2006-10-31

aqui fica o meu "pão por Deus"


Como ainda é o silêncio e uma sensação enorme de pequenez, que me domina... Deixo as palavras do poeta, que hoje "leio" de modo especial:

Somos uma coisa em nosso corpo
lenta e absoluta que nem conseguimos
no escuro se abre
seu odor, seu aspecto, sua lei

cada um de nós jaz por terra muito depois que se levanta
tudo o que possui não cobre metade do seu reino
e apesar do domicílio fixo, das horas certas
dormimos a céu aberto pelas estradas

José Tolentino de Mendonça in A noite abre meus olhos
imagem respigada em passo a passo.weblog.com.pt

continuo a não saber escrever...

...mas este vai ser o post que me vai dar mais alegria colocar aqui. Acabei de saber o resultado das biópsias: É NEGATIVO!

A todos os que me acompanharam com muita ternura, das mais diversas formas, só tenho um obrigada muito grande para dar. E quem quiser, junte-se em Acção de Graças comigo.

2006-10-30

impotência

Se soubesse escrever, só escrevia declarações de amor!

"novo estado de consciência"


Ser plenamente humano comporta vivenciar esta realidade espiritual. Deixar que ressoe dentro de nós, para sentir que somos habitados pela
Energia criadora dos Céus e da Terra, para que possamos brilhar e voar. Ela nos está gerando a cada momento. Ela nos tira do seu coração de Mãe e de Pai originários e nos coloca amorosamente no mundo.

O cuidar do Ser se transforma, então num amar o Ser. Entrar em comunhão com Ele. Tornar-se um com Ele. Cuidar do Ser significa continuamente fazer o esforço de passar do Deus que temos nas espiritualidades, nas religiões e nos discursos institucionais do sentido, para o Deus que somos na nossa radical profundidade. Lá onde tudo se encontra, se re-liga e por isso se faz uno, diverso, convergente e irradiante de vida.

Leonardo Boff in A águia e a galinha
Imagem respigada em:populo.weblog.com.pt

esmorecimento

"O pior cego, não é o que não quer ver." É o que pensa que já viu tudo!

Poemas para todas as mulheres

No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!

Poema extraído do livro "Vinicius de Moraes — Poesia completa e Prosa",

2006-10-27

guardadores de lâmpadas fundidas

Não vou meter-me muito, ou praticamente nada, na discussão a propósito, do próximo referendo sobre a despenalização/liberalização da IVG. Não é que não tenha nada a dizer sobre o assunto. Ou que não saiba já qual o sentido do meu voto. Mas neste momento, as minhas forças estão concentradas noutros assuntos. E não tenho que chegue para tudo.
Desde que possa, vou votar. Só me vou abster de ouvir alguns comentários, quer de uma, quer de outra facção. É que se ouvir, por exemplo, o Louçã, só me vai apetecer ir a correr votar num rotundo não! Se ouvir coisas do género; de que os que votam sim, não amam a vida, não gostam de criancinhas, são uns egoístas...e não falando em vídeos bárbaros e desonestos que já andam a circular pelos caixas de e-mail, vou a correr votar sim, só para não ter que os ouvir mais e às suas motivações simplistas da vida.


Lucas 12, 54-59 Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente?

Uma das coisas que se ouve frequentemente, por estes dias, nos tais iluminados partidários da vida é que vivemos uma "cultura de morte".

Relembro do evangelho de Lucas, a censura que Jesus fez ao pessoal do seu tempo que, olhando para o céu e vendo-o cheio de nuvens, imediatamente dizia que ia chover. Fazer essa observação não custa nada. Olhar para o mundo e ver que há fome, guerra, corrupção, egoísmo, injustiças, que não há respeito e compaixão pelos mais débeis, que a única coisa que conta é o lucro e mais lucro. Que o consumismo se tornou "o pão nosso de cada dia". Até um cego vê. Agora saber olhar para essa realidade e transformá- la em tempo de "kairós". Tempo favorável para a mudança, para alimentar a esperança e a caridade. Tempo para mostrar que, o tempo presente "kronos", não se resume a uma sucessão de dias, horas, minutos, para gastar de forma inconsequente, como se eles próprios, não tivessem impregandos de eternidade.

Se as palavras que um cristão tem para dizer, continuamente, é que se vive numa cultura de morte é porque vive de olhos fechados para a vida. Sabe olhar o céu e ver as nuvens que anunciam chuva, mas não sabe, pela sua acção diária, aproveitar essa água e torná-la fonte de vida. E aí, lá estamos nós a pregar o tal Cristo morto. Como diziam, há dias, os ateístas (salvo erro, Ricardo Alves) estamos com a despensa cheia de lâmpadas fundidas. E é nelas que pomos a nossa esperança.

Não é verdade a tua solidão. A um canto,
do lado de fora, meu coração espera:
fênix dolorosa, consome-se e renasce, fiel.
Quem sabe,
quando abrires uma fresta em tua porta,
te alegrarás vendo-o aí, guardando
essa luz que se alastrará por rios sem fim
de uma geografia desconhecida:
e só os escolhidos entenderão.

Lya Luft

imagem - www.visitacomitan.com/fotogaleria

2006-10-26

Isto é mesmo um jardim de luz?


Talvez eu seja mais forte de que imagino. Talvez tenha medo da minha própria força e me volte contra mim mesmo para me enfraquecer. Talvez o que eu mais tema seja a força de Deus em mim.

Thomas Merton

Desde o dia 17 de Agosto, vi logo que, isto ia ser um tempo de purificação. Fosse qual fosse o desfecho. Ainda não usei um único segundo de oração a pedir que Deus me "afaste este cálice". Temo a soberba desta atitude. Mas a minha atitude, foi desde sempre, colocar-me nas mãos de Deus. Continuamente, me coloco a mim e aos outros. Em todos os momentos e situações.
Ontem, um amigo perguntava-me (se calhar estava a fazer as vezes do tentador):
- Mas tu não acreditas em milagres?
Eu respondi:
- Que sei eu, dos misteriosos caminhos de Deus?

Não sei nada da "força" da oração. Para mim é um mistério. Mas procuro viver numa atitude orante. Entrego sempre em Deus a complexidade da vida. Todos os momentos de luz e sombra dos quais só Ele conhece o verdadeiro significado. A par disso, ajo. Ontem mesmo, depois do telefonema do IPO, enviei vários SOS. Obtive respostas. São os milagres do amor e da amizade. Nesses não tenho razões nenhumas para duvidar. E que resposta obtiveram, quando perguntaram ao Mestre:"Senhor, quando te vimos nu, ou com fome, ou na prisão?"

foto - Abetito e dintornei-www.sibillinum sica.it

2006-10-25

O que é que pode Deus?

Várias pessoas, me dizem continuamente:
- Tem confiança! Deus não permite que te aconteça alguma coisa! Vais ver que não tens nada! A ti, não há mal que te chegue!

Ouço-as, delicadamente. Mas como sou uma incorrígivel pragmática, por precaução, fui à minha estimada médica, pedir qualquer coisinha para a ansiedade! Sou das tais "virgens" previdentes. Em boa hora o fiz. Consulta, novamente adiada para dia 26 de Novembro. Bati o pé, porque a paciência, tem limites. Passou para dia 13.

Agora digam-me: o que é que Deus pode fazer com este Serviço Nacional de Saúde? Nem foi Ele que votou no Sócrates! Ou esse, também não pode fazer nada?

dos medos...

Quando era criança, tinha medo do escuro, de cobras, de perder os meus pais, de Deus e do inferno. Agora, que já perdi esses todos - tenho da própria sombra.

Um feliz regresso.

O bom filho à casa do pai, torna!

PS - Caso não saibas, isto é um dito popular português!

Soror Mariana - Beja


Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor

Sophia de Mello B. Andrensen

2006-10-24

condição - mulher:

Entrou para pedir a costumeira moeda. Nem sempre dou a moeda, mas dou sempre um pouco de atenção e conversa. Hoje, dei moeda. Perguntou se era obrigada que se dizia. Eu disse que sim. A seguir perguntei-lhe como é que estava a correr o casamento. Foi há alguns meses. Tem catorze anos. Respondeu-me que não está a gostar. Não gosta de ser casada, não gosta do sexo. Acrescentou que já está com um atraso de mais de oito dias. Respondi-lhe que pode ser normal, mas é melhor ir ao Centro de Saúde.

Disse-lhe que sempre que quiser falar, pode contar comigo. Não posso fazer muito mais. Até porque terei de o fazer com muita discrição. Sã0 os costumes de um povo. Mas hoje a L., não me vai sair do pensamento.

Imago Dei


O ser humano possui naturalmente interioridade. E essa interioridade é habitada por um Sol e pelo Numinoso.
Os mestres espirituais e outros analistas das profundezas da alma humana chamam a esta interioridade e a este Sol central também Imago Dei (imagem de Deus) ou a própria Presença Divina em nós. Os místicos ousam mais e dizem: Temos Deus dentro de nós. É tão unido a nós que Ele é a nossa própria profundidade. Somos Deus por participação.

Se assim é, então devemos reconhecer que nós não adquirimos a vida espiritual. Ao contrário, nós nos descobrimos radicalmente dentro dela Podemos abrirmo-nos mais e mais a ela.
Em Deus sempre vivemos. Em Deus nos movemos. Em Deus somos. A Ele nunca vamos. Dele nunca saímos. Nele sempre nos encontramos.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

2006-10-23

continuação do post anterior

Agnosticamente conservo uma esteira de sacralidade quando me instalo no domingo. Da longínqua liturgia da missa persiste a nostalgia do encontro em utópica comunidade.

Li esta magnífica frase no blog Anomalias.

Fez-me recordar as várias eucaristias em que participo que, por motivos vários, são tempos de crispação, de vazio, de perda de sentido. Fez-me lembrar também de uma conversa que tive há pouco tempo, com uma jovem, em que ela me dizia o mesmo. Concordei com ela, assim como concordo com o "Anomalias", mas fiz-lhe notar que é necessário irmos à profundidade das coisas, não desanimar, procurar uma e outra vez o sentido de nos reunirmos. Falei-lhe da riqueza da Palavra. Da capacidade de irmos de coração vazio, pronto para o encontro, mas ao mesmo tempo cheio com tudo o que é a nossa vida, com todos os que, de diversas formas, trazemos no coração. Não há celebrações perfeitas e comunidades idem.

E lembrei-me da minha conversa, ontem, com a D. Eduarda. Houve uma procissão em louvor de Maria, na nossa paróquia. Na qual não participei. Já sabia que ela me ia fazer perguntas sobre o assunto. Olhei o andor, que ainda se encontrava na igreja. Estive com atenção ao que o prior dizia sobre o assunto, porque já sabia que se tivesse corrido mal, haveria as lamúrias do costume.

Assim, quando ela me perguntou se tinha ido à procissão, disse que não. Como é uma velhinha muito sagaz, perguntou-me logo se eu não gostava de procissões. Engoli em seco, disse-lhe que não era bem isso. E comecei foi logo a falar-lhe que o andor estava muito bonito e que parecia que tudo tinha corrido muito bem, pois o prior também tinha falado muito na procissão. Ela ficou contente com o meu relato.

Como é que a Igreja vai fazer a ponte, entre as velhinhas que adoram rezar terços e ir em procissões e jovens que não encontram sentido nestas manifestações do sagrado?

Uma coisa eu sei. Isto exigia um diálogo muito mais profundo dentro das comunidades. E um desinstalar dos srs priores que também padecem um pouco dos males de preguiça em ousar caminhos novos. Como é que nos tornamos numa Igreja que vai ao encontro, quando tantas vezes, nem as "portas abertas" temos?

sucedâneos...

Já várias vezes, tenho visto referido que, nos tops de vendas de livros, estão os chamados livros de "auto-ajuda". É só abrirmos qualquer jornal e ver a quantidade de anúncios de gente que anuncia ter a solução para os mais variados problemas.
O mundo é um lugar hostil. Não há segurança de saúde, de emprego, de relações afectivas duradouras e estáveis. Não falando dos problemas mais graves de guerra, de fome, de explorações várias, de injustiças, de capitalismo selvagem etc.

É preciso encontrar sentido para a vida. É preciso encontrar a libertação para estes males. Deus é quem nos pode libertar. Cabe à Igreja anunciá-lo.

Mas não basta mudar os meios para o fazer. É preciso que ela própria descubra, de que modo é que Deus nos salva e liberta. E não é fechado nos templos, nem a "passear-se" pelas ruas em procissões. Nem em visitas a santuários afamados. É onde estiver cada homem, aí está presente Deus Libertador.

E acrescenta o JS:

Sim, onde está o homem, aí está Deus: "O que fizestes a um dos meus irmãos..."Mas:
1. Há tempo para a acção e tempo para a contemplação: "Retirava-se sozinho para um monte...". E o testemunho do monge é precioso.
2. A visibilidade e as manifestações públicas de fé também têm o seu sentido. Se bem que o testemunho maior seja o da caridade: "Vede como eles se amam!..."
3. O que custa não é amar a humanidade, mas sim o vizinho do lado: "E quem é o meu próximo?..."
4. O Deus libertador talvez seja "apenas" o Deus que nos mostra que fomos feitos para ser livres. Parafraseando: "Liberta-te e Deus te libertará".

dedicado ao JS...


...que enfim, não gostou dos meus lírios (a minha flor preferida), mas acabou o domingo em beleza; mirando a Tatou. Aqui fica - poema e imagem.


Volta à amada em uma semana

No primeiro dia eu disse para mim mesmo
que o amor era a casa da minha vida.

No segundo dia as maravilhas
do amor quase me cegavam.

Guardei o terceiro dia para a meditação.
Precisava reentrar em mim.

No quarto dia senti-me sábio,
cheio de janelas e fragâncias.

Ó quinto dia, gritei, nunca tu viesses,
dominador, devorador!

Mas no sexto dia eu era um oceano
banhando esse país rumorejante

aonde, com a guitarra ao ombro,
aportei no sétimo dia.

Fernando Assis Pacheco

2006-10-22

Em vós, Senhor, eu pus a minha esperança!


Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! 29Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. (Mt 6, 28-29)

2006-10-21

Bom fim-de-semana


Trago-te uma flor,
para a celebração da descoberta.

Fui colhê-la
Num jardim anterior ao paraíso.

Pedro Lyra

O sentido da vida...


“ O amor é o nosso verdadeiro destino. Não encontramos o sentido da vida sozinhos, e sim com outro. Não descobrimos o segredo de nossas vidas apenas por meio de estudo e de cálculo nas nossas meditações isoladas. O sentido de nossa vida é um segredo que nos tem de ser revelado no amor, por aquele que amamos. E, se esse amor for irreal, o segredo não será encontrado, o sentido jamais se revelará, a mensagem jamais será descodificada. No melhor dos casos, receberemos uma mensagem embaralhada e parcial, que nos enganará e confundirá. Só seremos plenamente reais quando nos permitir-nos amar — seja uma pessoa humana ou Deus.”

Thomas Merton in Love and living

2006-10-20

"a unidade complexa, ética/moral

"Consideremos a tensão da dualidade ética e moral. Talvez a etimologia das palavras ética e moral iluminem esta complexidade.
Ethos - ética - em grego designa a morada humana. O ser humano separa uma parte do mundo para, moldando-o ao seu jeito, construir um abrigo protector e permanente. A ética, como morada humana, não é algo pronto e construído de uma só vez. O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construíu para si. Ético significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente sustentável, psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda.
Na ética há o permanente e o mutável. O permanente é a necessidade do ser humano de ter uma moradia. Todos estão envolvidos com a ética, porque todos buscam uma moradia permanente.
O mutável é o estilo como cada grupo contrói a sua morada. Embora diferente e mutável, o estilo está ao serviço do permanente: a necessidade de ter casa. A casa, nos seus mais diferentes estilos deverá ser habitável.
Quando o permanente e o mutável se casam, surge uma ética veradeiramente humana.

Moral, do latim mos/mores, designa os costumes e as tradições. Quando um jeito de organizar uma casa é considerado bom a ponto de ser uma referência colectiva e ser reproduzido constantemente, surge então uma tradição e um estilo arquitectónico. Assistimos ao nível dos comportamentos humanos, ao nascimento da moral.
Nesse sentido moral está ligada a costumes e a tradições específicas de cada povo, vinculada a um sistema de valores, próprio de cada cultura e de cada caminho espiritual.
Por sua natureza, a moral é sempre plural. Existem muitas morais, tantas quanto as culturas e estilos de casa.

...De que forma se articula ética e moral? Respondemos simplesmente: a ética assume a moral, quer dizer, o sistema fechado de valores vigentes e de tradições comportamentais. Ela respeita o enraizamento necessário de cada ser humano na realização da sua vida, para que não fique dependurada nas nuvens.

Mas a ética introduz uma operação necessária: abre esse enraizamento. Está atenta às mudanças históricas, às mentalidades e sensibilidades cambiáveis, aos novos desafios derivados das trasformações sociais. Elas impõem exigências a fim de tornarem a maoradia humana, mais honesta e saudável. A ética acolhe transformações e mudanças que atendam a estas exigências. Sem essa abertura às mudanças, a moral se fossiliza e se transforma em moralismo.
A ética, portanto, desintala a moral. Impede que ela se feche sobre si mesma. Obriga-a à constante renovação no sentido de garantir a habitabilidade e a sustentabilidade da moradia humana: pessoal, social, planetária.

Concluindo podemos dizer: a moral representa um conjunto de actos, repetidos, tradicionais, consagrados. A ética corporifica um conjunto de atitudes que vão além desses actos. O acto é sempre concreto e fechado em si mesmo. A atitude é sempre aberta à vida com as suas incontáveis possibilidades. "

Leonardo Boff in A águia e a galinha

Nota: Sempre que a nossa Conferência Episcopal se reune e produz uns comunicados apelando à moral, desta ou daquela situação, gostava de saber que eles tinham tido em consideração esta realidade complexa, tão bem explanada pelo Boff. Pelos resultados, parece-me que não.
Cézane (Sánte - Victoire)




Ó doce Luz que me envolves,
E iluminas as trevas do meu coração:
Tu me guias como a mão de uma mãe.
Se eu me soltasse,
Não poderia dar um só passo mais.
És o círculo
que me circunda
E me encerra em si.
Separada de Ti, eu cairia
No abismo do nada,
Do qual me elevaste até o ser.
Estás mais perto de mim
Do que eu de mim mesma
Mesmo assim, és inacessível
E imcompreensível.
Nenhum nome pode Te conter.
Ó Espírito Santo, Eterno Amor!

Edith Stein


2006-10-19

O que significa: "amar a Deus sobre todas as coisas?"



"Coloca constantemente entre ele e os outros um muro invísivel e chama-lhe Deus."

Esta frase do padre e psicanalista Eugene Drewermann, refere-se aos padres. Na minha prática de vida paroquial e vida na Igreja, constantemente, com muita mágoa minha, sinto esta realidade. Aqui na net, e agora não querendo tratar a todos por igual, mas também não quero referir ninguém em especial, também sinto isso.

Mas o que o Drewermann escreve referindo-se aos padres, serve muito bem a qualquer crente. A propósito de tudo e de nada, o crente encontra motivos de divisão, separação - do mundo, do que chama profano, de tudo o que seja alegria, prazer.

Deus nunca é motivo de divisão ou separação entre nós e os outros. A única coisa que nos separa é o nosso fechamento em nós próprios; o nosso egoísmo.


LLANEZA
A Haydée Lange

Se abre la verja del jardin
com la docilidad de la página
que uma frecuente devoción interroga
y adentro las miradas
no precisam fijarse em los objectos
que ya están cabalmente em la memoria.
Conozco las costumbres y las almas
y esse dialecto de alusiones
que toda agrupación humana va urdiendo.
No necesito hablar
ni mentir previllegios;
bien me conocen quienes aquí me rodean,
bien saben mis congojas y mi flaqueza.
Eso es alcanzar lo más alto,
lo que tal vez nos dará el Cielo:
no admiraciones ni victorias
sino sencillamente ser admitidos
como parte de uma Realidade innegable,
como las piedras y los árboles.

Jorge Luis Borges – Fervor de Buenos Aires

2006-10-18

Bem prega frei Tomás...


Santa Sé apoia toda a iniciativa a favor do desenvolvimento das mulheres

Intervenção de Dom Follo ante a UNESCO PARIS, segunda-feira, 16 de outubro de 2006 (ZENIT.org).- A Santa Sé apoia toda iniciativa a favor do desenvolvimento das mulheres, afirmou Dom Francesco Follo, observador permanente da Santa Sé ante a Organização das Nações Unidas para a Educação e a Cultura (UNESCO). O representante do Papa tomou a palavra em 9 de outubro passado para promover nessa instituição a Criação de um Observatório para as mulheres. Agora, o prelado se perguntou se é realmente suficiente um observatório para superar o problema da eqüidade para com as mulheres.

E dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, Sr. D. Follo?

um com...




O amor incondicional crê nas virtualidades latentes em cada ser. Nunca desespera na confiança de que a própria natureza revele a sua energia regeneradora, de libertação de. Sabe por intuição que sempre sobra uma chama a ser alimentada, uma palavra a ser ouvida e um sinal de esperança a ser interpretado. Todos os sons, por mais distoantes, entram na imensa sinfonia universal.

Por outra parte, o entrelaçamento de todos com todos revela a nossa profunda indigência e, ao mesmo tempo, a nossa insuspeitável riqueza. Precisamos dos outros para ser e para nos libertar. Temos uma indigência fundamental que nos faz esmolares uns dos outros. De outro lado, somos portadores de uma riqueza inesgotável que nos faz doadores uns dos outros. Temos algo a dar e a contribuir que somente nós podemos oferecer ao crescimento do todo.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

2006-10-16

O poeta é que tem razão...

Poeta no supermercado

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há paises em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

...

Fernando Assis Pacheco

apetecia-me...

...chamar muitos nomes feios. Só não sei a quem. Seria na consulta de hoje que saberia o resultado das biópsias. Seria. Desloco-me 80 Km. Entro no IPO. Confirmo que estou para a consulta marcada. Pago a respectiva taxa moderadora e aguardo a minha vez. O médico chama. Entro, cumprimentamo-nos e vou logo avisando que espero que tenha boas notícias para me dar. Ele diz que ainda não sabe quais são e começa a procurar no processo. Como ainda é "magrinho", não precisa de procurar muito. "Conceição, não lhe posso dar notícias nenhumas, ainda não tenho aqui os resultados." Eu nem queria acreditar. Uma manhã perdida, deslocações, ansiedade... minha e de tanta gente. O médico simpaticamente ainda faz um telefonema para os serviços respectivos para ver se já há algum resultado. "Não. Não há!"
"Lamento, mas terá que voltar outro dia. Não sei a quem atribuir culpas desta situação."

Este país existe, ou estamos todos num qualquer filme de ficção?

2006-10-11

volto na segunda


Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. (Sl 23,4)

Senhor, ensina-nos a rezar. Lc 11, 1-4

De facto, não constitui nenhuma novidade o facto de Jesus rezar. Todo judeu devia fazê-lo durante toda a sua vida, ao menos três vezes ao dia. Supõe-se que também os discípulos devessem praticar aquela norma. Então onde está a originalidade do que nos conta Lucas? Certamente os discípulos foram contagiados pela qualidade da oração de seu Mestre. A oração – ou a mal chamada “oração feita porque é lei” –, porque é mandada, que se tem simplesmente que repetir porque já foi formulada, esse tipo de oração acaba cansando, pois torna-se tão mecânica que só a duras penas sai dos lábios! Jesus, ao contrário, põe em prática uma disposição mental e corporal que contagia seus discípulos.
Jesus não ensina propriamente uma “fórmula” de oração. Entre outras coisas, nós é que a transformamos numa fórmula que apenas por hábito nos faz mover os lábios e a língua; o resto de nosso ser fica imóvel. Jesus não ensina, pois, uma fórmula, mas mostra um caminho de oração, um itinerário, um roteiro.

Para começar, assim de cara ninguém chama “paizinho” a um desconhecido. Logo a primeira etapa nesse caminho é chegar à identificação de Deus como Pai, ponto primordial, ponto de partida imprescindível: chegar a experimentar na própria vida a presença paternal de Deus. Como, porém, chamar alguém de Pai se não se tem a experiência ou consciência de ser filho?
Esta primeira etapa contempla então uma dupla experiência: a filiação e a paternidade e isto não se consegue através de uma fórmula aprendida, mas na disposição pessoal da mente e do coração.
A etapa seguinte é conseqüência da primeira, se Jesus chega a identificar Deus como Pai e se sente seu Filho, esta relação é de puro reconhecimento da infinita santidade de Deus. Esta experiência relacional é nitidamente contemplativa: seu Pai é a própria Santidade.

O terceiro momento deste itinerário é reconhecer que somente a presença do Pai pode preencher o vazio de quem se dirige a ele. É o que Jesus experimenta como o reino ou reinado de Deus e por isso nessa etapa, a oração é abrir-se para que a dita Presença no vazio do orante realize sua vontade, uma vontade que não é outra coisa que a acção salvífica, purificadora, humanizante desse Pai.

A etapa seguinte do percurso é também projecto de toda uma vida: a presença do reino do Pai não alcança seu verdadeiro objectivo se ficar somente na intimidade de quem ora, por isso o processo tem que começar a envolver os outros. Que essa presença nos anime a todos a lutar dia após dia por aquilo que forma parte de nossa natureza, limitada, necessitada. O pão de cada dia é a imagem ou figura que simboliza nossa essência humana definida como “ser com necessidades” na qual ninguém se basta a si mesmo para satisfazê-los, todos estamos implicados nas necessidades de todos.
Por isso, Jesus não convida a pôr o Pai como motor desta busca na primeira pessoa (dá-me a mim o pão...), convida a que possamos todos ter o pão de cada dia com a ajuda de Deus, com seu apoio. Não se trata de esperar com a mão aberta que Deus nos ponha nela o pão de hoje. Por maior fé que tenhamos, isso nunca irá ocorrer. Daí que também esta etapa do processo de oração que Jesus ensina implica a luta colectiva onde o crente não pode ignorar a seu próximo, ao contrário deve pô-lo em primeiro plano.

O passo seguinte no processo é manter sadias as relações com os demais. Jesus está consciente de que na luta para sobreviver se geram atrictos, discrepâncias, divisões, mas isso não pode ser obstáculo nesse caminho de perfeição. Cada vez, há que se perdoar e continuar o caminho, cada vez deve-se ficar atento para que tais situações, somadas aos desânimos, à aridez de alguns dias, ao não ver frutos imediatos, não se convertam também em obstáculos permanentes nesta caminhada.

Jesus portanto, não convida a “rezar” pais-nossos, muito mais que isso, propõe todo um caminho de perfeição, mas perfeição com humanidade, enquanto mais íntima é a relação com o Pai, maior sentido humano se deve ter, a prova disso é o próprio Jesus.

Um dos desvios da espiritualidade cristã ao longo dos séculos é a separação entre o humano e o espiritual, acreditava-se que uma pessoa de oração era alguém silencioso, cabisbaixo, especialmente treinado para evitar os outros e especialmente as outras. Que erro gravíssimo! Tudo isso, por quê? Porque desde bem cedo se assumiu o projecto de Jesus e de seu Pai condensando-o nestes quatro versículos, como uma simples fórmula que, como já se disse, só faz mover os lábios e a língua ou absolutamente nada se se recita mentalmente, sem aprofundamento pessoal. É hora de começarmos a viver esta proposta de Jesus tal como ele a transmitiu com as implicações que isso traz, e, certamente, daríamos uma reviravolta total no mundo em que vivemos. Será que nos atreveríamos a fazê-lo?

Serviço bíblico Claretiano

da esperança...

Não espero nada de Deus. Espero em Deus.

2006-10-10

das inquietações...

Acedendo a um gentil pedido, transcrevo para aqui, algo que escrevi na caixa de comentários.

As zonas turvas da Bíblia, são as zonas turvas da nossa existência. Não há como negar isso. O que sabemos de Deus não é definitivo.

Porquê?

Porque é que os dias, esta semana, ficaram maiores? E as noites, ainda mais?
reclining nude - Amedeo Modigliani


Um campo batido pela brisa

A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho "um pensamento despido";
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desatrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

Fernando Assis Pacheco

2006-10-09

e agora um bocadinho de guerra dos sexos:

As mulheres são umas sensíveis. E os homens uns picuinhas!

vamos lá a partir a loiça...

Meu querido David, em resposta ao comentário que fazes no post anterior, digo-te: depois do fim-de-semana que passei -com alegrias, com ansiedades, com chatices, a conviver com pessoas diferentes, a escutar, a observar, a meditar na belíssima homilia com que, um dos padres da minha paróquia, nos brindou - cheguei à seguinte conclusão (que nem é nada de novo. S. Paulo já o afirma) se não somos capazes de sair de nós próprios, de ir ao encontro do(s) outro(s), chamemo-nos cristãos, invoquemos Cristo por "dá cá aquela palha", de nada nos serve. De que serve invocar Deus, equacionar em todos os dogmas os mistérios da divindade, se não somos capazes de viver em harmonia connosco próprios e com tudo e todos que nos rodeia? Foi "só" isso que Jesus Cristo fez, simplemente.

enfim, a comunhão

A onda não é o mar. É o mar porque sem o mar não há onda. Não é o mar porque é uma manifestação do mar, entre outras. O mar é sempre maior do que as suas ondas e as suas manifestações.
A onda é o mar-oceano manifestado, o mar-oceano que se realiza numa consciência pessoal. Há ondas que se esquecem de que são o mar-oceano manifestado. Entendem-se a si-mesmas, independentes, sem referência ao mar-oceano. É a sua ilusão.
Há ondas que sabem que vêm do mar-oceano. São expressões do mar-oceano e voltam ao mar-oceano. É a sua realização.
Felizes, vivem a diferença. E a união na diferença.
Necessitamos, portanto, oceanizar a nossa existência.
Vivenciar a Fonte donde tudo jorra e para onde tudo desagua. Caminhar à luz do Sol primordial. Regressar ao seu Seio luminoso.
Eis o termo da jornada humana: a auto-transcendência. O mergulho no insondável Mistério de vida, de consciência, de comunhão e de amor.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

mudam-se os tempos...

mas tudo continua igual. Deus criou-nos à Sua imagem e semelhança. Criou-nos para a comunhão. Mas se é fácil interiorizar esta verdade, mais difícil é experimentá-la na vida de todos os dias.
Ontem, fui interpelada por uma beata da minha comunidade, muito incomodada porque fui um dia destribuir a comunhão, vestida de uma forma escandalosa (levava uma blusa sem mangas). Respirei fundo contei até três e fui-lhe dizendo que mais importante do que o que visto é a pessoa que sou, e a minha motivação para fazer esses serviços. Que nada! Era um escândalo e que não devemos escandalizar as pessoas. Perguntei que pessoas (queria saber se era ao padre, se era a ela, se eram outras pessoas), não me deu grande resposta. Perguntei-lhe se ela se costumava preocupar com a minha saúde, se era feliz, se estou bem no trabalho, ficou admirada e respondeu que costuma rezar por todos. Eu disse-lhe que fazia bem, mas era melhor que se preocupasse primeiro com essas coisas, e, só depois, com o que visto. Também lhe disse que, como sou a mesma pessoa dentro e fora da igreja, a minha roupa também é igual. Não tenho nenhum fato próprio para ir à missa. Nada a demoveu, vi que apesar dos muitos terços e longas horas de adoração à frente do Santíssimo é uma beata sem humanidade nenhuma e mais preocupada com moralismos do que com as pessoas. Eu, também, não saí muito bem no quadro - continuo com tolerância zero para as beatas e suas beatices. Resumindo e concluindo - a conversão para a comunhão é mesmo muito difícil.

Ó Deus...

...mas este tempo ruim não passa?

2006-10-06

Bom fim-de-semana





O Senhor tudo fará por mim!
Ó Senhor, o teu amor é eterno!
Não abandones a obra
das tuas mãos!

Sl 138, 8

sobre um futuro post

Vamos ter um novo referendo sobre a despenalização do aborto. Depois de uma longa luta comigo própria, acho que vou mudar o sentido do meu voto. Da outra vez, votei: não.

O cardeal Patriarca, remete o sentido do voto para a consciência dos católicos. Gostava de acreditar na bondade de tal atitude, mas parece-me que ela é, sobretudo, ditada pela convicção, de que é uma batalha perdida. Não gosto dessa atitude. Mas também posso estar enganada, sobre a mesma.

Voltarei mais tarde ao tema.

Lc 10, 13-16

O evangelho de Lucas narra três “ais” de Jesus contra três cidades da Galiléia: Betsaida, Corozaim e Cafarnaum. Jesus constatou que nos lugares onde caberia esperar uma pronta aceitação de sua mensagem, foi onde encontrou maior resistência e dureza de coração; pelo contrário, donde não se esperava nada encontrou maior abertura e aceitação. Àquelas três cidades opõe a atitude de Tiro e de Sidônia. Lucas ignora a contraposição que faz Mateus de Cafarnaum com Sodoma (cf. Mateus 11, 23).
É a constatação que faz Lucas do efeito produzido pelo Evangelho dentro e fora do povo de Jesus. Lucas está consciente da universalidade da mensagem de Jesus, mas não deixa de fazer notar a obstinação do povo judeu aos desígnios de Deus. Nesse mesmo sentido, nossas atitudes não estão muito distantes de se parecerem com as de Betsaida, Corozaim e Cafarnaum. Cremos que já sabemos tudo, que não há nada de novo que nos possa tornar melhores, e disso decorre que existem ao nosso redor tantas pessoas, tantas coisas, tantas situações que permanentemente nos estão chamando à mudança, à rectificação de nosso modo de ver, sentir, pensar, e nós nem nos damos conta disso.

E o que acontece no plano pastoral também acontece no institucional. Não podemos deixar de reconhecer que pertencemos a instituições que na maior parte do tempo estão fechadas à acção sempre nova do Espírito; fechamento que se traduz no apego a posições tomadas para guardar o status quo, posições dogmáticas que empobrecem cada vez mais as possibilidades de enriquecimento da mensagem, quase com desprezo pelo novo, como se houvesse autoridade para deter as novas acções do Espírito. Há quem se creia possuidor de uma dada verdade, fora da qual ninguém tem nada que dizer, nem acrescentar, contribuir proporcionar.

Essa foi a realidade que Jesus enfrentou e constatou também o primeiro grupo de discípulos e discípulas; Paulo a experimentou em sua própria carne e é a mesma situação que vivemos ainda hoje entre nós. Seremos premiados por ter guardado zelosamente algumas verdades de que o tempo e a realidade cotidiana vão exigindo reformulações, adaptações na linha da fidelidade ao Espírito? Muito provavelmente não, talvez sejamos julgados, isso sim, por não nos termos aventurado a deixar agir mais o Espírito.
Jesus declara a íntima relação entre ele e seu Pai que o enviou. Não é possível admitir que Deus seja grande, maravilhoso, misericordioso, e tudo o mais que queiramos, e deixar de lado a proposta de Jesus. Rechaçar, com a sutileza que o fazemos, qualquer aspecto do Evangelho é rejeitar Jesus, e rejeitar a ele é repelir o Pai que o enviou.Talvez seja difícil escutar entre nós uma rejeição verbal contra Jesus, mas o que de fato vemos com toda a clareza é a repulsa prática, o deixar de lado por mil justificativas os aspectos mais comprometedores e de maior exigência do Evangelho; infelizmente, nós passamos a vida teorizando, inventando planos e projetos de evangelização que muitas vezes ficam somente em mera teoria; não é esta uma das muitas maneiras de deixar escapar o próprio Evangelho e por onde se vai Jesus, ou por outras palavras, um modo de rejeitá-lo?

Serviço bíblico Claretiano

alma/corpo

O ser humano é uno e complexo, constituído de corpo-e-alma. Ele não tem corpo e alma. É corpo e alma. Pertence ao lado trágico da nossa cultura ocidental ter separado o corpo e a alma. Essa separação ocasionou, por um lado o surgimento de uma cultura materialista assentada exclusivamente sobre o corpo, entendido como um objecto sem profundidade (alma). O império dos sentidos, do desfrute, da utilização das coisas para benefício do ser humano: o domínio da galinha.
Por outro, favoreceu uma cultura espiritualista, baseada exclusivamente no espírito, na experiência subjectiva, desenraizada da matéria, pairando soberanamente por sobre a densidade do real. Espírito feito refém das suas ideias, projecções e teorias, alienado da luta quotidiana e comum dos mortais. É o reino da águia.

...O corpo e a matéria de um lado e o espírito e a alma de outro. E o que é grave, em guerra entre si. Perdeu-se a complexidade e o jogo das relações de tudo com tudo. A matéria não é espiritualizada e o espírito não é corporalizado.

Leonardo Boff in A águia e a galinha
Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo
em que não moras
E o teu encontro
São planícies e silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito osd jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andersen

2006-10-04

"uma inexprimível liberdade..."

Entretanto, somos livres. A liberdade nos foi dada para moldar a vida e modificar o destino. Na liberdade podemos acolher ou rejeitar o paradoxo de paraíso e de queda, de águia e galinha e de vida e morte. Podemos assumir a queda como desafio para nos auto-superar. Como podemos ficar tão somente na lamúria, na fuga ilusória e no encaramujamento sobre nós mesmos.
Na liberdade podemos jovialmente hospedar a morte ou tentar, ilusoriamente, fugir a ela. Pouco importa. Ela é soberana. Vem e sobrevem infalivelmente. Não se introduz no termo da vida. Instala-se já no seu começo. Lentamente vamos morrendo, minuto a minuto, em prestações até acabar de morrer.
Dar primazia à vida, olvidando a sua mortalidade é cair pesadamente nos braços da morte. Acolher, com serenidade a morte porque pertence à vida, implica dar primazia à vida e viver uma inexprimível liberdade. É viver mais e melhor. É ressuscitar.

Leonardo Boff in A águia e a galinha

a lição


Não há dúvidas que, o tempo é de Outono. Ventos, algumas chuvas, as árvores despidas de folhas...Ah! Mas nem todas. A nespereira está cheiinha de flores. É tempo de florir - floresce!

2006-10-03


Intervalo amoroso

O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?

É como se entre um dia e outro
houvesse o vago-dia, cinza,
vida igual a morte, amortecida.

O poema, avulso gesto de amor,
é vão recobrimento de espaços.
O poema é dúbia forma de enlace,
substitui o pênis
pelo lápis
- e é lapso.

Affonso Romano de Sant'Anna

Foto-urso-pular.blogspot.com/

maria vai com as outras...

Anda um anúncio a passar na RTP, sobre o que algumas personalidades (cromos), acham de Portugal. Nem tenho dormido. Inquieta por saber, a totalidade do pensamento, dos tais senhores e senhoras. O que é que eles acharão de Portugal? Como eu, Portugal deve estar suspenso para saber, para onde vai, a seguir.

O chato é que, parece mentira, mas apesar de Deus Nosso Senhor, nos fazer livres e responsáveis pelo nosso ser e agir, estamos sempre à espera de ser levados, na onda que passar mais perto e nos exigir menor esforço.

Ainda, na quinta-feira, enquanto uma médica e enfermeira me faziam as biópsias, tive de as aturar a lamentar-se da administração (que parece que é sempre pior que a anterior), da falta de meios (que parece que são piores que em África. Vê-se logo que nunca lá estiveram, nem perto...) e para rematar a conversa, terminava a enfermeira: "É que assim, até nos sentimos desmotivadas...ninguém se esforça."

Viver, trabalhar, amar é sempre a nadar contra a corrente. Quem é que tem ilusões do contrário?

que saudades...



Quem é que já andou num tapete assim? O som das folhas que os pés revolvem...

Não há tapete de folhas de castanheiros. Mas temos o Manel de regresso ao Adro! Bem-Vindo!

2006-10-02

os padres...

Iniciei uma reflexão, que pretendia fazer sobre os padres. Até sugeria que ia continuar. A verdade, é que estou sem vontade de voltar ao tema. Por várias razões. Parece-me que recai sobre os padres, o mesmo anátema dos funcionários públicos. Obtiveram uma situação de previlégio, e agora são a mãe de todas as desgraças. Não nego que acabo por ser muito condicionada, pela minha experiência pessoal, que tenho, de colaborar com alguns padres. Mas depois, contraponho, outros que conheço, alguns colegas bloguistas, outros de quem me chegam ecos de uma vocação radical, porque profundamente evangélica.

E é nessa linha, que encontrei este testemunho, que geograficamente nem me deve ser muito distante, e mostra que há quem saiba ser padre, independentemente, das comunidades pouco acolhedoras, amorfas, fechadas nelas próprias. Dos bispos carreiristas. Duma sociedade onde se cultiva o efémero e superficial.

Bem hajam! Porque sempre que se reunem, têm convosco a Igreja-Corpo de Cristo.

"amorosamente independentes"

Mergulhe no mais íntimo de si sem medo da vertigem provocada pelo inusitado de sua própria identidade. Embriague-se com a sua singularidade e deixe que ela baile no espaço etéreo de sua liberdade. Penetre suas cavernas interiores, explore os subterrâneos de seu inconsciente, deixe que aflorem em revoada todos os anjos que o povoam.

Frei Betto - artigo completo aqui

meditação para os dias que correm...

Uma confiança igual feita a todos os povos da terra, não somente a alguns, abre um caminho de paz. Em todos os povos existe um número restrito de pessoas insanas, capazes, se chegam ao poder, de arrastar multidões para a engrenagem do ódio e da guerra. Por isso é essencial de nunca humilhar os membros de uma nação onde apenas alguns dirigentes desencadearam incríveis violências. Precisamos nos convencer de vez que não existe povo mais culpado do que outros, isso não existe, nem nunca existirá.

irmão Roger - www.taize.fr

Parabéns...


Há vinte e seis anos, nascia a Ana. Todos os dias, agradeço a alegria de ser tua mãe.