2006-10-23

continuação do post anterior

Agnosticamente conservo uma esteira de sacralidade quando me instalo no domingo. Da longínqua liturgia da missa persiste a nostalgia do encontro em utópica comunidade.

Li esta magnífica frase no blog Anomalias.

Fez-me recordar as várias eucaristias em que participo que, por motivos vários, são tempos de crispação, de vazio, de perda de sentido. Fez-me lembrar também de uma conversa que tive há pouco tempo, com uma jovem, em que ela me dizia o mesmo. Concordei com ela, assim como concordo com o "Anomalias", mas fiz-lhe notar que é necessário irmos à profundidade das coisas, não desanimar, procurar uma e outra vez o sentido de nos reunirmos. Falei-lhe da riqueza da Palavra. Da capacidade de irmos de coração vazio, pronto para o encontro, mas ao mesmo tempo cheio com tudo o que é a nossa vida, com todos os que, de diversas formas, trazemos no coração. Não há celebrações perfeitas e comunidades idem.

E lembrei-me da minha conversa, ontem, com a D. Eduarda. Houve uma procissão em louvor de Maria, na nossa paróquia. Na qual não participei. Já sabia que ela me ia fazer perguntas sobre o assunto. Olhei o andor, que ainda se encontrava na igreja. Estive com atenção ao que o prior dizia sobre o assunto, porque já sabia que se tivesse corrido mal, haveria as lamúrias do costume.

Assim, quando ela me perguntou se tinha ido à procissão, disse que não. Como é uma velhinha muito sagaz, perguntou-me logo se eu não gostava de procissões. Engoli em seco, disse-lhe que não era bem isso. E comecei foi logo a falar-lhe que o andor estava muito bonito e que parecia que tudo tinha corrido muito bem, pois o prior também tinha falado muito na procissão. Ela ficou contente com o meu relato.

Como é que a Igreja vai fazer a ponte, entre as velhinhas que adoram rezar terços e ir em procissões e jovens que não encontram sentido nestas manifestações do sagrado?

Uma coisa eu sei. Isto exigia um diálogo muito mais profundo dentro das comunidades. E um desinstalar dos srs priores que também padecem um pouco dos males de preguiça em ousar caminhos novos. Como é que nos tornamos numa Igreja que vai ao encontro, quando tantas vezes, nem as "portas abertas" temos?

6 comentários:

  1. Talvez fazendo como um padre meu conhecido: no passado sábado saiu com as velhinhas para uma procissão em honra da Senhora do Rosário; no próximo sábado vai sair com as crianças e adolescentes para um desfile de máscaras de Halloween... :)

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  2. Todavia, penso que o verdadeiro caminho passa por nos libertarmos desta excesiva fixação nos padtres, no que eles fazem ou deixam de fazer ou deviam fazer. O Confessionário tem uma sondagem a decorrer sobre as razões que impedirão o aumento de vocações sacerdotais. Ora, não está lá aquele que me parece o verdadeiro motivo: a própria vontade de Deus. Pois só "perdendo" a figura do padre é que cada cristão se consciencializa do valor da autonomia da fé e assume o seu lugar na dinamização da comunidade, pondo a render as suas capacidades e criatividade.

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  3. Sobre a citação do Anomalias: penso compreendê-lo, pois, olhando para o passado, a eucaristia dominical era a grande marca do sagrado que justificava a diferenciação dos dias e sua vivência; e constituia o espaço por excelência de congregação de toda a comunidade (era preciso ter coragem para não ir à missa).
    Hoje, são outras as sagrações do domingo (que cada vez mais se distingue menos dos outros dias); e a comunidade que se reúne já não é tão representativa (tantas vezes, nem comunidade é).
    Sem dúvida que isto coloca tremendos desafios; e percebe-se porque, para alguns, a nostalgia fala mais alto e os leva a buscar um retorno ao passado como forma de solucionar a crise: se tivermos a missa de antigamente, tudo voltará a ser como antes. O azar é não darem conta (ou não quererem ver) que a missa do passado foi uma das razões da crise...

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  4. Js,

    claro que concordo contigo. No Atrio está um artigo que ainda não tive tempo de ler e refletir que fala destas temáticas. Mas depois, do encontro e conversa que acabo de ter (do qual fiz um post) hoje estou incapaz de reflectir sobre mais alguma coisa.

    Obrigada pelas tuas achegas sempre tão oportunas.

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  5. Há dias em que os nossos próprios problemas parecem ridículos...
    Bj.

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