2006-10-27

guardadores de lâmpadas fundidas

Não vou meter-me muito, ou praticamente nada, na discussão a propósito, do próximo referendo sobre a despenalização/liberalização da IVG. Não é que não tenha nada a dizer sobre o assunto. Ou que não saiba já qual o sentido do meu voto. Mas neste momento, as minhas forças estão concentradas noutros assuntos. E não tenho que chegue para tudo.
Desde que possa, vou votar. Só me vou abster de ouvir alguns comentários, quer de uma, quer de outra facção. É que se ouvir, por exemplo, o Louçã, só me vai apetecer ir a correr votar num rotundo não! Se ouvir coisas do género; de que os que votam sim, não amam a vida, não gostam de criancinhas, são uns egoístas...e não falando em vídeos bárbaros e desonestos que já andam a circular pelos caixas de e-mail, vou a correr votar sim, só para não ter que os ouvir mais e às suas motivações simplistas da vida.


Lucas 12, 54-59 Vós sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu. Como é que não sabeis interpretar o tempo presente?

Uma das coisas que se ouve frequentemente, por estes dias, nos tais iluminados partidários da vida é que vivemos uma "cultura de morte".

Relembro do evangelho de Lucas, a censura que Jesus fez ao pessoal do seu tempo que, olhando para o céu e vendo-o cheio de nuvens, imediatamente dizia que ia chover. Fazer essa observação não custa nada. Olhar para o mundo e ver que há fome, guerra, corrupção, egoísmo, injustiças, que não há respeito e compaixão pelos mais débeis, que a única coisa que conta é o lucro e mais lucro. Que o consumismo se tornou "o pão nosso de cada dia". Até um cego vê. Agora saber olhar para essa realidade e transformá- la em tempo de "kairós". Tempo favorável para a mudança, para alimentar a esperança e a caridade. Tempo para mostrar que, o tempo presente "kronos", não se resume a uma sucessão de dias, horas, minutos, para gastar de forma inconsequente, como se eles próprios, não tivessem impregandos de eternidade.

Se as palavras que um cristão tem para dizer, continuamente, é que se vive numa cultura de morte é porque vive de olhos fechados para a vida. Sabe olhar o céu e ver as nuvens que anunciam chuva, mas não sabe, pela sua acção diária, aproveitar essa água e torná-la fonte de vida. E aí, lá estamos nós a pregar o tal Cristo morto. Como diziam, há dias, os ateístas (salvo erro, Ricardo Alves) estamos com a despensa cheia de lâmpadas fundidas. E é nelas que pomos a nossa esperança.

10 comentários:

  1. Boa tarde
    Concordo que este é assunto que não admite simplismos.
    não me agrada nada o tipo de camapnaha que referes...
    e já agora, obviamente concordo com o comentario que fizeste ao artigo que referi no razoes do não...
    talvez não devesse ter publicado aquilo. mas agora que posso ter feito asneira, não gosto de esconder os meus erros...
    quando começar a publicar sobre este tema, venho avisar-te. se tiveres tempo gostava que me fosses "criticando".
    abraço

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  3. You' ve got It, baby ;)

    Bom fim de semana.

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  4. Zé Maria,

    não te esqueças que temos uma coisa muito forte em comum: Varillon! ;)Além da fé, claro! :)

    Eu nem tinha reparado, que eras tu que tinhas publicado o artigo. Pensava que era o Manel. Se calhar, por isso, não travei nada a língua. O Manel, já me conhece de gingeira.

    Tu nem imaginas, como me é doloroso falar sobre este tema. Até há poucos meses eu defendia, rotundamente, sem reservas, o "não". E ficava de consciência tranquila.
    Entretanto, aprendi que, por vezes, se tem de viver com pesos na consciência.
    Nunca fiz nenhum aborto. Também, por várias razões, nunca o irei fazer. Nunca aconselhei ou aconselharei, alguém a fazê-lo. É do foro íntimo de cada um. Há uma jovem que eu apoio no que posso, que diz que não fez um aborto por minha causa. Mas eu nunca lhe disse tal. Apenas, lhe fiz ver da responsabilidade das várias opções que tinha à frente.

    Continuo a achar o aborto um mal. Eu, como mulher e mãe, acho que o melhor dom que Deus nos deu foi a vida. Como mulher, sinto-me feliz e realizada pela maternidade.
    Mas este é o meu contexto de vida. Nem todas as mulheres o podem dizer e sentir como eu.
    Para mim a vida, tem um valor absoluto. Mas não é para toda a gente assim. Não posso obrigá-los, não posso proporcionar-lhes as condições, para que o sintam como eu.

    Resumindo, o meu desejo é que não fosse necessário, mulher alguma, fazer um aborto. Independentemente das razões que podem ser múltlipas.
    Mas porque algumas o fazem,com consciência maior ou menor do que estão a fazer. Porque o fazem por necessidade ou até por egoísmo. Não quero "atirar pedras a ninguém". Não quero ver nehuma mulher na cadeia por causa disso. Também não quero a hipocrisia de alguns julgamentos que são mas não são. Nem a hipocrisia de que é crime, mas a gente fecha os olhos.

    Também não quero que quem tem dinheiro, vai a clinicas seguras e faz o "serviço limpinho", quem não tem, sujeita-se a gente sem escrúpulos e minimamente preparada.

    Por isso, vou votar sim à pergunta do referendo.

    Vou fazê-lo em consciência. Sem ter a certeza, que é a coisa certa a fazer.

    No que sinto e sei neste momento, é a resposta possível.

    Depois disto, não sei se te servirei de contraditório...

    Mas disposta a dialogar, estou sempre. :)

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  5. Corrijo: Ginjeira. Vê-se logo que não abuso do nectar dos meus vizinhos obidenses.

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  6. o 1º contributo para o debate está feito...
    abraço e obrigado por me lembrares o óbvio quem nos une é mais forte do que aquilo que nos pode separar...

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  7. MC,

    Nunca tinha conseguido exprimir a minha opinião sobre a IVG de maneira que pudesse expor o meu ponto de vista com clareza.
    Tu conseguiste. Faço minhas as tuas palavras.
    Obrigada.

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  8. mc

    Aplicando o mesmo tipo de argumentação, mas partindo do feto em vez da mulher, achas que chegavas ao Não?
    Ou o feto não é aqui tido nem achado?
    Não repares na maneira algo brusca como ponho a pergunta. A tua resposta ao zé maria brito merecia menos crueza... mas é o meu estilo.

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  9. David,

    podes crer que é por ser para ti, que eu te respondo. Não ignoras a ansiedade que vivo por estes dias. É que sou uma mulher rija, mas não sou de ferro.

    Eu podia muito bem ter decidido o meu voto e não escrever nada aqui no blogue. Crentes e ateus que me lêem, aposto que punham as mãos no fogo em como a minha opção seria "não". E a verdade, é que até há bem pouco tempo era. As discussões que já tive aqui na net, sobretudo no "falecido" barnabé, acerca do assunto...

    O que me fez mudar? Nem eu sei. Um leitor que se assume como agnóstico, no blogue do João Tunes, diz que eu tive a "minha estrada de Damasco", mas fá-lo com ironia. Estrada de Damasco não tive nenhuma, mas dou cá cada trambolhão do cavalo a baixo...

    Não te passe sequer pela cabeça, que eu neste assunto me ponho só de um dos lados. Nós temos dois pés que gostamos muito de usar, caminhando direitinhos apoiando-nos quer num, quer noutro. Neste caso também gostávamos de fazer assim. Mas é que aqui quer queiramos quer não, os dados baralham-se um pouco. Há um conflito de interesses. Ou até pode não haver. A mulher que aborta nem sempre o faz de livre e expontânea vontade. Há muita coisa em jogo. Eu já disse que para mim. a vida tem um valor absoluto. Mas isto, depois, tem tantas gradações que te digo de coração: Quem pode dar esse valor absoluto à vida é Aquele a quem chamamos Deus.

    Pensas que só me ponho no papel da mulher? De modo nenhum. Tento pôr-me do lado dos dois. Com a imperfeição de que a minha natureza humana é capaz. Como crente, sei quem o faz do tal modo total, sem precisar de se por ora num pé ora noutro: Deus.

    Este é mais um dos casos, em que confio na redenção.

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