2007-02-12

se te mostrasse...

Um céu e nada mais

Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e pendurada
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

Ana Luísa Amaral
Às vezes o paraíso, Quetzal Editores, 1998 - Lisboa, Portugal

3 comentários:

  1. :)
    2 dias roubados ao futuro: Poema a um céu de afectos!
    ;)

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  2. um comentário escrito no trapézio :)

    e achas que é muito grande a pena, pelo roubo? ;)

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  3. ... este tipo de roubos, engrandecem os "larápios" e subvertem as leis do código penal (das penas punitivas para as penas recompensadoras... dos anjos). É como “roubar um beijo” :)
    Vale a "pena" subir ao trapézio, mesmo para quem sofre de "tonturas" e de "paixãonofobia"!

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