2008-03-25

Vida eterna

..."Não sabemos o que queremos dizer com "vida eterna". Apenas podemos pressentir que "a eternidade não é um contínuo suceder-se de dias no calendário, mas como o instante pleno de satisfação, no qual a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade". Seria o instante da submersão na imensidade do ser, na vida plena, "no oceano do amor infinito, no qual o tempo já não existe."

Anselmo Borges, in Diário de Notícias

humana condição

Manifestas-me o cansaço dos teus dias. A rotina, a mudança esperada e que tarda a chegar. O vazio que se prolonga pelos que te são próximos e os ecos de desumanização que te chegam dos que estão distantes. E basta ouvirmos 5 minutos de notícias para sentirmos como o mundo está longe de ser o paraíso. Não desvalorizei nem minimizei nada do que me disseste. Mas penso que consegui semear algumas sementes de esperança no teu coração. Com carinho redobrado e toda a doçura possível pedi-te que valorizasses tudo o que de bom já possuis e reconheces nos outros. Sabes-me crente no Cristo vivo. É nele que fundamento a minha esperança e confiança. É nele e por Ele, que te mostro que é uma ventura estar vivo. Confia...

dia do pai


Com atraso em relação à data (mas como noutros casos, a celebração extravasa o dia celebrativo), quero festejar todos os homens. Sejam pais ou não. O Luís diz no texto abaixo:"Um homem que inspira confiança". Refere-se a Bernardim Ribeiro. Eu estendo-o a todos os homens. Mesmo àqueles que em vários momentos ou por toda a vida, não sabem segurar ou temem estender a mão. Todos precisamos de acreditar que um pai nos espera em casa. Cabe-nos a todos alimentar essa esperança. Porque mesmo de cabelos brancos e de rugas vincadas não passamos de perpétuos gaguejantes da idade dos "porquês".






"Hoje vou de comboio, para sul que é de onde vem a tempestade. É lá fora que está muito frio. Aqui dormem quase todos. Se há mulheres não é nesta carruagem. É dia do pai, um desses dias cruéis para quem não tem pai, nem filhos que se lembrem. Um homem tenta segurar a cabeça como as crianças que julgam que vão morrer se adormecerem. O serviço púlico passa o Eládio Clímaco e num instante chegamos à inclemente estação que o Calatrava deixou a Lisboa. No regresso reconforto-me com a crónica do MEC, tão bonzinho o MEC já com uma perna nova. E depois com palavras simples. Como folar, tão próxima da infância, tão próxima de um follar sem censura nem outra consequência que a mútua diversão. Não há música no comboio de regresso. Se houvesse seria uma área de La Walli. Esta divagação foi, no entanto, interrompida por uma voz que pede um médico. Pede-se um médico à carruagem bar. Eu levanto-me. Atravesso três carruagens e embora tropece, os passos parecem decididos. Abrem-me portas. Peço informações ao revisor. Foi um miúdo que se sentiu mal. Está no chão, pálido, a tremer. Ajoelho ao seu lado. Seguro-lhe no pulso. É das poucas coisas que sei fazer. Segurar no pulso, procurar a artéria que bate no pulso. Contar. Perder a conta. Voltar a contar. Perguntar coisas simples. O miúdo está em pânico. Quer saber porque é que treme assim. Eu quero saber quem é ele. De onde vem. Com quem está. Que fez durante o dia. Quando é que se sentiu assim. Para onde vai. De que cor são os seus olhos míopes. Onde está o pai dele. Digo-lhe para não respirar assim. Digo-lhe para não ter medo. Lembro-me do meteorologista que vi de manhã e digo-lhe:- Estamos a afastar-nos da tempestade. A caminho da cidade de Bernardim Ribeiro. Foi do que me lembrei. - Bernardim Ribeiro. Um homem que inspira confiança. Estamos a caminho de casa. Em casa está o teu pai. Se não estiver, está a chegar. Há-de chegar, o teu pai."

foto de Sebastião Salgado

2008-03-18

Feliz Páscoa

imagem retirada daqui

um pequeno raio de luz

Assim que atendo, diz-me de chofre:"A sua amiga morreu". A Maria Eduarda tinha noventa e dois anos, não surpreende que tenha chegado a sua Páscoa definitiva. Mas, para mim, não foi indiferente que tenha acontecido logo neste tempo litúrgico. Se foi um acaso, mera coincidência... a mim fez-me centrar, por aquilo que acompanhei da sua vida, no que é essencial e acessório da mesma. O essencial é tudo o que fica para além do que fazemos, possuímos e somos. Da Maria Eduarda, ficou-nos uma confiança e fé ilimitadas. Uma ternura transbordante, uma serenidade contagiante. Dela podia-se dizer com verdade:"Era um raio de luz numa igreja em ruínas."

orar

...Orar é deixar-se amar por Deus. É deixar o silêncio de Deus ressoar em nosso espírito. É permitir que ele faça morada em nós. Sem cair no farisaísmo de achar que a minha oração é melhor do que a sua, como aquele fariseu frente ao publicano (Lucas 18,9-14). Quem ora procura agir como Jesus agiria. Sem temer os conflitos decorrentes de atitudes que contradizem os antivalores da sociedade consumista e individualista em que vivemos.



Fri Betto



ler o artigo completo aqui

2008-03-14

o segredo

Um amigo fala-me do livro "O Segredo". Lembro-me de já ter ouvido falar, como fórmula mágica e eficaz de sucesso na vida. Como conheço o suficiente da mesma, para saber que não existem receitas mágicas de "pronto-a-viver", relevo. Mas não evito de pensar nos sucessos que tenho alcançado, de cada vez que me sussurras ao ouvido: "És maravilhosa".

dentro do orçamento:

Uma Maria da Luz, dizia uma tarde destas na SIC (num daqueles programas para quem não sabe onde gastar o tempo): "Deus concede-me tudo o que eu lhe peço." (Comecei logo a desdenhar. Irritam-me todos os simplismos em relação a Deus). Mas era uma Maria da Luz sábia, porque a seguir a uma breve pausa, acrescentou:"Desde que esteja dentro do Seu orçamento".

eu e mais...

Dou-me bastante bem comigo própria. Já me é mais difícil fazê-lo com as diversas imagens que os outros têm de mim. Por norma, estranho sempre a imagem que me devolvem. Erro de avaliação dos outros? Talvez! Mas se num primeiro momento, sou impelida para a rejeição, logo levo em conta que é na relação com o(s) outro(s) que construo a minha identidade.

pecados capitais:

recomendo que se acrescente mais um à lista: nada de palavras de consolo que redundam em frases assassinas. Tipo: "A D. Celeste diz que se fartou de chorar a primeira vez que se olhou ao espelho. Mas ela é casada...tem o marido..."

2008-03-07

um testemunho, um grito de alerta: Ingrid Betancourt

Prisioneira das Farc. Um símbolo de mulher que resiste à violência e ao poder arbitrário. A liberdade, já!

o feminino

Olhar a nossa sociedade não é fácil, muito menos ser mulher com sonhos e projectos numa sociedade ainda fortemente machista. Mas olhar é a acção primeira do mundo feminino que prefere observar, analisar para depois fazer suas escolhas.

É a mulher que indaga, busca explicações e se emociona com as notícias de violência e com qualquer dor alheia. Raras excepções calculam apenas danos materiais ou morais.
Colocar-se no lugar do outro ou da outra ainda é o papel principal da mulher, seja ela jovem ou idosa. É ela que percebe a fome no rosto da criança, a dúvida no olhar do aluno, os problemas dos filhos.


Será, contudo, esse olhar um privilégio apenas da mulher? Com certeza não, mas é, sem dúvida, o papel que lhe coube quando o machismo muitas vezes não permite ao homem chorar, ser delicado ou complacente.

Embora os homens tenham contribuído para a revolução cultural, a mulher precisou assumir um certo feminismo político dividida entre a emoção e a razão.
Encontramos na discussão sobre a relação de género a complexidade da convivência desses dois universos: masculino e feminino. No entanto, descobriu-se mais do que uma complexa relação, uma realidade complementar em que ambos aprendem e ensinam.
Mesmo chegando, teoricamente, a um grau de harmonia, não é possível ignorar o olhar feminino que norteia a sociedade, esta construída com os desequilíbrios humanos, insensatez e, sobretudo, pensada com a dinâmica do poder. Olhar que elucida, alenta e humaniza.

O olhar feminino arrebata e consegue fazer os homens se enxergarem mais e identificarem suas inseguranças e dores. Talvez este seja o único caminho para a verdadeira igualdade de género, quando o feminismo não se tornará mais necessário e as diferenças no campo profissional e na formação desaparecerá.

No momento em que uma mulher olha para a vida, estabelece uma comunhão de sensações, afectos e entendimentos porque quer experimentar conscientemente a liberdade de viver. Liberdade que nem homens, nem mulheres conhecem na sua essência e por isso insistem em magoar e reprimir uns aos outros.
Infelizmente, vivemos todos numa sociedade que não é livre. Homens e mulheres são reféns da violência, do vício, do fanatismo, da politicagem e da exploração.
O olhar feminino busca, apesar de tudo, um espaço para a cumplicidade entre homens e mulheres, onde a vivência social ganha uma nova leitura do ponto de vista político, econômico e cultural.


Imperdoável seria esse olhar perder-se num feminismo fechado e idealizar uma guerra nas diferentes áreas de actuação da mulher. Mais irreparável seria o olhar masculino não mais enxergar o romantismo, a poesia e o afeto em seu par.

Contudo, lembrando a comemoração do dia internacional da mulher, acho importante desejar aqui que homens e mulheres conquistem, a cada dia, a felicidade com o olhar voltado para um compromisso mútuo, com base na honestidade e na compreensão das diferenças.

Maria Rosa Coutinho

mariarosacoutinho@yahoo.com.br
* Professora universitária de Sociologia

publicado em Adital

2008-03-05

palavras para o dia que aí vem...

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.


Maria do Rosário Pedreira

são assim os nossos dias...

no mesmo dia em que sei que Rouco Varela é o novo presidente da Conferência Episcopal Espanhola, descubro que o Migalhas criou um blog na língua de nuestros hermanos. Como diz o povo:"Uma mão lava a outra".

2008-03-04

mea culpa

Como católica apostólica romana, tenho vergonha da forma como tem agido a grande maioria dos bispos espanhóis, na actual campanha eleitoral.

dar vez à esperança

...Estou lendo uma biografia de Dietrich Bonhoeffer, intitulada, muito significativamente, "Deveríamos ter gritado". Bonhoeffer, teólogo e pastor luterano, profeta e mártir, foi assassinado pelo nazismo, no dia 9 de abril de 1945, no campo de concentração de Flossenbürg. Ele denunciava a «Graça barata» à qual reduzimos muitas vezes nossa fé cristã. Advertia também que «quem não tenha gritado contra o nazismo não tem direito a cantar gregoriano». E chegava finalmente, já nas vésperas do seu martírio, a esta conclusão militante: «Tem que se parar a roda bloqueando seus raios». Não bastava então socorrer pontualmente as vítimas trituradas pelo sistema nazi, que para Bonhoeffer era a roda; e não nos podem bastar hoje o assistencialismo e as reformas-remendo frente a essa roda que para nos é o capitalismo neoliberal com os seus raios do mercado total, do lucro omnímodo, da macro-ditadura econômica e cultural, dos terrorismos do estado, do armamentismo de novo crescente, do fundamentalismo religioso, da devastação ecocida da terra, da água, da floresta e do ar.

...Não podemos ficar estupefatos diante da iniqüidade estruturada, aceitando como fatalidade a desigualdade injusta entre pessoas e povos, a existência de um Primeiro Mundo que tem tudo e um Terceiro Mundo que morre de inanição. As estatísticas se multiplicam e vamos conhecendo mais números dramáticos, mais situações infra-humanas. Jean Ziegler, relator das Nações Unidas para a Alimentação, afirma, carregado de experiência, que «a ordem mundial é assassina, pois hoje a fome não é mais uma fatalidade».

...Mas a Utopia continua. Como diria Bloch, somos «criaturas esperançadas» (e esperançado-ras). A esperança segue, como uma sede e como um manancial. «Contra toda esperança esperamos».

...Frente ao descrédito da política, em quase todo o mundo, nossa Agenda Latinoamericana 2008 aposta por uma nova política; até «pedimos, sonhando alto, que a política seja um exercício de amor». Um amor muito realista, militante, que subverta estruturas e institui-ções reacionárias, construídas com a fome e o sangue das maiorias pobres, ao serviço do condomínio mundial de uma minoria plutocrata.

...É tempo de paradigmas. Creio que hoje se devem citar, como paradigmas maiores e mais urgentes, os direitos humanos básicos, a ecologia, o diálogo inter-cultural e interreligioso e a convivência plural entre pessoas e povos. Estes quatro paradigmas nos afetam a todos, porque saem ao encontro das convulsões, objetivos e programas que está vivendo a Humanidade maltratada, mas esperançada ainda sempre.

...Irmãos e irmãs, que raios vamos quebrar em nossa vida diária?, Como ajudaremos a bloquear a roda fatal?, Teremos direito a cantar gregoriano?, Saberemos incorporar em nossas vidas esses quatro paradigmas maiores traduzindo-os em prática diária?

Recebam um abraço entranhável na esperança subversiva e na comunhão fraterna do E-vangelho do Reino. Vamos sempre para a Vida.

Pedro Casaldáliga Circular 2008

(sublinhados meus)

assim mulher


frida kahlo