2006-12-28

O Amor Primeiro

...Primeira tese: em sentido estrito, Deus ama sem preferências nem discriminações.

Afirmar o contrário seria, em boa parte, um antropomorfismo. Deus ama a todos/as igualmente, com um amor tão peculiar para cada pessoa, e ao mesmo tempo tão infinito, que não há possibilidade de quantificações nem de comparações nesse amor. Toda pessoa pode sentir-se amada infinitamente por Deus, e ninguém deve sentir-se “preferido” ou discriminado, nem positiva nem negativamente. Não é possível falar seriamente de “amores preferenciais” de parte de Deus com relação a alguns seres humanos em detrimento de outros. A suprema dignidade da pessoa humana e a equanimidade infinita de Deus o exigem. E tudo que se afaste disso, somente podem ser formas inadequadas de falar, “demasiado humanas”, antropomorfismos.
Deus não tem parcializações, nem faz “acepção de pessoas”. Não o faz por questões de raça, nem de cor, de gênero ou de cultura… Deus ama a todas suas criaturas, com amor realmente “inquantificável e incomparável”, e nisso não cabem nem preferências nem discriminações.

Segunda tese: Deus opta pela justiça, não preferencialmente, mas sim alternativa e excludentemente.


Há, contudo, um campo em que Deus é necessariamente radical e inflexivelmente parcial: o campo da justiça. Aí Deus coloca-se do lado da justiça e contra a injustiça, sem a menor concessão, sem a menor “neutralidade”, e sem simples “preferências”: Deus está contra a injustiça e coloca-se do lado dos “injustiçados” (as vítimas da injustiça). Deus não faz nem pode fazer uma “opção preferencial pela justiça”
[6]:, ao contrário, opta por ela posicionando-se radicalmente contra a injustiça e assumindo de uma maneira total a Causa dos injustiçados.
Esta opção de Deus pela justiça não se fundamenta em sua “gratuidade”, nem é uma espécie de “capricho” divino que poderia ter sido de outra maneira ou simplemente não ter sido, como se a sanção divina da justiça obedecesse a um simples voluntarismo ético
[7].
A opção de Deus pela justiça fundamenta-se em seu próprio ser: Deus não pode ser de outra maneira, não poderia não fazer essa opção sem contradizer-se e sem negar seu próprio ser. Deus é, “por natureza”, opção pela justiça, e essa opção não é gratuita (e sim axiologicamente inevitável), nem contingente (e sim necessária), nem arbitrária (e sim fundada per se no próprio ser de Deus), nem “preferencial” (e sim alternativa, exclusiva e exludente
[8]). ...

José María Vigil - Koinonia


2006-12-26

muitas vezes...

...e de diversos modos, vou neste espaço, manifestando as minhas inquietações, em relação à Igreja a que pertenço. E, cada vez, me inquietam mais.

Parece que a Igreja recusou o funeral religioso ao italiano que, vítima duma doença grave e irreversível, dependente de meios exteriores para sobreviver, pedia que lhe fosse concedido o direito à morte. Um médico (e contra decisão judicial) desligou-lhe as máquinas que o mantinham vivo. Levantam-se questões éticas, humanitárias, morais, mas... alguém é dono do sofrimento de outrém? Em nome de que Deus, faz sentido manter a vida, contra a vontade do próprio e família, nestas circunstâncias?

Também o bispo, que neste momento administra a diocese do Porto, resolveu falar do aborto e compará-lo "à roda dos expostos, dos mosteiros da Idade Média". Fiquei com a sensação de que não sabia do que estava a falar. Até porque já ouvi quem defendesse, dentro da Igreja, que era preferível a tal roda, à prática do aborto.

Mas, nem tudo foi mau, neste Natal. No baptizado da Maria, o diácono que presidiu à celebração, ao fazer a introdução dos diversos ritos, à palavra "satanás", referiu que estava desadequada e que deveria ser substítuida pela palavra "Mal".

O mundo, obrigará a Igreja a mudar, porque Cristo está vivo e não está aprisionado, nem da Hierarquia, nem do Catecismo.

Levar o Menino...


Recebo com grande responsabilidade (vindo das mãos de quem vem), a tarefa de continuar a "cadeia" de levar o Menino. A um pedido do Migalhas é impossível dizer um não. Companheiro de bloguice, irmão na fé, amigo muito próximo...
Amigo Migalhas, o Menino que recebo das tuas mãos, já cresceu, já se fez homem, já se descobriu enviado do Pai, já amou, já fez festa, já curou, já sofreu, já passou pela morte e está vivo no coração de todos aqueles que O acolhem, se deixam transformar pelo dinamismo do Reino e o manifestam nas suas vidas.

Gostaria de "passar" este Menino a muita gente: em primeiro lugar, a todas as pessoas da minha família - aos que é mais difícil e doloroso amar e aceitar como são. Também a todos os que me sustêm, me animam, me protegem.

Depois, gostaria de passá-LO a todos os que se afirmam cristãos, mas vivem mais da lei, das tradições, da obediência institucional, dos dogmas, do que do Evangelho.

Gostaria de passá-LO a todos os que vivem fechados em si mesmos. Que não se abrem à vida, aos outros, à felicidade.

Queria dá-LO também a todos que, pela doença, pela solidão, pela pobreza, pela violência, por qualquer tipo de descriminação, não O sentem vivo e presente nas suas vidas.

Queria levá-LO a todos que, neste Natal, por palavras, por gestos me incentivaram a viver com mais verdade e profundidade, a fé que professo em Jesus Cristo. Sobretudo os que não crêem, mas pela sua profunda sensibilidade e humanidade, me tornam Cristo presente dum modo tão particular e especial.

Queria levá-LO também ao meu vizinho A., que não tendo mais família nesta cidade, senão o filho drogado e a mulher acamada há vários anos, me mostra com um sorriso e o "bom-dia" que me dá todos os dias, que é sempre possível resistir e lutar e resistir... e não desanimar.

Mas para ser fiel e não quebrar a cadeia, vou entregá-LO ao Th. M. em quem fica muito bem entregue. E desta forma, dar também a conhecer um blogue, que vale a pena acompanhar todos os dias.

2006-12-22


«Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: 11*Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor (Lc 2, 10-12)


Feliz Natal, são os meus votos, para todos!

Feliz Natal

Neste Natal, Deus venha amado, desarmado, disposto a conter as iras do velho Javé e, surrupiado de fadigas, derrame diluvianamente sua misericórdia sobre todos nós, praticantes de pecados inconclusos. Venha patinando pela Via Láctea, um sorriso cósmico estampado no rosto, despido como o Menino na manjedoura, mãos livres de cajado e barba feita, a pedir colo a Maria e afago a José.Traga com ele os eflúvios das bodas de Caná e, a apetitar nossos olhos famintos, guisados de ovelhas e cordeiros acebolados, sêmola com açafrão e ovos batidos com mel e canela. Repita o milagre do vinho a embriagar-nos de mistério, porque núpcias com Deus presente, assim de se deixar até fotografar, obnubila a razão e comove o coração.

Venha neste Natal o Deus jardineiro do Éden, babelicamente plural, disposto a fazer de Ló uma estátua de açúcar. E com a harpa de Davi em mãos, salmodie em nossas janelas as saudades da Babilônia e faça correr leite e mel nos regatos de nosso afecto.

Neste Natal, não farei presépio para o Javé da vingança nem permitirei que o peso de minhas culpas sirva de pedra angular aos alicerces do inferno. Quero Deus porta-estandarte, Pelé divino driblando as artimanhas do demo, acrobata do grande circo místico. Minha árvore não será enfeitada com castigos e condenações eternas. Nela brilharão as chamas ardentes da noite escura a ensolarar os recônditos do coração. Venha Deus a cavalo, a pé ou andando sobre os mares, mas venha prevenido, arisco e trôpego e, sobretudo, desconfiado, à imagem e semelhança de minha indigência.

Enquanto todos comemoram em ceias pantagruélicas, vomitando farturas, iremos os dois para um canto de esquina e, amigos, dividiremos o pão de confidências inenarráveis. Deus será todo ouvido e eu, de meus pecados, todo olvido, pois não há graça em falar de desgraça num raro momento de graça.

Neste Natal, acolherei Deus no meu quintal, lá onde cultivo hortaliças e legumes, e darei a ele mudas de ora-pro-nóbis, coisa boa de se comer no ensopado de frango. Mostrar-lhe-ei minha coleção de vitupérios e, se quiser, cederei a minha rede para que possa descansar das desditas do mundo.

Se Maria vier junto, vou presenteá-la com rendas e bordados trazidos do sertão nordestino, porque isso de aparecer senhora de muitas devoções exige muda freqüente de trajes e mantos, e muita beleza no trato.

Que venha Deus, mas venha amado, pois ando muito carente de dengos divinos. Não pedirei a ele os cedros do Líbano nem o maná do deserto. Quero apenas o pão ázimo, um copo de vinho e uma tijela de azeite de oliva para abrilhantar os cabelos. Cantarei a ele os cantos de Sião e também um samba-canção. Tocarei pandeiro e bandolim, porque sei das artes divinas: quem pontilha de dourado reluzente o chão escuro do céu, e provoca o cintilar de tantas luzes, faz mais que uma obra, promove um espetáculo. Resta-nos ter olhos para apreciar.

Desejo um Feliz Natal às bordadeiras de sonhos, aos homens que prenham a terra com sementes de vida, às crianças de todas as idades desditosas de maldades, e a todos que decifram nos sons da madrugada o augúrio de promissoras auroras.

Também aos inválidos de espírito apegados ciosamente a seus objetos de culto, aos ensandecidos por seus mudos solilóquios, aos enconchavados no solipsismo férreo que os impede de reconhecer a vida como dádiva insossegável.

Feliz Natal aos caçadores de borboletas azuis, artífices de rupestres enigmas, febris conquistadores a cavalgar, solenes, nos campos férteis de sedutoras esperanças.
Feliz Natal às mulheres dotadas da arte de esculpir a própria beleza e, cheias de encanto, sabem-se guardar no silêncio e caminhar com os pés revestidos de delicadeza. E aos homens tatuados pela voracidade inconsútil, a subjetividade densa a derramar-lhes pela boca, o gesto aplicado e gentil, o olhar altivo iluminado de modéstia.

Feliz Natal aos romeiros da desgraça, peregrinos da indevoção cívica, curvados montanha acima pelo peso incomensurável de seus egos pedregosos. E aos êmulos descrentes de toda fé, fantasmas ao desabrigo do medo, néscios militantes de causas perdidas, enclausurados no labirinto de suas próprias artimanhas.

Feliz Natal a quem voa sem asas, molda em argila insensatez e faz dela jarro repleto de sabedoria, e aos que jamais vomitam impropérios porque sabem que as palavras brotam da mesma fonte que abastece o coração de ternura.

Feliz Natal aos que sobrevoam abismos e plantam gerânios nos canteiros da alma, vozes altissonantes em desertos da solidão, arautos angélicos cavalgando motos no trânsito alucinado de nossas indomesticáveis cobiças.

Feliz Natal aos que se expõem aos relâmpagos da voracidade intelectual e aos confeiteiros de montanhas, aos emperdigados senhores da incondescendência e aos que tecem em letras suas distantes nostalgias.

Feliz Natal a todos que, ao longo deste ano, dedicaram minutos de suas preciosas existências a ler as palavras que, com amor e ardor, teço em artigos e livros. O Menino Deus transborde em seus corações.

Frei Betto

"Mas deu Fruto"

Porém quando
Entre os áridos
Sistemas dos píncaros
Aparece
O homem,Transformado,
Quando
Da yurta
Brota o homem
Que lutará com a natureza,
O homem que não é só
De uma tribo,
Mas da incendida massa humana,
Não o errante
Prófugo das altas solidões,
Ginete da areia,
Mas meu camarada,
Associado ao destino de seu povo,
Solidário ao destino de seu povo,
Solidário de todo o ar humano,
Filho e continuador da esperança,
Então,
Cumpriu-se a tarefa
Entre as cicatrizes dos montes:
Ali também o homem é nosso irmão.

Ali a terra dura deu seu fruto.

Pablo Neruda

2006-12-21

e agora...um intervalinho amoroso!

Na minha passeata, pelos blogues favoritos, dou de caras com um belo texto do Migalhas: "No silêncio...Deus nasce!"

Amigo Migalhas, não gostaste do meu animal de estimação, mas eu também não te posso oferecer de prenda, aquele com que sonhas! Vou procurar no google e mando-te uma foto bonita. Tens preferência pela raça? :)

De outro amigo, descubro um texto lamuriento, algo invejoso, dos lampiões e do seu treinador (têm alguma coisa que invejar?) que têm como título:"Então e ninguém manda os gatos fedorentos para o caralho?"

Ser lagarto, dá nisto :(

Beijinhos e pouco futebol, e ainda menos TV.

Quando...?

"Deus é fiel, no entanto vacilo, amo com reservas, deixo que pequenas nódoas confundam minha alegria. Quando serei evangelicamente generosa, confiante como o menino para quem o Reino está preparado?"

Adélia Prado "Cacos para um Vitral"

acontecerá Natal...


Na perda do verdadeiro significado da celebração do Natal, a Igreja Católica, não fica imune de culpas. Igreja que, nasce com a missão; de continuar no tempo e na história, o acontecimento da Encarnação. Encarnação de um Deus, despojado, humilde, com um projecto de vida de total inclusão para todos.
Ao longo da sua história com dois mil anos, a Igreja tem-se preocupado mais em excluir- criando regras de vida que seriam perfeitas para homens e mulheres que vivessem desencarnados da vida, mas que não correspondem a pessoas nas quais bate um coração onde a dor, a alegria, o desejo, o medo, a morte, o pecado, são sentidos a cada dia.

A uma proposta de vida desencarnada, do real viver de cada dia, as pessoas respondem procurando o imediato, o fácil, o táctil - o que de uma maneira sensitiva, satisfaça as suas necessidades imediatas.

É preciso que a Igreja mostre que é composta por pessoas que não vivem à parte, não são especiais, logo; não têm que marginalizar, condenar, excluir.

Acontecerá Natal, se cada um sair do que é a sua realidade pessoal, e conseguir olhar para o outro(s) como irmão, como um igual, sejam quais forem as circunstâncias da sua vida. Caso contrário, o acontecimento universal do nascimento de Jesus, será apenas o recordar de uma data, um acontecimento longínquo, do qual já não se sabe o verdadeiro significado.

2006-12-20

Que fizemos do Natal?


Numa reportagem de rua, num canal televisivo:

- Eu não gosto do Natal!
- Porquê?
- Porque o Natal não é para mim.
- ?
- O Natal é a festa da família. E eu vivo sozinha.

E continuou a canção tocando ferrinhos:"Coitado do malmequer..."

Para qué tu Navidad
si no hay gloria en las alturas
ni en la tierra paz?
y a José Y Maria
no les dan lugar
ni dentro ni fuera
de la ciudad?
y la Buena Nueva
ya no es novedad
y mandan
callar
a todos los ángeles
que osan cantar?
Para qué,
para quién, Niño,
tu Navidad?

Dinos cuál es tu Dios, Jesús; enséñanos
a no acerlo el Dios que no lo haces.
Devuélvenos tu Dios,
mostrándonos el Padre!

Entre tu rostro humano
y la gloria de Dios
está el abismo
de nuestra fe y tu muerte.

Dónde estará
la Paz
que Tú nos has dejado
si no hay paz
en medio de nosotros?

Tú eres
tanto
la Paz
como el Desasosiego.

D. Pedro Casaldáliga

2006-12-16

Obrigada e até logo...



Meus caros todos que deixaram comentários no post anterior:

gostava de manifestar o carinho e a alegria que as vossas palavras me fizeram sentir, de forma calorosa e pessoal. Sinta-se cada um, abraçado com um forte abraço de gratidão.
Beber ainda não bebi nada, ainda me sinto sobejamente atordoada, com tudo o que implicou este episódio da minha vida. A perspectiva de um cancro da mama aos quarenta e sete anos, no contexto actual da minha vida, era um fardo que se me afigurava demasiado pesado. Contra todas as expectativas, que o indicavam, isso não se concretizou. Mais uma vez, sinto-me abençoada e não percebo porquê. Mais um acontecimento da minha vida para viver no silêncio e na contemplação.

Não passei imune, por isto tudo; tive medo, senti solidão...procurei, apesar disso tudo, manter o meu coração aberto e receptivo às surpresas de cada dia - é assim que, normalmente, vivo a minha vida.

Agora, vou precisar de um tempo, para me libertar de todas as angústias, que tudo isto me provocou. A vida exige que a viva atenta e desperta, é o que vou continuar a procurar fazer.

Ficam já, aqui, os meus votos de Boas Festas para todos. O palestino, judeu que nasceu há dois mil e tal anos, continua a querer nascer em todos os corações e tornar isso uma festa. Que ninguém se distraia, ou finja que não ouve, se sentir alguma surpresa a irromper na rotineira forma, de viver esta quadra.

Até logo.

2006-12-15

finalmente!

Soube ontem, os resultados definitivos dos exames que efectuei: são negativos! Nem tenho palavras para descrever o alívio que senti ao pôr finalmente um fim a este pesadelo. Ainda me parece que estou a sonhar. Bebam um copo por mim. Eu agradeço todo o carinho que me manifestaram dos mais diversos modos.

2006-12-14

Bom dia


O nosso Deus respeita a criação e o seu ritmo, porque é um Deus amoroso e paciente.

"Se tu soubesses o dom de Deus"
Luís Rocha e Melo, SJ

2006-12-13

Que profetas para hoje?


"A palavra de Deus está não só na Escritura, mas também na vida de todos os que a vivem. Aí é que ela é "viva e eficaz, mais penetrante do que a espada de dois gumes" (Heb 4, 12). Se por absurdo, ninguém a vivesse, ela seria letra morta. Antes de ser escrita, também foi vivida por homens, particularmente escolhidos por Deus, para a anunciarem ao povo de Israel e também para a deixarem escrita. O profeta, ou autor sagrado, é um eleito, chamado a viver a experiência de Deus, num face a face, onde o Senhor se comunica e se revela. Depois, é enviado a anunciar ou a escrever a experiência vivida. Não há profeta nem autor sagrado que, antes de anunciar ou escrever o que o Senhor tinha para comunicar aos homens, não tenha feito e continuado a fazer, ao longo da sua vida profética, uma forte e profunda experiência de Deus e da sua palavra."

"Se tu soubesses o dom de Deus" - Luís Rocha e Melo, SJ
O poeta ficou cansado

Pois não quero mais ser Teu arauto.
Já que todos têm voz,
porque só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Porque não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares
já que a tua voz reboe
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na terra
e insistes em caixeiros viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca, fura
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão
me dixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras

Adélia Prado
(Oráculos de Maio, pág.13)

2006-12-12

Advento, tempo de esperança


Toda nuestra vida es “adviento”: Dios está viniendo.

...
Adviento es un tiempo muy bueno para aprender a esperar a Dios, para aprender a buscar a Dios, para aprender a descubrir a Dios.
El maíz y el arroz están naciendo, hermosos. Ha llegado el Adviento. Luego llegará la Navidad. Dios está llegando siempre. Abramos los ojos de la fe, abramos los brazos de la esperanza, abramos el corazón del amor.
En ese Dios que siempre viene, os abraza vuestro hermano.


D. Pedro Casaldáliga

2006-12-11

YO NO QUIERO MAS LUZ QUE TU CUERPO

Yo no quiero más luz que tu cuerpo ante el mío:
claridad absoluta, transparencia redonda.
Limpidez cuya entraña, como el fondo del río,
con el tiempo se afirma, con la sangre se ahonda.

¿Qué lucientes materias duraderas te han hecho,
corazón de alborada, carnación matutina ?
Yo no quiero más día que el que exhala tu pecho.
Tu sangre es la mañana que jamás se termina.

No hay más luz que tu cuerpo, no hay más sol: todo ocaso.
Yo no veo las cosas a otra luz que tu frente.
La otra luz es fantasma, nada más, de tu paso.
Tu insondable mirada nunca gira al poniente.

Claridad sin posible declinar. Suma esencia
del fulgor que ni cede ni abandona la cumbre.
Juventud. Limpidez. Claridad. Transparencia.
acercando los astros más lejanos de lumbre.

Claro cuerpo moreno de calor fecundante.
Hierba negra el origen; hierba negra las sienes.
Trago negro los ojos, la mirada distante.
Día azul. Noche clara. Sombra clara que vienes.

Yo no quiero más luz que tu sombra dorada
donde brotan anillos de una hierba sombría.
En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada,
para siempre es de noche: para siempre es de día.


Miguel Hernández

religar o quê?

Na missa das 18H de ontem, havia muitos lugares vagos...talvez o frio. No final, no rol dos respectivos avisos (apenas uma escuta deles, ajuda a perceber a pobreza espiritual e pastoral da comunidade) é avisado que estarão dois padres, em dois dias da semana, durante todo o dia, a confessar. Sugere-se a seguir, como se de alguma obrigação fiscal se tratasse, que as pessoas fossem indo ao longo do dia e não deixassem para o fim.

Saí dali, vi as ruas apinhadas de gente e carregadas de embrulhos, quais "pais natais" ambulantes. E sentia-se uma certa alegria e festa. A caminho de casa, já na rua deserta (fica fora do centro) umas lágrimas rebeldes teimaram em cair. Quem é que quer uma religião, desligada da vida e ao ritmo do funcionalismo eclesiástico?

"Advento: esperança ou ilusão?"

“ A certeza da esperança cristã está além da paixão ou do conhecimento. Assim, devemos por vezes contar que a nossa esperança entre em conflito com as trevas, o desespero e a ignorância. Assim também, devemos lembrar-nos de que o optimismo cristão não é uma perpétua sensação de euforia, uma consolação indefectível, em presença das quais não podem existir nem angustias, nem tragédias. Não nos devemos esforçar por manter um clima de optimismo pela mera supressão de realidades trágicas. O optimismo cristão reside numa esperança de victória que transcende toda tragédia Uma victória em que passamos além da tragédia para a glória com Cristo crucificado e ressuscitado.(...)Mas a Igreja, ao nos preparar para o nascimento de um ‘grande profeta’, um Salvador, um Rei da Paz tem algo mais em mente do que uma simples festa para alegrar. O mistério do Advento focaliza a luz da fé sobre o próprio sentido da vida, da história, do homem, do mundo e de nosso próprio ser. No Advento, celebramos a vinda e, em realidade, a presença de Cristo em nosso mundo. Damos testemunho da sua presença mesmo no meio de todos os seus problemas imperscrutáveis e de suas tragédias. Nossa fé no Advento não é uma fuga do mundo para dentro de uma região nebulosa de ‘slogans’ e consolações que declaram ser nossos problemas irreais e nossas tragédias inexistentes.”

Thomas Merton
in Tempo e Liturgia

Bom dia


Calar o palavreado, para sentir a Verdade.
Senti-la ardentemente.
Deixar que me transforme.

Sinto-me exausta na minha cegueira.
Um pouco de luz, eu Te peço!

2006-12-09

e estas mulheres? Quem lhes roubou a dignidade e a vida?

Incêndio em hospital de Moscovo teve origem criminosa

O presidente da Câmara de Moscovo admitiu hoje que «é alta a probabilidade de a causa do incêndio no Hospital Nº 17, que provocou na madrugada de hoje a morte de 45 mulheres, ter sido fogo posto».
A justificar esta opinião, Iúri Lujkov sublinhou que «no local onde começou o incêndio não havia materiais inflamáveis que pudessem provocar esta tragédia».
O incêndio no hospital onde são tratados toxicodependentes, ocorrido na madrugada de hoje na secção feminina, provocou a morte de 45 mulheres e o internamento de 10 feridos em vários hospitais de Moscovo....

Que me perdoem os homens e pais...

Minha Mãe

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.
Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.


do livro "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa",
Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 186.

Ontem, para quem é católico, além de feriado, foi dia "santo", dia dedicado à Imaculada Conceição. Sobre este dogma, ler um texto muito bom do Zé Dias, do blogue "fé e compromisso".
Para o Zé Dias dedico também este poema do Vinícius.

Eu tive a sorte de, no dia de ontem, receber o testemunho de mulheres extraordinárias. Todas elas, não mereceriam uma linha, nas colunas do "lixo cor-de-rosa". Nem ficarão conhecidas, como a Maria de Nazaré. E, no entanto, que força vi nelas em dizerem: "sim ao Amor". Numa aprendizagem no "sim" da Mulher que venerávamos ontem. Que de certeza, nunca desejou alguma coisa mais que, ser mulher na simplicidade do projecto que Deus lhe pedia que assumisse. Uma delas chama-se Isaura, a outra Josefina e a outra, apenas "conheci" pelas palavras da filha.

2006-12-07

para o Manel


SAUDAÇÃO

Ave, Maria!
Ave, carne florescida em Jesus.
Ave, silêncio radioso,
urdidura de paciência
onde Deus fez seu amor inteligível!

Adélia Prado

Manel, mesmo de forma virtual, vais mostrando as maravilhas que Deus faz em ti.
"Onde Deus fez seu amor inteligível"

não é o filme da minha vida...mas quase!


Desde que o vi, e nos últimos tempos, por diversas razões, lembro-me do filme realizado por David Lynch - "Uma história simples".

Para quem não viu o filme, resumidamente, é a história de um homem de setenta e três anos, Alvin Straight, que ao ser informado pelo médico, da fragilidade da sua saúde, resolve que tem de se ir reconciliar com o irmão, também doente, que vive a uma longa distância. E vai fazê-lo pelos seus meios (um cortador de relva, minimamente preparado, para a tarefa a que se propõe). A filha ainda o tenta demover, do que lhe parece ser uma insensatez.

Do que mais me marca na história do filme, é a determinação para concretizar o que acha essencial. As dificuldades que vão surgindo ao longo do percurso e que não o demovem daquilo a que se propôs. O ir pelos seus próprios meios - as dificuldades, os diálogos com as pessoas que encontra, a ajuda que recebe de algumas delas, vão-lhe permitindo construir uma disponibilidade interior para o que tem de fazer: reconciliar-se com o irmão.

Na nossa vida, podemos não estar zangados com alguém de forma tão extrema, mas vivemos, tantas vezes, com muita superficialidade as relações com os outros e connosco próprios. Vivemos na ligeireza, na apatia, no "o outro é que tem que vir", no "não sou capaz", "não tenho meios".

"Uma história simples", ensina-me que, é preciso deixar amadurecer o coração, para que, com os próprios meios, sem panaceias, fazermos o que é essencial, num determinado momento da nossa vida.

pôr-se a caminho...na confiança


Levanta-te, Jerusalém,sobe ao alto e olha para o Oriente:vê os teus filhos reunidos desde o Poente ao Nascente,por ordem do Deus Santo,felizes por Deus Se ter lembrado deles. (Liv. Baruc)

2006-12-06

"uma espiritualidade nova para um tempo novo"

...É uma feliz coincidência que este Fórum Espiritual aconteça em Brasília exactamente quando as Igrejas cristãs mais antigas do Ocidente iniciam o tempo do Advento, período litúrgico cujo objectivo é reacender no mundo a esperança e a mística do reino de Deus. Para a Bíblia, a esperança não é uma projeção no futuro. Ao contrário, significa viver aqui e agora, como por antecipação, o futuro que desejamos para o mundo. Nutrir-se de esperança não é apenas apostar na realização dos nossos melhores desejos, mas acreditar que, através de nós, Deus quer realizar o seu projeto e este não vai na direção de consolidar o modelo de organização social actualmente vigente e sim de transformá-lo.
...
Um fórum de espiritualidade deve ajudar a libertar o espírito, ou seja, o mais íntimo e profundo do ser humano de todos as alienações. Não se trata de libertá-lo para isolá-lo em uma áurea mística de individualismo sagrado. Nem de sonhar com um mundo paralelo de seres invisíveis que, no mundo antigo, foi a convicção filosófica de Platão e até hoje ainda faz sucesso em certas escolas espiritualistas.

A esperança alimentada pela espiritualidade ecumênica é profética porque se insere no coração da realidade para transformá-la à medida que trabalha para transformar o mais íntimo de cada ser humano. Assim, nos ensina a conviver com nossos conflitos interiores e nossas limitações. Se algum dia, podem ter sido fonte de divisão connosco mesmos e com os outros, a espiritualidade nos faz assumi-los e transformá-los em instrumentos de integração interior a partir dos quais somos cada vez mais nós mesmos, mas abertos ao outro e, assim, juntos, podemos trilhar uma vida nova.

Quando as religiões falam de salvação e de graça, estão se referindo a esta realidade de esperança profunda de transformação interior de cada pessoa e, ao mesmo tempo, social e política da sociedade na qual nos inserimos. Elas acolhem e dialogam com a sabedoria da ciência social e política, das experiências culturais, da racionalidade da economia e assim por diante. Entretanto, a sua contribuição própria é a espiritualidade como uma opção amorosa que vai à raiz das questões porque busca responder às perguntas mais profundas das pessoas sobre o sentido da vida e como vencer tanta dor e tanta luta. Fazendo isso, esta espiritualidade inserida e ecumênica desmente os prognósticos pessimistas da realidade e subverte o destino de quem não consegue mais ver saída para os problemas que enfrenta.

Esta espiritualidade evita a arrogância de pensar que se possa mudar o mundo sem que cada um busque se transformar no mais profundo do seu coração. Entretanto, sabe que esta dialética não comporta um antes e um depois. As duas dimensões se articulam e são complementares. Por isso, precisamos aprofundar sempre uma visão crítica sobre nós mesmos e, ao mesmo tempo, sobre a realidade...

...Durante muito tempo, as religiões chamadas monoteístas pregaram a unidade como um atributo divino. Hoje, devemos reconhecer que a diversidade também é uma qualidade divina. Assim como na natureza, a biodiversidade é a condição da vida florescer em um determinado sistema biológico, reconhecer que Deus se manifesta de formas múltiplas e diferentes no mundo é um sinal de vitalidade espiritual e de abertura às novas revelações do Espírito. Já há quase 50 anos, a grande filósofa e espiritual francesa Simone Weil dizia: "Eu reconheço quando alguém é de Deus não quando me fala de Deus, mas pela sua forma de relacionar-se com o mundo".

Marcelo Barros - Adital* Monge beneditino

Bom dia

A estrada branca

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida pareceia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invísivel peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares que se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

José Tolentino de Mendonça
"A noite abre meus olhos"

2006-12-05

"a minha verdadeira identidade..."


“ Tenho certeza de que o significado de minha vida é aquele que Deus quer para ela? Deus impõe de fora um significado para minha vida através de eventos, costumes, rotinas, leis, sistemas, choque com outros na sociedade? Ou sou chamado a criar a partir de dentro, junto com ele, com sua graça, um significado que reflecte sua verdade e me faz ser a “palavra” dele falada livremente na minha situação pessoal? A minha verdadeira identidade está escondida no chamado de Deus pela minha liberdade e resposta para ele. Isto significa que devo usar essa liberdade para amar, com toda responsabilidade e autenticidade, e não apenas recebendo uma forma que me é imposta por forças externas, ou moldando a minha vida de acordo com padrões sociais aprovados, mas direccionando o meu amor para a realidade pessoal do meu irmão, e abraçando a vontade de Deus em seu mistério nu e, muitas vezes, impenetrável. ”

Thomas Merton

2006-12-04

A extrema-unção do Pinochet

O Miguel no Cibertúlia, comenta em post, a notícia da extrema-unção dada a Pinochet. No DA, o Carlos Esperança também não deixou passar em vão o tema, na sua maneira própria e característica. Eu, ainda por cima, fui lá deitar lenha na fogueira e dizer que, já não é a primeira vez que a recebe.
A chamada "extrema-unção", já não é mais vista na Igreja Católica como o sacramento "passaporte" para o "outro mundo". Mas é enquadrado nos "sacramentos de cura". Não sendo, portanto, o aval; o detergente que lava mais branco que o Tide e nos põe a alma limpinha para nos levar junto de Deus.

Seja o Pinochet, ou seja o fiel mais simples, bondoso, humilde; ambos têm direito a receber da Igreja (sacramento de Cristo) os dons e graças necessárias ao seu estado de doença, através do sacramento da Unção dos doentes. (É assim que se chama agora). Tem o nome, muito mais a ver com o fim a que se destina.

Mas, a Igreja que, tanto cultiva a culpa de temas ligados à sexualidade (ainda há pouco tempo num grupo de amigos nos ríamos com as perguntas dos padres aos jovens rapazes quando se iam confessar, sobre a masturbação. Isto aos rapazes, porque às meninas não era suposto tal prática; nasceram para serem virgens e mães), não mostra grande contenção ou parcimónia, em administrar sacramentos a pessoas, onde a sua prática de vida, não condiz minimamente com a fé que professam. Os sacramentos, não são magia. Não são actos isolados ou desenraizados da vida. É claro que isto que vale para o ditador Pinochet, vale igualmente para mim. Quando nos encontrarmos "face a face" com Deus estaremos em pé de igualdade. Os dois fomos chamados a ser santos e à perfeição. Cada um à sua maneira, mas será o mesmo Deus que acolhe aos dois.

Mas, e continuando...repugna-me ouvir a Igreja Católica ameaçar de excomunhão alguém que peça, que pratique um aborto, e conviva de forma tão próxima com ditadores do calibre de Pinochet.

Leio no Diário Ateísta, alguém na caixa de comentários a perguntar se estaria alguém da Igreja presente nos últimos momentos de todas as vítimas de violênica do regime de Pinochet. Infelizmente, parece-me que a resposta é óbvia.

tão simples...




Acolher, despertar, saber ver, oração.

...e tão difícil de concretizar.
JESÚS, NO PUEDES VENIR


Jesús, no puedes venir si no nos dejamos deslumbrar, si ya no queda nada que nos cause asombro, si el corazón no se enternece ante el dolor para dar a luz una vida auténtica.
Jesús, no puedes venir si no allanamos las colinas del odio, si no ayudamos a construir puentes de cordialidad, si la ternura y la sencillez no se apoderan de nuestra vida.


Jesús, no puedes venir si no descubrimos en nuestro interior la otra parte que tantas veces nos falta, la feminidad o la masculinidad que completa y da sentido a nuestras vidas como personas.

Jesús, no puedes venir si no percibimos la brisa de la confianza en las noches sin luna de los cayucos que se acercan, silenciosos, como el llanto ahogado, como el soplo del Espíritu, como la necesidad imperiosa de vivir una nueva vida.

Jesús, no puedes venir si no hacemos un hueco para invocarte, para darte gracias, para mostrarte nuestra impotencia, para gritar de dolor, para hablar confiadamente, como con un amigo, de la vida.

Jesús, no puedes venir si la fe no abarca las acciones por la paz y la justicia, si el amor no inunda las relaciones, si la solidaridad no destruye fronteras, si la esperanza no alumbra el horizonte siempre sorprendente de la vida.

Jesús, no puedes venir si no nos dejamos transformar por tu Palabra leída en el periódico, escuchada en la radio, navegando por internet, contemplada en las bellezas de la Naturaleza, ahogada en el lamento de los pobres que nos exigen una vida digna.

Jesús, no puedes venir si no alzamos nuestra voz contra quienes causan tanta miseria, si no dejamos de consumirnos, si no abandonamos una existencia llena de cosas y ausente de vida, para que continentes enteros puedan sencillamente sobrevivir.

Jesús, no puedes venir si no comprometemos nuestras manos, nuestras lágrimas, nuestro compromiso, nuestro tiempo y dinero en la construcción de otro mundo, de otra vida mejor, tan necesaria y posible.

Jesús, no puedes venir si no hacemos de nuestras comunidades cristianas unos anuncios luminosos que pregonen que podemos ser felices, que seguirte nos libera, que el Evangelio puede ser realmente una buena y feliz noticia para tantas personas desencantadas por las desdichas, el sinsentido, el maltrato en sus vidas.

Jesús, no puedes venir… porque nunca te has ido, porque estás a nuestro lado en los más débiles, desprotegidos, marginados, porque cuando nos reunimos en tu nombre, enciendes nuestros corazones y nos animas a continuar con alegría, a pesar de todos los pesares.
Jesús, no puedes venir, porque el Reino ya está dentro de nosotros y nosotras. Sólo hay que ahondar, buscar, contemplar, para llegar a descubrir tu presencia en millones de rostros, para sentirnos hijos e hijas, hermanos y hermanas, para acercar y hacer visible el amor del buen Padre y Madre Dios.

Ven y ayúdanos a descubrir la fuente inagotable que nos hará vivir desde una nueva espiritualidad, basada en el cuidado, la solidaridad, la alegría y la justicia.


ECLESALIA