2006-11-30

Bom fim-de-semana


Dentro da cidadela fortificada existe uma cortesã de beleza inacreditável;
As pérolas brilhantes em sua barriga descansam contra o cetim de sua pele nua.
Reclinada num fundo de flores, ela brinca com um papagaio,
E toca o violão sob o luar.
Aqueles que sua canção ouvem não a podem esquecer, mesmo depois de três meses;
Sua adorável e breve dança, não há quem não a queira ver.
Mas o fato é que isto não pode durar para sempre;
A flor de lótus não aguenta o inverno de gelo.

Mestre Hanshan (Zen Budista)
retirado do site de Faustino Teixeira, teólogo

os maus hábitos da Igreja espanhola...

Sorprende levantarse una mañana y leer en el periódico, de boca del portavoz de los obispos, que “el Estado no tiene competencia para definir el bien y el mal moral”. Lo dice a propósito de la nueva asignatura llamada Educación para la ciudadanía. Y como monseñor se malicia que en la escuela se va a hablar “del bien y del mal moral”, amenaza con un motín católico, pues, en ese caso, señala, “los padres tendrían pleno derecho a ejercer su objeción para que sus hijos no tuvieran que cursar una asignatura que contradice sus convicciones morales y religiosas”.
Pero, vamos a ver: ¿desde cuándo no se puede hablar en la escuela del mal y del bien, es decir, de valores? A los obispos españoles les cuesta entender que la democracia no es solo una organización técnica de la vida social, sino también una forma de convivencia basada en valores como la libertad, la igualdad y la solidaridad. Y es lógico, por tanto, que en la Educación para la ciudadanía se tome partido por la tolerancia, la responsabilidad o la justicia.

ler artigo completo aqui

Passas uma noite agitada, o sono é um fluxo intermitente e entupido como a leitura do romance, com sonhos que mais parecem a repetição de um sonho sempre igual. Lutas com sonhos tal como com a vida sem sentido nem forma, procurando um desígnio, um percurso que apesar de tudo tem de existir, como quando se começa a ler um livro e ainda não se sabe em que direcção irá levar-nos. O que tu querias era o abrir de um espaço e de um tempo abstractos e absolutos em que pudesses mover-te seguindo uma trajectória exacta e linear; mas quando pensas tê-lo conseguido reparas que estás parado, bloqueado, obrigado a repetir tudo desde o princípio.

Italo Calvino - "Se numa noite de Inverno um viajante"

2006-11-29

e agora a "passar-me"...

..."Nas ruas, sente-se uma certa indiferença. Mas, segundo os relatos de quem por lá anda, como a maioria dos carros são brancos e os taxis amarelos, ajuda a dar côres vaticanas ao ambiente turco."

Leio isto no blogue do padre JP e não sei se hei-de rir, se chorar, se arrepelar os cabelos. Não sei quem fez tais relatos e analogias. Se fosse a Aura Miguel, não me admirava nada. Ou algum dos outros jornalistas que, em vez de fazerem o que lhes compete; que é informar com um mínimo de seriedade, se prendem a estes pormenores de merda.

A Igreja que tão bem discursa contra alguns dos ídolos da sociedade, não resiste, ela própria, ao mais alto nível, a criar os seus.

E já que o povo turco, está a viver a vida de todos os dias, como é normal que seja, vamos nós inventar um ambiente à altura do ilustre visitante.

Pelo menos fiquei a saber que os turcos têm preferência pelos carros de cor branca e que os taxis são amarelos. De que cor serão os autocarros?

e agora a sério...


Por razões óbvias, tenho acompanhado muito pouco e mal a viagem do Papa à Turquia. Como cristão que é, desejo que, para além das intenções diplomáticas, da aproximação do Oriente ao Ocidente, do diálogo Islão/Cristianismo, tenha como missão primeira, o seguinte: "O nome de Deus é Paz."

a nú

A surpresa de hoje, foi acordar com uma bruta de uma dor de cabeça. De que ainda sinto os efeitos. Por isso, se isto sair um bocadinho enviesado, dêem-me o devido desconto. Acordei sem vontade nenhuma de abrir os olhos e saltar da cama. Lembrei-me do que a Dona L. , me tinha dito na segunda-feira, ao telefonar-me para saber como é que eu estava. Depois de lhe contar, terminou a dizer:" que o seu sofrimento seja pela visita do Papa à Turquia, para que não lhe aconteça nenhum mal". Num relance pensei:"Porra! Mas quem é que o mandou para lá? E quais são as intenções da tal visita?" (A diplomacia vaticana, os tapetes vermelhos, os sapatos "prada", os jactos particulares, o anelão de ouro no dedo que tem o nome de "pescador", dão-me uma tremenda alergia). A ela, apenas disse:"Está tanta gente, neste momento, a sofrer neste mundo, que dorzinha a mais ou a menos da minha parte, não vai fazer grande efeito." Isto, para não escandalizar mais a senhora, por quem tenho muita estima. Ao acordar, pensei que a porra da dor de cabeça era o castigo pelos meus maus pensamentos :)

Ontem no IPO, onde voltei para serem avaliados os estragos de quinta-feira, médica e técnicas não paravam de salientar a minha capacidade de aguentar a dor e o sofrimento, do meu sangue-frio para enfrentar a crise. Não lhes disse, mas digo aqui, o que pensei:"se soubessem "as doses de vacinação" que a vida me tem dado para tal." Esse é o aspecto vísivel, sensorial, prático.

O Andarilhus, e também o João Tunes, falam da minha atitude perante a vida. Essas coisas, só me embaraçam e só me apetecia, desatar para aqui, a contar os meus pecados. Não vale a pena, entrar nos pormenores do que eles são, porque o que sinto como maior, como a raiz de todos eles, é a minha pouca abertura a Deus. O meu maior pecado é não deixar que Deus seja em mim. É encher o meu coração dos meus desejos, dos meus medos, das culpas dos passos mal dados. De me agarrar demasiado ao que acho que são as minhas forças, e não me colocar na acção libertadora de Deus, na minha vida.

Quando o "caldo está muito entornado". Quando já não sobra mais que a angústia e o medo, então digo:"Vem, meu Senhor e meu Deus!" E, posso dizer que, até hoje, nunca deixou de vir. Ámen.

desperta!

"Despierta! La felicidad eres tú!Despertarse es la espiritualidad, porque sólo despiertos podemos entrar en la verdad y descubrir qué lazos nos impiden la libertad. Esto es la iluminación. Es como la salida del Sol sobre la noche, de la luz sobre la oscuridad. Es la alegría que se descubre a sí misma, desnuda de toda forma. Esto es la iluminación. El místico es el hombre iluminado, el que todo lo ve con claridad, porque está despierto.

No quiero que os creáis lo que os digo porque yo lo digo, sino que cuestionéis cada palabra y analicéis su significado y lo que os dice en vuestra vida personal; pero con sinceridad, sin autoengaña-ros por comodidad o por miedos.Lo importante es el Evangelio, no la persona que lo predica ni sus formas. No la interpretación que se le ha dado siempre o la que le da éste o aquél, por muy canonizado que esté. Eres tú el que tiene que interpretar el mensaje personal que encierra para ti, en el ahora. No te importe lo que la religión o la sociedad prediquen.

La sociedad sólo canoniza a los que se conforman con ella. En el tiempo de Jesús y ahora. A Jesús no pudieron canonizarlo y por ello lo asesina-ron. ¿Quiénes creéis que lo mataron? ¿Los malos? No. A Jesús lo asesinaron los buenos de turno, los más respetados y creídos en aquella sociedad. A Jesús lo mataron los escribas, los fariseos y sacerdotes; y si no andas con cuidado, asesinarás a Jesús mientras vives dormido.
Despertarse es la espiritualidad, porque sólo despiertos podemos entrar en la verdad y la libertad.
...
ler artigo completo aqui

de "Autoliberación Interior" Toni de Mello

2006-11-28

"Não ficará pedra sobre pedra" Lc 21, 5-11

"Em meio ao barulho do povo no templo, alguns admiram a magnificência da construção. O templo, reconstruído depois do exílio, parece que foi realmente modesto se comparado com o primeiro, construído por Salomão. Contudo, para a época de Jesus, aquele modesto templo do pós-exílio era outra coisa totalmente diferente.
Herodes o Grande, com mania de grandeza por natureza, buscando reconciliar-se com os judeus, havia-se encarregado de remodelá-lo, com ampliações e com soluções que ainda surpreendem a engenharia moderna. Isto para entender por que os visitantes se maravilhavam tanto com aquela obra. Exceto a magnificência do edifício e a pompa da obra como tal, sabemos que o templo significava tudo para Israel, não somente por sua convicção de que era o lugar da Presença, lugar onde habitava o Nome de Deus ou sua Glória (Ezequiel 43, 4), mas porque, como estrutura institucional, determinava todos os destinos políticos, econômicos, sociais e religiosos da nação.
Consideremos só o religioso: o templo como habitação do Nome (os israelitas não se atreviam a personificar a Deus nem muito menos a dar-lhe um nome específico, por isso utilizavam invocações para se referir a ele: o Nome, a Glória, a Presença, Shekiná) do lugar específico do Santo dos Santos se irradiava sua santidade para os demais lugares do templo: primeiramente para o que estava mais perto do lugar da Santidade: o altar, em seguida as casas e o pátio dos sacerdotes de Israel, depois as casas e os pátios dos levitas, pátio dos israelitas legalmente puros, pátio dos impuros, pátio das israelitas e das crianças, pátio dos estrangeiros, palácios próximos, o resto da cidade, o país e o mundo; de modo que a santidade se deduzia pela proximidade ou distância do lugar da Santidade divina. Nessa medida, o templo era a réplica em miniatura da sociedade israelita estratificada por razões sociais, econômicas e contraditoriamente, por razões religiosas (puros e impuros, abençoados e malditos).

Aqueles que observam a maravilha arquitetônica não estão em condições de pôr em questão tudo o que há por trás daquela estrutura de pedra; unicamente Jesus, que como já vimos se orienta por outros critérios, com outros parâmetros, é capaz de questionar e até se atreve a predizer sua destruição: o da ruína material pôde tê-lo dito pela simples constatação histórica porque já havia ocorrido em 587, mas também porque era um facto que os detentores do poder procuravam arruinar as construções religiosas dos súditos para submetê-los com maior crueza. Destruindo os templos, saqueando-os e, especialmente, retirando deles as estátuas das divindades e demais símbolos religiosos, os invasores davam por submetidos também os deuses dos povos conquistados, e estes tinham a obrigação de submeter-se à religião do conquistador.
Já o templo de Jerusalém tinha sido saqueado pelos babilônios, pelos gregos, e faltavam os romanos, mas não tardariam. Contudo, a realidade da destruição de templo Lucas já a devia conhecer e aproveita aquela imagem para pô-la na boca de Jesus como profecia e como introdução a seu discurso escatológico que se abre precisamente aqui a propósito das palavras de uns aterrorizados fiéis diante daquela fortíssima construção.
Não é necessário, portanto, insistir se Jesus predisse a destruição de Jerusalém e seu templo em termos literais. O mais importante é que com a clareza de uma consciência totalmente liberta e desprovida da alienação religiosa, própria de seu tempo, Jesus manifesta sua mais profunda convicção e fé na queda de todo o sistema montado ao redor do templo como estrutura geradora de injustiça institucional. Não seria algo pacífico nem fácil, com a mesma violência e injustiça com que se tinha levantado tudo aquilo, seria derrubado também. Não porque Deus interviesse para que as coisas se dêem assim, senão como uma espécie de lei da vida. "

Serviço Bíblico Claretiano
Sem que soubesses

Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada,
Em tudo o mais usei de parcimónia
a que me forçava aquele ardor excessivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias

Fernando Assis Pacheco - "A Musa Irregular"

2006-11-27

"Ó morte sempre vencedora..."

O Homem só deixará de promover os actos irreflectidos de aniquilação quando, perante a morte, encontrar o seu rosto sobre as cinzas dos finados.Enquanto se sentir intocável e soberbo de vida, jamais deixará de cultivar o poder, o domínio, a concorrência desregrada, no âmago da sua natureza. Somos predadores antropófagos.

Estas palavras, escreveu-as o "andarilhus" que tem este blogue magnífico, e que eu, tendo-o nos meus favoritos, ainda não tinha feito a devida divulgação (egoísta!).

Estas palavras, sinto-as eu, olhando para a minha vida e para as vidas à minha volta. E, vem-me à memória, este grito bíblico que é de todos os tempos:"SENHOR, que é o homem, para cuidares dele, e o filho do homem, para nele pensares?" (SL 144,3)

E, no entanto, acredito: a morte, o ódio, a violência, não terão a última palavra. Jesus Cristo, revelou-nos isto (não numa fórmula de procedimentos ou de práticas religiosas, experiências místicas,) mas porque Deus é Amor. E ama e salva, no acontecer da nossa vida. É isso a Encarnação. Senti-o, hoje, de modo sensorial, numa atitude concreta: as lágrimas que corriam nos olhos de uma amiga, quando lhe contava os últimos acontecimentos da minha vida. As que tenho reprimido, aguentado, escondido; chorou-as ela, hoje, diante de mim. E nessas lágrimas espontâneas, sinceras, amigas senti Deus e a promessa do homem redimido. Que querem? Eu sinto-O assim.

Mário Cesariny


exercício espiritual

É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem


É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora

As negruras da vida...

...pondo de parte as pessoais (está visto que aparecem onde menos se esperam), neste fim-de-semana; morre Mário Cesariny. Um cidadão que investiga os dislates (crimes) do governo russo, e tanta gente, vítima das mais diversas formas de violência.
Ontem, circulei duas horas num centro comercial, e assustei-me com os homens que via por lá sentados nos bancos...a aguardar...com cara de quem estava a ouvir um sermão daqueles de fazer adormecer a pedras da calçada. E a procura de trapos para cobrir o medo, o vazio, a falta de esperança.

Comecei a ler um novo livro do Italo Calvino. Começa com um rapazinho que se zanga com a família e resolve viver em cima das árvores, sem pôr os pés no chão. É sempre uma tentação, a que, cada um, responde conforme sabe e pode. Neste ínicio de semana, se pudesse, também subia para uma árvore qualquer. Que Deus seja o meu refúgio. E a vida, o lugar onde o sinto, pressinto e vivo.

"Sinais de esperança"


“ Embora tenhamos o poder de destruir o mundo inteiro, a vida é mais forte do que o instinto da morte. O amor é mais forte do que o ódio. Não há sentido lógico em entregar-se demasiadamente à esperança, mas, repito, não é isso uma questão de lógica, e não se procuram nos jornais sinais de esperança ou nos pronunciamentos dos líderes mundiais (nesses, raramente há algo que dê esperança, pois aquilo que pretende ser animador é, em geral, de tal maneira vazio de esperança que somos levados ao quase desespero). Porque existe amor no mundo e porque Cristo assumiu nossa natureza, permanece sempre a esperança de que o homem, finalmente, depois de cometer muitos erros e ocasionar muitos desastres, haverá de aprender a desarmar-se e promover a paz. Há de reconhecer que tem de viver em paz com seu irmão. Contudo, nunca estivemos menos dispostos a realizar tal coisa.

Thomas Merton

2006-11-24

bom dia :)

Para actualizar o último post, e, porque num breve "passeio" pelos blogues, já li os desabafos do Lutz e do João Tunes (desculpem a falta de links, mas vocês já são dois "monumentos", na blogosfera lusa) venho dizer que estou bem. A convalescer nos arredores da capital, com a mama a congelar (envolta num saco de gelo), porque no exame que fiz ontem e que devia correr igual ao da semana passada e como corre a todas as outras mulheres, rompeu-se, sem que ninguém tivesse culpa disso, um vaso sanguíneo de tamanho considerável, pela hemorragia que provocou. Como nestas alturas, consigo manter o sangue frio suficiente para ser tratada sem "chiliques", nem alarmismos, eram as técnicas a tentar estancar o sangue, um médico a medir-me o pulso e eu a dizer:"Tenham calma. Eu estou bem!". A dar ordens, como se vê!
Só que a hemorregia não havia meio de parar. Ainda se considerou eu ir para o bloco operatório para ser mesmo "cosida" "com agulha e dedal". Mas escapei a essa. Agora é descansar, não fazer esforços e breve, estou "como nova".

Devo salientar a generosidade da técnica que me socorreu, porque eu já estava a vestir-me e ela a dar-me as instruções necessárias, quando a hemorregia irrompeu de novo, e ela sem luvas, a única preocupação que teve foi acudir à situação.

Destes imprevistos ninguém tem culpa. Faz parte destes processos. Eu, num relance, ainda tive tempo de pensar que se morre num esfregar de olhos, só é preciso é estar vivo.
À cautela, vou parar por uns tempos, com as "heresias" que escrevo por aqui. Porque esta semana, já são duas vezes que vejo a morte muito perto. ;)

Este processo está a ser muito demorado e desgastante, mas como dizia o outro:"É a vida."

Já é positivo o resultado da biópsia não ser logo de "chapa"; positivo! Como a radiologista que me está a acompanhar quer jogar o mais possível por um diagnóstico seguro, daí estes testes com novo equipamento e mais abrangentes nos tecidos recolhidos. É só esperar, mais nada.

2006-11-23

mas a dor também faz parte


Hoje, vou voltar ao IPO, para mais uma sessão, do novo processo de exames que me estão a fazer. Nesta minha história que começou em 17 de Agosto, vou percebendo um pouco, como é que funcionam as técnicas de tortura (perdoe-se-me a comparação). Na quinta-feira passada, chegada de Lisboa, já dizia aos mais próximos:Estou farta disto. Tirem-me a mama, mas decidam-se de vez!

amar a vida


Numa visita a um museu da cidade, era proposto ao grupo de crianças, uma actividade que consistia em construir um origami. No grupo havia um menino invisual. Ouviu as explicações, mas quem lhe fez a construção foi o professor que o acompanhava. No final, a pessoa que orientou a actividade perguntou, ao grupo, se tinham gostado da mesma. O menino respondeu: "- Amei!"
Ainda mal refeita da surpresa que a resposta lhe provocou, disse a orientadora:"-Amaste? Nunca ninguém me disse uma coisa tão bonita." Responde o menino:"- Mas foi para isso que eu nasci."

"Se tu soubesses o dom de Deus"


Deus não ama ninguém por ele ser bom, por ser bonito ou por ser agradável, ou por apresentar uma folha de serviços impecável. Deus não tem razões fora dele próprio, para amar. O seu amor não é motivado por razões que lhe venham de fora. Ama porque é amor.

Assim também não há razões que o desmotivem. Uma razão, que poderia desmotivá-lo, se emprestássemos a Deus os nossos pequenos critérios, seria o pecado. A ofensa, neste caso, o pecado, não O desmotiva; muito pelo contrário, centra, de tal maneira, no pecador e em todos os outros, as suas razões para agir que, esquecido de si, entra no mundo do pecado, dá a vida pelos que pecam e pede perdão para os que O matam.

Luís Rocha e Melo, SJ

2006-11-22

a primeira língua


Afinal já não estão a ouvir nada vocês os dois. Desapareceram também encolhidos num canto, abraçados um ao outro. É esta a vossa resposta? Querem demonstrar que os vivos também têm uma língua sem palavras, com a qual não se pode escrever livros e que só se pode viver, segundo a segundo, sem registar nem recordar? Primeiro vem esta língua sem palavras dos corpos vivos - é a premissa que queriam que Uzzi-Tuzii considerasse? - , depois as palavras com que se escrevem os livros e se tenta inutilmente traduzir essa primeira língua, depois...

Italo Calvino - "Se Numa Noite de Inverno Um Viajante"



imagem - casacoamarelo.blogspot.com/

"Fora do corpo"

...Mística é uma palavra que causa estranheza. Há movimentos populares que a empregam como sinónimo de emulação ou animação. Há quem a tome com o significado de entusiasmo, que em grego quer dizer "estar repleto de Deus".

Se o entendimento do que é mística provoca tanta controvérsia, já a experiência mística é mais frequente do que supomos. Ela é o desdobramento do ego, o sair de si, o deixar-se possuir pelo outro, o descentrar-se para encontrar o centro no próximo. É a paixão amorosa, o sentir-se irresistivelmente atraído para fora de si mesmo. Alguém faz convergir em sua direção todas as energias do apaixonado. De tal modo que este se deixa impregnar pelo objeto de sua paixão, ainda que não possa vê-lo, ouvi-lo ou tocá-lo. O apaixonado sente-se arrebatado e admite que o âmago de seu ser está indelevelmente marcado por aquele outro que não é ele e, no entanto, o faz reviver "fora do corpo". Isso é o amor. E é experiência mística.

...O amor apaixonado não decorre da razão. Subverte-a. É enlouquecedor, transcende o raciocínio, a lógica, o discurso conceitualmente articulado dos "bons propósitos". A razão naufraga nas vagas intempestivas do coração. A afeição implode a sensatez do pensamento. Dentro do corpo o amado sente-se "fora do corpo". O objeto da paixão (transcendência) irrompe em meu ser (imanência) e resgata-me pelo lado avesso do ser (profundência).

Uma outra expressão da mística é a arte. Só há verdadeira arte quando se consegue estar "fora do corpo". No balé os movimentos do corpo são uma forma alada de expressar algo intangível, cujo desenho é pincelado pela música e transcende a sequência dos gestos da bailarina. Não se dança com a cabeça nem com os membros. Dança-se com a alma, numa entrega de si ao ritmo e à melodia que só vibra com densidade artística quando se está "fora do corpo".
O mesmo ocorre em todas as outras expressões de arte. Mas falemos da que me é mais próxima: a literatura. Não se escreve ficção com a cabeça. Escreve-se com o ser, extraindo do mistério pessoal a narrativa que nos espelha o espírito. Essa narrativa é "fora do corpo", imponderável e, no entanto, é a Palavra que biblicamente organiza o caos e cria o ser. E essa Palavra vem de "fora do corpo" e vai para "fora do corpo".

Talvez isso explique um dos fenômenos mais inquietantes da pós-modernidade: a morte da estética. Pois se a modernidade arrancou do palco a fé e a substituiu pela razão, a pós-modernidade despreza a razão para idolatrar o corpo. O que importa agora é a "estética" do corpo. É a beleza - não das infinitas possibilidades de expressão do corpo, aquelas que se expressam "fora do corpo" - mas a estética do corpo-em-si, retido à sua constituição física, orgânica, modelado segundo padrões fisiculturistas: magro, atlético e aparentemente jovem.
Essa corporalização da estética faz definhar o espírito e opera a inversão de Narciso. Narciso contemplava-se porque era belo. Na inversão não há beleza, há um padrão de formas, que suplica reconhecimento aos olhos alheios - o espelho narcísico invertido. Vejam em mim a beleza que julgo ter…

A beleza é algo que emana - da pessoa, da pintura, da escultura, da poesia… Não está propriamente no corpo, nas cores da tela, na materialidade da escultura, nas letras do alfabeto unidas em vocábulos no poema. Está "fora do corpo", porque irrompe do mais profundo do ser e atravessa a corporalidade do artista e de quem é tocado pela obra de arte. Assim, sacia o espírito. É imortal. "Deus é quem sabe".
A estética pós-moderna é pobre porque feita para consumo, e não para enlevar, elevar, arrebatar. Seu maior defeito é ser prisioneira do corpo.

Frei Betto - ler artigo completo em Adital

2006-11-21

bom proveito




"Vaticano ultima documento sobre o preservativo

O presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde (CPPS) anunciou hoje que o seu Dicastério “ultimou” um estudo sobre o preservativo. O documento, de carácter “científico e moral”, segundo o Cardeal Javier Lozano Barragán, surge após um pedido de Bento XVI para que fosse levado a cabo um diálogo entre este Conselho Pontifício e a Congregação para a Doutrina da Fé a respeito deste assunto.

O Cardeal mexicano, que falava em conferência de imprensa, no Vaticano, explicou que o estudo utiliza o saber de especialistas, tanto da ciência como da teologia moral. "O nosso Dicastério não tem competências doutrinais, mas apenas competências pastorais. Por este motivo, colocamo-nos em diálogo com o Dicastério competente. O estudo está agora a ser analisado pela Congregação para a Doutrina da Fé", explicou.
O documento reúne todas as posições da Igreja a respeito do uso do preservativo, desde as mais liberais às mais rígidas. A discussão deverá centrar-se, nos próximos tempos, sobre a utilização do preservativo em casos particulares e limitados, como a situação de casais em que um dos membros está contaminado pelo HIV. ..."


ler a notícia toda em www.ecclesia.pt

Desejo que o estudo seja proveitoso. Pelo menos, parece que têm em conta as posições todas. Não demorem é muito tempo nos testes, que a gente tem mais que fazer.

Olha com quem eu me estou a meter...


Hoje, na breve ronda que fiz pela "blogos", emocionou-me um post do João Tunes, a propósito de um que eu tinha feito, em memória da minha mãe. Como hoje não acordei com a melhor disposição do mundo, digamos que, acordei mesmo com um humor do caraças, soube-me bem aquele mimo do João. Já nem falo da nomeação para melhor blog feminino, que agradeço, mas não vejo que mereça.
Mas a minha história com o João, hoje, estava destinada a ter mais algum envolvimento. Fui bisbilhotar como é que o pessoal vai chegando aqui, e descubro que uma das pessoas, chegou a procurar no Google: "A medida de Tunes". (Vai a vermelho por causa do SLB)

Eu não sou mulher de deixar alguém sem resposta. Mas nesta, só o meu caríssimo amigo é que pode ajudar. Eu não sei, exactamente, qual é a medida pretendida. Imagine, caro João, que é alguém que, neste Outono, que tem sido muito chuvoso, lhe quer oferecer uma gabardina nova. Ou as medidas do colarinho, para uma camisa. Sei lá! Isto sou eu a especular. Se quiser arriscar a divulgar, faça favor. Não deixe a pessoa sem resposta.

SIEMPRE

Y cómo harás em no futuro versos?
— Haré mis versos sin hacerlos..., casi
fluidos, casi inmateriales, tenues,
sim palabras apenas,
o palabras que formen leve reja,
delgada reja, tras la cual asome,
tembloroso, mi espirito desnudo,
mi espirito sediento
y hambriento de supremas realidades:
ávido de saber la sola cosa
que hay que saber en vísperas
de la gran travesía...
— Y no amarás?
— Ay!, si, porque he nacido
para amar... bien quisiera
que a lo invisible abriese su corola
unicamente el alma: pero no puedo aún: Eva sonrie,
y tras ella, prendido mi deseo
en el rayo de sol de su sonrisa,
vuela, incapaz de detenerse, amigo!

Me temo, pues, que mi postreto
canto sea um canto de amor...

Amado Nervo, Enero 1916
Imagem - eva.sandstedt

2006-11-20

esta é a última de hoje...livra!

Ontem, na missa, à minha esquerda e à minha direita estavam duas pessoas conhecidas. A do lado esquerdo, soprou-me, já não me lembro em que altura (penso que não foi durante a homilia, que até foi bem razoável): "houve um encontro no Vaticano, sobre o celibato dos padres. Mas aquilo não deu em nada" Respondi: mas estava à espera que desse? E abanei a cabeça, como quem diz:(santa ingenuidade).

A do lado direito, no momento da comunhão diz-me:"não vou comungar. Faltei um domingo à missa. Porque estava muito cansada. (trabalha num lar de idosos)" Ainda lhe disse: mas isso não é motivo para não ires. E apeteceu-me, em dois minutos, confessar-me ali, a ela, para compararmos os nossos pecados. Não insisti mais com ela porque essas decisões cabem ao foro íntimo de cada um. Mas fiquei, interiormente, a lançar imprecaçõescontra uma Igreja, que tem posto a tónica no legalismo religioso, em vez do amor misericordioso de Deus. E senti-me constrangida, porque pelo amor que eu sei que ela tem, no trabalho que faz, senti-a mais preparada para se abeirar da mesa eucarística do que eu própria. Valeu lembrar-me que, a misericórdia também a mim é destinada.

esta então, vai ser uma desgraça...

Também cá chegaram à procura de "os bem cuidados jardins do Vaticano". Aqui é que não posso ajudar muito. Nunca lá fui. Não conheço. A minha viagem de sonho é às planícies da Mongólia...
Mas sobre os jardins, tenho um palpite; o que não faltará por lá, são "ervas daninhas". A ver pelos resultados das meditações que por lá se fazem...

consultório pouco técnico

Alguém chegou aqui procurando "pior erva daninha". Pois eu não sei qual é. No jardim não tenho cá nada disso. Vou utilizar uma comparação. Alberto Alberoni, autor italiano que escreveu sobre o enamoramento, amor etc., diz numa entrevista à revista "Pública" no dia 12/11/2006 que; "o sexo é bom, sempre que melhora as relações entre as pessoas".

Ora, a pior erva daninha, será aquela que quer o jardim todo só para ela, invade tudo, não deixa espaço para as restantes flores e plantas crescerem e florirem. Estamos entendidos? É que a seguir tenho outra resposta a dar.

2006-11-18

A minha mãe


Seta

A verdade é que não conseguia curar-se
de uma delicadeza infinita
senão consigo
ao menos para com o mundo
a glória desejava semelhante
no escuro e à luz dos campos
embora tanto se achasse incapaz

preferiu sempre a seta que desaparece
ao nome breve que se guarda

José Tolentino de Mendonça

Hoje farias setenta e um anos. Dezassete anos de saudade, não apagam as memórias que deixaste em todos nós. Foi contigo que aprendemos a amar. E ainda és tu que cuidas de nós.

2006-11-17

qual é a raiz do problema?

Alguém para me justificar a necessidade do celibato dos padres, contava-me a seguinte história:
" Soube que uma pessoa se dirigiu à igreja porque precisava de falar urgentemente com um padre." (Os padres, muitas vezes, são os psicólogos dos pobres. Ou dos que não querem admitir que precisavam de um.) "Responderam-lhe que voltasse no outro dia, porque já eram oito da noite e o sr padre tinha de ir jantar!"

E dizia-me a pessoa: "Está a ver? Um padre casado ainda menos disponibilidade teria... não ia deixar a mulher à espera"

E eu:"desculpe, mas um padre assim, nem para casar servia. Uma pessoa que mostra tal desumanidade perante o sofrimento de outra pessoa, nem para casar nem para ser padre."

Duas palavras, um sorriso, ou um abraço, dão-se num minuto e podem ter um efeito incalculável. A secura de coração, para essa, é que não conheço remédio. Não digo que seja o celibato que faça isto. O celibato livremente escolhido e saudavelmente vivido, é um modo de vida que pode ser tão realizador/compensador como qualquer outro. Já o funcionalismo de algum clero, é uma erva daninha na Igreja.

que surpresa!!!!



Vaticano reafirma importância do celibato
Encontro entre Bento XVI e chefes dos Dicastérios da Cúria Romana
. Bento XVI e os chefes dos Dicastérios da Cúria Romana reafirmaram hoje a importância do celibato sacerdotal na Igreja. Esta é a conclusão do encontro convocado pelo Papa, para analisar o chamado “caso Milingo”, os pedidos de readmissão de padres casados e os pedidos de dispensa do celibato.

não sou de pedra

No IPO, resolveram que as biópsias não eram conclusivas. Reeniciei o processo. Ontem a médica, depois de me "massacrar" mais de uma hora dizia:"- esta sra é mesmo paciente!". Porque não "tugi nem mugi". Mas a paciência está por um fio. No entanto, não tenho outro caminho.

evasão


A palavra "evadir" é das que não posso ouvir sem me entregar a um trabalho mental sem fim. A procura da âncora em que me empenhei parece apontar-me o caminho de uma evasão, talvez de uma metamorfose, de uma ressurreição. Com um arrepio afasto o pensamento de que a prisão é o meu corpo mortal e a evasão que me espera é a separação da alma, o ínício de uma vida extraterrena.

Italo Calvino - Se numa noite de inverno um viajante

2006-11-16

De uma santa paciência, eu sei, de um amor ainda maior é que eu precisava.

Eugène Ionesco

sinto-me ferida...

...como cidadã e como cristã, de cada vez que me dizem: "Para os nossos (portugueses), não há nada. Para os que vêm de fora há sempre dinheiro para gastar em benefícios."

2006-11-14

A mim, só me falta a franja!

Bem me parecia, que as definições do Vinícius, eram pouco consistentes. Aqui temos a prova!

Agora venha de lá o e-mail: "EXAGERADA!"

vamos a uma aposta?

Henrique, ontem rendi-me na discussão contigo. Levei tampa no copo. Mas a vida continua, e hoje, cá estou de novo. :)

Continua na discussão com o Paulo. Ele anda nas filosofias e pode ser uma boa oportunidade de trocarem impressões. A aposta do Paulo em Deus é uma das coisas mais bonitas que ouvi nos últimos tempos. Por isso, as passagens dele por aqui, são sempre de uma grande alegria para mim.

Por agora trago aqui uns pensamentos do Boff (os "ortodoxos" coçam-se todos, mas paciência.) Somos todos filhos de Deus. E as fronteiras da Igreja só Deus as conhece. (Agora vem o JS e dá-me "na cabeça".) :(

Blaise Pascal (1623-1662)...Em pleno debate com a razão moderna nascente, depois de uma profunda experiência espiritual, escreveu uma "Apologia da Religião Cristã". Ela deveria responder às objecções da época de forma cabal e irrefutável....

...Depois de tentar todo o tipo de argumentos em favor da fé, deu-se conta, de forma honrada que nenhum deles era cabalmente convincente. Foi então que forjou o argumento da famosa "aposta" válido até aos dias actuais.

No parágrafo 223 de seus "Pensées" Pascal colocou a seguinte questão:"Dieu est, ou il nést pas": "Deus existe ou não existe".
Sustenta que a razão pode aduzir tanto argumento a favor quanto contra a existência de Deus. Destarte não se consegue determinar uma resposta convincente. Como sair desse impasse? É aí que Pascal afirma:"é necessário apostar". Você não tem escapatória porque, uma vez que suscitou a questão, você se encontra "embarcado nela" diz ele. A razão não sai humilhada pelo facto de ter de apostar. A aposta apresenta a seguinte vantagem:"ou você tem tudo a ganhar ou você não tem nada a perder".

Se você afirmar "Deus existe" e Ele de facto existe, você tem tudo a ganhar, a vida e a eternidade. Se você afirmar "Deus não existe" e Ele de facto não existe, você não tem nada a perder: o sentido da vida e eternidade eram meros devaneios. Então é racional, aconselhável e justo que você afirme "Deus existe" e assim você tem tudo a ganhar.

Qual a actualidade da "aposta pascaliana" para os dias de hoje? Culturalmente a questão não é mais posta em termos de "se Deus existe ou não" mas em termos:Que futuro para o planeta Terra e a vida se toamrmos a sério os alarmes dados por cientistas? Há galáxias que engolem outras galáxias. Que sentido tem o universo que pela lei da entropia, caminha para a morte térmica? Tem sentido a vida humana depois de campos de extermínio nazista e da tsunami do sudeste da Ásia? Tem sentido o destino das grandes maiorias submetidas à fome, a todo o tipo de exploração, com crianças estupradas e mulheres submetidas à escravidão sexual?

Somos também desafiados a apostar: apostamos que apesar de todas as contradições, trabalha um sentido secreto no universo. Ele um dia vai manifestar-se e será a suprema felicidade da criação e assim ganhamos tudo. A luz tem mais direito que as trevas. Ou então tudo não passa de absurdo e a felicidade é ilusória e acabaremos todos no pó cósmico e assim não perdemos nada quando deixamos de acreditar.

Vale então apostar, numa atitude de confiança radical (è o sentido bíblico da fé) de que o mundo é salvável e o ser humano resgatável a ponto de descobrir a irmandade universal até com as formigas do caminho. Apostando nisso temos tudo a ganhar aqui e na eternidade.

Leonardo Boff

É sempre uma festa!

2006-11-13

temos a mania de querer a lua.

Mão amiga (devido à minha nabice), colocou um novo artefacto, aqui, no jardim, que entre outras coisas, permite ver que palavra(s) usaram de pesquisa para aqui chegar. Alguém chegou aqui a procurar: "palavras gratificantes na hora da derrota."

Não deve ter encontrado por cá nada. Se há uma derrota, como é que se podem dar palavras gratificantes? Isto, só mesmo coisa de português. Em caso de derrota; há que assumir e andar para a frente. Nem que se tenha de caminhar e ir lambendo as feridas. Agora esperar palavras gratificantes: santa paciência!

Lembra-me o caso, de um conhecido meu, que há dias me participava o fim do seu casamento. Por várias vezes, em tempo útil, lhe tinha dado as coordenadas necessárias (isto para os outros resulta sempre), para que tal não acontecesse. Não me ligou nenhuma, nem ao outro lado onde a perspectiva era a mesma que a minha. Tive de me reprimir, com tudo quanto tinha, para não lhe dizer: - eu não te avisei?

Hoje acordei um bocadinho sádica...Não sei se foi por ouvir dizer que os espanhóis também nos tramaram nas quotas da pescada e do tamboril. O que é que eles ainda querem mais nosso?

..."mas o maior é o amor"


...me miran con tus ojos las estrellas más grandes.

Y como yo te amo, los pinos en el viento,
quieren cantar tu nombre con sus hojas de alambre

Pablo Neruda

Os crentes - uns apostadores

Uma mulher sem medo de se deixar perder na abundante graça e consolação de Deus. Sem dúvida, o melhor investimento. N'Ele depositou as suas duas moedinhas. Um investimento ainda mais seguro que num banco, num offshore.... (Mc 12, 41-44)

A fé, não passa disto : uma aposta. Que não vale pelos resultados que se venham a obter um dia, mas pelos que se vivem agora e já.

2006-11-12

aprender o equilíbrio

Reflicto sobre o dia de hoje: a celebração da Eucaristia, em que participei logo pela manhã. O eco que a liturgia da Palavra, a disponibilidade e afabilidade do celebrante, o acolhimento que sentia no resto da assembleia, me provocaram.

Leio um comentário assinado "hmbf" que me parace ser do Henrique, (que só vi pessoalmente uma vez, mas que me marcou pela afabilidade e capacidade de comunicação), no Quase em Português, onde diz:"..E eu continuo na minha:religiões e partidos, cada vez mais me convenço que são todos uma porcaria."

E leio o magnífico artido do padre Anselmo Borges, no Diário de Notícias, onde não deixando de pôr "o dedo na ferida" em relação às religiões, as assume como possível caminho de felicidade.

É esse equilíbrio que procuro. Não deixar que, o que as religiões têm de negativo, ou até a própria fé, que pode ser caminho para a infantilização, desresponsabilização, alienação etc., me impeçam de continuar a procurar Deus, num projecto de vida e felicidade.

... A injustiça é intolerável. Mas, sub-reptícia e inconscientemente, aninha-se neles muito sadismo. A crença no inferno foi uma das polícias mais eficazes de todos os tempos. No entanto, o inferno não faz parte do Credo cristão e só pode pregá-lo quem nunca meditou no mistério insondável da liberdade humana, mergulhada nos condicionamentos da temporalidade. Aliás, mesmo do ponto de vista conceptual, o que é que pode querer dizer uma condenação eterna? Às acusações de que deste modo se está a abrir caminho à irresponsabilidade e ao vale-tudo deve responder-se que o amor não banaliza, mas responsabiliza, devendo acrescentar-se que Deus só levará à plenitude as possibilidades concretizadas pelo ser humano no tempo.Não constitui nenhum exercício de masoquismo lembrar que, desgraçadamente, para um número indeterminável de homens e mulheres, a religião, cujo núcleo é a salvação e a felicidade plena, em vez de ser o espaço da alegria, da expansão e da vida, foi, de facto, o espaço da tristeza, da humilhação e da morte. Penso, por exemplo, em todos aqueles que foram e são vítimas de ódios e guerras cruéis e sanguinárias com base na religião. O horror, pura e simplesmente! Penso, claro, nas vítimas da Inquisição e em todos quantos, em todas as religiões, foram e são vítimas de censura, condenação e exclusão por motivos teológicos. Pergunto-me frequentemente como é que houve e há quem se arrogue o direito e até o dever de "definir" quem e o que é Deus e a partir daí condenar e excluir. ...

...Penso na história das relações entre as religiões e a sexualidade e nas vidas sexuais envenenadas e nos celibatos eclesiásticos obrigatórios e nos seus dramas e desgraças. Penso em certo tipo de confissão auricular que poderá ter ferido os direitos humanos. Penso nas mulheres cujos direitos em igualdade com os homens as religiões de modo geral não reconhecem e sobretudo nas acusações de bruxaria que as levaram à fogueira.O mais pernicioso foram e são ideias teológicas mesquinhas e ridículas. Também por isso, nomeadamente Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus, figuras determinantes para a Humanidade e de cuja profunda religiosidade ninguém pode duvidar, foram considerados ateus. Sócrates concretamente bebeu a cicuta, acusado de ateísmo, e Jesus morreu na cruz, acusado de blasfémia. Estes factos obrigam a ter constantemente presentes, com temor e tremor, os perigos patológicos das religiões.

Talvez nunca se tenha meditado suficientemente na grandeza heróica daqueles que preferiram o ateísmo a ficar presos de um deus que humilha, escraviza e anula o Homem.No entanto, o Homem é por natureza religioso, no sentido de estar constitutivamente aberto à questão de Deus enquanto questão. Essa abertura, independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê, é que é o fundamento último da dignidade humana. Precisamente porque é abertura ao infinito. A religião enquanto fé no Deus infinito e pessoal foi mediadora da tomada de consciência da infinita dignidade de ser Homem. Esta é a intuição e a parte de verdade da tese de Feuerbach ao querer reduzir a teologia a antropologia. Esta reflexão tem na sua génese a carta de uma colega a confessar-me a experiência traumatizante do pavor do inferno na infância, que a levou ao abandono da prática religiosa. Não deixou, porém, a fé na mensagem de que Deus é Amor, continuando a acreditar nos valores cristãos e a tentar praticá-los.

Anselmo Borges - Diário de Notícias




Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de sugnificados:mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me apresentam como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo não um facto singular qualquer mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem pois a minha dificuldade em falar disso, a não ser por alusões?

Italo Calvino; "Se numa noite de inverno um viajante"

2006-11-10

Senhor, ensina-nos a ser dom, uns para os outros!


Mc 12,38-44 Naquele tempo, Jesus ensinava a multidão, dizendo:«Acautelai-vos dos escribas,que gostam de exibir longas vestes,de receber cumprimentos nas praças,de ocupar os primeiros assentos nas sinagogase os primeiros lugares nos banquetes.Devoram as casas das viúvas com pretexto de fazerem longas rezas. Estes receberão uma sentença mais severa».Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro a observar como a multidão deixava o dinheiro na caixa. Muitos ricos deitavam quantias avultadas.Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:«Em verdade vos digo:Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».

está encontrada a explicação...

...porque é que o discurso da Igreja não muda. Ora, reparem nesta notícia:


'Gaffe' do Vaticano troca discurso do Papa Manuela Paixão em Roma

Nunca tal havia acontecido: um erro do Vaticano levou a que na passada terça-feira a edição do Osservatore Romano fosse suspensa e que as cópias já impressas fossem destruídas. Motivo: o diário oficial do Vaticano continha um discurso do papa aos bispos suíços que Bento XVI não pronunciara nem queria pronunciar.Não houve maquinações nem sabotagens, mas o que aconteceu conduzirá muito provavelmente a uma mudança na gestão da comunicação da Santa Sé. Tanto mais que o suposto discurso - que acabou por chegar às agências noticiosas e foi publicado pelo DN na edição de quarta-feira - era polémico e pedia a unanimidade dos bispos em todas as questões morais. Só que esse discurso fora inicialmente preparado para ser lido por João Paulo II, em 2005, num outro encontro com os bispos suíços que não chegou a acontecer.Como aconteceu o erro? Segundo o protocolo do Vaticano, o discurso que fora preparado para João Paulo II, embora numa versão reduzida e modificada, havia sido entregue nos aposentos privados do Papa três dias antes do encontro no Vaticano. É frequente que sobre estes textos, fruto de um trabalho de equipa, o Papa apresente correcções, integre algumas ideias e elimine outras. O silêncio do Papa teria sido interpretado, segundo fontes da secretaria de Estado que pedem o anonimato, como uma aprovação do texto.Só que, na realidade, Bento XVI não queria utilizar um discurso de João Paulo II como seu, ainda que modificado, e pretendia mesmo acrescentar novos temas. Assim aconteceu quando, na homilia da missa com os bispos suíços, improvisou um discurso sem ler aquele que estava preparado. Uma decisão que o Papa inclusivamente sublinhou na troca de cumprimentos no final da missa, afirmando "não ter preparado um texto". Assim sendo, a reprodução do seu discurso jamais poderia ter sido imediatamente disponibilizada aos media, porque segundo as regras do Vaticano os discursos espontâneos são sempre revistos antes da publicação. Simplesmente, alguém cometeu um erro, e o texto que Bento XVI recusara ler aos bispos suíços foi automaticamente enviado, como é costume, para a redacção do Osservatore Romano e para a sala de imprensa do Vaticano.Quando Joseph Ratzinger soube que o discurso publicado não era o seu, contactou pessoalmente com a secretaria de Estado e exigiu que o "discurso não pronunciado" fosse imediatamente retirado. Mas, pelas 17.30, já a sala de imprensa tinha feito eco do discurso pelo mundo fora.No quarta-feira, uma nova edição do Osservatore Romano, com a mesma data da eliminada, foi distribuída juntamente com a edição do dia, já com as palavras certas de Bento XVI.

2006-11-09

quem não quiser ver a parada...


...é só seguir a indicação e ir para o deserto procurar conchinhas.

Eu também não sou nada fã da paradas. Mas, "uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa!"

Vaticano pede anulação de manifestação homossexual em Jerusalém
O Vaticano apelou ontem para a anulação do "Gay Pride" previsto para esta sexta-feira, em Jerusalém, por forma a não ferir "os sentimentos de milhões de crentes judeus, muçulmanos e cristãos".
Em comunicado oficial, a sala de imprensa da Santa Sé revela ter sabido, "com amargura", da organização em Jerusalém "de uma das chamadas «manifestações de orgulho homossexual»" e exprime "a sua mais viva reprovação por uma iniciativa que constituirá uma grave afronta aos sentimentos de milhões de crentes judeus, muçulmanos e cristãos". A nota lembra que, para estes fiéis. a cidade "tem um carácter sagrado" e "pedem que as suas convicções sejam respeitadas".
O Vaticano espera assim "que a questão seja reconsiderada", revelando que uma missiva com teor semelhante ao da nota de ontem foi enviada pela Nunciatura Apostólica em Israel ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.


Citando, a minha amiga Fátima:"Estes romanos, são mesmo loucos!" Mas, qual amargura, qual quê? Amargura é com tanta gente a morrer de fome; com tantas vidas violentadas;, com muros que se constróem para separar gente que desperdiça e destrói o planeta, de gente que não tem como sobreviver. Amargura é gente presa sem julgamento e ao livre arbítrio dos ditadores de meia-tigela. Amargura é com uma Igreja que confunde preconceito com dignidade. Estes romanos parece que não lêem o Evangelho todos os dias. O que é que é sagrado? são as pessoas? ou são os preconceitos?

Nota-se que não ando com muita paciência para estas coisas, não nota?

deseo


DORMIR

¡Yo lo que tengo, amigo, es un profundo
deseo de dormir!...
¿Sabes?: el sueño es un estado de divinidad.
El que duerme es un dios... Yo lo que tengo,
amigo, es gran deseo de dormir.


El sueño es en la vida el solo mundo
nuestro, pues la vigilia nos sumerge
en la ilusión común, en el océano
de la llamada «Realidad». Despiertos
vemos todos lo mismo:
vemos la tierra, el agua, el aire, el fuego,
las criaturas efímeras... Dormidos
cada uno está en su mundo,
en su exclusivo mundo:
hermético, cerrado a ajenos ojos,
a ajenas almas; cada mente hila
su propio ensueño (o su verdad: ¡quién sabe!)


Ni el ser más adorado
puede entrar con nosotros por la puerta
de nuestro sueño. Ni la esposa misma
que comparte tu lecho
y te oye dialogar con los fantasmas
que surcan por tu espíritu
mientras duermes, podría,
aun cuando lo ansiara,
traspasar los umbrales de ese mundo,
de tu mundo mirífico de sombras.


¡Oh, bienaventurados los que duermen!
Para ellos se extingue cada noche,
con todo su dolor el universo
que diariamente crea nuestro espíritu.
Al apagar su luz se apaga el cosmos.


El castigo mayor es la vigilia:
el insomnio es destierro
del mejor paraíso...


Nadie, ni el más feliz, restar querría
horas al sueño para ser dichoso.
Ni la mujer amada
vale lo que un dormir manso y sereno
en los brazos de Aquel que nos sugiere
santas inspiraciones. ..
«El día es de los hombres; mas la noche,
de los dioses», decían los antiguos.


No turbes, pues, mi paz con tus discursos,
amigo: mucho sabes; pero mi sueño sabe más...
¡Aléjate!
No quiero gloria ni heredad ninguna:
yo lo que tengo, amigo, es un profundo
deseo de dormir...


Amado Nervo
imagem: sátiro dormindo - Glyptothuk, Munique

2006-11-08

e mais um post. Ai, ai, ai

Evangelho: Lucas 14, 25-33 .Qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!.

Como consequência de tudo o que Jesus disse e fez ao longo de seu ministério e particularmente nesta viagem a Jerusalém, vem agora uma apresentação clara e directa das condições para segui-lo, um seguimento que não pode ser de simples simpatia com ele e sua causa, mas que exige mudanças verdadeiramente radicais.
Do trecho que lemos hoje, podemos extrair três condições que são, além disso, muito claras e que não admitem ambiguidades. Primeira, odiar a própria família; segunda, carregar sua própria cruz; terceira, renunciar aos bens. Quem faz isto pode estar seguro de que está apto para o seguimento de Jesus.

Causas e conseqüências desta tríplice exigência:
A primeira exigência contém, implícita, a denúncia contra o rigor da instituição familiar no tempo de Jesus. Não há nenhuma posição antinatural de Jesus contra os entes queridos. Pelo contrário, ao preocupar-se Jesus com o indivíduo, a pessoa, sua intenção é, no fundo, sanar uma instituição natural que com o tempo se converteu em reduto de tirania e domínio de alguém: o patriarca/pai sobre a esposa e os filhos, com a conseqüência mais clara: desumanização, infantilismo, dependência...
Jesus convida a odiar – esse é o verbo utilizado –, mas o ódio não é ao pai como tal, ou à mãe e aos irmãos ou a si mesmo; odiar, não obstante sua forte conotação, entende-se rejeição, ruptura completa com a totalidade da estrutura familiar como centro e figura de domínio. Segue-se a Jesus na liberdade e para a liberdade: liberdade na opção, liberdade no seguimento. Não há indício de escapismo nem evasão, Jesus não convida à fuga, exige renúncia e ruptura com aquela atitude de dependência; é a pessoa, o indivíduo quem tem de enfrentar sua própria vida, seu próprio crescimento. Daí, a segunda exigência: “carregar” sua própria cruz.

Aquele que tiver sido capaz de “odiar” a estrutura que o prendia, minimizava-o e o tornava inválido, por assim dizer, terá como desafio um caminho a percorrer, suportar por si mesmo e conduzir o destino de sua vida, “levando-o”, dia após dia, com uma frequência que certamente se apresenta às vezes difícil, em que se sente a tentação de outros o levarem nosso lugar. No seguimento de Jesus não pode haver dependência.

Outra forma de dependência desumanizante que é desmascarada também aqui é o apego aos bens materiais, às riquezas. Não se conclui necessariamente por esta passagem do Evangelho que ser rico seja pecado, esse não é o juízo que faz Jesus; a denúncia concreta é: os bens materiais, entendidos como riqueza, transformada em opção de vida, desumanização das pessoas, tornam-na também dependente e, portanto, não apta para o seguimento de Jesus. Não basta, então, renunciar ou romper com a instituição ou estrutura que escraviza, é preciso saber romper também com o sistema de vida, se este for inumano, e não permitir uma realização integral do indivíduo.

Dizemos que estas exigências tais como as apresenta o Evangelho, não se prestam a qualquer ambigüidade. Contudo, sabemos que, na maioria das vezes, a ambigüidade se apresenta e domina o indivíduo. Jesus previne seus seguidores para que essas ambigüidades não cheguem a converter-se em fracasso, e o faz valendo-se de novo de duas parábolas: a do constructor que não pôde concluir a torre e a do rei que vai para a guerra e se rende sem sequer lutar.
Ambas as parábolas refletem a situação interna da comunidade de Lucas. Ainda havia restos de dependência em alguns seguidores deste “novo caminho”: da família e, pior ainda, dos bens materiais.

Serviço Bíblico Claretiano

afinal, há mais um post

Ainda não sei a razão, mas sempre que escrevo a palavra "verdade" ou algum dos seus derivados, verifico que faltam sempre alguma(s) letra(s). Tenho sempre que corrigir. Se andar por aí algum "psi" que me ajude a interpretar isto...um padre também serve.

e assim se começa o dia...

Tenho andado por aqui a transcrever aos bochechos o livro do Boof "A águia e a galinha - uma metáfora da condição humana".
Hoje, nitidamente acordei com a dimensão galinha em toda a sua potência. Como é que sei isso? Bastou-me ir escolher a roupa para usar e ver que não havia nenhuma que verdadeiramente me vestisse. Acabei por fazer uma escolha (por acaso, a cor é o preto), e saí para a rua a sentir-me mascarada. Mas isto, ainda são só nove e tal da manhã. Ainda há muito dia para viver. Posts, é que não vai haver mais hoje. Ando com uma discussão muito proveitosa com o João Tunes, num post abaixo, e tê-lo como interlocutor, não é todos os dias. Logo, há que aproveitar.

João, quando tiver tempo, dar-lhe-ei a resposta ao seu último comentário. E, desculpe lá, mas perder o prazer de dialogar consigo, acho que mais depressa "se vai" o seu cubano de "estimação".

2006-11-07

o que fazer do tempo presente?

Ontem fui para casa com uma grande "telha". Eram várias as razões. Doía-me a garganta, mas essa, era a menor. Enfiei-me na cama o mais cedo possível. Li um pouco, dum livro interessantíssimo que ando a ler. Lá falarei dele, mais para a frente. As noites custam a passar. Liguei a um amigo. Voice-mail...Deixei como mensagem um beijo de boa noite e a queixinha que me doía a garganta. O rapaz não é médico. Mas como não é parvo, percebeu muito bem a mensagem. Liga um pouco mais tarde, gargalhamos um bocado e a "telha" vai-se. Mas entre brincadeiras e conversas a sério, fica um desabafo dele: "não gosto dos meus domingos". "Não posso continuar a vivê-los como vivo."

o tempo, um presente...

Há quem olhe para o tempo como se ele fosse um corredor que vamos atravessando. Mas, se se pensar bem, realmente não é assim. Experienciamos o tempo, porque nos lembramos de quando éramos pequenos e de como fomos crescendo e de como damos connosco adultos e mudamos e envelhecemos e sabemos que morreremos. Haveria tempo, se não houvesse morte e consciência da mortalidade?....


...O tempo não é homogéneo. Há o tempo mensurável, quantitativo, aquele que é a medida do movimento segundo um antes e um depois e que controlamos nos relógios - o tempo astronómico. Mas há também o tempo qualitativo, intensivo - o tempo das decisões vitais, das revoluções, da liberdade, do amor, da criação ou de quando, de repente, nos invade o deslumbramento da beleza ou nos cai em cima como um raio a pergunta absoluta: "Porque há algo e não nada?" Como é diferente este tempo cairológico, que é presença da eternidade e que nos deixa no silêncio do êxtase - "É bom estar aqui!" -, do tempo banal, pastoso, em que nada acontece ou é simplesmente o horror do entediante, que nos leva a gritar: "Tirem-me daqui!"

...Qual é o tempo autêntico e verdadeiro? Uns dirão que é o passado, pois ninguém pode anular o que existiu. Para outros, será o futuro, o tempo da esperança da plena realização. Mas, quando se pensa até ao fundo, a verdade do tempo é no instante vivido e no seu mistério que se encontra.A identidade constrói-se no presente a partir do passado e projectando o futuro. Mas, por outro lado, o passado já não existe, o futuro ainda não existe, e o presente, quando se pretende agarrar, ou já é passado ou ainda é só futuro. Não é, porém, desse presente que se trata. Refiro-me ao instante vivido.Se não é concebível para mim a minha consciência morta, então a sabedoria da vida é viver a intensidade do instante, de cada instante, na sua verdade, sem a obsessão do depois da morte, que não me diz respeito. A eternidade é aqui e agora e o tempo de Deus é o da Presença presente.

Padre Anselmo Borges in Diário de Notícias

sem tirar nem pôr

Passo o dia a dar "negas" a Deus. Como é que arranjo tempo, para reparar, nas que os outros dão?

2006-11-06

amar sem medida...

Missionária portuguesa assassinada em Moçambique
Jesuítas confirmam ataque
. O departamento de comunicação da Companhia de Jesus (Jesuítas) confirmou o assassinato do Pe. Waldyr dos Santos, brasileiro de 69 anos, e da leiga missionária portuguesa Idalina Neto Gomes, de 30 anos. Os missionários foram atacados na casa jesuíta de Angone, província de Tete (noroeste), Moçambique.

No ataque foram ainda feridos o Pe. Mário J. de Almeida, brasileiro, e o Ir. José Araújo de Andrade, moçambicano. Os agressores, ainda não identificados, fugiram no carro da comunidade religiosa.

Idalina Gomes era missionária dos "Leigos Para o Desenvolvimento" e estava a cumprir o seu primeiro ano de missão naquele país, disse à Agência Lusa um responsável daquela organização. "Era a primeira vez que estava a fazer uma missão. Os serviços na Leigos para o Desenvolvimento são de um ano e ela tinha pedido para renovar por mais um, o que foi aceite", referiu Hilário David..

notícia ecclesia

dar a vida

Falei no post abaixo em dar a vida, para que todos e cada um, saiba que é escolhido por Deus. Leio nas notícias que em Moçambique, um padre e uma freira foram assassinados. Também ontem, ouvi nas notícias que um padre estava refém numa prisão. Não sabia quem era. Hoje, que já foi libertado também soube da identidade do mesmo. Padre Júlio Lemos. Tive a sorte de o conhecer, ainda diácono, num retiro de fim-de-semana. Eu e mais uma dúzia da adolescentes rebeldes. Marcou-nos a todos. Pelo seu amor a Deus, à Igreja (neste caso a sua congregação que o mantinha, numa espécie de castigo, por mau comportamento. Tinha o mau hábito de pensar pela sua cabeça) e aos outros, sobretudo aos mais marginalizados. Aqueles para quem ninguém olha, aqueles que não contam. Aqueles que, os normalmente, defensores da vida passam e nem reparam. No frei Júlio, amar a Deus e amar o outro, eram um e mesmo mandamento. Ontem provou-o, mais uma vez. Que Deus o proteja sempre, porque pessoas como ele, não costumam usar de muitos cuidados consigo próprias. Primeiro está sempre o outro.

creio nisto


Ao sentir um vazio interior, há quem se pergunte: "Onde será que Deus está?" (2) No entanto Cristo, o Ressuscitado, se mantém perto de nós, mesmo dos que o ignoram. Todo ser humano é visitado pelo Espírito de Deus. (Irmão Roger-Taizé)

Creio nisto! E é uma temeridade, uma leviandade, ou o que queiram chamar. Mas, por isto, daria a vida. E ainda mais: é isto que me mantém viva.

democracia

Não é exagero dizer que uma sociedade democrática é fundamentada em uma espécie de fé: na convicção de que cada cidadão é capaz de assumir, e assume, total responsabilidade política. Cada um não apenas entende amplamente os problemas do governo como também está disposto a tomar parte na sua solução. Em suma, a democracia pressupõe que o cidadão saiba o que está a contecer, entenda as dificuldades da situação e tenha elaborado por si mesmo uma resposta que o ajudará a contribuir, inteligente e construtivamente, para o trabalho comum (ou ‘liturgia’) de governar sua sociedade.Para que assim seja, é preciso muita preparação educacional sólida. Um verdadeiro treinamento da mente. Uma formação genuína nas disciplinas intelectuais e espirituais sem as quais a liberdade é impossível. Deve haver uma troca de idéias completamente livre. As opiniões das minorias, inclusive as opiniões que possam parecer perigosas, devem ser ouvidas, claramente entendidas e seriamente avaliadas por seus próprios méritos, não meramente suprimidas. As crenças e disciplinas religiosas devem ser respeitadas. Os direitos da consciência individual devem ser protegidos contra todo tipo de abuso evidente ou oculto.A democracia não pode existir quando os homens preferem idéias e opiniões que são fabricadas para eles. As acções e as declarações dos cidadãos não devem ser meras ‘reacções’ automáticas – meras saudações mecânicas, gesticulações que signifiquem a conformidade passiva com os ditames de quem está no poder.Para sermos verdadeiros, teremos de admitir que não se pode esperar que isto seja realizado em todos os cidadãos de uma democracia. Mas, se não for realizado em uma proporção significativa dos cidadãos, a democracia deixa de ser um facto objectivo para se tornar apenas uma palavra com carga emocional.

(Thomas Merton)

Para sermos verdadeiros quantas democracias haverá, assim, participativas no mundo?
E na Igreja? Frequentemente a hierarquia quando perante qualquer pergunta incómoda: ordenação das mulheres, mais autonomia das dioceses e da possibilidade dos diversos povos viverem a liturgia de acordo com a sua cultura, a revisão da obrigação do celibato para a ordenação presbiteral - responde, sempre taxativamente:"A Igreja não é uma democracia!" Subentende-se que é uma assembleia de convocados pelo Espírito, onde o único mandamento que a fundamenta é o amor. Mas na realidade dos factos, suspiro eu: ao menos que fosse uma democracia!

Adenda:

O Fernando pergunta nos comentários e com toda a razão, onde ler os textos do Merton. Por preguiça, sovinice, ou sei lá mais porquê, nunca ponho o link. Existem vários sites com escritos dele. Mas existe um blogue onde faço a recolha dos que acho mais significativos para trazer para aqui. O blogue está neste endereço: Reflexões Merton

2006-11-04

só mais uma coisinha...

Não sei se já foram ao blogue que vos recomendei. Se não foram, a perda é vossa e eu daí lavo as minhas mãos. Descubro-vos os locais do tesouro, dou os mapas...o resto é da vossa prezada esperteza ou aselhice.
Mas até nem foi isto que me trouxe aqui. Lembrei-me que tinha prometido a uma das minhas amigas velhinhas a Carta a Diogneto (ouviu falar dela na RR, toda a gente sabe o que quer dizer esta sigla, não? Rádio Renascença, emissora católica portuguesa) e o Google funciona muito melhor que os meus arquivos. Já que aqui estou, vou contar-vos uma coisa que descobri hoje. Dizem que o povo é a voz de Deus. Os políticos, crentes ou incréus é vê-los a falar sempre pela voz do dito. Mas cada vez descubro mais, que o povo, anda redondamente enganado.
Ora vejam bem: diz o povo que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Eu, crente, acreditei. Hoje, vi que andava a ser enganada. Como diz o autor dos textos abaixo, chegou a altura do género masculino se embrenhar com tudo quanto tem, na cozinha. Eu que não sou parva, decidi aproveitar. E hoje pus-me a pastelar frente à têvê, a ver uma série que é uma grande confusão porque ora anda para a frente, ora anda para trás, até mete um padre e tudo, o que quase me fez voltar para a cozinha, porque lavar pratos não tem ciência nenhuma, e disso percebo eu. Continuando, aquilo começava com seis putos adolescentes que fazem as asneiradas normais da idade: sexo desprevenido, álcool além da conta, e os romances desencontrados do costume. A namora B, mas acaba sem saber como, na cama com C e a partir daí, são as confusões do costume. Não vi lá ninguém a preguiçar. Eram todos muito activos. Resultado, passados vinte anos, há um assassínio para descobrir. O padre, que até me parece ser o mais inocentinho deles todos, é precisamente quem está mesmo debaixo das suspeitas da polícia. Volto a repetir: não vi por lá ninguém a preguiçar, tudo muito activo, porque assim é próprio da idade. Mas está lá um grande molho de bróculos para a polícia deslindar, volto a dizer que apesar do padre ser o maior suspeito, eu até punha as mãos no fogo por ele. Então o que é que lixou aquilo tudo????: A mentira!
Começou-se a mentir que este é que tinha feito isto e não aquele. Que este é que era o pai e não o outro( porque azar dos azares, uma noite foi mais eficiente que as outras todas)...e por aí fora. Fiquei lixada com a sabedoria popular. Fiquei lixada, por se estar a culpar o padre e vê-se pela carinha dele que não tem culpa nenhuma. Aliás, tem. Também entrou nas mentirinhas. Agora, amanhe-se. E eu agora tenho o resto da cozinha para arrumar que para pastelar à vontade, tinha nascido vinte anos depois...quem manda?

Ora tomem lá uma prenda para o fim-de-semana

Um sítio de passagem obrigatória


"Liguem o exaustor", desde que descobriu que a «acrilamida se forma durante a fritura, a cozedura no forno e os assados em condições de alta temperatura e baixa humidade», nunca mais foi o mesmo. A busca de culinárias alternativas tem levado a espécie aos maiores horrores, e tem inclusivamente afastado a mulher da cozinha, deixando esta ao abrigo de infestações de homens que agora chegam a dizer «eu relaxo muito a cozinhar». Ora homem que relaxe a cozinhar merece bem que a acrilamida se lhe enfie pelos interstícios da masculinidade que nem um peróxido de carbono amestrado. ...Tenho agora até de vos confessar que me perdi completamente no tema disto, mas realmente o que me trouxe aqui até foi ter visto ontem um quadro que está no Louvre dum tal Lorenzo Lotto (séc. XVI) em que Jesus aparece com a mulher adúltera mas apresenta um arzinho todo penteadinho e anafado, pá, ou põem Jesus com um ar esquálido, distante e sofredor ou eu começo a dar borlas a budistas em três tempos, ou a ler o Tao da Física, e isto para já nem falar que a Agustina tem um livro novo, e parece que nem é plágio nem nada, assim nem tem piada (o ‘mil folhas’ diz que’ para ela tudo é pretexto’- a última vez que me disseram isso até amuei). ...


O mundo às nove semanas e meia
Ora faz de conta que sou um feto à beira das 10 semanas e estou perante um dilema intransponível: ou vou desaguar num mundo de cesares da neves e gajas nem vê-las, ou num mundo de fornicações breves e algumas edites estrelas. Dou duas voltas na nhanha onde estou a marinar, esfrego bem as cavidades, assobio pró ar, coço as partes e questiono o criador: Meu, achas que ainda posso invocar a objecção de consciência e bazar daqui, que já não há paciência,...

...Acho bem que me escondas que a odete santos e o louçã andam por cá, pois não haveria livre arbítrio que aguentasse tamanho condicionamento, mas que puseram uns lápis de cera na mão da Paula Rego e uma viola no colo do bob dylan, !? isso acho que já foi de mau gosto não me teres avisado. Agora, convenhamos, é aborrecido um tipo ser feto praticamente às 10 semanas e nem vos poder avisar que daqui de dentro todas as gajas me parecem a kim bassinger com aquele focinho de freira em esgaseamento místico, e nem um pecado solitário se pode cometer em termos por evidente falta de espaço.
Agora, sendo certo que não há nada mais fácil para um feto às dez semanas do que manipular um galinheiro de mães extremosas, ou uma matilha de predadores com cárie mental, também não deixa de ser verdade que me aborrece ficar sempre tão desfocado na porra das ecografias; a ver se o al gore toma igualmente conta deste problema global faz favor.

Quem é amiga, quem é?

2006-11-03

Como diz o outro:

"Viver todos os dias cansa" Ai cansa, cansa! E as noites também não são melhores. Nesta, acordei por volta das três da manhã, com uma paragem de digestão que me ia levando desta para melhor. E se pensam que foi por ter comido algum cozido à portuguesa, desenganem-se; uma torrada e um cafézinho bem levezinho.
De manhã, para completar a ementa - uma conversa daquelas de virar o coração do avesso! Livra!!!

isto é Novembro...o que é que querem?

Ontem, depois do trabalho fui participar da missa das 19H00. É um dia (isto para quem não sabe) em que há abundância de missas. Porque a Igreja Católica, decidiu dedicar litúrgicamente o dia 2 de Novembro, à celebração da memória, dos fiéis defuntos. Fui à missa, em memória dos meus queridos falecidos, mas também de muitos vivos que trago no coração. Uns porque são para mim força, ternura e ânimo em todos os dias. E outros, muitos que nem sequer conheço, mas que quero colocar no coração de Deus. E nestes dias, uma pessoa em especial.
Os participantes das missas destes dias, variam um pouco, dos habituais. São as pessoas que não "consomem" muito dos ritos religiosos, mas neste dia fazem-no em memória dos que amavam e já não se encontram visivelmente connosco. Antes costumava olhar um pouco de soslaio para essas pessoas. Conhecem o fariseu do Evangelho, não conhecem? E parvos, todos temos direito a ser, e eu de vez em quando, também abuso.
Já me deixei de fazer essas "contabilidades". "Cada um sabe da sua vida e Deus sabe da de todos."
Ontem, calhou-me ficar, entre outras pessoas, junto a uma jovem que pertenceu aos grupos de jovens da paróquia, mas já há muito se afastou. Chegado o momento do "abraço da paz", sobre o qual, a maior parte das pessoas ainda acha ser uma "bizantisse" da reforma litúrgica, virei-me para ela dei-lhe um terno abraço e disse-lhe: - A paz de Cristo, esteja contigo! Foi manifesta na sua expressão, a surpresa da minha saudação. E emotivamente só balbuciou:"- muito obrigada, igualmente".

O que é que este acontecimento, diz dos nossos encontros rituais?

Bom dia


dizer-te é inclinar-me
sobre o
silêncio

faz que eu seja
o choupo
todo dobrado
na face pressentida
das águas

José Tolentino de Mendonça

2006-11-02

como separar o trigo do joio?

Sou solidária por natureza, mas também sou pragmática q.b.
Tenho a sorte, de nos vários endereços de e-mail que possuo, não receber muito do chamado "lixo electrónico". E quando recebo, vai direitinho sem abrir, para a "lixeira". Hoje, porque era de uma pessoa da minha confiança e era uma cadeia de pedido de ajuda de uma suposta criança raptada, onde vinha o nome (falso) de origem da pessoa que lançava o apelo, e a referência da Câmara Municipal de Viana do Alentejo, antes de continuar a cadeia, reenviando para os meus contactos, decidi, contactar a referida Câmara. É tudo falso.
A quem se entretém a lançar pedidos de ajuda destes, a brincar com os sentimentos reais e sofridos de quem passa por estas situações, só tinha uma recomendaçãozinha a fazer: passe pelo manicómio mais próximo e peça uma desinfecçãozinha aos neurónios.

Isto é o que sinto e o Ionesco diz muito bem

Há todo um protocolo. Não pode cada um ficar sentado na sua cadeira ou numa cadeira qualquer e esperar. Há coisas a fazer, há ritos. Há orações, há a Igreja, há a comunhão, a confissão. Práticas e mais práticas. Para lá da necessidade espiritual, é moral, médica e higienicamente útil, termos sempre o espírito ocupado. Há outras coisas para fazer e viver religiosamente. Tudo isso é muito bom, muito saudável. Saúde espiritual não será pronúncio de santidade? Nem toda a gente pode aspirar à santidade, eu não sou mártir, não jejuo, aborrece-me rezar demasiado, não sei rezar. Não é pela literatura que nos aproximamos de Deus, temos de Lhe falar com as palavras apropriadas, palavras experimentadas. Mas o caminho está apontado. As palavras podem ser mudas. O silêncio da meditação fala. Está tudo indicado, sinalizada a vereda estreita da Graça. Mas eu não sou a vereda, a vereda que, apesar de tudo, se vêem vestígios dos passos dos outros. Há pegadas por todo o lado. Não sei ou não posso ou não desejo seguir por um caminho já batido. Batidos ou não, todos os caminhos podem levar a Ele. Eu não sigo vereda alguma, vereda batida ou não. Marco passo. Mexa-se lá, homem, mexa-se meu caro amigo. E mais que tudo pergunto: será que eu O amo de verdade? Não sei. Mas sei de uma coisa: Ele é-me indispensável. Será isto o Amor?

EUGÈNE IONESCO in A Busca Intermitente

Hoje é dia de falar da vida


Sempre que haja um vácuo na tua vida, enche-o de Amor.
Adolescente, jovem, velho:
Sempre que haja um vácuo na tua vida,
Enche-o de Amor.
Logo que saibas
De um tempo livre à tua frente,vai buscar o Amor.
Não penses: sofrerei.
Não penses: vão enganar-me.
Não penses: duvidarei.

Vai simplesmente, transparente,
Regozijando, em busca do Amor.
Que espécie de Amor?
Não importa.
Todo o amor
Está cheio de excelência, e de nobreza.
Ama como puderes,
Ama a quem puderes tudo o que puderes...
Mas ama sempre
Não te preocupes com a felicidade do teu amor.
Ele tem em si mesmo a sua felicidade.
Não te julges incompleto
Porque não correspondem à tua ternura:
O amor tem em si mesmo a sua própria plenitude.
Sempre que haja um vácuo na tua vida,
Enche-o de AMOR."

Amado Nervo

interpelação


La sombra del Ala

Tú que piensas que no creo
cuando argüimos los dos
no imaginas mi deseo,
mi sed, mi hambre de Dios;

De todas suertes, me escuda
mi sed de investigación.
Mi ansia de Dios, honda y muda;
y hay más amor en mi duda
que en tu tibia afirmación.

Amado Nervo, poeta mexicano 1870-1919

imagem respigada em black and white freaks out.blogspot.com