2008-04-24

Bento XVI, pedofilia e o sacerdócio


O papa Bento XVI, na sua recente visita aos Estados Unidos, reconheceu que a Igreja Católica não agiu corretamente ao tratar dos casos de pedofilia envolvendo o clero. Junto com esse reconhecimento, ele assumiu o compromisso de lutar para que esses casos não ocorram novamente.

Quando enfrentamos problemas tão graves como esse, existem três possibilidades de abordagem. A primeira é considerar o erro como proveniente basicamente do modo como os agentes responsáveis atuaram dentro das estruturas e regras existentes. A segunda é assumir que a causa principal provém das estruturas e regras. A terceira é diagnosticar o problema como sendo causado por uma mistura de erros de procedimento dos agentes e dos problemas estruturais. Parece que o papa está assumindo a primeira hipótese: a causa fundamental foram os erros de procedimentos dos responsáveis e não haveria nada de substancial na estrutura e das regras fundamentais da vida do clero (por ex., a obrigatoriedade do celibato e a exclusão das mulheres) que precisa ser revisto. No fundo ele parece partir do princípio de que a estrutura da Igreja Católica é inquestionável.

Sendo assim, dois momentos se destacam nessa luta para que esses escândalos não se repitam: (a) momento da seleção dos candidatos ao sacerdócio e (b) quando os bispos e a comunidade tomam conhecimento de casos de padres pedófilos. É possível e necessário que o processo de seleção dos candidatos ao sacerdócio seja mais rigoroso; mas é impossível evitar que alguém com tendência a pedofilia ou a outros problemas de ordem afetivo-sexual chegue à ordenação. Afinal, eles não se declaram como tais e nem todas as pessoas responsáveis pela seleção conseguem "detectar" essas tendências. Isso sem contar a pressão que os bispos sentem pela falta de clero para atender a necessidades de paróquias sem padres residentes.

Assim sendo, sempre haverá casos de pedofilia ou de outros escândalos sexuais com clero, como também em outros grupos sociais ou agremiações profissionais ou religiosas. Então vem o segundo momento: a ação dos bispos ou superiores responsáveis diante desses casos. E infelizmente a história nos condena! Os bispos dos Estados Unidos e também de outros países em que esses escândalos se tornaram públicos têm mostrado um comportamento padrão: transferir o padre para um outro lugar, ao invés de encaminhar para um tratamento ou suspender do exercício sacerdotal.
Essa postura de "negação" da gravidade do problema não pode ser visto como uma simples falha pessoal de um determinado bispo, que poderia ser corrigida com um "puxão de orelha" por parte do papa. Na medida em que esse comportamento tem sido padrão em quase todos os lugares, podemos pensar que ele é uma resposta "sistêmica" da cultura que domina no interior da Igreja Católica.
A pergunta óbvia que surge é: por que os bispos preferiram esconder ou negar o problema até que atingiu uma proporção tão grande e que custou às dioceses norte-americanas mais de dois bilhões de dólares em indenizações às vítimas? Para tentar responder a essa questão, façamos um caminho inverso. O que aconteceria se os bispos assumissem que há ou havia pedófilos entre o seu clero?

De acordo com a teologia da Igreja Católica, Deus escolhe e separa do "mundo" algumas pessoas para serem "sacerdotes", pessoas sagradas que terão o "privilégio" de ter acesso às coisas e ritos sagrados do altar. Um dos sinais exteriores dessa vocação, que marcaria e mostraria a diferença/separação em relação às pessoas comuns, seria a vocação a uma vida celibatária. Aqui o sagrado aparece intimamente ligado a um determinado modo de viver a sexualidade. Essa é, provavelmente, a razão pela qual os padres continuam sendo vistos como separados, estando acima do "povo de Deus".

A vocação sacerdotal, que sempre é subjetiva, recebe o reconhecimento objetivo e oficial pela ordenação. A Igreja assume o papel de confirmar a vocação sagrada que vem de Deus. Nesse processo, o bispo representa Deus. Mas, se esse mesmo bispo assume publicamente que um ou mais dos seus sacerdotes têm problemas graves no campo afetivo-sexual, toda essa visão do sacerdócio entra em crise. E junto com ela uma determinada visão da Igreja.
O que houve de comum a todos os bispos que preferiram esconder ou negar o problema da pedofilia ou de outros abusos sexuais cometidos pelos padres é, provavelmente, o desejo de preservar uma teologia que defende a vocação como separação do "mundo", o ministério de presbíteros como a missão dos sacerdotes de, fundamentalmente, renovar os ritos sagrados (especialmente a missa, entendida como renovação do sacrifício de Jesus na cruz) e, principalmente, manter a imagem da Igreja como instituição sagrada.
Se as minhas reflexões têm alguma razão, esses escândalos não são problemas restritos aos distúrbios sexuais de alguns padres, mas requer toda uma discussão da teologia da vocação e ministério presbiteral, das disciplinas que regem a ordenação (como a exclusividade dos homens, o celibato obrigatório, etc.) e a retomada de uma eclesiologia do Povo de Deus.
Mesmo que essas minhas reflexões estejam equivocadas, não se pode negar que o modo como as pessoas responsáveis lidaram (ainda lidam?) com casos de padres pedófilos e/ou que cometem outros abusos sexuais forma um padrão. E isso mostra que, além dos erros na condução dos problemas, há problemas no âmbito estrutural que precisam ser discutidos e enfrentados. Só assim, o compromisso do papa Bento XVI se tornará eficaz.

Jung Mo Sung - Adital
* Professor de pós-grad. em Ciências da Religião da Univ. Metodista de S. Paulo e autor, dentre outros, de "Competência e sensibilidade solidária: Educar para a esperança" (com Hugo Assmann)

5 comentários:

  1. Pena é que, enquanto inquisidor mor, tenha mandado silenciar a questão e proibido a colaboração com as autoridades sob pena de excomunhão.

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  2. Pois é, se te descuidas.

    (“Puede haber menores que sí lo consientan y, de hecho, los hay. Hay adolescentes de 13 años que son menores y están perfectamente de acuerdo y, además, deseándolo. Incluso si te descuidas te provocan. Esto de la sexualidad es algo más complejo de lo que parece.”)

    El obispo de Tenerife, Bernardo Álvarez, encierra en esta justificación el origen de un delito

    Se ves pornografia. Será que são estes os filmes que os padres veêm.

    Pedofilia, Papa faz mea-culpa, mas critica sociedade americana

    (“O Papa Bento XVI reconheceu, nesta quarta-feira, diante dos bispos dos Estados Unidos, que o escândalo dos padres pedófilos americanos foi "mal administrado", mas também responsabilizou a "ruptura de valores" da sociedade americana, como a "pornografia e a violência" onipresentes.”)

    Ja é tudo uma questão de circunstâncias para se cometer delitos,( a ocasião faz o ladrão) se te descuidas, se ves pornografia, já não conta nada saber o que é o bem e o mal nem os valores da personalidade de cada um. Bem me parecia que isto andava tudo misturado, esta mania de nunca assumir as culpas por inteiro, como que a querer dizer, nós bem queremos ser integros e moralistas mas há qualquer coisa sempre no nosso caminho que nos desvia dessa integridade e nos leva a cometer actos pecaminosos e reprovaveis. E então primeiro vem a ocultação e a “compra dos ofendidos”, não resulta, bem então procura-se dizer que há culpa mas enfim também ha circunstancias.

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  3. Há porcos que javardam por todo o lado. Não sabem ficar na pocilga.

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  4. A minha pena (e como católica faço parte disto)é que não se enfrenta este problema na raíz. Ou no que é possível dela. E não vejo melhoras nenhumas. Na sua grande maioria, continua a ser o mesmo perfil de candidato a padre que é escolhido. Um perfil muito perigoso para esta e outras situações.
    E se pensarmos em seminários onde só existem homens? Qaundo muito alguma cozinheira ou senhora da limpeza...mas não são essas pessoas que entram na formação ou nas relações dos seminaristas. Cada vez que penso nisto, mais anormal acho isto tudo.

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  5. Um problema grave que tarda em ser solucionado...

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