2007-02-22

na solidão descobrir a aventura da solidariedade

...A Quaresma, entre outros sentidos, recorda os quarenta dias de Jesus no deserto. Aí dominou a solidão e, através desta, o silêncio retemperador de energias motivado por um encontro consigo e proporcionador duma maior consciência da Missão que o Pai lhe havia confiado. Aí “ouviu”, dum modo sereno e objectivo, os conteúdos dum projecto original e irrepetível; compreendeu, mais responsavelmente, os contornos duma missão ambiciosa porque inspirada pelo cuidado em cumprir, sempre e em toda a parte, a vontade do Pai.

O silêncio foi eloquente e a solidão gerou encontro com a missão salvadora que abraçava a humanidade mas iria encontrar-se com muitos mundos e experiências de solidão, sintoma de carências essenciais e de desadaptação nos diversos contextos da vida. Na Sua solidão encontrou-Se com muitos solitários e reconheceu que a vida deve ser interpretada como aventura de solidariedade....

da mensagem para a Quaresma do Arcebispo de Braga

5 comentários:

  1. Eu gostava de perceber como é que Deus é mais ou menos responsável e compreende melhor ou pior as coisas.Porque, se Jesus era Deus e "se tornou mais responsável... e reconheceu que a vida..." é porque antes era menos responsável e tinha algumas dúvidas.

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  2. A 'vontade do Pai' é uma opção de vida estruturante, uma opção de princípio, mesmo assim, auscultada perante cada situação, em cada vivência. "Já não sou eu que vivo, é Cristo..."! Dizia S. Paulo.

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  3. Lino,

    vou tentar falar-te um pouco da forma como vejo, o que dizes. Quando falamos de Deus, muitas perguntas ficarão sem resposta. Não é a falta dessas respostas que me atrapalha. Do que já sei de Deus (e é tão pouco, tão pouco, tão quase nada)já me chega para ir dirigindo os passos nesta vida.

    Ensina-nos a Doutrina Católica que Deus é um em três pessoas diferentes, distintas. Isto parece simples, mas não o é nada. Muitas questões se levantam.

    Há um autor que tenho citado abundantemente aqui que é o François Varillon, padre jesuíta, teólogo, que no livro "O sofrimento de Deus" diz o seguinte:
    "Quando se trata de Deus, tudo aquilo que, de alguma maneira, não é paradoxal é suspeito...A verdade paradoxal não é limitada. É por isso que, geralmente, nem Jesus nem S. Paulo procuram harmonizar o paradoxo. Temem menos a falsa interpretação do que aquela que o faria enfraquecer e o privaria do seu "heroísmo".
    O paradoxo dum Deus humilde pareceu violento a muitos. Mas o de um Deus que sofre é ainda mais violento. Será verdade que o sofrimento e a humildade fazem parte da essência da Glória?...
    Porque se Deus sofre, o sofrimento não pode ser para ele uma vaga emoção, de alguma maneira marginal, ou que aflora mas não oprime. Em Deus nada é acidental. Se Deus sofre, o seu sofrimento tem a mesma dimensão que o seu ser e a sua alegria, dimensão sem dimensão, sem limite, infinita, no coração da Essência e segundo a incomensorável amplidão da sua irradiação...

    A imagem de um Deus impassível que, numa olímpica serenidade, olha do alto para o mal e a infelicidade do mundo, subsiste e vive secretamente nas profundezas do insconsciente da humanidade....

    Como acreditar que Deus é Amor, se é necessário pensar que o nosso sofrimento não O atinge no seu ser eterno? Quando eu choro ou me degrado, Deus permanece "absoluto mármore?"

    Como vês, Varillon já atribui uma dimensão a Deus(Trindade)para a qual não estamos normalmente despertos. Na dimensão do Cristo, homem como qualquer de nós, como diz muito bem o Luís no comentário, "esta "vontade do Pai" é uma opção de vida estruturante."
    Jesus era Deus e homem. Sendo homem, como qualquer de nós a cada situação/vivência tinha de entrar em sintonia com a "vontade do Pai". E "a vontade do Pai" é a salvação para todos. É o Reino. Foi nisto que o Jesus homem se sintonizou e deu a sua resposta radical. É a isto que somos convidados a assumir nas nossas vidas.

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  4. Eu tento perceber, MC. Mas aquilo que eu escrevo, aquilo que tu escreves e até aquilo que o François escreve, é uma coisa. Já aquilo que um bispo escreve tem um peso muito maior. E convenhamos que dizer que Deus, ao jejuar como um homem, ficou mais responsável, não é compreensível, pelo menos para mentes como a minha. A menos que Jesus, no deserto, se tenha "despido" da sua face divina, como sucedeu no Monte das Oliveiras, mas não vejo nada nos evangelhos que indicie tal coisa. Nem sequer se pode dizer que foi antes de iniciar a vida pública, pois a sua natureza divina já se tinha manifestado muito antes, no templo, a ensinar os letrados da altura.

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  5. Lino,

    eu também apenas tento. Não sei se consigo alguma coisa. ;)

    Sim,o que o bispo escreve tem mais peso do que o que nós escrevemos.

    Não é líquido que o chamado período das tentações e respectivo jejum tenha acontecido num único tempo e espaço. Temos de ler os evangelhos como catequeses destinadas a comunidades concretas. Mas isso não nos aflige, não é?

    Já conceber dentro da nossa razão o mistério de um Deus feito homem, é bem mais complicado. Sabes, até deves saber isso melhor do que eu...que não foi duma única vez que a Igreja chegou à profissão de fé desta dupla dimensão de Jesus. Eu tenho dificuldades em crer num Deus que se veste de carne humana e que vai vivendo à vez essa dupla dimensão. Isso seria batota. Seria Deus a rir-se às nossas custas. Não creio nisso.
    Normalmente, enfermamos desta duplicidade "ou" "ou". O que dizemos no Credo é "e" "e" - Deus e Homem.

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