2007-07-31

reflexos



Ele diz-lhe que se enganou, que não é o dia a chegar, que é o crepúsculo, que eles se aproximam de uma noite nova, que vai ser preciso esperar que passe toda a duração dessa noite para se chegar ao dia, que se enganaram quanto à passagem das horas. Ela pergunta-lhe qual é a cor do mar. Ele já não sabe.
Ele ouve-a chorar. Pergunta-lhe porque chora. Não espera pela resposta. Pergunta-lhe de qual devia ser a cor do mar. Ela diz que o mar fica com a cor do céu - que se trata menos de uma cor do que do estado da luz.
Ela diz que eles talvez tenham começado a morrer.
Ele diz que não sabe nada sobre a morte, que é um homem que não sabe quando amou, quando ama, quando morre. Na voz dele ainda há gritos, mas longínquos, chorados.
Ele diz-lhe no entanto que também ele, agora, pensa que entre eles se deve tratar daquilo que ela dizia nos primeiros dias da história. Ela esconde o rosto contra o chão, chora.


Marguerite Duras in Olhos Azuis, Cabelo Preto

Bom dia

Venho de Tempos Antigos

Deus pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante sorvete de cereja.
Deus: Uma superfície de gelo ancorada no riso.

Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst... eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.

Hilda Hilst

2007-07-30

fidelidade 1918-2007


Ingmar Bergman. Devedores do olhar. Saudade.
imagem- Summer Interlude, 1951

"Deus acha certo mulher apanhar"


só se for maçãs, não é, caro?

Foi com a frase acima que vieram ter ao meu blogue. Também César das Neves (quem mais???!!!), com o título o "Sinistro sucesso de reforma decisiva", diz mais umas "pérolas" no DN. Critica alegremente e com uma ligeireza canalha, coisas como: "Combate à violência doméstica", "Igualdade de género", Política de não discriminação".
Alguém diga a este senhor, que existe vida para além do "condomínio fechado" dele.

...Os detalhes dessa política estão claros no programa do actual Governo. Aí, no capítulo VI, "Famílias. Igualdade e Tolerância", as prioridades das "Novas políticas para as famílias" são o "Combate à violência doméstica", "Igualdade de género", "Uma política de verdade para a interrupção voluntária da gravidez" e "Política de não discriminação". A questão da natalidade está omissa, como todos os aspectos da família normal. Para o Governo, ela é só um cóio de brutalidade e discriminação que o despotismo iluminado dos burocratas deve corrigir....

imagem-desmedidamente.blogspot.com/

utopia do Reino

Numa sociedade onde o Estado resolve, a ciência salva, o "condomínio fechado" dá segurança, os sentidos encontram mil e um motivos de satisfação, não há lugar para o "orai, orai sem cessar", "pedi e dar-se-vos-á", "batei e abrir-se-vos-á".

Bom dia


Corregio,
Portrait of a Gentlewoman, 1517-19
The Hermitage St Petersburg

2007-07-28

Bom fim-de-semana


12*Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, 13suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. 14E, acima de tudo isto, revesti-vos do amor, que é o laço da perfeição. 15Reine nos vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados num só corpo. E sede agradecidos.(Cl 3,12-15)
imagem- Salvador Dali

2007-07-27

"A questão gay:emergência de um novo pensar teológico"

...Para tanto, bem escreve Vigil, ao dizer que, em sentido estrito, Deus ama sem preferências nem discriminações. Deus ama a todos/as igualmente com um amor tão peculiar para cada pessoa, e ao mesmo tempo tão infinito, que não há possibilidade de quantificações nem comparações nesse amor. Toda pessoa pode sentir-se amada infinitamente por Deus. Não é possível falar de "amores preferenciais" de parte de Deus com relação a alguns seres humanos em detrimento de outros. Deus não tem parcializações, nem faz acepção de pessoas. Não o faz por questões de raça, nem de cor, nem de gênero ou de cultura... (9).

Para fins de diálogo da teologia gay com as igrejas é interessante a abordagem que Márcio Fabri faz do diálogo entre teologia e bioética ao propor não um "discurso autoritativo da fé" e nem um "discurso confessional da fé", mas um "discurso argumentativo da fé" como possibilidade de estabelecer relações e chegar a consensos. Mas, pergunta ele: "Como seria uma teologia do sentido provisório, dos modestos amores possíveis?". E responde: "Estas posições apontam para uma forma modesta de discurso em bioética em que, primeiramente, os próprios teólogos/as assumem uma postura de parceiros na busca das certezas; e, com suas verdades teológicas contribuem nesta parceria" (10). Então nos perguntamos: não seria esse um eixo de reflexão a estabelecer entre a teologia e as ansiedades do mundo homossexual, bissexual, transgêneros e simpatizantes ajudando a cada um se descobrir para também se realizarem? Aproveitemos de suas capacidades, suas liturgias, sua moral fundamentada no amor, na doação, na gratuidade, na abertura, no espírito de buscas e ansiedades profundas do sagrado que subsistem em suas vidas.

(Padre Rogério Jolins Martins) - artigo completo aqui

Dentro da Igreja Católica, o que muitas vezes se faz, quando se pretende abordar a homossexualidade, é ir à Bíblia procurar razões para a discriminação. E, tirando do contexto meia dúzia de versículos, pretensamente condenatórios da mesma, legitima-se a discriminação. É o velho hábito católico; de dar mais ênfase ao pecado, do que à misericórdia de Deus.

Não acredito num Deus que faz acepção de pessoas. Até porque, se olharmos com verdade para dentro de nós mesmo, vemos como graça e mácula convivem.

Tem-se falado tanto em Nova Evangelização. Cada um dá uma ideia sobre a mesma. Uma evangelização que não abarque todos, no projecto salvador de Deus, é sempre deficitária. É um anúncio de Deus desfocado.

Bom dia



François Boucher, 1742

La Toilette

2007-07-26

"Um Deus que chora"

...Professar, como se faz no credo cristão, que Cristo desceu até os infernos significa expressar existencialmente que ele não temeu experimentar o desamparo humano e a última solidão da morte.

Um grande biblista italiano recentemente falecido, G. Barbaglio, em seu derradeiro livro sobre o Deus bíblico, amor e violência, refere um midrash judaico (um relato) sobre o choro de Deus. Quando viu os cavaleiros egípcios com seus cavalos serem tragados pelas ondas do Mar Vermelho depois da passagem a pé enxuto de todo o povo de Israel, Ele não se conteve. Chorou. Os egípcios não eram também seus filhos e filhas queridos e não apenas os de Abraão e Jacó?
É rica a tradição bíblica que fala da misericórdia de Deus. Em hebraico misericórdia significa ter entranhas de mãe e sentir em profundidade, lá dentro do coração. O Salmo 103 é nisso exemplar ao afirmar que "Deus tem compaixão, é clemente e rico em misericórdia; não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre… porque como um pai, sente compaixão pelos seus filhos, porque conhece a nossa natureza e se lembra de que somos pó; sua misericórdia é desde sempre e para sempre". Haverá palavras mais consoladoras que estas para os tempos maus nos quais vivemos?

É a partir deste transfundo que deve ser entendida a ressurreição de Cristo. Se a ressurreição não for a ressurreição do Crucificado e com ele de todos os crucificados da história, seria um mito a mais de exaltação vitalista da vida e não resposta ao drama do sofrimento que ele comparte e supera. Assim a jovialidade e o triunfo da vida detém a última palavra. Este é sentido da utopia cristã.

Leonardo Boff in Adital

Bom dia


William Merritt Chase, 1902
Kate Freeman

2007-07-25

dar voz aos Sábios:

Nunca digas que és filósofo - e coíbe-te o mais possível de falar por máximas a pessoas vulgares. Pratica antes o que prescrevem as máximas. Por exemplo: não digas num festim como se deve comer, mas antes come como se deve comer. Que te lembres, em boa hora, como agia Sócrates: sempre fugindo da ostentação, acontecia que, quando pessoas o procuravam para serem conhecidas de filósofos, ele próprio tecia o elogio dos recém-chegados, e aos filósofos os apresentava, tal era o seu desejo de que não dessem por ele.
Se, entre pessoas vulgares, a conversa incidir sobre esta ou aquela máxima, mantém-te em silêncio sempre que possas. Pois, caso contrário, um grande risco podes correr: vomitar de súbito o que ainda não digeriste. E se alguém te disser «Tu nada sabes», e caso não te sintas ofendido por tal despropósito, que saibas começas a ser filósofo. Porque não é restituindo aos pastores a erva comida que as ovelhas lhes provam aquilo que ingeriram. Uma só coisa é verdadeira: uma vez que as ovelhas digeriram o pasto, elas oferecem ao exterior unicamente a lã e o leite. Assim, pois, não ostentes opiniões, através de máximas, entre pessoas vulgares: melhor será que lhes mostres, pelo silêncio, a sapiência que ao longo do tempo foste digerindo.

Epicteto, in 'Manual'
(citador.weblog.com.pt/)

Bom dia

Sem despertar a folhagem

Contemplamos as folhas das árvores
onde estão nossos vestígios de humanidade
com mais apreensão que quietude
pois o vento tratará de apagar tudo,
inclusive o ventoso do teu cabelo
em cujo bosque desejo desaparecer.

Se a magia não fosse passageira, dirias:
"Espera-nos, tempo inexorável!
E deixa que a árvore diga árvore
quando move as folhas"

Francisco Véjar, poeta chileno

2007-07-24

O que é que se diz a uma pessoa que escreve uma coisa destas?

o subsídio de desemprego, em vez de ajudar os desempregados, prolonga o desemprego, sem esquecer os malefícios de toda a ordem que acarreta.» (José Manuel Moreira, Diário Económico de hoje)

via Causa Nossa

O individualismo no seu melhor: "tás desempregado? Azar o teu! faz-te à vida."

fora de estação


hoje tudo me sabe a Outono. O tempo, a ameaça de infecção urinária, a gripe, os votos desactualizados que recebo pelo correio, eu...porque afinal ainda tenho tempo para o verão.

há violência má e violência boa?

Esta pergunta, é-me suscitada pela leitura dum post do Nuno Guerreiro na "Rua da Judiaria" , a propósito do relativismo moral. Onde se opõem actos praticados pelos terroristas e a prisão de Guantánamo. É legítimo atribuir um valor diferenciado à vida?

comentário ao Documento da Congregação para a Doutrina da Fé

...
9. Assim a Igreja Católica renuncia ao monopólio da herança de Jesus e pode entrar num diálogo aberto com todas as Igrejas no pressuposto de que todas se acolham mutuamente e estabeleçam laços de comunhão entre si. Quando os Papas em seus encontros e discursos se referem a estas comunidades como Igrejas não se trata de uma mera concessão à gentileza da linguagem mas o reconhecimento de sua real eclesialidade.
10. Esta está sendo a prática concreta no diálogo ecuménico atual. As Igrejas se acolhem mutuamente e juntas buscam convergências na doutrina, na celebração e no serviço ao mundo especialmente aos mais pobres e na preservação de todo o criado.
11. A Doutrina da Igreja deve partir desta prática já consagrada, na consciência de que ela está sendo fiel a Jesus, aos Apóstolos e aos Evangelhos. Assim como temos quatro evangelhos diferentes, e não um único, que se acolhem uns aos outros, assim existem várias formas de Igreja que analogamente se acolhem reciprocamente em sua diversidade. A comunhão de todas as Igrejas entre si constitui a Igreja de Cristo na terra ou a Igreja de Deus.
12. Lamentamos que este documento antes prejudica que ajuda no diálogo ecuménico. Num momento em que o Planeta Terra pode se transformar num Titanic afundando parece-nos irrisório que se discutam questões internas e no fundo irrelevantes, quando todos deveríamos estar juntos para regenerar e salvar a nossa Casa Comum.
13. O documento se esquece de dizer a todos os fiéis de qualquer denominação eclesiástica e a todos os homens e mulheres que decisivo não é a pertença a esta ou àquela Igreja, se ela se identifica com a Igreja de Cristo ou apenas possui elementos eclesiais. O decisivo mesmo é o amor que tivermos tido para com os condenados e ofendidos da terra a quem Cristo chamou de meus “irmãos e irmãs menores” (Mt 25,40). Eles serão nossos juizes e decidirão de nossa salvação ou perdição. A última frase do Direito Canônico não diz outra coisa ao recordar que “a salvação das almas na Igreja deve ser sempre a lei suprema” (c. 1752). Esta salvação nos vem pelo amor, mensagem central de Jesus e o nome próprio de Deus.
...
Leonardo Boff,
teólogo da libertação

comentário completo aqui

bom dia



Domenico Gnoli, Button, 1969

2007-07-23

e se o pai fosse homossexual?

Fernando Calamita, foi o juiz espanhol da região de Múrcia que decidiu tirar as filhas à mãe por esta ser lésbica, e entregou-as ao pai.

o que é que o senhor juiz fazia às crianças? Remetia-as para adopção?Institucionalizava-as?

Com que direito ainda se descrimina em função da orientação sexual?

universalista

Nunca saberei o que na minha fé (cristã, católica) é fruto de decisão pessoal e/ou herança familiar, social, cultural. Nasci em Portugal numa família católica. Logo, as probabilidades de ser outra coisa qualquer, estavam muito reduzidas. São as minhas circunstâncias.

Mas sendo católica, por tradição e opção, procuro não ser etnocentrista. Os valores que reconheço na adesão a uma fé, não pretendo erigi-los a valores universais, em detrimento de outras profissões de fé, e, até, de quem não professa nenhuma.

E, no entanto, acredito em: 6um só Deus e Pai de todos,que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos. (Ef 4,6) e também: 4que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1ªTm 2,4)

Acreditar nestas verdades expressas pelo apóstolo Paulo, dá-me uma dimensão universalista da fé. Desejo que todos os homens cheguem ao conhecimento da Verdade (que é o próprio Deus). Mas esta opção universalista, não advém dos pontos que encontro em comum com outras vivências da fé (ou até ausência delas) ou do desejo de ser aceite (embora ninguém consiga lidar totalmente com a rejeição, e eu também não). Advém de acreditar num Deus que se revela rico de misericórdia (Lc 15, 11-32). Que por Jesus Cristo, nos diz: Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores (Mt 5,45). Diz isto a seguir a mandar amar os inimigos e a orar pelos que nos perseguem.

Quem estiver atento ao mundo e à vida, só pode dizer com verdade; que o mundo não se divide em bons e maus, mas pessoas que fazem o mal e o bem. Que todos, de alguma forma, temos a ensinar e a aprender.

Portanto, a minha opção universalista, não é uma condescendência humana, é uma obediência que me vem da fé.

em profunda reflexão

Enquanto mastigava a meia torrada, fui lendo a prédica do César das Neves, no DN (não ponho link porque o artigo não vale mesmo a pena). Mais uma vez, qual Sancho Pança desiluminado, atira-se em refrega contra o prazer, a realização pessoal e até o sonho.
Corro os blogues e leio que o David me chama universalista. Parece-me que não o refere como qualidade, mas em crítica.
Enquanto sonho que o César das Neves consiga descobrir o prazer do prazer, para começar a escrever uns artigos mais escorreitos, medito na resposta a dar ao David.

bom dia

Obstinação dos Outros

Deixamos de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.


Millôr Fernandes

2007-07-21

bom fim-de-semana


41O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; 42*mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.» (Lc 10,41)


Num tempo em que as mulheres, necessitavam de purificação só pelo facto de o serem, que tinham um lugar próprio (afastado) para frequentar o Templo, que a sua condição era de tarefeiras a servir os varões e a casa, uma (Maria) rompe essa cadeia opressora, e senta-se simplesmente, aos pés de Jesus a ouvi-lo. É censurada por outra, que sem pensar nem resistir, se acomoda ao papel que lhe coube. Jesus, homem profundamente humano, põe as coisas no seu lugar: louva a atitude da que pára e escuta. Salienta que nem nos homens encontrou aquele acolhimento e alerta para o fundamental - Deus quer dar-se, e tornar as pessoas livres de qualquer opressão.


Dois mil anos depois, a sociedade e as Igrejas ainda não conseguiram resolver bem esta questão. A mulher tem de se desdobrar em mil esforços e tarefas, para conquistar uma dignidade que desde as origens lhe foi negada. Na Igreja Católica continua a ser aceite como a serviçal. Não a que tem dignidade igual ao homem. Pode desempenhar todas as tarefas e serviços, não tem acesso aos ministérios ordenados.
(Degas, repasseuses, 1884)

2007-07-20

"Quando orares, entra no quarto mais secreto..." (Mt 6,6)

Mas também devia ser reconhecido publicamente, oficialmente, que a religião não é mais do que um olhar. Quando pretende ser outra coisa, é inevitável ou que permaneça fechada no interior das igrejas, ou abafe tudo em todo e qualquer outro lugar onde se encontre. A religião não deve pretender ocupar na sociedade outro lugar que não seja aquele que na alma convém ao amor sobrenatural.

O nosso Pai não habita senão no segredo. O amor não vai sem pudor. A fé verdadeira implica uma grande discrição, mesmo em relação a si mesmo. Ela é um segredo entre Deus e nós e no qual nós próprios quase não temos parte.



Simone Weil in A Espera de Deus

Saudade

Mais que a falta da leitura de jornais, o excesso de práticas da vida dá vontade de receber cartas manuscritas. Daquelas que começam por "Minha Querida" e depois contam como vão andando as coisas numa caligrafia que escorre em ritmo calmo até ao primeiro, ao segundo, ao terceiro post scriptum e acaba nas margens em linhas cada vez mais fininhas e cheias outra vez de saudades. Exactamente, Susana.

Bom dia


2007-07-19

e direi mais:

Mas também são precisas eucaristias no alto das montanhas, debaixo da tílias, nos condomínios, nas prisões, nos campos de refugiados, nos refúgios dos leprosos... (dizem aqui), nos prostíbulos, onde duas solidões se encontrem, nas salas de chuto, nas bermas das estradas, nas tabernas do bairro, nos corredores dos hospitais, na cama dos amantes...

(des)investimento

Colecciono instantes perdidos

No pomar dos homens

Mas a beleza persistirá, porque aquilo que não se pode dizer é sempre

Luis Carmelo, Miniscente

a fé é dom

A vontade está ao nível da parte natural da alma. O bom exercício da vontade é, sem dúvida, uma condição necessária à salvação, mas longínqua, inferior, muito subordinada, puramente negativa. O esforço muscular do camponês arranca as ervas daninhas, mas só o sol e a água fazem o trigo crescer. A vontade não opera na alma bem algum.

Simone Weil, A Espera de Deus

perdoai-nos, Senhor!

A Raquel deixou esta oração, dedicada ao "bentinhos", mas eu vou mais longe, e digo que ela anda sempre na boca de todos nós. Não com estas palavras mas com o espírito. Vamos dizendo de muitas formas que somos os "maiores" para disfarçar os medos em que nos perdemos.

"Obrigada Deus, por me fazeres tão puro, tão cioso das Tuas leis e preceitos, tão lavadinho e imaculado, agradeço-te profundamente por não me teres feito pecador, sujo, mentiroso, caluniador, invejoso e arrogante... Se fossem todos como eu, nem precisavamos de Ti para nada..."

Bom dia


Só uma mulher pode entender outra? estamos "condenadas" aos monólogos?

2007-07-18

à procura no jardim:

São bem heterodoxas as procuras neste jardim:

durabilidade do coração
gula espiritual
falso padre
chocadeira doméstica
a invocação da mulher como altar sagrado
quadros antigos de mujeres
ver fotos de fetos humanos
missa de domingo
falar da vida
manter um jardim em boas condições
frieza sexual feminina
deus grego gay
gostar de ti
Cristo luz do mundo
pírulas do frei galvão

Não sei se encontraram o que procuravam.

235 motivos (pelo menos)


Para fazer amor: queimar calorias...entreter-se...por amor...altruísmo...encontrar-se com Deus...




Espera

A busca activa é nociva, não apenas ao amor, mas também à inteligência, cujas leis imitam as do amor. É necessário esperar simplesmente que a solução de um problema de geometria, que o sentido de uma frase latina ou grega surjam no espírito. Por maioria de razão, também assim com uma nova verdade científica, com um verso belo. A busca conduz ao erro. É assim com toda a espécie de bem verdadeiro. O homem não deve fazer outra coisa senão esperar o bem e afastar o mal. No tumulto que constitui a condição humana, a virtude autêntica em todos os domínios é coisa negativa, pelo menos na aparência. Mas esta espera do bem e da verdade é algo mais intenso do que toda a busca.

Simone Weil in A Espera de Deus

Por variadíssimas razões e experiência própria, posso dizer que concordo em absoluto com as palavras acima. Cheguei a essa conclusão depois de muita busca. Será inevitável a busca para se aprender depois a apenas esperar? Não sei. Conheço algumas pessoas que por especial previlégio não precisam de passar por isso. De qualquer forma a espera é sempre activa. É vigilância. Não é "dormência".

Bom dia



Federico Zandomeneghi, 1841-1917

Femme qui se seche

2007-07-17

quem é Omnipotente quem é?!!!



do sítio do costume:www.malvados.com.br/

que nos diz a morte?

Mais importante do que a própria morte, é o que ela diz à vida.
Ainda não fiz a pazes com a morte. Ainda me repugna que tenha de lhe entregar os que amo. Prefiro que ela venha como um ladrão. Não tenha de ser eu a fazer a oferta. No meu caso, acho que pode vir como quiser. Mas, logo se verá...

Esta noite sonhei com a morte. Estava no sopé de uma montanha, e, por duas vezes, ao olhar para o alto, vi dois homens atirarem-se no vazio. A seguir, esperei o alarido de sirenes, o burburinho de quem estava perto, mas não se ouvia nada. E eu sentia-me tolhida como se o silêncio à minha volta me impedisse de agir. Lembro-me de pegar no telemóvel, mas não digitar número nenhum...acabou assim o sonho.

uma barbearia perto de si


Normalmente, a barbearia é coisa de machos. Tipo: "aqui mulher não entra". E eu acho muito bem que se preservem esses redutos da masculinidade. Para ser franca, sempre que descubro que no cabeleireiro a que vou, se anda a sentar muita macheza, parto de malas aviadas.

Mas o Luís, diz que também avia freguesas. Em tempos de crise, uma barbearia ao virar da esquina também marcha.

A Fé é gratuita. Mas requer a nossa obediência e resposta

Há pessoas que tentam fazer elevar a alma do mesmo modo que um homem que saltasse continuamente a pés juntos na esperança de que, à força de saltar todos os dias mais alto, um dia não caísse mais e acabasse por alcançar o céu. Assim ocupado, ele não pode olhar o céu. Nós não podemos dar nem mesmo um passo em direcção ao céu. A direcção vertical é-nos interdita. Mas se olharmos durante muito tempo o céu, Deus desce e leva-nos. Leva-nos facilmente. Como diz Ésquilo:"O que é divino é sem esforço". Há na salvação uma facilidade mais difícil para nós do que todos os esforços.

Simone Weil, Espera de Deus

Bom dia

Berthe Morisot, 1864
At the water's Edge

2007-07-16

bentinhos


o meu cristianismo diz-me (muitas vezes finjo que não oiço) que não posso excluir ninguém, amar a todos e cada um (ai, ai, ai...não podias ter feito isto mais simples?!), e assim sendo, tenho de admitir que não posso ignorar que estes gajos existem. Mas que são uns grande anormais, não há dúvida nenhuma!!!




Num relance, chamam sinistro ao programa 70x7 e modernista (ahahahah, deixa-me rir) ao padre António Rego. E dizem mais isto dos bispos portugueses:
Todavia, acontece que os mesmíssimos Bispos que sabotaram completamente a aplicação do Motu Proprio "Ecclesia Dei", do Papa João Paulo II - em Portugal, a Missa tradicional persiste exclusivamente graças ao apostolado infatigável da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X -, preparam-se agora, e já que não o podem bloquear, para minimizar tanto quanto possível o alcance do Motu Proprio "Summorum Pontificum", mostrando assim todo o seu desdém por uma legítima decisão papal que os atinge no mais profundo das suas convicções de hereges modernistas e progressistas.Deste modo, estes maus pastores, verdadeiros lobos com pele de cordeiro e autênticos cismáticos práticos no sentido efectivo do termo, revelando igualmente não terem percebido nada do que o Papa escreveu na carta anexa ao Motu Proprio e que os tinha como destinatários - se é que chegaram sequer a lê-la… -, não hesitam em ofender os devotos da Missa tradicional, pretendendo reduzi-los, numa imensa demonstração de falta de honestidade intelectual e caridade cristã, a um bando de saudosistas, nostálgicos e românticos.

Se bem percebi, estão ofendidos por serem chamados de "nostálgicos", "românticos" e "saudosistas". Eles chamam os bispos de "maus pastores", "herejes modernistas" (ahahahahahah) , "lobos com peles de cordeiros", "cismáticos" e "desonestos intelectualmente". São mesmo uns bentinhos estes saudosistas românticos.

sem palavras...

...também para isto.

Não resisti!


Hoje precisava de alguma coisa que me enternecesse. Achei. Aqui ;)

sem palavras

para isto!

o culto que Deus quer:"Vai e faz o mesmo" Lc 10,25-37

Não fosse eu suficientemente avisada sobre a natureza humana e o mundo dos homens, e neste momento sentir-me-ia muito desiludida com a "minha" (minha entre aspas porque de confissão católica romana procuro é a Igreja Universal de Cristo) Igreja.

Os integistas exultam porque o actual Papa liberalizou o anterior rito de celebração, e veio mais uma vez clarificar que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo. Como se com estes dois gestos se entrasse só por si, no verdadeiro caminho de Deus, sem mais luta diária, sem mais esforço, sem mais diálogo, sem mais busca de Deus. O caminho de Deus é o caminho do deserto. E para fugir a isto, sempre aparece quem ache que com uns passes de mágica tem o caminho feito.

Segundo os integristas o nosso Deus, é um Deus sempre à espera dos sacrifícios dos homens. Um Deus Magestoso a quem só se chega com cultos dignos, com holocaustos humanos e libações constantes.

Tudo isso podia ser verdade, não tivessemos a Palavra que ainda ontem comungámos:" a Lei não está longe de ti, não precisas de subir aos céus, perderes-te na imensidão dos mares. A Lei está perto de ti; na tua boca e no teu coração" e ainda:"Vai e faz o mesmo." Onde encontares alguma mão para apertares em silêncio, uma cabeça que precise de um ombro para encostar, um olhar a pacificar, uma vida a resgatar..."vai e faz o mesmo que Eu faço".

Quando é que percebemos que o nosso Deus é um Deus próximo? Sem contudo se deixar aprisionar nos nossos esquemas religiosos e/ou humanos!

Que se pusermos alguma barreira religiosa, de raça, de estatuto social entre nós e o outro, estamos a tirar Deus das nossas vidas.


"Não é aqui, deste modo, daquele que Me haveis de adorar, mas no coração condoído e apaixonado"

Bom dia


2007-07-14

2007-07-13

as minhas lágrimas são melhores do que as tuas...


Dentro das experiências terríficas da minha vida, uma delas foi tirar a carta de condução (só muito mais tarde apanhei o gosto de conduzir). E foi por várias razões. Para mim era complicado, articular nos tempos próprios, as instruções que me foram dadas assim que me sentei pela primeira vez a um volante - ligar ignição, meter a mudança, sinalizar início de marcha, olhar retrovisor, travão de mão, pedais...posição das mãos no volante, olhar para a estrada e não para o capot do carro...enfim. Isto multiplicado por umas tantas lições, dadas por um espécime do género masculino, do mais machista que se possa imaginar. Enfim, nunca lhe pus a vida em perigo, mas por várias vezes me apeteceu.

Vem isto a propósito dos comentários a este post. O Migalhas, homem sensível e bom, diz que chorou quando leu o livro (por acaso até me contou o que o fez chorar, mas eu não digo, nem sob tortura). Mas, parece que as lágrimas do Migalhas, não sensibilizaram muito algumas pessoas (lembrei-me do poema da Sophia "As pessoas sensíveis"...), chorar sim, mas pelas "Sandálias do Pescador". Porque, para algumas pessoas, só são boas e legítimas, as lágrimas que se arrancam ao passado (O Povo hebreu também chorou pelas cebolas do Egipto). Esquecem-se do nosso pai Abraão:"Vai para a terra que eu te indicar...". O crente, o cristão olha em todas as direcções; presente, passado, futuro...e vai se ajeitando como pode com as "mudanças". Mesmo que lhe dê ganas, de vez em quando, de matar O Instructor. Porque sem isso, arrisca-se a comer cebolas ad eternum.

am(arg)or

calor, sabor, flor, tremor, esplendor, primor, avassalador, redentor, ardor, actor, motor, vigor, pecador, criador, valor, temor, estertor, pavor, terror, executor, mentor, indutor...

beco

Encostada à parede, em vão tateio, algum rasgo por onde escapar. Só há um; recolher-te.

palavras que se dizem e se fazem

Recordaste-me a primeira palavra que usei contigo: amo. Que bom. Não a usei em vão.

...e mais outro...

Jesus: Mas quem és tu para julgares assim as pessoas?
Deus: E quem és tu para me julgares a mim?

Henrique in Insónia

hoje perdi-me no pomar dos homens

...A busca... O desejo de encontrar o caminho, uma morada. O desejo de encontrarmos quem somos e o que fazemos diante do Mestre. E é ver, ver não só com os olhos físicos, mas com os do coração. Aí encontramos o outro, aquele a quem nos é pedida a entrega. Para e pelo outro. Levantar o cálice e a patena, com Aquele que ali está Consagrado e dizer por, com e n'Ele! Quem é Ele? Não estará no rosto do outro que grita por nós? Acredito que sim... Mas como é que posso dar se eu próprio preciso de receber? Vem e vê... Tal como estás, tal como és... Se te chamo é porque acredito em ti. O mundo em que nos rodeamos pede-nos perfeição a toda a prova, além do mais solicita uma vida com tudo arrumado para se poder avançar... Pede-nos ainda que seja tudo rápido, rápido e ainda mais rápido. Como é que é possível? O ver tem de ser com calma.
...
in O Insecto

"Sem Deus nem Mestras", diz ele

...

Há mulheres em que
o desclique se vê
no verniz das unhas
( de fire para splendeur- não sei
se me seguem)


Ou por um brilho
desconhecido um brilho
maligno nos olhos


Ou pelo silêncio
O riso que falta
(Faz tanta falta
o riso ao amante
que fica no silêncio)
..

Luís Januário, Natureza do Mal

"quem tem ouvidos oiça"

A única Igreja de Cristo?


A Sagrada Congregação da Doutrina da Fé (SCDF) publicou no dia 10 de julho o documento "Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja" com o objetivo de "dar com clareza a genuína interpretação de algumas afirmações eclesiológicas do Magistério", para que "o correto debate teológico não seja induzido em erro, por motivos de ambigüidade".
Neste documento, a SCDF afirma que só na Igreja Católica permaneceram e permanecem todos os elementos da Igreja constituída por Cristo. E que por isso, há a "plena identidade da Igreja de Cristo com a Igreja Católica", a Igreja "governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele".


A partir desta premissa, o documento afirma que, embora as Igrejas Orientais e as Igrejas Protestantes e Evangélicas - que o documento chama de "Comunidades separadas" - possam servir de instrumentos de salvação por parte do Espírito, estas careceriam de elementos fundamentais presentes somente na Igreja Católica. As Igrejas Orientais são reconhecidas como Igrejas porque teriam verdadeiros sacramentos em virtude da sucessão apostólica, mas lhes faltaria o reconhecimento do papado (que a SCDF considera um dos princípios constitutivos da Igreja de Cristo). Quanto às Igrejas Protestantes e Evangélicas, chamadas de "comunidades eclesiais" pela SCDF, o documento diz: "segundo a doutrina católica, tais comunidades não têm a sucessão apostólica no sacramento da Ordem e, por isso, estão privadas de um elemento essencial constitutivo da Igreja. Ditas comunidades eclesiais que, sobretudo pela falta do sacerdócio sacramental, não conservam a genuína e íntegra substância do Mistério eucarístico, não podem, segundo a doutrina católica, ser chamadas ‘Igrejas’ em sentido próprio".

Como próprio documento diz, esta é a doutrina católica interpretada ou definida pelo Magistério do Vaticano. Esta doutrina revela mais como este papado e a SCDF se vêem e vêem a Igreja Católica e as outras igrejas cristãs, do que como Deus salva a humanidade ou actua no meio de nós. Isto é, este documento revela mais sobre os seus propositores do que sobre a "visão" de Deus sobre a Igreja de Cristo. Afinal, como São Tomás de Aquino já dizia, de Deus nós sabemos mais o que Deus não é do que o que Deus é.

Eu não quero discutir aqui a validade teológica ou não desta interpretação dada pela SCDF. Eu fiquei mais pensativo sobre o que leva as pessoas escreverem e aprovarem este tipo de documento que dificulta ainda mais o diálogo ecuménico que todos - inclusive a Igreja Católica - dizem ser importante, tanto para o futuro do cristianismo quanto para a construção de um mundo onde culturas e religiões diferentes possam conviver sem conflitos. Talvez a preocupação delas seja mais interna - a coesão e o fortalecimento da Igreja Católica -, do que o diálogo com os diferentes e com o futuro da humanidade. E, talvez, esta preocupação seja tão grande, tão centrada em si, que não permita reconhecer a existência dos outros e, assim, os seus próprios limites e ambigüidades. Pensando sobre este desejo obsessivo de superar a ambigüidade da condição humana e também da própria Igreja (que desde o início do cristianismo sempre se assumiu como "santa e pecadora"), eu me lembrei de algumas reflexões de Erich Fromm (no seu livro "A anatomia da destrutividade humana").
Ele descreve "um estado da experiência em que só a própria pessoa, seu corpo, suas necessidades, seus sentimentos, seus pensamentos, seus atributos, tudo e todos que lhe pertençam são experimentados como plenamente real, enquanto que tudo e todos que não formam parte da sua pessoa ou não constituem objecto de suas necessidades não são tidos como interessantes, não são plenamente reais, são percebidos apenas por meio de um reconhecimento intelectual, enquanto afectivamente sem peso e sem cor" como narcisismo.
E para ele o narcisismo não é um fenómeno somente individual. "O narcisismo de grupo tem importantes funções. Em primeiro lugar, incrementa a solidariedade e a coesão do grupo, e [...] Em segundo lugar, é extremamente importante como elemento que dá satisfação aos membros do grupo e em particular àqueles que tenham poucas razões para se sentirem orgulhosos e de alguma valia". Além disso, Fromm nos alerta que "o narcisismo de grupo é uma das fontes mais importantes da agressão humana, e, ainda assim, esse facto, como todas as outras formas de agressão defensiva, é uma reacção a um ataque a interesses vitais". Por isso, o narcisismo de grupo é tão "popular" nos mais diversos sectores da vida social, seja no campo da economia, política ou da religião.
Eu não estou afirmando que este documento expressa um "quê" de narcisismo, nem que este fenómeno não possa ocorrer em outras Igrejas cristãs ou em outras religiões. É um assunto muito complexo para afirmar algo assim. Eu só quis compartilhar estas reflexões de Fromm que me surgiram ao ler o documento. Se esta lembrança tem algum sentido, talvez ela possa nos ajudar lembrando-nos que a missão das Igrejas cristãs não consiste em se anunciar como algo pleno e absoluto, mas em servir como uma comunidade onde as pessoas confirmam e fortalecem a fé para viver, na ambigüidade das nossas vidas, a missão de anunciar a boa-nova de Jesus Cristo. Só no trabalho conjunto, com pessoas e Igrejas cristãs ou não, para anunciar o Reino de Deus, talvez nós possamos ter uma pequena experiência do que é ou pode ser a verdadeira Igreja de Cristo. Afinal, Deus não se encarnou como cristão, mas como servo e se fez humano.


Jung Mo Sung
Adital
* Professor de pós-grad. em Ciências da Religião da Univ. Metodista de S. Paulo e autor de Sementes de esperança: a fé em um mundo em crise

("sublinhados" meus)

Bom dia

...
Todos os dias te vejo irremediavelmente partir e, em almejado olhar, chegar.
Tu, em passos que até mim te trazem, por aquela azinhaga aformoseada pelos sinais da cerimónia do reencontro: a passadeira de urze-branca e trovisco, salpicada de níscaros, aqui e acolá; o balcão arborizado de aves orquestradas; os odores primaveris da transpiração alegre das flores; os colossais guardas de granito em formatura sorridente… Os majestosos castanheiros, mordomos que recebem em vénia a sua Senhora...


in Galga Courelas

2007-07-11

cinco livros - Vaticano 2035


O último desta série de cinco livros lidos, foi-me emprestado, com a recomendação de que era muito bom. E foi uma boa surpresa. Embora eu preferisse que, em vez do formato romance, tivesse a forma de ensaio. Questão de gostos. No meu, acho que assim lhe retira alguma "credibilidade". Mas isto será preconceito da minha parte. Assim, como gostava que o autor assumisse a sua identidade e não usasse o nome de Monsenhor Pietro de Paoli. Tão só porque estou um bocado cansada de andar sempre a ouvir em forma de "segredo" o que devia ser dito abertamente. Alguns fazem-no e pagam por isso. Na Igreja Católica todos têm lugar, menos os que ousam pensar demasiado pela sua própria cabeça.


A trama do livro inicia-se em 2013, logo a seguir ao papado de Bento XVI (actual Papa). Num período em que a humanidade enfrenta uma epidemia de dimensão mundial. aproveitando-se disso (onde é que já vimos isso?), floresce o obscurantismo religioso. Uma facção com o nome Templários de Cristo conquista o poder na Igreja Católica e elege um Papa que inicia uma perseguição aos sectores mais heterodoxos.

O futuro Papa que tem o nome de Giuseppe Lombardi, e que se chamará Tomé I, entra na "clandestinidade" e dá início a um blog.


Giuseppe um seminarista promissor, conhece Chiara numa Jornada Mundial da Juventude e em poucos dias, desiste da ordenação (perdendo por largos anos a amizade do seu professor de Teologia) e casa. Tem duas filhas e fica viúvo, pois Chiara morre vítima da epidemia de "Snov". Aí, o homem firme, robusto, cede totalmente ao desgosto e deixa filhas, família, amigos e quem sabe (não está explícito no livro) até a própria fé e parte para um trabalho de desterrado, onde o esforço físico lhe iniba a dor da alma. No limite, um amigo consegue recuperá-lo e trazê-lo de volta à vida.


Segue-se um percurso de ordenação sacerdotal, desterro na Índia, diplomacia (ganha por duas vezes o Prémio Nobel para a Paz) e finalmente a eleição papal. Depois de o seu grande amigo ser assassinado pela facção integrista da Igreja. E aí começa um papado breve no tempo mas rico em mudança e reforma. Um Papa profundamente humano que toma decisões para a Igreja, também em jantares de amigos.


Entre as medidas reformadoras acontecem medidas de acolhimento a quem abandonou a Igreja, mudanças no matrimónio, na visão da sexualidade, nos ministérios ordenados (ordenação de homens casados), atribuição de tarefas e do título de cardealas a três mulheres. Mas o mais importante e que preside a essas medidas reformadoras é o pensamento que o guia:"Este mundo não deve ser julgado, está salvo. E o que salva o mundo é o amor. Por isso, digo-vos: amemos, não tenhamos medo. (...) Amai loucamente, com um coração decidido, sem economizar nada", "A missão da Igreja junto dos homens e das mulheres deste tempo não consiste em julgá-los nem em condená-los, mas em lhes anunciar um Deus misericordioso..."

Bom dia

Simon Vouet, Toilet of Venus, 1628-1639
City Art Museum, Cincinatty

2007-07-10

"Vaticano reafirma "exclusividade" da Igreja Católica"

Eu pensava (como sou ingénua) que já tinhamos ultrapassado esta fase. Que à Igreja de Cristo é Ele que estabelece as "fronteiras". Como é possível algum diálogo inter-religioso com estas premissas? E cá encontramos para legitimar estas pretensões a "sucessão apostólica". Qual o seu sentido e significado na Igreja primitiva? Houve claramente, da parte de Jesus Cristo, a ideia de fundar as estruturas de alguma Igreja?


Documento da Congregação para a Doutrina da Fé considera que a única Igreja de Cristo é a Católica

A Congregação para a Doutrina da Fé publicou hoje um novo documento, intitulado "Respostas a dúvidas sobre alguns aspectos relativos à doutrina sobre a Igreja". Na linha da declaração "Dominus Iesus" do ano 2000, assinada pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, o texto vem combater o relativismo eclesiológico e definir a Igreja Católica como a única Igreja de Cristo.

O ponto fulcral das cinco respostas apresentadas está no retomar da questão em volta da expressão "subsistit in", presente no número 8 da Constituição Dogmática Conciliar "Lumen Gentium": a "Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica".
A Congregação para a Doutrina da Fé sublinha que a Igreja de Cristo não difere ou se distingue da Igreja Católica, a única que possui "todos os elementos" da Igreja instituída por Jesus.

O debate em torno da palavra "subsiste" levou a que muitos defendessem que Jesus não queria, de facto, fundar uma Igreja e que, caso o tivesse feito, ela seria plural.
No novo documento pode ler-se que Cristo "constituiu sobre a terra" uma única Igreja e instituiu-a como "grupo visível e comunidade espiritual", que "desde a sua origem e no curso da história sempre existe e existirá, e na qual só permaneceram e permanecerão todos os elementos por Ele instituídos".

...
O texto nega que tenham existido mudanças na doutrina católica sobre a Igreja com o Concílio, mas um desenvolvimento.
"O Concílio Ecuménico Vaticano II não quis modificar essa doutrina nem se deve afirmar que a tenha mudado; apenas quis desenvolvê-la, aprofundá-la e expô-la com maior fecundidade", refere o texto, na primeira resposta.
Por outro lado, explica-se o motivo pelo qual as Igrejas Ortodoxas são definidas como Igreja: evidencia-se, a este respeito, a presença dos sacramentos e da sucessão apostólica dos bispos orientais, apesar das divisões.
O título não é atribuído às outras comunidades cristãs nascidas da Reforma, dado que as mesmas não têm sucessão apostólica ou sacramento da ordem, faltando a "substância integral do mistério eucarístico". Nestas observações não se nega que existam numerosos elementos de santificação e de verdade fora da Igreja Católica.
"Enquanto, segundo a doutrina católica, é correcto afirmar que, nas Igrejas e nas comunidades eclesiais ainda não em plena comunhão com a Igreja católica, a Igreja de Cristo é presente e operante através dos elementos de santificação e de verdade nelas existentes, já a palavra 'subsiste' só pode ser atribuída exclusivamente à única Igreja Católica", pode ler-se.


Aqui

bom dia



Suguei o sumo da laranja
e um sabor de lágrimas
misturou-se a ele.
A fruta era da cor da arandela:
luz de poste
que iluminou o caminho
onde paramos e eu te beijei!

Agora há apenas um ponto negro,
de lâmpada apagada,
na distância que nos separa.

Luz que morreu, fria, sem motivação,
uma estrela que se apagou
porque a estrela maior
sumiu por trás do tempo
que se fechou para mim
como a nuvem que encobriu a lua!

Em tudo estás. Naquilo que vejo, no que ouço, no que sinto e imagino. Este sabor de lágrimas misturado ao suco de laranja, poderia ser o teu gosto em minha boca!
Cassandra Rios

2007-07-09

cinco livros - O Barão Trepador

Quem não sonha poder (por momentos, por umas horas, por uns dias...), fugir da rotina e da mediania em que por vezes nos sentimos mergulhados e ter (por exemplo) o seu jardim de luz? Ou então, fazer como o Barão Cosimo Piovasco de Rondó que em 15 de Junho de 1767, decidiu que passaria a viver, exclusivamente, em cima das árvores. Se bem o decidiu, melhor o fez. Em ruptura com a família e ainda adolescente, subiu para uma árvore e assim viveu o resto dos seus dias. Passando de árvore em árvore viveu inúmeras aventuras, reflectiu sobre a vida, a humanidade, apaixonou-se ...Mas....,Montou a cavalo e dirigiu-se ao bosque. Cosimo lá estava, em cima de um carvalho. Ela parou por baixo da árvore, numa pequena clareira.
-Estou farta.
-Deles?
-De todos vós.
-Ah.
-Eles ao menos deram-me as maiores provas de amor...
Cosimo cuspiu.
-...Mas não me chegam.
Cosimo ergueu os olhos e fitou-a.
E ela:
-Tu não acreditas que o amor seja dedicação absoluta, renúncia a si próprio...
Estava ali, na pequena clareira, bela como nunca, e a frieza que apenas tornava nítidos os seus contornos e a arrogância da sua figura não estava muito distante dele, bastava um pouco para a receber nos seus braços ... Podia dizer qualquer coisa, Cosimo sabia que poderia dizer qualquer coisa para ir ao encontro dela, para se reconciliarem, poderia dizer-lhe:"Diz o que queres que eu faça. Estou pronto...", e seria de novo a felicidade entre eles, a felicidade clara, sem obstáculos nem sombras. Mas, em vez daquelas palavras, murmurou:
-Não pode haver amor se não formos, cada qual, nós próprios, com todas as forças.
Viola fez um gesto de contrariedade, que era simultaneamente um gesto de cansaço. E, todavia, poderia tê-lo compreendido, como na verdade o compreeendia e tinha nos lábios as palavras que iria murmurar:"Sabes como eu te amo...", pronta a subir para a árvore, para junto de Cosimo...Moveu os lábios. Mas disse:
-Sê então tu próprio, mas sozinho.
"Mas, então, ser eu próprio não tem sentido...", eis o que Cosimo pensava e pretendia dizer-lhe. Mas, em lugar daquilo, articulou:
-Se preferes aqueles dois vermes...
-Não te permito que desprezes os meus amigos! - gritou ela, e pensava:"Mas a mim só me importas tu, é só para ti, que faço tudo isto!"
-Só eu então posso ser desprezado...
-A tua maneira de pensar!
-Formo um todo com a minha maneira de pensar.
-Então adeus! Parto esta noite. Nunca mais voltarás a ver-me.

O Barão Trepador, Italo Calvino

Missa classe A

Domenico Gnoli, Itália
1933-1969

2007-07-06

cinco livros - História da V.-Abrindo a caixa de Pandora



Um livro de Catherine Blackledge. Como o nome indica é um livro sobre a vagina. Foi com muito gosto (gosto de ser mulher, mesmo) que li este livro. É informativo, formativo e de muito boa e entusiasmante leitura. Recomendo vivamente, sobretudo às mulheres que gostam de o ser e de se conhecer.


Retirei do site http://www.editoradegustar.com.br/. o texto/ resumo a seguir:
É a sede do prazer sexual feminino, a sede da criação da humanidade e o canal do nascimento. É também um potente estimulante sexual. No entanto, sabemos menos sobre a vagina - sua estrutura e sua função - do que sobre qualquer outro órgão do corpo humano. Porque?

A História da V examina como o sexo da mulher tem sido (mal)entendido ao longo dos séculos e mesmo hoje. Há muito se necessitava de uma revisão. Mais de dois mil anos de desinformação resultaram em que no Ocidente não se mostra a vagina nem se fala dela; quando esse órgão é mostrado em público, normalmente isso é considerado pornografia; de todos os órgãos do corpo humano, a vagina permanece o mais nebuloso, mitológico e distorcido. No passado, a Medicina apresentou mal a anatomia sexual feminina e reduziu suas notáveis capacidades à noção de um simples receptáculo passivo. Mas, como mostra este livro, a ciência finalmente começa a revelar as verdadeiras estrutura e função do sexo feminino, e a natureza dinâmica do papel da vagina em relação tanto ao prazer sexual como à reprodução. O resultado é uma verdadeira revolução vaginal.

De um amplo alcance que cobre a pré-história, a história antiga, a lingüística, a mitologia, a teoria da evolução, a biologia reprodutiva e a medicina, Catherine Blackledge desvenda as maravilhas escondidas das formas femininas.
Conteúdo:
1. A origem do mundo
2. Femália
3. Uma revolução de veludo
4. Os segredos de Eva
5. Abrindo a caixa de Pandora
6. O jardim perfumado
7. A função do orgasmo
8. Inúmeras ilustrações em cores e em branco e preto

Sete fatos fascinantes relativos às mulheres:
1. A vulva é uma imagem mais comum de toda a pré-história.
2. A vagina é cega.
3. Os fetos femininos se masturbam no útero, e têm orgasmo.
4. A vagina tem um delicado ecossistema interno capaz de funcionar como guarda-costas e como leão-de-chácara de espermatozóides
5. O nariz e os genitais estão intimamente relacionados, e o nariz também tem um clitóris.
6. O orgasmo feminino se desenvolveu a partir da necessidade de controlar e coordenar o movimento dos óvulos e dos espermatozóides no interior da genitália feminina.

sobre a necessária distinção entre espiritualidade e religião

Um artigo de José Maria Vigil, onde reflecte sobre a dimensão espiritual do homem. Analiza a crise das religiões sobretudo no Ocidente e declara que o que está em crise não é a dimensão religiosa do homem, mas as práticas das diferentes religiões.

Alguns excertos, mas vale a pena ler o artigo na sua totalidade:

... tiene sentido designar como «espiritualidad» a esa dimensión profunda del ser humano, que, en medio incluso de la corporalidad y la materialidad, transciende las dimensiones más superficiales y constituye el corazón de una vida humana con sentido, con pasión, con veneración de la realidad y de la Realidad: con Espíritu.

DISTINCIÓN NECESARIA FRENTE A LA RELIGIÓN

Además de distanciarnos del concepto clásico de espiritualidad, debemos tomar distancia también de un concepto muy vecino, el de «religión». Antiguamente, la espiritualidad se consideraba encerrada en el campo de la religión. Las iglesias y la teología nunca consideraron que fuera de ellas hubiera espiritualidad. Los «santos paganos», los valores éticos de un Séneca o de los sabios y maestros espirituales fuera del cristianismo, no podían alcanzar a tener más que lo que se podría llamar «virtudes naturales», no realmente «espiritualidad». Hoy, este monopolio religioso de la espiritualidad ya no es defendido ni por la teología.

LA CRISIS DE LA RELIGIÓN

...Las religiones, y concretamente el cristianismo, están en crisis, en una grave crisis que hunde sus raíces en un proceso que ya cuenta varios siglos. Hoy, simplemente, la crisis se hace más ostensible que nunca.
No sólo sus instituciones están en crisis: también los sujetos que tratan de vivir esa fe con la mejor buena voluntad sienten el malestar, una sensación de que algo muy profundo no marcha. Juan Bautista Metz ha hablado de la «crisis de Dios» (Gotteskrise), para indicar que la crisis afecta a la raíz misma de la religiosidad. Martín Buber habla del «eclipse de Dios». Küng la considera «crisis epocal». No es pues un punto aislado, algún elemento suelto o alguna dimensión concreta, lo que está en crisis; es el conjunto, la estructura y el ambiente lo que ha entrado en esta crisis inédita.


...En este sentido la espiritualidad es un elemento constitutivo de la persona humana, de toda persona humana, y no es un departamento religioso confesional (aunque podrá vivirse en él) ni un segundo piso metafísico-sobrenatural (aunque esa categorización concreta ha servido a muchos, durante siglos, para dar forma a su compreensión de la espiritualidad). La espiritualidad está tan identificada con el mismo ser profundo de la persona, que espiritualidad viene a ser la calidad humana. Y cultivar la espiritualidad será lo mismo que cultivar la calidad humana.

bom dia



François Boucher, Venus Disarming cupid, 1729

2007-07-05

cinco livros -"As mais belas histórias"


As mais belas histórias é um livro de contos do escritor Hermann Hesse. Normalmente não gosto de livros de contos. Mas estes treze contos de Hermann Hesse, acabaram por variadas razões, tornar-se espelho de algumas experiências pessoais. A nível das sensações. Sobretudo os que retratam a infância.


Em todos eles se espelham conflitos interiores ao ritmo do medo e do sonho. Sonhos concretizados e sonhos derrotados.


Tudo isto agitou o homem solitário, a ondulante luz avermelhada que alegremente se reflectia na calçada húmida, o zumbido dos carros e passos, bem como todo o enredo natural da cidade. Havia vício e miséria, luxo e egoísmo, mas também existiam alegria e brilho, sociabilidade e amor, e, acima de tudo, havia a ingénua irresponsabilidade e indiferença perante o mundo cuja consciência tinha querido alertar e que, sem sentir falta dele, o deixara de lado enquanto a sua sorte de desfazia em farrapos. Todas essas sensações mexeram com ele, puxaram pelos cordelinhos dos seus pensamentos e entristeceram-no.

(Aquele que queria mudar o mundo, pág. 41)

Por vezes agimos, metemo-nos em problemas e saímos deles, fazemos isto e aquilo, e tudo nos parece fácil, despreocupado e facultativo, como se também pudesse ser de outra maneira diferente. Há outras alturas em que tudo o que fazemos é inalterável, não existem compromissos, nada é fácil, e cada respiração nossa é controlada por poderes ocultos, carregados de destino.

(Alma de criança, pág. 163)

Entregue a si próprio, intrujado e abandonado, Aghion permaneceu em frente da igreja. Fechou os olhos e manteve-se direito, todas as esperanlças tinham desaparecido da sua alma, e, angustiado, esperou que os pagãos o apedrejassem. No entanto, após um pavoroso período de tempo, sentiu-se empurrado suavemente por uma mão forte e, abrindo os olhos, viu Deus Pai descer venerantemente a escadaria, enquanto, no lado oposto, uma multidão de deuses do templo descia igualmente dos seus lugares. Depois de os ter cumprimentado, Deus Pai entrou no templo hindu e aceitou, de bom grado, as adulações dos brâmanes. Por outro lado, as divindades, com as suas trombas, o cabelo encaracolado e os olhos oblíquos, entraram calmamente na igreja, acharam tudo a seu jeito, e, levando muitos oradores consigo, houve uma troca de deuses e pessoas entre a igreja e o templo.

(Robert Aghion, pág. 103)

rendida por cem...

Preparei o discurso. Esmiucei os possíveis contra- argumentos, esquematizei miudinho o começo, o decorrer e o final. Mal tinha começado, atiraste-me: lanças mais dogmas do que a Igreja Católica - engraçadinho -, respondi sem graça. Capitulei mais uma vez.

não vais levar a mal...


mas beleza não é fundamental...

borda d'água


Atrás do tempo, tempo vem...

olha quem fala!


O senhor projecto de ditador da República venezuelana, está muito indignado com os bispos da Igreja Católica. E porquê? Tão só porque disseram a verdade.




El caudillo caribeño redobló sus ataques a las autoridades eclesiásticas locales, porque cuestionaron los avances del régimen contra la institucionalidad democrática. Llegó a calificar a dignatarios eclesiásticos de "pervertidos".

bom dia


Paolo Caliari, o Veronese
1528-1588

2007-07-04

cinco livros - "A princesa da Babilónia"



Desafiada pelo ON, para mais uma lista de cinco livros lidos nos últimos tempos ( foram lidos nos últimos seis meses), vou agora fazer de forma diferente: em cada dia falo de um.

Começo pelo livro de Voltaire "A princesa da Babilónia"

“A princesa de Babilónia” é uma pequena obra literária (pelo tamanho, não pelo conteúdo), de leitura muito agradável e instrutiva. É um livro para ler e reler, pois não perde a actualidade dos seus conteúdos. Nela, Voltaire, trata de temas sociais, políticos e até religiosos.

É uma história de amor e aventura, que começa num contexto oriental e se desenvolve por vários países da Europa. Voltaire mostra a sua visão dos mesmos. Visão irónica, acutilante, crítica.

Os personagens principais são o jovem herói Amazan e Formosante, princesa da Babilónia.
No meio de vários pretendes à mão da princesa, surge Amazan, qual príncipe encantado. Depois é uma história de encontros e desencontros. Amazan julgando-se traído pela princesa resolve ir correr mundo. A princesa vai no seu encalce a tentar desfazer o eqívoco. O herói vai encontrando pelo caminho, as mais diversas mulheres que se apaixonam irremediavelmente por ele e a todas resiste (sente-se algum orgulho nisso), até que acaba ele próprio por trair o amor que sente por Formosante, na situação mais improvável.

Alguns pequenos excertos:

A fénix, mais sensata do que Formosante, porque era sem paixão, consolava-a e observava com brandura que era triste castigar-se pelas faltas de outrém; que Amazan já lhe dera signigicativas e numerosas provas de fidelidade para que lhe pudesse perdoar o haver-se esquecido um momento...que depois disso tanto mais constante seria ele no amor e na virtude; que o desejo de expiar a falta o faria exceder-se a si mesmo; que tanto mais feliz seria ela; que várias princesas haviam perdoado semelhantes deslizes, com o que se deram muito bem:citava-lhe exemplos; tal era a sua arte de contar, que afinal o coração de Formosante ficou mais calmo e apaziguado; ela desejaria não ter partido tão cedo; achava que os seus unicórnios iam demasiado depressa, mas não ousava desandar do caminho; dividida entre o desejo de perdoar e o de mostrar a sua cólera, entre o amor e a vaidade...

Os homens que comem carne e tomam beberagens fortes têm todos um sangue azedo e adusto, que os torna loucos de mil maneiras diferentes. Sua principal demência se manifesta na fúria de derramar o sangue de seus irmãos e devastar terras férteis, para reinarem sobre cemitérios.


-A ressurreição, Alteza – disse-lhe a fênix, – é a coisa mais simples deste mundo. Não é mais surpreendente nascer duas vezes do que uma. Tudo é ressurreição no mundo; as lagartas ressuscitam em borboletas, uma semente ressuscita em árvore; todos os animais, sepultados na terra, ressuscitam em ervas, em plantas, e alimentam outros animais, de que vão constituir em breve uma parte da substância: todas as partículas que compunham os corpos são transformadas em diferentes seres. É verdade que sou o único a quem o poderoso Orosmade concedeu a graça de ressuscitar na sua própria natureza.

-Se há uma religião? Todos os dias de lua cheia, nós nos reunimos para dar graças a Deus, os homens num grande templo de cedro, as mulheres em outro, para evitar distracções, bem como todos os pássaros num bosque, e os quadrúpedes num belo prado. Agradecemos a Deus todos os bens que nos proporcionou. Temos principalmente papagaios, que pregam às mil maravilhas.

impressões

Seríamos um bocadinho mais felizes se assumíssemos que o tempo que vivemos é provisório. Que não há felicidade nem infelicidades absolutas. Que não podemos controlar o que na vida verdadeiramente importa; o amor, a saúde, o afecto dos outros, a paz, a justiça.
Que a nossa liberdade se joga entre aquilo que somos capazes de fazer e o que não controlamos. Que ser obediente não é mau. Ser escravo é.

bom dia



Rogier Van der Weyden
Ritratto di donna, 1465,
N. Gallery of Art, Washington

2007-07-03

em dia da festa de S. Tomé...

No Palombella rossa:

Senhor, como poderei suportar o que vi se não te vir? A busca do sentido é o que dá sentido à nossa busca. Deus está aí, nas perguntas mais densas sobre a nossa condição frágil e incerta. Deus não é uma resposta sossegada e nítida. É sempre interrogação acrescida.

Ama o teu próximo como a ti mesmo (Gl 5,14)

...É claro que amor significa muito mais do que mero sentimento, muito mais do que favores isolados e esmolas superficiais. Amor significa uma identificação interior e espiritual com o próximo, de tal maneira que a pessoa não mais o vê como ‘objecto’ ao ‘qual’ se ‘faz o bem’. O facto é que um bem feito a outro como objecto tem pouco ou nenhum valor espiritual. O amor assume o próximo como outro eu, e o ama com toda a imensa humildade, discrição, reserva e reverência sem as quais ninguém pode pretender entrar no santuário da subjectividade do outro. Devem estar necessariamente ausentes desse amor toda brutalidade autoritária, toda exploração, dominação e condes-cendência. Os santos do deserto eram inimigos de qualquer expediente, sutil ou grosseiro, ao qual ‘o homem espiritual’ recorre para intimidar os que acha inferiores a si mesmo, gratificando assim seu próprio ego. Eles renunciaram a tudo o que cheirasse a punição e vingança, por mais oculto que pudesse estar.”

Thomas Merton, aqui

saber deixar-se amar

Deixar-se amar é perder o controlo da relação, como quem perde o pé. Preferimos amar(!), porque no movimento "de mim para ti", sou eu quem comanda as operações; tenho eu o controlo da relação. No movimento "de ti para mim", perco esse controlo. Só que não se pode amar e controlar a relação humana ao mesmo tempo. O paternalista é que controla a relação e não quer largar o controlo.

Na relação, humana ou divina, quem ama em verdade desarma-se e arrisca. O amor inclui um risco. Também há risco na liberdade e no respeito pela liberdade do outro que consiste em deixar que ele nos ame à maneira dele. Não se pode amar sem se deixar amar. Não esqueçamos que o primeiro passo do dom é o acolhimento. Não importa tanto não saber amar a Deus; importa mais saber e deixar que Ele nos ame.

Luís Rocha e Melo, S.J. - O Vento Sopra Onde Quer

cartões, falsos padres...sacramentos

Descobriu-se que um falso padre andava a celebrar sacramentos indevidamente. O bispo de Braga - D. Jorge Ortiga, ficou um pouco embaraçado (como não ficar? é uma situação rídicula!), aconselhou prudência e cuidado para não acontecerem situações semelhantes e agora fala na criação de um cartão de identidade único, para os padres de todas as dioceses.


Uma das minhas frases preferidas é: "há malucos para tudo!" E parece que fingir-se de padre é mais um sintoma de que isso é verdade. Além da questão monetária, que parece que o falso padre não descuidou.


Agora, temos casais que vão ter que repetir o rito da celebração do matrimónio e gente que se andou a confessar a quem não estava habilitado para isso. Naturalmente também celebrou missas etc.


Não sei como se sentem as pessoas que foram enganadas. Espero que encarem a situação de ânimo leve. Se foi com fé que confessaram, pediram o baptismo, comungaram, Deus não deixou de fazer a sua parte. Isto chocará alguns ferrenhos ortodoxos da sucessão apostólica, mas não choca os que escutam o mandato de Jesus:"Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles" (Mt 18,20)


Um comentário anónimo mas que completa muito bem o sentido do post:

A questão é que a Igreja fica um bocado entalada neste tipo de situações. As pessoas confiam nos padres porque lhes reconhecem honestidade e abnegação. A Igreja (apesar de às vezes não parecer) evita ao máximo as burocracias, mas a verdade é que tem que se sujeitar a elas para evitar certos abusos.
A verdade é que houve pessoas que foram lesadas na sua boa-fé; aquele homem, falso e falso padre, mais do que usurpar uma identidade para roubar dinheiro (parece óbvio que era esse o objectivo) abusou da confiança que as pessoas têm no sacerdócio e violou a hospitalidade com que foi acolhido nas comunidades por onde passou.
Os Sacramentos são sempre celebração da Comunidade (mesmo que apenas com 2 ou 3, como tão bem lembra a MC) e serão válidos por isso, pois aí está Jesus Cristo.
É claro que Deus nunca falha, mas é para o confirmar que a Igreja existe.

bom dia

A realidade me fere.

Prefiro a etérea imagem do sonho
ao rosto grosseiro da verdade
que é um palavrão horrendo,
estorcendo a boca do povo.
Sempre a fome, a insatisfação,
o desajustamento!
Eu me imponho sonhar!

E esqueço a vida!

Sou como a cascata
que geme dia e noite
eternos lamentos.
Sou frágil como a espuma rendilhante
dos rios que borbulham
nas veias da terra,
correndo grotões
para cair nos abismos...

Eu amo!

Sou pedaço de mar,
que em ondas de vento em vento
rola pelas praias
à procura de repouso.
O tumulto dos meus sentimentos
assemelha-se ao oceano em tempestade!

Eu sofro!

Sou a água cristalina
que canta no despenhadeiro,
enquanto rola pelas pedras.
A dor de amar é doce!
Minhas emoções se quebram
como sonhos que terminam
ao descerrar das pálpebras.
Sou uma das Náiades
que caiu no rio Flegetonte!

Eu choro!

Sou um lago sereno
cuja água flui dos lábios de sátiros.
Os meus pensamentos são
para criaturas apaixonadas
que se enlevam nos sonhos de amor!
Sou fonte de néctares raros e ebriáticos,
onde a ilusão vem matar a sede!

Sou feliz às vezes!


Cassandra Rios

2007-07-02

o que é o Homem? #2

...O Homem é um ser paradoxal. Somos bípedes sanguinários, capazes de sadismo feroz. Inventamos máquinas de guerra brutal e instrumentos de tortura indizível. Pilhamos, massacramos, somos de uma ganância ilimitada, de uma vulgaridade ridícula, de um materialismo rasteiro. No entanto, como escreveu o agnóstico George Steiner, "este mamífero desgraçado e perigoso gerou três ocupações, vícios ou jogos de uma dignidade completamente transcendente. São eles a música, a matemática e o pensamento especulativo (no qual incluo a poesia, cuja melhor definição será música do pensamento). Radiantemente inúteis, estas três actividades são exclusivas dos homens e das mulheres e aproximam-se tanto quanto algo se pode aproximar da intuição metafórica de que fomos realmente criados à imagem de Deus".

É por isso que, apesar dos avanços das ciências humanas, da genética, das neurociências, que devem ser maximamente promovidos, permanecerá, íntegra, a pergunta: o que é o Homem?


Anselmo Borges in DN 30/06/07

como sou obediente...

vou responder ao repto da Joana.

os últimos cinco livros que li:

O Estrangeiro - Albert Camus
Viver para contá-la - Gabriel Garcia Marquez (mais uma vez verifiquei que a maior obra de um homem é ele mesmo).
O Nó do problema - Grahm Greene
Olhos de cão azul - Gabriel Garcia Marquez
O Som e Fúria - William Faulkner

estou a ler entre outros - Espera de Deus - Simone Weil e Totalidade e Infinito - Emmanuel Levinas

Passo aos felizes contemplados:

Pedro - Na sacristia, Lino - tsofsilence, Luís - Casario do Ginjal,
Fernando - A bordo (quero muito saber que leituras te andam a pôr tão sintético e certeiro),
David - Small-church

intuição

acho que o Homem é um projecto grande demais, para terminar em qualquer morte.

a Igreja Católica está viva e recomenda-se

Apenas muito machista, mas não se pode ter tudo, não é verdade?
Ontem foram ordenados mais cinco presbíteros para a Diocese de Lisboa. E quatro diáconos permanentes. No cortejo litúrgico, ainda participavam umas adolescentes, acomodadas a uma situação aberrante e injusta. Nunca passarão de auxiliares do serviço do altar. E não numa celebração da natureza da que aconteceu nos Jerónimos, onde só podem participar auxiliares do género masculino.

E os restantes leigos? Acho que estão bem na actual situação. De notar que a maioria dos participantes (e eram alguns milhares,)na celebração dos Jerónimos, eram claramente das zonas rurais da Diocese. Isto terá significados e consequências.

bom dia

Tuas palavras, Amor

Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!
Eu não as tinha pressentido,
eu era como a terra sonolenta e exausta
sob a inclemência do céu carregado de nuvens,
quando, igual a uma chuva torrencial de verão,
tuas palavras caíram da altura em cheio
e se infiltraram nos meus tecidos.

O' a minha pletora de alegria!...
As árvores bracejaram recebendo as bátegas entre as ramas,
as corolas bailaram numa ostentação de taças repletas,
os frutos amadurecidos rolaram bêbedos no solo.
E eu vivi a minha hora máxima de lucidez e loucura
sob a chuva torrencial de verão!

Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!...
Minha alma era um rochedo solitário no meio das ondas,
perdido de todas as cousas do mundo,
quando, ao passar dentro da noite na tua caravela fuga,
tu me enviaste a mensagem suprema da vida.
A tua saudação foi como um bando de alvoroçadas gaivotas
subindo pelas escarpas do rochedo, contornando-lhe as arestas,
aureolando-lhe os cumes.

E a minha alma esmoreceu ao luar dessa noite,
ilha branca da paz, num sonho acordado...

Amor, como são belas e misteriosas as tuas palavras!...

Henriqueta Lisboa – do livro: Velário (1930 – 1935)