2007-01-31

o silêncio de Deus

"Tú que hablabas tanto, que acallabas a los doctores, que deslumbrabas a fariseos y sacerdotes, cuando llegó el momento de la verdad, pasaste la barrera del sonido y entraste en el silencio. Lo más desconcertante, tu misterio, estuvo en el silencio.

“Palabra de Dios, palabra de Dios”, repetimos ingenuamente en la liturgia… ¡Pero si Yahvé no dijo nunca nada! El misterio de Dios está, sigue estando, al otro lado del silencio.

Mientras tanto, los que dicen representarte, tus delegados, no hacen más que hablar, hablar... Y quieren que todos callen, pero ellos no cesan de hablar. ¿Cuándo callarán? A ver si en medio de un gran silencio oímos tu palabra.

No entendieron bien, Señor, aquello de “id y anunciad el evangelio”. Lo tradujeron mal. Te han convertido en un detergente, en una pasta de dientes. Se ha entrado en la competencia publicitaria. Renovar, actualizar tu mensaje es encontrar un nuevo spot publicitario.

Creyeron que anunciar era hablar y hablar. Y, de tanto hablar, se han resquebrajado las campanas. "


in fe adulta

Migalhas, foi para ti que hoje colhi rosas. Parabéns.

2007-01-30

aniversário do assassinato



Não há caminho para a paz. A paz é o caminho.

Mahatma Gandhi

1869-30/01/1948

porque SIM!

...Ora, a única coisa que há a dizer sobre isto é: SIM, queremos que em Portugal todas as crianças tenham a sua integridade física e psíquica respeitada, enquanto pessoas. SIM, queremos que à partida todo o ser humano em Portugal tenha, pelo menos, as condições básicas para poder ser pessoa. SIM queremos que o Estado intervenha para que todas as mulheres tenham direito de opção, e não apenas algumas, como agora sucede. E é apenas por isso que votamos SIM!

no forum comunitário via Tugir

assim não!

Em conversa com uma pessoa conhecida, surge a temática do aborto e o próximo referendo. A pessoa em causa (homem) vai debitando as suas conclusões e eu só posso concordar:"que o aborto não é a situação ideal, nem sequer natural", "que, por outro lado, não se pode ficar indiferente, aos abortos clandestinos", "que uma gravidez pode acontecer, por mais responsável que seja a actividade sexual", "que na actual situação legal, quem é mais penalizado são as mulheres de baixos recursos" etc. No fim da conversa diz que no caso de uma gravidez inesperada no âmbito da relação que tem, não sabia que decidir; a mulher já tem quarenta e três anos e dois filhos adolescentes. Reconhece que penderia sobre a saúde da mulher, o peso de uma eventual gravidez. No fim da conversa, vai dizendo que as mulheres é que têm uma palavra decisiva a dizer no referendo e que se calhar nem vai votar. Sabe que é um dever cívico, mas...
E eu não lhe disse, mas pensei:"A versão soft do macho latino."

"Tu, único sol, vem! Sem Ti as flores murcham, vem!. Sem Ti o mundo não é senão pó e cinza. Este banquete e esta alegria, sem Ti, são totalmente vazios, vem!".

Jalal ud-Din Rumi (1207-1273)
Imagem - Nakaba Tachibana (1902-2000)

2007-01-29

mais coisa menos coisa, digo o mesmo:

Eu incompetente me confesso para dizer aquilo que a sociedade civil - as famílias, as associações, as empresas, as escolas, as igrejas, os meios de comunicação social, os clubes etc. - assim como as diferentes expressões e poderes do Estado deve fazer para criar um ambiente cultural, social, político e espiritual que estimule a alegria de ter filhos e os educar com gosto.
Eu incompetente me confesso para informar como é que isto seria possível, embora saiba que, enquanto ter filhos for um pesadelo, não adianta pensar muito no aumento da natalidade. O sacrifício pelo sacrifício é uma doença. Só o sacrifício que é fruto do amor possível é fonte de coragem. Mas é um exagero pedir às pessoas que desejam filhos viverem num permanente estado de heroicidade. Não adianta queixar-se da cultura hedonista pela falta de generosidade. Quando empresas e as organizações, através da publicidade, incitam aos prazeres mais imediatos e indeferíveis - casas de sonho, férias de sonho -, teremos uma minoria regalada e a maioria acumulando desejos e decepções e adiando sempre, por estas e por outras razões, a altura para ter descendentes.

...É saudável, é normal que a lei de um Estado laico não tenha que estabelecer o que é bem e o que é mal sob o ponto de vista religioso...
...É por isso que talvez não seja um absurdo perguntar aos cidadãos, como agora, em Portugal, , no referendo, se se deve responder "sim" ou "não" à despenalização da interrupção da gravidez, em estabelecimento de saúde, nas primeiras dez semanas, realizado a pedido da mulher. Não se trata de saber quem é e quem não é pelo aborto, neste prazo e nestas condições, mas quem é ou não pela penalização da mulher que aborta neste prazo e nestas condições.
É inevitável a pergunta: dentro das dez semanas já existe vida humana, ser humano ou pessoa humana? Sobre o que é a vida, sobre o que é a vida humana, sobre o que é a pessoa, as linguagens do senso comum, das ciências, das filosofias e das religiões não são coincidentes. E, no interior de cada um desses ramos do conhecimento, o debate não está encerrado.
...Creio que é compatível o voto na despenalização e ser - por pensamentos, palavras e obras - pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O "sim" à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminilização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, da cultura do aborto, embora haja sempre doidos e doidas para tudo...

Frei Bento Domingues, O. P. - Público, 28/01/2007

2007-01-26

Bom fim-de-semana


INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.


David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

mitos...mas nem tanto!

Na discussão que por aí anda a propósito do referendo de 11 de Feveiro, comecei a aperceber-me que; uma das coisas que causa muito desconforto à maior parte dos defensores do "Não", é a pergunta a referendar conter estas palavrinhas: "a pedido da mulher". Como mulher, não estranhei que a pergunta contivesse estas palavras. Leio-as com o seguinte sentido: a mulher perante uma situação de gravidez que, pelos mais diversos motivos, não tem condições de levar até ao fim, em diálogo possível (nem sempre o é) com o homem, igualmente responsável, decide de forma livre fazer o aborto. É só isto. Tudo o mais que entra em discussão é poeira para nublar o óbvio. Mas, numa sociedade patriarcal como a nossa (machista, falando português), levantam-se velhos mitos, como o que a seguir é descrito:

De acordo com a lenda hebraica, Lilith teria sido formada assim como o homem a partir do barro, logo após a formação deste. Por esse motivo ela não teria aceitado uma posição inferior em relação ao homem, pois sendo criada da mesma forma, exigia os mesmos direitos, não aceitou uma posição submissa e assim desentendeu-se com Adão. No primeiro acto sexual Lilith não aceitou ficar por baixo, aguentando o peso do corpo do companheiro e exigiu ter também o direito ao gozo e ao prazer sexual. Como não foi atendida em seus anseios ela se revolta e pronuncia o nome "inefável" que lhe deu asas por meio das quais fugiu do Jardim do Éden. Assim Lilith abandonou Adão com quem não se entendia e foi para as margens do Mar Vermelho. Adão ficou só e reclamando, tendo medo da escuridão opressora. Daí haver uma relação entre Lilith e a Lua Negra, a escuridão da noite, por isso a associação dela com a coruja, o pássaro noturno. Segundo a tradição talmúdica, Lilith é a "Rainha do Mal", a "Mãe dos Demônios" e a "Lua Negra". Deus vendo o desespero de Adão, enviou três anjos, Semangelaf, Sanvi e Sansanvi, para trazê-la de volta ao Éden, mas ela recusou-se a aceitar tal proposta. Dessa forma a fuga converteu-se em expulsão. Para substituir Lilith é criada Eva, mulher submissa, feita não de barro, mas de uma costela de Adão. Lá às margens do Mar Vermelho habitavam os demônios e espíritos malignos, segundo a tradição hebraica, esse era um lugar maldito, o que prova que Lilith se afirmou como um demônio. Segundo essa mesma tradição é esse caráter demoníaco que levaria a mulher a contrariar o homem e a questionar seu poder.

Quem tem medo das mulheres? Parece que ainda muito português! E, na hierarquia da Igreja, então; é trigo limpo farinha amparo! Cuidado com as mulheres! Têm lá capacidade para discernir, decidir, optar, escolher?! Nós, homens, guardiões da moral (que vale sempre mais que qualquer pessoa) é que sabemos o que é melhor para elas.

Tenho dito!!!

2007-01-25

silêncio


Uma das coisas que me são caras é o silêncio. Nunca tive diários. O que em mim ressoava, não precisava de ser escrito ou verbalizado, tornava-se vida. E, se vou escrevendo algumas coisas por aqui; é porque me apraz, como hoje, saborear em silêncio, o eco que elas produzem.

Saboreio, hoje, estas palavras do poeta guatmalteco Humberto Ak'Abal:

Não é que as pedras sejam mudas:
apenas gurdam silêncio.

imagem - mat.fc.ul.pt/Pedras que jogam

Festa da conversão de S. Paulo


Celebramos hoje a conversão de Paulo, o grande apóstolo dos gentios, convertido ao cristianismo pela intervenção maravilhosa do Ressuscitado. Formado na escola de Gamaliel (Actos dos Apóstolos 22, 3), com certeza candidato a rabino e, portanto, conhecedor profundo da Lei e dos profetas. Hebreu, fariseu e fanático (Carta aos Filipenses 3, 5-6), acreditava servir a Deus de acordo com seus princípios aprovando o assassinato de Estêvão, e logo pediu apoio para perseguir amplamente os cristãos (Actos dos Apóstolos 7, 58 – 8, 3; 9, 1-2). Mas sua personalidade rígida e sensível ao mesmo tempo deveria ter ficado marcada pela decisão com que os cristãos davam sua vida por Jesus.

A caminho de Damasco, é derrubado ao solo junto com seus rígidos esquemas religiosos e sociais, e cegado por uma intensa luz que lhe cai do céu. Com a ajuda de Ananias, recobra logo a visão, recebe o batismo e é enviado a comunicar o que tinha experimentado acerca de Jesus (Actos dos Apóstolos 9, 3-30). Como comunicador, foi o maior dentre os grandes.

Terno e vigoroso ao mesmo tempo, dedica-se sem descanso a levar o Evangelho a todos os povos pagãos, alheios ao mundo palestino. Pregador por vocação e escritor por necessidade, escreveu quatorze cartas às comunidades que foi fundando por toda a costa do Mediterrâneo. Suas comunidades são fruto de um trabalho constante e dedicado. Ele deixou escrito: Quem sofre na Igreja que eu também não sofra? Define-se, então, como um louco, e se gaba das provações incomparáveis que padeceu por pregar o Evangelho: foi encarcerado mais de uma vez; passou frio, fome, sede, sem dormir e sem abrigo, passou por todo tipo de perigos (2ª Carta aos Coríntios 11, 16-33). No final, poderá afirmar: Combati o bom combate, terminei minha carreira, sempre fiel à fé. Está-me preparada a coroa dos santos (2ª Carta a Timóteo 4, 7-8).

Serviço bíblico Claretiano

2007-01-24

juro, juro...

...que não percebo o arrebatamento que o MRS (Marcelo Rebelo de Sousa), causa nos portugueses. Abro os olhos e fecho; vejo a imagem do Professor que, aos domingos, debita todo o seu vasto saber no ecrãn: qual púlpito dos tempos modernos. E não me excito, juro!
Mas lendo o texto do Miguel Vale de Almeida, percebo, então, a agitação frenética de umas "tias," que no "adro" da igreja, combinavam a ida ao jantar em que o Professor abrilhantaria um comício do seu partido, nesta cidade. Diz o Miguel:

"...O povo foi catapultado para a TV vindo directamente do adro da igreja e sem passar pelos bancos das escolas. A marca Marcelo® percebeu-o. A conversa em família gera intimidade na frieza plana do ecrã. E é esta intimidade - uma referência a um jogo de futebol, seguida da referência a um livro - que permite que qualquer afirmação propriamente política, até mesmo um assaSIMnato político, passe como mera expressão de bom-senso - óbvia, natural, evidente...."

daqui do meu jardim,


meu caro João, envio-lhe a tal rosa desejada. Vai acompanhada de uns versos da Florbela Espanca que, por acaso, até se chamam "cravos vermelhos"... mas acho que fica melhor servido com uma rosa das minhas. E o resto, está implícito!!

Bocas rubras de chama a palpitar,
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar,
Esse perfume capitoso e bom?!
Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas
Lindas flores d'esculturais sorrisos?!
...Bem sei vosso segredo...Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores do mal
Disse-me agora:"Uma manhã, o sol,
O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga..."

Florbela Espanca

entender

(Mulher sentada - Picasso)


Gosto de saber o que está por detrás das palavras que digo. Quais são os sentimentos, atitudes que as motivam. Por detrás da palavra entender, que pode significar - perceber, interpretar, compreender, julgar - percebi que, o que mais me motiva quando a emprego, é o "julgar". O que o outro disse, fez, passa pelo crivo do meu julgamento que, às vezes, é "sumaríssimo". O essencial, então, não é entender, é aceitar as diferenças do outro.
Translúcido

Rosas raras se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.


Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.


Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.


Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.


Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,


Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstracta
sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.


A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.


Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos. Ah!
Esta paixão de destruir-me à toa.


Paulo Mendes Campos

2007-01-22

verdade!


A verdade é totalmente interior. Não há que procurá-la fora de nós, nem querer realizá-la lutando com violência com inimigos exteriores.

Mahatma Gandhi

2007-01-20

Bom fim-de-semana


"Criando a humanidade, o Deus de aliança correu o risco de apostar na liberdade humana: o risco da recusa. O Filho, na cruz, assume este risco. Solidário com todos, Cristo não podia consentir que o homem fosse desfigurado, já que o Seu Pai é o Deus da vida, é o criador."

2007-01-19

sobre o referendo de 11 de fevereiro

É pena que, para um assunto desta natureza, haja tanto ruído de fundo, tanta vozearia, tanto desvario. A par das declarações da Conferência Episcopal, de alguns bispos em particular, surgem nos meios de comunicação, os dizeres de um padre formado em Direito Canónico, mas pouco sintonizado com a tolerância, com o tal de "livre arbítrio", com a compaixão. Mas nem todos são assim. Na missa em que participei no passado domingo, era avisado que ia haver uma sessão de esclarecimento patrocinada por um dos grupos do "Não". Foi sugerido que participassem os que pensam votar "Não", os que pensam votar "Sim" e os indecisos. É uma posição mais ou menos equilibrada. Mais ou menos, porque acho que nunca vou ouvir o anúncio de uma sessão patrocinada por um movimento do "Sim".

Prometi num comentário que explicava porque penso votar "Sim" no referendo. Aqui vai:

No anterior referendo votei "Não". De acordo com a minha consciência era o que achava certo. Mudei de opinião. Não em relação àquilo que é para mim o aborto. Não enquadro na minha vida, a possibilidade de eu decidir fazer um aborto. Se, por algum motivo, tivesse de o fazer, seria algo que me feriria profundamente. Como mulher e como crente.
Mas o que acho certo (fruto da minha consciência, da minha formação humana e cristã) para mim, não quero impô-lo a outros.

Acho que a vida é um dom. Que, pelo facto de estarmos vivos e conscientes disso, já é motivo para nos sentirmos felizes. Mas isto, é uma coisa que brota do meu viver.

O direito à vida é fundamental, mas não a vida a qualquer custo. Não basta dar a vida, é necessário amar, cuidar, proteger. Compreendo que uma mulher ao saber-se grávida; em liberdade, de acordo quanto possível com o homem também gerador dessa vida, decida interromper a gravidez; fazer um aborto, se achar que não estão reunidas as condições para que essa vida se desenvolva na sua plenitude.

Muitos abortos são e serão feitos, por causa da irresponsabilidade, do egoísmo de mulheres e homens. Nem isso me motiva a votar para manter a criminalização.

Não partilho da visão catastrófica de que o aborto abre a porta à desumanização e a uma série de males. Basta ter os olhos abertos. O aborto não é um assunto novo. Tem atravessado todas as épocas e povos.

Gostaria de viver num mundo, em que não existisse o aborto. Mas não vivo. E manter a criminalização, não ajuda a tornar isso possível. O meu voto na despenalização, não é um voto de rendição. É um voto realista, baseado na consciência da sociedade em que vivo e não nos meus ideais. O meu voto é de tolerância, compaixão, respeito pelas decisões de quem pensa diferente de mim. Ou mesmo pensando igual, se viu constrangido a agir assim.

2007-01-18

Parábola do grande banquete Mt 22, 1-14

1Tendo Jesus recomeçado a falar em parábolas, disse-lhes: 2*«O Reino do Céu é comparável a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. 3Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram comparecer. 4De novo mandou outros servos, ordenando-lhes: 'Dizei aos convidados: O meu banquete está pronto; abateram-se os meus bois e as minhas reses gordas; tudo está preparado. Vinde às bodas.' 5Mas eles, sem se importarem, foram um para o seu campo, outro para o seu negócio. 6*Os restantes, apoderando-se dos servos, maltrataram-nos e mataram-nos.7O rei ficou irado e enviou as suas tropas, que exterminaram aqueles assassinos e incendiaram a sua cidade. 8Disse, depois, aos servos: 'O banquete das núpcias está pronto, mas os convidados não eram dignos. 9*Ide, pois, às saídas dos caminhos e convidai para as bodas todos quantos encontrardes.' 10Os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos aqueles que encontraram, maus e bons, e a sala do banquete encheu-se de convidados.11*Quando o rei entrou para ver os convidados, viu um homem que não trazia o traje nupcial. 12E disse-lhe: 'Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?' Mas ele emudeceu. 13O rei disse, então, aos servos: 'Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.' 14*Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.»

Pedro, obrigada pelo teu comentário. Fez com que fosse reler um dos trechos mais interpelantes do Evangelho. Esta parábola é, para mim, um dos trechos mais deliciosos da Bíblia. Não só porque fala em banquete, mas porque me interpela como cristã baptizada, a procurar perceber como funciona a economia divina.

Nos crentes, há uma infundada ideia, de que basta professarem a fé em Jesus Cristo, para automaticamente serem os escolhidos. Esta parábola, põe-nos no nosso lugar. Várias vezes tenho ouvido, em homilias, os padres a fazerem a analogia da veste nupcial com o baptismo. A veste nupcial, aqui, leio-a como configuração com Cristo. Não basta dizer: "Senhor, Senhor", mas fazer as obras de Deus.

A parábola lida e interpretada na sua inteireza, é de escandalizar qualquer crente mais desprevenido. Então, nós que, desde criancinhas, fomos escolhidos, assinalados com o óleo da unção, estamos sujeitos a ver passar à nossa frente todos aqueles que, no nosso dia-a-dia, nos habituámos a excluir, a marginalizar, a não olhar, a condenar...? Mas que Deus é este? Não merecemos a recompensa da nossa dedicação? Da missa todos os domingos, das muitas via-sacras, de devoções a santos tão irradiantes das mais sublimes virtudes, das nossas vidas tão "certinhas"?

2007-01-17

Não caímos do paraíso


Situar a queda, algures, num passado longínquo, desloca-nos do que é a realidade da nossa vida: a tentação e a queda são uma constante do nosso percurso pessoal e colectivo. O Paraíso é uma possibilidade para a qual caminhamos.

2007-01-16

a rotina como caminho


Todos os dias (excepto aos domingos) tomo o meu café da manhã com a D. Arminda. Não tem nada de mais, esta rotina. Apenas o desejo da D. Arminda de que a leitura do DN me prenda a atenção, para lhe dar mais cinco minutos de companhia. É só isso que ela quer. Nem preciso de falar com ela que, por sua vez, está a fazer as palavras cruzadas. O sorriso que trocamos ( a D. Arminda, com quase noventa anos, tem um dos sorrisos mais bonitos que conheço), o bom-dia que desejamos e o prazer que retiramos da mútua companhia, tornam esta rotina diária, um momento especial.

dedicado aos Srs Bispos da Guarda e de Bragança

NO PRINCÍPIO DO AMOR

No princípio do amor, outro amor que nos precede
adivinha no espaço o nosso gesto.
No princípio do amor, o fim do amor.
Folhagens irisadas pela chuva,
varandas traspassadas de luz, poentes de ametista,
palmeiras estruturadas para um tempo além de nosso tempo,
pássaros
fatídicos na tarde assassinada, ofuscação deliciosa
no lago - no princípio do amor
já é amor. E pode ser setembro
com o sol estampado na bruma fulva. Monótona
é a praça com o clarim sangüíneo do meio-dia.

No princípio do amor, o humano se esconde,
bloqueado na terra das canções, astro acuado
em galáxias que se destroçam. E tudo
é nada: nasce a flor e morre o medo
que mascara a nossa face. Navios
pegam fogo defronte da cidade obtusa,
precedida de um tempo que não é o nosso tempo.
No princípio do amor, sem nome ainda, o amor
busca os lábios da magnólia, o coração violáceo
da hortênsia, a virgindade da relva.
É, foi, será princípio de amor. A mulher
abre a janela do parque enevoado, globos irreais,
umidade, doçura,
enquanto o homem - criatura ossuda, estranha -
ri no fundo de torrentes profundas
e deixa de ir subitamente, fitando nada.
Isto se passa em salas nuas,
em submersas paisagens viúvas, argélias
tórridas, fiords friíssimos, desfiladeiros
escalvados, parapeitos de promontórios
suicidas, vilarejos corroídos de ferrugem,
cidades laminadas, trens subterrâneos,
apartamentos de veludo e marfim, províncias
procuradas pela peste, cordilheiras tempestuosas,
planícies mordidas pela monotonia do chumbo, babilônias
em pó, brasílias
de vidro, aviões infelizes em um céu
de rosas arrancadas, submarinos ressentidos
em sua desolação redundante, nas altas torres
do mundo isto se passa; e isto existe
dentro de criaturas inermes, anestesiadas
em anfiteatros cirúrgicos, ancoradas em angras
dementes, pulsando através de alvéolos artificiais,
criaturas agonizando em neblina parda,
parindo mágoa, morte, amor.
E isto se passa como um cavalo em pânico.
E isto se passa até no coração opulento
de mulheres gordas,
de criaturas meio comidas pelo saibro,
no coração de criaturas confrangidas entre o rochedo
e o musgo, no coração de
Heloísa, Diana, Maria,
Pedra, mulher de Pedro,
Consuelo, Marlene, Beatriz.

Olhar - anel primeiro do planeta Saturno.
Olhar, aprender, desviver.
Além da janela só é visível a escuridão.
Olhar - galgo prematuro da alvorada.
No princípio do amor, olhar
a escuridão; depois, os galgos prematuros da alvorada.
No princípio do amor, morte de amor antes da morte.
Amor. A morte. Amar-te a morte.
Sexos que se contemplam perturbados. No princípio do amor
o infinito se encontra.

No princípio do amor a criatura se veste
de cores mais vivas, blusas
preciosas, íntimas peças escarlates,
linhos sutis, sedas nupciais, transparências plásticas,
véus do azul deserto, pistilos de opalina,
corolas de nylon, gineceus rendados,
estames de prata, pecíolos de ouro, flor,
é flor,
é flor que se contempla contemplada.
Isto se passa de janeiro a dezembro
como os navios iluminados.

No princípio do amor
o corpo da mulher é fruto sumarento,
como a polpa do figo, fruto,
fruto em sua nudez sumarenta, essencial, pois
tudo no mundo é uma nudez expectante
como o corpo da mulher no princípio do amor.

Fruto na sombra: mas é noite.
Noite por dentro e por fora do fruto.
Nas laranjas de ouro.
Nos seios crespos de Eliana
Nas vinhas que se embriagam de esperar.
Ramagens despenteadas, recôncavos expectantes,
cinzeladas umbelas, estigmas altivos,
é noite,
é flor, é fruto.

Mas nos seios dourados de Eliana
amanheceu.

Paulo Mendes Campos

2007-01-15



que importância têm os desacertos de hoje? Ontem foi domingo!

O administrador infiel Lc 16, 1-8

"Numa quinta-feira de manhã fui visitar uma prisão-hospital. Como habitualmente, ia de cama em cama escutando os desabafos dos doentes antes de rezar por eles e de os abençoar. O doente da primeira cama estava muito mal, às portas da morte. Parecia estar em grande sofrimento; via-se bem a luta em que se debatia este jovem de cerca de 22 anos. Perguntei-me a mim próprio qual seria a sua doença. Seria SIDA, cólera, desinteria, doenças tão comuns nas prisões. Aproximei-me dele e quando os nossos olhos se cruzaram ele sorriu e pediu orações. Estendi-lhe a mão que ele segurou a muito custo mas com firmeza sem a querer largar. Os seus olhos estavam fixos no meu cabeção e sorria ao querer dizer em Zulu "Sawubona Mfundisi" ("Benvindo padre"). Mas não era capaz de completar as palavras, tal era a sua fraqueza. Nas camas vizinhas havia outros que também pediam que fizesse uma oração por eles. Olhavam para mim com ar de súplica, mas eu achei que devia dar toda a minha atenção a Sipho.
Sentei-me na cama bem junto a ele e pude ver que praticamente nada restava do corpo deste ser humano. Estava tão magro e fraco que eu abri imediatamente a minha maleta do ministério dos enfermos; mas antes de começar qualquer oração fui assaltado por questões que fizeram parte do meu curso de teologia. Devo ungi-lo ou não? Será que ele entende o que significa a unção? E quanto à Confissão?
Enquanto me debatia com estas questões reconheci e senti a presença reconfortante de Deus e convenci-me que devia rezar por Sipho e impor as mãos sobre ele. Comecei a rezar por Sipho e fiquei deveras emocionado quando ele ergueu os olhos para mim e sorriu. Mais tarde, quando já ia deixar a prisão, ouvi alguém atrás de mim a chamar-me era um dos reclusos a dizer-me que o doente por quem rezara já tinha morrido. "

Peter Sodje, sacerdote espiritano
Revista Encontro de Janeiro


Cada vez mais me convenço, que é assim que Deus quer que "administremos" os seus dons. O dom da sua Vida; da sua graça. Jesus disse que não vinha para os que tinham saúde, para os que cumpriam todos os itens da Lei, mas para os doentes, para os pecadores. Jesus vem para dar sabor à nossa vida, para nos resgatar as forças perdidas, para sarar as nossas múltiplas feridas.
De que vale cumprir todos os ritos e mandamentos, se não se chega, nunca, a saborear a alegria fecunda que a fé nos traz?
Quem eram os destinatários privilegiados da acção libertadora de Jesus? E quais são os da Igreja?

2007-01-13

Bom fim-de-semana


Va mi Palabra

No voy,
va mi palabra.
Qué más queréis?
Os doy
todo lo que yo creo,
que es más que lo
que soy.

D. Pedro Casaldáliga

ensaio a ler

O Lino sugere e eu também. Este ensaio de Pedro Madeira, licenciado em filosofia. Onde analisa e dá a sua opinião, sobre a temática do aborto. O ensaio já é de 2004, não estava decidido, ainda, que haveria outro referendo.

Na primeira parte analisa, na minha opinião com imparcialidade e objectividade, alguns argumentos contra e a favor da despenalização. São eles:

1 - Os argumentos da inevitabilidade e da dignidade
2 - O argumento feminista e o apelo ilegítimo às emoções
3 - O argumento social e o argumento do direito à vida
4 - O argumento da potencialidade e da cultura da morte

2007-01-12

Mc 2, 1-20

Muitas vezes o anúncio da Palavra encontra obstáculos por causa dos particulares modos de actuar do ser humano que não escapam, como é lógico, os próprios dirigentes religiosos. Nos tempos de Jesus os “escribas” ou letrados, encarregados de transmitir de forma autêntica a Palavra, se haviam, convertido em obstáculos para sua comunicação devido às múltiplas prescrições e leis com a que haviam sobrecarregado até agora a Palavra viva de Deus.

Acarretar hoje a humanidade doente para apresentá-la diante de Jesus supõe, muitas vezes, aqueles quatro amigos admiráveis que transportaram ao paralítico, “romper o teto da casa”, o que era impedimento para atualização da cura e do perdão.

A partir do poder que tem o Filho do Homem para perdoar os pecados, a comunidade eclesial deve converter-se no lugar mais típico da transmissão desse perdão, mesmo que às vezes tal tarefa se torne uma fonte de conflitos ainda que dentro da própria instituição religiosa.

Serviço bíblico Claretiano

2007-01-10

só duas coisinhas, Sr D. José

Acabei de ler seguindo o link do Miguel a Nota do Sr D. José Policarpo sobre o referendo de 11 de Fevereiro. E irritou-me, confesso. Sente-se triste com alguns católicos. Então, ponha-me na lista. Eu também me sinto triste pelo "estendal" de campanha que, a Igreja e alguns movimentos de cariz marcadamente, católico estão a fazer. Ele são os velhos panfletos com as imagens de embriões abortados, ele é a imagem de Nª Sra que chora e os terços a rezar, ele são os padres nos ambões a falar dum assunto para o qual não estão preparados, nem se sentem à vontade para tal (pelo menos, os que ouvi) ele é a palavra Vida por todo o lado. Ele é o rotular todos os que votem "não", como os únicos defensores da mesma. Eu, indo votar sim, não me sinto como aniquiladora da Vida. De que é que falamos quando falamos da Vida? É tão abrangente esta discussão. A vida é tanta coisa. Mulheres mortas por violência doméstica, era um bom tema para uma homilia num domingo, ou uma Nota Pastoral. Nunca ouvi nenhuma.

1. Aproxima-se a consulta popular em que o eleitorado vai ser convidado a dizer “sim” ou “não” a um alargamento legal do aborto, até às dez semanas de gravidez, tendo como motivo a justificá-lo apenas a vontade da mulher grávida. Embora a Igreja, porque é contra o aborto em todas as circunstâncias, não concorde com a Lei actualmente em vigor, ela apresenta razões para justificar o pedido da mulher: violação, mal-formação do feto, graves distúrbios psíquicos para a mãe. Agora pretende-se tornar legal que a mulher grávida peça o aborto só porque o quer.

Eu sei que contrasta com o papel que a Igreja atribui em primeiro lugar às mulheres - serem mães. Ou virgens. Mas nem todas querem sê-lo. Ou em determinada circunstância da vida. A mulher tem que ser, apenas, a "chocadeira"? Sem vontade e capacidades próprias? Eu sei que isto é motivo para uma longa discussão. Mas, pela Natureza, coube à mulher este papel. E coube-lhe um corpo, e uma mente, e sentimentos e decisões que em consciência pode e deve tomar. No entender do Sr bispo, não pode. Não tem legitimidade para tal. Discordo.



- Pretende-se, depois, despenalizar a mulher que aborta.

E pretende-se muito bem. O Sr D. José quer ir visitar alguma à prisão?



- Dizem outros que é um reconhecimento de um direito da mulher. “A mulher tem direito ao seu corpo”. Só que o feto é um corpo de outro ser humano, que a mulher mãe recebe no seu corpo, para o fazer crescer. O seio materno foi o primeiro berço de todos nós. É um corpo acolhido por outro corpo. Pergunto-me, sinceramente, pelo respeito que toda a mulher me merece, quantas mulheres-mães, mesmo as que passaram pelo drama do aborto, se pensarem um pouco, ouvindo o mais íntimo de si mesmas, serão capazes de fazer tal afirmação.

Cá está - a exaltação da mulher-mãe.

Sr D. José, já confessou algumas mulheres que praticaram abortos. Não lhes deu a absolvição? E a seguir quer mandá-las para a cadeia. Ou é só até 11 de Fevereiro?


Ler a Nota toda aqui.

Os madureiras

Num daqueles golpes de génio, ou talvez pela notícia da vitória do clube da águia (ah pois! Eles vão para as arábias e vencem tudo) eu e o /me do Relapsias, fundámos um novo clube. Os Madureiras. Ele diz que não sabe para que serve, mas está a "fazer género", foi tudo muito bem combinadinho. Mas isto com homens, está-se vendo. Vou dar-lhe a desculpa dos fusos horários. Ou da falta de jantar. Ou é homem, tadinho. Até combinámos que o cartão ultra ultra dourado era para o Migalhas.

vai sonhando, Maria

Num dos livros que estou a ler, vou numa parte em que o Papa, que é viúvo, nomeia três MULHERES para cardealas. Leigas, ainda por cima. Ah, ah, ah. Isto passa-se em 2030.

bom dia


levai-me aonde quiserdes.
Aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar
sempre inteira.

Cecília Meirelles

2007-01-09

uma metáfora

Era uma vez, um camponês que foi à floresta vizinha, apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia o milho e a ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
- Esse pássaro não é galinha. É uma águia.
- De facto, disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não, retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
- Já que você de facto é águia, já que você pertence ao céu e não há terra, então abra suas asas e vôe!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá em baixo, ciscando os grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
- Eu disse-lhe, ela virou uma simples galinha!
- Não, tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa e sussurou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e vôe!
Mas quando a águia viu as galinhas, ciscando o chão, pulou para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
- Eu tinha-lhe dito, ela virou galinha!

-Não, respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda mais uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram na águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto da montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
-Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não á terra, abra suas asas e vôe!
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse vida nova. Mas não vôou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direcção do sol, para que seus olhos pudessem se encher da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau, kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais alto. Vôou...vôou...até confundir-se com o azul do firmamento...

Leonardo Boff
"A águia e a galinha - uma metáfora da condição humana."

2007-01-08

para explicar o sentido do post anterior

«Nem todo o que me diz: 'Senhor, Senhor' entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu. (Mt 7,21)

Ó Deus...

O meu vizinho A. assistiu silencioso, de lágrimas continuamente nos olhos pela sua C. (a sua razão de viver, dizia ele), ao ritual das exéquias. O padre falou de Deus, falou da vida, com a autoridade de quem sabe do assunto. Mas o meu vizinho A. que nem o Pai Nosso, sabia rezar, sabe muito da vida e do amor...É preciso mais?

2007-01-05

Tu és o Filho de Deus, Tu és o rei de Israela Jo 1, 43-51

Dia a dia a dinâmica do Evangelho se estende de forma quase natural. Não requer grandes empreendimentos e projectos; são os simples encontros entre amigos e conhecidos que nos propiciam um encontro com Jesus.
Filipe vê em Jesus “aquele de quem escreveram os profetas” e atrai Natanael ao seu encontro. Este representa a dificuldade real de mudança nos esquemas religiosos, especialmente ante uma proposta tão nova como a de Jesus. O Deus do centro, do templo, como poderia se manifestar em algumas daquelas afastadas populações de províncias denominadas infiéis e pouco assíduas às leis e tradições religiosas? O que teria a oferecer um jovem provindo de tão simples procedência?
Vem e verás, responde Filipe. Natanael deverá viver seu próprio encontro com Jesus: sentir-se visto, conhecido e acolhido sem reservas; experiência que o levará pouco a pouco a sua própria confissão de fé que não se encerra aqui mas que lança a vencidos inesperados. Assim, a expressão “Hás de ver coisas maiores” nos livra também a nós da tendência a matricularmos, a apegarmos a nossas estreitas imagens de Deus, convida-nos a ser dinâmicos e criativos em um diálogo constante com Deus, sempre novo e desconcertante do evangelho.

Serviço bíblico Claretiano
Acontecimientos

Estou como una ola
encrespada en el suave
murmullo de tu sangre.

Dormitar pendida de tus bordes
acurrucado pelo derramado en tu hombro
sustenido en la caricia de tu mano.

Decir sin hablar
cosas dichas desde el principio,
desde el primer apareamiento de un hombre y una mujer
que se descubren
descubriendo el mundo

Ser este animalito dulce
que te busca con los ojos abiertos
y piensa que la vida es hermosa, intensa
inesperadamente nueva.

Gioconda Belli - Nicaragua

2007-01-04

"Que posso fazer mais?"

..."Mantenho a ideia-esperança que quando a Igreja Católica for capaz de integrar o prazer nas virtudes (*), demonizando antes a mitomania da castração, sobretudo perdendo esse terror adolescente que teima em conservar no ódio-temor perante a Santa Vagina, então teremos religião na vida e para a vida. Se Ela regrediu em 2006, desejo-Lhe, desejando-nos, venturas para 2007. Que posso fazer mais, dada a distância que me cansa os passos até os altares?"

Meu caro João Tunes,

não quero deixar passar "em claro" este seu desabafo em relação à Igreja, à qual pertenço. No seu estilo inconfundível, coloca o dedo (e muito bem) em algumas feridas. A Igreja tem medo de algumas coisas, uma delas; é das mulheres. Na vida da Igreja, isso assume, muitos e diferentes contornos. Mas adiante...Não podemos dizer que a Igreja regrediu em 2006. A Igreja Católica, não é só a hierarquia e, sobretudo, a Cúria Romana. Embora, seja ela que, como é óbvio, se torna mais visível.

Um dos graves erros da Igreja é os muros que cria entre ela e o mundo. Exemplo disso, apareceu-nos há dias num dos canais televisivos que, ao fazer uma reportagem a um convento de carmelitas (ordem contemplativa), mostrava pelo menos, uma delas muito arrepiada por todas as vezes que tinha de sair do convento. A referida irmã, que não lê jornais, não vê televisão (excepto os 13 de Maio ou as visitas do Papa a Portugal)...logo, também não vai ler este post, falava com alguma repulsa daquilo a que ela chamava: "o mundo". Creio compreender o sentido das suas palavras. Sou capaz de reconhecer a beleza de uma vocação como a dela. Também partilho com ela o horror e a repulsa por todas as expressões do mal que existem no mundo. Mas não compreendo como é que ela consegue pôr uma barreira entre ela e o mundo. As paredes e muros do convento, não são suficientes para isso. Tanto mais que, é no mundo que acontece a salvação. Jesus Cristo, filho de Deus, foi neste mundo que "mergulhou" como homem pleno. Segundo professamos - para o salvar.
Muitas vezes, lemos de modo demasiado selectivo, os Evangelhos. Caso contrário, reparávamos com quem é que O Nazareno, se dava.

Caro João, parece-me que, tal como a si, Lhe sobrava uma certa "alergia" aos altares. Mas isso, nunca O desviou do Pai, nem do projecto para o qual tinha vindo. Quero ver se, como cristã católica, não me deixo vencer pelos males e pelos medos presentes na minha Igreja, e, me insiro de corpo e alma, no mesmo projecto libertador de Cristo.

O abraço de sempre... e continue a desafiar e a sentir-se desafiado.

a ter em conta

..."Não sou a favor do aborto. Sou a favor da despenalização da IVG, até às 10 semanas, a pedido da mulher. Sou a favor da opção e da liberdade, porque não acredito num direito de todos a influenciar por esta via a vida de cada um. A intromissão do Estado deve terminar onde começa a beliscar, magoar e interromper o princípio da dignidade da pessoa humana: o être soi, right to be yourself, the right of the pursue of happiness.Não deixo números, mas a interrogação: seremos – as mulheres – cronicamente irresponsáveis, unilateralmente decisoras do destino de uma gravidez, e friamente capazes de tudo? A vida deve ser precipitada a todo o custo, sem qualquer garantia de dignidade do involuntário ser humano?Ah, e não me digam que não querem ver os vossos impostos destinados ao SNS e à realização de IVG. Não me digam que serão muitos milhões gastos em interrupções de gravidezes. Se a vida humana não tem preço, este argumentário cola-lhe um preçário."...

Marta Rebelo em "linha de conta"

o primeiro post do ano...

...quero dedicá-lo a um amigo. Circunstâncias da vida, mantinham-nos há seis anos "num longo e frio silêncio". A dureza dos nossos corações tem destas coisas. Tê-lo presente no meu coração e, sempre na minha oração, não era suficiente. Não existe amor nem amizade que não se façam partilha de vida. Para restabelecer a comunicação foi também preciso descobrir que tenho "pés de barro". Agora, quero dar os passos necessários para manter viva e reconfortante esta amizade. Os primeiros já foram dados.