2007-06-30

bom fim-de-semana


Pausa

De vez en quando hay que hacer
una pausa

contemplarse a sí mismo
sin la fruición cotidiana

examinar el pasado
rubro por rubro
etapa por etapa
baldosa por baldosa

Y no llorarse mentiras
sino cantarse las verdades

Mario Benedetti

2007-06-29

seguir Jesus - também no sacerdócio ministerial

Hoje li num jornal, o caso de um ex-padre açoriano que vive com graves carências depois de ter abandonado o serviço no sacerdócio ministerial. O Carlos Esperança no DA, questiona-se sobre a felicidade dum padre septuagenário que encontrou num autocarro. E eu, em vésperas de dois jovens amigos (em conjunto com outros) serem ordenados na Diocese de Lisboa, como presbíteros, sinto um misto de alegria e ansiedade.


Talvez seja oportuno, neste dia em que celebramos a festa dos Apóstolos Pedro e Paulo, reflectir um pouco o que ignifica ser discípulo de Jesus.


Transcrevo um texto publicado na Eclesalia, que sem dar receitas práticas, nos situa no verdadeiro significado do que é ser discípulo.


Se seguir Jesus é "não ter onde reclinar a cabeça", também não é menos verdadeiro, que esse caminho não pode ser solitário, nem cada um entregue a si mesmo. Não vale a pena dizer que a Igreja é a família dos filhos de Deus, se não nos sentirmos todos comprometidos uns com uns outros. Como acontece com qualquer família humana. O Céu é já aqui, assim o tornemos possível.



Las primeras generaciones cristianas nunca olvidaron que ser cristiano es «seguir» a Jesús y vivir como él. Así de claro y sencillo. Por eso le da Lucas tanta importancia a tres dichos de Jesús.
A Jesús no se le puede seguir buscando seguridad, pues él «no tiene donde reclinar la cabeza». Para seguir a Jesús, hay que olvidarse de otras obligaciones pues lo primero es «anunciar el reino de Dios». A Jesús no se le puede seguir «mirando hacia atrás» pues quien le sigue así, «no vale para el reino de Dios».


«Seguir» a Jesús es una metáfora que los discípulos aprendieron por los caminos de Galilea. Para ellos significa en concreto: no perder de vista a Jesús; no quedarse parados lejos de él; caminar, moverse y dar pasos tras él. «Seguir» a Jesús exige una dinámica de movimiento. Por eso, el inmovilismo dentro de la Iglesia es una enfermedad mortal: mata la pasión por seguir a Jesús compartiendo su vida, su causa y su destino.
El instinto por sobrevivir en medio de la sociedad moderna nos lleva hoy a los cristianos a buscar seguridad. La jerarquía se afana por recuperar un apoyo social que va decreciendo. Las comunidades cristianas pierden peso y fuerza para influir en el ambiente. No sabemos «dónde reclinar la cabeza». Es el momento de aprender a seguir a Jesús de manera más despojada y vulnerable, pero también más auténtica y real.

En la Iglesia vivimos con frecuencia distraídos por costumbres y obligaciones que provienen del pasado pero no ayudan hoy a generar vida evangélica. Hay pastores que se sienten como «muertos dedicados a enterrar muertos». Es el momento de volver a Jesús y buscar primero el reino de Dios. Sólo así nos colocaremos en la verdadera perspectiva para entender y vivir la fe cristiana como quería él.

Pero quienes miran sólo para atrás, no valen para el reino de Dios. Cuando se ahoga la creatividad, se mata la imaginación evangélica y se controla toda novedad como peligrosa, se está promoviendo una religión estática que impide el seguimiento vivo a Jesús. Es el momento de buscar una vez más «vino nuevo en odres nuevos». Lo pedía Jesús.

em busca da verdade

...Y bien, se me dirá, "qual es tu religión?" Y yo responderé: mi religión es buscar la verdad en la vida y la vida en la verdad, aun a sabiendas de que no he de encontarlas mientras viva; mi religión es luchar incesante e incansablemente con el misterio; mi religión es luchar com Dios desde el romper del alba hasta el caer de la noche, como dicen que con Él luchó Jacob. No puedo transigir con aquello del Inconocible - o Incognoscible, como escriben los pedantes - ni con aquello otro de "aquí no pasarás". Rechazo el eterno ignorabimus. Y en todo caso, quiero trepar a lo inaccesible.

"Sed perfectos como vuestro Padre que está en los cielos es perfecto", nos dijo el Cristo, y semejante ideal de perfección es, sin duda, inasequible. Pero nos puso lo inasequible como meta e término de nuestros esfuerzos. Y ello ocurrió, dicen los teólogos, con la gracia. Y yo quiero pelear mi pelea sin cuidarme de la victória. No hay ejércitos y aun pueblos que van a una derrota segura? No elogiamos a los que se dejaron matar peleando antes que rendirse? Pues ésta es mi religión.

Miguel de Unamuno, Mi religión

bom dia: hoje e sempre


Disto eu gostaria:
ver a queda frutífera dos pinhões sobre o gramado
e não a queda do operário dos andaimes
e o sobe-e-desce de ditadores nos palácios.

Disto eu gostaria:
ouvir minha mulher contar:
-Vi naquela árvore um pica-pau em plena ação,
e não:-Os preços do mercado estão um horror!

Disto eu gostaria:
que a filha me narrasse:
-As formigas neste inverno estão dando tempo às flores,
e não:-Me assaltaram outra vez no ônibus do colégio.

Disto eu gostaria:
que os jornais trouxessem notícias das migrações
dos pássaros que me falassem da constelação de Andrômeda
e da muralha de galáxias que, ansiosas, viajam
a 300 km por segundo ao nosso encontro.

Disto eu gostaria:
saber a floração de cada planta,
as mais silvestres sobretudo,
e não a cotação das bolsas nem as glórias literárias.

Disto eu gostaria:
ser aquele pequeno insecto de olhos luminosos
que a mulher descobriu à noite no gramado
para quem o escuro é o melhor dos mundos.


Affonso Romano de Sant'Ana

2007-06-28

ALEGRAI-VOS!

Que a blogosfera anda chocha, ninguém tem dúvidas. Nem devia, porque o que falta são assuntos "quentes" para debater.

Por acaso, mesmo por acaso descobri que o Prof. Pedro Arroja tem novo poiso. No Portugal Contemporâneo. E descobri, pasme-se, que o sonho dele é ser Papa. Se não tiver nenhum impedimento canónico, avance. Para já, reconheço-lhe uma vantagem suprema: é mais papista que o dito. E não sendo má-língua, isso é meio caminho andado.

Mas este post e respectivos comentário merecem leitura.

só um "cheirinho":

Uma palavra irresponsável ou mal intencionada do Papa seria suficiente para levar por maus caminhos mais de um bilião de fieis católicos espalhados pelo mundo, e provavelmente mais alguns biliões de homens e mulheres - se calhar, toda a humanidade - que, embora não sendo católicos, olham para ele como um líder e uma autoridade moral. Mas porque haveria o Papa de agir assim, fazendo o mal, se ele tem toda a liberdade para fazer o bem?

olhar...e ver


Não gosto muito de me olhar ao espelho. Talvez porque nem sempre gosto da imagem que me devolve. Mas gosto de olhar e ver os outros. Gosto de fazer deles meus espelhos. E gosto mais das imagens que me devolvem. Mesmo quando vêm distorcidas (ou eu acho que vêm).


É fundamental cultivar o olhar. Saber ver o outro. Não ficar só nas aparências (oh coisa difícil).


Ser olhada por um olhar que sabe ver é das coisas grandes da vida. Não conheço muitas pessoas com esse dom. Que só com um olhar nos marcassem. Apresento uma: Mia Couto.

Há dias, na TV, numa entrevista falava dessa capacidade que cultiva. E falava absolutamente verdade. Numa sessão de autógrafos dele em que participei, pude verificar isso. Para ele não existem pessoas anónimas. Com um olhar identifica-as. Ama-as, direi eu.

uma flor para a Maria


minha sobrinha mais novinha. Faz hoje um ano! Prepara o bolinho que a tia já lá vai...

imagem-nelsonfilipe.planetaclix.pt

bom dia

SALMO III

¡Oh, Señor, tú que sufres del mundo
sujeto a tu obra,
es tu mal nuestro mal más profundo
y nuestra zozobra!

Necesitas uncirte al infinitos
i quieres hablarme,
y si quieres te llegue mi grito
te es fuerza escucharme.

Es tu amor el que tanto te obliga
bajarte hasta el hombre,
y a tu Esencia mi boca le diga
cuál sea tu nombre.

Te es forzoso rasgarte el abismo
si mío ser quieres,
y si quieres vivir en ti mismo
ya mío no eres.

Al crearnos para tu servicio
buscas libertad,
sacudirte del recio suplicio
de la eternidad.

Si he de ser, como quieres, figura
y flor de tu gloria,
hazte, oh, Tu Creador, criatura
rendido a la historia!

Libre ya de tu cerco divino
por nosotros estás,
sin nosotros sería tu sino
o siempre o jamás.

Por gustar, ¡oh, Impasible!, la pena
quisiste penar,
te faltaba el dolor que enajena
para más gozar.

Y probaste el sufrir y sufriste
vil muerte en la cruz,
y al espejo del hombre te viste
bajo nueva luz.

Y al sentirte anhelar bajo el yugo
del eterno Amor,
nos da al Padre y nos mata al verdugo
el común Dolor.

Si has de ser, ¡oh, mi Dios!, un Dios vivo
y no idea pura,
en tu obra te rinde cautivo
de tu criatura.

Al crear, Creador, quedas preso
de tu creación,
mas así te libertas del peso
de tu corazón.

Son tu pan los humanos anhelos,
es tu agua la fe;
yo te mando, Señor, a los cielos
con mi amor, mi sed.

Es la sed insaciable y ardiente
de sólo verdad;
dame, ¡oh, Dios!, a beber en la fuente
de tu eternidad.

Méteme, Padre eterno, en tu pecho,
misterioso hogar,
dormiré allí, pues vengo deshecho
del duro bregar.

Miguel de Unamuno

2007-06-27

boa noite

parece que hoje não passei do "bom dia". Mas passei. E passaram palavras por mim e tocaram-me em assombros de surpresa e magia. Já não acredito em contos de fadas, mas ainda cultico sonhos. E guardo maçãs...

bom dia



Comunhão

Ângulos e curvas se ajustam
formando um volume, um todo:
somos uma cousa única,
eu e a lembrança do morto.

Nada de excêntrico ou de incerto
para a alma nem para o corpo:
união natural e completa
como a de líquidos num copo.

A solidão perdeu aos poucos
a rispidez. E foi a chave.

Eu e a lembrança do morto
em comum, temos vida própria
- não excessivamente grave.

Henriqueta Lisboa

imagem - Almada Negreiros, a Sesta, 1939
Museu do Chiado, Lisboa

2007-06-26

ai estes ateus!!!!

Como não consigo comentar no Diário Ateísta, segue post (deve ser nabice minha, mais nada). Das quatro pessoas que já conheci (olhos nos olhos) deste mundo da blogosfera, com uma delas tenho a dita de ter estabelecido uma relação de parentesco (não é, mano?) e com a outra (padre) uma relação de amizade muito profunda. Pois foi este amigo, que os caríssimos do DA, resolveram chamar à liça. Não directamente na sua pessoa, mas como capelão hospitalar. E o que me faz escrever, não é por ele ser meu amigo, é porque se alguma coisa me orgulha na minha Igreja, é saber que ela tem membros como ele.

A questão no DA tem a ver com dinheiros e medo de proselitismo. O dinheiro é uma coisa lixada. Eu não digo nem bem nem mal do dinheiro. Quem o tem que o saiba gastar. E este "saiba" é ao seu gosto, mesmo.

Só conheço três capelães hospitalares. Este que me leva a escrever estas linhas, o da minha cidade e um outro em Lisboa. Acho que em nenhum deles, o dinheiro do Estado é mal gasto. Mas não é por aqui que vamos lá.

O capelão hospitalar presta um serviço público. Está disponível para católicos e não católicos. É para quem precisar e desejar o seu serviço. Como não podem viver do ar, precisam de um ordenado, que o Estado paga. E muito bem, acho eu.

Na Igreja católica é uma grande fonte de preocupação a evangelização. Os destinatários, os meios, os agentes...eu sentir-me-ia muito desiludida, se ela, alguma vez deixasse fosse por que motivo fosse, de prestar este serviço a quem precisa dele e o deseja.

Se há característica que não encontro na maioria dos padres católicos, é o pendor para o proselitismo, e nestes que conheço, muito menos. Fiquem os ateus descansados que ninguém os tira da sua fé. E deixem que eles sirvam os doentes e familiares da forma generosa com que o fazem. Um ordenado não paga tudo e neste caso, muito menos.

estes romanos...

...são mesmo obstinados com as questões sexuais. Mas não com o que se passa nos lençois deles, mas sim, com os do vizinho do lado.

Neste forum iniciou-se uma discussão sobre casamentos homossexuais. Já vai em 69 (sessenta e nove) páginas de discussão. Temas como a transubstanciação, pouco passou da dezena.

borda d'água

...acordei à espera do que Deus quiser... De ti, espero que cries um furacão e entres com ele em mim... revolve até clarear...

bom dia


SENHOR, que é o homem, para cuidares dele, e o filho do homem, para nele pensares? (Sl 144,3)
imagem-www.poemar.com/

2007-06-25

o que é o homem?

"Lá há dias como este no fim de Agosto, em que o ar fica fino e sôfrego como aqui, com um não sei quê de nostálgico, de triste e familiar: O homem é o somatório das suas experiências climáticas dizia o Pai. O homem era o somatório de tudo e mais alguma coisa."



Que é o homem? é a pergunta que me ocorre com mais profundidade, depois de terminar o livro "O Som e a Fúria" de William Faulkner. Livro forte, perturbante, envolvente...

A trama desenrola-se numa família do Sul dos Estados Unidos, no início do século passado. Uma família em decadência nas suas diversas estruturas. Onde cada um fica entregue a si mesmo e onde não se vislumbra alguma hipótese de redenção. Toda a família e cada uma das personagens que a compõem, estão entregues a uma infelicidade de que ninguém deseja ou se esforça por sair. Um dos filhos comete suicídio, mas isso é o que todos fazem, mesmo os que permanecem vivos.

No meio desta trama, aparentemente irremível, aparece Dilsey, a criada negra, que a troca de um regateado "pão para a boca", vai sustendo a família, sobretudo os mais frágeis, e, entre eles, Ben, o "tolinho" da família.

Numa celebração pascal, o pregador de serviço com uma pregação arrebatada, queria pôr toda a gente a "ver" Jesus Cristo, Dilsey, sabiamante cochichou:"Já vi Deus servir-se de coisas inda mais estranhas". Referia-se ao pastor que vinha com fama de místico e grande pregador.

É. Parece que "a Deus ninguém o viu..." (1ª João 4, 12) mas serve-se de pessoas "estranhas" que sabem amar, para se tornar presente no meio de nós. Por isso O ignoramos tantas vezes. Queremos vê-lo na omnipotência.

"monos e humanos"

...No entanto, escreve M. Onfray, "o homem e o animal separam-se radicalmente quando se trata de necessidades espirituais, as únicas que são próprias dos homens e das quais não se encontra nenhum vestígio - mínimo que seja - nos animais." Há nos humanos uma série de actividades especificamente intelectuais, que os distinguem radicalmente dos monos: nestes, não encontramos filosofia nem religião nem técnica nem arte.

A tentativa de compreendê-lo no quadro de um materialismo mecanicista ou do biologismo não dá conta do Homem. De facto, o animal é conduzido pelo instinto. Por isso, esfomeado, não se conterá perante a comida apropriada que lhe apareça. Face à fêmea no período do cio, não resistirá. O Homem, pelo contrário, é capaz de transcender a dinâmica biológica. Por motivos de ascese ou religiosos ou até pura e simplesmente para mostrar a si próprio que se não deixa arrastar pelo impulso, é capaz de conter-se, resistir, dizer não. Foi neste sentido que Max Scheler, um dos fundadores da Antropologia Filosófica, escreveu que o Homem é "o asceta da vida", o único animal capaz de dizer não aos impulsos instintivos.

Cá está: esta é a base biológica da conduta moral, uma característica essencialmente específica humana. Uma vez que o Homem é capaz de ponderar, renunciar, abster--se, optar, dizer sim, dizer não aos impulsos, é livre e, por conseguinte, animal moral.O Homem é corpo, mas um corpo que fala e que diz "eu". Porque fala, é capaz de debater questões, de defender pontos de vista, distinguir o bem e o mal, tomar posições sobre valores morais, políticos, religiosos, estéticos, filosóficos.Então, o enigma é este: provimos da natureza, mas contrapomo-nos a ela, somos simultaneamente da natureza, na natureza e fora dela. Monos e humanos têm a mesma origem, mas os humanos têm originalidades únicas e irredutíveis.

Anselmo Borges in DN

leituras...

É sempre com grande mágoa que chego ao fim de um livro. Como se se tornasse o fim de uma relação amorosa. Mas tal como estas, se nos envolveu, o relacionamento mantém-se. E mesmo já arrumado na estante, até próxima releitura, continua a dizer-nos coisas.

2007-06-23

bom dia



Poema por Ti


No espaço do meu corpo
há um cheiro de maça verde
e eu habituei-me
a esperar-te inteira
à beira do tempo
enquanto as esquinas
se dobram de espanto

Tu és a certeza nesta viagem
pelo amanhecer tranquilo
em que a madrugada se despe
das palavras quietas que cheiram a ti

Eu sou a incerteza
da partida que sabe a desejo

Antonio Sem
antoniosem.no.sapo.pt/
imagem-Musa e poeta, Rodin

bom fim-de-semana com o S. João



«Quem virá a ser este menino?»Na verdade, a mão do Senhor estava com ele. O menino ia crescendo e o seu espírito fortalecia-se. E foi habitar no deserto até ao dia em que se manifestou a Israel. (Lc 1)



imagem - Mestre da Lourinhã, S. Baptista no deserto,1515
Museu Santa Casa da Misericórdia Lourinhã

2007-06-22

se o Telmo Correia pode...

...andar disfarçado de trabalhador camarário a limpar graffiti's, porque é que ele não pode?

postzinho de nojo...

...depois da benção dos carros em Fátima, sai agora o decálogo dos condutores. Só faltou foi homologar os tercinhos no retrovisor.

fico à espera...

...Escreverei um post logo logo que arrancará lágrimas e arfará seios, pequena leitora núbil, e fará com que pequenos corações estilizados apareçam em sua aura enquanto me lê, a ponto da sua mãe ficar passando a mão em cima da sua cabeça numa tentativa patética de pegar os coraçõezinhos, e de minúsculos ursos pandas dançarem de mãos dadas no chacra que fica na base da sua espinha....

Os ursinhos panda é que acho pouco. Um grupinho da tribo de Ababá, já seria uma promessa...

bom dia

Ardendo de amor as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima os corpos



Canções camponesas Japão

Tradução: Herberto Helder

2007-06-21

Eutanásia

Nunca será pacífico um debate sobre a eutanásia, vários interesses se cruzam. É a vida, é a morte (e ainda, o que supostamente haverá para além dela. Pode ser o "nada", pode ser o "tudo").

Um dos momentos marcantes da minha vida, foi assistir muda e impotente à agonia da minha mãe, que com 54 anos morreu vítima de cancro. E bem me lembro dos sentimentos contraditórios que senti. O que dominava era que a queria ver livre daquilo. Mas havia a minha dor e ainda mais, a dos meus irmãos mais novos. Sentia por mim e por eles. Acredito na ressurreição. Isso dá-me tranquilidade, mas não me diminui a dor. A dor da perda e do sofrimento que a envolveu.

Se a minha mãe tivesse pedido que lhe praticassem eutanásia (caso isso fosse possível), não sei que faria. Mas acho que aceitaria a vontade dela.

Para os crentes a vida não é um valor "subjectivo" nem "relativizável". Acreditamos que a vida é um dom de Deus. E cabe-nos preservá-la e ajudar a fazê-lo. Perante o milagre da vida, o crente fica mudo. Sente que está algo ali que lhe escapa. Não se sente capaz de a manipular (é claro que de boas intenções está o inferno cheio, e acaba por fazê-lo de variadíssimas formas), mas é no que acredita.

Mas dizer que a vida é um dom de Deus e defendê-lo acerrimamente, por vezes pode criar intolerâncias, fundamentalismos e até nublar o que isto verdadeiramente quer dizer. Quando se diz que Deus é que deu a vida, e, portanto, só Ele é que a pode tirar, estamos a ser intolerantes com o que deseja terminar com a vida e estamos a falar de um Deus que não existe. Eu pelo menos, não O concebo assim. O Deus que cria, faz-nos co-criadores. Respeita a nossa liberdade.
Acho das coisas mais horríveis que se possa dizer a uma pessoa, para a consolar da perda de alguém querido o seguinte: "foi a vontade de Deus." Deus quere-nos felizes e em comunhão com Ele, e é a partir de agora. A vida eterna é na ordem da qualidade, não da temporalidade. Então a doença e a morte? Fazem parte da vida, não há como fugir a isso.

(A propósito de um post do Henrique no Insónia)

bom dia



Claude Monet, 1875

2007-06-19

as razões de César das Neves

...Por uma questão de honestidade intelectual, qualidade ausente com demasiada frequência dos escritos de César das Neves quando se trata de religiosidade, o professor poderia esclarecer os seus leitores que não existiu um gnosticismo, mas vários gnosticismos, com diferenças muito significativas entre si. Se é certo que alguns seriam “misóginos, machistas e diabolizavam o sexo”, outros responderam com doutrinas alternativas que reconheceram, dentro do culto, um papel para a mulher muito mais importante do que o catolicismo alguma vez foi capaz de conceder....

...Assim, não surpreende que César das Neves omita o anti-semitismo presente em quase toda a história da ICAR, desde os textos doutrinários dos primeiros séculos da era cristã ao silêncio cúmplice durante o Holocausto, passando pelas fogueiras da Inquisição. Mas como o fundamentalismo religioso não conhece limites para os seus artifícios de manipulação, o leitor é ainda presenteado com uma comparação entre a propaganda nazi contra os judeus e as críticas actuais à ICAR. Se era para falar de propaganda anti-semita, César das Neves podia ter-se mantido num domínio que lhe é conhecido. Os Evangelhos estão cheios de bons exemplos que o professor poderia ter citado.
Miguel, No tempo dos Assassinos

Concordo com o post todo do Miguel. Os textos do César das Neves, de tão mauzinhos, deixam-nos sem vontade de aprofundar as razões que o movem. O Miguel fá-lo bem, na minha perspectiva. Sendo cristã, não subscrevo nenhuma apologia do cristianismo (ai os integristas) em detrimento de outras religiões. Acredito em Cristo, que extravaza para além do cristianismo.

porque sou crente...

...se querem saber, não sei!
É com a expressão "porque sou crente" que alguém vem parar ao meu blogue. Não sei se encontrou a resposta. Acho que nunca fiz nenhum post a explicá-lo. Com um número que já ultrapassa o milhar, não me predispus a procurar. E mesmo que o tivesse feito, neste momento, se calhar não me servia de nada.
Bem sei que a Igreja me dá muitas respostas prontas a usar para esta questão. E, ainda hoje, um amigo, por carta, agradece e louva a Deus pelo meu testemunho de fé e amor à Igreja. (Arranjou uma boa maneira de me levar à confissão).
Para as razões da minha fé, não me move nenhum medo de castigo ou esperança de recompensa, para uma vida futura. Para as razões da minha fé, basta-me o desejo de procurar Deus. Nem sequer tenho o ensejo de lutar com Ele, como os grandes pensadores e filósofos. Basta-me ser peregrina dos seus desejos.

contra um cristianismo medíocre

...La doctrina de la Iglesia al condenar el aborto –decía en aquel tiempo– “no pertenece ya a la ética pública, o civil, sino acaso a la moral de los católicos y en modo alguno de todos los ciudadanos”. Además una cosa es la ética y otra el ordenamiento jurídico. De ahí la incoherencia de unos obispos al condenar moralmente una ley que despenalizaba el aborto: “¿Cómo pueden «afirmar sin ambigüedad de ninguna clase que la proyectada despenalización del aborto nos parece gravemente injusta y del todo inaceptable»? ¿No infieren del juicio moral que pronuncian sobre el aborto la condena moral de una ley que lo despenaliza? ¿Acaso ignoran que ninguna ley puede aspirar a reflejar en su formulación todas las exigencias éticas? ¿No podrían haber dicho también, sin renunciar a su moral, que una ley que despenaliza el aborto sin aprobarlo o reprobarlo moralmente responde mejor a las exigencias de una ética pública? Es en torno a estas preguntas donde gira la ceremonia de la confusión”
Y añadía una consideración que no quisiera dejar caer hoy en saco roto: “Si la Iglesia insiste en defender con la ley lo que ella entiende que es una exigencia moral del Evangelio, tendrá que acostumbrarse a un cristianismo mediocre” en el que los fieles terminarán confundiendo lo moral con lo que es simplemente legal y a la inversa. Lo que vendría a ser lo mismo que confundir a Dios con el Cesar y a la liturgia con la política.

José Bada Panillo

Ler artigo todo aqui

É coisa do coração

...Nadie ha logrado convencerme racionalmente de la existencia de Dios, pero tampoco de su no existencia; los razionamentos de los ateos me parecen de una superficialidad y futileza mayores aún que los de sus contradictores. Y si creo en Dios, o, por lo menos, creo creer en Él, es, ante todo, porque quiero que Dios exista, Y después, porque se me revela, por vía cordial, en el Evangelio y a través de Cristo y de la Historia. Es cosa de corazón.

Miguel de Unamuno, Mi Religión

2007-06-18

onomástica

Inventas-me um nome: peregrina. E sou, e sou dos teus desejos.

e se fossem dar banho ao cão?

Os candidatos à Cãmara de Lisboa, à falta de problemas urgentes para resolverem, andam todos a pronunciar-se sobre uma nova localização para o IPO. Fala-se em Barcarena. Eles querem que continue em Lisboa. Eu também. Mas a funcionar em condições. Não com aperelhos de mamografia que só funcionam com o ar condicionado no máximo, nem com listas de espera para as fazer, com datas já do ano que vem. Tenham juízo e vergonha.

os inimigos do cristianismo

A inquietação que os ateus sentem em relação aos crentes, é similar à que a sua descrença provoca nos que crêem. Em vez de buscarmos Deus, caçamos os fantasmas uns dos outros.


Na sua prédica semanal monsieur César da Neves avança contra os inimigos do cristianismo e alguns deles são, pasme-se: Dan Brown, Harry Potter, erotismo, a República... e utiliza termos como boçais, deboche. Parece ainda não ter reparado que nos evangelhos, entre os amigos de Jesus, se contam "endemoninhados", prostitutas, pecadores.



Os maiores males que nos podem atingir nunca vêm de fora, mas de dentro de nós mesmos. Jesus também deixou este aviso.

é pena...

...que se perca mais tempo na delação do pecado dos homens, do que no anúncio do perdão de Deus.

Bom dia

Estou certa de que não existe Deus no sentido em que estou certa de que nada de real se assemelha àquilo que eu concebo quando pronuncio esse nome. Mas aquilo que eu não posso conceber não é uma ilusão.

Simone Weil, in 'A Gravidade e a Graça'

2007-06-16

bom fim-de-semana


Na minha angústia clamei ao SENHOR: o SENHOR escutou-me e pôs-me a salvo. (sl 118,5)
Francisco Metrass 1825-1861
Só Deus, 1856
Museu Chiado,
Lisboa

2007-06-15

a fé ajuda ou entorpece a felicidade?

"Crisis de Dios, crisis del hombre”, es el título del último artículo publicado por el obispo de Asidonia-Jerez, monseñor Juan del Río, en este caso con el objeto de analizar si “la fe cristiana ayuda o entorpece la felicidad humana”.
El obispo cree que a pesar de saber “mucho de lo que sucede a nuestro alrededor”, sabemos “poco del enigma que somos cada uno de nosotros”. En este contexto se pregunta si “la fe cristiana ayuda o entorpece la felicidad humana; si “es más humana esta vida cuando se niega toda referencia al cielo, a la vida eterna” o si “puede el hombre prescindir tan fácilmente del anhelo de eternidad que llevamos inscrito en el corazón”.
...Las respuestas no pueden venir de un “Papa Estado” que con sus leyes y planes sociales saque al ciudadano de la negritud existencial en que se ve inmerso”, ni de los “cielos” y “paraísos” artificiales fabricados por la sociedad de consumo, que “no resuelven la razón de porque vivir, solamente distraen, alienan u ofuscan la mente”.

Tanto pode ajudar, como entorpecer, direi eu. Se se vive na equilibrada tensão entre aquilo que se é e o que se espera, ajuda. Se fecha a pessoa a mudar o que é a sua vida e a viver já um pretenso paraíso, entorpece.

bom dia


Georges de la Tour, 1630 St Jérôme

2007-06-14

Vaticano censura Amnistia Internacional

O presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz (CPJP), Cardeal Renato Martino, anunciou a "suspensão" dos contributos financeiros das instituições católicas à Amnistia Internacional (AI) devido à tendência "abortista" desta organização de promoção e defesa dos direitos humanos.
Numa entrevista ao National Catholic Register, o presidente do CPJP manifestou-se "amargurado" pelas "posições abortistas" da AI, sublinhando que o apoio à despenalização do aborto é "uma traição à finalidade institucional da organização".


Pedir a despenalização não é o mesmo que promover o aborto. E a AI tem um trabalho na promoção dos direitos humanos que é impossível ignorar. Mas o Vaticano gosta de ver assim o mundo; a preto e branco. Bons para um lado e maus para outro.

isto é um post rápido que tenho pouco tempo e muito para fazer

Leio que o Papa Bento XVI sugere que se procure na Igreja o Amor de Deus e não os escândalos. Alguém me manda um e-mail com a notícia de declarações de um teólogo da Libertação, e assim, a justificar a sua recusa, em aceitar as suas ideias.

E uma pessoa minha conhecida, ontem, chega-se ao pé de mim e diz: - tu também mentes. Ouvi-te a dizer uma mentira. És católica, isso não é pecado? Santa ingenuidade, pensei eu! Mas pedi que me elucidasse sobre a mentira em que me tinha apanhado. Depois de saber qual era, disse-lhe que não era mentira. Que o que lhe tinha parecido uma mentira, não o era, de facto. Não ligou muito à minha explicação, porque o importante para ela era a impossibilidade de eu ser católica e mentir.

Não há pessoas perfeitas, nem grupos sociais perfeitos. Sejam religiosos ou não. A Igreja comete actos que escandalizam, os teólogos da Libertação cometem e cometeram erros ideológicos e de práxis e eu também minto, se for caso disso. Não quer dizer que todos, não busquemos Deus. E que O anunciemos, no meio de actos errados.

bom dia


William Congdon-analogia della'icona
1912-1998

2007-06-13

afinal era sem álcool...



Confesso que quando vi a notícia de que freiras espanholas andavam a testar as virtudes da cerveja, imaginei logo asa orações da completas um bocadinho mais animadas, e quem sabe, uma visãozita ou outra. Mas a cerveja (sabe-se agora) era sem álcool.


Mas para que serviu o estudo? A generosidade e consecutiva publicidade, são para aumentar o consumo de cerveja? Qual a bondade disto?

mais um pouco de publicidade regional


e a divulgar mais um producto regional, que acompanha muito bem os "beijinhos" ( umas bolinhas ocas envoltas em açúcar), aqui fica para amostra.

É um licor. A receita é segredo. A embalagem é o que se vê.

santos populares


Enquanto os lisboetas andam entretidos com o S. António, eu posto o Zé Povinho, que segundo o Lino, fez ontem 132 anos. Como isto é um blogue sério (ts, ts, ts) posto-o numa pose mais comedida.

bom dia



Marc Chagall - lovers

2007-06-12

com âncora nº 6



tenho medo das alturas e sofro de vertigens, mas estou a ficar perita, na arte de te acompanhar, na montanha russa das emoções.


uns dias, apareces-me lesto na magia e no engenho de me iludir. Outros, enfadas-te da minha presença, e não há arte nem lei que te furtem ao mutismo.


lanço-te poemas e adivinhas como bolas de sabão. Uns dias sopras, outros voltas-me as costas. já, já me habituei a esta rotina do "sobe e desce". construi asas de fumo para os dias altos e nos baixos, tricoto. no próximo inverno, não passaremos frio, meu amor.


bom dia


SOBRE LA CONTRADICCIÓN
Si extiendo una mano encuentro una puerta
si abro la puerta hay una mujer
entonces afirmo que existe la realidad
en el fondo de la mujer habitan fantasmas monótonos
que ocupan el lugar de las contradicciones
más allá de la puerta existe la calle
y en la calle polvo, excrementos y cielo
y también ésa es la realidad
y en ésa realidad también existe el amor
buscar el amor es buscarse a sí mismo
buscarse a sí mismo es la más triste profesión
monotonía de las contradicciones
allí donde no alcanzan las leyes
en el corazón mismo de la contradicción
imperceptiblemente
extiendo la mano
y vivo.
Aldo Pellegrini
Argentina, 1903/1973

imagem-Edward Hopper-excursion

2007-06-11

a solidão do abismo




No instante seguinte ao dizer, existe o abismo da resposta. Abismo de profunda solidão. Que pode manter-se na resposta. Porque há sempre resposta, mesmo no silêncio.

Dialogar sem "redes", é aceitar todas as respostas.

impressões

resumindo: nunca somos uma página em branco.

agraciado e bem

O Bispo Emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, foi agraciado pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com a Grande Cruz da Ordem Militar de Cristo, durante as comemorações em Setúbal do 10 de Junho.

Contra quem defende que o lugar dos padres e bispos é na sacristia, (eu não concordo com isso, embora sabendo que é uma espada de dois gumes), o D. Manuel Martins é um bom exemplo que o lugar do Bispo é no meio do seu povo. E o povo é a cidade toda, não apenas os fiéis da missa de domingo.

Em tempos muito críticos da cidade de Setúbal; desemprego, fome, a voz do Bispo fez-se ouvir a reclamar e chamar a atenção para os problemas das pessoas.

É falsa a dicotomia alma/corpo, também é falso que o Bispo só existe para a Catequese.

"apenas" exploradores

Roubo o termo ao UPB para encontrar uma definição que designe os utilizadores da Net, nomeadamente autores e "frequentadores" da blogosfera.

São muito poucas as pessoas que me conhecem pessoalmente e sabem que tenho um blogue. Mesmo nessas poucas, frequentemente ouço o aviso de "cautela". E há dias, alguém me falava em termos depreciativos das pessoas que andam nestes meios. Não argumentei muito, não valia a pena. Mas a verdade é que, os mesmos que andamos por aqui, andamos na vida social, laboral, familiar etc. E é com os mesmos sentimentos, atitudes que o fazemos. A dificuldade em encontrar pessoas com quem nos identifiquemos, com quem desejemos passar de um conhecimento superficial a um relacionamento mais próximo são as mesmas que sentimos do lado de cá do écran. Somos então o quê? Exploradores, pois claro.

bom dia

nada de novo neste dia! Excepto o peso da noite de que ainda não me aliviei. Resolvi começar a ler a "Espera de Deus" de Simone Weil. E foi pesadelos a noite toda. Acordar a sufocar, adormecer e voltar a acordar ainda pior. A espera de Deus é violenta, tal como a noite escura. E a vida e o amor.

2007-06-09

bom fim-de-semana


O temor apoderou-se de todos, e davam glória a Deus, dizendo: «Surgiu entre nós um grande profeta e Deus visitou o seu povo!» Lc 7,16

2007-06-08

ode ao egoísmo

O ON, com quem mantenho uma discussão alguns posts abaixo, diz no seu blogue que "o egoísmo é o motor da sociedade em que vivemos". Eu pergunto: então o amor é os travões?

É uma discussão que exige racionalidade, para não se cairem em extremismos que escaparão à realidade. Será também a velha discussão de que os fins justificarão os meios?

verdade de Jesus # 3

Mas Jesus disse-lhes: «Não é preciso que eles vão; dai-lhes vós mesmos de comer.» (Mt 14,16)

Ainda há na Igreja, quem ache que este mandato de Jesus, se refere apenas às necessidades espirituais do Homem. E relativize todas as outras.
Nos homens existem várias fomes. E é a todas elas que se deve saciar. Tal qual Ele fez.

National Geographic

Picaste-te com a história dos diminutivos. Percebi-o muito bem, quando me perguntaste porque não tinha falado há mais tempo. Respondi que tinha deixado pistas suficientes -que a cada beijito, respondia com beijos.

Ainda a procurares uma situação confortável e fazendo jus ao ditado: "a melhor defesa é o ataque", disseste que costumas respeitar as diferenças. E a disfarçar o despeito, chamaste-me "lindona".

Então, tenho algo mais a acrescentar: cansei-me de ser a gazela e tu o leão que me filas. A partir de hoje sou águia e tu um ratito silvestre.

Portugal ficou mais rico!


Este moço anda por cá!

Bom dia

Femina

Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.

Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.

Não lavei o corpo
pois tinha os rastros
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo,
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.

Nem aqueles lençóis,
Não os lavei,
nem os espelhos,
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.

Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar.


Soares Feitosa
Salvador, madrugada alta, 6.10.95

2007-06-06

Corpo de Cristo


"Onde estás Adão?". Esta sede de Deus vivo procurando o homem no primeiro paraíso é saciado na Comunhão. Adão, o homem do medo, é enfim encontrado, e Jesus o novo Adão, fá-lo ressurgir e emergir até ao amor perfeito que elimina todo o temor.


Jean Corbon in a fonte da liturgia
imagem - Marc Chagall, The crucifixion 1940

o amor cristão

O ON questiona o amor cristão. E a minha opção por ele. Diz: se queremos fundar uma sociedade só sobre o amor ao próximo acabamos por levar as coisas ao extremo.



Bem, a ideia é mesmo levar as coisas ao extremo. Parece é que não se têm conseguido grandes resultados. Um dos que o fez, acabou pregado numa cruz - escândalo imenso, porque alguém consegue suportar tal caminho? Porque o amor (palavra que me faz urticária, confesso), fonte e cume da vida cristã, é continuamente contrabalançada com os nossos interesses egoístas. Só em Deus não é assim.

Deus é amor, foi assim que Jesus nos mostrou e deixou como mandamento: amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força (...) amará o teu próximo com a ti mesmo. (Mc 12, 30-31; cf. Mt 22,37-37; Lc 10,27).


Amor a Deus e amor ao próximo são as duas faces da mesma moeda. O amor ao próximo não se restringe à vivência da caridade, somente com os que nos são próximos. Por isso, a sua praxis não se resume às nossas vivências do dia a dia. As relações inter-pessoais que realizamos, têm como pano de fundo o amor e a justiça. Não só o que queremos para nós, mas que desejamos se estenda a todos os homens. Daí, o necessário empenho, em criar estruturas justas e fraternas.

Por isso, faz sentido o meu post sobre a adopção ou a minha crítica ao Papa e à Igreja sempre que ela não é sinal de Deus.

Na questão da adopção, acho que nunca conseguiria adpotar uma criança deficiente. Creio que estaria acima das minhas forças. Haveria também egoísmo nisso? Era bem capaz de haver. Bem me angustiei antes do nascimento das minhas filhas com a dúvida de alguma possível doença grave. Mas o facto de reconhecer egoísmo em mim, não é impedimento para achar que é um mal. O amor é um bem maior. O egoísmo é um mal. Vivemos no fio da navalha entre os dois.

verdade de Jesus # 2

Mas ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as plantas e descurais a justiça e o amor de Deus! Estas eram as coisas que devíeis praticar, sem omitir aquelas. (Lc 11, 42)

A fé é o acolhimento gratuito do dom de Deus. Acolhimento que não é nenhum salvo-conduto para o Céu, nem garante de superioridade moral sobre ninguém. Acolhimento que, por sua vez, é dom traduzido em obras de misericórdia.




expresso-mail

Constou-me que compraste um curso de psicologia por correspondência, pago em trinta e seis suaves prestações. Antes foi o de dança e o de guitarra eléctrica.

Primeiro, quiseste seduzir-me. Agora, queres decifrar-me. Mas como se decifram os livros que não se lêem? E dei-te tantas oportunidades. Confiaste que bastava um seguro contra fogo, roubos e inundações. E ir mirando a estante.



Inventei receitas novas, comprei um balde de gelo e escrevi as instruções na porta do frigorífico. Até que o fogo me consumisse. Parece que também há cursos de cartomante. Deve haver um capítulo dedicado à leitura de cinzas.

bom dia


Paul Gauguin-study of a nude,1880

2007-06-05

attaque

Faço orelhas moucas sempre que me vens com diminutivos. Sou do deserto, lembras-te? Não me chegam os beijitos, nem as flores ripadas à pressa. Ninguém vive de aperitivos. E é na noite que as coisas acontecem.

démodée

Inventas-me caracóis e vais secando oregãos. A minha capital tem cinco letras, mas já não é Paris.

perguntar não ofende

Cozinhas em fogo lento e chamas-lhe "banho-maria". Já faltou mais para entrar em ebulição.
Depois, vais chorar sobre o "leite derramado"?

surpresa...



quiseste surpreender - ofereceste-me um gato silvestre.
imagem - www.woostercollective.com/

ditaduras...


É uma violência fugir da ditadura das frases feitas. Na fila do supermercado, atiram-me com um: "assim coubéssemos no Céu". E porque não haveremos de caber? Respondo. "Sim, é verdade - estaremos mais mirrados". Ó gente! Afinal é uma questão de espaço! Penso.
imagem- charquinho.weblog.com.pt

borda d'água

Tempo de poisio. Nada dorme nem feneceu. Sob a aparente aridez, a terra germina. A seu tempo os frutos virão.

bom dia


imagem - Sliwa Wisniowa-2005

2007-06-04

a procura do filho perfeito...

Sem querer entrar em julgamentos (cada um é que sabe do que é capaz), mas impressiona-me alguma mentalidade de "procurar o filho perfeito" que reconheço, na procura de crianças para adopção. Se, em relação a um filho biológico, temos de nos adaptar e aceitar as condições da vida que se gerou, porque tanta selecção quando se procura uma criança para adoptar?
Há excepções, claro! Estou a lembrar-me do meu amigo que adoptou uma criança deficiente, dum casal conhecido que adoptou quatro irmãos de idades diferentes. E tantos outros que haverá...mas de acordo com esta notícia, ainda há que mudar as mentalidades das pessoas que procuram crianças para adopção.

No princípio...

Só poderemos entrar na luz que iluminou João, se ultrapassarmos a cortina das especulações teístas e racionais sobre a criação do mundo. No princípio a comunhão de amor da Trindade Santíssima é doação. Esse dom é o princípio de tudo. O Pai "entrega" o seu Verbo e o seu sopro, e tudo é chamado à existência. Tudo é dom d'Ele, manifestação da sua glória: nada é sagrado ou profano, tudo é pura efusão da sua santidade. O nosso Deus não faz isto ou aquilo: dá-Se em tudo o que existe, e isso existe porque ele se dá. Ele diz e isso existe, Ele ama e isso é bom, Ele dá-Se e isso é belo.

Mas a Trindade Santa está mergulhada nessa primeira criação. A tradição desde a sua origem é o mistério de um amor dilacerado. O Pai entrega-se mas quem O acolhe? A sua palavra é oferecida mas quem responde? O Seu Espírito é difundido, mas ainda não partilhado. A criação é puro dom, mas ainda está à espera de acolhimento.

Então chegou o homem. É por este Deus ser santo, que Ele chama o homem a ser a "sua imagem". Homem e Mulher, essa criatura única é essencialmente proposta, não imposta, é a única que não é feita mas que está sempre a nascer, é o lugar da mais profunda Kenose do Deus vivo por ser o tesouro do seu maior amor.

O rio de vida é percorrido por um impulso de ternura, por uma atracção espantosa. A energia do Deus Santo, a sua comunhão de amor, é invadida por um desejo, uma impaciência, uma paixão: "permanecer entre os homens" (Pr 8,31).

Jean Corbon, a "fonte da liturgia"

católica romana

Este fim-de-semana, reconciliei-me um bocadinho com o Papa Bento XVI. Explico: participei de um casamento, numa outra confissão religiosa. E se, por vezes, me atrapalha um pouco o ritual litúrgico católico, com cortejos, símbolos, incensos, bençãos, por outro lado, uma completa ausência desses sinais, remete-nos apenas para a nossa rotineira humanidade.

É bem certo que o Homem é a imagem mais perfeita de Deus. Mas cada coisa no seu lugar. Não basta dizer que estamos em nome de Deus, que o que se está a realizar é sagrado, se não se realiza uma verdadeira acção de conduzir ao mistério. Melhor dizendo, é o mistério que nos conduz, mas tem de haver uma orientação ritual para que isso aconteça.

Com todo o respeito por todos os grupos religiosos, senti-me muito bem por ser cristã católica.

Mãe


N-18/11/1935 - 04/06/1989
imagem - Natividade - Georges de la Tour - 1650


2007-06-02

bom fim-de-semana


Eis o que diz a Sabedoria de Deus:«O Senhor me criou como primícias da sua actividade, antes das suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui formada,desde o princípio, antes das origens da terra. Antes de existirem os abismos e de brotarem as fontes das águas, já eu tinha sido concebida. Antes de se implantarem as montanhas e as colinas,j á eu tinha nascido;ainda o Senhor não tinha feito a terra e os campos, nem os primeiros elementos do mundo. Quando Ele consolidava os céus, eu estava presente;Quando traçava sobre o abismo a linha do horizonte,quando condensava as nuvens nas alturas,quando fortalecia as fontes dos abismos, quando impunha ao mar os seus limitespara que as águas não ultrapassassem o seu termo, quando lançava os fundamentos da terra, eu estava a seu lado como arquitecto, cheia de júbilo, dia após dia, deleitando-me continuamente na sua presença. Deleitava-me sobre a face da terrae as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens». (Prov 8, 22-31)

2007-06-01

apenas um olhar de amor...

Hoje acordei pensando num velho amigo, desses, mortos, que povoam minha cabeceira e dialogam comigo nas noites de solidão. Frederico, o alemão que tem incomodado, as mentes modernas. O homem que fala do último homem, aquele que é puro egoísmo. O que diz que odeia os fracos e almeja a chegada do além do homem, o que fará a ponte para o grande meio-dia.

O Fred tem lá suas idiossincrasias, mas há muita coisa nele que me encanta. Para Nietzsche, o super-homem é aquele que volta a ser criança, na pureza e na capacidade de enfrentar todas as dores. Isso é fenomenal. O que me faz dialogar muito com Nietzsche é essa crítica que eles faz aos fracos. Ele não os suporta. Quer que o homem seja capaz de enfrentar suas mais profundas dores, sem esmorecer, sem se amparar em nada, muito menos em deus. O ser sozinho, rompendo as manhãs, sem medo de nada. Esse pensar me perturba. E digo por quê. É que também admiro a fortaleza. Essa capacidade que algumas pessoas têm de caírem nos poços mais fundos, e subir, apenas com a força de si mesmas. Amo essa gente que não esmorece, que avança, olhos fixos no abismo. Os fortes! Por outro lado, todos os dias me deparo com uma certeza quase pétrea. Nós, os humanos, somos absolutamente frágeis. Somos feito cristal. Basta um sopro, um toque mais apertado, um risco de labareda, e já estamos no chão. Estatelados e sós. Abissal e incomensurável solidão. Quando é assim, a gente olha, com olhos pedintes, que alguém, qualquer um, nos olhe, nos toque, nos dê o braço.

Um simples gesto de amor, uma palavra. Ontem vivi isso. Um homem, desses acadêmicos, que encontro todos os dias e que, altivo, nem me olha. Vinha fragilizado por alguma dor, corpo torcido, caminhar trôpego. Então tropeçou. E eu o amparei com a palavra, amiga e protetora. Ele sorriu e seguiu, ainda cambaleando. Mas, um laço se fez. Um laço de amor, só capaz de existir nestes momentos. Fiquei olhando seu corpo sumir, dobrado de dor. E não pude contem uma furtiva lágrima, por perceber, nele, imensa, essa fragilidade da raça. Pensei no meu amigo Nietzsche e não pude deixar de dizer: meu bom Frederico, esta é uma marca indelével, da qual, talvez, seja absolutamente impossível fugir. Somos fracos e só o que nos fortalece é o olhar de amor do outro, irmão na mesma desdita. Quem sabe essa não seja também nossa verdadeira força. A capacidade de estender esse amor, ao outro, mesmo que o outro não seja sequer conhecido. Isso não seria coisa de Jesus? ... Creio que sim. E Nietzsche respeitava Jesus... "O único cristão", dizia. Por isso sigo, jesuânica!...

Elaine Tavares, jornalista
www.adital.com/

dia mundial da criança...


de todas! porque todas são nossas.

bom dia

esfinge decifrada

Devora-me. Devora-me, por favor,
esfinge – eu te imploro. Nos
côncavos convexos dos teus olhos
de pedra, tu me fizeste presa,
preso, inerte, só; tu me volveste
revolveste e reverteste em pó, em
puro pólen.
Plácidas vacas pastam sutilmente nos campos aromados
dos meus sonhos. Colibris febris
adejam pelos ares. Ao madrugares,
mulher de corpo de leão e rosto
De pedra,
Ter-me-ás sempre junto
A ti, atritando minha pele morna
Em tua frigidez marmórea, asas de
águia não te elevarão do solo. O
campo semelha um xadrez de ananases
todavia são moitas, apenas moitas.
Nada do que sonhei. Que sei eu da
vida? Diga, esfinge querida. Diga.
não aceito nada como resposta. Ou
pouca coisa. Viver é saber.
Os castores sabem os troncos de bétula
para acatar o degelo e roer a
primavera. As abelhas perpetram
minuciosamente seus novíssimos
alvéolos em sua antiguidade hexagonal de mel.
Direi, então, senhora do
mistério, que nada sei alem do meu
papel. Nem é preciso. É preciso
viver. Tudo aceitar e aceitar que
tudo é inculto. Tudo está por fazer.
está-se fazendo. E que tudo, um dia,
vai acabar. Resta-me apenas o espólio
dos meus sonhos. Por isso, senhora daVigília,
tu que dominas o deserto com
a infinidade de teu olhar de pedra,
eu te imploro – devora-me. Devora-me
que só assim poderei decifrar-te.
Decifrar-me.


Ildásio Tavares
N. Brasil, 1940