2007-08-01

perdoar é preciso

38«Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. 39Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. (Mt 5,38-39)

Foi ontem lida a sentença para António Costa, o assassino de três jovens suas conterrâneas. O juiz aconselhou a que, durante o tempo que vai estar preso, pense nos actos que praticou.

Eu penso no longo "caminho" a percorrer pelos familiares das vítimas, pelos familiares de António Costa, por ele, para conseguirem superar tamanhas ofensas e encontrarem todos a reconciliação que não só é necessária como indispensável, para ultrapassarem as diversas dores que cada um sente.

Que sentido tem o perdão? Sobretudo num tempo em que ganhou forma uma expressão como esta:"as desculpas não se pedem, evitam-se". Sabemos que em nós convive o mal e o bem. Que somos capazes de nos ultrapassar em gestos de generosidade, mas também de cair irremediavelmente no mal. A única atitude para ultrapassarmos esta nossa condição, é o perdão que mutuamente pedimos e exercemos.

A atitude de vingança, só nos fará a todos, encerrarmo-nos no círculo do mal. O perdão, pelo contrário, liberta.

Como sou crente, acho que é Deus que nos dá a capacidade de perdoar. Sem essa força, como poderá um pai e mãe perdoar ao assassino de sua filha?

7 comentários:

  1. em relação ao "dar a outra face" entendo precisamente o exercício do perdão.

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  2. Imaginando-me numa situação semelhante, só mesmo pelo poder de Deus conseguiria perdoar. Ainda mais neste caso, em que o homícida não mostra qualquer remorso ou arrependimento. Humanamene julgo que é mesmo impossível. Mas, e esta é a nossa esperança, Deus faz milagres...
    Isto quanto ao arrependimento.
    A reconciliação torna-se ainda mais complicada. Porque não depende apenas de uma das partes. Nâo parece ser possível a reconciliação se não existir arrependimento por parte do agressor.
    E a justiça? Será que o perdão e a reconciliação implicam que o homicída não deva ser punido pelos seus actos? Também como cristão, digo que justiça é fundamental. Cada um arcar com as conesequências dos seus actos é outro passo decisivo para sarar as feridas.

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  3. perdoar é vencermo-nos a nós mesmos. não nos contentarmos com o ódio, a amargura, o remorso, a ferida que não quer cicatrizar. querer a paz interior porque não acreditamos na eficácia de acalentar e embalar ao colo a raiva e a vingança. preferimos nutrir e cuidar de outras capacidades, luminosas e portadoras de esperança. o amor, a bondade activa. perdoar é retirar o poder da dor e de abrir feridas a quem nos ofendeu, magoou, ofendeu e magoou quem amamos.
    e sim, david, também acredito que nestas situações extremas só o poder de Deus nos pode ajudar a perdoar. o mais fácil e imediato é desejar de forma visceral magoar mortalmente ou mesmo aniquilar quem nos causou sofrimento e no-lo lembra enquanto vive.

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  4. António Costa parece estar a escolher o caminho mais difícil; não assumir o que fez (aparentemente não o faz) e não pedir perdão.

    A reconciliação num caso destes é um caminho muito difícil. E que tipo de reconciliação será possível?! Como é que este homem poderá voltar um dia para aquela comunidade?

    A justiça será a possível. Já que nenuma pena de prisão ou recompensa material, reporão uma vida.

    As penas deverão servir para minimizar o agravo dos crimes cometidos (nunca serão satisfatórias, só o perdão consegue repôr a dor da perda) e para a possível recuperação e reparação do mal feito.

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  5. Nuno,

    sempre de luz as tuas palavras!

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  6. Suponho que «perdoar» significa «prescindir da reparação do dano causado». Posso perdoar a quem me ofendeu, claro, se os danos forem menores, se não põem em causa a sobrevivência do meu pequeno grupo. Posso perdoar uma dívida, uma pequenina traição, coisas como essas.
    Mas como perdoar aquilo que não tem reparação possível?
    A dor inflingida ao nosso filho, por exemplo?
    Onde pára o dever de reparar o mal causado através de um mal sofrido?
    Devemos torturar o torturador para que ele repare o mal que fez? E somos capazes de o fazer?
    Confesso-vos que não sei sequer se sei de que é que estou a falar. Da Joana? Da Maddie? Dos meninos da Casa Pia? das vítimas do Holocausto? Dos vitelinhos no matadouro? De que estamos todos a falar?
    O que é que estamos a calar?

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  7. tacci,

    vou tentar não ser demagógica nem dogmática em excesso. ;)

    Temos de distinguir entre o perdão de Deus que a Bíblia nos revela e o perdão que os homens nas suas relações e vivências são capazes de efectuar. Embora o povo também seja capaz de formular ditos como este:"fazer o bem sem olhar a quem".E temos de distinguir,para sermos verdadeiros connosco próprios. Deus perdoa sempre, perdoa sem limites, sem reservas de espécie alguma, sem costrangimentos. Diz-se de Deus que a sua essência é Amor. Nós, não é preciso fazermos grande esforço para vermos quanto andamos longe disto. Nas nossas limitações e incapacidades temos de perdoar e ser perdoados. Mas isto é um percurso de vida,é um caminho a percorrer. Não se perdoa quando se quer...é quando se pode. Há quem consiga fazer esse percurso mais ligeiro, há outros para quem é bem mais pesado e tortuoso.

    A reparação nem sempre é possível; Nos casos de assassínios etc. Mas isso não pode limitar o perdão. O perdão é um dos caminhos para a paz. Um caminho fundamental.
    Quando falo de perdão estou também a pensar nos casos todos que citas. A paz é um bem entre as pessoas, os povos e também consigo próprio. E como já disse, não há paz onde não há perdão.

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