2007-03-23

Onde está a verdade?

NO SE DONDE ESTÁ LA VERDAD

JOAQUÍN AUTRÁN, jautran@ole.comTRES CANTOS (MADRID).

ECLESALIA, 20/03/07.-

No se donde está la verdad, y como no tengo estudios oficiales de teología parece ser que no puedo deducirla, de modo que como buen católico no me queda más remedio que aceptar la que me ofrece la jerarquía, no vaya a ser que piense, sienta o viva algo diferente a la doctrina oficial.
Así que cuando quiera saber sobre el amor y en especial el matiz del amor cristiano, leeré aquél impecable documento teológico que me deja frío como una piedra, en vez de acudir a la gente que me transmita amor vivido y misericordia experimentada, gente que deja la vida por los demás.
Cuando quiera entender más y mejor al Jesús de los pobres, me iré al catecismo oficial aprobado en el palacio del Vaticano.


Tendré que desechar la imagen que nos da Jon Sobrino, de ese Jesús identificado con los pobres, la imagen de un Jesús cercano que me calienta el corazón. De un Jesús que no nos deja mirar hacia otro lado ante la injusticia de los pobres y nos anima a actuar según el principio de misericordia. A pesar de que esa imagen de Jesús me haya “convertido” en un cristiano más maduro, comprometido y más creyente.
A pesar de que mi corazón vibre y salte de alegría como el de Zaqueo con el encuentro del Jesús que me presenta Jon Sobrino. Ese Jesús sí lo entiendo, lo siento resucitado y me encaja con el evangelio, no tengo que hacer cuarenta piruetas intelectuales para justificar la esquizofrenia evangelio-Iglesia.
Pero ya digo que a lo mejor es que no se suficiente teología.
Así que a partir de ahora, para no equivocarme mantendré cerrados mis ojos, mis oídos, mi sentido común y no haré caso a mi corazón.


Numa conversa com um amigo, a certa altura dizia ele: "A fé também passa pelo coração". Eu só tive que concordar e lembrei-me disso, quando li este texto irónico e desafiador.

Ninguém conhece a verdade de forma total e absoluta. E esse desconhecimento com que por vezes nos é difícil lidar, leva-nos a tomar opções. A uns, a adesão obediente à doutrina da Igreja, fornece a sensação de segurança, de que carecem. A outros, não a pondo totalmente de lado, não é apenas nela que põem o seu coração. Porque sabem que é na acção transformadora do Espírito Santo, no coração dos que O acolhem, que está a sementeira do Reino. "Pois onde estiver o teu tesouro, aí está também o teu coração" (Mt 6,21).

santos e pecadores

Num texto profundamente evangélico o Manel fala do pecado e do pecador (que somos todos) e diz o seguinte:

...Daquilo que me é dado perceber do Evangelho, o desafio cristão - e a sua originalidade - é o amor incondicional. E se é incondicional, não exige ao outro a renúncia ao pecado. Isto parece perigoso à primeira vista. Mas não é. É "apenas" evangélico. O nosso erro, consciente ou não, está em acharmos que temos um papel a desempenhar na relação entre o pecador e o pecado. Consideramos ser nosso "dever" metermo-nos lá no meio, mediadores e "activadores" da conversão...

O amor passa sempre por aceitar o outro tal qual ele é. Toda a mudança tem sempre que partir dele. Apoiado, sustentado no nosso amor, mas em decisão plenamente livre. Da nossa parte, temos o mesmo precurso a fazer.

felicidade # 3

Só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; às vezes por aquela piedade da fraqueza que leva a tomar criançaa ao colo; só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.

Agostinho da Silva in As Aproximações

com a casa pronta...espera-nos, Senhor!

¡ Mujer, he ahi a tu hijo ! - ¡ He ahi a tu madre !


Por causa de ese Hombre, el más totalmente humano,
¡tú eres la bendita entre todas las mujeres!
¡madre de todas las madres, dulce Madre nuestra,
por causa de ese Hijo, hermano de todos!
¡Hagamos casa, pues, oh Madre!
¡Hagamos la familia de las familias de todas las naciones!
A cuenta de esa carne, hermana de toda carne,
destrozada en la cruz, hostia del mundo.

Cansados o perdidos,
necesitamos, Madre, tu agasajo,
sombra de Dios en toda cruz humana,
divina canción de cuna en todo humano sueño.

Queremos ser discípulos amados,
¡oh Madre del Evangelio!
Queremos ser herederos de Jesús,
¡oh Madre, vida de la vida!
En ese cambio de hijos,
tú sabes bien, Maria,
que nos ganas a todos y no pierdes el Hijo
ya de vuelta a su Padre,
para esperarnos con la casa pronta.


D. Pedro Casaldáliga

2007-03-22

2007-03-21

agenda:

Fazer um post sobre a felicidade! Olha, olha no que te vais meter, Maria! e ler de fio a pavio a Sacramentum Caritatis. Sim, porque bitaites já dei, mas ler o documento todo...e aprender um pouco de latim e canto gregoriano. Pronto, por agora acho que é só!

convite


3Conheçamos, esforcemo-nos por conhecer o SENHOR; iminente, como a aurora, está a sua vinda; Ele virá para nós como a chuva,como a chuva da Primavera que irriga a terra.» (Oseias 6,3)
imagem-www.yunphoto.net
Amo a poesia dos poetas pela luz
e pela eternidade que descubro
nas palavras que escrevem. E
também por tudo o que não se

traduz nem explica.

As palavras acenavam ao vento
de Agosto, nas suas hastes finas
e verdes. E disse-me a mais
faladora de todas, alta e trigueira:

- Dás-me dez anos da tua vida?
Eu só tinha cinco anos,
pus-me a contar pelos dedos,
vi que ia ficar
com muito pouco.
- Dou - disse eu.


E ainda hoje, que nunca mais
soube de mim, vou com o vento,
balouçando. E agosto é todo o ano

para mim.

In Ruy Belo, Todos os Poemas, editora Assírio e Alvim

Ando Hiroshige - japanese apricot (1857)

2007-03-20

A missa de domingo...

O Henrique, no Insónia, coloca a seguinte frase alundindo ao CDS/PP: Este é o País que vai à missa aos domingos.

Não sei se os altos dirigentes do CDS/PP, antes de estarem reunidos em Óbidos e onde se passaram as cenas lamentáveis que os media relatam, cumpriram o preceito da Igreja, da ida à missa aos domingos e dias santos de guarda. Se foram, parece que não se notou nada.

Acontece que a participação da missa aos domingos, não é nenhuma mezinha, ou panaceia para branqueamento das almas e tranquilidade dos corpos. Não é algo que por si só dê algum atestado de cidadania e de comportamentos responsáveis. Não é nada que diferencie as pessoas que nela participam, das que nunca lá puseram os pés. Não é a prática que converte é a adesão ao amor.

Achei um texto delicioso que embora longo, vale a pena ler, porque mostra a catequese que envolveu as pessoas da minha geração. Uma catequse devocional à hóstia, aos ritos da confissão e comunhão, à coroa de espinhos de Nosso Senhor, ao coração de Maria, à figura do senhor prior e nada quase nada, à adesão ao amor misericordioso de Deus e à fraternidade entre todos os homens.


Manhãzinha fria, chuviscando.Lá fora um solzinho acanhado derretendo o orvalho nas flores e o badalar dos sinos a interromper o melhor dos sonhos. - Tá com soninho, papai-do-céu? Dizia minha mãe, com doçura religiosa, abrindo as venezianas.- Hum!...Hum!... Pera um pouco, mãe... Só um pouq... Cinco minu... Remorava eu, espreguiçando.- Levanta, acorda preguiçinha!... O padre já está chamando para a missa de domingo...Acorda filhinho, senão, você vai perder a comunhão...- Com Deus me deito, com Deus me levanto, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo... Pulava da cama, mal tinha tempo de tirar o mingau-das-almas da boca, a remela dos olhos e lembrar do jejum. Vestia a roupa e o agasalho correndo... Ao longe, os sinos da igreja cada vez a repicar mais alto e insistente anunciando a missa das seis.- Bença mãe!...- Deus te abençoe! Jesus e a Virgem Santíssima que te acompanhe e ilumine o teu caminho.“Era gente demais para me acompanhar”, pensava sorrindo e depois de muitos beijos, dengos e cheiros, estava livre para encontrar minha turma de verdade: todos os fedelhos da vizinhança. Adorava ir à missa aos domingos. Um ventinho gelado ruborizando as bochechas e lá íamos nós, agasalhados, concluir o ritual eucarístico: confissão aos sábados, comunhão aos domingos.Minha família ia à missa todos os dias, religiosamente, fizesse chuva ou fizesse sol, era sagrado. Eu gostava mais da missa de domingo, em latim, não entendia nada, mas achava muito bonita, ademais, era um bom pretexto para vadiar com a meninada pela cidade, antes e depois da celebração. Lá em casa tinha reza todo santo dia. Rezava-se para tudo e por tudo: acordar, dormir, almoçar, jantar; se estivesse alegre, se estivesse triste; ao entrar, ao sair, para ganhar dinheiro. Rezava-se para tudo, tudo, tudo. Todo santo dia. Havia santos por toda parte, em qualquer lugar da casa esbarrávamos com um santo. Existia um quarto só para o nicho e os santos da minha mãe, entupido de santos, mas de todos o que mais me impressionava era o imenso quadro do Sagrado Coração de Jesus na sala. Passava horas a fio olhando aquele quadro: o Coração de Jesus, grande, bonito; aqueles olhos azuis; com os cabelos grandes e louros parecendo uma mulher barbuda. Ficava boquiaberto, admirando o cabeludo, e ele me olhando. O coração acelerado batendo aflito em descompasso, o meu, o dele não, o dele do lado de fora, arrodeado de espinhos, parado, enorme, sem sangue nem nada. Parecia não sentir dor, não sentir nada. Acho que, às vezes, sentia. Dependia do meu estado de espírito: se eu fazia alguma coisa errada, alguma peraltice, ele cerrava os olhos, franzia o cenho, tornava-se taciturno, olhava-me de soslaio; se eu fazia alguma coisa boa, ele parecia sorrir e compartilhar o meu estado de graça.Ao passar pela sala tínhamos sempre que fazer reverência e o sinal-da-cruz. Era engraçado ver as tais reverências da família diante do santo. O meu pai nessas horas fazia igualzinho aos padres na igreja quando passam em frente ao altar-mor: fingem ajoelhar-se rápidinho; benzem-se rápidinho e seguem em contrição beijando o dedo indicador da mão direita; muito engraçado. Quanto a mim, era sempre embaraçoso cumprir esse ritual, uma vez que, não era destro.O pelo-sinal, então, era um deus-nos-acuda, o creio-em-deus-padre, crendeuspai! Nem se fala, me atrapalhava todo. Minha mãe dizia que eu devia aproveitar as missas de domingo para treinar os gestos e os sinais-da-cruz. E assim, com esse pensamento, descia a rua em disparada na maior algazarra pegando corrida com os pirralhos para ver quem chegava primeiro à igreja. E corríamos, corríamos e... Corríamos...O caminho de nossa rua até a igreja era muito divertido e ofegante.E corríamos, corríamos e... Corríamos...Adiante, exaustos, com o coração na boca, quase sempre encontrávamos Medonho. Assim chamávamos a alma boa que perambulava pela cidade, maltrapilho, pedindo esmola, tendo como moeda de troca o espetáculo grotesco de testar, frente a uma platéia ávida e sanguinolenta, a sua força crânioencefálica, arremessada com todo ímpeto em direção à parede, poste, árvore ou qualquer obstáculo sólido. Às vezes, bastava a meninada avistar o pobre homem no começo da rua, para entrar em alvoroço festivo chamando o mendigo para apresentar o seu número.Fazíamos um semicírculo em torno de um poste ou parede e começávamos a contar até três: Medonho tomava uma distancia de cinco a seis metros; corria todo desengonçado segurando os trapos rotos, sob aplausos e apupos da patuscada sádica, e estatelava os “miolos” contra a parede; provocando uma estranha euforia na platéia, em seguida; balançava a cabeça e todo o rosto, qual animal a relinchar no cabresto, soltava um riso atoleimado e estendia a mão à espera da esmola. A garotada gritava sorrindo: “de novo, de novo, essa não valeu!...” e lá se ia Medonho a repetir o seu calvário, seguido de muitas gargalhadas e galhofas. Permanecíamos nesse estupor até que alguém, farto da patética cena, esbaforido, lembrava da missa:- Corre que nós “tamo” atrasados!... “Pernas, pra que te quero...” Abríamos no pé, deixando Medonho a persistir em seu número ou terapêutica futura, quem sabe...No caminho, entre uma carreira e outra arreliávamos com tudo e com todos: bêbados, relentos, comerciantes, beatas e quem mais atravessasse o nosso caminho; a fanfarrice custava chegar ao destino por mais célere que fosse o passo; de déu em déu, chegávamos ao cinema, o qual mesmo fechado inspirava as mais estapafúrdias estripulias. Do cinema à igreja era um pulo.A Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, no alto da Sagrada Colina, com o seu adro gramado e florido - um campo grande cercado de palmeiras, árvores, plantas ornamentais e muitas flores. Ao entrar no templo, depois de subir a ladeira, uma longa escadaria e passar por portas gigantes – tudo é gigantesco ante o olhar de uma criança -, tinha a impressão de que estávamos entrando no céu ou coisa parecida. Sentia-me minúsculo, ínfimo.Chegávamos quase sempre atrasados. Entrávamos pisa-mansinhos, quase solenes, numa algazarra contida - se é que isso é possível.Perdíamos sempre os ritos iniciais (saudação, ato penitencial, Kyrie e Glória). Eram em latim, a gente não ia entender mesmo. O padre já estava na leitura do antigo testamento, me dizia uma alma caridosa sentada no banco da frente. Difícil era parecer taciturno e concentrado nessas horas. Debalde. Cada qual querendo ser mais engraçado do que o outro. Traquinagens reprimidas, abafadas, vez por outra, por um “psiu!” pigarreado assustando as ovelhas desgarradas. Atenção, fingida e redobrada, na missa. Os altares, os santos, o Senhor Morto, assustador, com aquele manto roxo, o ostensório, tudo era espantosamente vivo e belo. A via-crúcis, o Cristo pregado na cruz. Conhecia cada anjo, cada santo, cada pintura, cada floreio, cada arabesco dourado da Basílica, o altar-mor, o confessionário, os oratórios, tudo, tudo, tudo. Tudo aquilo que eu somente podia apreciar com esmero, nas monótonas missas ao longo da semana, na homilia dos adultos.Aos domingos era diferente: tudo festa, farra, somente a molecada. Ficávamos nos últimos bancos, observando a movimentação dos fiéis - velhinhos e velhinhas na sua grande maioria -, se eles levantavam, sentavam ou ajoelhavam, fazíamos o mesmo tentando imitar. Às vezes, embananava tudo: algumas velhinhas levantavam com dificuldade, outros, nem tão velhinhos assim, ajoelhavam contritos e se benziam e se benziam e se benziam; uns permaneciam sentados olhando para o teto da capela, de maneira que, a turba ficava sem saber ao certo que posição tomar. Era hilário. De vez em quando, uma beata entoava um cântico mais alto e desafinado e a garotada acompanhava repetindo pequenos trechos em falsete, com mímica facial ou prendendo o riso. Todas essas macaquices tinham por finalidade, dirimir a monotonia da penitência litúrgica e também diminuir a ansiedade da comunhão iminente.Não podíamos mentir. Tínhamos que contar tudo ao padre, mas, tudo o quê? Eu não contara nada a ele, antes, no confessionário, não tinha o que contar, contar o quê? Nós não tínhamos a menor idéia do que fosse pecado. E se o padre anulasse a confissão do dia anterior? “Você titubeou, não disse coisa com coisa, não contou um pecadozinho sequer, de maneira que...”.E a brincadeira com Medonho? Era pecado? Não devia ser, o padre brincava também! E remedar os véios e as véias? Qual o quê! Meu pai remeda minha mãe que remeda minha avó, que remeda meu avô. Todo mundo remeda todo mundo. Não, não era pecado. Mentir, sim, era pecado. Xingar também. Eram os únicos pecados lembrados. Isso que dava confessar e comungar toda semana. Não me lembrara de nenhum pecado. Teria que inventar um pecado, um pecadilho que fosse para contar ao padre. Mas, inventar pecado era pecado, ou não? Será que ele ia querer me confessar de novo? Pegar-me na mentira? Quanto mais pensava, mais me afligia. Ficava com o coração na mão. Quais pecados poderiam ter pirralhos de oito, dez anos? Uma mentirinha aqui, um nomezinho feiozinho ali, um docinho roubado acolá. Não, não deveria ser pecado. Não era pecado. O padre estava terminando a liturgia da palavra. Sei disso, porque ele acabara de rezar o credo com os fiéis e agora se paramentava para a liturgia eucarística, como tantas vezes me dissera o meu pai.Não tínhamos pecados.“Mentira!”, diria o padre. Mentira? Só de pensar nisso, sentia calafrios, e depois, o padre, com a cara mais lavada e a voz mais doce desse mundo, com aquele sotaque embolado, diria: “Non se preócupê mon filhô. Jesus, Deus o nosso pai perdona”. Afinal, quem “perdona” é Jesus ou Deus? E ainda botava a pombinha do Espírito Santo no meio - pai, filho e a Santíssima Trindade -, embolava tudo. “Reze um pai-nosso e três ave-marias”. O padre me chamar de mentiroso? Chamar meus amigos de mentirosos? Se ele fizesse isso, aí sim, eu pecaria uma, duas, três, milhares de vezes. Tinha que inventar um pecado, umzinho que fosse! Meus amigos faziam caretas, gaiatices e estripulias afins, talvez estivessem na mesma situação que eu, brincando para espairecer, aliviar o peso da responsabilidade do pecado. E lá vai a missa! Nessa hora canônica, tudo parecia transcorrer mais rápido, em instantes chegaria o padre com as oferendas, prefácio, “Sanctus”, “Benedictus”... Valei-me! Nossa Senhora. O fim estava próximo, cruz - credo! Cruz-credo nada, assim que era bom. Ainda bem que já estava terminando e então sairíamos por aí pintando o sete. Brincaríamos de guarda-e-ladrão, tomaríamos sorvete de chocolate, veríamos os cartazes do cinema, qual seria a fita da matinê? Haveria seriado? Tom Mix, Fantasma ou Tarzan? Venderíamos e trocaríamos revistas em quadrinhos. Depois, passaríamos no circo para ver o palhaço e os anões... Meu Deus! A missa já estava no rito da comunhão. Pai-nosso? E os velhinhos já levantaram e andaram em direção ao comungatório?“Vamos cambada!...”Seguíamos enfileirados, cabisbaixos, oração do “Agnus Dei”, um empurrãozinho de leve daqui, uns sorrisinhos marotos dali, chegávamos diante do altar-mor: ajoelhávamos, perfilados, bocas escancaradas, línguas de fora; cântico do “Agnus Dei” - fosse lá o que isso fosse! -, Cordeiro de Deus, amém. Recebíamos a Eucaristia. “Não pode morder, porque se não sangra”, dizia, sempre, minha mãe. Voltávamos para o banco do fundo, um por um, em contrição e ficávamos olhando, uns aos outros, com a cara de Medonho pedindo esmola, para em seguida exibirmos, com orgulho aos demais, o zelo dispensado à hóstia pregada na língua. Então, esperávamos até que alguém saísse para termos certeza do término da missa. Apesar de toda aflição provocada pela obrigação dos sacramentos, adorávamos ir à missa aos domingos. Podíamos ir sozinhos, a turma toda de pirralhos recebendo a hóstia: o corpo de Cristo. “Não podia morder, porque se não sangrava”. Ficava com aquilo grudento entre a língua e o céu da boca. Não podia morder. O gosto da hóstia era igualzinho ao gosto de taboca, de biscoito maizena, que nem casquinha de sorvete. E lá vinha o padre com a água benta dando um banho no rebanho.Saíamos da igreja, ainda com a hóstia empapada na boca, anjos, leves, puros, quase santos. Quanta felicidade, quanta pureza, santa paz, até tropeçarmos nas escadarias da igreja, empurrados por algum gaiato, e proferirmos um vasto repertório de nomes feios. Apavorados ficávamos procurando sangue no cantinho da boca dos pecadores, voltando então toda a carga dos pecados deixados no confessionário. Assim, somente esperando mais uma semana para confessar e comungar, até lá, teríamos todo o tempo do mundo para redimir e inventar novos pecadilhos.

o texto acima foi retirado daqui!

Perguntas ao Papa

Sua Santidade ressuscitou o que o concílio Vaticano II havia enterrado: a missa em latim. Uma exigência do Monsenhor Lefebvre, arcebispo suíço excomungado em 1988, por negar-se a aceitar as reformas conciliares.
Quando criança, assisti a muitas missas em latim, com o celebrante de costas aos fiéis, segundo o rito tridentino de meu co-irmão, o papa Pio V, que foi dominicano. Por que permitir a volta ao latim? Quantos fiéis dominam este idioma? Jesus não falava latim. Falava aramaico. Talvez algo de hebraico. E por viver em uma região dominada por Roma, é certo que conhecia alguns vocábulos latinos, como a saudação romana ‘Ave!’, que foi introduzida na oração mais popular do catolicismo, a Ave Maria.
Assim como o grego se universalizou através do Mediterrâneo, graças às campanhas de Alexandre, o Grande, o latim se propagou através das conquistas do Império Romano. Segundo esta lógica, não seria mais adequado adotar hoje em dia o inglês?
Pois bem, a grande maioria dos fiéis católicos encontra-se atualmente na América Latina. E não entende grego, nem latim, nem inglês. Não seria aconselhável que participassem da missa em sua língua natal?
Considerando o empenho de inculturação da Igreja, não é contraditório voltar a missa em latim? Tenho um amigo, ateu até a medula, que gosta muito de assistir a missas em latim. Para ele a liturgia se reduz a um espetáculo, quanto mais glamoroso, melhor. É uma questão de estética, não de uma ponte comunitária entre o nosso coração sedento e o Transcendente.


Me inquieta sua (do Papa) afirmação de é "uma praga" casar-se pela segunda vez e proibir aos católicos o acesso à eucaristia. Os evangelhos ensinam que Jesus comungou com pessoas que, vistas daqui e agora, estavam longe da moral vaticana. E defendeu uma mulher adúltera que ia ser apedrejada pelos moralistas da época. Curou a hemorragia de uma mulher da Cananéia sem exigir previamente a adesão dela à fé que pregava. Curou também um servo de um centurião romano sem lhe impor antes a obrigação de repudiar aos deuses pagãos. Jesus fez o bem, sem olhar a quem.
Tenho amigos e amigas que casaram pela segunda vez. Todos por razões muito sérias, que seriam melhor compreendidas por sacerdotes e bispos se estes, como acontecia na Igreja primitiva, tivessem mulher e filhos. (Convém lembrar que Jesus escolheu homens casados para apóstolos, posto que curou a sogra de Pedro).
Contrair matrimônio é algo tão importante que a Igreja fez dele um sacramento. Acontece que, antes de ser uma instituição, o matrimônio é um ato de amor. E há uniões que fracassam, pois todos somos frágeis e pecadores, e nossas opções, sujeitas a chuvas e tempestades, deveriam merecer a misericordiosa compreensão da Igreja.
Tenho amigos e amigas divorciados que reconstruíram suas relações afetivas e se negam a acatar a proibição de comungar.Minha amiga D., três meses depois do matrimônio sufreu com seu marido um grave acidente de trânsito. Ele ficou tetraplégico. Dois anos depois, com a concordância dele, ela contraiu uma nova relação, uma vez que escutou o homem com quem se havia casado na Igreja dizer: "Porque te amo, quero ver-te plenamente realizada como mulher e mãe". Ela e seu novo esposo visitavam periódicamente o homem acidentado, que sobreviveu sete anos e foi o padrinho do primeiro filho do casal. Devo dizer a essa amiga que Deus, que é Amor, não está em comunhão com ela e que, portanto, trate de ficar distante da mesa eucarística, pois a Igreja a considera "uma praga"?


Certa noite, me encontrava na Boca do Acre, em plena selva amazônica, numa celebração em uma comunidade eclesial de base. Dona Raimunda, mãe de seis filhos, cujo marido havia ido para a Transamazônica em busca de trabalho e onde ficou quatro anos sem dar sinais de vida (e ela soube que ele havia constituído outra família lá) - disse na missa, no momento da oração dos fiéis: "Quero agradecer a Deus por haver me dado outro marido, que é um pai bondoso para meus filhos". Dona Raimunda se uniu a outro homem que a ajudava na sobrevivência e na educação dos filhos em uma situação de extrema penúria. Deveria dizer a ela que não se aproximasse da mesa eucarística? Naquele mesmo momento, o Papa Paulo VI, em visita ao Chile, dava a comunhão ao general Pinochet.


Querido papa: leio na primeira Carta de João que "Deus é Amor. Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele" (4,16). Essas pessoas que citei, e tantas outras que conheço, amam e portanto Deus permanece nelas. Devo advertí-las que não são amadas pela Igreja e que, por isso mesmo, estão proibidas de receber o pão e o vinho transubstanciados no corpo e no sangue de Jesus, o Senhor da compaixão e da misericórdia?

Frei Betto - monge dominicano - www.adital.com.br

2007-03-19

e agora uma bicadinha no CDS/PP

Vieram em Conselho Nacional para um hotel de 5 estrelas, no vizinho concelho de Óbidos. Mas a crer pelos apontamentos dos jornalistas, o ambiente era de varinas zangadas.
Ainda não sei foi quem é que deu mais tiros no porta-aviões. Com o ênfase que se lhes nota, mais parece é que querem afundar a coisa.

Sacramentum Caritatis

Ainda não li na sua totalidade a Exortação Apostólica pós-Sinodal Sacramentum Caritatis. O pouco que li não me entusiasmou por aí além. Tenho lido alguns apontamentos em jornais, blogues, TV's, e acabo por constatar que para o bem e para o mal, o que se passa na Igreja Católica e o que a ela se refere, acaba por ter ecos na restante sociedade.

Num canal de TV vi o cónego Carlos Paes, a classificar o documento de profético. Sem excessivos entusiasmos, mas também isenta de preconceitos, vou tentar ler o documento para poder ter uma opinião formada sobre o mesmo.

Num outro canal um padre tótó (desculpem, mas não tenho outro termo), dizia que não o afligia a obrigatoriedade do celibato e quanto ao casamento, dispensava. Mesmo que o celibato deixe de ser obrigatório, não vão obrigar nenhum padre a casar. No caso referido pareceu-me mais a velha história da raposa e das uvas: "estão verdes!"

Na celebração da missa vive-se a tensão do Mistério que nos atrai e move e a nossa corporeidade recalcitrante, insubmissa, pouco disposta à dádiva, ao sacrifício, ao espaço do outro e do Outro... a missa é o chamamento ao compromisso, ao encontro. Isso não se faz de forma mágica nem esquemática, mas num processo de caminhada. Espero que a exortação do Papa Bento XVI nos oriente para isso.



aos pais:


...Um novo Sol promete erguer-se sobre a minha sorte no cadastro humano!
Já me dizem para quando devo encomendar a estrela, que anunciará ao mundo – secular e sagrado – a boa nova… a minha BOA NOVA!!!!
O meu FILHO! O meu filho já existe, pequenino e ainda no carinho reservado das mãos criativas da mãe-natureza. Logo se fará gente e o apresentarei a seus pares… e nada será como dantes…

Pois não, Andarilhus! Nada será como dantes. Como são belas as tuas palavras de pai. Ser pai é entrar no mistério da vida e tu sabes isso.
Como mulher agradeço-te as palavras que dedicas ao filho que esperas e dedico-as (trazidas para aqui) a todos os homens que aqui passam. A todos os que são pais pela natureza e a todos os que o são no coração.

entender as estruturas da vida:

Não creio que se possa definir o homem como o animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere essencial nele o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não ser feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como feliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que não se quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens, apesar do que possa combater, e é mais difícil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante Deus a atitude de obediência, ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.

Agostinho da Silva - Aproximações

2007-03-16

Bom fim-de-semana


Não são permitidos excessos nos abraços...mas não se esqueçam que estão vivos! E a primavera está à porta!

Nada de excessos porque a missa não é uma festa!


..."A este respeito, porém, durante o Sínodo dos Bispos foi sublinhada a conveniência de moderar este gesto, que pode assumir expressões excessivas, suscitando um pouco de confusão na assembleia precisamente antes da comunhão. É bom lembrar que nada tira ao alto valor do gesto a sobriedade necessária para se manter um clima apropriado à celebração, limitando, por exemplo, a saudação da paz a quem está mais próximo.(150)"


da exortação apostólica Sacramentum Caritatis

memória

Há trinta e três anos, sairam do quartel do Regimento de Infantaria 5 de Caldas da Rainha, alguns militares para o que seria o esboço do 25 de Abril.
Não era muito politizada na altura, mas lembro-me da ansiedade que via em alguns adultos, sobretudo professores. Foi o despertar da esperança.

2007-03-15

pecarei por falta de humildade?


Sim, por vezes! Não me parece é que seja o caso neste tema. Saiu a notificação a Jon Sobrino, acompanhada de uma explicação. Parece é que não vieram as anunciadas sanções (nunca se sabe como é que começam estas notícias...) .


Já li por alto a notificação (é preciso tempo para a assimilar) e li a explicação. Assim como li as declarações do bispo D. Carlos Azevedo (auxiliar da diocese de Lisboa), em que fala de falta de humildade da parte de J. Sobrino e enaltece a figura do Papa como "controlador de tráfego". Explico: diz D. Carlos Azevedo que, na Igreja, uns vão mais atrás e é preciso puxá-los para diante. Outros vão muito à frente e é preciso travar-lhes o passo. O Papa é essa figura que puxa pelas canelas a uns e refreia o ímpeto de outros. Pois!


Na nota explicativa, a determinada altura e citando uma ideia de Bento XVI na mensagem para a Quaresma de 2006, diz o seguinte: "A primeira pobreza dos pobres é não conhecer Cristo."


Sei bem como é tradição na Igreja esta dicotomia entre corpo e alma, privilegiando-se sempre a segunda. Ora bem, lendo os evangelhos e olhando para a acção salvífica de Jesus Cristo, o que vemos é que há sempre uma acção libertadora para a integralidade do Homem. Jesus quer é o Homem Vivo e este é total - corpo e alma.


Porque não sendo assim, vamos dar razão aos que dizem que o catolicismo é uma religião de recompensa, em que deixamos para a outra vida o que devia ser solidariamente resolvido nesta.


Além do mais, estamos a imputar a Deus um trabalho que é exclusivamente nosso - maior justiça na distribuição dos rendimentos e da riqueza. Estamos a legitimar todos os sistemas opressivos, injustos e desumanos.

tomei lá que dou eu!



Marisa Tomei

2007-03-14

carta de Jon Sobrino...


ao superior dos jesuítas, onde explica porque não ractifica a notificação que lhe foi enviada pela Congregação da Doutrina da Fé.

Pode ler-se na íntegra aqui

Não conheço suficientemente de cristologia para avaliar as razões da notificação vaticana. Mas creio que elas serão menos teológicas e mais como penalização à Teologia da Libertação. Na Europa e no embalo que o capitalismo e neoliberalismo nos traz, esta teologia dos povos sul-americanos, soa estranha. E à forma estrutural piramidal com vértice em Roma, uma teologia que valoriza as pequenas comunidades eclesiais de base, ainda mais difícil se torna de aceitar. Por isso, temos o que temos! Ontem saiu um documento papal resumindo o que tinha sido o sínodo dos bispos sobre a Eucaristia e os católicos que têm cabeça e a usam, assobiam para o lado quando lêem alguns pontos.


...Y ahora formulo mi segunda razón para no adherirme. Tiene que ver menos directamente con los documentos de la Congregación de la fe, y más con el modo de proceder del Vaticano en lo últimos 20 ó 30años. En esos años, muchos teólogos y teólogas, gente buena, con limitaciones por supuesto, con amor a Jesucristo y a la Iglesia, y con gran amor a os pobres, han sido perseguidos inmisericordemente. Y no sólo ellos. También obispos, como usted sabe, Monseñor Romero en vida (todavía hay quien no le quiere en el Vaticano, al menos no quieren al Monseñor romero real, sino a un Monseñor Romero aguado), Don Helder Camara tras su muerte, y Proaño, Don Samuel Ruiz y un muy largo etcétera… Han intentado descabezar, a veces con malas artes, a la CLAR, y a miles de religiosas y religiosos de inmensa generosidad, lo que es más doloroso por la humildad de muchos de ellos. Y sobre todo, han hecho lo posible para que desaparezcan las comunidades de base, los pequeños, los privilegiados de Dios…

Adherirme a la notificatio, que expresa en buena parte esa campaña y ese modo de proceder, muchas veces claramente injusto, contra tanta gente buena, siento que sería avalarlo. No quiero pecar de arrogancia, pero no creo que ayudaría a la causa de los pobres de Jesús y de la iglesia de los pobres.

Jon Sobrino

Deus 2

Mundo: O mesmo Deus?

A recente visita do papa Bento XVI a Turquia trouxe à cena, de novo, a tese (na verdade uma hipótese) de que por detrás de nomes diferentes, como Alá e o Deus de Jesus, todos nós adoramos e veneramos a um único e mesmo Deus; e que só o reconhecimento desse facto pode nos trazer a paz entre as religiões e civilizações.
Sem negar frontalmente essa tese, eu quero levantar aqui algumas reflexões que podem parecer, à primeira vista, polêmicas e "divisionistas".


Se é verdade que por detrás de nomes diferentes que nomeiam a Deus, ou deuses, nós adoramos a um único e mesmo Deus; deve ser também verdade que por detrás de diversas imagens de Deus dos cristãos adoramos e veneramos ao mesmo e o único Deus. Entretanto, eu tenho muita dificuldade para aceitar e acreditar que por detrás do nome de Deus de Jesus Cristo invocado para legitimar os massacres contra os indígenas na América Latina ou para legitimar torturas nas ditaduras militares esteja o mesmo Deus invocado pelas vítimas ou cristãos que morreram lutando contra os massacres ou torturas. Pois, se assim fosse, não haveria o problema das falsas imagens de deuses e nem o da idolatria. Todas as imagens de Deus de Jesus invocadas - sejam para matar os inocentes (imagem sacrificial de deus), sejam para defender as vítimas (Deus que pede misericórdia, ao invés de sacrifício; Mt 9,13) - remeteriam a um único e verdadeiro Deus. E, portanto, não haveria uma diferença qualitativa entre elas. O que é logicamente um absurdo e teologicamente um erro.


Se nem os cristãos, quando usam o nome do Deus de Jesus, estão se referindo ao um único e mesmo Deus, como podemos dizer que por detrás de diversos nomes divinos de diversas religiões está um único e o mesmo Deus? Com esse questionamento eu não estou defendendo a idéia de que existem realmente diversos Deuses - e que assim o politeísmo estaria certo e o monoteísmo errado -, muito menos a tese de que o cristianismo é a única religião que conhece, adora e anuncia o único Deus verdadeiro. O que eu quero apontar é que as "coisas" são muito mais complexas do que essa equação que, aparentemente, simplifica e facilita o diálogo religioso e a construção de paz no mundo.
Hoje, as guerras no Oriente Médio são feitos ou legitimados, em boa medida, em nome da vontade divina. Só que por detrás de "deus de Bush" ou do "deus do Al-Qaeda" não está o único e o mesmo Deus. Os defensores da "guerra santa" - dos mundos cristão, judaico ou islâmico - o fazem em nome das imagens de deus que eles veneram. Só que a imagem de deus não é Deus! Quem mata em nome da imagem de deus confunde a imagem com o próprio Deus e comete, segundo a tradição bíblica, o pecado da idolatria. O problema é que nós não podemos conhecer a Deus como ele é, somente as imagens que fazemos dele.
Se afirmamos que por detrás das nossas imagens de deus está o único e mesmo Deus, corremos o risco de pensarmos que podemos conhecer o "Deus em si" (Aquele que estaria por trás das imagens) e assim confundirmos a imagem com Deus. E quando caímos na idolatria, nos tornamos intolerantes com os que pensam diferente e vivem as suas experiências religiosas de modo diferente.


O que podemos fazer para construir a paz é, em primeiro lugar, reconhecer a diversidade insuperável das religiões e dialogar sobre os problemas comuns aos diversos grupos religiosos e ao mundo como um todo em busca de consensos mínimos necessários para a paz e vida digna em comum. E um consenso mínimo que poderíamos buscar no diálogo inter-religioso é que nenhum conhecimento humano pode conhecer "Deus como é", para além das nossas imagens e religiões, e que, portanto, nenhuma guerra pode ser justificada em nome de nenhum deus. Um outro consenso poderia ser o de manter o diálogo e de aceitar críticas mútuas para que nenhuma religião possa realizar a sua tentação de se ver com absoluta, como a "encarnação" da verdade e da vontade Deus no mundo.

Jung Mo Sung, professor de pós-grad. em Ciências da Religião da Univ. Metodista de S. Paulo e autor de Sementes de esperança: a fé em um mundo em crise.
Adital

Uma reflexão interessante! A minha opinião é apenas uma: quando acharmos que já dissemos tudo sobre Deus, que temos a sua revelação total - criámos um mito.

Deus

Alguém me dizia e eu concordo, passe a inofensiva blasfémia, porque acho que quando cobrimos a nossa nudez perante Deus estamos a entrar na mitologia: "Deus é doido e a vida imita-O!"

2007-03-13

dios mio, dios mio, por qué me has abandonado?



David Strathairn

a solução limpinha...

...não existe!
Para resolver o problema dos pingos, salpicos, esguichos ou o das tampas levantadas, algumas sociedades mais evoluídas na resolução das guerras entre sexos, andam a doutrinar o sexo masculino a fazer a mijinha sentado. Não! Não, definitivamente.
Sentado, só como no segundo cartoon que a Helena postou.

a contrastar com o post anterior, mais um teólogo banido, humilhado pela autoridade eclesiástica

El domingo Fernando Sáenz Lacalle, arzobispo de San Salvador y miembro del Opus Dei, la confirmó, prediciendo además que Sobrino había sido sancionado con la prohibición de dar clases en cualquier centro católico mientras no revise las conclusiones de su Cristología. La temida sanción, si se confirma, es una novedad que casi nadie conocía el viernes por la tarde. Ni siquiera el propio jesuita bilbaíno-salvadoreño. Por lo visto la orden vaticana de embargo hasta el 14 de marzo que recaía sobre el documento de la Congregación de la Doctrina de la Fe, e imagino que sobre el dato de la sanción, no obliga al arzobispo navarro Sáenz Lacalle.

...La teología de Sobrino puede gustar o no, ser más o menos significativa para la fe de los creyentes cristianos y la vida de los increyentes, pero en ningún caso es irrelevante desde el punto de vista del anuncio de la fe cristiana en nuestro mundo bárbaro y cruel. Su lectura a nadie deja indiferente. Aquí es donde radica el gran problema de su teología. Su reflexión nos plantea cuestionamientos radicales a quienes vivimos adormecidos en las sociedades ricas y resignados en esta Iglesia gobernada por funcionarios incapaces de percibir las señales del Dios de los pobres. Sus textos sobre Jesucristo nos pueden parecer peligrosos, justamente porque ponen en entredicho nuestros privilegios y nuestra indiferencia. Pero precisamente en ese peligro se encierra la oferta salvífica de Dios y de Jesús de Nazaret, su Hijo, el de la misma naturaleza que el Padre, que se expresa en este axioma: «Fuera de los pobres no hay salvación».

Javier Vitoria in Redes Cristianas

"O mau gosto será pecado?"

..."O mau gosto será pecado?”, pergunta o autor na primeira linha do prólogo. “Pessoas há que se limitarão a sorrir, perguntando por sua vez: a estupidez será um pecado? A voz do povo fala de estupidez culpada. Também há um mau gosto culpado”, afirma Richard Egenter, que julga, aliás, que o mau gosto produz um efeito mais nocivo do que as “manifestações escandalosas”. O mau gosto é mesmo considerado culpado do afastamento de muitas pessoas da Igreja.“Talvez fosse necessário em primeiro lugar o panfleto, a ironia cortante, para desmascarar a inércia do espírito e a mediocridade do gosto. Aqui, onde o demónio cultiva a seu modo a homeopatia e mistura em pequenas doses a mediocridade moral com empreendimentos de ‘boa finalidade’, talvez as palavras fustigantes devessem sacudir todos aqueles que não vêem e, na sua indolência, não querem ver que no mau gosto não residem apenas problemas de estética. O mau gosto vai afectar o homem, a sua saúde moral e a sua salvação”, diz Richard Egenter, que, como é óbvio, não se estava a referir ao tal quadro que está no Sameiro.Poucas páginas adiante, o autor dá uma resposta a uma questão óbvia: “Que vem a ser mau gosto?”, uma resposta, aliás, bastante simples, mas eficaz: “diremos apenas que é uma obra com pretensões a artística, embora não consiga atingir o nível desejado”. Richard Egenter não deixa de dizer que a definição é algo vaga, para, assim, excluir do lote de produtos de mau gosto certas obras, como os quadros votivos antigos, que podem sofrer de uma ou outra imperfeição...."

Este texto encontra-se no Blogue Religionline e refere-se a um quadro colocado na Igreja do Sameiro onde figuram além da imagem de Nª Sra. do Sameiro, o Papa João Paulo II, o actual arcebispo de Braga D. Jorge Ortiga e........pasme-se, o célebre cónego Melo. Quem foram os geniais autores da ideia? quem autorizou? quem pagou deve ter sido o bom povo cristão, que além da falta de gosto artístico (o que não será pecado), assume nestas práticas a sua fé pouco formada e esclarecida e na obediência pouco acrítica a uma autoridade que não vem do Evangelho, mas da vaidade, da sede de poder e do culto da personalidade.

2007-03-12

homens do meu País...


....o que é que se passa convosco?

De vez em quando, tendo a televisão ligada, tunga! Lá está mais uma reportagem do Tony Carreira. Ele são as salas de concertos esgotadas, os lugares cimeiros nos tops de vendas o concerto aqui, o concerto acolá etc., etc. E as reportagens sobre as fãs? Elas andam quilómetros e quilómetros, vão a Paris, passam horas em filas para assistir aos concertos, dão gritos, suspiram, anseiam, cobiçam, esticam-se, emplumam-se, oxigenam os cabelos, emaranham-se, transformam-se, comovem-se, choram, lambem-se, arfam, agigantam-se e dizem o seguinte como está escrito no site das fãs: "Tony Carreira veste-se sempre com muita elegância. É um homem charmoso e cheio de vigor." Reparem bem - "charmoso e cheio de vigor" - alguém falou de música ou poesia?


Atentem!


Bem, mas pensar que já suspirei pelas crónicas semanais do Pedro Rolo Duarte.

Se alguém quiser deixar de me falar, faça favor!

e os outros dois senhores o que estavam lá a fazer?


Hans Blix - diplomata sueco que chefiou a comissão das Nações Unidas para investigar as armas de destruição massiva no Iraque - vem agora dizer que os muitos pontos de interrogação do relatório, foram substituídos por pontos de exclamação por W. Bush e Tony Blair. E assim se fez uma guerra...ou não?
"Se conhecesses o dom que Deus tem para dar..." (Jo 4, 10)

2007-03-10

ia lá perder uma oportunidade destas!


Quem é a mulher que coabitando com um homem, ou desgraça das desgraças mais do que um (estou a referir-me aos descendentes!), não tem um ataque de cada vez que entra na casa de banho e olha para a sanita? Pois é! A tampa está sempre levantada! Desce-a num acesso de fúria enquanto desfia a ladainha para a ocasião. Todas as mulheres a conhecem de cor, nem é preciso transcrevê-la.
O Luís Aguiar Conraria, como exímio economista, tenta chegar a brasa à sua sardinha e defender o indefensável. Eu até compreendo os argumentos económicos. Eles são muito claros. Acontece que não são os únicos valores em jogo. Porque, definitavamente, a tampa da sanita é para estar FECHADA. Só se levanta quando é NECESSÁRIO.

2007-03-09

Bom fim-de-semana


Muito tarde te amei, ó eterna beleza.

Ainda que te houvesse amado desde o berço,

tarde,

tarde te amara.

Pois, por mais que te amemos

jamais amamos

o quanto és amável.

Beleza eterna,

de amor eterno,

não tarde,

mas cedo,

mas logo,

mas sempre amada,

dá que te ame, ainda que tarde.


D. Marcos Barbosa

não é para enganar é por ignorância

Um dos mitos masculinos é o de que as mulheres gostam de mentir a respeito da idade. Eu acho que não. E para mais, agora, com a panóplia de bens e serviços de que dispõem para atenuar as consequências mais devastadoras...até gostam de dizer:"tenhos tantos, mas pareço menos dez não é verdade?"

Mas o meu caso é diferente. Não pus nenhuma foto no perfil, mas a idade certa. Que já está desactualizada e não sei como corrigir. Uma mãozinha masculina era de grande ajuda.

Uma perspectiva da celebração do 8 de Março

Muita gente não vê sentido na comemoração de dias internacionais disto e daquilo. Ontem, estava em causa a celebração do dia da Mulher. Mas, nas nossas avaliações, muitas vezes não somos capazes de ir além daquilo que é a nossa realidade. Celebrar no hemisfério Norte o dia da mulher com uma caixa de bombons, um ramo de flores, um jantar romântico, pois também me perdoem senhores, mas é uma brincadeira, um faz-de-conta. Não é para isso que serve um dia Internacional da Mulher. Não quer dizer que um mimo particular e com um sentido próprio, não tenham lugar e todo o cabimento. Ontem, recebi um telefonema e duas SMS, que foram bem especiais porque todos traduziam o que o dia queria significar, no concreto do meu ser mulher.

Transcrevo abaixo um manifesto duma mulher brasileira, que aos nossos olhos europeus pode parecer excessivo, desadequado politicamente (ela fala em abolir a propriedade privada...em vários sentidos), mas que no contexto da América do Sul faz sentido. A distribuição de riqueza no hemisfério Sul é altamente injusta.

Lendo-a e sabendo-a pastora, não me admira nada que a Igreja Católica, não permita veleidades destas. Olha se as mulheres de repente começam a ter ideias e a teologar por aí. A um Deus do género masculino correspondem ministérios ordenados do sexo masculino.

Dia de luta dos movimentos internacionalistas de mulheres, o 8 de março nunca foi um dia fácil de engolir! Entre o fim de fevereiro e o começo de março as mulheres socialistas dos inícios de 1900 na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos celebravam seu dia de luta a partir de acontecimentos importantes: greves, manifestações, enfrentamentos!
Em plena Guerra Mundial, em 1917, na Rússia, as mulheres socialistas realizaram seu Dia da Mulher no dia 23 de fevereiro, pelo calendário russo. No calendário ocidental, a data correspondia ao dia 8 de março. Neste dia, em Petrogrado, um grande número de mulheres operárias, na maioria tecelãs e costureiras, contrariando a posição do Partido, que achava que aquele não era o momento oportuno para qualquer greve, saíram às ruas em manifestação; foi o estopim do começo da primeira fase da Revolução Russa, conhecida depois como a Revolução de Fevereiro. (
http://ouvidoria.petrobras.com.br/PaginaDinamica.asp?Grupo=254&Publicacao=718&APRES=PUBL )

O que elas queriam? O que nós queremos?
Abolir a propriedade privada? Com certeza!! Abolir a propriedade privada como base da sociedade que estrutura desigualdades, cria hierarquias de poder e mantém uma sistemática guerra contra a natureza e seus seres. O 8 de março é um dia de luta contra a propriedade privada... também no âmbito das relações sociais, do casamento e da sexualidade. Cama, mesa e banho. É isto mesmo... queremos abolir os poderes de latifundiários, empresários, políticos, patrões, maridos e senhores. Horrorizai-vos! O 8 de março é um dia anti-burguês, contra as ridículas homenagens burguesas que tentam continuar emburrecendo as mulheres com tradição, família & propriedade ou flores, bombons & um laço de fita, ou mitos do amor romântico, da beleza e da maternidade. Horrorizai-vos! é contra tudo isso que lutamos, articulando classe-gênero e etnia na construção de um eco-socialismo feminista.
E a burguesia grita!! "Vocês mulheres, feministas, comunistas querem introduzir a comunidade das mulheres!!" É verdade! Já vivemos assim! Já somos comunidade e construímos na luta nossa unidade entre mulheres do campo e da cidade! Não aceitamos ser reduzidas a instrumento de produção e reprodução do capital, da família e do poder masculino. Nós arrancamos nós mesmas das formas violentas e históricas que querem nos manter subordinadas, minorizadas e desiguais.
Neste exacto momento centenas de mulheres camponesas do Rio Grande do Sul estão debaixo da lona preta, debaixo do eucaliptal, num dos 200 mil hectares das multi-imperialistas do agronegócio florestal - Aracruz, Votorantin, Stora Enso, Boise... - denunciando que o deserto verde está impedindo a reforma agrária e inviabilizando a agricultura camponesa.
Neste exato momento as mulheres da Via Campesina e suas crianças morrem de pena das árvores enfileiradinhas, da terra ocupada com nada, do alimento que não brota do chão, da água que não tem mais tempo de molhar. Observadas pela Brigada Militar - seus cavalos e cachorros - as mulheres abençoam o mundo e dormem entre o medo e a solidariedade. Toda a campina se ilumina perdoando as árvores de mentira em sua feiúra. E no escuro, elas se fazem Via... láctea, campesina, revolucionária e planejam hortas, pomares e cozinhas de um plano camponês para o Brasil. Neste exato momento mulheres fortes, atentas e decididas fazem a segurança do acampamento nas terras da Boise. Quem quiser doçura, carinho, afeto e graciosidade... melhor que escreva sobre confeitarias ou almofadas. O grande amor da vida delas vai misturado com a capacidade de saber endurecer... perdendo a paciência quando precisar.
Ela perdoam as mulheres burguesas e suas mentirinhas, as feministas interrompidas e suas teologias, mas não toleram mais discursos gerais sobre mulheres inexistentes, nem elogios da diferença que não fazem diferença alguma. É por dentro da luta de classes que a luta das mulheres trabalhadoras acontece. É por dentro das mulheres que a luta de classes avança.


Horrorizai-vos! Senhores teólogos. O 8 de março chegou anunciando também- contra toda a esperança! - que os dias do deus-pai estão contados e que há de chegar o dia - e já veio - em que se fará teologia com o coração ardente, contra toda violência e propriedade.

Nancy Cardoso Pereira - Pastora Metodista
Adital

Tantas vezes pretendemos apoderar-nos da Herança

33«Escutai outra parábola: Um chefe de família plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, construiu uma torre, arrendou-a a uns vinhateiros e ausentou-se para longe. 34Quando chegou a época das vindimas, enviou os seus servos aos vinhateiros, para receberem os frutos que lhe pertenciam. 35Os vinhateiros, porém, apoderaram-se dos servos, bateram num, mataram outro e apedrejaram o terceiro. 36Tornou a mandar outros servos, mais numerosos do que os primeiros, e trataram-nos da mesma forma. 37Finalmente, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: 'Hão-de respeitar o meu filho.' 38Mas os vinhateiros, vendo o filho, disseram entre si: 'Este é o herdeiro. Matemo-lo e ficaremos com a sua herança.' 39E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. 40Ora bem, quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?»41*Eles responderam-lhe: «Dará morte afrontosa aos malvados e arrendará a vinha a outros vinhateiros que lhe entregarão os frutos na altura devida.» 42*Jesus disse-lhes: «Nunca lestes nas Escrituras:A pedra que os construtores rejeitaramtransformou-se em pedra angular?Isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos?


"Jesus denuncia o comportamento histórico de seu povo, e também o nosso, pois muitas vezes fazemos o papel dos dirigentes religiosos judeus, mais preocupados com a ortodoxia doutrinal que com a sincera conversão. Às vezes, julgamos pessoas ou grupos que por sua fidelidade ao Evangelho deixam de lado o que é determinado, privilegiando as pessoas mais do que as estruturas, ou a liberdade e a consciência dos indivíduos antes que a lei e a norma. E fazemos juízos definitivos sobre elas e, inclusive, mais ainda, chegamos de fato a excomungá-las da vida eclesial.É saudável rever nossas atitudes a respeito da Palavra de Deus. Tomemo-la como o mensageiro que vem da parte do dono da vinha para nos pedir contas dos frutos.Quantas vezes nossa resposta ao Senhor que nos exige justiça, verdade, solidariedade, amor fraterno, misericórdia e não sacrifícios (Mateus 9, 13; 12,7; Oséias 6,6), não terá sido com paus e pedras?"

Serviço bíblico Claretiano

2007-03-08

Aos homens que já me saudaram hoje

Invocação à mulher única

Tu, pássaro - mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima
do sexo infinito
Tu, que perpetuas o desespero humano - alma desolada da noite sobre o frio das águas - tu
Tédio escuro, mal da vida - fonte! jamais...jamais...(que o poema receba as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela garça, fêmea
Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha
madrugada de lua...
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estrupadores, onanistas - negações do bem: o Antigo Testamento afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna que a caridade
Dúvida, madrasta do gênio) - tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amén!
Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra - perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros - mulher! tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias - mulher!
Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num mar de inverno.
Não me deixes morrer!...eu, homem - fruto da terra - eu, homem - fruto da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir...-as viagens remontam à vida!...e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma - uma montanha imensa e desdobrada - por onde eu iria caminhando
Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria
eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria - oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!

Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro 1938
In Novos Poemas

"Riscos heterodoxos"

Haveria uma forma segura de não ser herege, e seria esta a de não pensar, forma de resto muito mais frequente de emprego do que geralmente se julga; quem não deseja correr nenhum perigo deste género como que se demite de gente e fica esperando, para a ter, que uma opinião tenha sido garantida por todas as autoridades existentes e, apesar das aparências, com muito mais veneração e temor dos poderes civis e temporais do que dos poderes espirituais; e são apenas uma parte deste todo os que se apoiam no tempo e só passam a respeitar e a seguir um pensador ou um artista ou um sábio quando eles já estão suficientemente garantidos pelos séculos e, sem correr risco de Index, entraram noutros índices às vezes tenebrosos, os dos compêndios escolares.

Mas não há vida sem perigo: e a verdade é que os que não ousam pensar pela própria cabeça caem em grande parte das vezes vítimas da moda e garantem, contra ou a favor, aquele pensamento que daí a um instante nem mesmo será lembrado...

Agostinho da Silva - Aproximações

Dia Internacional da Mulher


De entre tantas mulheres a homenagear neste dia, destaco a minha mãe. Há dezoito anos que a morte a libertou da pesada carga que tinha sobre os ombros. Aprendiz fiel da cultura patriarcal que lhe impôs a autoanulação para preservar o casamento e a paz familiar. Recebeu essa herança da cultura do seu tempo: na família, no catolicismo e no meio social que a rodeava. O pior dos males é quando vem disfarçado de bem.

2007-03-06

o livre-arbítrio

Diz a Susana que é uma puerilidade. Se calhar até é. Quantas decisões da nossa vida foram tomadas em total liberdade? Sem condicionamentos de espécie alguma. E quantas se tomam achando que é a escolha acertada, mas porque nos faltavam uns elementos de conhecimento, acabam por se revelar desastrosas?

E pode o Homem, que é um ser finito, exercer em plenitude o livre-arbítrio?

Como sou crente, acredito na tensão permanente entre a graça e o empenho. E, se vou descobrindo, que muito pouco pude escolher na minha vida, também é certo que, a forma como reajo às consequências dessas "escolhas", é que é verdadeiramente determinante, para não me sentir "esmagada" por elas. Dou mais valor à atitude depois das escolhas.

um homem sábio

O meu caríssimo amigo João Tunes, escreve esta pérola num comentário:

Não tenha dúvidas, MC, quando as mulheres puderem aceder ao sacerdócio, e se calhar estamos mais proximo disso que aquilo que parece, rapidamente a maioria das bóinas dos bispos e dos barretes cardinalícios vão enfeitar lindas cabeleiras femininas. E então, Papa com mamas e de saias (saias femininas, não as vestes-túnicas assexuadas destes Papas machos a simbolizar recalcamentos) não tardarão. Porque tenho assim tanta certeza? Pelo estudo que mencionou: as mulheres, consumindo menos neurónios em sexo, estã mais disponíveis para o amor e a virtude. Ou seja, precisando menos de sublimar, estão mais disponíveis para a autenticidade a entregar e a receber. Abraço na esperança de um mundo melhor sem mulheres arredadas.

Para tudo há uma primeira vez. Alterei o conteúdo do post que aqui tinha escrito. O comentário do João Tunes vai ficar deslocado. Mas como confio na sua bondade e capacidade de perdoar, ousei fazê-lo. No texto anterior pretendia aludir ao funcionalismo de muitos padres, que é um mal que perturba e prejudica a Igreja no seu conjunto. Mas como não estava satisfeita com a forma, e depois do comentário do João, decidi alterar o texto.

Não tenho a certeza de que as coisas se vão alterar na Igreja, em relação às mulheres e aos ministérios ordenados, nos próximos tempos. Deve haver uma "lei" qualquer que diz mais ou menos o seguinte: "Enquanto as coisas funcionarem, não se muda." E as coisas vão funcionando. As Igrejas ainda continuam cheias e ainda há bem pouco tempo, se recebia a notícia do Vaticano, de que o número de católicos aumentou no mundo. Em gíria futebolística:"Em equipa vencedora, não se mexe."

Mas, se as coisas não mudam na Igreja, vão mudando no mundo. Aparecem novas formas de comunicação e interacção. Os blogues, a internet são alguns deles. E se um católico ou uma católica se sentem sozinhos no seu modo de ser Igreja, dentro do perímetro da paróquia ou da diocese, através da rede, podem partilhar com outros, ter acesso a documentos e opiniões, que acabarão por criar uma força nova e diferente da que existia até aqui. Isso vai reflectir-se, sem sombra de dúvidas, dentro da Igreja.

E já que o João fala em indumentárias, já era tempo da Igreja olhar também para esse aspecto. Qual é o sentido das vestes litúrgicas? Tal qual como são. Jesus Cristo, fundamento da fé da Igreja, disse de si próprio que vinha para servir. Não sei onde é que os anelões (devem ter um nome próprio, mas nisso quero ser ignorante), os barretes cardinalícios, as cruzes peiturais de ouro, os báculos de prata, cabem nesta lógica de serviço, já que o bispo, ou o Papa são justamente apelidados os servos dos servos de Deus. O cristianismo não pode servir de mote para figuras de estilo.

Se entrassem "Papas com mamas", isto seria diferente? Acho que não. Não seria apenas o género que faria a diferença.






RESURRECCIÓN

Caminaré de nuevo.

Levantaré las ruinas de mi casa
y las ruinas de mi corazón.
Me vestiré de alas y de soles
de presencias amadas.
Hallaré en otros labios
aguas para mi sed
y en otros ojos
prolongaré caminos.
Yo signada de viento

desafiando conjuros...
ceñiré nuevamente mi relámpago.

Amparo Osorio

2007-03-05

como é que é possível?



Nem o único filho a viver em França, nem os vizinhos, nem o médico de família, nem a paróquia, nem a assistência social...ninguém viu que aquele idoso estava no limite das forças, a cuidar da mulher com Alzheimer, a ponto de não aguentar mais e terminar com a vida de ambos.


2,5 X - Só?

La neurosiquiatra Louann Brizendine revela en su libro 'El cerebro femenino' que, biológicamente, en el cerebro de los hombres hay 2,5 veces más espacio para el sexo, que el que existe en el de las mujeres.
Que los hombres solo piensan en sexo era algo que se sabía o que, por lo menos, hacía parte de la creencia popular. Sin embargo, el asunto solía atribuirse al entorno social y a una herencia cultural marcadamente machista.
El pensamiento permanente de los hombres en el sexo no es un accidente o una 'manía' adquirida en razón del bombardeo de mensajes que hay sobre el tema, advierte Brizendine.
En el de las mujeres hay más lugar para las emociones, la memoria sentimental y la comunicación.
Esa realidad explica por qué ellas reclaman más afecto que deseo, más romance que pasión y más comunicación y caricias antes de llegar al coito (la penetración).
También es cuestión de hormonas
La testosterona, hormona del sexo que predomina en los hombres, tiene también mucho que ver. Esta toma el control de los pensamientos y, siempre que se presenta una imagen o escena sugestiva, bloquea cualquier otro tipo de actividad cerebral.
Los hallazgos sobre las diferencias entre el cerebro del hombre y el de la mujer llevan a la neurosiquiatra a afirmar, inclusive, que los hombres mienten cuando dicen que tienen sentimientos.
Los hombres son más autistas y racionales, observa Brizendine.
En cambio las mujeres resultaron ser más emotivas y más expresivas. Tienen 11 mil neuronas dedicadas a la comunicación y ello explica por qué suelen pronunciar una media de 20 mil palabras al día contra apenas 7 mil por parte de los hombres.
"La lectura de las emociones en las niñas empieza más temprano que en el hombre. Su sistema nervioso absorbe durante los dos primeros años la realidad que afectará su vida sentimental el resto de su existencia", dice la neurosiquiatra en uno de los capítulos de su libro

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As necessidades e os desejos

O Homem como ser racional tem necessidades e tem desejos. As necessidades facilmente se satisfazem, e, depois de satisfeitas, ficamos bem até à sua próxima manifestação.
Os desejos não. Sempre nos impelem para mais e mais. Cada meta é sempre ponto de partida. É assim que o Homem é chamado à transfiguração.

Poente sobre o mar de 4ª feira 1º de março de 1972

Porque afundas a cabeça
cortada pelo gume de água azul marinho
tua cabeça entre pássaros suspensos
asas pendentes as nuvens
na tonalidade derradeira das cerejas
porque desces rubro
ao patíbulo do horizonte
poderoso e vencido senhor do dia
suporto a sombra o engano
os pesadelos os morcegos
o sopro negro que chega do mar
porque sei que renasces
sem escrúpulos
amanhã ao amanhecer

Amanda Berenguer - Uruguai

2007-03-02

Bom fim-de-semana


Não tenho nenhuma foto (é pena) dos beijinhos das Caldas. Mas arranjo de uma outra especialidade da doçaria - as trouxas. Ficam dedicadas ao Paulo, pela partilha de comentário do post abaixo.

Paulinho, o maior respeito pelos teus votos. Não me fazem confusão nenhuma. Eu já não podia fazer tal, nem comendo muitas dúzias de trouxas (e são bem doces). Não somos todos iguais, por isso, a diversidade das nossas vidas. Eu só não entendo a alergia que a Igreja manifesta em relação ao sexo. E a tudo o que lhe diz respeito.


2007-03-01

vá lá...estamos a falar de quê, sr D. José?


O problema é sempre o de saber se são valores católicos ou valores humanos que o Evangelho potencia. A maior parte são valores humanos! Aquilo que é estritamente católico é muito pouco. A questão da sexualidade é fundamental, das mais interessantes mas também das mais complexas. Não há sexualidade sem responsabilidade. Mas estamos numa de «faz o que te apetecer que depois resolve-se». Há perigo da sida? Tem solução... Há uma gravidez indesejada? Faz-se um aborto! Mas nunca ninguém levantou a hipótese de educar estes cidadãos para terem uma vida sexual... vá lá, normal!

D. José, devolvo-lhe o desejo. Também ensejo que a hierarquia da igreja seja educada para terem uma vida sexual...vá lá, normal! Não é que não respeite as opções livres de celibato casto, de muitas pessoas consagradas, mas fazer disso norma, tenha santa paciência, mas não!

Razão tem o Alexandre Soares da Silva que escreve assim:

* Uma das boas coisas do sexo acontece alguns minutos depois que ele acabou, e é o fato de que você está livre dele e pode pensar em muitas coisas que não tem nada a ver com ele. Em outras palavras, uma das boas coisas do sexo é a castidade que vem depois dele (e que não é ridícula como a castidade de um virgem espinhudo de 23 anos, porque, afinal, você acabou de fazer sexo).
* A castidade tem má fama porque é quase sempre elogiada por gente que evidentemente não consegue se livrar dela, o que é um pouco como ver a honestidade sendo elogiada por um ladrão de jóias que nunca conseguiu roubar uma jóia. A maior parte das virtudes é elogiada por pessoas incompetentes demais para cometer um pecado, e o desprezo que sentimos pela incompetência deles acaba se espalhando por todas as virtudes que eles defendem (Nietzsche sobreviveu de explorar esse pequeno mercado; montou sua barraquinha lá e não saiu mais do lugar, aparentemente obcecado com a existência de cristãos fraquinhos e murchinhos. Será que nunca encontrou um cristão mais forte do que ele? Não devia ser difícil de encontrar.)

eclipse anunciado:

Ribeiro e Castro tem um compromisso e não pode ver a TV. E o seu antecessor, disfarçado de Rei Sol do Largo do Caldas, vai dissipar o nevoeiro em que o PP está mergulhado. Políticos sérios este país precisa. Não de aprendizes de feiticeiros. E o Sócrates vai reinando, pudera!

provou-se: somos um país de choramingas!


Os portugueses choram, em média, duas a três vezes por semana, com as mulheres a verterem mais lágrimas do que os homens, por vezes sem saberem porquê, indica um estudo hoje divulgado.

O estudo, realizado desde 2004 pelo Laboratório da Expressão Facial da Emoção da Universidade Fernando Pessoa, do Porto, envolveu uma amostra de 2.322 portugueses com idades entre 18 e 70 anos, abrangendo igual o número de mulheres e homens participantes.
«Os resultados sugerem que as mulheres choram mais do que os homens, mas os homens são mais intensos quando exibem as lágrimas», segundo esta investigação. Por outro lado, «as mulheres dizem não ter vergonha de chorar em público, enquanto que os homens se retraem e só o fazem em situações excepcionais», com ambos a justificar as lágrimas como «um mecanismo reactivo e de compensação» perante as dificuldades da vida. ...


in Portugal Diário

Notas à parte:

E porque choram mais as mulheres?
E sem saberem porquê, o caraças!
E lembraram-se de perguntar às mulheres, quantas vezes usam as lágrimas como arma fatal? E porque é que o fazem? Sim, porquê? E respondam lá senhores, senão vão umas lagriminhas!

um lugar mágico

Fluxus (fragmento i)

Existe, como a impertinência

de um búzio em terras de montanha.
Clama fremente o fogo e
a sua expectativa é ainda toda a chama,
como se o exterior dos elementos
procurasse adensar-lhe os contornos.

Aqui

Não te agradaram jejuns nem holocaustos (Heb 10,6)


As tentações estão sempre presentes na vida dos homens. São muitas e variadas. Uma delas, é confundir amor, com satisfação de necessidades.
E projectamos este nosso modo de ser para as imagens que criamos de Deus. Nesta Quaresma, ouvimos com frequência as palavras de jejum, penitência, oração. E esforçamo-nos por, pelo menos, neste tempo, marcarmos de forma diferente o decorrer dos nossos dias. E temos a veleidade de pensar que o fazemos para agradar a Deus, para lhe retribuir um pouco, o muito que dele recebemos.
Mas não foi um Deus que tem necessidade dos nossos sacrifícios que Jesus Cristo nos revelou. O Deus de Jesus Cristo, não tem necessidades - é o Amor absoluto. Ele quere-nos a nós! O jejum, a penitência, a oração são para despertar em nós a fome e sede de mergulhar nesse Amor absoluto. Não esquecendo a esmola, porque não vamos sozinhos. Ninguém vai sozinho para Deus, tem de levar o mundo consigo.

imagem-banco do fogo pena www.triplov