cruz".
    Mas se me permites comentarei a questão dos padre que vieram à baila nos post anteriores... Obrigado!

    Agradeço porque sinto(apesar de ainda não ser padre, mas para lá caminhar)que nós temos de olhar cada vez mais de baixo para cima, tal como Ele o fez no lava-pés. Contemplei (tal como Sto Inácio propõe) a narrativa mais uma vez (bastante decisivo para o meu sim de entrada na Companhia), e fiquei a pensar no quanto temos de ser entrega, escuta e acolhimento. Porque é que é tão dificl perceber isto? Queremos prestigios, reconhecimentos? É normal somos humanos, mas não seria de trabalhar para viver com os momentos de prestígio e sem eles... Este verão fui acolitar numa Missa (de semana até) e o Sr. Padre, no final da homilia - daquelas que uma pessoa se contorce com dores de barriga por não aguentar mais - convidou duas mães, com os rspectivos filhos pequenos, a sairem com um discurso pomposo de que poderiam incomodar todos os outros que estavam em oração e recolhimento. "É uma questão de bom senso!" Eu nem queria acreditar!! Eu acho que até joguei as mão à cabeça. Confesso naquele momento desejei ser padre como nunca. É verdade acabou por ser um momento espiritual. Para contribuir para uma maior abertura da nossa Vida e Casa aos outros, ainda mais na Eucaristia!! Não disse nada porque eu estava um bocado a ferver e achei que iria dizer o que devia e o que não devia. Mas na altura certa acabei por conversar com quem de direito.
    (Também terei os meus momentos no futuro, acredito, mas espero que haja alguem que me diga que não procedi correctamente)

    Bolas, nós temos de ser os primeiros a acolher... A nossa formação deve passar pela abertura ao outro. Olhemos para o mundo inteiro, milhares de milhões de pessoas, de vidas, de histórias, por quem Cristo encarnou, morreu e foi elevado na Cruz... Ou seja que entregou a vida por COMPLETO por TODOS! Não foi para um grupinho de eleitos e amiguinhos...

    Nestes Exercícios senti-me bastante desafiado por Deus. A Igreja precisa de nós, de todos para um maior acolhimento. Só depois sim, poderemos perceber a responsabilidade. Eu amo a Igreja (frizo o "I" maiusculo) e sinto a necessidade do acolhimento e da responsabilidade que implicam muitas coisas. Mas o Amor passa mais "por obras que por palavras e num dar o que se recebe" (como diz, Sto Inácio). Eu tenho de amar os outros porque só assim consigo dar a vida por eles.

    Há imensa coisa boa dentro da Igreja para agradecer... Muitas delas no silêncio. Há, também, muitas por explorar. O Padre Arrupe (Superior Geral dos Jesuítas antes do actual) tem esta frase:
    "Não podemos responder aos problemas do presente com respostas do passado..."

    Os sinais dos tempos estão aí...

    MC, muito obrigado mais uma vez!!
    Beijinhos e as melhoras!

    ResponderEliminar
  5. Meu querido Paulo, como me agrada a tua presença!

    E então, acabadinho de chegar dos Exercícios Espirituais.
    Por mim, os meus exercícios vão sendo outros. O meu desejo de todos os dias é que nunca cesse o louvor, nos meus lábios, no meu coração, em toda a minha vida.

    Obrigada, pela tua partilha. Esses asssombros que sentiste, também eu os sinto e de que maneira. Nesse aspecto, convivo com um exemplo, de tudo o que o padre não devia ser. Mas também olho para os meus pecados e vou equilibrando as coisas.

    Há dias lia na página de Taizé qualquer coisa assim: " A primavera de Igreja, antes de acontecer, é semeada no coração daqueles que por ela esperam..."

    Eu, continuo a esperar por ela, e continuo a implorar que Deus abra os nossos corações para a fazermos acontecer.

    Começo a sentir que este é um "momento-chave". Que, ou a Igreja se deixa conduzir, ou vai dissolver-se no mundo.

    Um padre meu amigo costuma dizer-me continuamente:"Se o grão de trigo, não morrer..." Temos que, dia-a-dia, deixarmo-nos morrer com Cristo, para que O tornemos vivo e presente no mundo.

    Reflectir nisto tudo, neste dia, tem muito significado. E com os olhos e o coração colocados na Palavra do próximo domingo:"Quem me quiser seguir, tome a sua cruz..."

    Estás no meu coração. Não estás só nesse caminho. Isto de ser Igreja não são "favas contadas".

    Sabes? Gosto muito de meditar na vida dos profetas. Vida lixada a deles - é Deus a desafiá-los dum lado, e do outro, o pessoal surdo às suas mensagens.
    Eu, a maior parte das vezes, surda dos dois lados. ;)Mas também, "não sou profeta nem filha de profeta" :))) O problema, como diz a Adélia Prado, é que, "Deus me traz de rabo preso". Eu bem me tento escapar...

    Continuaremos a falar, se Deus quiser. :)

    Obrigada, pela tua oração.

    ResponderEliminar
  6. Pedro,

    se o céu é azul (e como eu gosto do "azul céu") porque é que ele hoje está cheio de nuvens?

    ResponderEliminar