2008-12-30

Feliz Ano 2009


Algumas previsões para o novo ano não são muito boas. Mas o Zé Povinho não se deixa intimidar. Aqui está de braços abertos para receber tudo o que aí vem. E vão vir coisas boas, oh se vão! A todos os frequentadores do jardim, deixa os melhores votos para 2009.

de que lado é que jogamos?


Gerald Thomas disposto a tirar o tapete da hipocrisia, posta. E atira também ao Pinter (parece que Pinto português):


Gerald Thomas


(Roubei-lhe também a imagem da lebre.)


religião e violência

O ataque de Israel a Gaza, suscita ao teólogo José M. Castillo, a reflexão sobre as "misteriosas e inquietantes relações entre religião e violência" não hesitando em dar-lhe um nome: Terrorismo religioso.

Las relaciones entre religión y violencia son un hecho patente. Lo que ocurre es que la religión suele infundir en los creyentes tanto respeto que nos dificulta para darnos cuenta de que el fenómeno religioso, mal interpretado o manipulado por turbios intereses, nos incapacita para ver con objetividad y claridad los desastres de miedo y terror que produce en la sociedad y en cada uno de nosotros.
Dicho esto, creo necesario dejar muy claras tres cosas:



1) Nunca la religión es la única causa que desencadena las guerras y otras formas de terror social. Porque en estos casos los intereses políticos y económicos son evidentes.


2) Desde el momento en que el concepto de Dios se identifica con el Trascendente y el Absoluto (sin más precisiones), la religión resulta un peligro que, en manos de hombres con poder y sin escrúpulos, sirve admirablemente para justificar la violencia, para legitimar el terror, para maquillarlo y hacerlo asumible a tantas criaturas indefensas que prefieren la sumisión porque no se ven con fuerzas para soportar el peso de la libertad.


3) Cuando la religión se asocia con esperanzas que trascienden esta vida, en ese caso el peligro de violencia y la fuerza del terror se refuerza hasta lo inimaginable. Porque lo más seguro es que, en tales esperanzas, se basan los motivos fuertes que empujan a los terroristas suicidas que, tras una muerte instantánea, esperan un paraíso de delicias eternas. Es claro que con semejante discurso se fabrican suicidas violentos en serie. Como también, utilizando hábilmente la esperanza en el cielo, se puede fabricar cobardes resignados y bien dispuestos a soportar lo que les echen encima porque ¿qué importan las penalidades que sufrimos en este valle de lágrimas si las comparamos con el peso de gloria que nos espera? A veces, me da por pensar que este terrorismo puede ser más cruel, para el que lo padece, que el de los suicidas. A fin de cuentas, el suicidio es cuestión de segundos, en tanto que la resignación puede prolongarse durante una vida entera. Es evidente que el terrorista suicida mata quizá a mucha gente. Pero no es menos verdad que, si en este mundo hubiera menos resignación sumisa y más libertad para no soportar las injusticias, es seguro que este mundo sería distinto, seguramente mucho mejor de lo que imaginamos.

Decididamente, una de las cosas que más nos urgen a todos es afrontar en serio el problema de la religión. No para acabar con ella. Ni para pretender ingenuamente marginarla de la vida de los individuos o de la sociedad. Me parece que eso nadie lo va a conseguir. El problema no está en eliminar la religión, sino en persuadirnos de que se puede vivir de otra forma. No pretendo inventar nada. Porque, al menos desde el punto de vista de mi tradición religiosa (la cristiana), hace ya casi veinte siglos que la cosa se inventó. Lo que pasa es que, en estos veinte siglos, hemos sido muchos los cristianos traidores que hemos traicionado el invento. Me refiero al invento que consiste en este solo proyecto: “jamás se puede anteponer una idea (ni religiosa ni política) al bien y a la felicidad de un ser humano, sea quien sea”. Un Dios o una religión que le amargan la vida a los humanos, que les meten miedo, que los someten mediante terrores, quizá tan sutiles que ni nos damos cuenta de ellos, ese Dios y esa religión, no sólo son mentiras y patrañas, sino que sobre todo son un peligro público de consecuencias imprevisibles. Ya está bien de utilizar a Dios y a la religión para matar personas, marginar a colectivos enteros, por ejemplo a las mujeres, o para humillar a seres que no tienen la culpa de ser como son, los homosexuales, pongo por caso. Todo esto, se haga como se haga o por más que se justifique con los más sutiles argumentos teológicos, en realidad, no es sino terrorismo religioso.



ler artigo completo aqui

2008-12-29



via Globo cheguei a este vídeo e já gargalhei com o artista.

ai as beatas, pobres coitadas...

(beata Ludovica Albertoni)

As beatas


Elas envelhecem com pequenos passos

Como de cãezinhos ou de gatinhos

As beatas

Elas envelhecem tão depressa

Que confundem o amor e a água benta

Como todas as beatas

Se eu fosse diabo ao vê-las por vezes

Eu acho que me faria castrar

Se eu fosse Deus ao vê-las rezar

Eu acho que perderia a fé

Pelas beatas

Elas procissionam em pequenos passos

De pia de água benta em pia de água benta

As beatas

E patati e patata

As minhas orelhas começam a assobiar

As beatas

Vestidas de negro como o Senhor Padre

Que é demasiado bom com as criaturas

Elas beatizam-se de olhos em baixo

Como se Deus dormisse sob os seus sapatos

De beatas

No sábado à noite depois do trabalho

Vê-se o operário parisiense

Mas nada de beatas

Porque é no fundo das suas casas

Que elas se preservam dos rapazes

As beatas

Que preferem encarquilhar-se

De vésperas em vésperas, de missa em missa

Muito orgulhosas de terem conservado

O diamante que dorme entre as suas pernas

De beatas

Depois morrem em pequenos passos

Em fogo lento, em montinhos

As beatas

E enterram-se em pequenos passos

De manhãzinha num dia frio

De beatas

E no céu que não existe

Os anjos fazem depressa um paraíso para elas

Uma auréola e duas pontas de asa

E elas voam… com pequenos passos

De beatas



(Jacques Brel, 1962; tradução livre de Ricardo Alves)



Gamado com muito prazer, do Diário Ateísta.

Vá mas é trabalhar

Quanto não vale um bocadinho de confiança! Enquanto arengava no post anterior, recebi uma mensagem de e-mail, dum tal sr dr Micheal Philips, a dizer que tinha ganho um milhão. Como sou uma desprendida dessa coisa de milhões, não vou reclamar o prémio. Mas sugiro ao tal senhor: Vá mas é trabalhar!...malandro!

diz-me o que sonhas...dir-te-ei que é melhor abrires os olhos

Chegados ao final de mais um ano, é tempo de fazer balanço e formular desejos. Nas pessoas com quem nos vamos cruzando, aos cumprimentos, acrescentam-se votos de um bom ano. Quando as pessoas tentam explicitar o que seria um bom ano (como anda tudo muito céptico, já se diz que não seja pior do que o que passou, pátati patatá...), ficam um pouco engasgadas, falam de saúde, paz...coisas que não dependem directamente da própria acção.
Estive a ler num jornal, os desejos de um grupo de pessoas inquiridas, ao acaso, na rua, e eram o genérico do costume: paz, saúde, mais dinheiro, mais emprego...uma jovem saía um pouco deste rosário e acrescentava que desejava ter um cão, porque vivia sozinha e, assim, quando chegasse a casa, tinha alguém com quem falar. Com tantos cães abandonados, não percebo a dificuldade da jovem...
Diz o poeta que o sonho é que comanda a vida. Seríamos todos um bocadinho mais felizes se assumíssemos com mais confiança o comando da nossa. Todos nós, não tendo propriamente inimigos, temos pessoas com quem não nos relacionamos tão bem. Porque não formular o desejo de, no próximo ano, melhoramos a relação com essa(s) pessoa(s)? Porque a paz no mundo é algo distante e não vai ser servida de bandeja.

não vale a pena estar com floreados, este derrete-me toda. Tom Waits - hold on

2008-12-28

Alegrai-vos!

"A alegria é a primeira e a última palavra do Evangelho". (Paul Claudel) Jesus, o Cristo empenhou a sua vida, para tornar presente entre os homens, a salvação de Deus. Salvação que não depende de qualquer mérito da parte do Homem, é antes dom gratuito, dado a cada um, de modo pessoal e livre. Não é destinado a este em detrimento daquele, é antes, proposta para todos. Cada um, aceita-a ou rejeita-a. Cristo, pela morte e ressurreição, permanece vivo e actuante na sua Igreja. Deste modo; "Tendo a Igreja, por sua parte, a missão de manifestar o mistério de Deus, último fim do homem, ela descobre ao mesmo tempo ao homem o sentido da sua existência, a verdade profunda à cerca dele mesmo. A Igreja sabe muito bem que só Deus, a quem serve, pode responder às aspirações mais profundas do coração humano, que nunca plenamente se satisfaz com os alimentos terrestres. (Gaudium et Spes).


Serve isto, para afirmar que, a propósito da últimas declarações do Papa Bento XVI sobre a necessidade de proteger o Homem tal como à floresta tropical (e não tropical, já agora) e a consequente discussão, sobre se as mesmas se referem apenas aos católicos ou a todos, à luz do Vaticano II, concílio ainda válido, temos de afirmar que são para todos. É essa a missão da Igreja - anunciar Deus a todos os homens. É uma missão universal.


Será lícito agora perguntar: as palavras do Papa são expressão da alegre notícia que emana do Evangelho? Diz Santo Ireneu que a Glória de Deus é o homem vivo. O homem inteiro, liberto, não dependente, nem dividido. Ao longo da história da humanidade o Homem tem conseguido vislumbrar caminhos para se ir realizando. A par disso, tem percorrido muitos caminhos de pecado e de rejeição. A alegre notícia do Evangelho é que basta querer e não será o pecado o fim último do Homem. Neste caminho, cada um faz as suas escolhas pessoais. O percurso de cada um é autónomo à luz da sua consciência. O Espírito de Deus presente no meio dos homens, nunca força ninguém à conversão. E, no entanto, ele é o mais forte (Paul Claudel). Descobrir o mistério de Deus é descobrir a alegria da submissão. Porque me sinto amada, ouso colocar-me inteiramente nas tuas mãos!

A mim, católica apostólica romana, as palavras do Papa, despertam-me para a alegria evangélica? Não. Vejo nelas o reflexo de um teórico mais atento e fiel aos dogmas da Igreja do que ao Evangelho. Jesus, muitas vezes se insurgiu contra os religiosos do seu tempo que sobrecarregavam os crentes com proibições, sacrifícios e interditos sem atender à real vida das pessoas. Assim tem feito a hierarquia católica. Sendo mulher "o fado é maior". Interpretando de modo unilateral o "crescei e multiplicai-vos" determinam-se ditames destes, que só podem ser fruto de uma incompreensível dureza de coração. Estou há dezassete anos em transgressão relativamente à segunda alínea. Porque quis mais vida para a minha vida, ignorei o que a Igreja me mandava. E não me arrependo nada.

feliz daquele que sente fome e sede e se deseja nu

Se eu soubesse correr, se houvesse campo para a minha nudez, se um tronco caído não se me atravessasse e impedisse o caminho, se desnudado eu soubesse guiar-me por entre florestas inebriantes e fosse uma coisa apenas em potência, ainda não concretizada...



Henrique Fialho, aqui

à luz da memória



Umberto Eco no livro "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" conta a história de um homem que na sequência de um AVC, acorda um dia com a memória completamente limpa. Confesso que é um dos meus medos.
A memória faz parte da nossa identidade. É ela o fio condutor que nos prende à vida. É grande sabedoria (inata, a maior parte das vezes) à luz da memória, viver com espanto cada instante e acontecimento, da nossa vida.
(Post inspirado por um texto postado por Pedro Correia, aqui)

à luz da Palavra

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses Irmãos:



Como eleitos de Deus, santos e predilectos, revesti-vos de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, se algum tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, assim deveis fazer vós também. Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Reine em vossos corações a paz de Cristo, à qual fostes chamados para formar um só corpo. E vivei em acção de graças. Habite em vós com abundância a palavra de Cristo, para vos instruirdes e aconselhardes uns aos outros com toda a sabedoria;e com salmos, hinos e cânticos inspirados, cantai de todo o coração a Deus a vossa gratidão. E tudo o que fizerdes, por palavras ou por obras, seja tudo em nome do Senhor Jesus, dando graças, por Ele, a Deus Pai. Esposas, sede submissas aos vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. Pais, não exaspereis os vossos filhos, para que não caiam em desânimo.

2008-12-27

condição - clandestino



Depois do esforço para passar incólume ao assédio de abraçar "alguma causa nobre", coisa pequenina com que se pretende travestir o natal, delicio-me com os "Deolinda" e o seu "Clandestino".
Atrevo-me a nomerar, assim, o amor. Clandestino. Não, sob alguma forma particular, mas na sua essência. O amor é discreto, é subtil, é espanto, é surpresa, é clandestino.

2008-12-26

Não será o primeiro nem o último, mas

é preciso descaramento!

apertar o cerco

Não ponham a mão nos meninos, não! A palavra que mais se ouviu sobre os idiotas que resolveram brincar aos cowboys, com a professora na Escola do Cerco, foi a palavra "brincadeira". Eu acho que se pode brincar com tudo, com armas, mesmo a fingir, é melhor não. Todos os que desvalorizaram o incidente, a começar pela professora, demitiram-se do seu papel de educadores. Depois, queixem-se...

recuperando o equilíbrio

depois das festividades, de todos os excessos e intoxicações que tal uma pausa relaxante? Eu tenho uma invasão de ervas daninhas que é obra, fim-de-semana a jardinar, portanto.

2008-12-23

2008-12-22

um presente no sapatinho:


Que passasse a ser um bocadinho menos parola - ia reflectir-se neste blogue. Como sou generosa, pedia também para o César das Neves. E ele deixava de escrever contos de natal a comparar Deus à tia Maria.

No entiendo


O Papa Bento XVI, disse o seguinte, numa audiência aos cardeais da cúria: Deve proteger também o homem contra a destruição de si mesmo. É necessário que haja qualquer coisa como uma ecologia do homem, correctamente entendida. Não é uma metafísica superada, se a Igreja fala da natureza do ser humano como homem e mulher e pede que se respeite esta ordem da criação.Trata-se aqui da fé no Criador e da escuta da linguagem da criação, cujo desprezo seria uma autodestruição do homem e portanto uma destruição da própria obra de Deus”. Há quem leia isto como alusão a quem muda de sexo. Coisa que o papa condena, pelos vistos. Diz isto tudo, vestido saias bordadas, rendas e brocados, peles, para uma audiência com o mesmo figurino embora mais discreto. Dizem que não é o hábito que faz o monge, mas eu não garantia nada. Ora bolas, para esta espiritualidade.
fonte:www.radiovaticana.org/

2008-12-20

sinais dos tempos


De Natal em Natal à minha mesa
Um pobre habitual e solidário…
Agora por meu mal nesta incerteza
Terei por comensal um milionário!

O pobre convidado era a meu gosto
E vinha à minha Ceia qual Rei Mago…
Agora vem um rico por imposto
E a crise que fez…sou eu que pago!

A Paz que vai sumida em tanta guerra
Na febre do dinheiro castrador
Já o Homem não poupa nem redime:

E tanto treme o planeta Terra
No medonho vulcão da própria dor
Que dar-lhe Salvador seria crime!

A. Meireles Graça

2008-12-19

intento



No compasso dos dias desvelar


imagem-Henri Matisse, "lorette", 1917

identificação:

"Deus é uma unidade. Poesia, cotidiano, sexualidade e fé, como tudo que existe, procedem dEle e só por isso estão e estamos na unidade. Seria impossível a criação de qualquer obra fora desta unidade radical. Uma sexualidade separada da fé, uma fé fora do cotidiano e tudo fora da poesia não dá pra aguentar. A poesia é a face de Deus contemplada na brutalidade das coisas."



Adélia Prado aqui

2008-12-18

neoliberais...agora um bocadinho à toa

laisser faire laisser passer

1.

o neoliberal
neolibera:
de tanto neoliberar
o neoliberal
neolibera-se de neoliberar
tudo aquilo que não seja neo (leo)
libérrimo:
o livre quinhão do leão
neolibera a corvéia da ovelha

2.

o neoliberal neolibera o que neoliberar
para os não-neoliberados:
o labéu?
o libelo?
a libré do lacaio?
a argola do galé?
o ventre-livre?
a bóia-rala?
o prato raso?
a comunhão do atraso?
a ex-comunhão dos ex-clusos?
o amanhã sem fé?
o café requentado?
a queda em parafuso?
o pé de chinelo?
o pé no chão?
o bicho de pé?
a ração da ralé?

3.

no céu neon
do neoliberal
anjos-yuppies
bochechas cor-de-bife
privatizam
a rosácea do paraíso
de dante
enquanto lancham
fast-food
e super(visionários) visam
com olho magnânimo
as bandas(flutuantes)
do câmbio:
enquanto o não- neoliberado
come pão com salame
(quando come)
ele dorme
sonhando
com torneiras de ouro
e a hidrobanheira cor
de âmbar
de sua neo-mansão em miami

4.

o centro e a direita
(des)conversam
sobre o social
(questão de polícia):
o desemprego um mal
conjuntural
(conjetural)
pois no céu da estatís
-tica o futuro
se decide pela lei
dos grandes números

5.

o neoliberal
sonha um mundo higiênico:
um ecúmeno de ecônomos
de economistas e atuários
de jogadores na bolsa
de gerentes
de supermercado
de capitães de indústria
e latifundários de banqueiros
- banquiplenos ou
banquirrotos
(que importa?
desde que circule
autoregulante
o necessário
plus
valioso
numerário)
um mundo executivo
de mega-empresários
duros e puros
mós sem dó
mais atento ao lucro
que ao salário
solitários (no câncer)
antes que solidários:
um mundo onde deus
não jogue dados
e onde tudo dure para sempre
e sempremente nada mude
um confortável
estável
confiável
mundo contábil.

6.

(a
contra
mundo
o mundo
-não-
mundo cão
-dos deserdados:
o anti-higiênico
gueto dos
sem-saída
dos excluídos pelo
deus-sistema
cana esmagada
pela moenda
pela roda dentada
dos enjeitados:
um mundo
-pêsames
de pequenos
cidadãos
-menos
de gente-
gado
de civis
sub-servis
de povo
-ônus
que não tem lugar marcado
no campo do possível
da economia de mercado
(onde mercúrio serve ao deus mamonas)

7.

o neoliberal
sonha um admirável
mundo fixo
de argentários e multinacionais
terratenentes terrapotentes coronéis políticos
milenaristas (cooptados) do perpétuo
status quo:
um mundo privépalácio de cristal
à prova de balas:
bunker blaudurando para sempre - festa estática
(ainda que sustente sobre fictas
palafitas
e estas sobre uma lata
de lixo)


Haroldo de Campos

2008-12-17

Padre Felicidade:

Um forte testemunho e apelo, porque o cristianismo não está dito e continua a ser urgente:

Indignava­‑se e exprimia­‑o com raiva:
«SABEMOS QUE O GRITO DE HOJE SERÁ OUVIDO AMANHÃ. Amanhã, será tarde de mais para milhões de pessoas que acabaram entretanto por renunciar a ouvir a Igreja; tarde de mais para nós que queríamos SER HOJE PESSOAS LIVRES NA IGREJA, PARA SERVIR HOJE MESMO O EVANGELHO. [...] Entretanto, [...] considerar­-nos­‑emos em estado de EXILADOS DENTRO DA IGREJA.»

Evocação de Joana Lopes , aqui



paternidade responsável



Alguém me confidenciava hoje, que na decisão de ter um filho, (sim porque ao contrário do que algumas pessoas defendem, na paternidade/maternidade responsável, decide-se, não se é apenas instrumento da natureza, o homem diferentemente do animal, não é apenas dominado pelo instinto obscuro e inconsciente da conservação da espécie em geral, porque nele o instinto da procriação se manifesta antes como uma vontade consciente de ter um filho seu: portanto, ( ) para ele a procriação não é tão-só uma necessidade da sua espécie, mas uma decisão pessoal. D. Bonhoeffer "Ética") deve prevalecer mais a avaliação do tempo que se pode passar com ele(s) do que a estabilidade material, hoje extremamente volátil e imprevisível. Referia-se a pessoa ao tempo físico. Já foi um pai tardio. Será necessário valorizar o tempo e a qualidade do tempo.


(imagem - Abbas Kiarostami, "Oú est la maison de mon ami?)

2008-12-15

ao Professor Marcelo



ofereço este protótipo para ir espalhar a sua alegria pelo dia histórico de ontem. Visionário e judicioso, já viu o Manuel Alegre a comandar todos os desarrebanhados do socialismo e a apear Sócrates do poder, se não fôr antes, nas próximas eleições.

um homem feliz

Vi ontem, por acaso, uma reportagem Sic, sobre um caboverdiano de seu nome Caetano Veloso, homem de várias mulheres e quarenta e cinco filhos. Elas aguentavam-se, e ele era definitivamente um homem feliz. Foi uma bela reportagem, O Vasco M. Barreto do Jugular também viu e escreveu sobre o assunto.

vai-te embora ó melga

(Reuters)


e tens muita sorte serem só dois sapatinho.

2008-12-14

é de mulher


Essa noite, perdida entre noites e noites, disso ela tinha a certeza, a rapariguinha tinha-a passado justamente naquele barco e estava lá quando aquilo aconteceu, esse estalar da música de Chopin debaixo do céu iluminado de brilhantes. Não havia uma aragem e a música espalhara-se por todo o navio negro, como uma imposição do céu de que não se sabia a que propósito vinha, como uma ordem de Deus de que se ignorava o teor. E a rapariga endireitava-se como que para ir por sua vez matar-se, atirar-se por sua vez ao mar e depois chorara porque pensara naquele homem de Cholen e de súbito não tivera a certeza de não o ter amado com um amor que ela não vira porque se perdera na história como a água na areia e só agora o reencontrava nesse instante de música lançada através do mar.

Marguerite Duras, "O amante"

2008-12-13

é de homem!


A mulher só é feliz, só se realiza, só existe como mulher, no amor.

Nelson Rodrigues

imagem-Man Ray,Berenice Abbott, 1921

George Carlin




Estive a ler a síntese da Dignitatis personae, o novo documento da Congregação da doutrina da Fé, sobre as questões da bioética. Dedica um grande espaço às várias técnicas de fecundação.
Quando começa a existir um ser humano? A Igreja define que é a partir da fecundação. Será? Não será de ouvir a ciência a respeito disso?

Para aliviar a posição excessiva do Vaticano com respeito aos ovinhos e espermatozóides, dos casais perfeitos cimentados no sacramento do matrimónio (parece que aos outros já não se lhe reconhece dignidade) revemos George Carlin.

2008-12-12

questões da Bioética

A Congregação para a Doutrina da Fé, apresentou hoje o Documento Dignitatis Personae, onde se pronuncia sobre algumas questões da Bioética. Reconhecendo à Igreja toda a legitimidade para apresentar a sua visão sobre estes assuntos, temo que se deixe levar por posições fundamentalistas e, aí, perder a autoridade para ser escutada numa matéria que precisa ser discutida, aprofundada e encontrada uma base comum de entendimento.

Do Nº6 retiro esta afirmação que considero fundamentalista:
A origem da vida humana... tem o seu contexto autêntico no matrimónio e na família, onde é gerada através de um acto que exprime o amor recíproco entre o homem e a mulher. Uma procriação verdadeiramente responsável em relação ao nascituro deve ser o fruto do matrimónio” (n. 6).

Veremos o resto do documento.

"Contra a Indiferença"

A razão deste blog é muito simples: ser um espaço de liberdade onde exprimirei livremente, sem constrangimentos nem rodeios e intermediários, os meus pensamentos e reflexões sobre todos os temas que me interpelam, ou que o venham a fazer, e que me fazem, ou farão, gritar contra a indiferença que, como a intolerância e a ganância, considero ser uma das doenças mais mortíferas da Humanidade.

Fernando Nobre chegou à blogosfera. Registo-o com agrado.

2008-12-11

e benza-nos o ritmo do Kusturica

não foi só ele

Alguém lê um jornal à minha frente, cuja capa noticia que o filho de Sócrates foi roubado. O Ministério da Saúde também resolveu aumentar as taxas moderadoras. O hospital continua decrépito e o serviço na mesma, para não dizer pior.

entre risos e ditotes


No pronto-a-comer está um grupo de mulheres (e um único homem) sentados a almoçar, sento-me à frente delas. O espaço é pequeno e ouço as conversas. Vão lançando frases de provocação umas às outras. Coisas ligeiras. Uma resolve diagnosticar que a outra está com complexo de Édipo, mas ao contrário. Outra corrige e diz que é de Electra. A que foi objecto do diagnóstico não percebe e diz algo como se fosse um derivado de eletrodoméstico. Explicam-lhe soletrando que é E-LE-TRA. Ela repete. Noutra mesa ao lado, quatro avós riem desalmadamente como se fossem adolescentes.

A pouco e pouco, desfaço-me da couraça vestida ao acordar, saiem-me do cérebro os batuques da ressonância e sinto-me uma entre mulheres. À medida que mastigo o bife, engulo as gargalhadas delas tomando-as como minhas e digo entre dentes: já passou, estou nas Caldas, o parque está do outro lado da rua e a vida segue.

2008-12-10

eu discrimino, mas não me discrimines...

El Vaticano se opone a despenalizar la homosexualidad porque “creará nuevas discriminaciones”. Cuando leo estas perlas informativas con las que nos deleita de vez en cuando la Santa Sede, vuelvo a mirar el calendario para asegurarme que estamos en el siglo XXI.


Mário Roehrich, El Pais



Celebra-se o muito que já se fez. Mas refere-se o imenso que ainda há a fazer.

imagem-www.amnistia-internacional.pt/

2008-12-09

um Deus admissível

Há imagens das quais nos é difícil separar. Separar é dizer pouco. Porque estão de tal modo enraizadas em nós, que uma ruptura com as mesmas, equivale a uma violação com sangue lágrimas e profundo desgosto. Para evitar isso (ninguém gosta da dor), ignoramos, iludimos, adiamos a crise que nos levaria a enfrentar a mudança.

Quem andou na catequese, e quem não andou de algum modo acedeu ao mesmo, recebeu em primeiro lugar a imagem de um Deus Criador, Todo Poderoso, lá no alto a vigiar-nos. Crescemos, amadurecemos, adquirimos saberes e essa imagem de Deus já não responde aos nossos anseios. Poderemos, então, enveredar por várias situações; uma delas, comum, é pretendermos entrar num dualismo com Deus. Numa competição. Deus já não é aquele que vigia, é aquele que eu, com as minhas capacidades, hei-de vencer. Coloca-se Deus como concorrente do homem.

Temos outro caminho à nossa disposição - deixar de crer num Deus do "alto" e acreditar num Deus próximo, dentro do nosso coração (a vida do homem).

O Deus que cria é o Deus que salva. E cria-nos para sermos co-criadores com ele. Deus não é inimigo da inteligência do homem. Com ela, o homem participa na obra da criação. O que Deus realiza, realiza no mundo e não à sua margem.

A fé em Deus não cala as interrogações do homem. A fé é relação, logo é dinâmica. A fé não fecha o homem em si mesmo, coloca-o em diálogo permanente consigo mesmo e com o "Cosmos".

A experiência da fé pode levar-nos a acreditar num Deus assim expresso por Adolphe Gesché:

"Deus capaz do ser humano,
enamorado pelo ser humano
desejante e apaixonado pela nossa bondade
e por nossa grandeza
(...) esse Deus é finalmente um Deus
admíssivel, (experimentável)
e crível."

"Eu só queria..."

"Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa:"eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver". Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus."



Leonardo Boff, aqui

resgatar à mudez,

o direito de dizer:

2008-12-05

a religião e a crise

Até o individuo mais distraído (estou a referir-me aos habitantes do hemisfério Norte e Ocidente, sobretudo) já reparou que estamos em crise. Crise financeira, crise económica e todas as que daí derivam. Em tempos de crise material, e na busca de soluções, a religião tende a tornar-se uma resposta às expectivas. As pessoas apercebem-se de que os sistemas económicos que garantiam o bem-estar e davam a ilusão de realização (o Homem ocidental satisfaz-se com o acesso aos bens de consumo) afinal são falíveis e finitos.


Quando falo de religião, estou a referir-me ao cristianismo, preferencialmente, porque é o que conheço melhor. Dimana do cristianismo o seguinte:"vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro nos céus" (Mc 10,21) . A riqueza material é posta como secundária para a felicidade. O sentido da vida não se encontra em possuir, mas em partilhar.


É a Igreja, hoje, capaz de passar esta mensagem de forma credível? Temo que não. A Igreja que nos primeiros séculos se reunia à margem dos templos, passou a ganhar visibilidade e poder. A ser a antítese daquilo que prega.


A Igreja confessa ter ansiado pela segurança e pela tranquilidade, pela paz, pela posse da honra a que não tinha direito, e de assim ter estimulado, e não refreado, a cupidez dos homens. Dietrich Bonhoeffer - Ética, pág. 107


Bonhoeffer escreve esta crítica num tempo histórico muito próprio - segunda guerra mundial e vigência do nazismo - mas não quer dizer que esta crítica não possa ser imputada à Igreja e ao cristianismo na sua totalidade. O cristianismo saído das catacumbas sempre se quis impor a um papel que não lhe pertence. Segundo Bonhoeffer (e os Evangelhos) esse papel cabe a Cristo.

expectativas

(Reuters/Tobias Schwarz)

anuncia-se um fim-de-semana bom para hibernar.

2008-12-04


Ruah, meu Amor… brisa suave do meu Deus, Silêncio eficaz da Palavra, deixa-me hoje ficar só assim, neste sentimento de desimportância que é tão libertador e pacificador… E diz-me, por favor, se me apanhares a jeito no meio do Teu abraço, como é que fazias com esse Jesus que suscitaste entre nós e re-suscitaste para nós…

2008-12-03

o bem e o mal

a fé nos diz que não há dois princípios, um bom e um mau, mas há um só princípio, o Deus criador, e este princípio é bom, só bom, sem sombra de mal. E por isso também o ser não é uma mistura de bem e de mal; o ser como tal é bom e por isso é bom existir, é bom viver. Este é o alegre anúncio da fé: só há uma fonte boa, o Criador. E por isso, viver é um bem, é algo bom ser um homem, uma mulher, é boa a vida. Depois segue um mistério de escuridão, de noite. O mal não vem da fonte do mesmo ser, não é igualmente originário. O mal vem de uma liberdade criada, de uma liberdade abusada.

Bento XVI, 3 de Dezembro 2008
www.zenit.org/

(Reuters/Jason Lee)

De (Lírios)

Em frente à casa amarela em Arles havia um canteiro de lírios.
Ou seria na cabeça amarela de Van Gogh que esses lírios floresciam?
Inclino-me mais para a segunda hipótese. Ou não sofresse Van Gogh de delírios.



Jorge Sousa Braga

2008-12-02

cegos são os outros...


Acaso estamos mortos e só aparentamos
estar vivos nós gregos caídos em desgraça
que imaginamos a vida semelhante a um sonho
ou estamos vivos e foi a vida que morreu?

Lembrei-me destes versos de Paladas de Alexandria, depois de ler e trocar comentários num post da Joana Lopes sobre o livro de Miguel de Oliveira "A sexualidade, a Igreja e a Bioética"


Diz a Joana:
Para além de todas as leituras, uma coisa parece certa: mesmo os mais cépticos dificilmente acreditariam, em 1968, dois meses depois do Maio francês, que quarenta anos mais tarde o Vaticano teria ainda o mesmo posicionamento relativamente ao controle da natalidade e ao uso de meios contraceptivos. Mas a realidade aí está para provar o contrário e para justificar o carácter oportuno do livro que Miguel Oliveira da Silva agora publicou.

É trágica a posição da Igreja que mantém uma doutrina e moral sexual desfasadas da vida. Fá-lo por diversos motivos. Sendo um deles, que as mesmas são defendidas e apregoadas por homens celibatários. Quando os mesmos tivessem que defender e aprofundar, na própria vida, a realidade de uma relação conjugal, mudariam as regras que, sem caridade, impõem a outros.

"Eles não amam a vida"

O problema não é a Terra. Ela pode continuar sem nós e continuará. A magna quaesto, a questão maior, é o ser humano voraz e irresponsável que ama mais a morte que a vida, mais o lucro que a cooperação, mais seu bem estar individual que o bem geral de toda a comunidade de vida. Se os responsáveis pelas decisões globais não considerarem a inter-retro-dependência de todas estas questões e não forjarem uma coalizão de forças capaz de equacioná-las aí sim estaremos literalmente perdidos.

Leonardo Boff

dedicatória

Só o luto corrompe.
De amoras
maduras não te falo - trago-te
o verão num cesto
de morangos e papoilas, um
candelabro de medronhos
para as pulsões do inverno.
Digo-te:
a morte não nos pertence.

Albano Martins

Para a "Carricinha" que morreu menina aos quarenta e nove anos. E para a M. C., que morreu de leucemia aos quarenta e seis.

uma nova trindade?


by Pat Oliphant. washingtonpost.com/

2008-12-01

cuide-se, D. Manuela...


Através do blogue a Origem das Espécies, fiquei a saber que nuestros hermanos, elegem Sócrates o 6º homem mais elegante do mundo. À frente de Jude Law, imperdoável. Não digo é quem está em 8º.

Dia Mundial de luta contra a SIDA


imaginação infantil


Passado sábado e a convite gentil de amigos, fui ver uma peça de teatro especialmente dirigida a crianças mas com muita e boa "leitura" para adultos.


A belíssima Graça Ochoa, dá vida a uma galinha que inventa mil e uma maneiras de vencer a solidão e o deserto de afectos. Com uma voz lindíssima, é fundamentalmente com o corpo que fala.


Estava num lugar privilegiado para sentir a actriz e "apanhar" as reacções dos outros espectadores. O pessoal das Caldas é pouco dado a grandes expressões, mas uma mãe e seu filho, destacaram-se. Não faltaram os comentários da mãe, que a cada novo enleio da personagem, comentava com os seguintes apartes:"é uma galinha sem cérebro", "para que é que se meteu nela", "olha lá, não faças isto lá em casa"... Tanta castração na imaginação infantil (o pequeno teria uns 5/6 anos) não impediu que ele em determinadas altura soltasse:"ela vai tirar as cuecas" e "ela mexeu no pipi". Bom, ela (a Graça) mexia no, e o, corpo todo, mas o pequeno, cuja mãe quer que seja um rapaz certinho e direitinho sem imaginação e chatinho, viu e esperava, ainda mais.

2008-11-28

suspensos

percebemos que a vida é a coisa mais frágil do mundo.
Que não temos mãos para agarrar os mortos de Mumbai,
As vítimas das chuvas em Santa Catarina,
Nem ao nosso vizinho que bebeu o veneno
para matar ervas daninhas.

Ó Deus!

2008-11-27

se eles o dizem...2

Estou farto de santas marias gorettis, e é bom ouvir uma mulher que diz em público «só estávamos juntos por causa do sexo». E que abandona um homem que esteve preso.

uma num milhão.

Pedro Mexia

se eles o dizem...1

Onde quer que uma rapariga beije um rapaz está uma criança a ser beijada por uma mulher. Uma criança blindada que quer experimentar, saber, coleccionar.

Luís

tão Simples que nos perdemos

A natureza ilimitada de Deus está protegida por uma barreira "impenetravelmente densa", mas dela emana um perfume suave que possibilita um vislumbre de sua presença no mundo.
...
A experiência mística, como vem mostrando Raimon Panikkar em trabalhos recentes, não é algo destinado apenas a determinados virtuosos, mas é um evento que se dá na abertura à dinâmica integral da vida e da realidade. Os sinais do mistério estão aí, por todo canto, para além do "fragor retumbante das máquinas", da dinâmica consumista e da busca irrefreada de poder. Eles se revelam teimosos na força inesgotável do que é Simples. O olhar se ilumina na medida em que novos espaços são criados para experiências de profundidade, quando se educa a vista para sentir o tempo de forma apaixonada, e se dá atenção ao pequenos detalhes da vida cotidiana. A experiência mística irrompe quando nos sentimos "tocados" pelo mistério, quando acendemos o olhar para a "infinita Realidade que existe dentro de tudo o que é real". Ela acontece quando nos despertamos para o "caráter sagrado da vida e do ser".

Faustino Teixeira, teólogo

Um mundo

Onde montanhas não são levantamentos
íngrimes de terra. Onde rios não são cursos
de água que se vão lançar no mar,
nos lagos, noutros rios. As casas

não têm paredes ou teto, ruas
não são vias de acesso, caminhos não vão
de um ponto a outro e os pontos não põem
fim, não abreviam, não são laçadas na malha

da lã ou nas voltas da linha. Por sua vez,
linhas não são fios, nem fibras, nem traços.
Não há sulcos na palma das mãos. Não há frentes
de combate. Linhas não são rumos

ou normas. O Equador não é o anel extremo do globo
e as superfícies esféricas não se chamam esferas.
Não há moedas. O espaço ilimitado, indefinido
no qual se movem os astros é a terra, enquanto

acima das cabeças, pregados pelo horizonte, densos,
amarelos, vão jardins em movimento. Venta.
Há um vento constante, há um canto constante.
Pode-se ver a música, de terraços, belvederes

e torres instaladas para tal finalidade. Mundo
em que se ganha o que se perde.
Toda pedra é pérola. Onde o amor
é entre duas mulheres.

Eucanaã Ferraz

in Rua do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
in Rua do mundo. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 200

2008-11-26

um olhar que vê

No arquivo do blogger vão-se acumulando rascunhos de pensamentos e ideias, para as quais não se encontrou a fórmula, nem o modo, nem o tempo de as dizer. Parece um enorme cemitério de esqueletos desconjuntados e dispersos. Espelho da vida. Mas eis que surge um olhar sentido, e tudo se dissipa, airoso.

resgatando a doçura da vida


Abriu um novo centro comercial em Caldas da Rainha. Um Vivaci como há noutras cidades. Não vendem lá voos de poupa. Este Outono já tive a graça de ver dois. Um esconde-esconde logo pela manhãzinha.

no mínimo...

O amor como audácia:


www.malvados.com.br/

2008-11-25

A Palavra de Deus

Como diz T. Adorno "nada há de inofensivo". Também a experiência religiosa acaba por ser contaminada por aquilo que são os interesses dos que a vivenciam.
Na história do cristianismo, obedecendo a interesses pastorais imediatos, muitas vezes, a Igreja desfigurou a Palavra de Deus para anunciar a sua.

Hoje, um pai dizia-me que tinha um filho de vinte e oito anos que era uma pessoa extraordinária. Desde cedo se revelaram nele qualidades, que levaram a mãe a desejar que ele fosse padre. E a manifestar-lho várias vezes. Ele respondia da melhor forma que encontrava que não desejava tal coisa porque gostava era de mulheres.
Há pouco tempo surgiu-lhe um cancro linfático. A mãe, talvez para arranjar uma desculpa para o que a não tem - a doença -, começou a dizer que era castigo de Deus por ele não ter optado pela vocação de padre. O pai não sabia que dizer.
Eu, veementemente, disse-lhe que nenhum Deus merecia o amor de algum homem, se fizesse tal coisa.

Poder-se-á dizer que isto é fruto de uma religiosidade popular e pouco esclarecida. Mas não chega, é também fruto da doutrinação da Igreja.

salve-se a doçura da vida...com fé

Já nada há de inofensivo. As pequenas alegrias, as manifestações da vida que parecem isentas da responsabilidade do pensamento não só têm um momento de obstinada estupidez, de autocegueira insensível, mas entram também imediatamente ao serviço da sua extrema oposição. Até a árvore que floresce mente no instante em que se percepciona o seu florescer sem a sombra do espanto; até o "como é belo!" inocente se converte em desculpa da afronta da vida, que é diferente, e já não há beleza nem consolação alguma excepto no olhar que, ao virar-se para o horror, o defronta e, na consciência não atenuada da negatividade, afirma a possibilidade do melhor. É aconselhável a desconfiança perante todo o lhano, o espontâneo, em face de todo o deixa-andar que encerre docilidade frente à prepotência do existente. O malevolente subsentido do conforto que, outrora, se limitava ao brinde da jovialidade, já há muito adquiriu sentimentos mais amistosos. O diálogo ocasional com o homem no combóio, que, para não desembocar em disputa, consente apenas numas quantas frases a cujo respeito se sabe que não terminarão em homicídio, é já um elemento delator; nenhum pensamento é imune à sua comunicação, e basta já expressá-lo num falso lugar e num falso acordo para minar a sua verdade. De cada ida ao cinema volto, em plena consciência, mais estúpido e depravado. A própria sociabilidade é participação na injustiça, porquanto dá a um mundo frio a aparência de um mundo em que ainda se pode dialogar, e a palavra solta, cortês, contribui para perpetuar o silêncio, pois, pelas concessões feitas ao endereçado, este é ainda humilhado [na mente] do falante. O funesto princípio que já sempre reside na condescendência desdobra-se no espírito igualitário em toda a sua bestialidade. A condescendência e o não ter-se em grande monta são a mesma coisa. Pela adaptação à debilidade dos oprimidos confirma-se, em tal fraqueza, o pressuposto da dominação e revela-se a medida da descortesia, da insensibilidade e da violência de que se necessita para o exercício da dominação. Se, na mais recente fase, decai o gesto da condescendência e se torna visível apenas a igualação, então tanto mais irreconciliavelmente se impõe em tão perfeito obscurecimento do poder a negada relação de classe. Para o intelectual, a solidão inviolável é a única forma em que ainda se pode verificar a solidariedade. Toda a participação, toda a humanidade do trato e da partilha são simples máscara da tácita aceitação do inumano. Há que tornar-se consonante com o sofrimento dos homens: o mais pequeno passo para o seu contentamento é ainda um passo para o endurecimento do sofrimento.

Theodore Adorno, in "Minima Moralia"

2008-11-24

Vale a pena refectir um pouco nisto:

Nunca temos acesso à "Palavra de Deus" de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa

Frei Bento Domingues, Domingo 26 de Novemvro de 2008
Público, edição impressa

2008-11-23

das alegres notícias


Com três quilos, quatrocentas e cinquenta gramas de beleza, nasceu a minha sobrinha Margarida. Uma família cada vez mais feminina - elas já são sete e eles dois.

2008-11-22

o pecado original

A impressão geral que me ficava da religião nos tempos da catequese não era luminosa. Pelo contrário, tudo aquilo transmitia um mundo bastante tenebroso, a ideia de um Deus castigador e de nós sujeitos a um destino de submissão trágica. Os primeiros pais tinham pecado, Deus andava irado com a gente e Jesus sofria na cruz para ver se nos libertava. A alegria era um roubo e a palavra Evangelho, que quer dizer "notícia boa", não pousava sobre nós nem nos aquecia.

O que infectava o cristianismo era a doutrina infausta do pecado original. Escreveu o célebre historiador católico Jean Delumeau: "Não é exagerado afirmar que o debate sobre o pecado original, com os seus subprodutos - problemas da graça, do servo ou livre arbítrio, da predestinação -, se converteu (no período central do nosso estudo, isto é, do século XV ao século XVII) numa das principais preocupações da civilização ocidental, acabando por afectar toda a gente, desde os teólogos aos mais modestos aldeões. Chegou a afectar inclusivamente os índios americanos, que eram baptizados à pressa para que, ao morrerem, não se encontrassem com os seus antepassados no inferno. É muito difícil, hoje, compreender o lugar tão importante que o pecado original ocupou nos espíritos e em todos os níveis sociais. É um facto que o pecado original e as suas consequências ocuparam nos inícios da modernidade europeia o centro da cena mundial, sem dúvida muito atribulado."

No entanto, a doutrina do pecado original, no sentido estrito de um pecado transmitido e herdado, não se encontra na Bíblia. Jesus nunca se referiu a um pecado original.

Na sua base, encontra-se fundamentalmente Santo Agostinho, a partir de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12. Mas ele seguiu a tradução latina: Adão, "no qual" todos pecaram, quando o original grego diz: "porque" todos pecaram. Ora, uma coisa é dizer que todos são pecadores e outra afirmar que todos pecaram em Adão, como a árvore fica infectada na raiz, de tal modo que todos nascem em pecado do qual só o baptismo os pode libertar. Santo Agostinho deixava cair no inferno, mesmo que menos terrível, as crianças sem baptismo. Durante séculos, houve mães tragicamente abaladas, porque os filhos morreram sem baptismo.

A Santo Agostinho serviu esta doutrina sobretudo para, convertido do maniqueísmo ao cristianismo, "explicar" o mal no mundo, que não podia vir do Deus criador bom.

De facto, baseou-se numa exegese errada. E quem não sabe hoje que o que diz respeito a Adão e Eva e à queda é da ordem do mito? Adão e Eva não são personagens históricas. Depois, se eles ainda não sabiam, como diz o texto do Génesis, do bem e do mal, como podiam pecar? O que o texto diz é outra coisa, e fundamental: o que caracteriza o Homem frente ao animal é a liberdade. O Homem já não é um animal como os outros: tem auto-consciência, sabe de si como único - a nudez metafísica - e que é mortal.

Mas os estragos desta doutrina infausta foram e são incalculáveis, sobretudo a partir do acrescento de Santo Anselmo e a sua doutrina da retribuição: os primeiros pais cometeram uma ofensa contra Deus infinito e, assim, era necessária uma reparação infinita para uma dívida infinita que só o Deus-homem Jesus podia pagar na cruz.

Ficou então a ideia de um Deus por vezes monstruoso, que precisou da morte do Filho para reconciliar-se com a Humanidade. Mas como era isso compatível com o Deus amor? Porque o pecado se transmitia pelo acto sexual, a sexualidade, o corpo e a mulher ficaram envenenados, numa situação dramática: era preciso continuar a gerar filhos - no limite, a actividade sexual só se legitimava para a procriação -, mas eles eram gerados em pecado e a mulher trazia o pecado dentro dela.

Porque é que o primeiro acto humano da História havia de ser o pecado? Hoje, com a teoria da evolução, a contradição torna-se maior. E, afinal, o que São Paulo diz no passo célebre da Carta aos Romanos é uma mensagem de esperança: todos os seres humanos pecam, o pecado do Homem é grande, mas o amor de Deus é maior. Infinito.

Anselmo Borges, padre

2008-11-21

Tout d'un coup je l'ai surpris


Clémentine Poidatz

os novos descamisados


Reunido em Sintra o Conselho da Globalização (uns senhores que mandam na política e na economia, e nas nossas almas, quiçá...) , vêem-se nas imagens sem gravata, em traje informal, quais descamisados da pós-modernidade. Vão discutir propostas para sair da crise, a deles, claro, (isto não é assim tão simples, mas hoje não me peçam para ficar ao lado dos fracos e pobrezinhos). Apareceram a prestar declarações, os senhores banqueiros Ricardo Salgado e Fernando Ulrich. Estão com problemas, os pobres...tenho uma sugestão quentinha e boa para os dois: lancem um negociozinho de venda de castanhas. Façam uma sociedade, mas nada de oparem os vendedores já estabelecidos no mercado. Vão ao IEFP e pedem um apoio para começar o negócio.

2008-11-08

"dar Voz aos pobres...

para erradicar a pobreza"


Quando se pergunta pelo objectivo da sociedade emancipada, obtêm-se respostas tais como a realização das possibilidades humanas ou a riqueza da vida (...). A única resposta delicada seria a mais grosseira: que ninguém mais passe fome.

Theodore Adorno (Minima Moralia)


A responsabilidade da erradicação da pobreza:

Com certeza que é do Estado e das autarquias, pois têm o dever de estar atentos e têm meios para responder aos problemas. Mas a responsabilidade é de todos. Se estivermos à espera de uma solução vinda de alguém que vai resolver, não conseguimos ultrapassar. Temos é de exigir do governo a sua parte. A igreja pode amplificar a voz dos pobres e a própria Igreja, se não for mais pobre, também não terá voz”.

Carlos Azevedo, bispo

prova de vida, 2



PUTA, por um segundo

os seios ali ,

troncos virgens, sem batismo.
nenhuma boca, mesmo desconhecida,
insana
pousa sobre este aluvião de carnes.
quer um gozo. grunhir
úmida.
arrebentar toda castidade imposta



Mário Cezar

imagem- desfile de cadetes em traje tradicional,
Praça Vermelha, Moscovo
Reuters/Denis Sinyakov

prova de vida

Lucien Freud


a solidão é uma experiência canina.

2008-11-07


quando os meus pais souberam
que fora eu quem assaltara a igreja
roubando o dinheiro das esmolas
para pagar aos amigos copos de vinho
e que até desfigurara o rosto dos santos
em meu nome pediram desculpa ao padre
e mandaram rezar missa
como se estivesse morto

José Ricardo Nunes,
Caldas da Rainha

2008-11-06

e quem vier a seguir que apague a luz

saber olhar o cacto, ou a nós próprios

Não se inveja as pessoas cujo íntimo está repleto de mesuras e sentimentos gentis e fraternos, que dão mais valor à colorida flor do cacto do que ao próprio, que deslizam pelos dias como se este fosse um escorrega de geleia doce, e se socorrem de todos os ideais e princípios para desculpar e louvar os monstros que lhes castraram a vida.

José

e?

Houve ditadores que decidiram bem...

D. José Policarpo

texto integral aqui

Isso legitima alguma coisa? Qualquer pessoa é passível de fazer boas acções. Mas isso não a faz boa pessoa. O fazer é inseparável do ser e vice-versa.






tão complicado como depenar galinhas, sr D. José


D. José Policarpo, cardeal Patriarca de Lisboa, confessa-se ao Diário Económico. Fala de vários temas sobre os quais é interpelado. Ousa um bocadinho. Eu é que já não tenho paciência para os pudores dos senhores bispos. Colocam a mitra, vão para o ambão, e é só certezas. Para acabarem (em conversas particulares) a confessar que não têm mandato para resolver alguns problemas que eles mesmos criaram.


Há problemas mais complicados na vida dos cristãos que eu continuo a pensar que não podemos desistir de procurar soluções – como é o caso de re-casados que temos na nossa sociedade. Para uma alteração radical, a 100%, da visão da sexualidade humana eu não tenho mandato. Nem convicção pessoal.


António Costa e Francisco Teixeira
in Diário Económico


2008-11-05

de olhos postos na América

A man monitors the Presidential elections results on television at the ancestral home of Democratic presidential candidate Senator Barack Obama in Nyangoma Kogelo village, 430km west of Kenya's capital Nairobi, November 5, 2008.
REUTERS/Thomas Mukoya


"Podemos" (Barack Obama), acreditar que o sonho vence o cepticismo, a desesperança, a destruição, a ganância, o medo. É sempre possível fazer e esperar melhor.


2008-11-04

a vida

Desde que Jesus disse acerca de si: eu sou a vida (Jo 14,6,11,27), nenhum pensamento cristão ou até filosófico, pode ignorar tal reivindicação e a realidade nela contida. Esta afirmação feita por Jesus acerca de si mesmo declara como vã e já fracassada toda a tentativa de expressar a essência da vida em si. Enquanto vivemos e não conhecemos os limites da nossa vida,a morte, como poderemos dizer o que é a vida em si? Podemos unicamente viver a vida, não defini-la. A palavra de Jesus liga todo o pensamento sobre a vida à sua pessoa. Eu sou a vida. Nenhuma questão sobre a vida pode ir mais além deste "eu sou". A questão sobre o que é a vida torna-se aqui a resposta de quem é a vida. A vida não é uma essência, um conceito, antes uma pessoa e precisamente uma pessoa determinada e única, e é esta pessoa determinada e única não no que ela entre outras coisas também tem, mas no seu eu, no eu de Jesus. A todas as ideias, conceitos, caminhos, que pretendem dizer o que é a essência da vida, Jesus contrapõe drasticamente este eu. Ele não diz: eu tenho, mas eu sou a vida. Por isso, a vida já não é separável do eu, da pessoa de Jesus. Ao anunciar isto, Jesus não diz ser só a vida - isto é, uma entidade metafísica que porventura não me diz respeito - mas justamente a minha vida, a nossa vida. A minha vida está fora de mim, não está à minha disposição; a minha vida é de outrém, um estranho, Jesus Cristo, e tal no sentido trasladado de que a minha vida não seria digna de ser vivida sem este outro, portanto, no sentido de que Cristo lhe conferiria uma qualidade particular, um valor particular, com a consequência de que a vida teria sempre uma subsistência própria, mas que a própria vida é Jesus Cristo. Aquilo que assim vale acerca da minha vida vale a propósito de tudo o que é criado:"Tudo o que foi feito - nele era a vida" (Jo 1,4)

Dietrich Bonhoeffer - Ética

vígil

(Anne Lea Merritt, eve)

Atravesso o deserto e amo-te, amo-te, o rubi com asas dentro que trazes no coração é uma fada protegendo-me, com desmedida volúpia acaricio os teus ombros, o corvo foge a toda a velocidade, a noite é muito longa mas nós não dormiremos, por esses cabelos luminosos é que o futuro chega, nos conduz ao litoral, nos leva até à criança que há em nós, esperemos que a criatura justa volte a nascer, os pequenos sonhos se façam realidade, a salvação, desta vez, seja total e definitiva.

Amadeu Baptista


aprender a arte da fantasia, com quem sabe


Dakar, November 3, 2008.
REUTERS/Michael O'Reilly

2008-11-02

a Palavra


Eu sei que o meu redentor vive e prevalecerá, por fim, sobre o pó da terra;
e depois de a minha pele se desprender da carne,
na minha própria carne verei a Deus.
*Eu mesmo o verei,
os meus olhos e não outros o hão-de contemplar!

Job, 19

2008-11-01

todos os Santos

Semelhança

É ser quase invisível ser presente.
Na distância é que os astros aparecem;
E nas profundas trevas sepulcrais
É que podemos ver
Esta figura humana da Tragédia,
Esta máscara grega que faz medo
Aos deuses e aos demónios! Esta imagem
Acendida de cores palpitantes,
Além das quais se escondem num tumulto,
Outras vagas imagens, pretendendo
Vencer e dominar, romper a névoa,
Surgir à luz do dia!
Só nas trevas,
Se ilumina a expressão das criaturas,
Como um céu nocturno, Ó lua nova,
O teu perfil de prata que me lembra
O perfil de Virgílio a revelar-se
Na morta escuridão de dois mil anos.
É nas trevas que as almas aparecem.
E a sua face externa, dimanando
Este ar humano a arder em luz divina
Ou toldado de fumo enegrecido:
O relevo mais alto
Dum rosto que se anima, aquele traço
Que melhor o define, aquele modo
De olhar e de falar, aquele riso
Ou de anjo ou de demónio;
Este ar inconfundível e perpétuo
Que trouxemos do ventre maternal.
Fulgura na beleza amanhecente
E conserva acendida, entre as ruínas
Da trágica velhice,
A monótona lâmpada soturna,
Em melancólicos lampejos frios.
E inalterável paira sobre a face
Gelada dos cadáveres.. .
E dela se desprende; e, já liberto,
Em vulto de fantasma,
Fica, por todo o sempre, a divagar
Entre o luar e a noite, o Céu e a Terra.

II

O génio dum pintor
É dar as cousas como Deus as fez
E como Deus, sonhando, as concebeu,
Bem antes de as criar. É dar o sol
E a sombra original que lhe embrandece
O ímpeto doirado a desfazer-se,
Em luminosa espuma, sobre o mundo.
É dar a um rosto humano a forma viva,
A claridade viva que ele trouxe
Do ventre maternal...
Esta anímica luz de simpatia
Que se exala, no ar, e vem de dentro
Dum coração a arder:
A nossa própria imagem condensando,
Através da aparência transitória,
A eterna aparição.

III

A tinta dá a aparência deslumbrante,
A luz carnal que veste os ossos do esqueleto
E em nós acende uma ilusão de vida,
Um desejo de ser quase infinito,
Um sonho de existir eternamente...
Este sonho divino que nos leva
Nas suas ígneas asas sempre abertas
No coração da noite.
Para onde vamos nós? Para onde vai
A perfeita alegria que se apaga,
E nos deixa na alma
Como um sabor a cinza?
E no silêncio que vem da serra com a lua
E passeia comigo no jardim?
E o perfume das rosas e dos lírios
Que derramam, na sombra, bem se vê,
Fosforescências brancas e vermelhas,
Quando o luar é mármore desfeito
A cair, a cair, em luminoso pó?
Cai na terra que tem defunta palidez,
Sorrisos mortos, lágrimas de neve,
Pedrinhas preciosas que cintilam
E negras manchas de terror, fingindo
O recorte das árvores extáticas.
A tinta dá a aparência radiosa;
Um arco-íris nas paletas,
E a alegria da virgem Primavera
E o sangue que ilumina a tua face
E é como a aurora a percorrer-te as veias
E dos teus lábios foge, num sorriso...
Mas o carvão dá a noite, a intimidade, a alma,
Os recantos escuros da paisagem,
Onde o mistério e a sombra
Parecem adquirir uma presença vaga...
E extrai do alvor luarento do papel
O fantasma escondido, em nós, durante a vida,
Mas cá fora, ao luar, depois da nossa morte.
O óleo diurno lança num perfil
Todo o esplendor externo da expressão,
Este ar espiritual de etérea luz,
Que, emanando de dentro, se condensa
Em relevos de carne e sangue quente,
Donde se exala a dor em turbilhões de fumo
E a alegria agitando as luminosas asas.
Mas o carvão nocturno esboça a medo
A nossa intimidade, aquela imagem
Que em nosso coração se esconde e em certas horas,
De alto delírio e exaltação profunda,
Aparece, na Terra, em nosso nome,
Como um anjo de luz, como um demónio a arder!
Caim e Abel! Orfeu tangendo lira!
O grito de Jesus nas trevas do Calvário!
Lucrécio enlouquecido a escorraçar os Deuses
Para os confins do Olimpo...
E estrela do pastor que, à tarde, cintilava
Nos olhos de Virgílio, extáticas lagoas
Que reflectem a lua entre folhagens de árvore
E misteriosos perfis de espectros agoirentos.
Um retrato a carvão faz medo. Mostra à luz
Aquela negra sombra pavorosa
Que emite, para dentro, a criatura humana,
A fim de que ninguém a possa contemplar.. .
O segredo mais trágico das almas
A converter-se numa voz terrível,
Como um grito da Esfinge, no Deserto,
Que fizesse tremer o vulto das Pirâmides
E violentasse a tampa dos sepulcros,
Onde jazem os Deuses primitivos
E os primitivos Monstros que os poetas
E as entranhas da Terra conceberam.
Mas um retrato a óleo
É máscara pintada a tintas animadas,
Tão sensível de luz e de ternura
Que parece evolar-se num sorriso
E noutras claridades.

IV

O pintor surpreende a alma e o corpo,
A aparência da vida, a aparição da morte,
Mas não consegue dar o espírito divino,
O que somos além da morte e além da vida.
Só poderiam dar a imagem verdadeira
Do espírito divino as tintas milagrosas
Extraídas daquele sol eterno
Que faz desabrochar as almas e as estrelas...
Daquele sol oculto em certos versos,
Nas palavras de Paulo e de Jesus,
Nos gritos de aflição, do amor e da saudade
Que, junto dum sepulcro ou berço consagrado,
Lançam as mães aos ventos do Infinito!
Somente em certos versos misteriosos
Dos grandes Poetas, brilha aquele sol
Que faz desabrochar as almas e as estrelas.


Teixeira de Pascoaes
Cânticos
1925
Poesia de Teixeira de Pascoaes
Antologia organizada por Mário Cesariny
Assírio & Alvim