2007-02-02

um homem da ciência...


...que não se importa de se afirmar cheio de dúvidas. Foi um momento particularmente feliz de televisão, a entrevista de Judite de Sousa ao cientista português Alexandre Quintanilha. A temática era o referendo sobre o aborto, mas foi mais do que isso. Foi o conhecer a história pessoal de um homem, com uma postura muito doce, que ao votar "sim" no referendo e sendo homem da ciência não tem medo de se confessar cheio de dúvidas sobre o processo da vida. Numa época, onde nos esgotamos a encontrar certezas que orientem os nossos passos, ouvir alguém, com enorme simplicidade, dizer que tem mais dúvidas do que certezas e que, o que mais procura fomentar nos seus alunos é a curiosidade, dá-nos uma perspectiva de vida muito mais condizente com o que somos na realidade. Na vida, tudo está em aberto. As várias dimensões da nossa existência são um contínuo caminhar. Quando perdermos a sensibilidade para isso, estamos mortos. Não há eternidade que nos valha.

10 comentários:

  1. MC:

    Também vi e (sobretudo) ouvi. Só me pergunto quantos viram (e ouviram)este homem afirmar que "não tem certezas". Num país onde todos nós* temos a certeza dos nossos argumentos em prejuízo das certezas argumentativas do próximo**. E soou-me bem ao ouvido um homem da ciência dizer isto. Não porque vota SIM mas porque desce do pedestal dos conhecimentos adquiridos e não receia ter dúvidas. Teria sido o mediador necessário (e esclarecido) entre dois homens da ciência médica representando o SIM e o NÃO, no programa da televisão pública "Os PrÓs e os Contras" nesta segunda-feira, sobre o referendo. Os primeiros, centrando energias e argumentos para que o resultado das "suas cores" lhes seja favorável. A RTP, interessada em "subir audiências".

    *Não me limito a generalizar. Também incorro nesse pecado...
    ** Este próximo é mesmo o nosso próximo; embora possa estar "a milhas"...

    beijos.

    Alberto Albertto.

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  2. Por afazeres inadiáveis, quando consegui chegar a casa já levei com o Malato enquanto jantava. Tive pena, porque gosto muito de ouvir o Professor Quintanilha. Valha-nos termos homens deste calibre.

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  3. exactamente, Alberto Albertto! (por vezes é bom termos algumas certezas) :)

    Tens razão, de que este debate precisa de atitudes moderadas. Estão coisas demasiado sérias em jogo para se tornar numa bandeira política ou ideológica.

    beijos

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  4. lino,

    para a próxima, é melhor jantares sem Malato. Olha a digestão! :)

    Mas não penses que o Quintanilha agrada a todos. Ainda hoje comentavam comigo que não gostam do estilo dele, por ser demasiado "meloso". Acrescento que é um monárquico, com tiques de marialva que me deu tal parecer.

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  5. Tá cheio de dúvidas, mas vota sim.
    Ora bolas!

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  6. Olá MC
    Quando entrei aqui para comentar vejo que este último comentário, que não identifico por ser anónimo, já diz o que que eu encontrei, de contraditório, nesse teu post. Afinal, o Quintanilha, com todas essas dúvidas que lhe atribuis, ou que ele mesmo se atribui (eu não vi a entrevista, por impedimento profissional), ele toma posição e vai votar sim. Ou seja, há um momento onde até as dúvidas tomam partido, ganham cor, e há que tomar uma opção. E a vida é feita disso. Há momentos em que somos confrontados com isso. Nem sempre dá para ficar em cima do muro. Eu também me descubro com muitas dúvidas e algumas certezas. Mas, medindo todos os prós e os contras, sacudindo a poeira das palavras não essenciais numa questão que é absolutamete vital, já tomei a minha posição.
    Bj

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  7. ...exactamente, Pedro. Não vejo o que há de contraditório na posição do Alexandre Quintanilha. Ele também pesou os prós e os contras e decidiu uma posição. Tu estás a pressupor que ele pela questão de ter dúvidas devia votar "não". Uma das coisas que me fez mudar a minha opção de voto foi porque ao analisar o meu "não" para além das questões positivas que ela encerrava: Defesa da vida, opção pela vida em vez da morte e todos os argumentos valorativos do "não" havia um calar definitivo de todas as outras razões que se lhe opunham. Com o "não" pretendia furtar-me a estas dúvidas que me surgiam. Exemplos: A dignidade da mulher que opta pelo aborto também é defesa da vida. A desigualdade social que a actual lei pressupõe. O aborto em condições ultrajantes para a mulher, a penalização etc.

    Depois, tenho que dar um valor ao feto, que não é um bébé ou uma criança como por aí se diz. Dizia o professor Quintanilha que a penalizarmos a mulher (isto é uma aberração, porque é que só a mulher é penalizada. Agora toda a gente anda eriçada porque na pergunta é posta "a pedido da mulher". Antes ninguém se indignou por ser ela apenas a ser penalizada), se valoramos o feto como pessoa humana, então a pena deveria ser condizente com homicídio premeditado. Pediríamos, então, uma pena de vinte cinco anos. tem a sua lógica esta questão.

    Mas o que eu queria sublinhar no post não era a questão do referendo, mas a de alguém que exalta (não me ocorre outro termo melhor) a dúvida em vez das certezas. Isto levado para a religião era um bom ponto de partida para uma nova perspectiva da formulação da fé. O interrogarmo-nos é muito mais forte do que o que já sabemos. Tem uma dinâmica muito mais forte. E mais condizente com o que somos na realidade. É a tolerância, a ponderação em vez do arbitarismo ou do fundamentalismo.

    No tema em discussão o Alberto, no comentário que aqui faz explicita muito bem isto que digo. Era esse o sentido do meu post. Não troxe para aqui o Professor por ir votar sim. O que me cativou nele foi a posição de deixar tudo em aberto. Acho que nesta questão, podemos muito bem "ficar em cima do muro". Quando a ciência, filosofia, religião me disserem que ao ser feito um aborto é o mesmo que cometer um homicídio, eu bater-me-ei para que isso seja evitado o mais possível.

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  8. Nos tempos que correm, qualquer pessoa de bom senso não se atreve a dizer que tem certezas.
    Leva logo em cima com argumentos esfarrapados e críticas tipo MC.
    Além de que, está na moda, e os intelectualoides gostam de mostrar incertezas com aquele ar sombranceiro de superioridade, que serve lindamente para esconder de facto a mediania dos seus conhecimentos.
    O Quintanilha se tivesse ido aos Prós e Contras, estava com todas as suas "certezas" ao lado do Sim, esgrimindo os seus argumentos inabaláveis.

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  9. ...e o medo que causo é tanto que para dar uma opinião e fazer-se de vítima, vem a coberto do anonimato. Eu não mordo! Garanto!

    E quando mordo gosto de escolher...

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  10. Estou de acordo consigo MC , e depois os anónimos podem ter todas as certezas do mundo e é por isso que mordem a eles próprios. doutro modo não seriam detentores da "verdade universal"

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