2006-09-28

transparência

Os cristãos dos primórdios chamavam Jesus de Teântropos. Com esta palavra que combina Deus e homem (Teo=Deus; Antropos=homem) visavam expressar a unidade singular dessa realidade divino-humana. Em vez de falarmos de divindade e de humanidade poderíamos também falar da coexistência e de interpenetração da imanência (humanidade) com a transcendência (divindade). Tal coexistência produz a transparência.
Transparência é o termo que traduz a inter-retro-relação da imanência com a transcendência. A transparência é transcendência dentro da imanência e imanência dentro da transcendência. A transparência faz com que a imanência - no caso a humanidade de Jesus - se torne diáfana e translúcida, deixando de ser opaca e pesada. Faz também com que a transcendência - no caso a divindade de Jesus - se torne densa e concreta, deixando de ser etérea e abstracta.
É a transparência, e não a transcendência, que define a singularidade do cristianismo. Ela traduz adquadamente a verdade do Teântropos, o mistério da encarnação de Deus na nossa carne quente e mortal.
Por causa dessa transparência, o próprio Jesus podia dizer:"quem me vê a mim, vê o Pai". O Pai (transcendente) se fazia transparente na vida, nas acções, na palavra e no projecto de Jesus (imanente).
No Pai-Nosso encontramos também a presença das duas dimensões, transcendência e imanência. Elas não são paralelas, mas unidas. Reza-se:"Pai nosso que estais no céu" (transcendência) e "o pão nosso de cada dia nos dai hoje" (imanência). Aqui se une o céu e a terra, se articula o impulso para cima (Pai) com o movimento para baixo (pão) e se junta louvor ao Pai celestial com o fruto do trabalho humano. Eis a transparência.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

7 comentários:

  1. Confesso (eh eh eh) que a noção de transparência é das que mais alimenta a minha (in)compreensão da trindade e da incarnação... Estou a ver que tenho de dar mais atenção a este Boff ;)

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  2. Tens toda a razão, Vítor. Ó amiga MC, diz-nos uma coisa: onde arranjastes esse livro? na net? há edição em Potugal? Esta do Teantropos fez-me decidir duma vez por todas a conhecer melhor a teologia do Frei Boff, pois conheço-a pior do que a sua pastoral...

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  3. Deve ser da editora brasileira Vozes. À venda em Portugal, em librarias especializadas.

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  4. Oi, oi, oi :)

    José,

    o livro foi-me oferecido. Uma retribuição por um serviço no qual colaborei. Mas costumo comprar os outros que tenho do Boff, na livraria Verdade e Vida em Fátima. Em Lisboa, não sei onde te mandar procurar.

    A editora no Brasil é a Vozes, mas em Portugal foi editado pela Multinova.

    É um livro muito bom, como são todos os do Boff. O Vaticano só se zangou com ele depois do livro: A Igreja carisma e poder. Não gostaram. Vá-se lá saber porquê... ;)

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  5. Chama-se o JS à recepção para explicar porque motivos teológicos, pastorais, morais, religiosos ou políticos, o Vaticano não gostou do livro acima referido... :P

    PS: Bom dia! (ou será já Boa tarde?... :)

    PS 2: JS, tu tem calma, a malta está na reinação (sic)... Mas é sempre bom ter um explicador de serviço... ;)

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  6. O problema com o livro começou na denúncia do centralismo hierárquico de Roma; mas onde Boff ficou mesmo entalado foi na interpretação do "subsistit in", tema eclesiológico que continua a gerar muita controvérsia...

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  7. Suspeito que Boff não afirmou "est in"... A ver verei, em leonardinas leituras... Abraço, explicador ;)

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