sobre o referendo de 11 de fevereiro

É pena que, para um assunto desta natureza, haja tanto ruído de fundo, tanta vozearia, tanto desvario. A par das declarações da Conferência Episcopal, de alguns bispos em particular, surgem nos meios de comunicação, os dizeres de um padre formado em Direito Canónico, mas pouco sintonizado com a tolerância, com o tal de "livre arbítrio", com a compaixão. Mas nem todos são assim. Na missa em que participei no passado domingo, era avisado que ia haver uma sessão de esclarecimento patrocinada por um dos grupos do "Não". Foi sugerido que participassem os que pensam votar "Não", os que pensam votar "Sim" e os indecisos. É uma posição mais ou menos equilibrada. Mais ou menos, porque acho que nunca vou ouvir o anúncio de uma sessão patrocinada por um movimento do "Sim".

Prometi num comentário que explicava porque penso votar "Sim" no referendo. Aqui vai:

No anterior referendo votei "Não". De acordo com a minha consciência era o que achava certo. Mudei de opinião. Não em relação àquilo que é para mim o aborto. Não enquadro na minha vida, a possibilidade de eu decidir fazer um aborto. Se, por algum motivo, tivesse de o fazer, seria algo que me feriria profundamente. Como mulher e como crente.
Mas o que acho certo (fruto da minha consciência, da minha formação humana e cristã) para mim, não quero impô-lo a outros.

Acho que a vida é um dom. Que, pelo facto de estarmos vivos e conscientes disso, já é motivo para nos sentirmos felizes. Mas isto, é uma coisa que brota do meu viver.

O direito à vida é fundamental, mas não a vida a qualquer custo. Não basta dar a vida, é necessário amar, cuidar, proteger. Compreendo que uma mulher ao saber-se grávida; em liberdade, de acordo quanto possível com o homem também gerador dessa vida, decida interromper a gravidez; fazer um aborto, se achar que não estão reunidas as condições para que essa vida se desenvolva na sua plenitude.

Muitos abortos são e serão feitos, por causa da irresponsabilidade, do egoísmo de mulheres e homens. Nem isso me motiva a votar para manter a criminalização.

Não partilho da visão catastrófica de que o aborto abre a porta à desumanização e a uma série de males. Basta ter os olhos abertos. O aborto não é um assunto novo. Tem atravessado todas as épocas e povos.

Gostaria de viver num mundo, em que não existisse o aborto. Mas não vivo. E manter a criminalização, não ajuda a tornar isso possível. O meu voto na despenalização, não é um voto de rendição. É um voto realista, baseado na consciência da sociedade em que vivo e não nos meus ideais. O meu voto é de tolerância, compaixão, respeito pelas decisões de quem pensa diferente de mim. Ou mesmo pensando igual, se viu constrangido a agir assim.

12 comentários:

David Bengelsdorff disse...

“A vida é um dom” (de Deus, deduzo). Aqui está a minha maior perplexidade em relação á tua posição. Esse dom é relativo? Ou seja, só é dom para aqueles que acreditam? Ou é absoluto? Todas as vidas, quer acreditem ou não, são dons de Deus?
Além disso, parece-me que colocas a sabedoria humana acima da sabedoria divina. A mulher sabe melhor que Deus, omnisciente, se o ser que tem dentro de si tem condições ou não para ver a luz do dia? É que a palavra dom é muito bonita mas te implicações graves tratando-se de Deus.
Por último, acho mesmo que o teu voto é um voto de rendição. Quanto mais não seja, porque as estatísticas demonstram que com a legalização o número de abortos aumenta. O Não pode não resolver o problema, mas o Sim agrava-o.

on disse...

Caro David,

é falso que os abortos aumentem quando se passa a poder fazê-los em boas condições. Morrem é menos mulheres pobres. Mas isso, que importa?
A Holanda é um dos países onde menos abortos ocorrem, apesar de aí os pobres terem as mesmas condições dos ricos para abortar.
Porque aí existe uma verdadeira política para evitar gravidezes indesejadas.

Anônimo disse...

acho que tens as ideias confusas...
"Mas o que acho certo (fruto da minha consciência, da minha formação humana e cristã)"...aonde viste o Cristo ser a favor do aborto...não basta dizermo-nos cristãos e o resto...queiras ou não votando no aborto és a favor...

David Bengelsdorff disse...

on

Tens razão. A Holanda é dos raros casos em que houve uma ligeira diminuição de 2004 para 2005 (www.federa.org.pl/?page=news&newsid=119&lang=2.) Mas também não tens razão: "France (208,759), United Kingdom (195,483), Italy
(133,000), Germany (128,030) and Spain (79,788) are the
five EU25 countries with the highest abortion rates, and
represent 75% of total abortions in the EU25 Spain is the country with the highest increase in abortion rates over the last ten years with a 75% increase, followed
by Belgium with 50% and Holland with 45%." (www.ipfe.org/Report_Evolution_Family_in_Europe_2006.pdf)
Mas, como dizes isto não é o mais importante.

MC disse...

David,

aceito que aches contraditória a minha posição. Sobre a vida ter um valor absoluto ou relativo é uma grande discussão. Já uma vez andámos com essa discussão por causa de um post que fiz. Acabámos por esbarrar naquilo que são as convicções de cada um.
Eu entendo que todas as vidas são dons de Deus. Mas isso é o meu entendimento. Viro-me para o lado e outra pessoa tem outro.

Uma pessoa não-crente, não equaciona a vida como eu.

Nem a mulher nem o homem sabem mais que Deus. Nem ninguém tem pretensões a tal.

Em liberdade, ou constrangidos por alguma situação decidem pelo aborto. Acho que não devem ser penalizados, pela lei civil, por isso. Entre eles e Deus não tenho a mínima intervenção.
A liberdade supõe ser-se responsável pelos actos. Não quer dizer que eu não tenha nada a ver com as mulheres que abortam. Acho que tenho. Numa sociedade o que os indíviduos fazem afecta o todo.

Continuo a achar que não é uma rendição da minha parte. Porque eu vejo o meu voto de uma forma positiva. Não quero que o aborto seja criminalizado até às dez semanas. Não quero que as mulheres tenham de o fazer em condições desfavoráveis para elas. Nem quero fazer qualquer juízo moral sobre o acto que praticam.

Eu não vejo que o "Sim" agrave o problema. Não sou fanática em relação ao laxismo da sociedade no seu todo e das mulheres em particular. Não tenho nenhuma visão catastrófica da sociedade.
Tinhamos de ter números certos para confirmar.

MC disse...

caro anónimo,

não tenho complexos. Já não tenho idade nem paciência para eles. se tenho as ideias confusas, algum dia hão-de aclarar. Não tenho nenhum certificado de sapiência. E convivo razoavelmente bem com os meus erros.

O que eu digo é que, aquilo que considero certo para mim, não posso impô-lo a outros.

Não sinto que seja a favor do aborto. Vou votar para as mulheres não serem criminalizadas por tal.

Escandalizo-te por me afirmar cristã e votar no referendo "Sim". Ok. Na tua vida a tua configuração com Cristo é total? Não há nenhuma zona obscura, de sombra? Então o que é que fazes aqui? Já deves estar juntos dos anjos e não sabes.

E eu, em consciência ( o Catecismo fala dela, sabes?)acho que o meu voto não se opõe à minha condição de cristã. Sinto-me em comunhão.

Ok, ok vou contra a doutrina da Igreja, contra as posições da hierarquia, faço-o responsavelmente. Meditei, reflecti, ponderei e decidi.

lino disse...

E tens todo o meu apoio, MC. Não servirá de muito, mas não estás sozinha. Tens a companhia de muitos milhares, em Portugal, e de muitos milhões, no mundo. Jesus disse: "quem nunca pecou que atire a primeira pedra". E foram todos embora, a começar pelos mais velhos. O problema é que esta gente não se encherga. Milhares de mulheres que já praticaram abortos vão votar "não". Porque depois de o praticarem foram-se confessar e foram perdoadas. Perdoadas de quê e com autorização de quem? É que a excomunhão "lata sententiae" requer a autorização do bisco para desexcomunhar. Acho que os nossos bispos têm andado tão ocupados a desexcomunhar que perderam o contacto com o rebanho.

Luis Eme disse...

Li, compreendi e concordei com as tuas palavras (todas).
Como sou homem, não tenho de decidir, mas reservo o direito de não dizer barbaridades, como as que tenho ouvido por aí... a última foi do senhor padre que não faz funerais católicos a quem votar sim.
O voto não é secreto? Como será que esta sumidade vai separar o "sim" do "não" lá na paróquia?

Cândida disse...

e pensas muito bem. se eu votase votava sim.

Cândida disse...

:) xou anal babeta.

Anônimo disse...

Aprovar a morte de um ser humano não é cristão. O embrião é um ser humano.
Tens duvidas sobre isso?
Na duvida ninguem deve matar um ser vivo que provavelmente é um ser humano perante Deus.
Pode um caçador atirar sobre um arbusto quando o sente mexer sem saber se por trás desse arbusto está uma criança ou uma lebre?
O que estás a dizer é que a mulher tem o direito de matar... matar um ser vivo... que eu creio que é um ser humano perante Deus. Podes não o crer mas na duvida ninguem deve atirar a matar sobre esse ser.
As condições em que se mata são importantes? Perante Deus temos todos o mesmo valor, a mulher que mata o seu filho e o filho que não chega a nascer.

Lino, na quaresma qualquer sacerdote pode levantar a excomunhão.

António Maria

Anônimo disse...

A esse pessoal que vota no NÃO: Imaginem bem esta situação.
A vossa filha tem 19 anos, anda na faculdade. Na idade da maluqueira, vai para as festas da queima das fitas e apanha uma grande bebedeira. Faz sexo com um tipo qualquer, nem sabe bem de que escola é ele... no dia seguinte nem se lembra muito bem o que se passou na ultima noite. Engravidou. Duvido que muitos de vocês não apoiassem o aborto se soubessem disso (o que os amigos iam dizer? a família? o padre da freguesia (que vergonha) e que seria do seu futuro?)
E do caso que ela abortasse e que viesse a ser presa... Com que lata iria visitá-la sabendo que votou não?
Imagine que isto acontecesse com a vossa filha. Haveria muitas mais histórias para contar, este é só um exemplo.