2008-04-10

a outra dizia:"não há coincidências..."


No dia em que, com afinco, decido mergulhar no "ANTICRISTO" de F. Nietzsche, telefona-me um amigo padre. Aparentemente nada de especial. Mas depois de ler Nietzsche a zurzir nos padres (poder-se-ia dizer que os padres de quem N. fala, não têm nada a ver com os de hoje. mas nem tanto, nem tanto...) e a dizer que há cabeceira dum doente é preciso um médico e não um padre...É de uma coincidência incrível que o meu amigo me conte, a nova experiência que está a fazer no acompanhamento de doentes.




Revejo-me em muitas ideias do Nietzsche sobre Deus, a Igreja, os padres...mas ainda encontro pessoas que fazem da compaixão e disponibilidade, um modo de vida a tempo inteiro. E pessoas que precisam desesperadamente disso. Por melhor que se idealize o mundo, a realidade continua a entrar-nos nos sentidos.

10 comentários:

  1. Já que andas à volta com o F. Nietzsche, há mais 3 obras dele que são impagáveis: Assim Falava Zaratrusta, O Crepúsculo dos Deuses e o Ecce Homo.

    Beijos,

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  2. (“e a dizer que há cabeceira dum doente é preciso um médico e não um padre”)

    Dizia um escritor portugues
    «Uma religião a que se elimine o ritual desaparece — porque as religiões para os homens ... não passam dum conjunto de ritos através dos quais cada povo procura estabelecer uma comunicação íntima com o seu Deus e obter dele favores.»

    É verdade, mas cada coisa no seu tempo devido. Chega-se a um ponto mais tarde ou mais cedo em que o papel do médico se esgotou, então para não restar a solidão ou a solidão de um final que se aproxima e que é cada vez mais devido a vida social existente, cada vez mais solitario, ou o médico faz de conselheiro e dá apoio, algum conforto espiritual nesses últimos momentos ou a pessoa passa os dias e morre na mais completa solidão, sabendo os familiares muitas vezes dessa ocorrência atraves de um frio telefonema.

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  3. há coicidências sim senhor, algumas felizes, como a tua...

    abraço MC

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  4. "Dor e impotência criaram todos os além-mundos, e ainda o breve delírio de felicidade que só aquele que mais sofre experimenta" (Assim Falava Zaratustra, I, 3).
    Bjs.

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  5. E no entanto, se fizer uam paragem cardíca, não me mandem uma ambulãncia com um padre mas com uam equipa do INEM a sério e com suporte avançado de vida.
    O resto é brincar com a saúde das pessoas. E isto é muitíssimo sério.

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  6. lino,

    ando pois a ler "Assim falava Zaratustra" e a deliciar-me.

    Os outros irão a seu tempo. È preciso cuidado com ma digestão ;)

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  7. luís, acaso, coincidência, "mão-de-Deus" a verdade é que foi importante. E eu bem sei porquê... ;)

    bjs

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  8. anónimo(a)

    cada coisa no seu lugar. O padre não se vai colocar à frente dos médicos. Os médicos é que salvam vidas. O padre talvez ajude a dar-lhe sentido.


    De qualquer modo, a presença do padre, é em primeiro lugar, uma presença humanizante. Coisa em que muito falha a nossa medicina. Sei muito bem do que falo.

    Para crentes ou não-crentes o padre pode ocupar um lugar próprio. É preciso é que ele queira e saiba o que é essencial.

    O padre já não é aquela figura que anda de cruz na mão e caldeirinha de água benta na outra a assustar com o medo do inferno. E a fazer cristãos a toda a força. Até porque não é asim que se fazem os cristãos.

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  9. Ora passando por aqui e lendo um comentário ao meu comentário, acho que não fui bem compreendido ou não me expliquei bem.

    “cada coisa no seu lugar”

    (“O padre já não é aquela figura que anda de cruz na mão e caldeirinha de água benta na outra a assustar com o medo do inferno.”)

    Fez-me sorrir esta frase, concerteza que ja não imagino o padre de uso de batina ou de fato preto ou cor discreta, com cabeção e de biblia debaixo do braço, so mesmo para caricaturar, género padre cruz ou padre américo, em que conhecendo a obra do segundo so posso dizer que foi meritória.

    (“uma presença humanizante. Coisa em que muito falha a nossa medicina”)

    Pois eu disse:

    “Chega-se a um ponto mais tarde ou mais cedo em que o papel do médico se esgotou, então para não restar a solidão ou a solidão de um final que se aproxima e que é cada vez mais devido a vida social existente.”

    Bem , eu concordo com a frase “ a cabeceira de um doente deve estar um médico” e explico porque eu penso assim. Sendo a doença um mal e sendo os médicos especialistas no combate a esse mal, quem mais faz sentido que la esteja? É por isso lógico que o tratamento desse mal incumba a esses especialsitas dessa área.

    Mas concordo e discordo dessa mesma frase, apesar de parecer contraditório. Concordo no sentido de que todo o doente em principio deve ter um acompanhamento médico, mas discordo se este sentido extravasar para além do estritamente médico, da ciência médica, do campo profissional. Então eu diria que a acabeceira de um doente deve estar um acompanhante também, a relação médico doente é uma relação do ponto de vista profissional e terapêutica, a do acompanhante será para além deste ponto de vista , será humanizante coisa que os médicos não podem fazer devido as múltiplas tarefas e doentes a tratar, mais a frente posso tentar dar o meu ponto de vista, e são questões de longo prazo, doentes de longo prazo, e não casos como um comentador aqui frisou mandem vir o INEM com suporte de vida avançado, isto não tem nada a ver com o que eu digo

    Mas por isso mesmo é que eu conheço casos de sacerdotes, ligas de amigos e outros que passam tardes inteiras em hospitais, em enfermarias, ouvindo os doentes conversando com eles etc. os médicos não podem fazer isto e mais defrontam-se com verdadeiros dramas humanos quando a sua missão do ponto de vista clinico tem sucesso. Há pessoas que vivem na mais completa solidão por impossibilidade da familia tomar conta, por estar longe etc etc. Enfim por multiplas situaçoes da vida actual que fazem com que estes doentes pós alta, muitas vezes não podendo continuar no hospital não tenham quem tome conta deles. Estão se a criar redes de apoio mas mesmo assim há autênticos dramas. Muitos preferem continuar internados mesmo sabendo que não podem, fazem tudo junto das assistentes sociais para ver se conseguem atrasar a alta.

    Isto levanta outra questão que entronca na primeira a desumanização da medicina e sua rehumanização podera se dizer que os médicos são desumanos e em que aspecto para os doentes? Quando nos referimos a isto temos que nos cingir aos aspectos profissionais de contacto medico doente. Serão os médicos profissionais competentes, simpacticos ,atenciosos e zelosos na sua relação com o doente. Temos que separar os aspectos da personalidade dos profissionais, nem todos somos simpáticos e atenciosos, mas não quer dizer que sejamos desumanos ou haja desumanidade.

    Donde vem então este conceito da desumanização que ja levou a literatura a escrever livros sobre o assunto. Fazendo um pequeno resumo historico talvez se compreenda melhor.

    O médico clássico cuja noção vinha da antiguidade era antes de tudo, um filósofo, um conhecedor das leis da natureza e da alma humana. Este foi o modelo, a concepção de médico e de medicina, que se perpetuou historicamente, não sem mudanças, rupturas e transformações no ocidente até bem pouco tempo atrás.

    A visão humanística da medicina dominou diversas gerações de médicos em todo o mundo. Durante esta época forjou-se a imagem romântica do médico sábio, conhecedor dos avanços científicos no campo da clínica, da patologia e da farmacologia mas também amante da literatura, da filosofia e da história. Homem culto, o médico romântico aliava seus conhecimentos científicos com os humanísticos e utilizava ambos na formulação dos seus diagnósticos e prognósticos.

    Conhecedor da alma humana e da cultura em que se inseria, já que invariavelmente andava muito próximo de seus pacientes como médico de família que era, esse respeitável doutor sabia que curar não era uma operação meramente técnica, mas fundamentalmente humano-científica, uma operação que envolvia elementos de caráter cultural e psicológico, essa substancial inserção do médico em seu meio sociocultural, fazia com que seu papel não se restringisse ao de simplesmente curar ou não as enfermidades. Ele era também aquele que, frente aos limites e impossibilidades médicas, sabia acompanhar o enfermo e seus familiares, ajudando-os no sofrimento e na preparação para a morte.

    No entanto esta visão começou a mudar com o progresso e acabou o tempo do joão semana por isso, Os enormes progressos alcançados graças às ciências físicas, químicas e biológicas, aliados aos desenvolvimentos tecnológicos, foram, cada vez mais, redirecionando a formação e a actuação do médico, modificando também sua escala de valores.

    Na medida em que o prestígio das ciências experimentais foi crescendo, o das ciências humanas esvanecia-se no meio médico, a medicina deixava de se apoiar nas ciências humanas para se sustentar essencialmente nas ciências exatas e biológicas.
    Todo esse processo de supervalorização das ciências biológicas, da super-especialização e dos meios tecnológicos que acompanharam o desenvolvimento da medicina nestas últimas décadas trouxe como conseqüência mais visível, a “desumanização” do médico.

    Um sujeito que foi se transformando cada vez mais em um técnico, um especialista, profundo conhecedor de exames complexos, precisos e especializados, porém, em muitos casos, ignorante dos aspectos humanos presentes no paciente que assiste. E isso, não apenas por força das exigências de uma formação cada vez mais especializada, mas também em função das transformações nas condições sociais de trabalho que tenderam a proletarizar o médico, restringindo barbaramente a disponibilidade deste para o contato com o paciente, assim como para a reflexão e a formação mais abrangente.

    Esses dilemas éticos de relação, entretanto, são apenas uma parte importantíssima, sem dúvida, porém não exclusiva desta questão, esta a minha visão da evolução e da concordancia que a cabeça do doente deve estar um médico enquanto o doente precisar de um médico.

    Como eu diria novamente cada coisa no seu devido tempo. Uns confortam e tratam do fisico, do corpo. Outros confortam e tratam do espirito, da alma. Há quem precise e isto não precisa de ter compartimentos estanques

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  10. Meu caro anónimo(a),

    muito obrigada pela sua resposta esclarecedora.

    Não vou falar muito, ou melhor, vou dizer que concordo consigo.

    Hoje não é grande dia para eu falar destas coisas, e, sobretudo, do SNS.

    A ideia do meu post, era salientar que, ao contrário do que diz Nietzsche, no tratamento de um doente tanto o médico como o padre têm o seu lugar. Creio que concordamos nisto. Desde que o doente o deseje, claro.

    Não vou dizer que o Nietzsche está fora da razão, olhando para muitas formas de então e de hoje, do "ser padre". E da crendice ilusória em que muitas pessoas se envolvem. Mas não estamos aqui a particularizar.

    Muito obrigada,
    Abraço

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